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12" VF

PODERJUDICIARIO DA UNIÃO
SEÇÃO JUDICIÁRIA DO DISTRITO FEDERAL
l 2 a VARA

PROCESSO N°: 1 2 3 S 89.2018.4.01.3400


CLASSE 13101: AÇÃO PENAL
RÉUS: MARUSKA LIMA DE SOUSA HOLANDA E OUTROS

DECISÃO

1. Cuida-se de ação penal instaurada em desfavor de MARUSKA LIMA DE

SOUSA HOLANDA, NILSON MARTORELLI, ALBERTO NOLLI e FERNANDO MÁRCIO QUEIROZ

em razão da suposta prática das condutas tipificadas no artigo 288 do Código Penal,

artigo 1° da Lei 9.613/98, artigo 2°, §4°, II, da Lei nr. 12.850/2013, artigo 90 da Lei

8.666/93, artigo 31 7 c/c o §1°, do Código Penal; artigo 333 c/c o §1°, do Código Penal,

na forma do artigo 71, todos na forma do artigo 69 do Código Penal Brasileiro.

2. A denúncia foi recebida em 20.04.201 8.

3. Em resposta à acusação, ALBERTO NOLLI TEIXEIRA, por intermédio de

defensor constituído, aduz preliminar de inépcia da denúncia em razão da ausência de

descrição das condutas. Afirma que a denúncia imputa ao acusado o crime de lavagem de

dinheiro sem, contudo, narrar os fatos alusivos à conduta imputada. Alega a inexistência

de menção ao nome de ALBERTO NOLLI TEIXEIRA quanto ao crime de lavagem de dinheiro

no tópico relativo à adequação típica das condutas. Aduz a impossibilidade de

combinação entre os crimes de formação de quadrilha e de organização criminosa. Alega

a impossibilidade de imputação do crime de organização criminosa ao acusado uma vez


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que o delito supostamente perpetrado teria ocorrido em meados de 2008. Aduz

preliminar de ausência de justa causa para o crime de organização criminosa visto que a

denúncia está amparada apenas em declarações de colaboradores e lenientes. Afirma que

o Ministério Público Federal imputou os crimes de corrupção ativa e fraude à licitação com

base em uma mesma conduta. Alega a ausência de descrição do crime de corrupção ativa

na peça exordial. A defesa arrolou testemunhas (fl. 92)

4. Em resposta à acusação, FERNANDO MÁRCIO QUEIROZ, por intermédio

de defensor constituído, suscita preliminar de inépcia da inicial em razão da ausência de

descrição das condutas. Alega deficiência na narrativa fatica apresentada pelo Ministério

Público quanto aos crimes imputados ao acusado. Refere, quanto ao crime de lavagem de

dinheiro, que a denúncia não apresenta qualquer elemento corroborativo das declarações

do leniente. Aponta a dupla valoração do repasse de valores para fins de caracterização

da corrupção ativa e do crime de lavagem de dinheiro. A defesa arrolou testemunhas (fl.

92/2-v).

5. Em resposta à acusação, MARUSKA LIMA DE SOUZA HOLANDA aduz

preliminar de necessidade de aplicação do disposto no art. 5 1 3 e seguintes do CPP visto

que é servidora concursada há mais de 20 anos. Alega não ser possível conferir validade

absoluta às declarações de colaboradores e lenientes. Afirma que embora a colaboração

premiada se constitua ferramenta eficaz no combate à criminalidade, o Poder Judiciário

não pode compactuar com a utilização indevida de acordos de delação e leniência

baseados em versões inverossímeis. No mérito, diferiu as alegações para o momento das

alegações finais. A defesa arrolou testemunhas (fls. l 05/1 06).

6. Em resposta à acusação, NILSON MARTORELLI aduz preliminares de

inobservância do procedimento previsto no artigo 514 do CPP, ausência de justa causa e

inépcia da inicial. Alega a insuficiência de indícios mínimos de autoria e materialidade na


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peça acusatória. No mérito, aduz o descompasso entre a descrição dos fatos e os

elementos de prova colhidos durante a investigação. Afirma que o Ministério Público

Federal atribuiu ao acusado de forma genérica o crime de fraude à licitação sem atentar

para o fato de que o acusado não trabalhava na NOVACAP no período referente ao

certame licitatório. Aduz que a participação do acusado, considerando o contexto fático

da denúncia, se restringe tão somente à assinatura do Termo de Apostilamento ao

Contrato ASJUR/PRES - n. 523/2010 na condição de Presidente da NOVACAP. Alega a

incongruência do depoimento do leniente Rodrigo Leite vez que em um primeiro

momento afirmou que a Andrade Cutierrez teria feito o pagamento de metade da suposta

propina enquanto a Via Engenharia teria arcado com a outra parte. Num segundo

momento, narra que a AC teria efetuado o pagamento de apenas 20%, e o restante, de

responsabilidade da VIA. Quanto à suposta entrega pessoal da vantagem indevida, o

leniente teria informado local distinto da residência do acusado. Alega que as planilhas

apreendidas na residência do acusado não representam o recebimento de valores

indevidos, mas retratam simulações de investimentos do acusado. Afirma, quanto à

suposta vantagem indevida consistente na contratação de buffet para comemoração do

dia das mães, que não se trata de vantagem indevida, mas de um serviço prestado

diretamente à NOVACAP. Conclui que o pagamento de R$4.000,00(quatro mil reais) não

configura dano ao erário e tampouco configura fato típico. Alega a inexistência dos

crimes imputados à vista da ausência de demonstração concreta da participação do

acusado na suposta fraude ao contrato. Afirma que o acusado foi nomeado para a

presidência da NOVACAP quando 65% das obras já estavam prontas. Aduz que a acusação

é deficiente no tocante à solicitação/recebimento de vantagem ilícita tendo em vista que

não está corroborada por indícios concretos. Alega a impossibilidade de se imputar os

crimes de associação criminosa e organização criminosa em concurso material uma vez


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que o Ministério Público não indicou a forma de relação do acusado com os demais

integrantes da suposta organização. Assere, quanto à imputação do crime de lavagem de

dinheiro, que ainda que se considere o recebimento dos valores oriundos da VIA

Engenharia, tal fato configuraria apenas meio de recepção de vantagens indevidas, e não

um meio de dar aparência lícita a valores ilícitos. A defesa arrolou testemunhas (fl. 1 38)

7. É o relato necessário.

FUNDAMENTO E DECIDO

8. De início, em relação à imputação ao réu ALBERTO NOLI, da prática do

crime tipificado no artigo 90 da Lei n. 8.666/93, forçoso reconhecer a ocorrência da

extinção da punibilidade em razão da prescrição da pretensão punitiva estatal tendo em

visa o transcurso de mais de OS(oito) anos entre a data dos fatos (Concorrência

001 /2009) e a data do recebimento da denúncia.

9. Ressalto que o prazo prescricional para o crime em comento tem início

a partir do ajuste/conluio entre os licitantes porquanto prescinde do efetivo prejuízo para

a sua configuração.

l 0. Por oportuno, destaco:

*(,..)
2. Nos termos da jurisprudência deste Sodalício, "diversamente do que ocorre

com o delito previsto no art. 89 da Lei n. 8.666/1993, o art. 90 desta lei não

demanda a ocorrência de prejuízo económico para o poder público, haja vista

que o dano se revela pela simples quebra do caráter competitivo entre os

licitantes interessados em contratar, ocasionada com a frustração ou com a

fraude no procedimento licitatório. De fato, a ideia de vinculação de prejuízo

Administração Pública é irrelevante, na medida em que o crime pode se

perfectibilizar mesmo que haja benefício financeiro da Administração

Pública." (REsp 1484415/DF, Rei. Ministro ROGÉRIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA


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TURMAJulgado em 15/12/2015, DJe 22/02/2016), não havendo que se falar

em necessidade de comprovação de prejuízo à Administração ou mesmo na

obtenção de lucro pelos agentes." (STJ: HC 341.341/MG). No mesmo

sentido: AgRg no RESP 1 60431 8/SE, AgRgResp n. l 050984/AP.

"PENAL. PROCESSO PENAL. FRAUDE EM PROCEDIMENTO LICITATÓRIO. CRIME

FORMAL. DENÚNCIA APTA. DOSIMETRIA. AUTORIA E MATERIALIDADE

COMPROVADAS. APELAÇÕES DESPROVIDAS. 1. Não cabe falar, em acerto, em

inépcia da denúncia depois da condenação, que faz supor que a peça

cumpriu a sua finalidade, tanto que o processo chegou ao seu fim natural.

Inepta seria a peça cujo vício de narrativa fosse tão grave que impossibilitasse

a defesa dos acusados ou mesmo a própria prestação jurisdicional. Na

espécie, a denúncia atende aos requisitos do art. 41 - CPP, embora com as

naturais dificuldades em relação aos crimes da lei de licitações, como no

caso. 2. O delito previsto no art. 90 da Lei 8.666/1993 é formal, não exigindo

para a sua consumação a efetiva ocorrência do resultado. Não há como

afastar o prejuízo ao erário, em razão da fraude ao procedimento licitatório,

tendo em vista que, o objetivo da licitação é exatamente propiciar à

administração contratar o serviço pelo menor preço. 3. Os acusados, de

forma livre e consciente, agiram para fraudar o procedimento licitatório, não

havendo prova alguma de que teriam praticado o fato induzidos pelo parecer

do procurador municipal, na forma como individualmente demonstrada pela

sentença, exaustivamente transcrita, sendo insuficientes as razões do recurso

para afastar as do decreto condenatório. 4. As chamadas circunstâncias

judiciais, estabelecidas no art. 59 do Código Penal, matéria do primeiro

exame do julgador na fixação da pena, traduzem fatos exteriores ao tipo

penal. Assim, está correia a sentença quando concluiu que a culpabilidade


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dos agentes não extrapola aquela inerente à gravidade do próprio crime

praticado, e que os motivos revelam-se ordinários nesta espécie de delito,

não havendo ajustes a considerar. 5. Apelações desprovidas." (TRF1: AP n.

2622-1 1.2011.4.01.3813).

11. Esclareço que em relação à ré MARUSKA LIMA DE SOUSA HOLANDA,

não há que se falar em prescrição quanto ao crime acima referido porquanto, por ocupar

função de direção junto à TERRACAP, em tese, incide a causa de aumento prevista no

artigo 327, §2°, do Código Penal (STF: Inquérito n. 2.606/MT, Plenário).

l 2. Diante do exposto, DECLARO EXTINTA A PUNIBILIDADE de ALBERTO

NOLLI TEIXEIRA, relativamente à imputação do crime tipificado no artigo 90 da Lei

8.666/93, em razão da prescrição da pretensão punitiva do Estado, em conformidade

com o disposto nos artigos l 09, inciso IV e 117, inciso l do Código Penal e artigo 61

do Código de Processo Penal.

13. Quanto à preliminar de inobservância do rito procedimental previsto

no artigo 514 do CPP, ressente-se de amparo legal. Isso porque a defesa preliminar

prevista no dispositivo citado não é indispensável quando a acusação é instruída com

inquérito policial (Súmula 330/STJ). Ademais, a nulidade daí advinda seria meramente

relativa, sendo necessária a demonstração do efetivo prejuízo para ser declarada,

especialmente quando o rito processual específico prevê defesa escrita após o

oferecimento da denúncia, como se verifica na hipótese dos autos (art. 397, CPP).

14. No que se refere à alegação de inépcia da inicial quanto à imputação


dos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção, carece de amparo legal. A denúncia

narrou e descreveu condutas que, ao menos em tese, consubstanciam os tipos penais

imputados. A verificação da efetiva prática de condutas tendentes a acobertar a origem


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ilícita do dinheiro, com o propósito de emprestar-lhe a aparência de licitude, depende de

provas e dever ser objeto da instrução no curso da ação penal.

l 5. Com efeito, a denúncia descreve os fatos imputados aos acusados de

modo objetivo e claro de forma a viabilizar a ampla defesa e o contraditório. É certo que

por se tratar de denúncia contendo múltiplos acusados e diversos crimes supostamente

praticados em concurso, não se exige a descrição pormenorizada das ações de cada um

dos envolvidos, o que deverá ser comprovado no curso da instrução criminal: "Admite-se

a denúncia geral, em casos de crimes com vários agentes e condutas ou que, por sua

própria natureza, devem ser praticados em concurso, quando não se puder, de pronto,

pormenorizar as ações de cada um dos envolvidos, sob pena de inviabilizar a acusação,

desde que os fatos narrados estejam suficientemente claros para garantir o amplo

exercício do direito de defesa. Precedentes do STJ." fHC n. 84.202/MC,DJ de

29/10/2007).

16. De igual modo, não prospera a alegação de ausência de justa causa

porquanto a denúncia baseia-se em documentos que dão suporte probatório mínimo ao

recebimento da denúncia. Nesse sentido, registro "No exame das condições da ação e/ou

da justa causa para o exercício da ação criminal, não se mostra imprescindível a obtenção

de um juízo de certeza acerca da autoria e da materialidade delitivas, indispensável

apenas em caso de eventual julgamento do mérito. Neste momento processual, cabe

exclusivamente indagar sobre a plausibilidade da pretensão acusatória" (STJ: AP n.

885/DF, Corte Especial, Dje de 1 0/1 2/201 8).

17. Carece de verossimilhança a alegação de que a denúncia está

amparada apenas em declarações de colaboradores e lenientes porquanto novos

elementos foram anexados aos autos por meio de investigação policial.


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18. Ainda que assim não fosse, na linha do julgado proferido nos autos

do Inquérito n. 3982, do Supremo Tribunal Federal, "o conteúdo dos depoimentos

colhidos em colaboração premiada não é prova por si só eficaz, tanto que descabe

condenação lastreada exclusivamente neles, nos termos do art. 4°, § 16, da Lei

12.850/2013. São suficientes, todavia, como indício de autoria para fins de recebimento

da denúncia (Inq 3.983, Rei. Min. TEORI ZAVASCKI, Tribunal Pleno, DJe de 12.05.2016)."

(STF: Inq 3982, 2a Turma, DJe 05-06-201 7).

19. Por fim, esclareço que em relação à adequação típica pretendida, no

que se refere à imputação dos crimes de quadrilha/associação criminosa e organização

criminosa, deverá ser realizada por ocasião da prolação da sentença, não sendo este o

momento oportuno para tanto.

20. No mais, não restaram configuradas as hipóteses conducentes à

absolvição sumária (artigo 397 do Código de Processo Penal). As defesas não trouxeram

aos autos quaisquer elementos capazes de infirmar o juízo preliminar de recebimento da

denúncia.

21. As demais questões levantadas, tal como postas pelas defesas,

constituem-se questões de mérito e como tais, no momento oportuno, serão apreciadas.

22. Destarte, designo para o dia 09 de setembro de 2019, às 14hOO, a

audiência para a oitiva das testemunhas/colaboradores/lenientes António Raimundo

Comes Silva Filho, Fabrício Souza Baptista, Murilo Santos e Silva e Vanusa da Silva Pinto.

23. Designo, também, para o dia 10 de setembro de 2019, às 14hOO, a

audiência para a oitiva das testemunhas/colaboradores/lenientes, André Luiz Silvestre,

Rodrigo Ferreira Lopes, Rodrigo Leite Vieira e Gustavo Rocha Alves de Oliveira.

24. Expedir cartas precatórias para intimação e oitiva das

testemunhas/colaboradores/lenientes Pedro Afonso de Oliveira Almeida, Rogério Nora de


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Sá, Clóvis Renato Numa Peixoto Primo, Flavio Gomes Machado Filho, Carlos José de Souza,

Roberto Xavier de Castro Júnior, Ricardo Curti Júnior, Eduardo Alcides Zanelatto, João

Marcos de Almeida da Fonseca, Marcus Vinícius Dutra Moresi e Igor Andrade Fonseca

Homem mediante videoconferência a ser agendada com este Juízo Deprecante.

25. Intimar a defesa do acusado NILSON MARTORELLI para fornecer o

endereço da testemunha Daniela Crosara Gustin, ou substituí-la, no prazo de cinco dias,

sob pena de desistência de sua oitiva.

26. Cientificar o Ministério Público Federal.

27. Registrar. Intimar.

Brasília/DF, 31 de maio de 2019.

POLLYANNIA KELLY MACIEL MEDEIROS MARTINS ALVES


Juíza Federal Substituta