Você está na página 1de 486

Supremo Tribunal Federal

Ementa e Acórdão

Inteiro Teor do Acórdão - Página 1 de 486 3413

29/05/2018 SEGUNDA TURMA

AÇÃO PENAL 996 DISTRITO FEDERAL

RELATOR : MIN. EDSON FACHIN


REVISOR : MIN. CELSO DE MELLO
AUTOR(A/S)(ES) : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA
ASSIST.(S) : PETRÓLEO BRASILEIRO S/A - PETROBRAS
ADV.(A/S) : TALES DAVID MACEDO E OUTRO(A/S)
RÉU(É)(S) : NELSON MEURER
ADV.(A/S) : MICHEL SALIBA OLIVEIRA
ADV.(A/S) : RICARDO LIMA PINHEIRO DE SOUZA
RÉU(É)(S) : NELSON MEURER JÚNIOR
ADV.(A/S) : MARINA DE ALMEIDA VIANA
ADV.(A/S) : GABRIELA GUIMARÃES PEIXOTO
ADV.(A/S) : PRISCILA NEVES MENDES
ADV.(A/S) : MICHEL SALIBA OLIVEIRA
RÉU(É)(S) : CRISTIANO AUGUSTO MEURER
ADV.(A/S) : GABRIELA GUIMARÃES PEIXOTO
ADV.(A/S) : RICARDO LIMA PINHEIRO DE SOUZA
ADV.(A/S) : MICHEL SALIBA OLIVEIRA

EMENTA: AÇÃO PENAL. CORRUPÇÃO PASSIVA E LAVAGEM DE


DINHEIRO. 1. PRAZO SUCESSIVO À ACUSAÇÃO E ASSISTENTE
PARA ALEGAÇÕES FINAIS. PROCEDIMENTO NECESSÁRIO EM
RAZÃO DA PRERROGATIVA DE INTIMAÇÃO PESSOAL DO
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. QUEBRA DO TRATAMENTO
ISONÔMICO NÃO CONFIGURADO. 2. SUBSTITUIÇÃO DE
TESTEMUNHAS. INDEFERIMENTO. IRRESIGNAÇÃO ANALISADA
EM AGRAVO REGIMENTAL. PRECLUSÃO. 3. PROVA PERICIAL.
PRETENSÃO DEDUZIDA A DESTEMPO. INDEFERIMENTO.
IMPRESCINDIBILIDADE NÃO DEMONSTRADA. CERCEAMENTO DE
DEFESA INOCORRENTE. AGRAVO REGIMENTAL PREJUDICADO. 4.
DILIGÊNCIAS COMPLEMENTARES. OITIVA DE TESTEMUNHAS
REFERIDAS. PLEITO INDEFERIDO. SIMPLES MENÇÕES A NOMES.
NULIDADE NÃO CONFIGURADA. AGRAVO REGIMENTAL

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981837.
Supremo Tribunal Federal
Ementa e Acórdão

Inteiro Teor do Acórdão - Página 2 de 486 3414


AP 996 / DF

PREJUDICADO. 5. PRETENSÃO DE JULGAMENTO CONJUNTO


DESTES AUTOS COM OS INQUÉRITOS 3.989 E 3.980. ALEGADA
CONEXIDADE. DESNECESSIDADE. APLICAÇÃO DO ART. 80 DO
CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. 6. TESTEMUNHA DEFENSIVA
CONTRADITADA. QUEBRA DA PARIDADE DE ARMAS. PESSOA
DENUNCIADA POR FATOS SEMELHANTES NO INQUÉRITO 3.980.
INTERESSE NOTÓRIO NA RESOLUÇÃO DA CAUSA PENAL. VÍCIO
NÃO CONFIGURADO. 7. CORRUPÇÃO PASSIVA. DEMONSTRAÇÃO
DE TODOS OS ELEMENTOS DO TIPO PENAL NAS OPORTUNIDADES
ESPECIFICADAS. ATO DE OFÍCIO. ATUAÇÃO PARLAMENTAR E
PARTIDÁRIA. APOIO POLÍTICO À NOMEAÇÃO OU À
MANUTENÇÃO DE AGENTE EM CARGO PÚBLICO. UTILIZAÇÃO DE
TAL PROCEDER PARA A OBTENÇÃO DE VANTAGENS
PECUNIÁRIAS INDEVIDAS. CONDENAÇÃO. 8. LAVAGEM DE
CAPITAIS. 8.1. RECEBIMENTO DE DINHEIRO EM ESPÉCIE.
ATIPICIDADE. 8.2. VANTAGEM INDEVIDA DEPOSITADA DE FORMA
PULVERIZADA EM CONTAS-CORRENTES. CONDUTA TÍPICA. 8.3.
DECLARAÇÃO À AUTORIDADE FAZENDÁRIA DE
DISPONIBILIDADE MONETÁRIA INCOMPATÍVEL COM
RENDIMENTOS REGULARMENTE PERCEBIDOS. CONFIGURAÇÃO
DO DELITO. 8.4. DOAÇÃO ELEITORAL. FORMA DE
ADIMPLEMENTO DE VANTAGEM INDEVIDA. INFRAÇÃO PENAL
DE BRANQUEAMENTO CARACTERIZADA. CONDENAÇÃO.
1. A disponibilização de prazos distintos e sucessivos à
Procuradoria-Geral da República e à assistente da acusação para a oferta
de alegações finais foi motivada pela prerrogativa prevista em favor da
primeira no art. 18, II, h, da LC 75/1993, circunstância que impede o
reconhecimento da quebra de tratamento isonômico no caso em análise,
diante do prazo comum concedido aos réus.
2. O assentado cerceamento de defesa, em decorrência do
indeferimento do pleito de substituição de testemunhas, foi objeto de
deliberação pela Segunda Turma, por ocasião do julgamento de agravo
regimental em 8.8.2017, o que evidencia a preclusão em relação ao tema,

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981837.
Supremo Tribunal Federal
Ementa e Acórdão

Inteiro Teor do Acórdão - Página 3 de 486 3415


AP 996 / DF

diante da inexistência de qualquer fato superveniente que autorize a sua


reanálise.
3. Nos termos do art. 396-A do Código de Processo Penal, a resposta
à acusação é o momento processual oportuno para a defesa especificar
todas as provas pretendidas. O requerimento de produção probatória,
além de específico, deve ser acompanhado de demonstração da sua
relevância à resolução do mérito da ação penal, viabilizando o controle a
ser exercido pela autoridade judiciária, conforme preceitua o art. 400, § 1º,
do Estatuto Processual Penal.
Revela-se, portanto, extemporâneo e inadequado o pleito de
produção de prova pericial especificado somente após esgotado o prazo
para a oferta da resposta à acusação, razão pela qual o seu indeferimento
não gera cerceamento de defesa, mormente quando ainda evidenciada a
prescindibilidade dos exames ao deslinde do mérito da ação penal.
Agravo regimental prejudicado.
4. A fase prevista no art. 10 da Lei n. 8.038/1990 destina-se à
realização de diligências cuja imprescindibilidade tenha como causa fato
ocorrido no curso da instrução criminal. A mera menção a nomes de
pessoas não arroladas inicialmente como testemunhas não autoriza suas
oitivas nesse novo momento processual, sem que fique caracterizada
violação ao limite previsto no art. 401, caput, do Código de Processo
Penal. Agravo regimental prejudicado.
5. Ainda que haja conexão intersubjetiva entre a presente ação penal
e o objeto dos Inquéritos 3.980 e 3.989, o art. 80 do Código de Processo
Penal faculta a separação de causas aparentemente conexas, providência
recomendável no caso em análise, quer pela pluralidade de implicados
nos procedimentos relacionados, quer pela complexidade dos fatos em
apuração.
6. Figurando uma das testemunhas defensivas como denunciado em
inquérito em que se apuram fatos semelhantes aos narrados nesta
incoativa, escorreita a sua contradita formulada pelo órgão acusatório em
audiência, nos termos do art. 405, § 3º, IV, do Código de Processo Civil c/c
art. 3º do Código de Processo Penal, diante do seu notório interesse no

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981837.
Supremo Tribunal Federal
Ementa e Acórdão

Inteiro Teor do Acórdão - Página 4 de 486 3416


AP 996 / DF

deslinde da causa, circunstância que rechaça eventual quebra da paridade


de armas na relação processual.
7. A configuração constitucional do regime presidencialista brasileiro
confere aos parlamentares um espectro de poder que vai além da mera
deliberação a respeito de atos legislativos. A participação efetiva de
parlamentares nas decisões de governo, indicando quadros para o
preenchimento de cargos no âmbito do poder executivo, é própria da
dinâmica do referido regime, que exige uma coalizão para viabilizar a
governabilidade. Tal dinâmica não é, em si, espúria, e pode possibilitar,
quando a coalizão é fundada em consensos principiológicos éticos, numa
participação mais plural na tomada de decisões usualmente a cargo do
Poder Executivo. Todavia, quando o poder do parlamentar de indicar
alguém para um determinado cargo, ou de lhe dar sustentação política
para nele permanecer, é exercido de forma desviada, voltado à percepção
de vantagens indevidas, há evidente mercadejamento da função pública.
Na espécie, o conjunto probatório é solido e demonstra o nexo causal
entre o apoio político envidado por Nelson Meurer, na qualidade de
integrante da cúpula do Partido Progressista (PP), para a indicação e
manutenção de Paulo Roberto Costa na Diretoria de Abastecimento da
Petrobras S/A, e o recebimento, de forma ordinária, de vantagens
pecuniárias indevidas, configurando, nas oportunidades especificadas, de
forma isolada ou com o auxílio de Nelson Meurer Júnior e Cristiano
Augusto Meurer, o crime de corrupção passiva.
7.1. Embora não haja óbice à configuração do delito de corrupção
passiva nos casos em que a vantagem indevida é adimplida mediante
doação eleitoral, na hipótese o conjunto probatório não autoriza o juízo
condenatório. Vencidos, no ponto, o Relator e o Revisor.
8. Verificada a autonomia entre o ato de recebimento de vantagem
indevida oriunda do delito de corrupção passiva e a posterior ação para
ocultar ou dissimular a sua origem, possível é a configuração do crime de
lavagem de capitais.
8.1. Na esteira de entendimento firmado pelo Plenário do Supremo
Tribunal Federal por ocasião do julgamento da AP 470, se mesmo por

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981837.
Supremo Tribunal Federal
Ementa e Acórdão

Inteiro Teor do Acórdão - Página 5 de 486 3417


AP 996 / DF

interposta pessoa o mero recebimento da vantagem decorrente da


mercancia da função pública não é conduta apta a configurar o delito de
lavagem de capitais, tal conclusão, por uma questão lógica, merece incidir
sobre a conduta do próprio agente público que acolhe a remuneração
indevida. Absolvição dos denunciados, nos termos do art. 386, III, do
Código de Processo Penal.
8.2. O depósito fracionado de valores em conta-corrente, em quantias
que não atingem os limites estabelecidos pelas autoridades monetárias à
comunicação compulsória dessas operações, apresenta-se como meio
idôneo para a consumação do crime de lavagem de capitais. No caso, tal
prática foi cabalmente demonstrada pelo conjunto probatório amealhado
aos autos.
8.3. A declaração, em ajustes anuais de imposto de renda de pessoa
física, de disponibilidade monetária incompatível com os rendimentos
regularmente percebidos pelo agente, é conduta apta a configurar o delito
de lavagem de capitais.
Na situação em exame, as informações extraídas das declarações de
imposto de renda fornecidas tanto pelo acusado como pela Receita
Federal do Brasil, quando comparadas com os dados obtidos mediante a
quebra do seu sigilo bancário, revelam movimentações financeiras muito
superiores aos rendimentos líquidos declarados nos anos de 2010 a 2014,
os quais também se mostram incompatíveis com a expressiva quantia de
dinheiro em espécie declarada à autoridade fazendária.
8.4. Embora não haja óbice à configuração do delito de lavagem de
capitais mediante doação eleitoral simulada, na hipótese o conjunto
probatório não autoriza o juízo condenatório. Vencidos, no ponto, o
Relator e o Revisor.
9. Denúncia julgada procedente, em parte, para: (a) condenar o
denunciado Nelson Meurer como incurso nas sanções do art. 317, § 1º, do
Código Penal, por 30 (trinta) vezes, bem como nas sanções do art. 1º,
caput, da Lei n. 9.613/1998, por 7 (sete) vezes; (b) condenar o denunciado
Nelson Meurer Júnior como incurso nas sanções do art. 317, § 1º, do
Código Penal, por 5 (cinco) vezes, na forma do art. 29 do mesmo diploma

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981837.
Supremo Tribunal Federal
Ementa e Acórdão

Inteiro Teor do Acórdão - Página 6 de 486 3418


AP 996 / DF

legal; (c) condenar o denunciado Cristiano Augusto Meurer como incurso


nas sanções do art. 317, § 1º, do Código Penal, por 1 (uma) vez, na forma
do art. 29 do mesmo diploma legal; (d) absolver o denunciado Nelson
Meurer no tocante à alegada participação em todos os crimes de
corrupção passiva praticados no âmbito da Diretoria de Abastecimento
da Petrobras S/A, por Paulo Roberto Costa, com fundamento no art. 386,
VII, do Código de Processo Penal; (e) absolver o denunciado Nelson
Meurer no tocante à participação em todos os delitos de lavagem de
dinheiro praticados por Alberto Youssef, em decorrência dos contratos
celebrados por empresas cartelizadas no âmbito da Diretoria de
Abastecimento da Petrobras S/A, com fundamento no art. 386, VII, do
Código de Processo Penal; e (f) absolver todos os denunciados em relação
aos crimes de lavagem de capitais consubstanciados nos recebimentos de
dinheiro em espécie, oriundos dos pagamentos ordinários e
extraordinários de vantagens indevidas, com fundamento no art. 386, III,
do Código de Processo Penal.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da


Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, sob a Presidência do
Senhor Ministro Edson Fachin, na conformidade da ata de julgamento e
das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, em rejeitar as
preliminares. Quanto ao mérito, após o voto do Relator, que julgava
procedente em parte a denúncia para condenar o réu Nelson Meurer
como incurso nas sanções do art. 317, § 1º do Código Penal, por trinta e
uma vezes, bem como nas sanções do art. 1º, caput, da Lei nº 9.613/98, por
oito vezes, absolvendo-o das demais acusações, e ainda, por condenar o
réu Nelson Meurer Júnior como incurso nas sanções do art. 317, § 1º do
Código Penal por cinco vezes na forma do artigo 29 do mesmo diploma

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981837.
Supremo Tribunal Federal
Ementa e Acórdão

Inteiro Teor do Acórdão - Página 7 de 486 3419


AP 996 / DF

legal, absolvendo-o das demais acusações, e para condenar o réu


Cristiano Augusto Meurer como incurso nas sanções do art. 317, § 1º do
Código Penal por uma vez, na forma do artigo 29 do mesmo diploma
legal, também o absolvendo das demais acusações, no que foi
acompanhado integralmente pelo Ministro Revisor. Presidência do
Ministro Edson Fachin. 2ª Turma, 22.5.2018.
Decisão: Prosseguindo no julgamento do feito, quanto ao mérito, a
Turma, por maioria, julgou procedente em parte a denúncia para i)
condenar o réu Nelson Meurer como incurso nas sanções do art. 317, § 1º,
do Código Penal (corrupção passiva), por trinta vezes, vencidos, nesse
ponto, os Ministros Relator e Revisor que o condenavam também pelo
crime de corrupção passiva decorrente do fato referente à doação eleitoral
recebida da sociedade empresária Queiroz Galvão, vencido também o
Ministro Ricardo Lewandowski que o condenava pela prática de 18
delitos de corrupção passiva circunscritos ao tempo em que Nelson
Meurer exercia a liderança do Partido Progressista na Câmara dos
Deputados; ii) para condenar o denunciado Nelson Meurer Júnior como
incurso nas sanções do art. 317, § 1º, do Código Penal (corrupção passiva),
por 5 vezes, na forma do art. 29 da Lei Penal, vencido, nesse ponto, o
Ministro Ricardo Lewandowski, que o condenava por 3 delitos à luz do
mesmo dispositivo legal citado; iii) condenar o réu Cristiano Augusto
Meurer como incurso nas sanções do art. 317, § 1º, do Código Penal
(corrupção passiva), por uma vez, vencido nesse ponto, o Ministro
Ricardo Lewandowski, que o absolvia; iv) condenar Nelson Meurer como
incurso nas sanções do art. 1º, caput, da Lei nº 9.613 por sete vezes,
vencidos os Ministros Relator e Revisor, no ponto, pois o condenavam
também pela lavagem de capitais em decorrência de doação eleitoral; e,
por unanimidade, para i) absolver Nelson Meurer no tocante à
participação em todos os crimes de corrupção passiva praticados no
âmbito da PETROBRAS por Paulo Roberto Costa, com fundamento no
inc. VII do art. 386 do Código de Processo Penal; ii) absolver Nelson
Meurer no que tange à participação em todos os crimes de lavagem de
dinheiro praticados por Alberto Youssef em decorrência de contratos

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981837.
Supremo Tribunal Federal
Ementa e Acórdão

Inteiro Teor do Acórdão - Página 8 de 486 3420


AP 996 / DF

celebrados por empresas cartelizadas no âmbito da Diretoria de


Abastecimento da PETROBRAS, igualmente nos termos do inciso VII do
art. 386 do Código de Processo Penal; iii) absolver Nelson Meurer, Nelson
Meurer Junior e Cristiano Augusto Meurer das imputações relativas aos
crimes de lavagem de capitais consubstanciados nos recebimentos em
dinheiro em espécie com fundamento no inc. III, art. 386, do Código de
Processo Penal. Quanto à dosimetria da pena, por unanimidade, fixou,
para Nelson Meurer, a pena de 13 anos, 9 meses e 10 dias de reclusão em
regime inicial fechado, e o pagamento de 122 dias-multa, este fixado em 3
salários mínimos no valor vigente à época do último fato devidamente
corrigido por ocasião do pagamento; para Nelson Meurer Junior, a pena
de 4 anos, 9 meses e 18 dias de reclusão em regime inicial semi-aberto, e o
pagamento de 31 dias-multa, este fixado em 2 salários mínimos no valor
vigente à época do último fato, devidamente corrigido por ocasião do
pagamento; e para Cristiano Augusto Meurer, a pena de 3 anos e 4 meses
de reclusão e o pagamento de 20 dias-multa, declarando-se extinta a
punibilidade, pela prescrição, com fundamento no inciso IV do artigo 107
do Código Penal, vencido o Ministro Ricardo Lewandowski, que o
absolvia. Em relação aos efeitos da condenação, quanto aos danos
materiais, a Turma, por unanimidade, fixou como valor mínimo
indenizatório, em favor da PETROBRAS, a quantia de 5 milhões de reais,
corrigidos monetariamente a partir da proclamação do julgamento e com
juros de mora a partir do trânsito em julgado; quanto aos danos morais
coletivos, por maioria, indeferiu o pedido, nos termos do voto do
Ministro Dias Toffoli, vencidos os Ministros Relator e Revisor; quanto à
perda de bens, por unanimidade, determinou a perda em favor da União
dos bens direitos e valores objeto em relação aos quais foram os réus
condenados, ressalvado o direito de lesado ou terceiro de boa-fé (inc. I,
art. 7º, da Lei 9.613/98); quanto à interdição para o exercício de cargo ou
função pública (inc. II do art. 7º da Lei 9.613/98), também por
unanimidade, determinou a interdição de Nelson Meurer para o exercício
de cargo ou função pública de qualquer natureza e de diretor ou membro
de Conselho de Administração ou de gerencia das pessoas jurídicas

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981837.
Supremo Tribunal Federal
Ementa e Acórdão

Inteiro Teor do Acórdão - Página 9 de 486 3421


AP 996 / DF

referidas no art. 9º dessa mesma lei 9.613/98 pelo dobro do tempo da pena
privativa de liberdade aplicada; e por fim, quanto à perda do mandato
parlamentar, a Turma, por maioria, deliberou que a perda do mandato
não é automática e nos termos da divergência inaugurada pelo Ministro
Dias Toffoli determinou, após o trânsito em julgado, oficiar-se à Câmara
dos Deputados, vencidos os Ministros Relator e Revisor. Presidência do
Ministro Edson Fachin. 2ª Turma, 29.5.2018.

Brasília, 29 de maio de 2018.

Ministro EDSON FACHIN


Relator

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981837.
Supremo Tribunal Federal
Relatório

Inteiro Teor do Acórdão - Página 10 de 486 3422

AÇÃO PENAL 996 DISTRITO FEDERAL

RELATOR : MIN. EDSON FACHIN


REVISOR : MIN. CELSO DE MELLO
AUTOR(A/S)(ES) : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA
ASSIST.(S) : PETRÓLEO BRASILEIRO S/A - PETROBRAS
ADV.(A/S) : TALES DAVID MACEDO E OUTRO(A/S)
RÉU(É)(S) : NELSON MEURER
ADV.(A/S) : MICHEL SALIBA OLIVEIRA
ADV.(A/S) : RICARDO LIMA PINHEIRO DE SOUZA
RÉU(É)(S) : NELSON MEURER JÚNIOR
ADV.(A/S) : MARINA DE ALMEIDA VIANA
ADV.(A/S) : GABRIELA GUIMARÃES PEIXOTO
ADV.(A/S) : PRISCILA NEVES MENDES
ADV.(A/S) : MICHEL SALIBA OLIVEIRA
RÉU(É)(S) : CRISTIANO AUGUSTO MEURER
ADV.(A/S) : GABRIELA GUIMARÃES PEIXOTO
ADV.(A/S) : RICARDO LIMA PINHEIRO DE SOUZA
ADV.(A/S) : MICHEL SALIBA OLIVEIRA

RELATÓRIO

O SENHOR MINISTRO EDSON FACHIN (RELATOR): 1. Trata-se de ação


penal pública ajuizada pela Procuradoria-Geral da República em desfavor
do Deputado Federal Nelson Meurer, Nelson Meurer Júnior e Cristiano
Augusto Meurer, na qual lhes atribui a prática de delitos de corrupção
passiva majorada (art. 317, § 1º, c/c art. 327, § 2º, ambos do Código Penal),
bem como de crimes de lavagem de dinheiro (art. 1º, § 4º, da Lei n.
9.613/1998), na forma dos arts. 29 e 69 do Estatuto Repressor (fls. 867-970).
De acordo com a proposta acusatória, o Deputado Federal Nelson
Meurer, na qualidade de integrante da cúpula do Partido Progressista
(PP), entre os anos de 2006 e 2014, teria concorrido de forma dolosa e
decisiva para que Paulo Roberto Costa, então Diretor de Abastecimento
da Petrobras S/A e em razão do exercício desta função, solicitasse,
aceitasse promessa nesse sentido e recebesse, pelo menos 161 (cento e
sessenta e uma) vezes, para si e para o Partido Progressista, vantagens

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14245359.
Supremo Tribunal Federal
Relatório

Inteiro Teor do Acórdão - Página 11 de 486 3423


AP 996 / DF

indevidas no valor total de R$ 357.945.680,52 (trezentos e cinquenta e sete


milhões, novecentos e quarenta e cinco mil, seiscentos e oitenta reais e
cinquenta e dois centavos).
Parte desse valor, ao menos em 180 (cento e oitenta) vezes, teria sido
pago mediante contratos de prestação de serviços fictícios celebrados com
empresas ligadas a Alberto Youssef, tido como o gerenciador dos recursos
obtidos pelo Partido Progressista no âmbito da Diretoria de
Abastecimento da Petrobras, os quais somaram o valor de R$
62.146.567,80 (sessenta e dois milhões, cento e quarenta e seis mil,
quinhentos e sessenta e sete reais e oitenta centavos), como forma de
ocultar e dissimular a natureza, origem e movimentação da quantia,
proveniente da corrupção passiva, condutas para as quais o denunciado
Nelson Meurer também teria concorrido de forma dolosa e decisiva.
Conforme narra a incoativa, o denunciado Nelson Meurer teria,
ainda, de forma periódica e ordinária, solicitado, aceitado promessa nesse
sentido e recebido pelo menos R$ 29.700.000,00 (vinte e nove milhões e
setecentos mil reais), correspondentes a 99 (noventa e nove) repasses de
R$ 300.000,00 (trezentos mil reais) mensais, fruto do desvio de recursos
operado no âmbito da Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A.
Concorreram, em parte, para essas condutas os denunciados Nelson
Meurer Júnior e Cristiano Augusto Meurer.
Como forma de ocultar e dissimular a natureza, origem, localização,
disposição, movimentação e a propriedade, tais recursos foram (i)
recebidos em espécie, mediante entregas pessoais por agentes ligados a
Alberto Youssef em ao menos 8 (oito) oportunidades; (ii) recebidos em
espécie, mediante recursos repassados pelo Posto da Torre, localizado na
cidade de Brasília, em ao menos 4 (quatro) datas distintas; e (iii)
depositados em contas bancárias pessoais, de forma pulverizada e em 130
(cento e trinta) dias distintos, totalizando R$ 1.461.226,00 (um milhão,
quatrocentos e sessenta e um mil, duzentos e vinte e seis reais), como
forma de fracionar as operações e mesclar recursos de origem lícita e
ilícita. Para a mesma finalidade, o denunciado teria registrado, em
declarações anuais de ajuste de imposto de renda, a manutenção de

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14245359.
Supremo Tribunal Federal
Relatório

Inteiro Teor do Acórdão - Página 12 de 486 3424


AP 996 / DF

considerável quantia em espécie, a qual, na verdade, seria produto das


vantagens indevidas percebidas. Em parte dessas condutas concorreram
os denunciados Nelson Meurer Júnior e Cristiano Augusto Meurer.
Ainda de acordo com a denúncia, de forma extraordinária, mas
também em decorrência dos desvios de recursos operados no âmbito da
Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A, o denunciado Nelson
Meurer teria solicitado, aceitado promessa nesse sentido e recebido pelo
menos o valor de R$ 4.000.000,00 (quatro milhões de reais) em espécie,
mais R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais) sob a falsa rubrica de doação
eleitoral oficial. Concorreu, em parte, para essa conduta, o denunciado
Nelson Meurer Júnior.
Com a intenção de ocultar e dissimular a natureza, origem,
movimentação e propriedade de tais recursos, o denunciado Nelson
Meurer os teria recebido (i) em espécie, mediante entregas
operacionalizadas por pessoas ligadas a Alberto Youssef, ao menos em 7
(sete) oportunidades; e (ii) sob a falsa roupagem de doações eleitorais
oficiais, ocorridas em 2 (duas) datas. Em parte dessas condutas o
denunciado contou com o auxílio de Nelson Meurer Júnior.
Ao final, requer a condenação de (a) Nelson Meurer às penas
previstas no art. 317, § 1º, c/c art. 327, § 2º, na forma dos artigos 29 e 69,
ambos do Código Penal, por 269 (duzentos e sessenta e nove) vezes, e no
art. 1º, § 4º, da Lei n. 9.613/1998, na forma dos arts. 29 e 69, ambos do
Estatuto Repressor, por 336 (trezentos e trinta e seis) vezes; (b) Nelson
Meurer Júnior às penas previstas no art. 317, § 1º, c/c art. 327, § 2º, na
forma dos artigos 29 e 69, ambos do Código Penal, por 7 (sete) vezes, e no
art. 1º, § 4º, da Lei n. 9.613/1998, na forma dos arts. 29 e 69, ambos do
Estatuto Repressor, por 7 (sete) vezes; e (c) Cristiano Augusto Meurer às
penas previstas no art. 317, § 1º, c/c art. 327, § 2º, na forma dos artigos 29 e
69, ambos do Código Penal, por 4 (quatro) vezes, e no art. 1º, § 4º, da Lei
n. 9.613/1998, na forma dos arts. 29 e 69, ambos do Estatuto Repressor,
por 4 (quatro) vezes. Pleiteia, ainda, (i) a decretação da perda em favor da
União, nos termos do art. 7º, I, da Lei n. 9.613/1998, dos bens e valores
objeto do delito de lavagem de dinheiro, no valor de R$ 357.945.680,52

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14245359.
Supremo Tribunal Federal
Relatório

Inteiro Teor do Acórdão - Página 13 de 486 3425


AP 996 / DF

(trezentos e cinquenta e sete milhões, novecentos e quarenta e cinco mil,


seiscentos e oitenta reais e cinquenta e dois centavos), acrescidos de juros
e correção monetária; (ii) a condenação dos réus à reparação de danos
materiais e morais causados por suas condutas, nos termos do art. 387, IV,
do Código de Processo Penal, com a fixação de valor mínimo em R$
357.945.680,52 (trezentos e cinquenta e sete milhões, novecentos e
quarenta e cinco mil, seiscentos e oitenta reais e cinquenta e dois
centavos); e (iii) a decretação da perda da função pública para o
condenado detentor de cargo ou emprego público ou mandato eletivo,
nos moldes do art. 92 do Código Penal.

2. Em sessão de julgamento realizada em 21.6.2016 e ainda sob a


relatoria do saudoso Ministro Teori Zavascki, a Segunda Turma deste
Supremo Tribunal Federal, por votação unânime, recebeu, em parte, a
denúncia, excluindo-se apenas a causa de aumento prevista no art. 327, §
2º, do Código Penal, em razão da ausência de descrição de eventual
imposição hierárquica exercida pelos denunciados (fls. 1.841-1.929). O
respectivo acórdão foi objeto de embargos declaratórios opostos pelos
acusados, os quais foram rejeitados pelo mesmo Órgão Colegiado em
sessão de julgamento realizada em 25.10.2016 (fls. 1.970-2.004).
Por meio de petição acostada às fls. 2.017-2.021, a Petrobras S/A
pugnou pela habilitação nos autos na condição de assistente da acusação,
a qual foi admitida por meio da decisão de fls. 2.031-2.032, após
concordância manifestada pela Procuradoria-Geral da República às fls.
2.027-2.030.
Regularmente citados, os acusados Nelson Meurer, Cristiano
Augusto Meurer e Nelson Meurer Júnior apresentaram suas defesas
prévias às fls. 2.035-2.037, 2.055-2.058 e 2.060-2.063, oportunidade na qual
requereram a produção de provas.
Após a redistribuição dos autos aos 8.2.2017 (fl. 2.065), deu-se início
à instrução criminal com a oitiva das testemunhas arroladas pela
acusação em audiências realizadas aos 2.3.2017 (fls. 2.129-2.130), 17.3.2017
(fls. 2.201-2.202), 20.3.2017 (fls. 2.257-2.264), 23.3.2017 (fls. 2.287-2.289) e

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14245359.
Supremo Tribunal Federal
Relatório

Inteiro Teor do Acórdão - Página 14 de 486 3426


AP 996 / DF

29.5.2017 (fls. 2.339-2.341), ao passo que os testigos indicados pelas


defesas técnicas foram ouvidos em 16.6.2017 (fls. 2.424-2.425), 26.6.2017
(fls. 2.476-2.477) e 5.7.2017 (fls. 2.486-2.489).
Por meio de petição juntada às fls. 2.093-2.095, o Ministério Público
Federal requereu a inclusão de Pedro da Silva Corrêa de Oliveira
Andrade Neto no rol de testemunhas da acusação, o que foi indeferido na
decisão de fls. 2.105-2.106.
Em petições juntadas às fls. 2.364 e 2.366, os acusados Nelson
Meurer e Nelson Meurer Júnior requereram a substituição de
testemunhas, o que foi indeferido por meio de decisão proferida em
1º.6.2017 (fls. 2.359-2.362). Irresignadas, as defesas técnicas dos aludidos
denunciados interpuseram agravos regimentais (fls. 2.371-2.373 e 2.378-
2.386), aos quais a Segunda Turma deste Supremo Tribunal Federal negou
provimento, em sessão de julgamento realizada aos 8.8.2017 (fls. 2.534-
2.541).
A defesa técnica dos acusados Nelson Meurer e Nelson Meurer
Júnior, por meio de petições juntadas às fls. 2.513-2.516 e 2.518-2.519,
requereram a produção de prova pericial destinada a aferir a valorização
de imóvel localizado no Município de Francisco Beltrão/PR, o que foi
indeferido, nos termos da decisão proferida às fls. 2.521-2.524, objeto de
irresignação apenas por parte do denunciado Nelson Meurer, em agravo
regimental interposto às fls. 2.567-2.579, ao qual não foi atribuído o
pretendido efeito suspensivo (fl. 2.626), tendo a Procuradoria-Geral da
República se manifestado pelo seu desprovimento (fls. 2.630-2.635).
Os acusados Nelson Meurer, Nelson Meurer Júnior e Cristiano
Augusto Meurer foram interrogados em 4.9.2017 (fls. 2.584-2.587).
Na fase do art. 10 da Lei n. 8.038/1990, o Ministério Público Federal
pugnou apenas pelo indeferimento de eventuais diligências requeridas
pelos acusados, ou pelo deferimento apenas das que se revelarem céleres
e essenciais à apuração dos fatos denunciados (fls. 2.637-2.638).
Após a juntada das transcrições dos áudios das audiências em que
foram ouvidas as testemunhas e realizados os interrogatórios às fls. 2.651-
2.886 e 2.893-2.950, a defesa técnica do acusado Nelson Meurer requereu

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14245359.
Supremo Tribunal Federal
Relatório

Inteiro Teor do Acórdão - Página 15 de 486 3427


AP 996 / DF

diligências complementares às fls. 2.965-2.968, consistentes na oitiva das


testemunhas Mário Silvio Mendes Negromonte, Aguinaldo Velloso
Borges Ribeiro, Ciro Nogueira Lima Filho e Francisco Oswaldo Neves
Dornelles. Os acusados Nelson Meurer Júnior e Cristiano Augusto
Meurer, apesar de devidamente intimados na fase do art. 10 da Lei n.
8.038/1990, nada requereram.
Em decisão proferida às fls. 2.970-2.975, as diligências
complementares requeridas por Nelson Meurer foram indeferidas,
oportunidade em que foi declarado o encerramento da instrução criminal
e determinada a abertura de vista dos autos à Procuradoria-Geral da
República para alegações escritas, nos termos do art. 11 da Lei n.
8.038/1990.
A aludida decisão foi objeto de novo agravo regimental interposto
por Nelson Meurer, acostado às fls. 2.985-2.996, ao qual também não foi
atribuído efeito suspensivo, nos termos da decisão proferida em
28.11.2017 (fls. 3.161-3.163), cujas contrarrazões ministerial se encontram
às fls. 3.170-3.177.

3. Por meio de petição juntada às fls. 2.998-3.121, o Ministério


Público Federal apresenta alegações finais, na qual requer a juntada do
Relatório de Pesquisa n. 1842/2017 da Assessoria de Pesquisa da
Procuradoria-Geral da República, bem como da Prestação de Contas
Eleitorais de Nelson Meurer do ano de 2010. Pugna pela integral
procedência da denúncia, com a condenação de (i) Nelson Meurer nas
penas do art. 317, § 1º, c/c os arts. 29 e 69, ambos do Código Penal, por 269
(duzentas e sessenta e nove) vezes, e do art. 1º, § 4º, da Lei n. 9.613/1998,
c/c os arts. 29 e 69, ambos do Código Penal, por 336 (trezentos e trinta e
seis) vezes; (ii) Nelson Meurer Júnior nas penas do art. 317, § 1º, c/c os
arts. 29 e 69, ambos do Código Penal, por 7 (sete) vezes, e do art. 1º, § 4º,
da Lei n. 9.613/1998, c/c os arts. 29 e 69, ambos do Código Penal, por 8
(oito) vezes; e (iii) Cristiano Augusto Meurer nas penas do art. 317, § 1º,
c/c os arts. 29 e 69, ambos do Código Penal, por 4 (quatro) vezes, e do art.
1º, § 4º, da Lei n. 9.613/1998, c/c os arts. 29 e 69, ambos do Código Penal,

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14245359.
Supremo Tribunal Federal
Relatório

Inteiro Teor do Acórdão - Página 16 de 486 3428


AP 996 / DF

por 4 (quatro) vezes. Pleiteia, ainda, (a) a decretação da perda em favor da


União, nos termos do art. 7º, I, da Lei n. 9.613/1998, dos bens e valores
objeto do delito de lavagem de dinheiro, no valor de R$ 357.945.680,52
(trezentos e cinquenta e sete milhões, novecentos e quarenta e cinco mil,
seiscentos e oitenta reais e cinquenta e dois centavos), acrescidos de juros
e correção monetária; (b) a condenação dos réus à reparação de danos
materiais e morais causados por suas condutas, nos termos do art. 387, IV,
do Código de Processo Penal, com a fixação de valor mínimo em R$
357.945.680,52 (trezentos e cinquenta e sete milhões, novecentos e
quarenta e cinco mil, seiscentos e oitenta reais e cinquenta e dois
centavos); e (c) a decretação da perda da função pública para o
condenado detentor de cargo ou emprego público ou mandato eletivo,
nos moldes do art. 92 do Código Penal.
Às fls. 3.135-3.140, a Petrobras S/A, aderindo às alegações finais
ofertadas pelo órgão acusatório, centraliza a sua pretensão na
quantificação do quantum indenizatório, aduzindo que o denunciado
Nelson Meurer teria sido diretamente beneficiado com os desvios
praticados em detrimento da aludida sociedade de economia mista,
requerendo a condenação solidária dos denunciados no valor mínimo de
R$ 34.200.000,00 (trinta e quatro milhões e duzentos mil reais).
Por meio da petição de fl. 3.179, a defesa técnica de Nelson Meurer
requereu a dobra do prazo para apresentação das alegações finais, sob o
argumento de que a acusação e o respectivo assistente tiveram prazos
sucessivos para a oferta das manifestações finais, pretensão indeferida na
decisão de fls. 3.181-3.182.
Em petição juntada às fls. 3.185-3.232, Nelson Meurer oferta suas
alegações finais, na qual argui, preliminarmente, (i) nulidade na instrução
processual, consubstanciada na concessão de prazo dobrado para a
acusação e assistente ofertarem suas alegações inscritas, ao passo que
para a defesa dos três denunciados foi oportunizado prazo único para a
mesma finalidade, o que representaria o tratamento não isonômico das
partes; (ii) cerceamento de defesa representado pelo indeferimento do
requerimento de substituição de testemunhas; (iii) cerceamento de defesa

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14245359.
Supremo Tribunal Federal
Relatório

Inteiro Teor do Acórdão - Página 17 de 486 3429


AP 996 / DF

consistente no indeferimento da produção de prova pericial; (iv)


cerceamento de defesa configurado no indeferimento da oitiva de
testemunhas por ocasião da fase prevista no art. 10 da Lei n. 8.038/90; (v)
a necessidade de julgamento conjunto da presente ação penal com as
acusações formuladas nos autos dos INQ 3.989 e 3.980, em razão da
alegada identidade dos fatos narrados nas respectivas incoativas; e (vi)
violação ao devido processo legal com a quebra da paridade de armas
decorrente do acolhimento da contradita aposta pelo Ministério Público
Federal à testemunha João Alberto Pizzolatti Júnior, que foi ouvido na
qualidade de informante.
No mérito, alega que a tese acusatória estaria embasada apenas em
depoimentos prestados no âmbito de acordo de colaboração premiada, os
quais não teriam aptidão para fundamentar uma decisão condenatória.
Aduz, ainda, que os fatos narrados na denúncia não encontrariam
confirmação no conjunto probatório produzido na fase instrutória, razão
pela qual pugna pela absolvição, nos termos do art. 386, VII, do CPP.
Afirma, ademais, que não estaria comprovado o liame entre a
vantagem recebida e o exercício da função pública, o que impediria a
caracterização do delito de corrupção passiva. Defende, por fim, que não
teriam sido delimitadas as fases de preparação, consumação e
exaurimento de cada uma das supostas condutas de lavagem de dinheiro,
tampouco o liame subjetivo com os fatos narrados na denúncia, razão
pela qual seria inviável a proposta acusatória, o que ensejaria a prolação
de sentença absolutória, nos termos do art. 386, III e V, do CPP.
Os acusados Cristiano Augusto Meurer e Nelson Meurer Júnior
ofertaram as respectivas alegações finais por meio das petições juntadas
às fls. 3.235-3.250 e 3.253-3.269, nas quais repetem a tese de
imprestabilidade dos depoimentos colhidos no âmbito de acordo de
colaboração para utilização como prova.
Defendem, ainda, a insuficiência dos elementos probatórios para
fundamentar a proposta acusatória, bem como a inexistência de
demonstração do liame subjetivo de suas participações nos fatos
imputados ao denunciado Nelson Meurer, razão pela qual requerem suas

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14245359.
Supremo Tribunal Federal
Relatório

Inteiro Teor do Acórdão - Página 18 de 486 3430


AP 996 / DF

absolvições, nos termos do art. 386, III, V ou VII, do CPP.

4. É o relatório. À douta revisão, em 19.12.2017.

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14245359.
Supremo Tribunal Federal
Observação

Inteiro Teor do Acórdão - Página 19 de 486 3431

15/05/2018 SEGUNDA TURMA

AÇÃO PENAL 996 DISTRITO FEDERAL

RELATOR : MIN. EDSON FACHIN


REVISOR : MIN. CELSO DE MELLO
AUTOR(A/S)(ES) : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA
ASSIST.(S) : PETROLEO BRASILEIRO S A PETROBRAS
ADV.(A/S) : TALES DAVID MACEDO E OUTRO(A/S)
RÉU(É)(S) : NELSON MEURER
ADV.(A/S) : MICHEL SALIBA OLIVEIRA
ADV.(A/S) : RICARDO LIMA PINHEIRO DE SOUZA
RÉU(É)(S) : NELSON MEURER JÚNIOR
ADV.(A/S) : MARINA DE ALMEIDA VIANA
ADV.(A/S) : GABRIELA GUIMARÃES PEIXOTO
ADV.(A/S) : PRISCILA NEVES MENDES
ADV.(A/S) : MICHEL SALIBA OLIVEIRA
RÉU(É)(S) : CRISTIANO AUGUSTO MEURER
ADV.(A/S) : GABRIELA GUIMARÃES PEIXOTO
ADV.(A/S) : RICARDO LIMA PINHEIRO DE SOUZA
ADV.(A/S) : MICHEL SALIBA OLIVEIRA

OBSERVAÇÃO

O SENHOR MINISTRO CELSO DE MELLO – (Revisor): Assinalo,


na condição de Revisor, que o eminente Relator expôs, de modo completo, os
fatos, incidentes e demais eventos ocorridos ao longo da presente causa
penal, reproduzindo, com absoluta fidelidade, o quadro que se desenha
neste processo penal de conhecimento.

Desse modo, manifesto-me de inteiro acordo com o douto relatório


apresentado por Vossa Excelência, Senhor Presidente.

______________________________

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço
http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código F7B9-4BDD-BAF7-FDDE e senha E185-44BE-6D8D-9E5E
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 20 de 486 3432

15/05/2018 SEGUNDA TURMA

AÇÃO PENAL 996 DISTRITO FEDERAL

VOTO
(s/ questões preliminares)

O SENHOR MINISTRO CELSO DE MELLO – (Revisor):

O caso em julgamento

Trata-se de ação penal ajuizada pelo Ministério Público Federal


contra o Deputado Federal Nelson Meurer, Nelson Meurer Júnior e Cristiano
Augusto Meurer, pela suposta prática dos crimes de corrupção passiva (CP,
art. 317, § 1º, c/c o art. 327, § 2º, art. 29 e art. 69) e de lavagem de dinheiro
(Lei nº 9.613/98, art. 1º, § 4º, c/c o art. 29 e art. 69).

O Ministério Público Federal sustenta, em síntese, o que se segue


(fls. 2.999/3.001):

“(...) entre os anos de 2006 e 2014, em São Paulo/SP e no Rio


de Janeiro/RJ, o Deputado Federal NELSON MEURER – na
condição de integrante da cúpula do Partido Progressista e em
unidade de ação e de desígnios com pelo menos José Janene,
Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa – forneceu o apoio e a
sustentação política necessários para manter este último como
Diretor de Abastecimento da Petrobras. Também concorreu
para que ele [Paulo Roberto], na condição de agente público ocupante
de função de Direção, solicitasse e aceitasse promessa de
vantagem indevida e recebesse, pelo menos 161 (cento e
sessenta e uma) vezes, para si e para o partido político, em
razão do exercício desta função pública na Petrobras,
vantagens indevidas no valor total de R$ 357.945.680,52
(trezentos e cinquenta e sete milhões, novecentos e quarenta e cinco
mil, seiscentos e oitenta reais e cinquenta e dois centavos), que foram
efetivamente obtidas como contrapartida pela viabilização do
funcionamento de um cartel de empreiteiras interessadas em

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 21 de 486 3433


AP 996 / DF

celebrar irregularmente contratos no âmbito da Diretoria de


Abastecimento da Petrobras e em obter benefícios indevidos do
respectivo Diretor.
(…) parcela considerável desta vantagem indevida foi
paga pelas empreiteiras mediante contratos de prestação de
serviços fictícios celebrados com as empresas de fachada de Alberto
Youssef, responsável por administrar um verdadeiro ‘caixa de
propinas’ do PP, o que ocorreu em pelo menos 180 (cento e oitenta)
pagamentos, no valor total de R$ 62.146.567,80 (sessenta e dois
milhões, cento e quarenta e seis mil, quinhentos e sessenta e sete reais
e oitenta centavos), de forma sucessiva e no âmbito de
organização criminosa, como estratégia de ocultação e
dissimulação da natureza, origem e movimentação de valores
provenientes da corrupção passiva acima delineada.
(…) entre os anos de 2006 e 2014, em Brasília/DF e
Curitiba/PR, o Deputado Federal NELSON MEURER, na
condição de integrante da cúpula do PP, em unidade de desígnios com
pelo menos José Janene, Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef,
solicitou, aceitou promessa de vantagem indevida e recebeu o
valor total de pelo menos R$ 29.700.000,00 (vinte e nove milhões e
setecentos mil reais), correspondente a 99 (noventa e nove)
repasses de R$ 300.000,00 (trezentos mil reais) mensais. Este
montante é oriundo do ‘caixa de vantagens indevidas’
administrado pelo doleiro Alberto Youssef em função do
esquema de corrupção e lavagem de dinheiro estabelecido na
Diretoria de Abastecimento da Petrobras, na época ocupada por
Paulo Roberto Costa, por indicação do PP (com finalidade
predeterminada de locupletação). Paulo Roberto Costa foi
indevidamente mantido no cargo em decorrência do apoio e da
sustentação política prestados pelo parlamentar NELSON
MEURER por intermédio do PP. Quanto a estes valores
ilicitamente recebidos, a denúncia narra diversas estratégias
adotadas por NELSON MEURER, de forma reiterada e no
âmbito de organização criminosa, com vistas a ocultar e
dissimular a sua natureza, origem, localização, disposição,
movimentação e propriedade.

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 22 de 486 3434


AP 996 / DF

(...) em 2010, em Curitiba/PR e em Brasília/DF, o Deputado


Federal NELSON MEURER, na condição de integrante da
cúpula do PP, em unidade de desígnios com pelo menos José Janene,
Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa, solicitou, aceitou promessa
neste sentido e recebeu – além das vantagens indevidas repassadas
mensalmente –, repasses extraordinários para a sua campanha
de reeleição à Câmara dos Deputados, que consistiam em
propina oriunda do esquema de corrupção e lavagem de
dinheiro estabelecido na Diretoria de Abastecimento da
Petrobras, na época ocupada por Paulo Roberto Costa, por indicação
do PP, o qual foi indevidamente mantido no cargo em decorrência do
apoio e da sustentação política prestados pelo parlamentar NELSON
MEURER, por intermédio da agremiação partidária em questão. (…).
…...................................................................................................
(...) o Deputado Federal NELSON MEURER, para a
prática das condutas mencionadas, contou com a ajuda de seus
filhos NELSON MEURER JÚNIOR e CRISTIANO AUGUSTO
MEURER, os quais, plenamente cientes de todo o esquema
integrado por seu genitor, o auxiliaram no recebimento de parte
das propinas pagas ao parlamentar mediante estratégias de
ocultação e dissimulação da natureza, origem, movimentação e
propriedade dos valores ilícitos subjacentes, ora
acompanhando-o nas entregas pessoais, ora recebendo-as diretamente
dos entregadores escalados por Alberto Youssef.” (grifei)

A denúncia foi recebida, em parte, por esta colenda Segunda Turma,


em 21/06/2016, com exclusão, somente, da causa geral de aumento de pena
prevista no art. 327, § 2º, do Código Penal, em decisão consubstanciada
em acórdão assim ementado (fls. 1.843/1.845):

“INQUÉRITO. IMPUTAÇÃO DOS CRIMES PREVISTOS


NO ART. 317, § 1º, C/C ART. 327, § 2º, DO CÓDIGO PENAL E
ART. 1º, § 4º, DA LEI 9.613/1998. RÉPLICA PELA ACUSAÇÃO
ÀS RESPOSTAS DOS DENUNCIADOS. POSSIBILIDADE.
JUNTADA DE DOCUMENTO ISOLADO APÓS A OFERTA
DA DENÚNCIA. VIABILIDADE. INÉPCIA DA PEÇA

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 23 de 486 3435


AP 996 / DF

ACUSATÓRIA. INOCORRÊNCIA. DESCRIÇÃO


INDIVIDUALIZADA E OBJETIVA DAS CONDUTAS
ATRIBUÍDAS AOS DENUNCIADOS, ASSEGURANDO-LHES
O EXERCÍCIO DO DIREITO DE DEFESA. ATENDIMENTO
AOS REQUISITOS DO ART. 41 DO CÓDIGO DE
PROCESSO PENAL. COMPREENSÃO DO CONJUNTO
INVESTIGATÓRIO MESMO COM O FRACIONAMENTO
DOS FATOS. DESCRIÇÃO SUFICIENTE DO CONCURSO DE
AGENTES. DEMONSTRAÇÃO INEQUÍVOCA DE INDÍCIOS
DE AUTORIA E MATERIALIDADE EM FACE DOS
ACUSADOS. MAJORANTE DO ART. 327, § 2º, DO CÓDIGO
PENAL. EXCLUSÃO. DENÚNCIA PARCIALMENTE
RECEBIDA.
1. É possível assegurar, também no âmbito da Lei 8.038/1990,
o direito ao órgão acusador de réplica às respostas dos
denunciados, especialmente quando suscitadas questões que, se
acolhidas, poderão impedir a deflagração da ação penal. Só
assim se estará prestigiando o princípio constitucional do
contraditório (art. 5º, LV, CF), que garante aos litigantes, e não
apenas à defesa, a efetiva participação na decisão judicial.
2. Não importa em violação aos princípios do
contraditório e da ampla defesa a juntada de documento
isolado após a oferta da denúncia, pois, além de essa
possibilidade estar prevista no art. 231 do Código de Processo
Penal, no caso, tiveram as defesas a oportunidade de sobre ele se
manifestar, em sua inteireza, não ocorrendo qualquer alteração ou
incremento de acusação em virtude do referido documento.
3. Tem-se como hábil a denúncia que descreve, de forma
individualizada e objetiva, as condutas atribuídas aos
acusados, correlacionando-as aos tipos penais declinados. A
separação das condutas em vários momentos, visando melhor apontar
os diversos crimes de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro, bem
como a menção a pessoas investigadas em outras instâncias, não
impede o processamento dos denunciados em demanda autônoma,
notadamente quando esclarecida a participação de cada um deles nos
eventos. Não existe afronta ao art. 41 do Código de Processo Penal

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 24 de 486 3436


AP 996 / DF

quando a denúncia narra o contexto em que se deram os repasses


ilegais à agremiação partidária, sempre expondo a relação do
denunciado em cada uma das fases do ilícito. O fracionamento dessa
investigação em várias ações penais não inviabiliza a compreensão do
todo, porque a referência aos aqui acusados encontra-se perfeitamente
delineada. Ademais, os denunciados defendem-se na medida de suas
imputações, não tendo relevância condutas outras que não estejam
materialmente imbricadas de modo a revelar a necessidade de reunião
de processos. O concurso de agentes está descrito nas imputações da
denúncia com suas variantes, a depender do grau de envolvimento de
cada um dos acusados nos diversos crimes narrados.
4. A materialidade e os indícios de autoria, elementos
básicos para o recebimento da denúncia, encontram-se
presentes a partir do substrato trazido com o caderno
indiciário. A análise inicial revela a existência de indícios robustos
dando conta de que o parlamentar, auxiliado por seus filhos
codenunciados, na condição de membro da cúpula de partido político,
aderiu ao recebimento, para si, e concorreu à percepção por parte de
outros integrantes da mesma agremiação, de vantagens indevidas. O
recebimento desses valores, porque núcleo alternativo do próprio tipo,
não pode ser descartado nesta ocasião como mero exaurimento da
conduta de outrem, mormente porque as propinas pagas pelas
empreiteiras continham destinação certa. Convém lembrar que: ‘Não é
lícito ao Juiz, no ato de recebimento da denúncia, quando faz apenas
juízo de admissibilidade da acusação, conferir definição jurídica aos
fatos narrados na peça acusatória. Poderá fazê-lo adequadamente no
momento da prolação da sentença, ocasião em que poderá haver a
‘emendatio libelli’ ou a ‘mutatio libelli’, se a instrução criminal assim
o indicar’ (HC 87324, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA, Primeira Turma,
DJe de 18.5.2007).
5. Conforme decidido pelo Plenário, no INQ 3983, de
minha relatoria, a causa de aumento do art. 327, § 2º, do Código
Penal, é incabível pelo mero exercício do mandato
parlamentar, sem prejuízo da causa de aumento contemplada no
art. 317, § 1º. A jurisprudência desta Corte, conquanto revolvida
nos últimos anos (INQ 2606, Rel. Min. LUIZ FUX, Tribunal Pleno,

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 25 de 486 3437


AP 996 / DF

DJe de 2.12.2014), exige uma imposição hierárquica ou de direção


(INQ 2191, Rel. Min. CARLOS BRITTO, Tribunal Pleno, DJe
de 8.5.2009) que não se acha nem demonstrada nem descrita nos
presentes autos.
6. Denúncia parcialmente recebida, com exclusão somente
da causa de aumento prevista no art. 327, § 2º, do Código
Penal.”
(Inq 3.997/DF, Rel. Min. TEORI ZAVASCKI – grifei)

Concluída a fase instrutória da presente causa penal, o Ministério


Público Federal, em suas alegações finais (fls. 2.998/3.121), postulou a
condenação criminal de todos os litisconsortes penais passivos, fazendo-o nos
seguintes termos (fls. 3.120/3.121):

“(ii) a condenação dos réus da seguinte forma:

(ii.a) NELSON MEURER, nas penas previstas no


art. 317, § 1º combinado com os arts. 29 e 69 do Código Penal,
duzentos e sessenta e nove vezes; e no art. 1º, § 4º da
Lei n. 9.613/1998 combinado com os arts. 29 e 69 do Código
Penal, (trezentos e trinta e seis vezes).
(ii.b) NELSON MEURER JÚNIOR, nas penas
previstas no art. 317, § 1º combinado com os arts. 29 e 69 do
Código Penal, sete vezes; e no art. 1º § 4° da Lei n. 9.613/1998
combinado com os arts. 29 e 69 do Código Penal, oito vezes;
(ii.c) CRISTIANO AUGUSTO MEURER, nas penas
previstas no art. 317, § 1º combinado com os arts. 29 e 69 do
Código Penal, quatro vezes; e no art. 1º, § 4º, da
Lei n. 9.613/1998, combinado com os arts. 29 e 69 do Código
Penal, quatro vezes.

(iii) a decretação da perda em favor da União, com base no


art. 7º, I, da Lei n. 9.613/1998, dos bens e valores objeto de
lavagem de dinheiro, judicialmente apreendidos ou
sequestrados, no valor originário total de R$ 357.945.680,52
(trezentos e cinquenta e sete milhões, novecentos e quarenta e cinco

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 26 de 486 3438


AP 996 / DF

mil, seiscentos e oitenta reais e cinquenta e dois centavos), a ser


acrescido de juros e correção monetária;
(iv) a condenação dos réus à reparação dos danos
materiais e morais causados por suas condutas, nos termos do
art. 387, IV, do Código de Processo Penal, fixando-se valor
mínimo equivalente ao montante cobrado a título de propina
no caso, no total de R$ 357.945.680,52 (trezentos e cinquenta e sete
milhões, novecentos e quarenta e cinco mil, seiscentos e oitenta reais
e cinquenta e dois centavos), já que os prejuízos decorrentes da
corrupção são difusos (lesões à ordem econômica, à administração
da justiça e à administração pública, inclusive à respeitabilidade do
parlamento perante a sociedade brasileira), sendo dificilmente
quantificados; e
(v) a decretação da perda da função pública para o
condenado detentor de cargo ou emprego público ou mandato eletivo,
principalmente por ter agido com violação de seus deveres para com
o Poder Público e a sociedade, nos termos do art. 92 do Código
Penal.” (grifei)

A Petróleo Brasileiro S.A. – Petrobras, na condição de assistente do


Ministério Público (CPP, art. 268), manifestou-se no sentido de “integral
concordância” com as alegações finais apresentadas pela Procuradoria-
-Geral da República, postulando, ainda, que os réus sejam condenados
ao pagamento do valor mínimo de R$ 34.200.000,00 (trinta e quatro
milhões e duzentos mil reais) a título de reparação dos danos sofridos por
essa empresa (fls. 3.135/3.140).

O Deputado Federal Nelson Meurer, nas alegações finais apresentadas


(fls. 3.185/3.232v.), suscita, preliminarmente, (i) a ocorrência de cerceamento
de defesa e de quebra de paridade de armas, em virtude do indeferimento,
pelo eminente Ministro Relator, do pedido de prazo em dobro para as
defesas apresentarem suas razões finais, mesmo diante da concessão
de prazo sucessivo para o Ministério Público Federal e para a assistente de
acusação apresentarem suas alegações finais; (ii) a violação ao princípio do
devido processo legal e a existência de cerceamento de defesa, em razão do

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 27 de 486 3439


AP 996 / DF

indeferimento, pelo eminente Ministro Relator, dos requerimentos de


substituição de testemunhas, de produção de prova pericial e de
realização de diligências complementares; (iii) a necessidade de
julgamento conjunto da presente ação penal com o Inq 3.980 e o Inq 3.989,
“dada a estrita ligação entre os fatos narrados, visando-se evitar a prolação de
decisões conflitantes acerca dos mesmos fatos” (fls. 3.206v. – grifei); e (iv) a
ofensa ao princípio do devido processo legal e a ocorrência de quebra de
paridade de armas, ao argumento de que foi acolhida contradita em
relação a uma testemunha arrolada pela defesa, sendo esta ouvida apenas
como informante.

No mérito, a defesa do parlamentar postula sua absolvição,


fazendo-o com apoio nos seguintes fundamentos (fls. 3.232/3.281):

“a) A absolvição do réu com base no art. 386, III, do CPP,


em razão da clara atipicidade das condutas de corrupção passiva e
lavagem de dinheiro, considerando não se ter verificado nos autos a
presença de todas as elementares dos tipos, mormente a
inexistência da prática de ato de ofício nem a prova da percepção
de vantagens e nem a ocultação destas;
b) Caso assim não se entenda, requer a absolvição do réu
com base no art. 386, V, do CPP, em razão da inexistência de liame
subjetivo do Deputado Nelson Meurer com os fatos constantes da
denúncia e nem a demonstração de qualquer ato seu no sentido de
concorrer para a prática dos atos narrados;
c) Caso ainda assim não se entenda, requer a absolvição
do réu com base no art. 386, VII, do CPP, considerando a evidente
insuficiência de provas para sustentar uma condenação, seja
porque os fatos narrados são unicamente baseados nas palavras
dos delatores, seja porque a acusação não se desincumbiu do
ônus probatório que lhe cabe.” (grifei)

Já os litisconsortes penais passivos Cristiano Augusto Meurer e


Nelson Meurer Júnior, por meio de petições substancialmente idênticas,
ainda que com pequenas variações pontuais, apresentaram suas

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 28 de 486 3440


AP 996 / DF

alegações finais (fls. 3.235/3.250 e fls. 3.253/3.269), sustentando, em síntese,


(i) que as acusações formuladas pelo Ministério Público Federal estão
baseadas exclusivamente nos depoimentos prestados por agentes
colaboradores, o que é insuficiente para a condenação criminal; (ii) que
não há provas mínimas de autoria e de materialidade, uma vez que, na
instrução penal, o Ministério Público não logrou êxito em comprovar as
acusações formuladas; e (iii) que estão ausentes elementares dos crimes de
corrupção passiva e de lavagem de dinheiro.

1. Preliminares

1.1. Cerceamento de defesa – Quebra da Paridade de Armas ou de


tratamento isonômico das partes: inocorrência. Concessão de prazo
sucessivo, para apresentação de alegações finais, ao Ministério Público e à
sociedade empresária assistente: ausência de prejuízo

Passo a examinar, inicialmente, a primeira questão preliminar suscitada


pelo réu Nelson Meurer, referente ao alegado cerceamento de defesa
e à suposta ocorrência de quebra da paridade de armas diante da concessão
de prazo sucessivo, para alegações finais, ao Ministério Público e à sua
assistente, não obstante tenha sido deferido à defesa dos 03 (três)
litisconsortes penais passivos prazo comum para essa mesma finalidade.

Assinalo que essa questão também constitui objeto do quarto agravo


interno interposto por esse mesmo acusado.

É inegável que a paridade de armas, importante consectário da


cláusula constitucional do “due process of law”, impõe que se estabeleça
relação de equilíbrio entre os contendores do litígio, notadamente em sede
processual penal.

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 29 de 486 3441


AP 996 / DF

Cabe enfatizar, bem por isso, Senhor Presidente, que o Supremo


Tribunal Federal, no exame da presente causa penal, garantiu, de modo pleno,
às partes envolvidas, com especial destaque para os réus, na linha de sua
longa e histórica tradição republicana, o direito a um julgamento justo,
imparcial e independente, com rigorosa observância de um dogma essencial
ao sistema acusatório: o da paridade de armas, que impõe a necessária
igualdade de tratamento entre o órgão da acusação estatal e aquele contra
quem se promovem atos de persecução penal (ARE 648.629/RJ, Rel. Min.
LUIZ FUX – AP 644-AgR/MT, Rel. Min. GILMAR MENDES –
RHC 138.752/PB, Rel. Min. DIAS TOFFOLI, v.g.), em contexto legitimado
pelos princípios estruturantes do Estado Democrático de Direito e que
repele, por isso mesmo, a tentação autoritária de presumir-se provada
qualquer acusação criminal e de tratar como se culpado fosse aquele em favor
de quem milita a presunção constitucional de inocência.

Cumpre destacar, por relevante, apesar da previsão constante do


art. 11, § 1º, da Lei nº 8.038/90, segundo a qual “Será comum o prazo do
acusador e do assistente”, que, no caso dos autos, o eminente Ministro Relator
fixou prazo sucessivo para o “Parquet” e para a assistente de acusação
apresentarem suas razões finais, de modo a compatibilizar referida
regra, que contém cláusula genérica, com as prerrogativas do Ministério
Público de receber intimação pessoal nos autos (LC nº 75/93, art. 18, II, “h”).
Esse específico aspecto foi bem ressaltado pelo eminente Ministro
EDSON FACHIN, como o evidenciam as razões que dão suporte à sua
decisão de indeferimento do pedido da defesa (fls. 3.181/3.182v.) e, sobretudo,
os motivos subjacentes ao voto que vem de proferir nesta sessão:

“Não se desconhece, conforme pontuado pela defesa, que o


art. 11, § 1º, da Lei n. 8.038/1990 prevê prazo comum para a
acusação e seu assistente, assim como para os corréus, ofertarem as
alegações escritas, nas respectivas oportunidades sucessivas descritas
no ‘caput’ do aludido dispositivo legal.

10

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 30 de 486 3442


AP 996 / DF

Tal cenário, ainda que evidencie a ocorrência de um


aparente conflito de normas, mostra-se solucionável, todavia,
tanto pelo critério cronológico como pelo da especialidade, já
que a LC 75/1993, que estabelece, de forma especial, a prerrogativa
da intimação pessoal em favor do Ministério Público, é posterior
à previsão genérica encontrada no rito das ações penais originárias
descrito na Lei n. 8.038/1990.
Mesmo que assim não fosse, as distintas formas de
intimação do Ministério Público Federal e da assistente de
acusação importariam, invariavelmente, na fluidez de lapsos
temporais diversos à prática do aludido ato processual, o que
redundaria, de certa forma, na inobservância da norma invocada pela
defesa técnica como reveladora do ‘discrimen’ reclamado nesta
oportunidade.
Entretanto, a concessão desses prazos sucessivos para a
Procuradoria-Geral da República e para a assistente de acusação
ofertarem suas alegações finais em hipótese alguma teve aptidão
de desequilibrar a relação processual travada nestes autos. É
que, ainda que destacados de forma cronológica, todas as partes
tiveram idêntico prazo para a prática do ato processual
questionado, anotando-se, ademais, como afirmado pela própria
defesa, que, embora estes autos tramitem de forma física, uma
cópia digitalizada é disponibilizada para todas as partes de
forma concomitante.
Por tal razão, caso a concessão de prazo sucessivo à
Procuradoria-Geral da República e à assistente da acusação para a
oferta das alegações finais seja considerada a causa do apontado
desequilíbrio na relação processual em razão da possibilidade, desta
última, utilizar-se de maior lapso temporal para a prática do ato, é
correto afirmar que, nesse cenário, as defesas técnicas dos
acusados foram igualmente beneficiadas, já que dispuseram de
maior lapso temporal para compulsar os autos digitalizados e
elaborar as respectivas teses declinadas nas razões escritas.

11

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 31 de 486 3443


AP 996 / DF

Por fim, cumpre consignar que a determinação, no mesmo


despacho proferido aos 29.11.2017, de abertura de prazo para as
defesas apresentarem as alegações finais e de concessão de vista dos
autos à Procuradoria-Geral da República para as contrarrazões a
agravo regimental interposto não impediu, em absoluto, a prática do
ato processual.
Com efeito, como já destacado, ainda que os autos tenham
sido deslocados à Procuradoria-Geral da República para as
contrarrazões ao agravo regimental interposto, é fato que o acesso
ao seu conteúdo é franqueado vinte e quatro (24) horas por dia
na plataforma do processo eletrônico de forma concomitante a
todos os sujeitos da relação processual, circunstância que
evidencia a inexistência de tratamento diferenciado a qualquer das
partes.” (grifei)

De qualquer maneira, no entanto, ainda que superada essa questão,


a análise da controvérsia suscitada evidencia não se revelar acolhível
referida preliminar, pois não restou demonstrada a ocorrência de qualquer
prejuízo para os réus, que exerceram, plenamente, sem qualquer restrição,
as prerrogativas inerentes ao direito de defesa, tal como assinalado
pelo douta Procuradoria-Geral da República nas contrarrazões
apresentadas ao “agravo regimental” interposto pelo réu Nelson Meurer
(fls. 3.291/3.296):

“No caso concreto, contudo, enquanto o Ministério


Público Federal utilizou-se integralmente do prazo de
15 (quinze) dias para o oferecimento de suas alegações finais
(fls. 2977 e 2998), a assistente Petrobras sequer valeu-se de 1 (um)
dia para a apresentação da mesma peça, tendo-a protocolado
em 24/11/2017, mesma data da publicação pela qual foi intimada
para tanto. Nesses moldes, verifica-se que a acusação, no caso
concreto, utilizou-se do total de 15 (quinze) dias para
oferecimento de suas alegações finais. Já as defesas dos réus,
por sua vez, utilizaram-se dos mesmos 15 (quinze) dias para

12

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 32 de 486 3444


AP 996 / DF

oferecimento de suas alegações finais, tendo-as protocolado, todas,


no dia 14/12/2017, termo final do prazo legal, contado do dia seguinte
à data da publicação da decisão em que foram para tanto
intimadas, 29/11/2017.
Nesses moldes, diante das peculiaridades do caso, ainda que se
concluísse irregular a decisão pela qual o Ministro Relator concedeu
prazo de apenas 15 (quinze) dias para apresentação de alegações finais
pelas defesas, verifica-se que não houve qualquer prejuízo
concreto e efetivo à paridade de armas, visto que ambas, defesa
e acusação, utilizaram-se do mesmo período temporal para
oferecimento das referidas peças.” (grifei)

Daí a correta observação de Vossa Excelência, Senhor Presidente,


constante do voto, hoje proferido, no qual – após destacar a ausência de
prejuízo em detrimento dos réus – assim se pronunciou:

“No caso, constato que, no prazo legal, a defesa técnica do


acusado Nelson Meurer protocolizou petição contendo
alegações finais que ocupam exatas 100 (cem) laudas, nas quais
foram declinadas substanciosas teses defensivas contrapostas à versão
acusatória exposta na denúncia, as quais abordam todo o
conjunto probatório produzido no decorrer da instrução criminal,
razão pela qual não há falar em cerceamento ou deficiência de
defesa que justifique a pretendida declaração de nulidade do processo,
diante da induvidosa inexistência de qualquer prejuízo às garantias
processuais constitucionais.” (grifei)

Cabe ressaltar, Senhor Presidente, no sentido que orienta o seu


douto voto, que a disciplina normativa das nulidades, no sistema jurídico
brasileiro, rege-se pelo princípio segundo o qual “Nenhum ato será
declarado nulo, se da nulidade não resultar prejuízo para a acusação ou para a
defesa” (CPP, art. 563). Esse postulado básico – “pas de nullité sans grief” –
tem por finalidade rejeitar o excesso de formalismo, desde que a eventual
preterição de determinada providência legal não tenha causado prejuízo
para qualquer das partes (RT 567/398 – RT 570/388 – RT 603/311, v.g.).

13

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 33 de 486 3445


AP 996 / DF

É por tal razão que esta Suprema Corte tem exigido a comprovação de
efetivo prejuízo, que não se presume, para declarar a nulidade de um
determinado ato processual (RTJ 182/662-663, Rel. Min. SEPÚLVEDA
PERTENCE – RTJ 220/385, Rel. Min. CEZAR PELUSO – HC 85.155/SP,
Rel. Min. ELLEN GRACIE – HC 100.329/RS, Rel. Min. CÁRMEN
LÚCIA – HC 112.191/SP, Rel. Min. GILMAR MENDES – HC 117.102/SP,
Rel. Min. RICARDO LEWANDOWSKI – RHC 134.832/ES, Rel. Min.
ROBERTO BARROSO, v.g.):

“1. À luz da norma inscrita no art. 563 do CPP e da


Súmula 523/STF, a jurisprudência desta Corte firmou o
entendimento de que, para o reconhecimento de nulidade dos atos
processuais, relativa ou absoluta, exige-se a demonstração do
efetivo prejuízo causado à parte (‘pas de nulitté sans grief’).
Precedentes.
…...................................................................................................
3. Ordem denegada.”
(HC 104.648/MG, Rel. Min. TEORI ZAVASCKI – grifei)

Impõe-se, desse modo, a rejeição de referida preliminar, com o


consequente reconhecimento da prejudicialidade do quarto recurso de
agravo interno interposto por Nelson Meurer.

1.2. Cerceamento de defesa – Alegada violação ao princípio do


devido processo legal. Indeferimento do pleito de substituição de
testemunhas. Matéria já apreciada, no presente caso, por esta colenda
Segunda Turma: Preclusão

Examino, agora, a segunda preliminar suscitada pelo réu Nelson


Meurer, na qual este alega a ocorrência de cerceamento de defesa e de
violação ao devido processo legal, em razão do indeferimento do pleito de
substituição de testemunhas arroladas por sua defesa.

14

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 34 de 486 3446


AP 996 / DF

Entendo não assistir razão a esse acusado, pelo fato de achar-se preclusa
a matéria em causa, eis que a questão já foi resolvida por esta colenda
Segunda Turma na análise de agravos internos interpostos pelos réus,
fazendo-o em julgamento que se acha consubstanciado em acórdão
assim ementado (fls. 2.534/2.535):

“AGRAVOS REGIMENTAIS. AÇÃO PENAL.


SUBSTITUIÇÃO DE TESTEMUNHAS. APLICABILIDADE DO
ART. 451 DO CÓDIDO DE PROCESSO CIVIL, NOS TERMOS
DO ART. 3º DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL E ART. 9º
DA LEI N. 8.038/1990. HIPÓTESES NÃO VERIFICADAS.
REQUERIMENTO DESMOTIVADO. IMPOSSIBILIDADE.
INSURGÊNCIAS DESPROVIDAS.
1. Não havendo previsão legal específica, aplica-se o
disposto no art. 451 do Código de Processo Civil, na forma do
art. 3º do Código de Processo Penal e do art. 9º da Lei n. 8.038/1990,
para o regramento do pleito de substituição de testemunhas no
processo penal.
2. Operada a preclusão consumativa da pretensão
probatória com a apresentação do rol de testemunhas, a
posterior substituição destas só é permitida nos casos de não
localização, falecimento ou enfermidade que inviabilize o
depoimento.
3. No caso, os agravantes não indicam qualquer
circunstância concreta superveniente à indicação do rol de
testemunhas que dê embasamento ao pleito excepcional de
substituição, assinalando que, inclusive, tinha ciência da anterior
indicação dos mesmos testigos pela acusação.
4. Agravos regimentais desprovidos.” (grifei)

Sendo assim, e em face das razões expostas, acompanho o eminente


Relator e, em consequência, rejeito a segunda preliminar suscitada.

15

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 35 de 486 3447


AP 996 / DF

1.3. Cerceamento de defesa – Violação ao princípio do devido


processo legal. Indeferimento de prova pericial requerida por um dos
acusados

Em relação à terceira preliminar (indeferimento de prova pericial),


também suscitada pelo réu Nelson Meurer, cabe destacar que ela se apoia
na mesma fundamentação deduzida no segundo agravo interno por ele
interposto.

Impõe-se registrar, por necessário, que o indeferimento de


determinada diligência probatória requerida pela defesa ou pelo próprio
Ministério Público – como a realização de perícia, p. ex. – não se qualifica, só
por si, como medida caracterizadora de cerceamento da defesa, desde que
tal ato encontre suporte em decisão adequadamente motivada (CPP, art. 400,
§ 1º, na redação dada pela Lei nº 11.719/2008).

Como se sabe, o Relator exerce, nessa matéria, irrecusável competência


discricionária, ainda que regrada, que lhe permite, a partir de avaliação
quanto à conveniência ou à necessidade da medida, ordenar, ou não,
sempre em decisão fundamentada, a adoção dessa providência de caráter
instrutório.

Esse entendimento – cabe ressaltar – vem sendo observado em


sucessivos julgamentos proferidos no âmbito desta Suprema Corte, cujo
magistério jurisprudencial firmou orientação no sentido de que o
indeferimento de produção de prova, desde que veiculado em decisão
adequadamente fundamentada, não caracteriza medida configuradora de
cerceamento de defesa (AP 409-AgR/CE, Rel. Min. AYRES BRITTO –
HC 69.575/SP, Rel. Min. CELSO DE MELLO – HC 80.205/SP, Rel. Min.
CELSO DE MELLO – HC 83.578/RJ, Rel. Min. NELSON JOBIM –

16

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 36 de 486 3448


AP 996 / DF

HC 91.777/SP, Rel. Min. RICARDO LEWANDOWSKI – HC 95.694/PR,


Rel. Min. MENEZES DIREITO – HC 100.988/RJ, Red. p/ o acórdão Min.
ROSA WEBER – HC 135.026/AP, Rel. Min. GILMAR MENDES, v.g.):

“PENAL. DECISÃO QUE INDEFERE REALIZAÇÃO


DE PERÍCIA E REQUISIÇÃO DE DOCUMENTOS.
INUTILIDADE DA PROVA. AGRAVO REGIMENTAL.
RECURSO DESPROVIDO.

I – Incabível a prova pericial, por motivo de inutilidade,


quando não puder refletir a situação patrimonial e financeira de
empresa beneficiada por recursos da SUDAM no momento em que os
fatos controvertidos ocorreram.
II – Nada impedindo que o réu traga aos autos cópias de
atas do CONDEL-SUDAM e de outros documentos, correta de
decisão que indeferiu a pretensão.
III – Agravo regimental desprovido.”
(AP 374-AgR/TO, Rel. Min. RICARDO
LEWANDOWSKI – grifei)

“Agravo regimental em ação penal originária. Processo


penal. 2. Perícia grafodocumentoscópica, com o objetivo de
demonstrar que o réu não assinou ou produziu as notas de compra
acostadas aos autos. Impertinência da prova, visto que a
acusação não atribui a autoria dos documentos ao punho do
réu – art. 400, § 1º, CPP. 3. Reformulação do requerimento para
contestar a assinatura de terceiros e a contemporaneidade de anotação
feitas nos documentos. Inovação quanto ao objeto da prova.
A resposta é a oportunidade para ‘especificar as provas
pretendidas’ – art. 396-A do CPP. Pedido formulado a
destempo. 4. O deferimento da prova requerida de forma
intempestiva só se justifica excepcionalmente e sem prejuízo do
regular andamento processual. (...). 6. Necessidade da perícia.
A autenticidade dos documentos será avaliada com base no conjunto
da prova produzida. Prova que, no atual momento processual,

17

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 37 de 486 3449


AP 996 / DF

não desponta como necessária. Indeferimento, na forma do


art. 400, § 1º, do CPP. 7. Negado provimento ao agravo regimental.”
(AP 974-AgR-segundo/SE, Rel. Min. GILMAR MENDES –
grifei)

“RECURSO ORDINÁRIO EM ‘HABEAS CORPUS’ –


ALEGADA NULIDADE DO PROCESSO PENAL
CONDENATÓRIO – PERÍCIA SOLICITADA PELO
MINISTÉRIO PÚBLICO – INDEFERIMENTO –
POSSIBILIDADE – COMPETÊNCIA DISCRICIONÁRIA DO
JUIZ, QUE LHE PERMITE, A PARTIR DA AVALIAÇÃO
CRITERIOSA QUANTO À CONVENIÊNCIA, UTILIDADE OU
NECESSIDADE DA MEDIDA, ORDENAR, OU NÃO, SEMPRE
EM DECISÃO FUNDAMENTADA, A ADOÇÃO DESSA
PROVIDÊNCIA DE CARÁTER INSTRUTÓRIO – NÃO
OCORRÊNCIA DE OFENSA AOS PRINCÍPIOS DO
CONTRADITÓRIO E DA PLENITUDE DE DEFESA – (…)
RECURSO ORDINÁRIO IMPROVIDO.”
(RHC 90.719/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO)

Cumpre observar, neste ponto, que essa compreensão do tema – que


reconhece a possibilidade de o juiz indeferir diligências, desde que em
decisão fundamentada, sem que tal negativa configure nulidade processual
por cerceamento de defesa – encontra apoio no magistério da doutrina
(EUGÊNIO PACELLI e DOUGLAS FISCHER, “Comentários ao Código
de Processo Penal e sua Jurisprudência”, p. 828/830, 4ª ed., 2012, Atlas;
MARIA FERNANDA DE TOLEDO R. PODVAL e ROBERTO PODVAL,
“Código de Processo Penal e sua Interpretação Jurisprudencial”,
coordenado por Alberto Silva Franco e Rui Stoco, vol. 4/160-163,
item n. 3.03, cap. V, 2ª ed., 2004, RT; FERNANDO DA COSTA
TOURINHO FILHO, “Código de Processo Penal Comentado”, vol. II/49,
14ª ed., 2012, Saraiva; DENILSON FEITOZA, “Direito Processual Penal –
Teoria, Crítica e Práxis”, p. 485, item n. 9.3, 6ª ed., 2009, Impetus; JULIO
FABBRINI MIRABETE, “Código de Processo Penal Interpretado”,
p. 576/577, item n. 499.3, 2ª ed., 1994, Atlas), valendo referir, por

18

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 38 de 486 3450


AP 996 / DF

relevante, nesse mesmo sentido, a lição de MARCO ANTONIO MARQUES


DA SILVA e JAYME WALMER DE FREITAS (“Código de Processo Penal
Comentado”, p. 625/626, item n. 10, 2012, Saraiva):

“10. Indeferimento de provas irrelevantes, impertinentes


ou protelatórias. O juiz deve cuidar para que as provas
coligidas ao feito sejam úteis para descortinar os fatos
articulados pelas partes. Dentro do espírito de aproximar o
processo penal do processo civil, também aqui, inspirando-se no
art. 130 do Código de Processo Civil e na Lei n. 9.099/95, atinente aos
Juizados Cíveis e Criminais, arts. 33 e 81, a despeito do poder de
produzir provas de ofício na busca da verdade real, o juiz tem a
faculdade de indeferir determinadas provas.
Será irrelevante a prova prescindível, desnecessária para o
desvendamento do fato imputado ou para o fim a que se destina, tal
como exigir prova pericial para descobrir de qual arma foi o disparo
fatal no latrocínio, estando autor e coautor armados no local dos fatos,
bem como em homicídio culposo, tendo o acusado confessado o crime,
mostra-se irrelevante a realização de prova pericial no veículo.
A prova deve ser tida por impertinente quando não guarda
relação com o fato imputado (…).” (grifei)

Impende reproduzir, no ponto, fragmento da decisão proferida pelo


eminente Ministro EDSON FACHIN, ao corretamente negar o pedido da
defesa de Nelson Meurer para realização de perícia sobre valorização
imobiliária de propriedade desse mesmo réu (fls. 2.521/2.524):

“Ainda que o acusado Nelson Meurer tenha, às fls. 2.037, por


ocasião da apresentação da defesa prévia, protestado genericamente
pela ‘produção de todas as provas em direito admitidas, em especial a
documental, testemunhal, pericial e oral...’, o pedido ora formulado
é intempestivo.

19

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 39 de 486 3451


AP 996 / DF

Isso porque, como exige o art. 396-A do Código de


Processo Penal, cumpre ao acusado, quando da apresentação da
defesa, ‘especificar as provas pretendidas’, o que não se
confunde com o protesto genérico pela produção de todas as provas
em direito admitidas.
Somente na presente oportunidade é que o acusado
especifica qual prova pericial pretende produzir, informando que
busca demonstrar a valorização econômica de um imóvel de sua
propriedade, localizado em Francisco Beltrão, o que justificaria seu
incremento patrimonial.
Sendo assim, intempestivo o pedido, só agora
especificado, de produção da prova pericial.
…...................................................................................................
Ainda que se desconsiderasse a intempestividade do pedido
de produção da referida prova, em vista do que dispõe o art. 400,
§ 1º, do CPP, segundo o qual se indeferem as provas
‘consideradas irrelevantes, impertinentes ou protelatórias’,
o pedido formulado pelo acusado não merece deferimento, uma
vez que a alegação da valorização econômica de um determinado
imóvel pode ser demonstrada independentemente de perícia.”
(grifei)

Esses fundamentos foram, agora, expostos, de forma mais minuciosa,


no voto proferido pelo eminente Relator, cujo teor confere plena
legitimidade jurídica à sua decisão:

“A par disso, na visão da nobre defesa, a aplicabilidade


subsidiária do Código de Processo Penal seria permitida apenas na
fase instrutória, nos termos do art. 9º da Lei n. 8.038/1990, da qual
não faria parte a defesa prévia, já que a sua oferta precede ao próprio
recebimento da denúncia.
Entretanto, uma leitura atenta do referido dispositivo
legal evidencia a mera indicação de observância do procedimento
comum previsto no Código de Processo Penal na instrução criminal

20

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 40 de 486 3452


AP 996 / DF

da ação penal originária, sendo inviável extrair da sua redação


qualquer interpretação que limite a aplicabilidade do Estatuto
Processual Penal à fase instrutória. Confira-se:

‘Art. 9º – A instrução obedecerá, no que couber, ao


procedimento comum do Código de Processo Penal’.

Nesse cenário, diante da inexistência de qualquer previsão


específica acerca da oportunidade para o exercício da pretensão
probatória na ação penal originária, seja na Lei n. 8.038/1990 ou no
Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, concluo pela
plena aplicabilidade da norma prevista no art. 396-A do Código de
Processo Penal, que preceitua:

‘Art. 396-A. Na resposta, o acusado poderá arguir


preliminares e alegar tudo o que interesse à sua defesa, oferecer
documentos e justificações, especificar as provas pretendidas e
arrolar testemunhas, qualificando-as e requerendo sua
intimação, quando necessário’.

Como se depreende desse dispositivo transcrito, a


resposta à acusação é o momento processual oportuno para a
defesa ‘especificar as provas pretendidas’. O emprego do verbo
‘especificar’ pelo legislador ordinário impõe à defesa técnica o
ônus de delimitar, de acordo com o panorama fático-
-processual verificado no caso concreto, as provas que
intenciona ver produzidas no processo. Não por outra razão é
que a pretensão será submetida ao crivo da autoridade judiciária, a
qual poderá ‘indeferir as consideradas irrelevantes, impertinentes ou
protelatórias’ (art. 400, § 1º, do CPP). Em suma, o aludido
requerimento de produção probatória, além de específico, deve ser
acompanhado da demonstração da sua relevância para a resolução
do mérito da ação penal.
.......................................................................................................
No caso em apreço, repiso, por ocasião da defesa
preliminar protocolizada em 12.12.2016 (fl. 2.038) os patronos

21

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 41 de 486 3453


AP 996 / DF

constituídos pelo acusado Nelson Meurer limitaram-se a requerer,


de forma genérica, a produção de prova pericial, olvidando-se
de especificar o objeto do exame especializado pretendido, bem
como a sua pertinência para a resolução da causa.
A partir do término da oitiva das testemunhas arroladas pelas
defesas dos acusados e com a designação de datas para os respectivos
interrogatórios, nos termos da decisão de fls. 2.506-2.507, somente
em 18.8.2017 (fl. 2.513) peticionaram os patronos dos
denunciados Nelson Meurer e Nelson Meurer Júnior requerendo a
análise da pretensão de produção da prova pericial, oportunidade
na qual, de forma flagrantemente extemporânea, externaram a
intenção de juntada de ‘perícia contábil’ e de realização de
exame técnico para aferição de alegada valorização de imóvel
localizado na cidade de Francisco Beltrão/PR.
.......................................................................................................
Sobre tais argumentos defensivos, cumpre anotar, num
primeiro momento, que, pela sua generalidade, sequer seria possível
a análise do pleito de produção de prova pericial formulado por ocasião
da defesa prévia, já que não foram individualizados o exame
especializado pretendido, tampouco o seu objeto.” (grifei)

Como se vê, no caso, além de intempestivo – e, portanto, tardio – o


requerimento específico de produção da prova pericial, esta não se revelava
pertinente ou necessária, conforme bem destacou o Ministro Relator, o que
enseja a rejeição dessa preliminar e, em consequência, a prejudicialidade
do segundo agravo interno interposto por Nelson Meurer.

De outro lado, e no que se refere à realização de perícia contábil sobre


os créditos nas contas de Nelson Meurer, cabe destacar que a defesa
desse réu não requereu, em momento algum, tal prova, apenas se
manifestando pelo adiamento do seu interrogatório, ao argumento de que
haveria “diligências de importância ímpar à defesa, como, por exemplo, a
apresentação de relatório contábil (que já se encontra em produção), no
qual se evidenciarão divergências gritantes em relação ao levantamento
contábil/fiscal realizado pela acusação” (fls. 2.516 – grifei). Desse modo, nada

22

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 42 de 486 3454


AP 996 / DF

impedia a defesa de produzir, nos autos, mencionado relatório contábil


que, segundo por ela mesma informado, já se encontrava em elaboração,
como se infere do douto voto hoje proferido pelo eminente Relator:

“Ademais, especificamente no que diz respeito à perícia


sobre os depósitos realizados em contas-correntes vinculadas ao
denunciado Nelson Meurer, destaco que a própria defesa, no
requerimento acima transcrito, afirma ter providenciado a confecção
de relatório contábil, circunstância que evidencia a desnecessidade de
qualquer intervenção judicial no ponto.
Da mesma forma, sublinho a prescindibilidade da produção
de prova pericial à demonstração da alegada valorização de
imóvel de propriedade do aludido acusado situado na cidade de
Francisco Beltrão/PR.
Com efeito, trata-se de fato econômico que não demanda
conhecimentos especializados para a sua correta compreensão
pelo Juízo, razão pela qual a sua demonstração poderia vir aos
autos pela própria defesa, sob a fé de profissionais registrados no
Conselho Regional dos Corretores de Imóveis do Paraná, por exemplo.
Por fim, tal postulação sequer foi requerida pela defesa
técnica na fase do art. 10 da Lei n. 8.038/1990, o que revela, mais
uma vez, a sua dispensabilidade para a resolução do mérito da ação
penal.
Todas essas circunstâncias levam à conclusão pela
inexistência do alegado cerceamento de defesa com o
indeferimento da pretensão probatória, a qual foi, insisto, exercida de
forma extemporânea e desprovida de suporte fático que justificasse a
sua produção. (...).” (grifei)

1.4. Cerceamento de defesa, em razão do indeferimento do pedido de


diligências complementares: inocorrência

Examino, agora, a quarta preliminar arguida pelo réu Nelson Meurer –


também objeto de seu terceiro agravo interno (fls. 2.985/2.996) – no sentido

23

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 43 de 486 3455


AP 996 / DF

de que teria havido cerceamento de defesa ante o indeferimento, pelo


eminente Ministro Relator, do seu pedido de diligências complementares,
voltado à inquirição de 04 (quatro) testemunhas referidas durante a
produção da prova oral.

Cumpre ter presente, neste ponto, que o magistério jurisprudencial


desta Suprema Corte declara, com total correção, que a fase procedimental
instituída pelo art. 10 da Lei nº 8.038/90 – cujo teor encontra idêntica
correspondência no art. 402 (antigo art. 499) do Código de Processo Penal –
não autoriza a reabertura da etapa de ampla realização probatória, mas, tão
somente, o seu complemento, com o propósito exclusivo de esclarecer
circunstâncias ou fatos surgidos durante a instrução (AP 864-AgR/AM,
Rel. Min. ROBERTO BARROSO – HC 87.728/RJ, Rel. Min. AYRES
BRITTO – grifei):

“AGRAVO REGIMENTAL. AÇÃO PENAL. DECISÃO


SINGULAR QUE INDEFERIU PROVA PERICIAL.
PRETENSÃO MERAMENTE PROTELATÓRIA. PEDIDO
INOPORTUNO. DECISÃO MANTIDA POR SEUS
PRÓPRIOS FUNDAMENTOS. AGRAVO DESPROVIDO.
1. A diligência tida por imprescindível pela parte agravante não
foi cogitada uma única vez sequer pela defesa técnica no transcorrer de
todo o processo-crime. Prova técnica imprestável para a exclusão
da ilicitude ou tipicidade do delito, assim como para a
culpabilidade do acusado.
2. A realização de perícia de engenharia civil em cada
uma das dezesseis ‘passagens molhadas’ nenhuma relevância
terá para o deslinde da causa, a não ser para o prolongamento da
instrução criminal, que já se arrasta por mais de sete anos. Caráter
meramente protelatório da diligência requerida.
3. A finalidade da norma que se extrai do artigo 10 da
Lei nº 8.038/90 (correlata ao artigo 499 do CPP) não avança
para o campo da reabertura do espaço de produção probatória.
Ao contrário, oportuniza o revide ou mesmo a confirmação de
fatos e dados surgidos ao longo da marcha processual.

24

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 44 de 486 3456


AP 996 / DF

4. Agravo regimental desprovido com a imediata abertura de


prazo para alegações finais, independentemente da publicação do
acórdão.”
(AP 409-AgR/CE, Rel. Min. AYRES BRITTO – grifei)

Essa particular circunstância – vale observar – foi posta em destaque


pelo eminente Ministro Relator, como o demonstra o seguinte e
expressivo fragmento que se extrai da decisão agravada (fls. 2.970/2.975):

“2. Principio anotando que a atual fase do procedimento


da ação penal originária, disciplinado na Lei n. 8.038/1990,
destina-se a oportunizar a realização de diligências cuja
imprescindibilidade tenha como causa fato ocorrido no curso
da instrução criminal.
…...................................................................................................
3. Nada obstante os argumentos defensivos, (...) a
pretensão da defesa não detém origem em fatos revelados no
decorrer da instrução.
…...................................................................................................
Tratando-se, portanto, de fatos já expostos pelo órgão
acusatório na própria incoativa, eventual pretensão
probatória em relação a estes deveria ter sido manifestada
oportunamente, pois de conhecimento prévio dos acusados,
circunstância que não autoriza o deferimento da diligência
pretendida.
…...................................................................................................
A par disso, a mera referência ao nome de Francisco Dornelles,
sem qualquer implicação nos fatos denunciados, (…), também
não justifica a sua oitiva em juízo na qualidade de testemunha
(…).” (grifei)

É imperioso acentuar, de outro lado, que a questão em tela diz


respeito, em última análise, ao grau de discricionariedade conferido ao
Ministro Relator para apreciar pedido de diligência formulado com base
no art. 10 da Lei nº 8.038/90 (correspondente ao art. 402 do CPP). No caso

25

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 45 de 486 3457


AP 996 / DF

concreto, a diligência consistiria na inquirição de testemunhas referidas,


consideradas relevantes para a defesa.

Embora não se questione que a fase do art. 402 do CPP é o momento


processualmente adequado para que qualquer das partes requeira o
depoimento de testemunha referida (JOSÉ FREDERICO MARQUES,
“Elementos de Direito Processual Penal”, vol. II/341, 1965, Forense),
não procede a objeção, deduzida pelo Deputado Meurer, de que o Relator,
no caso, não poderia indeferir o pedido, sob pena de cerceamento de defesa.

A discricionariedade conferida ao juiz, no particular, encontra


suporte legitimador no art. 209, § 1º, do CPP: “Se ao juiz parecer
conveniente, serão ouvidas as pessoas a que as testemunhas se referirem”
(grifei). E o Supremo Tribunal Federal tem prestigiado, no ponto, a
textualidade da norma, como o fez, p. ex., no julgamento do
HC 60.999/SP, Rel. Min. MOREIRA ALVES:

“(…) no tocante ao alegado cerceamento de defesa, ele


inexiste, uma vez que, em face do disposto no § 1º do artigo 209 do
Código de Processo Penal, as pessoas a que as testemunhas se
referiram só serão ouvidas se ao juiz parecer conveniente, o que
implica dizer que a decisão dessa conveniência cabe
exclusivamente ao juiz.” (grifei)

Vale relembrar, sob tal aspecto, que o ordenamento positivo


proporciona ao Relator a oportunidade de, independentemente de
qualquer alegação das partes, determinar “ex officio” diligências
complementares, como o permite a norma inscrita no art. 11, § 3º, da
Lei nº 8.038/90, sendo certo que a necessidade de tais providências
somente ao magistrado caberá aferir, na medida em que estritamente
destinadas ao seu convencimento quanto à apuração da verdade real
(EDUARDO ESPÍNOLA FILHO, “Código de Processo Penal Brasileiro
Anotado”, vol. III/117, 6ª ed., 1965, Borsoi). Observe-se, ainda, que,
mesmo quando requerida a diligência por uma das partes, ainda assim

26

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 46 de 486 3458


AP 996 / DF

preservar-se-á a discricionariedade reconhecida ao Relator, obrigado,


apenas, a motivar, adequadamente, por efeito do que impõe o art. 93, IX, da
Constituição, o ato decisório veiculador de eventual indeferimento da
medida postulada.

Daí a absoluta correção com que se houve, nessa específica matéria,


o eminente Ministro Relator, cuja decisão ajusta-se, com integral fidelidade,
à diretriz jurisprudencial firmada por esta Corte no tema ora em exame.

Sendo assim, rejeito a presente preliminar e, por conseguinte, julgo


prejudicado o terceiro agravo interno interposto pelo réu Nelson Meurer.

1.5. Necessidade de reunião desta ação penal com os


Inquéritos 3.980/DF e 3.989/DF para julgamento conjunto, sob pena “de
vilipêndio à segurança jurídica”. Matéria preclusa

A questão em epígrafe foi a quinta preliminar suscitada pela defesa


de Nelson Meurer, apesar de já ter sido objeto de análise, por esta Segunda
Turma, por ocasião do recebimento da denúncia, encontrando-se, pois,
atingida pela preclusão, conforme se vê do texto abaixo reproduzido, da
lavra do saudoso Ministro TEORI ZAVASCKI (fls. 1.843/1.845):

“(…) DESCRIÇÃO INDIVIDUALIZADA E OBJETIVA


DAS CONDUTAS ATRIBUÍDAS AOS DENUNCIADOS,
ASSEGURANDO-LHES O EXERCÍCIO DO DIREITO DE
DEFESA. ATENDIMENTO AOS REQUISITOS DO ART. 41 DO
CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. COMPREENSÃO DO
CONJUNTO INVESTIGATÓRIO MESMO COM O
FRACIONAMENTO DOS FATOS. DESCRIÇÃO SUFICIENTE
DO CONCURSO DE AGENTES. (…)
…...................................................................................................
3. Tem-se como hábil a denúncia que descreve, de forma
individualizada e objetiva, as condutas atribuídas aos acusados,
correlacionando-as aos tipos penais declinados. A separação das

27

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 47 de 486 3459


AP 996 / DF

condutas em vários momentos, visando melhor apontar os diversos


crimes de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro, bem como
a menção a pessoas investigadas em outras instâncias, não
impede o processamento dos denunciados em demanda
autônoma, notadamente quando esclarecida a participação de
cada um deles nos eventos. (…) O fracionamento dessa
investigação em várias ações penais não inviabiliza a
compreensão do todo, porque a referência aos aqui acusados
encontra-se perfeitamente delineada. Ademais, os denunciados
defendem-se na medida de suas imputações, não tendo relevância
condutas outras que não estejam materialmente imbricadas de modo a
revelar a necessidade de reunião de processos. (…).”
(Inq 3.997/DF, Rel. Min. TEORI ZAVASCKI – grifei)

De qualquer maneira, ainda que superado o óbice apontado, impende


enfatizar que o Supremo Tribunal Federal, com apoio no art. 80 do CPP,
tem entendido possível, em inúmeras decisões, a separação ou a cisão do
feito, presente motivo relevante que torne conveniente a adoção dessa
providência, como sucede, p. ex., nas hipóteses em que se registre
pluralidade de litisconsortes penais passivos, tal como ocorre na espécie ora
em exame (AP 561/PE, Rel. Min. CELSO DE MELLO – Inq 1.741/MA, Rel.
Min. CELSO DE MELLO – Inq 2.168-ED/RJ, Rel. Min. JOAQUIM
BARBOSA – Inq 2.706-AgR/BA, Rel. Min. MENEZES DIREITO – Pet 2.020-
-QO/MG, Rel. Min. NÉRI DA SILVEIRA, v.g.):

“AGRAVO REGIMENTAL EM AÇÃO PENAL.


PROCESSUAL PENAL. DEPUTADO FEDERAL.
PLURALIDADE DE RÉUS. DECLINAÇÃO DA
COMPETÊNCIA. DESMEMBRAMENTO. PRECEDENTES.
AGRAVO REGIMENTAL AO QUAL SE NEGA
PROVIMENTO.
1. O Relator pode decidir monocraticamente sobre todas
as providências pertinentes ao bom andamento do processo,
determinando, inclusive, a declinação da competência e o
desmembramento do feito. Precedentes.

28

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 48 de 486 3460


AP 996 / DF

2. A jurisprudência deste Supremo Tribunal é firme no


sentido de que o elevado número de agentes demanda
complexa dilação probatória a justificar o desmembramento.
Precedentes.
3. Desmembrado o processo-crime para que seja julgado o
recurso de apelação interposto pelo réu detentor da prerrogativa de
foro de que trata o art. 102, inc. I, alínea ‘b’, da Constituição da
República, não mais persiste a competência deste Supremo Tribunal
Federal para decidir sobre os demais pedidos do Agravante.
4. Agravo regimental ao qual se nega provimento.”
(AP 641-AgR/RJ, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – grifei)

“PENAL. PROCESSUAL PENAL. INQUÉRITO.


AGRAVOS REGIMENTAIS. INDICIADOS SEM
PRERROGATIVA DE FORO. DESMEMBRAMENTO.
POSSIBILIDADE. PRECEDENTES. AGRAVOS
DESPROVIDOS.
I – O elevado número de agentes demanda complexa
dilação probatória a justificar o desmembramento do feito.
Precedente do INQ 2706, Rel. Min. Menezes Direito.
II – Ademais, salvo hipóteses excepcionais, onde a conduta
dos agentes esteja imbricada de tal modo que torne por demais
complexo individualizar a participação de cada um dos envolvidos, é
de se desmembrar o feito em relação aos que não possuem foro
perante o STF.
III – Agravos Regimentais desprovidos.”
(Inq 2.471-AgR-Quinto/SP, Rel. Min. RICARDO
LEWANDOWSKI – grifei)

Observo, também, que, no caso que ora se examina, não houve


comprovação de qualquer prejuízo decorrente da não reunião, para
julgamento conjunto, em “simultaneus processus”, dos procedimentos
indicados pela defesa.

29

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 49 de 486 3461


AP 996 / DF

Não foi outra a compreensão exposta, no presente caso, por esta


colenda Turma, na sessão de julgamento que admitiu a instauração da
presente causa penal, como se vê de expressiva passagem do voto então
proferido pelo saudoso Ministro TEORI ZAVASCKI, Relator originário,
que pôs em relevo a inocorrência, na espécie, de qualquer prejuízo em
detrimento dos réus em questão (fls. 1.860/1.867):

“(…) A simples menção a pessoas investigadas em outras


instâncias, por si só, não impede o processamento dos
denunciados em demanda autônoma, porque, como dito, a peça
acusatória, de forma muita clara, descreve a participação de cada um
deles nos eventos. Ao lado disso, poderá a defesa, caso entenda
conveniente, juntar a qualquer tempo documento ou declaração
existente nesses outros procedimentos investigatórios ou ações penais
que tramitam em foro diverso.
…...................................................................................................
Também não procede a alegação de que o fracionamento
da investigação em várias ações penais inviabilizou a
compreensão do todo – aludindo a defesa aos episódios em que
Nelson Meurer teria recebido dinheiro com a participação de terceiros
denunciados em foro diverso –, notadamente porque a referência
aos aqui acusados encontra-se perfeitamente delineada na
denúncia, conforme já afirmado, demonstrando a efetiva participação
nos fatos, descabendo falar, assim, em indissociável vinculação
entre os delitos apurados neste procedimento e os supostamente
praticados por Paulo Roberto Costa, Alberto Youssef e outros.
.......................................................................................................
Nessa linha, refuta-se a alegação de necessidade do
‘julgamento conjunto do feito’ com suas subdivisões (…).”
(grifei)

A rejeição da preliminar, portanto, tal como propôs o eminente


Relator, é medida que se impõe.

30

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 50 de 486 3462


AP 996 / DF

1.6. Contradita acolhida em relação à testemunha arrolada pela


defesa. Violação ao devido processo legal e quebra da paridade de armas
entre acusação e defesa: inocorrência

Finalmente, a defesa de Nelson Meurer, na sexta preliminar arguida,


insurge-se contra o acolhimento, em juízo, da contradita suscitada pelo
“dominus litis” em relação a João Alberto Pizzolatti Júnior, cujo
depoimento, por isso mesmo, foi tomado sem a prestação do compromisso de
dizer a verdade, em razão de, em tese, achar-se o informante alegadamente
envolvido na prática criminosa, o que, segundo o parlamentar acusado,
romperia a paridade de armas entre os sujeitos processuais, com
consequente violação à garantia do “due process of law”.

Inconsistente essa impugnação do acusado em referência, pois a


contradita constitui medida acessível a qualquer dos sujeitos da relação
processual penal, qualificando-se como verdadeiro incidente processual no
curso do procedimento probatório de inquirição de testemunhas, eis que
se destina a tornar efetiva a regra legal que objetiva impedir
depoimentos de pessoas suspeitas de parcialidade, ou indignas de fé, ou,
ainda, interessadas na resolução do litígio.

Em ocorrendo tais circunstâncias, o Juiz fará consignar a contradita,


bem assim a resposta da testemunha, impedindo-a de depor nos casos
em que for ela proibida de fazê-lo (CPP, art. 207) ou, então, não lhe
deferindo o compromisso nas hipóteses a que se refere o art. 208 do
estatuto processual penal.

E foi, precisamente, o que ocorreu na espécie, pois o depoimento de


João Alberto Pizzolatti Júnior foi efetivamente tomado, sem que se lhe
deferisse o compromisso a que alude o art. 203 do CPP.

Vale destacar que essa compreensão do tema tem o beneplácito da


jurisprudência desta Corte (HC 89.671/RJ, Rel. Min. EROS GRAU –

31

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 51 de 486 3463


AP 996 / DF

RHC 99.768/MG, Rel. Min. TEORI ZAVASCKI – RHC 116.108/RJ, Rel.


Min. RICARDO LEWANDOWSKI):

“AÇÃO PENAL. TERCEIRA QUESTÃO DE ORDEM. (…)


ARROLAMENTO DOS CORRÉUS COMO TESTEMUNHAS.
IMPOSSIBILIDADE. APROVEITAMENTO DOS
DEPOIMENTOS NA CONDIÇÃO DE INFORMANTES.
VIABILIDADE. RESPEITO AOS DITAMES LEGAIS E AO
PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO. QUESTÃO DE ORDEM
RESOLVIDA PARA AFASTAR A QUALIDADE DE
TESTEMUNHAS E MANTER A OITIVA DOS CO-RÉUS NA
CONDIÇÃO DE INFORMANTES.
…...................................................................................................
6. O fato de não terem sido denunciados nestes autos
não retira dos envolvidos a condição de corréus. Daí a
impossibilidade de conferir-lhes a condição de testemunhas no
feito.”
(AP 470-QO-Terceira/MG, Rel. Min. JOAQUIM
BARBOSA – grifei)

“AÇÃO PENAL. CORRÉU ARROLADO COMO


TESTEMUNHA. ILEGALIDADE. INDEFERIMENTO DA
OITIVA (…).”
…...................................................................................................
O corréu, ainda que responda pela prática criminosa em autos
diversos – oriundos, v.g., de desmembramento – não ostenta
qualidade de testemunha, razão pela qual se revela ilegítimo
incluí-lo no rol de testemunhas, salvo quando se comprometa com
a condição de colaborador, nos termos da Lei 9.807/99.”
(AP 923/DF, Rel. Min. LUIZ FUX – grifei)

Com efeito, o Supremo Tribunal Federal, em reiteradas decisões, tem


advertido que “O sistema processual brasileiro não admite a oitiva de co-réu
na qualidade de testemunha ou, mesmo, de informante (…)”, ainda que não
tenha sido ele acusado no mesmo processo penal em que se pretenda a

32

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 52 de 486 3464


AP 996 / DF

sua inquirição (AP 470-AgR-sétimo/MG, Rel. Min. JOAQUIM


BARBOSA – grifei), exceto se se tratar de agente colaborador cujo
depoimento seja prestado no contexto do regime jurídico de colaboração
premiada, hipótese inocorrente na espécie destes autos, motivo pelo
qual esta Corte se pronunciou, no precedente ora referido, no sentido de
“(...) ser aplicada a regra geral da impossibilidade de o co-réu ser ouvido como
testemunha ou, ainda, como informante”.

Esse entendimento, por sua vez, que tem suporte em autorizado


magistério doutrinário (GUSTAVO BADARÓ, “Processo Penal”, p. 454/455,
item n. 10.5.2, 4ª ed., 2016, RT; JULIO FABBRINI MIRABETE, “Código de
Processo Penal Interpretado”, p. 260/261, item n. 207.2 a 208.1, 2ª ed.,
1994, Atlas; EUGÊNIO PACELLI e DOUGLAS FISCHER, “Comentários
ao Código de Processo Penal e sua Jurisprudência”, p. 416/417,
item n. 186.7, 9ª ed., 2017, Atlas; ANDRÉ NICOLITT, “Manual de
Processo Penal”, p. 691, item n. 9.3.1.6, 6ª ed., revista, atualizada e
ampliada, 2016, RT; GUILHERME DE SOUZA NUCCI, “Código de
Processo Penal Comentado”, p. 506/507, item n. 11, 14ª ed., 2015, Forense;
DAMÁSIO E. DE JESUS, “Código de Processo Penal Anotado”, p. 2015,
25ª ed., 2012, Saraiva; RENATO MARCÃO, “Curso de Processo Penal”,
p. 532/533, item n. 10.1.10.23, 2014, Saraiva; ROGÉRIO SANCHES
CUNHA e RONALDO BATISTA PINTO, “Código de Processo Penal e
Lei de Execução Penal Comentados”, p. 553/554, 2017, JusPODIVM;
MARCO ANTÔNIO MARQUES DA SILVA e JAYME WALMER DE
FREITAS, “Código de Processo Penal Comentado”, p. 346, item n. 1,
2012, Saraiva; MARCELLUS POLASTRI LIMA, “Curso de Processo
Penal”, p. 572, item n. 14, 9ª ed., 2016, Gazeta Jurídica, v.g.), tem
igualmente prevalecido na jurisprudência de outros Tribunais
judiciários, cujos pronunciamentos ressaltam a impossibilidade jurídica de
tomar-se o depoimento, na condição de testemunha devidamente
compromissada, de pessoa sujeita, em outro procedimento criminal, a ações
penais concernentes aos mesmos episódios delituosos, daí não se
podendo vislumbrar qualquer cerceamento ao exercício do direito de

33

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 53 de 486 3465


AP 996 / DF

ampla defesa assegurado aos acusados em geral (HC 88.223/RJ, Rel. Min.
JANE SILVA – RHC 40.257/SP, Rel. Min. JORGE MUSSI – RHC 65.835/DF,
Rel. Min. REYNALDO SOARES DA FONSECA):

“O indeferimento de oitiva de corréu como testemunha


não configura cerceamento de defesa, visto que, por também ser
réu, não está submetido à obrigação de dizer a verdade nem de
responder às perguntas feitas, por força do art. 5º, LXIII, da CF,
que lhe assegura o direito de permanecer em silêncio, não podendo,
portanto, colaborar com a busca da verdade, que é o objetivo da
prova testemunhal (TACRIM-SP – 6ª C. – AP 1.177.393/5 – Rel.
Almeida Braga – j. 15.12.1999 – RT 777/627).” (grifei)

Cumpre destacar, nesse sentido, que o informante João Alberto


Pizzolatti Júnior integrava, no curso dos fatos descritos na denúncia, a
cúpula da agremiação partidária a que pertence o parlamentar Meurer
(PP), e que, de acordo com a peça acusatória, comporia o mesmo grupo
criminoso que, em comunhão de esforços e desígnios, viabilizou a captura de
destacado segmento da empresa petrolífera governamental, com o
propósito específico de auferir vantagens indevidas, tanto de ordem
pessoal quanto de natureza político-partidária.

Assinalo que o ex-parlamentar João Alberto Pizzolatti Júnior, embora


não tenha figurado como investigado no Inq 3.997/DF (que precedeu o
ajuizamento da presente ação penal), veio a sofrer investigação e
persecução criminais instaurados em procedimentos autônomos a
propósito de fatos que compõem o mesmo contexto delinquencial,
circunstância essa que – por não descaracterizar a qualidade de referido
ex-congressista como suposto autor, coautor ou partícipe, e virtual corréu,
não obstante em outro processo penal (Inq 3.980/DF, com denúncia já
recebida) –, justificou, no caso, a inviabilidade de sua inquirição como
testemunha compromissada.

34

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 54 de 486 3466


AP 996 / DF

Devo registrar, de outro lado, que o princípio do livre convencimento


motivado ou o critério da persuasão racional outorga ao magistrado, na
tentativa de reconstruir, nos autos, o caminho da verdade histórica, a
possibilidade de valorar, sem quaisquer embaraços ou restrições de ordem
normativa, as provas produzidas sob o crivo do contraditório, uma vez
que não vigora, entre nós, o sistema da prova legal ou tarifada. Daí a
advertência formulada pelo Superior Tribunal de Justiça a propósito dessa
questão, em julgamento de que foi Relator o eminente Ministro NEFI
CORDEIRO (RHC 75.856/SP), em voto de que consta, em expressiva
análise do tema, o seguinte fragmento:

“A diferença de valor da prova colhida, como informante


ou testemunha, com ou sem compromisso de dizer a verdade, é
matéria de ponderação judicial e não de classificação em uma
ou outra categoria de prova oral.” (grifei)

Isso significa dizer, portanto, ao contrário do que sustenta a defesa,


que a qualidade de informante atribuída a João Alberto Pizzolatti Júnior
não compromete, por si só, eventual força probatória de seu depoimento,
cuja verossimilhança e plausibilidade devem ser aferidas, pelo órgão julgador,
em cotejo com os demais elementos de convicção produzidos no curso deste
processo penal de conhecimento.

Cabe reconhecer, por necessário e relevante, que se assegurou aos


acusados, na espécie, o exercício de seu direito de confronto (“right of
confrontation”) em relação ao depoimento do aludido informante, não tendo
havido qualquer manifestação de inconformismo quanto ao teor das
declarações por ele prestadas.

Em uma palavra: o ato processual em referência não se ressente da


eiva de nulidade, tampouco transgrediu a cláusula do “due process of law”
ou desrespeitou o necessário equilíbrio de armas entre acusação e defesa,
não havendo que se cogitar, por isso mesmo, de prejuízo a qualquer dos
réus.

35

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 55 de 486 3467


AP 996 / DF

Incensurável, desse modo, o voto do eminente Ministro EDSON


FACHIN, Relator, quando, ao rejeitar a questão preliminar ora em exame,
assim se pronunciou:

“Como última questão prefacial ao mérito da acusação, a


defesa técnica do denunciado Nelson Meurer sustenta que a
testemunha João Alberto Pizzolatti Júnior foi indevidamente
contraditada em sua oitiva a pedido do Ministério Público Federal,
circunstância que redundaria na quebra da paridade de armas,
já que, das 11 (onze) pessoas arroladas por ocasião da defesa prévia,
apenas 7 (sete) prestaram o compromisso de dizer a verdade, na
forma do art. 203 do Código de Processo Penal.
Nada obstante, como consignado em audiência, a referida
testemunha figura como denunciada no INQ 3.980, no qual a
Procuradoria-Geral da República lhe imputa a prática de condutas
semelhantes às narradas nesta ação penal e que, por conveniência da
prestação jurisdicional, tramitaram de forma separada em função
de desmembramento.
Constata-se, portanto, que a sua situação subjetiva se
amolda ao disposto no art. 405, § 3º, IV, do Código de Processo
Civil, aplicável ao caso por força do art. 3º do Código de Processo
Penal, na medida em que é notório o seu interesse no litígio, já
que condutas semelhantes lhe são atribuídas em denúncia
diversa já oferecida e recentemente recebida pelo órgão colegiado.
Nesse cenário, a dispensa do compromisso de dizer a
verdade exigido no art. 203 do Código de Processo Penal é medida
consentânea com o direito ao silêncio garantido a qualquer
acusado da prática de fato definido como crime pelo ordenamento
jurídico pátrio, e evita a ocorrência de constrangimento apto a
macular o exercício do direito de defesa que é corolário do
devido processo legal garantido no art. 5º, LIV, da Constituição
Federal (...).
.......................................................................................................
Convém ressaltar que, no ordenamento jurídico processual
penal pátrio, não vige o sistema de provas tarifadas, tendo o

36

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 56 de 486 3468


AP 996 / DF

Estado-Juiz o poder de exercer a livre apreciação do conjunto


probatório, cuja valoração deve ser objeto de expressa motivação,
em observância à garantia insculpida no art. 93, IX, da Constituição
Federal.
Desse modo, não se constata qualquer prejuízo à defesa
na oitiva de João Alberto Pizzolatti Júnior na qualidade de
informante, cujas declarações serão objeto de oportuna e
adequada valoração, assim como os demais elementos
probatórios produzidos no decorrer da instrução criminal, por
ocasião do enfrentamento do mérito da ação penal.
Ante o exposto, rejeito a preliminar suscitada.” (grifei)

Em suma: são esses, Senhor Presidente, os fundamentos que me


levam a acompanhar, integralmente, o douto voto que Vossa Excelência
vem de proferir, rejeitando, por isso mesmo, todas as preliminares
arguidas na presente causa penal.

É o meu voto.

37

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14840379.
Supremo Tribunal Federal
Extrato de Ata - 15/05/2018

Inteiro Teor do Acórdão - Página 57 de 486 3469

SEGUNDA TURMA
EXTRATO DE ATA

AÇÃO PENAL 996


PROCED. : DISTRITO FEDERAL
RELATOR : MIN. EDSON FACHIN
REVISOR : MIN. CELSO DE MELLO
AUTOR(A/S)(ES) : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA
ASSIST.(S) : PETRÓLEO BRASILEIRO S/A - PETROBRAS
ADV.(A/S) : TALES DAVID MACEDO (20227/DF) E OUTRO(A/S)
RÉU(É)(S) : NELSON MEURER
ADV.(A/S) : MICHEL SALIBA OLIVEIRA (24694/DF)
ADV.(A/S) : RICARDO LIMA PINHEIRO DE SOUZA (50393/DF)
RÉU(É)(S) : NELSON MEURER JÚNIOR
ADV.(A/S) : MARINA DE ALMEIDA VIANA (52204/DF)
ADV.(A/S) : GABRIELA GUIMARÃES PEIXOTO (30789/DF)
ADV.(A/S) : PRISCILA NEVES MENDES (44051/DF)
ADV.(A/S) : MICHEL SALIBA OLIVEIRA (24694/DF)
RÉU(É)(S) : CRISTIANO AUGUSTO MEURER
ADV.(A/S) : GABRIELA GUIMARÃES PEIXOTO (30789/DF)
ADV.(A/S) : RICARDO LIMA PINHEIRO DE SOUZA (50393/DF)
ADV.(A/S) : MICHEL SALIBA OLIVEIRA (24694/DF)

Decisão: Após o voto do Relator, que rejeitava todas as


preliminares e, de consequência, julgava prejudicados os agravos
regimentais respectivos, no que foi acompanhado integralmente pelo
Ministro Celso de Mello, Revisor, foi suspenso o julgamento cuja
retomada se dará ao início da próxima sessão do dia 22 de maio
corrente, com a colheita dos demais votos. Falaram: pelo
Ministério Público Federal, a Dra. Cláudia Sampaio Marques; pelo
assistente Petróleo Brasileiro S/A – PETROBRAS, o Dr. André
Tostes; pelo réu Nelson Meurer, o Dr. Alexandre Jobim; e, por
Nelson Meurer Júnior e Cristiano Augusto Meurer, o Dr. Michel
Saliba Oliveira. Ausente, justificadamente, o Ministro Dias
Toffoli. Presidência do Ministro Edson Fachin. 2ª Turma,
15.5.2018.

Presidência do Senhor Ministro Edson Fachin. Presentes à


sessão os Senhores Ministros Celso de Mello, Gilmar Mendes e
Ricardo Lewandowski. Ausente, justificadamente, o Senhor Ministro
Dias Toffoli, em face da participação, na qualidade de
representante do Supremo Tribunal Federal, do VIII Fórum Jurídico
Internacional de São Petersburgo, realizado na Rússia.

Subprocuradora-Geral da República, Dra. Cláudia Sampaio


Marques.

Marília Montenegro
Secretária Substituta

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infra-estrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o número 14880907
Supremo Tribunal Federal
Esclarecimento

Inteiro Teor do Acórdão - Página 58 de 486 3470

22/05/2018 SEGUNDA TURMA

AÇÃO PENAL 996 DISTRITO FEDERAL

ESCLARECIMENTO

O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI:


Senhor Presidente, eminentes Colegas, Senhora Procuradora,
Senhores Advogados. Preliminarmente, é fato público e notório que eu
não estive presente na sessão da semana passada, em razão de
representação desta Corte em um fórum internacional onde se reuniram
cerca de oitenta Cortes Constitucionais de todo o mundo. Mas,
evidentemente que, com os recursos técnicos que hoje nós temos - e digo
isso às partes, tanto ao Ministério Público, quanto aos advogados; e vejo
que assentem os senhores advogados quanto a isso -, encontro-me
habilitado para a votação.
Também gostaria de fazer dois registros: um inicial, sobre Vossa
Excelência, Senhor Presidente e Relator, e sobre o Revisor, Ministro Celso
de Mello, que muito gentilmente me encaminharam, logo de imediato ao
seu proferimento, os votos sobre as preliminares. E o segundo registro diz
respeito ao Ministro Ricardo Lewandowski e ao Ministro Gilmar
Mendes, que aguardaram para votar sobre as preliminares na ordem da
composição da Turma.

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15106765.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 59 de 486 3471

22/05/2018 SEGUNDA TURMA

AÇÃO PENAL 996 DISTRITO FEDERAL

VOTO SOBRE PRELIMINARES

O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI:


Passo a enfrentar, sem maiores delongas, as seis preliminares
arguidas pela defesa, bem destacadas pelo eminente Relator em seu voto:

1 – Violação da paridade de armas, em razão da concessão de prazo


sucessivo para alegações finais à Procuradoria-Geral da República e à
assistente de acusação, mas de prazo comum à defesa para a mesma
finalidade.
Como bem destacado pelo Relator, embora físicos os autos, seu
conteúdo é integralmente disponibilizado às partes de forma digital, que
podem acessá-lo a todo tempo.
Não bastasse isso, o réu Nelson Meurer apresentou sólidas e
alentadas alegações finais para, contrapondo-se às hipóteses acusatórias,
tecer suas próprias teses defensivas, numa demonstração inequívoca da
ausência de prejuízo.
Inexiste, pois, nulidade a ser reconhecida.

2 - Cerceamento de defesa, derivado do indeferimento de pedido


de substituição de testemunhas.
Essa questão, reiterada em preliminar de alegações finais, está
acobertada pela preclusão.
A decisão do eminente Relator de indeferir o pedido de substituição
de testemunhas de defesa foi objeto de agravo regimental, ao qual esta
Colenda Segunda Turma negou provimento (AP 996/DF-AgR, Relator o
Ministro Edson Fachin, DJe de 28/8/17).
Transcrevo sua ementa:

“AGRAVOS REGIMENTAIS. AÇÃO PENAL.


SUBSTITUIÇÃO DE TESTEMUNHAS. APLICABILIDADE
DO ART. 451 DO CÓDIDO DE PROCESSO CIVIL, NOS

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15106766.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 60 de 486 3472


AP 996 / DF

TERMOS DO ART. 3º DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL


E ART. 9º DA LEI N. 8.038/1990. HIPÓTESES NÃO
VERIFICADAS. REQUERIMENTO DESMOTIVADO.
IMPOSSIBILIDADE. INSURGÊNCIAS DESPROVIDAS.
1. Não havendo previsão legal específica, aplica-se o
disposto no art. 451 do Código de Processo Civil, na forma do
art. 3º do Código de Processo Penal e do art. 9º da Lei n.
8.038/1990, para o regramento do pleito de substituição de
testemunhas no processo penal.
2. Operada a preclusão consumativa da pretensão
probatória com a apresentação do rol de testemunhas, a
posterior substituição destas só é permitida nos casos de não
localização, falecimento ou enfermidade que inviabilize o
depoimento.
3. No caso, os agravantes não indicam qualquer
circunstância concreta superveniente à indicação do rol de
testemunhas que dê embasamento ao pleito excepcional de
substituição, assinalando que, inclusive, tinha ciência da
anterior indicação dos mesmos testigos pela acusação.
4. Agravos regimentais desprovidos.”

3 - Cerceamento de defesa, pela não admissão da produção de


prova pericial.
O eminente Relator, em seu voto, rejeita a preliminar em questão,
secundado pelo douto Revisor.
Embora meu entendimento seja convergente na conclusão, divirjo,
respeitosamente, de uma das premissas adotadas por Suas Excelências,
qual seja, a de intempestividade do requerimento de produção de prova
pericial.
A Lei nº 8.038/90 prevê, em seu art. 4º, § 1º, a fase preliminar da
resposta à acusação, in verbis:

“Art. 4º - Apresentada a denúncia ou a queixa ao Tribunal,


far-se-á a notificação do acusado para oferecer resposta no
prazo de quinze dias.

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15106766.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 61 de 486 3473


AP 996 / DF

§ 1º - Com a notificação, serão entregues ao acusado cópia


da denúncia ou da queixa, do despacho do relator e dos
documentos por este indicados.”

Outrossim, recebida a denúncia ou queixa, prevê a Lei nº 8.038/90,


em seu art. 8º, a intimação do réu para oferecimento da defesa prévia.
A lei de regência da ação penal originária, portanto, assim desdobra,
nas fases iniciais do procedimento, o exercício do direito de defesa: i)
resposta preliminar e ii) defesa prévia.
Nesse sentido, posiciona-se Daniel Marchionatti, eminente
Magistrado Instrutor desta Suprema Corte, em obra inédita:

“A resposta à acusação do processo comum do CPP


concentra em uma manifestação aquilo que a Lei do Processo
nos Tribunais divide em duas: a defesa contra a admissibilidade
da acusação e o requerimento de provas. A Lei do Processo nos
Tribunais prevê a defesa contra a admissibilidade da acusação
na resposta (art. 4º) e o requerimento de provas na defesa
prévia (art. 8º)” (Processo penal contra autoridades: foro
privilegiado, inviolabilidades, investigação e ação penal.
Brasília: 2018 (no prelo) – grifei.

A meu sentir, portanto, a fase para o acusado especificar as provas


pretendidas e arrolar testemunhas é a da defesa prévia a que se refere o
art. 8º da Lei nº 8.038/90, e não a fase da resposta preliminar à acusação
(art. 4º da lei em questão).
Muito embora o Código de Processo Penal, para os procedimentos
ordinário e sumário, tenha unificado essas fases nos arts. 396 e 396-A,
essa unificação não se estendeu à Lei nº 8.038/90, por força do art. 394, §
4º, do Código de Processo Penal.
Transcrevo os arts. 396 e 396-A do Código de Processo Penal:

“Art. 396. Nos procedimentos ordinário e sumário,


oferecida a denúncia ou queixa, o juiz, se não a rejeitar
liminarmente, recebê-la-á e ordenará a citação do acusado para

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15106766.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 62 de 486 3474


AP 996 / DF

responder à acusação, por escrito, no prazo de 10 (dez) dias.


[...]
Art. 396-A. Na resposta, o acusado poderá argüir
preliminares e alegar tudo o que interesse à sua defesa, oferecer
documentos e justificações, especificar as provas pretendidas e
arrolar testemunhas, qualificando-as e requerendo sua
intimação, quando necessário.”

Por sua vez, o art. 394, § 4º, do Código de Processo Penal


expressamente determina que “as disposições dos arts. 395 a 398 deste
Código aplicam-se a todos os procedimentos penais de primeiro grau,
ainda que não regulados neste Código”.
Assim, caso se antecipasse para a fase do art. 4º da Lei nº 8.038/90 o
momento de proposição de provas pela defesa, o art. 8º, que trata da
defesa prévia na ação penal originária, restaria completamente esvaziado
e desprovido de sentido.
O art. 8º da Lei nº 8.038/90, portanto, não foi tacitamente revogado,
em face do quanto dispõe o art. 394, § 4º, do Código de Processo Penal.
Com a mais respeitosa vênia, nesse contexto, em minha
compreensão, o requerimento formulado pelo réu de produção de provas
é tempestivo, uma vez que deduzido oportunamente na fase da defesa
prévia (art. 8º da Lei nº 8.038/90).
De toda sorte, a proposição oportuna da produção da prova pericial
não torna automática sua admissão, vale dizer, o requerimento oportuno
não importa em seu consequente deferimento.
Nesse particular, o fato de não se aplicar o art. 396-A do Código de
Processo Penal à ação penal originária não impede que sua ratio seja
invocada para a correta interpretação do art. 8º da Lei nº 8.038/90.
Logo, não basta à defesa deduzir, tal como na espécie, um protesto
genérico e imotivado pela produção de todos os meios de prova em
Direito admitidos, “em especial a documental, testemunhal, pericial e
oral”.
Seja na resposta à acusação dos procedimentos ordinário e sumário
de primeiro grau, regida pelo art. 396-A, do Código de Processo Penal,

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15106766.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 63 de 486 3475


AP 996 / DF

seja na defesa prévia do procedimento da ação penal originária dos


tribunais, regida pelo art. 8º da Lei nº 8.038/90, é indeclinável o dever da
defesa de especificar as provas que pretenda produzir, justificando,
desde logo, no caso da prova pericial, sua pertinência e relevância.
A vedação às provas impertinentes e irrelevantes constitui um limite
lógico ao direito à prova.
Como observa Michele Taruffo, o critério de relevância da prova

“(...) exprime uma exigência de ordem generalíssima,


ligada ao princípio de economia processual, bem expressa na
regra tradicional pela qual frustra probatur quod probatum non
relevat. Não por acaso, esse critério, com poucos e não
significativas variantes terminológicas, está presente em todos
os ordenamentos, uma vez que nenhum deles admite o
desperdício de atividade processual consistente em dar
ingresso a provas que a priori parecem inúteis para a verificação
dos fatos” (La prova del fatti giuridici. Milano: Giufrrè, 1992. p.
358.

Para Antônio Magalhães Gomes Filho,

“[o] direito das partes à introdução, no processo, das


provas que entendam úteis e necessárias à demonstração dos
fatos em que se assentam suas pretensões, embora de índole
constitucional, não é, entretanto, absoluto. Ao contrário, como
qualquer direito, também está sujeito a limitações decorrentes
da tutela que o ordenamento confere a outros valores e
interesses igualmente dignos de proteção.
(...)
Esses limites probatórios podem ter fundamentos
extraprocessuais (políticos), como ocorre em relação à proibição
de introdução de provas obtidas com violação de direitos
fundamentais, ou processuais (lógicos, epistemológicos), quando se
excluem, por exemplo, as provas impertinentes, irrelevantes, ou
que possam conduzir o julgador a uma avaliação errônea”

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15106766.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 64 de 486 3476


AP 996 / DF

(Direito à prova no processo penal. São Paulo: RT, 1997. p. 91-


93).

Para o eminente Professor Titular do Largo de São Francisco, a prova


é pertinente quando houver conexão entre o meio de prova requerido e os
fatos controvertidos, ao passo que a prova é relevante quando tiver a
aptidão para estabelecer a existência ou inexistência, a verdade ou
falsidade, de um outro fato por meio do qual seja possível realizar uma
inferência lógica do fato principal”. (op. cit., p. 130).
Segundo Gustavo Badaró,

“[a] análise da relevância deve ser fundada em mero juízo


hipotético, de relação entre o fato que se pretende provar com o
meio requerido e o fato que constitui a imputação penal, ou a
res in iudicio deducta. É um julgamento ex ante, para definir a
admissibilidade da prova com base nas aquisições probatórias
que hipoteticamente resultarão do meio requerido pela parte”
(grifei).

Assim,

“[o] meio de prova requerido pela parte será relevante


quando for potencialmente apto a introduzir fatos
representativos que possam determinar alguma escolha do juiz,
quando futuramente tiver que, de modo racional, decidir e
justificar a escolha de uma afirmação sobre aspectos fáticos que
integram o fato principal ou fatos secundários” (Direito à prova
e os limites lógicos de sua admissão: os conceitos de
pertinência e relevância – disponível em http://badaro
advogados.com.br/direito-a-prova-e-os-limites-logicos-de-sua-
admissao-os-conceitos-de-pertinencia-e-relevancia.html).

Gustavo Badaró, após enfrentar a tormentosa questão terminológica


que envolve os conceitos de pertinência e relevância, propõe a seguinte
distinção:

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15106766.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 65 de 486 3477


AP 996 / DF

“Um fato que se pretende provar por um determinado


meio de prova será pertinente quando houver um juízo de
identidade entre esse fato que se pretende provar e fato que
integra a imputação ou a causa de pedir (fato jurídico ou
principal). O fato objeto do prova pertine ao fato objeto do
processo. Há, pois, uma relação lógica de pertinência. Numa
linguagem processual civilística, o factum probans dirá respeito
ao fato constitutivo, modificativo, impeditivo ou extintivo do
direito. No campo processual penal, dirá respeito ao fato típico,
antijurídico e culpável, bem com a sua autoria, além de
qualquer aspecto fático que se inclua num juízo de subsunção
de fatos consideráveis na dosimetria da pena.
Por outro lado, o fato que se pretende provar será
relevante quando, na hipótese de ser demonstrado pelo
resultado probatório, permita inferir, com base nas máximas de
experiência normalmente aceitas, a ocorrência ou inocorrência
de um aspecto fático da imputação ou causa de pedir (sendo,
pois, um fato secundário ou circunstancial).
(...)
De forma mais simples. Fato pertinente é aquele,
abstratamente, que tem por objeto o fato principal ou
jurídico. Fato relevante é aquele que tem por objeto um fato
secundário ou circunstancial, que por inferência, se relaciona
com o fato principal” (op. cit., grifo nosso).

Como destaquei nesta Colenda Turma, no voto condutor de


recentíssimo julgado de minha relatoria (HC nº 155.363/RJ), “(...) o
princípio do livre convencimento motivado (CPP, art. 400, § 1º) ‘faculta ao
juiz o indeferimento das provas consideradas irrelevantes, impertinentes
ou protelatórias’”.
Na espécie, como bem apontou o eminente Relator,

“os patronos constituídos pelo acusado Nelson Meurer


limitaram-se a requerer, de forma genérica, a produção de
prova pericial, olvidando-se de especificar o objeto do exame

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15106766.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 66 de 486 3478


AP 996 / DF

especializado pretendido, bem como a sua pertinência para a


resolução da causa”.

Assim, prossegue o Relator,

”(...) pela sua generalidade, sequer seria possível a análise


do pleito de produção de prova pericial formulado por ocasião
da defesa prévia, já que não foram individualizados o exame
especializado pretendido, tampouco o seu objeto.
Ademais, especificamente no que diz respeito à perícia
sobre os depósitos realizados em contas-correntes vinculadas ao
denunciado Nelson Meurer, destaco que a própria defesa, no
requerimento acima transcrito, afirma ter providenciado a
confecção de relatório contábil, circunstância que evidencia a
desnecessidade de qualquer intervenção judicial no ponto.
Da mesma forma, sublinho a prescindibilidade da
produção de prova pericial à demonstração da alegada
valorização de imóvel de propriedade do aludido acusado
situado na cidade de Francisco Beltrão/PR.
Com efeito, trata-se de fato econômico que não demanda
conhecimentos especializados para a sua correta compreensão
pelo Juízo, razão pela qual a sua demonstração poderia vir aos
autos pela própria defesa, sob a fé de profissionais registrados
no Conselho Regional dos Corretores de Imóveis do Paraná, por
exemplo”.

Em síntese, em meu sentir, embora deduzido tempestivamente, o


pedido de produção de prova pericial, em face de sua generalidade, não
atendeu ao comando normativo de “especificidade” da indicação desse
meio de prova.
Não bastasse isso, o douto Relator bem demonstrou a impertinência
do pleito.
Nesse contexto, o motivado indeferimento da produção desse meio
de prova não importou em cerceamento de defesa.

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15106766.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 67 de 486 3479


AP 996 / DF

4. Cerceamento de defesa, pelo indeferimento do pedido de


inquirição de novas testemunhas na fase do art. 10 da Lei nº 8.038/1990.
O art. 10 da Lei nº 8.038/90 não reabre às partes oportunidade para
ampla proposição de meios de prova.
Como já decidido pelo Supremo Tribunal Federal,

“AGRAVO REGIMENTAL. AÇÃO PENAL. DECISÃO


SINGULAR QUE INDEFERIU PROVA PERICIAL.
PRETENSÃO MERAMENTE PROTELATÓRIA. PEDIDO
INOPORTUNO. DECISÃO MANTIDA POR SEUS
PRÓPRIOS FUNDAMENTOS. AGRAVO DESPROVIDO.
1. A diligência tida por imprescindível pela parte
agravante não foi cogitada uma única vez sequer pela defesa
técnica no transcorrer de todo o processo-crime. Prova técnica
imprestável para a exclusão da ilicitude ou tipicidade do delito,
assim como para a culpabilidade do acusado.
(…)
3. A finalidade da norma que se extrai do artigo 10 da Lei
nº 8.038/90 (correlata ao artigo 499 do CPP) não avança para o
campo da reabertura do espaço de produção probatória. Ao
contrário, oportuniza o revide ou mesmo a confirmação de fatos
e dados surgidos ao longo da marcha processual.
4. Agravo regimental desprovido com a imediata abertura
de prazo para alegações finais, independentemente da
publicação do acórdão” (AP nª 409/CE-AgR, Pleno, Relator o
Ministro Ayres Britto, DJe de 1º/7/10 - grifei).

Como destacado no voto condutor do julgado proferido na AP nº


671/AM- AgR-Segundo, Pleno, Relator o Ministro Gilmar Mendes, DJe
de 16/5/13,

“(...) nos termos do art. 10 da Lei 8.038/90, faculta-se às


partes o requerimento de diligências complementares. A fase
processual equivale àquela anteriormente prevista no art. 499
do Código de Processo Penal, atualmente prevista no art. 402
do mesmo Código. A fase é de complementação e, não,

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15106766.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 68 de 486 3480


AP 996 / DF

propriamente, de instrução”.

Nesse contexto, integral razão assiste ao eminente Relator quando


assevera que

“essa nota da complementariedade anuncia que, nesse


momento, as partes já não têm direito subjetivo à ampla
produção probatória, porquanto lhes incumbe o ônus de
demonstrar que a diligência requerida é apta a esclarecer ou
sanar os fatos extraordinários verificados no decorrer da fase de
instrução”.

Por outro lado, o douto Relator bem justificou a desnecessidade de


inquirição das testemunhas indicadas pela defesa na fase em questão, “à
luz do panorama fático-processual verificado no caso concreto”.
Acompanho, pois, Sua Excelência na rejeição da preliminar
suscitada, declarando prejudicado o agravo regimental interposto (fls.
2985-2996).

5. Pretensão de julgamento conjunto da presente ação penal com o


Inq nº 3.980 e o Inq nº 3.989.
Nos casos de conexão ou continência, o art. 80 do Código de
Processo Penal autoriza a separação de causas quando

“as infrações tiverem sido praticadas em circunstâncias de


tempo ou de lugar diferentes, ou, quando pelo excessivo
número de acusados e para não lhes prolongar a prisão
provisória, ou por outro motivo relevante, o juiz reputar
conveniente a separação”.

Como bem destacado pelo eminente Relator,

“o INQ nº 3.989 trata apenas da imputação de organização


criminosa em relação a diversos investigados já tendo sido
desmembrado pelo saudoso Ministro Teori Zavascki, dando

10

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15106766.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 69 de 486 3481


AP 996 / DF

origem a outros quatro (4) novos cadernos indiciários (INQ


3.989, 4.325, 4.326 e 4.327), divididos por agremiação
partidária”.

Por sua vez, a denúncia no Inq nº 3.980 - deduzida pela Procuradoria-


Geral da República contra outros membros do Partido Progressista (PP) -
somente veio a ser recebida, em parte, por esta Segunda Turma em sessão
de 6/3/18.
Nesse diapasão, em face da manifesta assimetria de fases
processuais, descabe proceder-se a sua reunião com este feito para
processamento e julgamento conjuntos.

6. Suposta violação da paridade de armas, em razão do


acolhimento de contradita a testemunha arrolada pela defesa.
A testemunha de defesa João Alberto Pizzolatti Júnior, cuja
contradita do Ministério Público Federal foi acolhida, foi ouvida na
qualidade de informante do juízo, o que, ao ver do acusado Nelson
Meurer, representaria quebra da paridade de armas.
Ocorre que João Alberto Pizzolatti Júnior foi denunciado pelos
crimes de corrupção e lavagem de capitais nos autos do Inq nº 3.980, em
contexto similar ao do ora acusado, e a respectiva denúncia somente veio
a ser recebida em parte por esta Segunda Turma em sessão de 6/3/18.
Como salientado pelo eminente Relator,

“sua situação subjetiva se amolda ao disposto no art. 405,


§ 3º, IV, do Código de Processo Civil, aplicável ao caso por força
do art. 3º do Código de Processo Penal, na medida em que é
notório o seu interesse no litígio, já que condutas semelhantes
lhe são atribuídas em denúncia diversa já oferecida e
recentemente recebida pelo órgão colegiado”.

Nesse contexto, João Alberto Pizzolatti Júnior não poderia, a toda


evidência, ser compelido a prestar o compromisso de dizer a verdade, por
gozar do privilégio contra a autoincriminação.

11

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15106766.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 70 de 486 3482


AP 996 / DF

Como observa Maria Elizabeth Queijo, a expressão nemo tenetur se


detegere significa que ninguém é obrigado a se descobrir, à qual também
equivale a máxima latina nemo tenetur se accusare (ninguém é obrigado a
se acusar). Lembra ainda que, no direito anglo-americano, o princípio é
expresso pelo privilege against self-incrimination (O direito de não
produzir prova contra si mesmo. São Paulo: Saraiva, 2003. p.4).
O reconhecimento desse princípio, que se funda no instinto ou dever
natural de autopreservação, representa, sobretudo, o respeito à dignidade
da pessoa humana no processo penal e a vedação da produção de provas
que impliquem violação de direitos do imputado; em outras palavras,
traduz, em maior ou menor grau, a depender de cada ordenamento
jurídico, uma limitação à busca da verdade (João Cláudio Couceiro. A
garantia constitucional do direito ao silêncio. São Paulo: RT, 2004. p. 25 e
45).
De toda sorte, como bem pontuado pelo eminente Relator, o valor
probante das declarações de João Alberto Pizzolatti Júnior, como de toda
testemunha ou informante, não derivará da mera circunstância de haver
ou não prestado o compromisso de dizer a verdade, mas sim da
credibilidade que possa merecer, mediante oportuna confrontação com os
demais elementos probatórios amealhados nos autos.
Com essas considerações, rejeito a preliminar em questão.

12

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15106766.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 71 de 486 3483

22/05/2018 SEGUNDA TURMA

AÇÃO PENAL 996 DISTRITO FEDERAL

VOTO
(s/ preliminares)

O Senhor Ministro Ricardo Lewandowski: Senhor Presidente,


inicialmente, cumprimento Vossa Excelência e também o Ministro
Revisor, Celso de Mello, pela verticalidade de seus pronunciamentos
sobre as preliminares suscitadas pela defesa técnica, a quem também
estendo os meus cumprimentos.

Pois bem, primeiramente, quanto ao alegado cerceamento de defesa


por suposta quebra do tratamento isonômico das partes na abertura do
prazo para oferta das alegações finais, ressalto que, além dos aspectos
processuais e procedimentais já muito bem delineados pelo eminente
Relator, que a meu ver também afastam a alegada quebra da paridade de
armas, ressalto que a defesa não apontou em que medida o procedimento
adotado teria dificultado ou impedido a apresentação de todos os
possíveis argumentos defensivos.

Tal como referido pelo Relator, o acesso simultâneo aos autos, por
meio da plataforma de processo eletrônico da Secretaria Judiciária do
Supremo Tribunal Federal STF, acabou por contemplar a defesa técnica
com prazo mais dilatado do que o destinado às partes contrárias
(acusação e assistente de acusação), e nem por isso há de se cogitar em
prejuízo processual a elas.

Com efeito, o entendimento desta Corte é o de que, para o


reconhecimento de eventual nulidade, mesmo que absoluta, faz-se
necessária a demonstração do prejuízo.

Nesse sentido, o Tribunal tem reafirmado que a demonstração de


prejuízo,

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15087097.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 72 de 486 3484


AP 996 / DF

“[...] a teor do art. 563 do CPP, é essencial à alegação de


nulidade, seja ela relativa ou absoluta, eis que […] o âmbito
normativo do dogma fundamental da disciplina das nulidades
pas de nullité sans grief compreende as nulidades absolutas” (HC
85.155/SP, Rel. Min. Ellen Gracie).

Na mesma direção, destaco os seguintes julgados:

“AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ORDINÁRIO


EM HABEAS CORPUS. PENAL E PROCESSUAL PENAL.
CRIMES DE APROPRIAÇÃO INDÉBITA, DE FORMAÇÃO DE
QUADRILHA, DE FALSIDADE IDEOLÓGICA, DE USO DE
DOCUMENTO FALSO, DE CORRUPÇÃO ATIVA E DE
DENUNCIAÇÃO CALUNIOSA. ARTIGOS 168, 288, 299, 304,
333 E 339 DO CÓDIGO PENAL. ALEGAÇÃO DE NULIDADES
PROCESSUAIS. INEXISTÊNCIA DE TERATOLOGIA, ABUSO
DE PODER OU FLAGRANTE ILEGALIDADE. ATUAÇÃO EX
OFFICIO DO STF INVIÁVEL. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO.
INCIDÊNCIA DO PRINCÍPIO DO PAS DE NULLITÉ SANS
GRIEF. REVOLVIMENTO DO CONJUNTO FÁTICO-
PROBATÓRIO. INADMISSIBILIDADE NA VIA ELEITA.
AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. […] 3. Esta Suprema
Corte sufraga o entendimento de que a alegação de que a defesa
não teve acesso a uma determinada prova e o prejuízo daí
advindo imprescindem de comprovação. De acordo com o teor
da Súmula 523 desta Suprema Corte, a deficiência da defesa
somente anulará o processo se houver prova de prejuízo para o
réu. 4. Agravo regimental desprovido” (RHC 142.765 AgR/PB,
Rel. Min. Luiz Fux).

“RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS


PROCESSO PENAL NULIDADE INOCORRÊNCIA PAS DE
NULLITÉ SANS GRIEF (CPP, art. 563) PRINCÍPIO APLICÁVEL
ÀS NULIDADES ABSOLUTAS E RELATIVAS AUSÊNCIA DE
COMPROVAÇÃO DE EFETIVO PREJUÍZO, QUE NÃO SE

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15087097.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 73 de 486 3485


AP 996 / DF

PRESUME PRECEDENTES CONDENAÇÃO CRIMINAL


TRANSITADA EM JULGADO […]. RECURSO DE AGRAVO
NÃO PROVIDO” (RHC 125.242 AgR/PA, Rel. Min. Celso de
Mello).

“Agravo regimental em recurso extraordinário com


agravo. 2. […] 5. Ausência de prequestionamento. Súmulas 282
e 356. Parcialidade dos jurados. Nulidade. Inexistente. Esta
Suprema Corte firmou entendimento de que, para
reconhecimento de eventual nulidade, ainda que absoluta, faz-
se necessária a demonstração do prejuízo. 6. Agravo regimental
a que se nega provimento” (ARE 964.175 AgR/PR, Rel. Min.
Gilmar Mendes).

Na hipótese dos autos, não é possível identificar o que o acusado


poderia ter alegado em seu favor, além do que já consta em sua peça
defensiva. Nesse sentido, também é preciso registrar o brilhantismo das
sustentações orais realizadas por seus defensores.

Diante desse cenário, acompanho o Relator pela rejeição desta


preliminar.

Quanto ao indeferimento do pedido defensivo de substituição de


testemunhas, verifico que essa questão foi esgotada por ocasião do
julgamento do agravo regimental interposto pela defesa contra a decisão
que indeferiu o pleito de substituição, de modo que houve preclusão
consumativa da matéria.

A insurgência, no caso, não possui conteúdo defensivo em seu


sentido técnico, mas apenas demonstra a insatisfação da parte com o que
foi decidido por este Colegiado, em momento anterior, razões pelas quais
também rejeito essa preliminar.

No tocante ao indeferimento da pretensão de produção de prova


pericial sobre a valorização do imóvel indicado pela defesa, sublinho -

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15087097.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 74 de 486 3486


AP 996 / DF

independentemente de ser ou não intempestivo o pedido formulado - que


a pretensão em si deveria vir acompanhada da demonstração da
pertinência da prova, sob pena de indeferimento, nos termos do que
estabelece o art. 400, § 1º, do Código de Processo Penal.

No caso sob exame, depois de indicar as circunstâncias em que o


pedido foi formulado, Sua Excelência, o Relator, registrou a
prescindibilidade da referida prova técnica, asseverando o seguinte:

“[...] trata-se de fato econômico que não demanda


conhecimentos especializados para a sua correta compreensão
pelo Juízo, razão pela qual a sua demonstração poderia vir aos
autos pela própria defesa, sob a fé de profissionais registrados
no Conselho Regional dos Corretores de Imóveis do Paraná, por
exemplo”.

Nesse contexto, é importante consignar que é pacífica a orientação


desta Suprema Corte no sentido de que o indeferimento de produção de
prova tida por desnecessária pelo juízo não viola os princípios do
contraditório e da ampla defesa (nesse sentido: RE 156.576 AgR/RJ, Rel.
Min. Celso de Mello; HC 87.728/RJ, Rel. Min. Carlos Britto; HC 84.849/PR,
Rel. Min. Eros Grau; HCs 83.578/RJ e 80.990/RJ, Rel. Min. Nelson Jobim;
HCs 80.723/RJ e 73.509/RS, Rel. Min. Carlos Velloso; HC 76.614/RJ, Rel.
Min. Ilmar Galvão; HC 71.678/RS, Rel. Min. Celso de Mello; HC 70.081/SP,
Rel. Min. Francisco Rezek; HC 88.904/SP e RHC 90.399/RJ, ambos de
minha relatoria).

São paradigmáticos, ainda, os seguintes precedentes:

“DEFESA. PERÍCIA (INDEFERIMENTO). PREJUÍZO.


ARBÍTRIO DO JUIZ. - AO JUIZ E LÍCITO INDEFERIR AS
PROVAS DESNECESSÁRIAS OU PROTELATÓRIAS.
PREJUÍZO, DECORRENTE DO INDEFERIMENTO DA
PERÍCIA, NÃO COMPROVADO. INOCORRÊNCIA DE

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15087097.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 75 de 486 3487


AP 996 / DF

VULNERAÇÃO AOS ARTS. 2, 130, 332, I E 337, DO CÓDIGO


DE PROCESSO CIVIL. - RECURSO EXTRAORDINÁRIO NÃO
CONHECIDO” (RE 90.008/RJ, Rel. Min. Rafael Mayer, Primeira
Turma, DJ 31-8-1979).

“HABEAS CORPUS . PROVA. A LEI PROCESSUAL


PENAL BRASILEIRA CONCEDE AO JUIZ A FACULDADE DE
DETERMINAR DE OFÍCIO A PRODUÇÃO DE CERTAS
PROVAS, BEM COMO DE INDEFERIR OUTRAS QUE
ENTENDA DESNECESSÁRIAS OU PROTELATÓRIAS” (RHC
49.702/Guanabara, Rel. Min. Bilac Pinto, Segunda Turma, DJ 26-
5-1972).

Daí por que também eu entendo que o deferimento ou não de provas


submete-se ao prudente arbítrio do magistrado, cuja decisão, sempre
fundamentada, há de levar em conta a sua utilidade dentro do acervo
probatório.

Por essa razão, é lícito ao juiz indeferir diligências que reputar


impertinentes, desnecessárias ou protelatórias. Com essas reflexões,
acompanho o Relator e rejeito a preliminar.

Já no que se refere à oitiva de novas testemunhas na fase do art. 10


da Lei 8.038/1990, pondero que o Ministro Relator, a seu juízo, afirma que
os fatos a serem elucidados pelos depoimentos então postulados pela
defesa não surgiram durante a instrução criminal, como se alega, mas já
se encontravam amplamente descritos na peça acusatória, motivo pelo
qual reputou que a simples referência a seus nomes não detém o condão
de autorizar suas oitivas em juízo, sem que fique caracterizada violação
ao limite de testemunhas previstos no art. 401, caput, do Código de
Processo Penal, tornando-se, portanto, desnecessária e imprópria a
produção de referida prova testemunhal.

A propósito deste tema, relembro o que foi asseverado pelo Ministro


Gilmar Mendes, Relator da AP 671-AgR-segundo, da qual foi revisor, no

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15087097.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 76 de 486 3488


AP 996 / DF

sentido de que,

“[...] após a oitiva das testemunhas, nos termos do art. 10


da Lei 8.038/90, faculta-se às partes o requerimento de
diligências complementares. A fase processual equivale àquela
anteriormente prevista no art. 499 do Código de Processo Penal,
atualmente prevista no art. 402 do mesmo Código. A fase é de
complementação e, não, propriamente, de instrução. [...]
Ademais, as referências factuais afirmadas pelas testemunhas
inquiridas não inovaram o quadro fático descrito nos autos ou
as circunstâncias já conhecidas, sendo que eventuais
contradições entre os depoimentos inserem-se no juízo de
valoração da prova” (grifei).

Nesse diapasão, menciono, ainda, o seguinte julgado:

“HABEAS CORPUS - INQUIRIÇÃO DE TESTEMUNHA


REFERIDA - INDEFERIMENTO MOTIVADO -
CERCEAMENTO DE DEFESA - INOCORRÊNCIA - ORDEM
DENEGADA. A INQUIRIÇÃO DE TESTEMUNHA REFERIDA,
QUANDO POSTULADA POR QUALQUER DAS PARTES,
NÃO CONSTITUI ATIVIDADE PROCESSUAL VINCULADA
DO MAGISTRADO, QUE EXERCE, NESSE TEMA, PODERES
DISCRICIONÁRIOS RESULTANTES DA LEI (CPP, ART. 209,
PARAGRAFO 1º). AS PESSOAS A QUE AS TESTEMUNHAS SE
REFERIREM SOMENTE SERÃO OUVIDAS SE AO JUIZ
PARECER CONVENIENTE. A NECESSIDADE E A
CONVENIÊNCIA DESSA DILIGÊNCIA PROBATÓRIA
SUJEITAM-SE, PLENAMENTE, A AVALIAÇÃO
DISCRICIONÁRIA DO MAGISTRADO, O QUAL, NO
ENTANTO, OBRIGA-SE A MOTIVAR AS RAZÕES DO SEU
INDEFERIMENTO. ASSIM, A RECUSA JUDICIAL, DESDE
QUE FUNDAMENTADAMENTE MANIFESTADA, NÃO
CONFIGURA CERCEAMENTO DE DEFESA” (HC 68.032/SP,
Rel. Min. Celso de Mello).

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15087097.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 77 de 486 3489


AP 996 / DF

Feitas essas observações de ordem estritamente técnica, entendo que


o indeferimento do pedido formulado pela defesa, de oitiva de pessoas
referidas em outros depoimentos, foi devidamente justificado, razão pela
qual rejeito, igualmente, essa preliminar.

Quanto à pretensão de julgamento conjunto da presente ação penal


com o INQ 3.980 e INQ 3.989, é importante assinalar que o julgamento
conjunto de ações penais ou inquéritos, ainda que possuam conexão
instrumental ou intersubjetiva, não é obrigatório, porém facultativo,
segundo decorre do art. 80 do Código de Processo Penal, verbis:

“Art. 80. Será facultativa a separação dos processos


quando as infrações tiverem sido praticadas em circunstâncias
de tempo ou de lugar diferentes, ou, quando pelo excessivo
número de acusados e para não lhes prolongar a prisão
provisória, ou por outro motivo relevante, o juiz reputar
conveniente a separação” (grifei).

O Supremo Tribunal Federal, levando em conta o estatuído no art. 80


do CPP, em inquéritos e ações penais que nele tramitam, tem,
sistematicamente, determinado o seu desmembramento pelos mais
variados motivos, o que corrobora a decisão exarada pelo eminente
Relator.

Com efeito, Sua Excelência destacou as peculiaridades existentes em


cada um dos procedimentos indicados (INQ 3.980 e INQ 3.989) o que, a
meu ver, não só desobriga o julgamento conjunto sugerido pela defesa,
mas recomenda que a sua apreciação se dê em momentos distintos,
cumprindo-se realçar, no ponto, que as fases processuais em que se
encontram os referidos feitos impedem o deferimento dessa providência,
tal como exposto pelo Relator.

Relembro, a propósito, que, já no início da tramitação daqueles


inquéritos perante esta Corte Suprema, o saudoso Ministro Teori

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15087097.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 78 de 486 3490


AP 996 / DF

Zavascki, então Relator, determinou que assim prosseguissem,


justamente em razão dos motivos que agora foram ressaltados pelo
Ministro Edson Fachin.

Assim, não identifico razões jurídicas e processuais suficientes para


que se determine a reunião de processos, com o consequente julgamento
conjunto dos Inquéritos 3.980 e 3.989, como pretende a defesa. Rejeito,
portanto, a preliminar arguida.

Por fim, no que concerne ao acolhimento de contradita à testemunha


arrolada pela defesa que teria provocado a suposta quebra da paridade
de armas, registro que o Ministro Relator assim resumiu a querela:

A defesa técnica do denunciado Nelson Meurer sustenta que a


testemunha João Pizzolatti Júnior foi indevidamente contraditada em sua
oitiva a pedido do Ministério Público Federal, circunstância que
redundaria na quebra da paridade de armas, já que, das 11 (onze) pessoas
arroladas por ocasião da defesa prévia, apenas 7 (sete) prestaram o
compromisso de dizer a verdade, na forma do art. 203 do Código de
Processo Penal.

Ora, tal como enfatizado, referida testemunha figura como acusado


em outro inquérito que tramita nesta Corte (INQ 3.980) pela prática de
condutas semelhantes às examinadas nesta ação penal, de modo que sua
oitiva, na condição de testemunha compromissada, nestes autos,
consubstanciaria flagrante violação da garantia da não autoincriminação
naquele outro processo.

No ponto, esta Suprema Corte já assentou, em mais de uma ocasião,


que, seja na condição de investigado ou de testemunha, o acusado tem o
direito de permanecer em silêncio, de comunicar-se com seu advogado e
de não produzir prova contra si mesmo, conforme lhe assegura o art. 5º,
LXIII, da Carta da República. Incide, na hipótese, o princípio nemo tenetur

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15087097.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 79 de 486 3491


AP 996 / DF

se detegere .

Nesse sentido, vide os seguintes precedentes: HC 79.244/DF, Rel.


Min. Sepúlveda Pertence; HC 114.127 MC/DF, Rel. Min. Marco Aurélio;
HC 114.140/GO, Rel. Min. Rosa Weber; HC 114.134 MC/DF, Rel. Min.
Cármen Lúcia; HC 114.102 MC/DF, Rel. Min. Cezar Peluso; HC
113.881/DF, Rel. Min. Luiz Fux; HC 113.862 MC/DF, Rel. Min. Celso de
Mello; e HC 113.645 MC/DF, Rel. Min. Joaquim Barbosa.

Daí por que entendo, na linha do voto do Relator, que, nessas


circunstâncias, a dispensa de dizer a verdade por parte do referido
investigado teve motivo justo e consentâneo com as boas práticas
processuais, sendo certo, por outro lado, que tal providência não
configura cerceamento de defesa, na medida em que o conteúdo das
informações prestadas será valorado por este Colegiado à luz dos demais
elementos de prova existentes nos autos.

Oportuno, recordar, nessa linha de raciocínio, o voto do Ministro


Evandro Lins e Silva proferido no HC 40.609/Guanabara:

“Nunca é demais advertir que o livre convencimento não


quer dizer puro capricho ou mero arbítrio na apreciação das
provas. O juiz está livre de preconceitos legais na aferição das
provas, mas não pode abstrair-se ou alhear-se de seu conteúdo.
Livre convicção não é a emancipação absoluta da prova, nem
julgamento contrário à prova ou à revelia da prova. Não é, tão
pouco, julgamento ex-informata conscientia, com o qual não se
confunde, porque pressupõe unicamente a livre apreciação da
prova, jamais a independência desta, no ensinamento de
Manzini […]. A liberdade da apreciação da prova pelo juiz está
necessariamente subordinada à natureza do fato que deva ser
provado”.

Com essa perspectiva hermenêutica, aliada ao disposto no art. 155

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15087097.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 80 de 486 3492


AP 996 / DF

do Código de Processo Penal, no sentido de que o juiz formará sua


convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório
judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos
elementos informativos colhidos na investigação, penso que não ficou
demonstrado o prejuízo alegado pela defesa.

Isso posto, rejeito essa e também todas as demais preliminares


arguidas pela defesa.

10

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 15087097.
Supremo Tribunal Federal
Voto s/ Preliminar

Inteiro Teor do Acórdão - Página 81 de 486 3493

22/05/2018 SEGUNDA TURMA

AÇÃO PENAL 996 DISTRITO FEDERAL

VOTO

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES: Também eu rejeito


integralmente as preliminares.

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço
http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 9FAB-FAF7-C28C-43CE e senha F151-FC4F-3786-2929
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 82 de 486 3494

22/05/2018 SEGUNDA TURMA

AÇÃO PENAL 996 DISTRITO FEDERAL

VOTO

O SENHOR MINISTRO EDSON FACHIN (RELATOR): Principio


rememorando que nesta ação penal a Procuradoria-Geral da República
ofertou denúncia em desfavor do Deputado Federal Nelson Meurer, bem
como de seus filhos, Nelson Meurer Júnior e Cristiano Augusto Meurer,
atribuindo-lhes a prática dos crimes de corrupção passiva e de lavagem
de capitais, tipos penais previstos no art. 317, § 1º, c/c art. 327, § 2º, ambos
do Código Penal e art. 1º, § 4º, da Lei n. 9.613/1998, tudo na forma do art.
29 e art. 69 da Lei Penal.
Conforme narra a incoativa (fls. 867-970), recebida pela Segunda
Turma desta Suprema Corte em sessão de julgamento realizada em
21.6.2016, o Deputado Federal Nelson Meurer, na qualidade de integrante
da cúpula do Partido Progressista (PP), teria concorrido para os desvios
de recursos realizados por Paulo Roberto Costa no âmbito da Diretoria de
Abastecimento da Petrobras S/A, emprestando-lhe fundamental apoio
político na indicação e manutenção no aludido cargo.
No período em que permaneceu à frente da referida diretoria, Paulo
Roberto Costa viabilizou um cartel formado pelas maiores empreiteiras
em operação no país, no seio do qual eram divididas as obras licitadas
pela sociedade de economia mista com a finalidade de que apenas estas
fossem chamadas a celebrar os contratos. Como contrapartida, as
referidas empresas cartelizadas, a partir do acréscimo intencional de
sobrepreço ao custo de execução das obras, destinavam recursos a Paulo
Roberto Costa que, por intermédio de Alberto Youssef, abastecia o
denominado caixa de propinas do Partido Progressista (PP).
Nesse contexto de tais relações espúrias, o crime de corrupção
passiva foi praticado 161 (cento e sessenta e uma) vezes, por ocasião do
pagamento de cada contrato, respectivos aditivos e acordos extrajudiciais
celebrados. Do valor pago pela Petrobras S/A às empreiteiras, 1% (um por

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 83 de 486 3495


AP 996 / DF

cento) era destinado a Paulo Roberto Costa para posterior distribuição no


âmbito do Partido Progressista (PP), totalizando um desvio de recursos
no valor estimado de R$ 357.945.680,52 (trezentos e cinquenta e sete
milhões, novecentos e quarenta e cinco mil, seiscentos e oitenta reais e
cinquenta e dois centavos).
Ainda de acordo com a exposição acusatória, tais recursos foram
submetidos a processos de branqueamento, pois ingressaram na esfera de
disponibilidade de Paulo Roberto Costa e, consequentemente, do Partido
Progressista (PP), mediante a celebração de 180 (cento e oitenta) contratos
de prestação de serviços fictícios entre as empresas cartelizadas e
sociedades empresárias ligadas a Alberto Youssef, alcançando o montante
de R$ 62.146.567,80 (sessenta e dois milhões, cento e quarenta e seis mil,
quinhentos e sessenta e sete reais e oitenta centavos).
A partir do aludido caixa de propinas, o Deputado Federal Nelson
Meurer teria recebido, por intermédio de Alberto Youssef, 99 (noventa e
nove) pagamentos ordinários mensais no valor de R$ 300.000,00
(trezentos mil reais), totalizando a quantia de R$ 29.700.000,00 (vinte e
nove milhões e setecentos mil reais), como contraprestação ao apoio
político em favor de Paulo Roberto Costa para sua manutenção no cargo
de Diretor de Abastecimento da Petrobras S/A, apontando a incoativa
que, em determinadas oportunidades, o referido acusado contou com o
auxílio direto de seus filhos Nelson Meurer Júnior e Cristiano Augusto
Meurer.
Esses valores, conforme a proposta acusatória, também foram objeto
do crime de lavagem de capitais, porquanto entraram na esfera de
disponibilidade do denunciado Nelson Meurer de forma sub-reptícia,
mediante a entrega pessoal de dinheiro em espécie por parte de
emissários de Alberto Youssef, bem como por quantias obtidas
juntamente ao Posto da Torre, localizado nesta Capital Federal e de
propriedade Carlos Habib Chater, com quem Alberto Youssef mantinha
uma espécie de conta corrente. Aponta a exordial, além disso, que parte
da vantagem indevida foi depositada de forma pulverizada em contas de
titularidade do Deputado Federal Nelson Meurer, de modo a impedir a

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 84 de 486 3496


AP 996 / DF

fiscalização dos respectivos órgãos de controle, e, ainda, declarada à


Secretaria da Receita Federal como quantias em espécie mantidas em seu
poder.
Também em razão do apoio político prestado a Paulo Roberto Costa
para sua manutenção no cargo de Diretor de Abastecimento, o
denunciado Nelson Meurer beneficiou-se com o recebimento de
vantagens indevidas extraordinárias, consubstanciadas no pagamento de
R$ 4.000.000,00 (quatro milhões de reais), entregues em espécie por
emissários de Alberto Youssef, bem como na doação de R$ 500.000,00
(quinhentos mil reais) por parte da empresa Queiroz Galvão, destinados
à campanha eleitoral do ano de 2010.
Tais entregas de valores em espécie, bem como a mencionada doação
eleitoral são consideradas pelo órgão acusatório, mais uma vez, como
formas de consumação do delito de lavagem de capitais.
Por todos esses fatos ora sumariados, a Procuradora-Geral da
República requer a condenação dos acusados em razão da prática do
crime de corrupção passiva majorada (art. 317, § 1º, do Código Penal),
bem como do delito de lavagem de dinheiro (art. 1º, caput e § 4º, da Lei
9.613/1998), na forma do art. 29 e art. 69 do Estatuto Repressor, cabendo
destacar que a pretendida incidência da causa de aumento de pena
prevista no art. 327, § 2º, do Estatuto Repressor já foi rechaçada por esta
colenda Segunda Turma por ocasião do recebimento da denúncia.

1. Questões preliminares.
1.1. Cerceamento de defesa. Quebra do tratamento isonômico das
partes na abertura do prazo para a oferta das alegações finais.

A defesa técnica do acusado Nelson Meurer suscita questão


preliminar ao mérito da denúncia, alegando que a concessão de prazo
sucessivo à Procuradoria-Geral da República e para a Petrobras S/A
(assistente de acusação) apresentarem alegações finais importou em
quebra da paridade de armas, tendo em vista que em favor da defesa dos
três (3) acusados foi conferido prazo comum com idêntica finalidade.

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 85 de 486 3497


AP 996 / DF

Conforme declinei na decisão de fls. 3.181-3.182, a disponibilização


de prazos distintos à Procuradoria-Geral da República e à assistente da
acusação para a prática do ato processual em questão foi motivada pela
prerrogativa prevista em favor da primeira no art. 18, II, “h”, da LC
75/1993, que lhe garante “receber intimação pessoalmente nos autos em
qualquer processo e grau de jurisdição nos feitos em que tiver que oficiar”, sendo
certo que, nos termos do art. 800, § 2º, do Código de Processo Penal, “os
prazos do Ministério Público contar-se-ão do termo de vista”.
Não se desconhece, conforme pontuado pela defesa, que o art. 11, §
1º, da Lei n. 8.038/1990 prevê prazo comum para a acusação e seu
assistente, assim como para os corréus, ofertarem as alegações escritas,
nas respectivas oportunidades sucessivas descritas no caput do aludido
dispositivo legal. Tal cenário, ainda que evidencie a ocorrência de um
aparente conflito de normas, mostra-se solucionável, todavia, tanto pelo
critério cronológico como pelo da especialidade, já que a LC 75/1993, que
estabelece, de forma especial, a prerrogativa da intimação pessoal em
favor do Ministério Público, é posterior à previsão genérica encontrada
no rito das ações penais originárias descrito na Lei n. 8.038/1990.
Mesmo que assim não fosse, as distintas formas de intimação do
Ministério Público Federal e da assistente de acusação importariam,
invariavelmente, na fluidez de lapsos temporais diversos à prática do
aludido ato processual, o que redundaria, de certa forma, na
inobservância da norma invocada pela defesa técnica como reveladora do
discrimen reclamado nesta oportunidade.
Entretanto, a concessão desses prazos sucessivos para a
Procuradoria-Geral da República e para a assistente de acusação
ofertarem suas alegações finais em hipótese alguma teve aptidão de
desequilibrar a relação processual travada nestes autos.
É que, ainda que destacados de forma cronológica, todas as partes
tiveram idêntico prazo para a prática do ato processual questionado,
anotando-se, ademais, como afirmado pela própria defesa, que, embora
estes autos tramitem de forma física, uma cópia digitalizada é
disponibilizada para todas as partes de forma concomitante.

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 86 de 486 3498


AP 996 / DF

Por tal razão, caso a concessão de prazo sucessivo à Procuradoria-


Geral da República e à assistente da acusação para a oferta das alegações
finais seja considerada a causa do apontado desequilíbrio na relação
processual em razão da possibilidade, desta última, utilizar-se de maior
lapso temporal para a prática do ato, é correto afirmar que, nesse cenário,
as defesas técnicas dos acusados foram igualmente beneficiadas, já que
dispuseram de maior lapso temporal para compulsar os autos
digitalizados e elaborar as respectivas teses declinadas nas razões escritas.
Por fim, cumpre consignar que a determinação, no mesmo despacho
proferido aos 29.11.2017, de abertura de prazo para as defesas
apresentarem as alegações finais e de concessão de vista dos autos à
Procuradoria-Geral da República para as contrarrazões a agravo
regimental interposto não impediu, em absoluto, a prática do ato
processual.
Com efeito, como já destacado, ainda que os autos tenham sido
deslocados à Procuradoria-Geral da República para as contrarrazões ao
agravo regimental interposto, é fato que o acesso ao seu conteúdo é
franqueado vinte e quatro (24) horas por dia na plataforma do processo
eletrônico de forma concomitante a todos os sujeitos da relação
processual, circunstância que evidencia a inexistência de tratamento
diferenciado a qualquer das partes.
Não é demais lembrar que no âmbito do Processo Penal pátrio, a
declaração de nulidade de determinado ato deve ser precedida da cabal
demonstração de prejuízo apto a caracterizar ofensa às garantias
constitucionais inerentes ao devido processo legal, como preceitua o art.
563 do Código de Processo Penal. Nesse sentido, colaciono o seguinte
precedente deste Órgão Colegiado:

“Recurso ordinário em habeas corpus. Processual Penal.


Crime de responsabilidade praticado por prefeito municipal.
Artigo 1º, inciso XIII, do Decreto-Lei nº 201/67. Condenação.
Perda da prerrogativa de foro por exercício de função. Declínio
da competência pelo Tribunal de Justiça local antes da
apreciação da denúncia e da defesa prévia. Ausência de nova

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 87 de 486 3499


AP 996 / DF

abertura de prazo para manifestação prévia da defesa antes do


recebimento da exordial pelo juízo de primeiro grau.
Cerceamento de defesa. Violação do princípio da paridade de
armas. Não ocorrência. Simples ratificação da denúncia pelo
Parquet em primeiro grau. Inexistência de acréscimo de fato ou
argumento novo ao quadro fático-probatório reportado na peça
original. Essencialidade da demonstração de prejuízo concreto
para o reconhecimento da nulidade do ato. Princípio do pas de
nullité sans grief. Artigo 563 do Código de Processo Penal.
Precedentes. (...) 1. Não se nega que o Juízo da Vara Única da
Comarca de Boqueirão/PB não andou na melhor trilha
processual quando intimou o Parquet estadual para ratificar a
denúncia apresentada em grau superior e não fez o mesmo em
relação à defesa do acusado por força do par conditio,
desprestigiando, assim, o postulado constitucional do
contraditório e da ampla defesa (CF, art. 5º, inciso LV). 2.
Todavia, além da arguição opportune tempore da suposta
nulidade, seja ela relativa ou absoluta, a demonstração de
prejuízo concreto é igualmente essencial para seu
reconhecimento, de acordo com o princípio do pas de nullité
sans grief, presente no art. 563 do Código de Processo Penal
(v.g. AP nº 481-EI-ED/PA, Tribunal Pleno, de minha relatoria,
DJe de 12/8/14), o que não ocorreu na espécie. 3. A denúncia
ofertada no Tribunal de Justiça local foi apenas ratificada pelo
Parquet, o qual não acrescentou, contudo, qualquer fato ou
argumento ao quadro fático-probatório reportado na denúncia
original de que a defesa do recorrente não tivesse ciência
quando da apresentação da defesa prévia. 4. O recorrente não
logrou demostrar a existência de prejuízo capaz de macular a
decisão do juízo de primeiro grau, que recebeu a denúncia tão
logo ratificada pelo Ministério Público. 5. Acolher a pretensão
da defesa nesse particular apenas potencializaria “a forma pela
forma”, que não deve ser prestigiada, pois, “se do vício formal
não deflui prejuízo, o ato deve ser preservado” (HC nº
114.512/RS, Primeira Turma, Relatora a Ministra Rosa Weber,
DJe de de 8/11/13). (...) 12. Recurso ordinário ao qual se nega

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 88 de 486 3500


AP 996 / DF

provimento” (RHC 138.752, Rel.: Min. DIAS TOFFOLI, Segunda


Turma, DJe 27.4.2017 - destaquei) .

No caso, constato que, no prazo legal, a defesa técnica do acusado


Nelson Meurer protocolizou petição contendo alegações finais que
ocupam exatas 100 (cem) laudas, nas quais foram declinadas
substanciosas teses defensivas contrapostas à versão acusatória exposta
na denúncia, as quais abordam todo o conjunto probatório produzido no
decorrer da instrução criminal, razão pela qual não há falar em
cerceamento ou deficiência de defesa que justifique a pretendida
declaração de nulidade do processo, diante da induvidosa inexistência de
qualquer prejuízo às garantias processuais constitucionais.
Por tais razões, rejeito a preliminar suscitada.

1.2. Cerceamento de defesa. Indeferimento do pedido defensivo de


substituição de testemunhas.

A defesa do denunciado Nelson Meurer, ainda em sede prefacial,


afirma que o processo penal em análise estaria eivado por cerceamento de
defesa, consistente no indeferimento do requerimento de substituição de
testemunhas.
Tal questão já foi objeto de expressa deliberação por este Órgão
Colegiado no julgamento do respectivo agravo regimental em 8.8.2017,
oportunidade na qual, à unanimidade, a insurgência foi desprovida nos
termos da seguinte fundamentação:

“(...)
Da leitura das razões recursais, conforme consignado pelo
Procurador-Geral da República em suas contrarrazões, tem-se
que os agravantes não indicam qualquer circunstância concreta
superveniente à indicação do rol de suas testemunhas que dê
embasamento ao pleito excepcional de substituição, limitando-
se a afirmar que a pretensão se justificaria na oitiva já realizada
em juízo daquelas que pretendem substituir, pois arroladas

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 89 de 486 3501


AP 996 / DF

também pelo órgão acusatório.


Tal argumentação, todavia, não autoriza a reforma do
decisum atacado, pois as defesas técnicas eram conhecedoras,
antecipadamente, dos nomes das testemunhas arroladas pela
acusação por ocasião do oferecimento da peça acusatória e,
mesmo assim, indicaram duas idênticas, cientes da limitação
quantitativa imposta pela legislação de regência.
Logo, a posterior e efetiva oitiva em juízo das aludidas
testemunhas não pode ser considerada fato superveniente que
autorize a pretendida substituição, porque se trata de
consequência previsível e natural da postulação probatória
ministerial, não se verificando, na hipótese, nenhuma das
causas previstas no art. 451 do Código de Processo Civil - aqui
aplicado por força da norma contida no art. 3º do Código de
Processo Penal e do art. 9º da Lei n. 8.038/1990 - que justifique a
pretensão dos agravantes, diante da preclusão consumativa
verificada.
(...)
É imperioso destacar, ademais, que a paridade de armas é
garantida na previsão legal equânime do número de
testemunhas posto à disposição das partes à instrução
probatória, sendo certo que eventual substituição extemporânea
fora das hipóteses previstas no art. 451 do CPC deve vir
acompanhada de fundamentos concretos que justifiquem a
medida excepcional, sob pena, aí sim, de se promover o
desequilíbrio da relação processual, a qual deve se pautar,
sempre, pela boa-fé. Aliás, insisto, esse mesmo fundamento foi
utilizado para indeferir o pedido de inclusão de testemunhas
feito pela acusação.
Por fim, o requerimento desmotivado de substituição de
testemunhas impede até mesmo que se verifique a
possibilidade da produção da prova de ofício, nos termos do
art. 11, § 3º, da Lei n. 8.038/1990, circunstância que impõe o
indeferimento da pretensão dos agravantes” (fls. 2.539-2.540).

Concluo, desse modo, pela ocorrência da preclusão pro iudicato em

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 90 de 486 3502


AP 996 / DF

relação ao tema, não exsurgindo nos autos qualquer circunstância


superveniente que autorize a reanálise da matéria, impondo-se, portanto,
o afastamento da preliminar novamente arguida agora em sede de
alegações finais.

1.3. Cerceamento de defesa. Indeferimento da pretensão de


produção de prova pericial.

A defesa do acusado Nelson Meurer aventa, como nova preliminar, a


nulidade desta ação penal pelo indeferimento da pretensão de produção
de prova pericial, conforme decisão proferida às fls. 2.521-2.524 nos
seguintes termos:

“(...)
Ainda que o acusado Nelson Meurer tenha, às fls. 2.037,
por ocasião da apresentação da defesa prévia, protestado
genericamente pela ‘produção de todas as provas em direito
admitidas, em especial a documental, testemunhal, pericial e oral...’, o
pedido ora formulado é intempestivo.
Isso porque, como exige o art. 396-A do Código de
Processo Penal, cumpre ao acusado, quando da apresentação da
defesa, ‘especificar as provas pretendidas’, o que não se confunde
com o protesto genérico pela produção de todas as provas em
direito admitidas.
Somente na presente oportunidade é que o acusado
especifica qual prova pericial pretende produzir, informando
que busca demonstrar a valorização econômica de um imóvel
de sua propriedade, localizado em Francisco Beltrão, o que
justificaria seu incremento patrimonial.
Sendo assim, intempestivo o pedido, só agora
especificado, de produção da prova pericial.
Mesmo que se pudesse ter por regular o genérico protesto
pela produção de ‘todas as provas em direito admitidas’, a respeito
do pedido de produção de provas, este Relator decidiu às fls.
2.066-2.067, não contemplando a pretensão do acusado, de

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 91 de 486 3503


AP 996 / DF

modo que caberia a ele insurgir-se, tempestivamente, pela via


recursal própria. Não o tendo feito, preclusa sua pretensão.
Ainda que se desconsiderasse a intempestividade do
pedido de produção da referida prova, em vista do que dispõe
o art. 400, § 1º, do CPP, segundo o qual se indefere as provas
‘consideradas irrelevantes, impertinentes ou protelatórias’, o pedido
formulado pelo acusado não merece deferimento, uma vez que
a alegação da valorização econômica de um determinado
imóvel pode ser demonstrada independentemente de perícia.”

A citada decisão foi alvo de agravo regimental interposto pela defesa


técnica por meio da petição juntada às fls. 2.567-2.579, cujas razões serão
apreciadas nesta oportunidade, em conjunto com os argumentos
declinados em alegações finais.
Sustenta a defesa, inicialmente, que, ao contrário do afirmado na
decisão objurgada, o pleito de produção da prova pericial teria sido
formulado tempestivamente, por ocasião da defesa prévia prevista no art.
8º da Lei n. 8.038/1990.
Compulsando a referida peça defensiva, acostada às fls. 2.038-2.037,
constato que o requerimento que se alega tempestivo foi formulado nos
seguintes termos:

“Requer-se seja deferida a produção de todas as provas


em direito admitidas, em especial a documental, testemunhal,
pericial e oral, apresentando, desde logo, o rol de testemunhas,
ao final indicadas, requerendo sejam as mesmas intimadas, sob
a cláusula de imprescindibilidade, a fim de que compareçam e
sejam ouvidas para prestarem esclarecimentos sobre os fatos
em apuração, reservando-se, por óbvio, no direito de substituí-
las, se necessário, bem como se reserva, no direito de provar sua
inocência com outros meios de prova no curso da instrução
processual” (fl. 2.036 - destaquei).

Para sustentar o argumento de que a produção da prova pericial


teria sido requerida tempestivamente, recorre a defesa técnica à mera

10

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 92 de 486 3504


AP 996 / DF

expressão “pericial” destacada no excerto transcrito, aduzindo, em síntese,


que o art. 8º da Lei n. 8.038/1990 não especifica a extensão na qual a
produção probatória deve ser pleiteada na defesa prévia, alegando, ainda,
que a norma prevista no art. 396-A do Código de Processo Penal não seria
aplicável ao caso em tela, tendo em vista que a incidência subsidiária do
Estatuto Processual Penal nas ações penais originárias seria admitida
apenas na fase de instrução, segundo dicção que empresta ao art. 9º da
Lei n. 8.038/1990.
Nada obstante os judiciosos argumentos declinados, calha destacar
que o art. 1º do Código de Processo Penal estabelece a sua aplicabilidade
aos processos penais que tramitam em todo o território brasileiro, sendo
certo que o caso em análise não se amolda a quaisquer das hipóteses
excepcionais relacionadas nos incisos do referido dispositivo, nas quais o
legislador ordinário previu a não incidência de suas disposições.
Aliás, as ações penais de competência originária dos Tribunais são
regidas pelas normas especiais inseridas na Lei n. 8.038/1990, sem
prejuízo da utilização subsidiária e complementar das disposições gerais
previstas no Código de Processo Penal, conforme preceitua
expressamente o art. 2º daquele diploma legal, verbis:

“Art. 2º - O relator, escolhido na forma regimental, será o


juiz da instrução, que se realizará segundo o disposto neste
capítulo, no Código de Processo Penal, no que for aplicável, e
no Regimento Interno do Tribunal.
Parágrafo único - O relator terá as atribuições que a
legislação processual confere aos juízes singulares”.

De acordo com o dispositivo transcrito, o desenvolvimento da


relação processual estabelecida nas ações penais originárias deve
observar, prioritariamente, as normas previstas na legislação especial.
Todavia, na ausência de regulamentação específica, deve o relator valer-se
das disposições gerais previstas no Código de Processo Penal, no que for
aplicável, bem como no regimento interno do respectivo tribunal.
A par disso, na visão da nobre defesa, a aplicabilidade subsidiária do

11

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 93 de 486 3505


AP 996 / DF

Código de Processo Penal seria permitida apenas na fase instrutória, nos


termos do art. 9º da Lei n. 8.038/1990, da qual não faria parte a defesa
prévia, já que a sua oferta precede ao próprio recebimento da denúncia.
Entretanto, uma leitura atenta do referido dispositivo legal evidencia
a mera indicação de observância do procedimento comum previsto no
Código de Processo Penal na instrução criminal da ação penal originária,
sendo inviável extrair da sua redação qualquer interpretação que limite a
aplicabilidade do Estatuto Processual Penal à fase instrutória. Confira-se:

“Art. 9º - A instrução obedecerá, no que couber, ao


procedimento comum do Código de Processo Penal”.

Nesse cenário, diante da inexistência de qualquer previsão específica


acerca da oportunidade para o exercício da pretensão probatória na ação
penal originária, seja na Lei n. 8.038/1990 ou no Regimento Interno do
Supremo Tribunal Federal, concluo pela plena aplicabilidade da norma
prevista no art. 396-A do Código de Processo Penal, que preceitua:

“Art. 396-A. Na resposta, o acusado poderá arguir


preliminares e alegar tudo o que interesse à sua defesa, oferecer
documentos e justificações, especificar as provas pretendidas e
arrolar testemunhas, qualificando-as e requerendo sua
intimação, quando necessário”.

Como se depreende desse dispositivo transcrito, a resposta à


acusação é o momento processual oportuno para a defesa “especificar as
provas pretendidas”. O emprego do verbo “especificar” pelo legislador
ordinário impõe à defesa técnica o ônus de delimitar, de acordo com o
panorama fático-processual verificado no caso concreto, as provas que
intenciona ver produzidas no processo. Não por outra razão é que a
pretensão será submetida ao crivo da autoridade judiciária, a qual poderá
“indeferir as consideradas irrelevantes, impertinentes ou protelatórias” (art. 400,
§ 1º, do CPP). Em suma, o aludido requerimento de produção probatória,
além de específico, deve ser acompanhado da demonstração da sua

12

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 94 de 486 3506


AP 996 / DF

relevância para a resolução do mérito da ação penal.


Em caso análogo, outra não foi a conclusão deste Órgão Colegiado:

“Agravo regimental em ação penal originária. Processo


penal. 2. Perícia grafodocumentoscópica, com o objetivo de
demonstrar que o réu não assinou ou produziu as notas de
compra acostadas aos autos. Impertinência da prova, visto que
a acusação não atribui a autoria dos documentos ao punho do
réu – art. 400, § 1º, CPP. 3. Reformulação do requerimento para
contestar a assinatura de terceiros e a contemporaneidade de
anotação feitas nos documentos. Inovação quanto ao objeto da
prova. A resposta é a oportunidade para ‘especificar as provas
pretendidas’ - art. 396-A do CPP. Pedido formulado a
destempo. 4. O deferimento da prova requerida de forma
intempestiva só se justifica excepcionalmente e sem prejuízo
do regular andamento processual. 5. O requerimento de perícia
não suspende o curso da instrução processual. O art. 400 do
CPP menciona que os esclarecimentos dos peritos serão
tomados após a inquirição das testemunhas. Dispositivo que
deve ser lido em conjunto com o art. 159, § 5º, I, do CPP, que
trata do requerimento para que os peritos que atuaram na fase
de investigação sejam chamados a prestar ulteriores
esclarecimentos. A prova pericial requerida no curso da ação
penal pode ser realizada de forma independente da instrução
processual, não sendo causa de suspensão de seu curso. 6.
Necessidade da perícia. A autenticidade dos documentos será
avaliada com base no conjunto da prova produzida. Prova que,
no atual momento processual, não desponta como necessária.
Indeferimento, na forma do art. 400, § 1º, do CPP. 7. Negado
provimento ao agravo regimental” (AP 974 AgR-segundo, Rel.:
Min. GILMAR MENDES, Segunda Turma, DJe 14.2.2017 –
destaquei).

Embora o processo penal seja o instrumento destinado à reprodução


mais fiel possível dos fatos submetidos à prestação jurisdicional, tal
finalidade deve ser alcançada com a observância dos prazos e momentos

13

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 95 de 486 3507


AP 996 / DF

definidos em lei para a prática de cada ato processual, dando-se


efetividade à garantia prevista no art. 5º, LXXVIII, da Constituição
Federal, e evitando-se o desvirtuamento do processo como forma de se
buscar a impunidade mediante a prática abusiva de atos protelatórios.
No caso em apreço, repiso, por ocasião da defesa preliminar
protocolizada em 12.12.2016 (fl. 2.038) os patronos constituídos pelo
acusado Nelson Meurer limitaram-se a requerer, de forma genérica, a
produção de prova pericial, olvidando-se de especificar o objeto do
exame especializado pretendido, bem como a sua pertinência para a
resolução da causa.
A partir do término da oitiva das testemunhas arroladas pelas
defesas dos acusados e com a designação de datas para os respectivos
interrogatórios, nos termos da decisão de fls. 2.506-2.507, somente em
18.8.2017 (fl. 2.513) peticionaram os patronos dos denunciados Nelson
Meurer e Nelson Meurer Júnior requerendo a análise da pretensão de
produção da prova pericial, oportunidade na qual, de forma
flagrantemente extemporânea, externaram a intenção de juntada de
“perícia contábil” e de realização de exame técnico para aferição de
alegada valorização de imóvel localizado na cidade de Francisco
Beltrão/PR.
Para a exata compreensão do comportamento da defesa nestes autos,
cumpre trazer à colação os seguintes trechos do requerimento em
questão:

“(...)
Encerrada a fase de oitiva das testemunhas de defesa, V.
Exa. proferiu despacho mercê do qual designou data para a
realização do interrogatório dos réus - último ato da instrução
probatória - determinando-se, outrossim, a intimação de todos
os requeridos para o comparecimento ao ato.
Não obstante isso, e rogando as mais respeitosas venias, V.
Exa. deixou de observar pedido expresso de produção da prova
pericial feito por este réu quando da apresentação da sua defesa
prévia nos moldes do art. 8º da Lei nº 8.038/90, às fls. 2035/2037,

14

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 96 de 486 3508


AP 996 / DF

sobre o qual não houve qualquer despacho, o que impede a


designação do interrogatório e, conseguinte, o término da
instrução probatória.
(…)
Iniciou-se, assim, a instrução processual penal, com a
oitiva de testemunhas de acusação, seguida das testemunhas de
defesa, que, com todo respeito, não pode atingir o seu último
ato - interrogatório dos réus - sem que antes se examine o
pedido de produção de prova pericial deduzido oportunamente
na defesa prévia.
(…)
Cumpre explicitar, ainda, que, especificamente no caso
concreto, a perícia é essencial à completa instrução da lide, o
que reforça a necessidade de que o pedido da defesa seja
examinado antes do interrogatório e, logo, do término da
instrução processual penal.
Com efeito, há diligências de importância ímpar à
defesa, como por exemplo, a apresentação de relatório
contábil (que já se encontra em produção), no qual se
evidenciará divergências gritantes em relação ao
levantamento contábil/fiscal realizado pela acusação.
Da mesma forma, faz-se fundamental a produção de
prova pericial para aferir a valorização imobiliária de
propriedade deste réu, localizada no Município de Francisco
Beltrão/PR, que no passado (1985) havia sido doado ao
IBAMA, mas revertida a doação em 2012, representou um
relevante acréscimo em seu patrimônio, fato este tido como
relevante e passível de mensuração - e, portanto, de instrução
probatória - pelo acórdão que recebeu a denúncia do ora
requerido” (fls. 2.513-2.516 – destaquei).

Sobre tais argumentos defensivos, cumpre anotar, num primeiro


momento, que, pela sua generalidade, sequer seria possível a análise do
pleito de produção de prova pericial formulado por ocasião da defesa
prévia, já que não foram individualizados o exame especializado
pretendido, tampouco o seu objeto.

15

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 97 de 486 3509


AP 996 / DF

Ademais, especificamente no que diz respeito à perícia sobre os


depósitos realizados em contas-correntes vinculadas ao denunciado
Nelson Meurer, destaco que a própria defesa, no requerimento acima
transcrito, afirma ter providenciado a confecção de relatório contábil,
circunstância que evidencia a desnecessidade de qualquer intervenção
judicial no ponto.
Da mesma forma, sublinho a prescindibilidade da produção de
prova pericial à demonstração da alegada valorização de imóvel de
propriedade do aludido acusado situado na cidade de Francisco
Beltrão/PR.
Com efeito, trata-se de fato econômico que não demanda
conhecimentos especializados para a sua correta compreensão pelo Juízo,
razão pela qual a sua demonstração poderia vir aos autos pela própria
defesa, sob a fé de profissionais registrados no Conselho Regional dos
Corretores de Imóveis do Paraná, por exemplo.
Por fim, tal postulação sequer foi requerida pela defesa técnica na
fase do art. 10 da Lei n. 8.038/1990, o que revela, mais uma vez, a sua
dispensabilidade para a resolução do mérito da ação penal.
Todas essas circunstâncias levam à conclusão pela inexistência do
alegado cerceamento de defesa com o indeferimento da pretensão
probatória, a qual foi, insisto, exercida de forma extemporânea e
desprovida de suporte fático que justificasse a sua produção. Nesse
sentido:

“AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO


EXTRAORDINÁRIO. CONTROVÉRSIA ACERCA DA
NECESSIDADE DE PRODUÇÃO DE PROVA PERICIAL.
QUESTÃO RESTRITA AO ÂMBITO
INFRACONSTITUCIONAL. ALEGAÇÃO DE OFENSA À
CONSTITUIÇÃO FEDERAL. INEXISTÊNCIA. 1. Não
caracteriza cerceamento de defesa a decisão que,
motivadamente, indefere determinada diligência probatória.
Precedentes: AIs 382.214, da relatoria do ministro Celso de
Mello; e 144.548-AgR, da relatoria do ministro Sepúlveda

16

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 98 de 486 3510


AP 996 / DF

Pertence. 2. Caso em que entendimento diverso do adotado


pelo aresto impugnado demandaria o revolvimento de fatos e
provas. Providência vedada na instância extraordinária. 3.
Agravo regimental desprovido”
(RE 597.299 AgR, Rel.: Min. AYRES BRITTO, Segunda Turma,
DJe 8.10.2010 - destaquei).

Por tais fundamentos, rechaço a preliminar suscitada e, por


consequência, julgo prejudicado o agravo regimental interposto às fls.
2.567-2.579.

1.4. Cerceamento de defesa. Indeferimento da pretensão de oitiva


de novas testemunhas na fase do art. 10 da Lei n. 8.038/1990.

Na fase do art. 10 da Lei n. 8.038/1990, a defesa do acusado Nelson


Meurer (fls. 2.965-2.968) requereu a realização de diligências
complementares, consubstanciadas na oitiva de Mário Sílvio Mendes
Negromonte, Aguinaldo Velloso Borges Ribeiro, Ciro Nogueira Lima
Filho e Francisco Oswaldo Neves Dornelles, os quais, no decorrer da
instrução criminal, foram referidos nos depoimentos de testemunhas,
informantes ou colaboradores.
Essa pretensão foi indeferida, em decisão datada de 7.11.2017 (fls.
2.970-2.975), sendo interposto agravo regimental às fls. 2.985-2.996, cujos
fundamentos, aliados aos argumentos declinados em sede preliminar nas
alegações finais defensivas, serão analisados nesta oportunidade.
Sustenta o denunciado Nelson Meurer que o indeferimento da oitiva
de novas testemunhas representaria cerceamento do seu direito de defesa,
porque todas “foram referidas nos depoimentos prestados no curso da instrução
processual destes autos” (fl. 3.201), tratando-se de matéria pertinente à fase
de diligências complementares.
Acerca da necessidade de produção da prova oral pretendida,
assenta que Mário Sílvio Mendes Negromonte foi citado por cinco (5)
testemunhas, e denunciado em conjunto com o ora acusado Nelson
Meurer nos autos dos INQ 3.989 e INQ 3.980, razão pela qual seria

17

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 99 de 486 3511


AP 996 / DF

imprescindível a sua oitiva para que “esclareça fatos relativos ao suposto


envolvimento de Nelson Meurer com Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa, que
é objeto da presente ação penal” (fl. 3.202).
No que diz respeito a Aguinaldo Velloso Borges Ribeiro, esclarece a
defesa que o seu nome foi citado nos depoimentos de Alberto Youssef e
Dilceu Sperafico, os quais narraram a substituição da liderança do Partido
Progressista (PP) na Câmara dos Deputados ocorrida no ano de 2011,
motivo pelo qual a sua oitiva seria necessária para que “esclareça com
detalhes de que modo, o porquê e com qual finalidade se deu, efetivamente, a
referida troca de lideranças” (fl. 3.202).
Em relação a Ciro Nogueira Lima Filho, defende que a oitiva seria
imperiosa também para elucidar sua ascensão ao comando do Partido
Progressista (PP) após o falecimento de José Janene, conforme
depoimento prestado por Paulo Roberto Costa.
A par dessas considerações, conforme consignei na decisão de fls.
2.970-2.975, a posição de Mário Silvio Mendes Negromonte no
gerenciamento do Partido Progressista (PP), bem como a sua relação com
Nelson Meurer, Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa; a troca de
liderança do Partido Progressista (PP) na Câmara dos Deputados
envolvendo o ora acusado e Aguinaldo Velloso Borges Ribeiro; assim
como a condução da aludida agremiação partidária por Ciro Nogueira a
partir do falecimento de José Janene encontram-se devidamente descritos
na própria peça acusatória, a demonstrar que a pretensão da defesa não
detém origem em fatos revelados no decorrer da instrução.
Destarte, eventual pretensão probatória em relação a tais fatos
deveria ter sido manifestada oportunamente, pois de conhecimento
prévio dos acusados e de seus defensores, circunstância que impede o
acolhimento da diligência pretendida.
Nesse sentido, tem-se que a fase prevista no art. 10 da Lei n.
8.038/1990 destina-se à realização de diligências cuja imprescindibilidade
tenha como causa fato ocorrido no curso da instrução criminal. Trata-se
de mecanismo que viabiliza a manutenção da higidez das garantias
inerentes ao devido processo legal por meio da complementação da

18

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 100 de 486 3512


AP 996 / DF

produção probatória, cuja adoção deve ser precedida da demonstração da


sua imperiosa necessidade.
Essa nota da complementariedade anuncia que, nesse momento, as
partes já não têm direito subjetivo à ampla produção probatória,
porquanto lhes incumbe o ônus de demonstrar que a diligência requerida
é apta a esclarecer ou sanar os fatos extraordinários verificados no
decorrer da fase de instrução.
Como visto, a pretensão de oitiva de Mário Sílvio Mendes
Negromonte, Aguinaldo Velloso Borges Ribeiro e Ciro Nogueira Lima
Filho não teve como causa qualquer fato ocorrido no decorrer da
instrução processual, sendo certo que a simples referência a seus nomes
não detém o condão de autorizar sua oitivas em juízo, sem que fique
caracterizada violação ao limite de testemunhas previsto no art. 401,
caput, do Código de Processo Penal.
Quanto à pretendida oitiva de Francisco Oswaldo Neves Dornelles,
alude a defesa que a sua necessidade se justificaria pelo fato de ter
exercido a presidência do Partido Progressista (PP) entre os anos de 2008
a 2012, bem como por ter sido citado nos depoimentos prestados por
Dilceu Sperafico e, indiretamente, por Paulo Roberto Costa.
Volto a repisar, entretanto, que a mera referência ao nome de
Francisco Dornelles, sem qualquer implicação nos fatos denunciados, não
torna impositiva a sua oitiva em juízo na qualidade de testemunha,
mormente porque, de acordo com a tese acusatória, não lhe foi atribuída
qualquer ciência dos ilícitos descritos na denúncia, olvidando-se a defesa
em demonstrar a relevância da diligência pretendida à construção do
ônus da prova defensivo.
Ressalto, por fim, que o fato das pretendidas testemunhas terem sido
incluídas em denúncias ofertadas em autos diversos e,
consequentemente, por fatos também distintos, não se constitui em causa
apta a justificar suas oitivas nesta ação penal, tendo em vista a autonomia
das imputações e das respectivas instruções processuais. A propósito:

“Agravo regimental em ação penal. Indeferimento de


diligências. Testemunhas referidas. Novo interrogatório.

19

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 101 de 486 3513


AP 996 / DF

Informações sobre a movimentação processual e autuação.


Testemunhas arroladas e outras conhecidas desde o início da
ação penal. Ausência de inovação fática. Falta de demonstração
objetiva da necessidade e utilidade da prova. Desnecessidade
de realização de novo interrogatório (precedentes). Modificação
do suporte físico dos autos digital/papel. Diligências devem
dirigir-se à elucidação dos fatos. Irrelevância do extrato de
movimentação processual. Inexistência das irregularidades
alegadas. Negado provimento” (AP 671 AgR-segundo, Rel.:
Min. GILMAR MENDES, Tribunal Pleno, DJe 16.5.2013).

“1. AÇÃO PENAL. Nulidade. Cerceamento de defesa.


Desentranhamento de documento. Alegação de ofensa ao art.
232 do CPP. Matéria não conhecida em recurso especial. Falta
de prequestionamento. HC. Pedido não conhecido. Não pode o
Supremo Tribunal Federal apreciar, em habeas corpus, matéria
não conhecida pelo Superior Tribunal de Justiça. 2. AÇÃO
PENAL. Prova. Cerceamento de defesa. Não caracterização.
Testemunha referida. Inquirição negada. Decisão
fundamentada. Faculdade do juiz na direção da causa. HC
denegado. Aplicação do § 1º do art. 209 do CPP. Compete ao
juiz da causa, mediante decisão fundamentada, na direção da
causa, deferir, ou não, inquirição de testemunhas referidas”
(HC 85.533, Rel.: Min. CEZAR PELUSO, Segunda Turma, DJe
29.6.2007).

Cumpre assinalar que a pretensão de diligências complementares ao


final de instrução criminal não se confunde com o pleito de substituição
de testemunhas, tampouco com a iniciativa probatória disposta em favor
do Juízo, nos termos do art. 11, § 3º, da Lei n. 8.038/1990.
Logo, o registro feito ao final da decisão na qual foi analisado o
pleito de substituição de testemunhas formulado pelo Ministério Público,
extensível à defesa (fls. 2.105-2.106), no sentido de que o indeferimento da
pretensão não prejudicaria, por ocasião da fase de diligências
complementares, a análise da necessidade de inquirição de “novas pessoas
ou até colaboradores, com fundamento no art. 209 do Código de Processo Penal”,

20

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 102 de 486 3514


AP 996 / DF

em hipótese alguma significa sinalização de irrestrita adoção de


quaisquer providências excepcionais requeridas pelas partes nas fases
procedimentais ulteriores, cuja implementação deve preceder a cabal
demonstração da necessidade à luz do panorama fático-processual
verificado no caso concreto.
Por tais razões, indefiro a preliminar suscitada e julgo prejudicado
o agravo regimental interposto às fls. 2.985-2.996.

1.5. Pretensão de julgamento conjunto da presente ação penal com


os INQ 3.980 e INQ 3.989.

Não assiste razão ao denunciado Nelson Meurer quando argumenta


a necessidade de julgamento conjunto deste processo com os INQ 3.980 e
INQ 3.989.
É que, ainda que haja conexão intersubjetiva e instrumental entre a
presente ação penal e os precitados inquéritos, o art. 80 do Código de
Processo Penal faculta a separação de causas conexas quando “as infrações
tiverem sido praticadas em circunstâncias de tempo ou de lugar diferentes, ou,
quando pelo excessivo número de acusados e para não lhes prolongar a prisão
provisória, ou por outro motivo relevante, o juiz reputar conveniente a
separação”.
Nesse sentido: HC 83.463, Rel. Min. CARLOS VELLOSO, Segunda
Turma, DJ de 4.6.2004; HC 73.423, Rel. Min. FRANCISCO REZEK,
Segunda Turma, DJ de 12.11.1999; HC 73.208, Rel. Min. MAURÍCIO
CORRÊA, Segunda Turma, DJ de 7.2.1997; HC 70.688, Rel. Min. MARCO
AURÉLIO, Segunda Turma, DJ de 10.12.1993.
Na espécie, em função da pluralidade de investigados e da
complexidade dos fatos, especialmente em relação ao INQ 3.989, afigura-
se conveniente à persecução penal que as apurações tramitem
separadamente, sem que haja, com isso, qualquer prejuízo à defesa.
Relembro, a propósito, que nesta ação penal encontram-se sob
julgamento condutas em tese enquadradas como crimes de corrupção
passiva e lavagem de dinheiro, enquanto o INQ 3.989 trata apenas da

21

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 103 de 486 3515


AP 996 / DF

imputação de organização criminosa em relação a diversos investigados,


já tendo sido desmembrado pelo saudoso Ministro Teori Zavascki, dando
origem a outros quatro (4) novos cadernos indiciários (INQ 3.989, 4.325,
4.326 e 4.327), divididos por agremiação partidária.
Já no INQ 3.980, por sua vez, foram denunciados João Alberto
Pizzolatti Júnior, Mário Sílvio Mendes Negromonte, Mário Sílvio Mendes
Negromonte Júnior, Luiz Fernando Ramos Faria, José Otávio Germano,
Roberto Pereira De Britto e Arthur César Pereira De Lira, tendo a
Procuradoria-Geral da República lhes atribuído a prática de delitos de
corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Embora as condutas descritas na incoativa ofertada nos autos desse
último caderno processual sejam semelhantes às narradas nestes autos, é
certo que os feitos estão em fases processuais distintas, o que reforça a
conclusão da inconveniência da pretendida unificação, mormente
levando em conta o expressivo número de acusados, circunstância que
ainda redundaria em irrazoável atraso na prestação jurisdicional.
Por tais razões, rejeito a preliminar suscitada.

1.6. Acolhimento de contradita à testemunha arrolada pela defesa.


Alegada quebra da paridade de armas.

Como última questão prefacial ao mérito da acusação, a defesa


técnica do denunciado Nelson Meurer sustenta que a testemunha João
Alberto Pizzolatti Júnior foi indevidamente contraditada em sua oitiva a
pedido do Ministério Público Federal, circunstância que redundaria na
quebra da paridade de armas, já que, das 11 (onze) pessoas arroladas por
ocasião da defesa prévia, apenas 7 (sete) prestaram o compromisso de
dizer a verdade, na forma do art. 203 do Código de Processo Penal.
Nada obstante, como consignado em audiência, a referida
testemunha figura como denunciado no INQ 3.980, no qual a
Procuradoria-Geral da República lhe imputa a prática de condutas
semelhantes às narradas nesta ação penal e que, por conveniência da
prestação jurisdicional, tramitaram de forma separada em função de

22

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 104 de 486 3516


AP 996 / DF

desmembramento.
Constata-se, portanto, que a sua situação subjetiva se amolda ao
disposto no art. 405, § 3º, IV, do Código de Processo Civil, aplicável ao
caso por força do art. 3º do Código de Processo Penal, na medida em que
é notório o seu interesse no litígio, já que condutas semelhantes lhe são
atribuídas em denúncia diversa já oferecida e recentemente recebida pelo
órgão colegiado.
Nesse cenário, a dispensa do compromisso de dizer a verdade
exigido no art. 203 do Código de Processo Penal é medida consentânea
com o direito ao silêncio garantido a qualquer acusado da prática de fato
definido como crime pelo ordenamento jurídico pátrio, e evita a
ocorrência de constrangimento apto a macular o exercício do direito de
defesa que é corolário do devido processo legal garantido no art. 5º, LIV,
da Constituição Federal. Em caso análogo, confira-se o seguinte
precedente do Plenário do Supremo Tribunal Federal:

“AÇÃO PENAL. TERCEIRA QUESTÃO DE ORDEM. CO-


RÉUS COLABORADORES. DENÚNCIA NO PRIMEIRO GRAU
DE JURISDIÇÃO. DESMEMBRAMENTO DO FEITO.
INOCORRÊNCIA. AUSÊNCIA DE ACUSAÇÃO FORMAL
CONTRA OS RÉUS NESTA CORTE. INCOMPETÊNCIA DO
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL PARA O JULGAMENTO
ORIGINÁRIO. INCONVENIÊNCIA DA REUNIÃO DOS
PROCESSOS. IMPOSSIBILIDADE DE JULGAMENTO
CONJUNTO. MANUTENÇÃO DO FEITO NO JUÍZO DE
ORIGEM. ARROLAMENTO DOS CO-RÉUS COMO
TESTEMUNHAS. IMPOSSIBILIDADE. APROVEITAMENTO
DOS DEPOIMENTOS NA CONDIÇÃO DE INFORMANTES.
VIABILIDADE. RESPEITO AOS DITAMES LEGAIS E AO
PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO. QUESTÃO DE ORDEM
RESOLVIDA PARA AFASTAR A QUALIDADE DE
TESTEMUNHAS E MANTER A OITIVA DOS CO-RÉUS NA
CONDIÇÃO DE INFORMANTES. (...) 6. O fato de não terem
sido denunciados nestes autos não retira dos envolvidos a
condição de co-réus. Daí a impossibilidade de conferir-lhes a

23

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 105 de 486 3517


AP 996 / DF

condição de testemunhas no feito. 7. De todo modo, por não


terem sido ouvidos na fase do interrogatório judicial, e
considerando a colaboração prestada nos termos da delação
premiada que celebraram com o Ministério Público, é
perfeitamente legítima sua oitiva na fase da oitiva de
testemunhas, porém na condição de informantes. Precedente.
8. Respeito ao princípio do contraditório e necessidade de
viabilizar o cumprimento, pelos acusados, dos termos do
acordo de colaboração, para o qual se exige a efetividade da
colaboração, como prevêem os artigos 13 e 14 da Lei n°
9.807/99. 9. Questão de ordem resolvida para julgar ausente
violação à decisão do plenário que indeferiu o
desmembramento do feito e, afastando sua condição de
testemunhas, manter a possibilidade de oitiva dos co-réus
colaboradores nestes autos, na condição de informantes”
(AP 470 QO-terceira, Rel.: Min. JOAQUIM BARBOSA, Tribunal
Pleno, DJe 30.4.2009 - destaquei)

Convém ressaltar que no ordenamento jurídico processual penal


pátrio não vige o sistema de provas tarifadas, tendo o Estado-Juiz o poder
de exercer a livre apreciação do conjunto probatório, cuja valoração deve
ser objeto de expressa motivação, em observância à garantia insculpida
no art. 93, IX, da Constituição Federal.
Desse modo, não se constata qualquer prejuízo à defesa na oitiva de
João Alberto Pizzolatti Júnior na qualidade de informante, cujas
declarações serão objeto de oportuna e adequada valoração, assim como
os demais elementos probatórios produzidos no decorrer da instrução
criminal, por ocasião do enfrentamento do mérito da ação penal.
Ante o exposto, rejeito a preliminar suscitada.

2. Mérito.

Em atenção ao princípio da legalidade estrita que vige no Direito


Penal pátrio, enunciado no art. 5º, XXXIX, da Constituição Federal e no
art. 1º do Código Penal, a incidência da sanção prevista no preceito

24

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 106 de 486 3518


AP 996 / DF

secundário de determinada norma incriminadora só se revela legítima


quando comprovada, no seio do devido processo legal, a ocorrência de
todos os elementos que compõem o tipo penal.
Na espécie, a Procuradoria-Geral da República atribui aos acusados,
em denúncia recebida por este Colegiado em menor extensão, a prática
dos crimes previstos no art. 317, § 1º, do Código Penal e no art. 1º, caput e
§ 4º, da Lei n. 9.613/1998.

2.1. Corrupção passiva.

O delito de corrupção passiva recebeu do legislador ordinário a


seguinte definição:

“Art. 317 – Solicitar ou receber, para si ou para outrem,


direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de
assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar
promessa de tal vantagem:
Pena – reclusão de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa.
§ 1º – A pena é aumentada de um terço, se, em
consequência da vantagem ou promessa, o funcionário retarda
ou deixa de praticar qualquer ato de ofício ou o pratica
infringindo dever funcional”.

Como se infere da sua redação, o tipo penal em análise, encartado no


título que define os crimes contra a administração pública, tutela a
moralidade administrativa, tendo por finalidade coibir e reprimir a
mercancia da função pública, cujo exercício deve ser pautado
exclusivamente pelo interesse público.
A configuração do delito em questão pressupõe a solicitação,
recebimento ou aceitação de promessa da vantagem indevida por parte
de funcionário público, mesmo que ainda não se encontre investido na
função, mas a utilize como o objeto da contraprestação a ser adimplida no
negócio espúrio.
Nesse sentido, a jurisprudência deste Supremo Tribunal Federal

25

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 107 de 486 3519


AP 996 / DF

considera que a perfeita subsunção da conduta ao tipo penal exige a


demonstração de que o favorecimento negociado pelo agente público se
encontra no rol das atribuições previstas para a função que exerce.
Logo, ainda que o retardamento, a prática ou a omissão do ato de
ofício em infração ao dever funcional seja previsto pelo legislador como
uma causa de especial aumento de pena do crime de corrupção passiva, é
imprescindível à configuração do ilícito que a vantagem indevida
solicitada, recebida ou prometida e aceita pelo agente público sirva como
contraprestação à possibilidade de sua atuação viciada no espectro de
atribuições da função pública que exerce ou venha a exercer.
Assim, mesmo que o agente público tenha solicitado, recebido ou
aceito promessa de vantagem indevida de terceiro, caso a contraprestação
negociada seja de adimplemento impossível, por se encontrar fora das
atribuições da função pública que exerce ou venha a exercer, não se terá
por configurado o crime de corrupção passiva, em respeito ao postulado
da legalidade estrita que vige no Direito Penal pátrio, sem prejuízo de
que tal conduta encontre adequada subsunção em outro tipo penal.
Trago à colação os seguintes precedentes:

“Inquérito. 2. Competência originária. 3. Penal e


Processual Penal. (...) 9. Tipicidade, em tese. Art. 317, caput,
combinado com § 1º, do CP (corrupção passiva), e art. 333,
parágrafo único, do CP (corrupção ativa). Indícios de autoria.
10. Nexo improvável entre a prática do ato de ofício e a
vantagem. Inexistência de requerimento de produção de
provas que tenham real possibilidade de demonstrar a
ligação. 11. Denúncia rejeitada” (INQ 3.705, Rel.: Min. GILMAR
MENDES, Segunda Turma, DJe 15.9.2015 - destaquei).

“(…) CAPÍTULO III DA DENÚNCIA. SUBITEM III.1.


CORRUPÇÃO PASSIVA. CORRUPÇÃO ATIVA. PECULATO.
LAVAGEM DE DINHEIRO. AÇÃO PENAL JULGADA
PARCIALMENTE PROCEDENTE. 1. Restou comprovado o
pagamento de vantagem indevida ao então Presidente da
Câmara dos Deputados, por parte dos sócios da agência de

26

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 108 de 486 3520


AP 996 / DF

publicidade que, poucos dias depois, viria a ser contratada pelo


órgão público presidido pelo agente público corrompido.
Vinculação entre o pagamento da vantagem e os atos de ofício
de competência do ex-Presidente da Câmara, cuja prática os
réus sócios da agência de publicidade pretenderam
influenciar. Condenação do réu JOÃO PAULO CUNHA, pela
prática do delito descrito no artigo 317 do Código Penal
(corrupção passiva), e dos réus MARCOS VALÉRIO,
CRISTIANO PAZ e RAMON HOLLERBACH, pela prática do
crime tipificado no artigo 333 do Código Penal (corrupção
ativa). (…) CAPÍTULO III DA DENÚNCIA. SUBITEM III.3.
CORRUPÇÃO PASSIVA, CORRUPÇÃO ATIVA, PECULATO E
LAVAGEM DE DINHEIRO. DESVIO DE RECURSOS
ORIUNDOS DE PARTICIPAÇÃO DO BANCO DO BRASIL NO
FUNDO VISANET. ACUSAÇÃO JULGADA PROCEDENTE. 1.
Comprovou-se que o Diretor de Marketing do Banco do Brasil
recebeu vultosa soma de dinheiro em espécie, paga pelos réus
acusados de corrupção ativa, através de cheque emitido pela
agência de publicidade então contratada pelo Banco do Brasil.
Pagamento da vantagem indevida com fim de determinar a
prática de atos de ofício da competência do agente público
envolvido, em razão do cargo por ele ocupado. Condenação do
réu HENRIQUE PIZZOLATO, pela prática do delito descrito no
artigo 317 do Código Penal (corrupção passiva), bem como dos
réus MARCOS VALÉRIO, CRISTIANO PAZ e RAMON
HOLLERBACH, pela prática do crime tipificado no artigo 333
do Código Penal (corrupção ativa). (…) CAPÍTULO VI DA
DENÚNCIA. SUBITENS VI.1, VI.2, VI.3 E VI.4. CORRUPÇÃO
ATIVA E CORRUPÇÃO PASSIVA. ESQUEMA DE
PAGAMENTO DE VANTAGEM INDEVIDA A
PARLAMENTARES PARA FORMAÇÃO DE ‘BASE ALIADA’
AO GOVERNO FEDERAL NA CÂMARA DOS DEPUTADOS.
COMPROVAÇÃO. RECIBOS INFORMAIS. DESTINAÇÃO
DOS RECURSOS RECEBIDOS. IRRELEVÂNCIA. AÇÃO
PENAL JULGADA PROCEDENTE, SALVO EM RELAÇÃO A
DOIS ACUSADOS. CONDENAÇÃO DOS DEMAIS. 1.

27

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 109 de 486 3521


AP 996 / DF

Conjunto probatório harmonioso que, evidenciando a sincronia


das ações de corruptos e corruptores no mesmo sentido da
prática criminosa comum, conduz à comprovação do amplo
esquema de distribuição de dinheiro a parlamentares, os quais,
em troca, ofereceram seu apoio e o de seus correligionários aos
projetos de interesse do Governo Federal na Câmara dos
Deputados. 2. A alegação de que os milionários recursos
distribuídos a parlamentares teriam relação com dívidas de
campanha é inócua, pois a eventual destinação dada ao
dinheiro não tem relevância para a caracterização da conduta
típica nos crimes de corrupção passiva e ativa. Os
parlamentares receberam o dinheiro em razão da função, em
esquema que viabilizou o pagamento e o recebimento de
vantagem indevida, tendo em vista a prática de atos de ofício.
(...)” (AP 470, Rel.: Min. JOAQUIM BARBOSA, Tribunal Pleno,
DJe 22.4.2013)

No caso em tela, o delito de corrupção passiva é atribuído ao


acusado Nelson Meurer em três (3) momentos distintos, em dois (2) dos
quais teria contado com o auxílio dos denunciados Nelson Meurer Júnior
e Cristiano Augusto Meurer. Em todos, entretanto, é ponto comum da
acusação a afirmação de que os valores indevidos percebidos por Nelson
Meurer seriam contraprestação ao apoio político fornecido, na qualidade
de integrante da cúpula do Partido Progressita (PP) e no exercício da
atividade parlamentar, para a indicação e manutenção de Paulo Roberto
Costa na Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A, viabilizando, por
conseguinte, o funcionamento do cartel de empreiteiras que ali se
formou.
Por se tratar de questão essencial à configuração do referido crime
de corrupção passiva, cumpre perquirir, nesse primeiro momento, se o
apoio político envidado na indicação a cargos públicos ou para a
manutenção de agentes neles investidos se insere no âmbito da atuação
funcional de parlamentar.
Ao meu sentir, a depender das circunstâncias fáticas verificadas em
cada situação concreta, a resposta é afirmativa.

28

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 110 de 486 3522


AP 996 / DF

De fato, não se desconsidera que a doutrina, a exemplo de Cezar


Roberto Bitencourt, sustenta que o crime de corrupção passiva exige ser
“necessário que a ação do funcionário corrupto seja inequívoca, demonstrando o
propósito do agente de traficar com a função que exerce. É indispensável que a
ação do sujeito ativo tenha o propósito de ‘vender’, isto é, de ‘comercializar’ a
função pública” (Tratado de direito penal. v 5. 9ª ed. São Paulo: Saraiva :
2015, p. 114).
Nessa linha, como sublinhado pela defesa técnica mesmo que
genericamente, argumenta-se que hipóteses como a dos autos, em que
valor indevidamente percebido em razão do exercício da função
parlamentar dá-se em troca de apoio político para manutenção de um
determinado agente (ora corruptor, ora partícipe da corrupção passiva)
em cargo público - de onde pratica atos de desvio de dinheiro público -,
não se traduz em qualquer contraprestação configuradora de corrupção
passiva, pois a nomeação e exoneração do titular desses cargos não se
insere na esfera das atribuições parlamentares.
Penso de modo diverso, pois compreendo que a tese não resiste à
compreensão completa das atribuições parlamentares no regime
constitucional vigente.
Com efeito, importa ter em mente as próprias peculiaridades do
sistema presidencialista brasileiro, em que as atividades parlamentares
não se resumem à apreciação e proposições de atos legislativos, mas vão
além disso, franqueando-se aos congressistas participação ativa nas
decisões de governo.
A esse respeito, ganhou notoriedade a expressão “presidencialismo de
coalizão” cunhada por Sérgio Henrique Hudson de Abranches para
descrever as peculiaridades do sistema presidencialista brasileiro.
Segundo o doutrinador:

“(...) o Brasil é o único país que, além de combinar a


proporcionalidade, o multipartidarismo e o ‘presidencialismo
imperial’, organiza o Executivo com base em grandes coalizões.
A esse traço peculiar da institucionalidade concreta brasileira
chamarei, à falta de melhor nome, ´presidencialismo de

29

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 111 de 486 3523


AP 996 / DF

coalizão´.
(…)
A formação de coalizões envolve três momentos típicos.
Primeiro, a constituição de uma aliança eleitoral, que requer
negociação em torno de diretivas programáticas mínimas,
usualmente amplas e pouco específicas, e de princípios a serem
obedecidos na formação do governo, após a vitória eleitoral.
Segundo, a constituição do governo, no qual predomina a
disputa por cargos e compromissos relativos a um programa
mínimo de governo, ainda bastante genérico. Finalmente a
transformação da aliança em coalizão efetivamente governante,
quando emerge, com toda força, o problema da formulação da
agenda....
(…)
Esse é, naturalmente, um processo de negociação e
conflito, no qual os partidos na coalizão se enfrentam em
manobras calculadas para obter cargos e influência decisória.
Tal processo se faz por uma combinação de reflexão e cálculo,
deliberação e improviso, ensaio e erro da qual resulta a
fisionomia do governo” (Presidencialismo de coalizão: o
dilema institucional brasileiro. In Revista de Ciências Sociais,
Rio de Janeiro. Vol. 31, n. 1, 1988, pp. 21-22, 27).

A despeito de eventuais críticas a essa peculiaridade do sistema


presidencialista brasileiro, parcela relevante da doutrina, da qual é
exemplo Paulo Ricardo Schier, saúda-o como “mecanismo eficiente para
garantir estabilidade e governabilidade no contexto de um arranjo institucional
em que o presidente da república possui muitos poderes e, inevitavelmente, um
parlamento multipartidário, tendo que dar conta de interesses políticos e sociais
plurais e fragmentados o que, certamente, gera frustrações e tensões”
(Presidencialismo de coalizão. Curitiba: Juruá, 2016, p. 123). Segue o
autor, esclarecendo que a “democracia plural também exige que decisões sejam
tomadas e escolhas feitas. E sempre existirão interesses que serão frustrados. O
importante é que no processo decisório as escolhas não sejam impostas, que as
minorias e os afetados possam influenciar e participar da negociação, inclusive

30

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 112 de 486 3524


AP 996 / DF

podendo obter cargos, impor pontos inegociáveis ou mesmo buscarem vantagens.


A lógica da coalizão permite que este processo ocorra dialogicamente e seja
negociado, e não imposto” (p. 126).
Essa peculiar característica de nosso sistema presidencialista tem
sido, igualmente, objeto de considerações por parte do eminente Ministro
Gilmar Mendes. Cito como exemplo, argumentos lançados em obiter
dictum, por ocasião do voto na ADI 4.568, quando expôs que “em sistemas
de governo presidencialistas e, especialmente, em nosso modelo (denominado
pelos cientistas políticos de Presidencialismo de Coalizão), as eleições para a
Chefia do Executivo e para o Parlamento são independentes. Daí afirmar-se que,
no presidencialismo de coalizão vigente no Brasil, não é o governo resultado de
uma maioria parlamentar, mas esta, a maioria parlamentar, é que deve ser
conquistada pelo Governo eleito”.
Nessa toada, como se depreende das lições acima transcritas, a
própria configuração constitucional do regime presidencialista brasileiro
confere aos parlamentares um espectro de poder que vai além da mera
deliberação a respeito de atos legislativos, tanto que a participação efetiva
de parlamentares nas decisões de governo, indicando quadros para o
preenchimento de cargos no âmbito do poder executivo, é própria da
dinâmica do sistema presidencialista brasileiro, que exige uma coalizão
para viabilizar a governabilidade.
Destarte, a partir do que se sustenta na doutrina, em tese, essa
dinâmica não é, em si, espúria, e pode possibilitar, quando a coalizão é
fundada em consensos principiológicos éticos, numa participação mais
plural na tomada de decisões usualmente a cargo do poder executivo.
Todavia, quando o poder do parlamentar de indicar alguém para um
determinado cargo, ou de lhe dar sustentação política para nele
permanecer, é exercido de forma desviada, voltado à percepção de
vantagens indevidas, há evidente mercadejamento da função
parlamentar, ao menos nos moldes em que organizado o sistema
constitucional político-partidário brasileiro.
Logo, a singela assertiva de que não compete ao parlamentar nomear
nem exonerar alguém de cargos públicos vinculados ao poder executivo

31

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 113 de 486 3525


AP 996 / DF

desconsidera a organização constitucional do sistema presidencialista


brasileiro.
Não fosse isso, deve-se ter em mente que a Constituição da
República, expressamente, confere a parlamentares funções que vão além
da tomada de decisões voltadas à produção de atos legislativos,
peculiaridade que não passou despercebida quando do julgamento da AP
470, como restou claro do seguinte trecho do acórdão, ao tempo que
debatido o tema.
Naquela oportunidade, os eminentes Ministros assim se
manifestaram sobre essa peculiaridade das atribuições parlamentares:

“(...)
O SENHOR MINISTRO AYRES BRITTO (PRESIDENTE) -
Ministro Gilmar Mendes, se Vossa Excelência permite?
Nessa mesma linha do seu douto pensamento, o ato de
ofício, essa expressão, no nosso Direito - seja em Direito
Administrativo, seja em Direito Processual Civil, Penal -, já vem
consagrada como o ato que, para ser praticado, não precisa de
provocação de quem quer que seja. A autoridade sponte propria
ou sponte sua, por impulso interno, portanto, pratica o ato.
Ao passo que ato do ofício revela uma abrangência
material compatível com o que pretende o Código Penal - acho
que é o § 1º do artigo 317. É ato do ofício público
correspondente ao cargo exercido, no caso, pelo parlamentar. E
o Ministro Celso de Mello, ainda há pouco, falou que esse ato
do ofício compreende centralmente o voto. Mas, nos termos da
Constituição, vai além para alcançar opiniões, palavras e votos.
O SENHOR MINISTRO CELSO DE MELLO: Mesmo
porque os parlamentares acham-se investidos de uma tríplice
função constitucional: elaboração das leis, fiscalização dos atos
do Poder Executivo e representação, com dignidade, do Povo
brasileiro.
O SENHOR MINISTRO AYRES BRITTO (PRESIDENTE) -
Perfeito!
O SENHOR MINISTRO JOAQUIM BARBOSA

32

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 114 de 486 3526


AP 996 / DF

(RELATOR) - Mas eu citei outras funções. Citei o Regimento


Interno da Câmara dos Deputados, que elenca uma série de
outras funções, que não apenas o voto.
O SENHOR MINISTRO CELSO DE MELLO: Referi-me,
Senhor Relator, às funções constitucionais mais expressivas dos
congressistas.
O SENHOR MINISTRO JOAQUIM BARBOSA
(RELATOR) - Sobretudo, os líderes.
O SENHOR MINISTRO CELSO DE MELLO: O exercício
do voto, pelos membros do Congresso Nacional, talvez
represente o mais expressivo dos momentos em que se
desenvolve a prática do ofício parlamentar. Observe-se, no
entanto, que a atividade parlamentar não se exaure no ato de
votação, eis que, como Vossa Excelência bem ressaltou, os
congressistas dispõem de múltiplas atribuições, tanto
constitucionais quanto regimentais.
O SENHOR MINISTRO JOAQUIM BARBOSA
(RELATOR) – No mundo em que vivemos, a função, talvez,
mais eficaz, de qualquer Parlamento é a função fiscalizatória,
não a função de legislar.
O SENHOR MINISTRO AYRES BRITTO (PRESIDENTE) -
Ministro Gilmar, se me permite, ainda vou concluir, mas eu
tenho certeza que bate com o que vou dizer com o raciocínio de
Vossa Excelência.
Como se delinque tanto por ação quanto por omissão, no
caso dos autos, há um, esse tipo de cooptação pode levar - como
me parece que levou - talvez à mais danosa das omissões: é
quando um partido, por si e seus parlamentares, passa a,
sistematicamente, não fazer proposta nem oposição. Esse modo
sistemático de se omitir é uma modalidade tão radical quanto
danosa.
O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - E há funções
institucionais notórias, por exemplo, o Colégio de Líderes que
define a pauta, a agenda congressual, a agenda de cada uma
das Casas Legislativas, significa decide se algo que será
colocado na pauta ou, eventualmente, não será colocado. Quer

33

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 115 de 486 3527


AP 996 / DF

dizer, para isso, basta a aceitação ou a objeção. Veja é uma


decisão importante e nem é submetida ao Colégio dos
Parlamentares, mas ao Colégio de Líderes, juntamente com o
Presidente de cada uma das Casas.
Portanto, há uma série de atos outros que estão hoje
consagrados na prática constitucional, na prática regimental, na
prática congressual” (Inteiro Teor do Acórdão - Página 4445-47)

A Constituição Federal, em seu art. 49, X, dentre outras, confere ao


Congresso Nacional competência exclusiva para: “X - fiscalizar e controlar,
diretamente, ou por qualquer de suas Casas, os atos do Poder Executivo,
incluídos os da administração indireta”.
Parece evidente, nessa perspectiva, que um parlamentar, em tese, ao
receber dinheiro em troca ou em razão de apoio político a um diretor de
empresa estatal está mercadejando uma de suas principais funções que é
o exercício da fiscalização da lisura dos atos do Poder Executivo,
incluídos os da administração indireta.
Percebe-se, desse modo, a importância superlativa dada pela Carta
Magna a essas funções parlamentares quando se verifica, para evitar
conflitos de interesses, que aos deputados e senadores é
constitucionalmente vedado, desde a expedição do diploma, “a) firmar ou
manter contrato com pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa
pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço
público, salvo quando o contrato obedecer a cláusulas uniformes; e b) aceitar ou
exercer cargo, função ou emprego remunerado, inclusive os de que sejam
demissíveis "ad nutum", nas entidades constantes da alínea anterior;” (art. 54, I,
letras “a” e “b”).
Além disso, a Constituição dotou o Congresso Nacional de poderes
próprios de autoridade judicial, quando instituídas comissões
parlamentares de inquérito, para apuração de fatos determinados, com
encaminhamento de suas conclusões para o Ministério Público para
responsabilização civil e criminal de infratores (art. 58, § 3º).
Dessa feita, a percepção de vantagens indevidas, oriundas de
desvios perpetrados no âmbito de entidades da administração indireta, a

34

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 116 de 486 3528


AP 996 / DF

partir de sustentação política a detentores de poder de gestão nessas


entidades, implica evidente ato omissivo no que diz respeito ao exercício
dessas funções parlamentares.
Por todos esses fundamentos, como anotei, inclusive, em julgamento
anterior, afirmo ser plenamente viável a configuração do crime de
corrupção passiva, previsto no caput do art. 317 e parágrafos do Código
Penal, quando a vantagem indevida é solicitada, recebida ou aceita pelo
agente público, em troca da manifestação da força política que este detém
para a condução ou sustentação de determinado agente em cargo que
demanda tal apoio.
À luz de tal premissa, e examinando o caso vertente, tem-se que o
conjunto probatório produzido no decorrer da instrução criminal
demonstra que, na distribuição de cargos decorrente da coalizão formada
pelo Governo Federal, a Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A era
destinada ao Partido Progressista (PP), a quem competia a indicação do
nome que ocuparia o aludido cargo.
Esclarecedoras, nessa direção, são as declarações prestadas em juízo
pelo colaborador Paulo Roberto Costa:

“(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Esta ação penal aqui, ela trata de
toda aquela questão envolvendo a sua nomeação, a sua
manutenção no cargo, o que era obtido em troca disso. Então, é
um processo que trata de forma bem ampla. Tanto que envolve
alguns depoimentos que você prestou na sua colaboração.
Então, eu queria - começando, perguntando de uma forma
geral, para que o senhor colocasse aqui, para ficar, mesmo que o
senhor já tenha prestado diversos depoimentos sobre isso, esse
processo aqui, agora, seu depoimento está sendo submetido ao
contraditório em relação especificamente ao Deputado Nelson
Meurer e a seus filhos, mais toda aquela sistemática - então, eu
queria que o senhor começasse narrando, então, como é que foi
a sua ascensão ao cargo de Diretor de abastecimento da
Petrobras, o período que ficou, como que foi a questão da
indicação política, manutenção?

35

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 117 de 486 3529


AP 996 / DF

COLABORADOR - Eu entrei na Petrobras por concurso


público, em 1977. Trabalhei por vinte e sete anos na Petrobras,
tive vários cargos importantes, fui Gerente da Bacia de Campos,
que era área mais importante de produção da Petrobras, sem
nunca precisar de nenhum apoio político, por capacitação pura
e minha em termos de trabalho. Mas, para chegar à diretoria da
Petrobras, e sempre foi assim até quando eu saí da Petrobras,
sempre foi assim, todos, sem exceção, diretores e o presidente
da Petrobras, por indicações políticas. Todos, não tem exceção.
E eu fui procurado, na época, pelo PP com essa possibilidade
de ser indicado para diretor. E eu tinha um sonho, eu tinha
capacitação técnica para ser diretor. E o PP me indicou, através,
na época, do Deputado José Janene. Tive primeira reunião com
ele e com o Pedro Corrêa. E eu fui indicado, então, pelo Partido.
Isso foi para Brasília - né? -, tinha que ter sempre o aval não só
nessa época, mas nos governos anteriores, sempre, porque, pela
importância da Petrobras, importância dos cargos da Petrobras,
a última palavra sempre era do Presidente da República. Então,
isso foi lá desde Sarney, de Collor, que eu lembro, e de Itamar
Franco, e de Fernando Henrique, e de Lula, e de Dilma, sempre
foi assim. E o PP, então, me indicou. Teve o aval do Presidente
da República. E, após isso, aí tinha que ser aprovado também
no Conselho de Administração da Petrobras. E eu fui aprovado
e assumi, então, o cargo lá, em maio de 2004 e fiquei até abril de
2012. Saí, por aposentadoria, da Companhia” (fls. 2.770-2.771 -
destaquei).

No mesmo sentido, colhe-se o seguinte excerto do depoimento


prestado em juízo pelo colaborador Alberto Youssef:

“(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
O Paulo Roberto Costa foi Diretor de Abastecimento da
Petrobras. Ele foi uma indicação do José Janene, do Partido
Progressista, como é que foi isso aí?
COLABORADOR - A indicação do Paulo Roberto Costa se

36

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 118 de 486 3530


AP 996 / DF

deu através do Partido Progressista. No caso, na época, o Pedro


Corrêa era Presidente, salvo engano, o Pedro Henry era o líder,
e o José Janene era o operador e era o cara que coordenava o
Partido na época” (fls. 2.816-2.817).

Nesse cenário, tem-se por incontroversa que a ascensão de Paulo


Roberto Costa à Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A deu-se por
indicação do Partido Progressista, em razão do papel exercido pela
agremiação partidária no governo de coalizão instituído, conforme afirma
o próprio denunciado Nelson Meurer no seu interrogatório judicial:

“(...)
JUIZ - O senhor tinha conhecimento de que o Paulo
Roberto Costa era um diretor da Petrobras que havia sido
indicado e tinha sustentação política por parte do partido ao
qual o senhor é filiado e em relação ao qual o senhor foi líder,
ou não?
RÉU - Todos os deputados do Partido Progressista tinham
conhecimento que, sim, que tinha sido indicado, pelo Partido
Progressista, pro Paulo Roberto Costa assumir a diretoria da
Petrobras.
(...)
JUIZ - O senhor nunca ouviu, assim, nem nos corredores
da Câmara dos Deputados, a razão pela qual o Partido
Progressista, enfim, dava sustentação política a um
determinado diretor?
RÉU - Não, eu acho que não é só os parlamentares, sabe?,
mas todo cidadão brasileiro sabe coma funciona o Governo.
Para ter o apoio no Congresso Nacional, o Governo traz
também a responsabilidade dos partidos que o apoiam no
governo para assumir alguns cargos importantes do Governo,
para ajudar administrar o país e fazer uma grande
administração.
JUIZ - Compreendi. Então esse teria sido então o ânimo do
Partido Progressista...
RÉU - Não só do Partido Progressista, mas de todos os

37

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 119 de 486 3531


AP 996 / DF

partidos que compõem a Câmara e o Senado.


JUIZ - Compreendo.
RÉU - Ou você é oposição ou é da base do governo para
apoiar o governo e ajudar o governo a fazer uma grande
administração. E, portanto, ele tem que ter a responsabilidade
também de fazer parte do governo e ajudar a concretizar aquele
objetivo do Presidente realizar uma grande administração” (fls.
2.850-2.852),

No âmbito do Partido Progressista (PP), o denunciado Nelson


Meurer, ao contrário do que quer fazer crer a defesa, exercia suas funções
com protagonismo, ao lado de outras lideranças, na condução das
questões partidárias, principalmente após o falecimento de José Janene,
ocorrido no ano de 2010.
Tal afirmação, é necessário frisar, pode ser extraída das declarações
de Roberto Bertholdo, testemunha arrolada inclusive pela defesa, nas
quais afirma que, enquanto vivo, José Janene considerava o acusado
Nelson Meurer do denominado “baixo clero” [sic] do partido, grupo no
qual se encontravam os Deputados Pedro Corrêa e Pedro Henry. Confira-
se:

“(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Doutora, eu tenho sim.
Doutor Roberto, o senhor está dando uma contribuição
bem valiosa, aqui, à Justiça no esclarecimento dos fatos. Eu
gostaria que o senhor nos esclarecesse como era que o Alberto
Youssef, ele operacionalizava esses recursos? Como é que
funcionava esse esquema de desvio de recurso que o senhor
está aqui nos relatando?
TESTEMUNHA - O dia a dia, a operação em si, eu não
tinha conhecimento. Eu tinha conhecimento pelo que o José
Janene me contava. Eu sei que todo o recurso produzido pelo
seja o oficial ou não oficial, porque, salvo engano, havia das
duas origens, de doação e de... O Zé Janene, vamos dizer assim,
deixava o manejo desse recurso por conta do Alberto Youssef.

38

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 120 de 486 3532


AP 996 / DF

Como ele fazia, eu não sei. Eu não sei dizer, porque eu mesmo
não tinha relação com o Alberto Youssef. Eu sabia das histórias
do Alberto Youssef pelo que o José Janene me contava. O Janene
não era um cara de muitos segredos não. Ele, pelo contrário,
ele, de certo modo, ele se vangloriava de ter a posição que tinha,
ele não... Ele, realmente, ele desmerecia as figuras de deputados
menos, menos favorecidos ou de baixo clero, como ele
chamava. No caso, o Meurer, ele tratava dessa maneira. Talvez
até... Ele não tinha... O deus do José Janene era o dinheiro, tá?
(…)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. Junto com o Deputado
Federal José Janene, a gente pode dizer que tinha também uma
participação relevante, na liderança dessa parte de tesouraria
do Partido, o Deputado Pedro Corrêa e o Deputado Pedro
Henry? O Deputado Janene falava deles também?
TESTEMUNHA - Não, eu acho que... Volto a dizer, se eu
pudesse listar, a gente teria, o José Janene era... Se a gente
pudesse classificar, dentro de um organograma, ele seria o
presidente; eu acho que o Pedro Corrêa estaria abaixo dessa
função, seria um nível intermediário - mas não falo em
arrecadação, não sei.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Perfeito.
TESTEMUNHA - Mas, no domínio, seria ele e, depois,
viria todo esse resto, o restante, que seriam aqueles deputados
da onde o Deputado Meurer se encontra” (fls. 2.680-2.681 –
destaquei).

Ao menos após a morte de José Janene, o mencionado grupo de


deputados - do qual Nelson Meurer fazia parte -, que até então
compunham o “baixo clero” [sic] do Partido Progressista (PP), passou a
comandar a agremiação partidária, tanto que, consoante as declarações
desse mesmo denunciado, foi ele indicado como líder da bancada na
Câmara dos Deputados no ano de 2011 (fl. 2.849), ocupação, sem sombra
de dúvida, relevante no contexto político.
Tal protagonismo é descrito de forma uníssona pelos colaboradores
Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef em seus respectivos depoimentos

39

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 121 de 486 3533


AP 996 / DF

prestados em juízo:

“(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Correto. O senhor coloca
também que o Deputado Nelson Meurer era bastante próximo
do Janene.
COLABORADOR - Era. Pelo que eu percebia, era. Talvez,
por ser do mesmo Estado, os dois eram do Paraná.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E era um dos políticos desse
grupo principal de comando do PP?
COLABORADOR - (Ininteligível), pelo menos nas
reuniões, ele tava sempre presente e mostrava ser um cara
influente.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Nesse grupo de comando,
Negromonte, Pizzolatti, Janene, Pedro Corrêa, Nelson Meurer,
dá para se dizer que ele seria um grupo de comando?
COLABORADOR - Sim, sim.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Pelo menos na sua percepção?
COLABORADOR - Pelo menos, na minha percepção. É
isso. Estavam sempre reunidos, juntos, lá, nesses eventos” (fl.
2.776).

“COLABORADOR - Depois que o Senhor Janene adoeceu,


e, aí, quem passou a comandar o partido foi o Nelson, o
Pizzolatti, o Mário Negromonte e o Pedro Corrêa. Aí, eu passei
a obedecer às ordens deles. E, aí, esses valores aumentaram
nesse sentido. Eu mandava recursos, sim, pra que eles
distribuíssem para o partido, mas, além disso, os quatro tinham
uma retirada maior do que se arrecadava.
(…)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
E essas entregas em Brasília, o senhor falou no
apartamento funcional de Janene e Pizzolatti, o senhor chegou a
participar de reuniões nesses locais? Nessas reuniões, havia a
presença de Nelson Meurer, havia a entrega de dinheiro, como
é que é?

40

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 122 de 486 3534


AP 996 / DF

COLABORADOR - É, eu chegava com os valores lá. Às


vezes, almoçava lá; às vezes, jantava; às vezes, dormia por lá,
quando chegava muito tarde, e, consequentemente, o Nelson
vinha pro jantar ou pro almoço, e a gente conversava sobre os
assuntos todos.
(…)
JUIZ - Tá.
Nessas entregas em Brasília, que o senhor disse que o
senhor fez pessoalmente, agora vamos falar atos pessoais do
senhor Alberto.
COLABORADOR - Claro!
JUIZ - O senhor teria como estimar quantas entregas em
dinheiro o senhor levou, e estava presente, naquele local, o
Senhor Nelson Meurer? Se foi uma, se foram dez ou mais de
dez?
COLABORADOR - Não necessariamente na hora que eu
cheguei, mas, sim, pra depois, pro almoço, pro jantar, pra gente
conversar? Todas as vezes que eu fui.
(…)
JUIZ - Sobre essa divisão, quando o senhor entregava em
Brasília, então, eram várias pessoas que recebiam? Havia mais
de um deputado geralmente lá? É isso? Daquele núcleo que o
senhor relatou.
COLABORADOR - Sim,vou explicar pra Vossa Excelência.
Os quatro, depois que o Senhor José morreu, é que ficaram
coordenando essa questão de valores. Então, eles tinham uma
participação maior no recebimento. Mas, os valores que iam
para Brasília eram repassados a outros deputados.
JUIZ - Mas os quatro que o senhor fala são: o Deputado
Pizzolatti, o Deputado Meurer, o Deputado...
COLABORADOR - Mário Negromonte.
JUIZ - Mário Negromonte...
COLABORADOR - E o Pizzolatti.
JUIZ - Não, já falei. Pizzolati, Meurer, Negromonte....
COLABORADOR - Pizzolatti, Nelson Meurer,
Negromonte e Pedro Corrêa.

41

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 123 de 486 3535


AP 996 / DF

JUIZ - Pedro Corrêa. Tá.


É isto que eu gostaria de saber: quando o senhor chegava
lá, ou quando o seu emissário chegava lá, os quatro estavam
reunidos geralmente?
COLABORADOR - Não necessariamente. Às vezes, por
exemplo, o Nelson Meurer normalmente tava na Liderança.
Então, ele não tava lá, mas vinha pro almoço ou vinha pro
jantar...” (fls. 2.820-2.833).

A presença do acusado Nelson Meurer em momentos agudos da


relação espúria travada entre o Partido Progressista (PP) e Alberto
Youssef também revela a proeminência do seu papel na condução dos
assuntos partidários, não sendo crível que qualquer membro da
agremiação, senão os integrantes de sua cúpula, fosse testemunha de
entrega de quantias em espécie ou participasse de reuniões acerca de
assuntos relacionados à Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A.
Desse modo, sendo certo que a indicação para a condução da
aludida diretoria competia ao Partido Progressista (PP), que o fazia a
partir de seus líderes, nos quais se inclui o acusado Nelson Meurer,
constato a viabilidade, no caso concreto, da sustentação política envidada
em favor de Paulo Roberto Costa caracterizar ato de ofício inerente às
funções parlamentares e partidárias exercidas pelo referido denunciado.
Como dito anteriormente, não se trata simplesmente de criminalizar
a atividade político-partidária usualmente praticada no país, mas de
responsabilizar, nos termos da legislação de regência, os atos que
transbordam os limites do exercício legítimo da representação popular, o
qual pressupõe o engajamento do mandatário às fileiras de algum dos
inúmeros partidos políticos atualmente em funcionamento no país.
Destaco que o Poder Constituinte Originário instituiu como condição
de elegibilidade de candidato a mandato eletivo a prévia filiação a
partido político, conforme preceitua o art. 14, § 3º, V, da Constituição
Federal. Essa filiação deve ser observada, em regra, no decorrer de todo o
exercício do mandato eletivo para o qual o candidato sagrou-se vencedor,
conforme se infere da redação do art. 22-A da Lei 9.096/1995, que

42

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 124 de 486 3536


AP 996 / DF

preceitua:

“Art. 22-A. Perderá o mandato o detentor de cargo eletivo


que se desfiliar, sem justa causa, do partido pelo qual foi eleito”.

A norma em destaque é fruto de consolidado posicionamento desta


Suprema Corte sobre o tema, no qual se assentou que o exercício do
mandato eletivo pressupõe a manutenção da filiação partidária, como
forma de garantir a representatividade conquistada pelo partido político
que viabilizou a candidatura do eleito. A propósito:

“CONSTITUCIONAL. ELEITORAL. MANDADO DE


SEGURANÇA. FIDELIDADE PARTIDÁRIA. DESFILIAÇÃO.
PERDA DE MANDATO. ARTS. 14, § 3º, V E 55, I A VI DA
CONSTITUIÇÃO. CONHECIMENTO DO MANDADO DE
SEGURANÇA, RESSALVADO ENTENDIMENTO DO
RELATOR. SUBSTITUIÇÃO DO DEPUTADO FEDERAL QUE
MUDA DE PARTIDO PELO SUPLENTE DA LEGENDA
ANTERIOR. ATO DO PRESIDENTE DA CÂMARA QUE
NEGOU POSSE AOS SUPLENTES. CONSULTA, AO
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL, QUE DECIDIU PELA
MANUTENÇÃO DAS VAGAS OBTIDAS PELO SISTEMA
PROPORCIONAL EM FAVOR DOS PARTIDOS POLÍTICOS E
COLIGAÇÕES. ALTERAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA DO
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. MARCO TEMPORAL A
PARTIR DO QUAL A FIDELIDADE PARTIDÁRIA DEVE SER
OBSERVADA [27.3.07]. EXCEÇÕES DEFINIDAS E
EXAMINADAS PELO TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL.
DESFILIAÇÃO OCORRIDA ANTES DA RESPOSTA À
CONSULTA AO TSE. ORDEM DENEGADA. (...) 2. A
permanência do parlamentar no partido político pelo qual se
elegeu é imprescindível para a manutenção da
representatividade partidária do próprio mandato. Daí a
alteração da jurisprudência do Tribunal, a fim de que a
fidelidade do parlamentar perdure após a posse no cargo
eletivo. 3. O instituto da fidelidade partidária, vinculando o

43

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 125 de 486 3537


AP 996 / DF

candidato eleito ao partido, passou a vigorar a partir da


resposta do Tribunal Superior Eleitoral à Consulta n. 1.398, em
27 de março de 2007. 4. O abandono de legenda enseja a
extinção do mandato do parlamentar, ressalvadas situações
específicas, tais como mudanças na ideologia do partido ou
perseguições políticas, a serem definidas e apreciadas caso a
caso pelo Tribunal Superior Eleitoral. 5. Os parlamentares
litisconsortes passivos no presente mandado de segurança
mudaram de partido antes da resposta do Tribunal Superior
Eleitoral. Ordem denegada” (MS 26.602, Rel.: Min. EROS
GRAU, Tribunal Pleno, julgado em 4.10.2007).

Nesse cenário, concluo que o mandato eletivo, sobretudo dos cargos


nos quais o pleito é disciplinado pelo sistema proporcional, é exercido de
forma concomitante e indissociável à atividade partidária, tendo em vista
a sua imprescindibilidade no âmbito da democracia representativa
instituída na República Federativa do Brasil, nos termos do art. 1º,
parágrafo único, da Constituição Federal.
Tratando-se, portanto, de meio necessário à investidura dos
representantes do povo nos mandatos eletivos, os partidos políticos, além
de agrupar parcela dos atores sociais que compartilham dos mesmos
ideais, têm responsabilidade pela observância aos fundamentos e
objetivos da República, insculpidos nos arts. 1º e 4º da Carta Magna, os
quais repelem qualquer atuação do Estado que se afaste do interesse
público. Da doutrina, colhe-se a seguinte definição de partido político:

“(...)
Compreende-se por partido político a entidade formada
pela livre associação de pessoas, com organização estável, cujas
finalidades são alcançar e/ou manter de maneira legítima o
poder político-estatal e assegurar, no interesse do regime
democrático de direito, a autenticidade do sistema
representativo, o regular funcionamento do governo e das
instituições políticas, bem como a implementação dos direitos
humanos fundamentais” (GOMES, José Jairo. Direito eleitoral.

44

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 126 de 486 3538


AP 996 / DF

13ª ed. São Paulo : Atlas, 2017. p. 108)


Assentada, volto a insistir, a indissociabilidade do exercício do
mandato eletivo com as correspectivas atividades político-partidárias,
ressalto que, para a escorreita subsunção ao crime de corrupção passiva, a
sustentação política à indicação ou manutenção de agentes em
determinados cargos públicos deve ser eivada pela solicitação,
recebimento ou aceitação de promessa de vantagem indevida, a partir de
quando a atuação do mandatário entra em conflito com os valores
insculpidos na Constituição Federal, em razão do distanciamento do
interesse exclusivamente público que deve nortear a sua atividade.
Dessarte, nada obstante os argumentos defensivos declinados por
ocasião das alegações finais, o conjunto probatório amealhado no seio do
contraditório estabelecido em juízo revela que o caso em análise retrata,
ao menos em parte dos fatos denunciados, a atuação desviada do
Deputado Federal Nelson Meurer no exercício da sua atividade
parlamentar e partidária, conforme passo a fundamentar de forma
individualizada de acordo com as imputações delimitadas na denúncia
pela Procuradoria-Geral da República.

2.1.1. Participação de Nelson Meurer na corrupção praticada por


Paulo Roberto Costa no âmbito da Diretoria de Abastecimento da
Petrobras S/A.

Como se depreende do item 4.1 da denúncia (fls. 894-910), a


Procuradoria-Geral da República atribui ao denunciado Nelson Meurer a
participação em 161 (cento e sessenta e um) atos de corrupção passiva
praticados por Paulo Roberto Costa na Diretoria de Abastecimento da
Petrobras S/A, consubstanciados na celebração do mesmo número de
contratos superfaturados com empreiteiras cartelizadas, a partir dos
quais eram gerados os recursos que guarneciam o caixa de propinas do
Partido Progressista.
Nessa ambiência, a participação do denunciado Nelson Meurer
consistiria na sustentação política de Paulo Roberto Costa no cargo de
Diretor de Abastecimento da sociedade de economia mista, dando-lhe

45

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 127 de 486 3539


AP 996 / DF

condições de viabilizar a atuação do cartel formado pelas maiores


empreiteiras em atuação no país e, por conseguinte, obter vantagens
indevidas em decorrência dos contratos celebrados.
Em razão da inexistência de descrição da prática de atos materiais de
execução do delito de corrupção passiva por parte do denunciado Nelson
Meurer neste específico segmento da acusação, a sua responsabilização é
invocada em razão da norma de extensão prevista no art. 29 do Código
Penal, que preceitua:

“Art. 29 – Quem, de qualquer modo, concorre para o crime


incide nas penas a este cominadas, na medida de sua
culpabilidade.”

Todavia, em respeito ao postulado da responsabilização criminal


subjetiva que vige no ordenamento jurídico pátrio, corolário do Direito
Penal do fato, a perfeita subsunção da conduta atribuída ao acusado não
se faz sem a análise do aspecto volitivo na ação ou omissão que lhe é
atribuída, extraível das circunstâncias fáticas retratadas no conjunto
probatório produzido na instrução criminal.
Nos casos em que se atribui determinada prática delitiva em
concurso de pessoas, é imprescindível que se verifique, ainda, a existência
de vínculo subjetivo na conduta dos agentes consorciados, bem como a
relevância causal da atuação de cada um destes na violação do bem
jurídico tutelado pela norma penal, sob pena de não incidência da
referida norma de extensão, diante da impossibilidade de
responsabilização penal objetiva. Nesse sentido:

“AÇÃO PENAL. CRIME DE PREVARICAÇÃO (ART. 319


DO CP) E DE RESPONSABILIDADE DE PREFEITO (ART. 1º
DO DECRETO-LEI Nº 201/67). AUSÊNCIA DE PROVAS.
IMPROCEDÊNCIA. ABSOLVIÇÃO DOS RÉUS. (...) 2. A
acusação ministerial pública carece de elementos mínimos
necessários para a condenação do parlamentar pelo crime de
responsabilidade. Os depoimentos judicialmente colhidos não

46

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 128 de 486 3540


AP 996 / DF

evidenciaram ordem pessoal do Prefeito de não-autuação dos


veículos oficiais do Município de Santa Cruz do Sul/RS. A mera
subordinação hierárquica dos secretários municipais não pode
significar a automática responsabilização criminal do Prefeito.
Noutros termos: não se pode presumir a responsabilidade
criminal do Prefeito, simplesmente com apoio na indicação de
terceiros -- por um "ouvir dizer" das testemunhas --; sabido que
o nosso sistema jurídico penal não admite a culpa por
presunção. 3. O crime do inciso XIV do art. 1º do Decreto-Lei nº
201/67 é delito de mão própria. Logo, somente é passível de
cometimento pelo Prefeito mesmo (unipessoalmente, portanto)
ou, quando muito, em coautoria com ele. Ausência de
comprovação do vínculo subjetivo, ou psicológico, entre o
Prefeito e a Secretária de Transportes para a caracterização do
concurso de pessoas, de que trata o artigo 29 do Código Penal.
4. Improcedência da ação penal. Absolvição dos réus por falta
de provas, nos termos do inciso VII do artigo 386 do Código de
Processo Penal” (AP 447, Rel.: Min. CARLOS BRITTO, Tribunal
Pleno, julgado em 18.2.2009).

Feitas essas considerações, repiso que, por força da norma de


extensão prevista no art. 29 do Código Penal, a Procuradoria-Geral da
República atribui ao acusado Nelson Meurer a prática, na qualidade de
partícipe, de 161 (cento e sessenta e um) atos de corrupção passiva,
consubstanciados em todos os contratos celebrados no âmbito da
Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A no período de 2006, quando
teve início um ciclo de grandes obras relacionadas à aludida diretoria, a
março de 2014, momento em que a atividade espúria foi encerrada com a
prisão de Alberto Youssef.
Embora o denunciado Nelson Meurer tenha efetivamente se
beneficiado de forma direta da sustentação política envidada em favor de
Paulo Roberto Costa, como se verá adiante, constato que o conjunto
probatório produzido nos autos é insuficiente para confirmar a sua
adesão subjetiva à forma espúria como eram celebrados todos os
contratos pela Petrobras S/A com as empreiteiras cartelizadas no âmbito

47

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 129 de 486 3541


AP 996 / DF

da Diretoria de Abastecimento.
Com efeito, os colaboradores Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef
afirmam que os valores obtidos de forma ilícita pelo primeiro e
destinados ao Partido Progressista eram gerenciados por José Mohamed
Janene, até o seu falecimento no ano de 2010, momento em que tal função
passou a ser exercida pelo segundo colaborador, sob orientação do grupo
que ascendeu à liderança da agremiação partidária, formado, dentre
outros, pelo denunciado Nelson Meurer.
Nesse sentido, transcrevo o seguinte trecho do depoimento prestado
em juízo por Paulo Roberto Costa:

“MINISTÉRIO PÚBLICO - E, aí, como é que foi a sua


indicação e como é que começaram a questão de pagamento de
propina, de encaminhamento de recurso para agente político?
Como é (ininteligível)?
COLABORADOR - É, a primeira conversa que eu tive lá
com o Janene e Pedro Corrêa, eles me pediram pra ajudar a
empresas que eles tinham interesse que participassem das
licitações. E eu falei que, para qualquer empresa participar de
qualquer licitação na Petrobras, primeiro ponto, tinha que ser
empresa cadastrada. Se a empresa foi cadastrada e ela tivesse
competência, ela teria condições de participar. E que eu não
poderia agir em relação à comissão de licitação, porque era um,
vamos dizer, a comissão era isolada, era autônoma em relação a
esse assunto, mas, se a empresa fosse cadastrada, participar da
licitação é algo que poderia ser feito.
No início, lá em 2004, 2005, 2006, a minha área não tinha
projetos nem tinha recursos orçamentários. Então, por exemplo,
o sistema de cartel, que eu comentei que ocorreu na Petrobras,
na minha área, em outras áreas já tinha isso antes - eu já
declarei isso várias vezes -, na minha área só começou a ter
grandes projetos e grandes obras a partir do final de 2006, início
de 2007. E aí, então, eu fiquei até sabendo desse (ininteligível)
eu fiquei sabendo do processo de cartelização, que já ocorria na
Petrobras, em outras áreas, na minha não ocorria porque não

48

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 130 de 486 3542


AP 996 / DF

nem projeto nem orçamento. E aí, através desse processo de


cartelização, havia um percentual significativo que era pago à
área política.
(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Como é que era a participação
do Alberto Youssef em todo esse esquema?
COLABORADOR - Inicialmente, quem fazia esses
contatos todos com as empresas, estava sempre a frente dos
processos todos, eram o Deputado José Janene. O Alberto
Youssef, quando ele teve um papel mais de destaque, quando o
Janene adoeceu e ele veio a falecer em 2010. Então, até o Janene
adoecer e não ter esse, quando não tinha esse problema de
saúde, ele que, pessoalmente, ficava a frente dos processos,
depois o Alberto Youssef assumiu essa função.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E ele que fazia a distribuição
dos recursos pra os agente políticos do PP?
COLABORADOR - É. Eu nunca recebi nada diretamente
de nenhuma empresa e nunca paguei nada pra nenhum
político, sempre era feito através do José Janene, e depois do
Alberto Youssef, e depois outros operadores que tiveram no
processo. Mas os contatos, os contatos com os políticos, em
termos de liberação de recursos ilícitos, sempre era feito ou pelo
Janene ou pelo Alberto Youssef, em relação ao PP.” (fls. 2.771-
2.775)

No mesmo norte são as declarações de Alberto Youssef:

“COLABORADOR - Ok.
Bom, eu era muito amigo do Deputado José Janene e, ao
mesmo tempo de ser amigo e compadre, eu cuidava das
operações dele na questão de valores. Num primeiro momento,
o próprio Deputado se organizava, e eu só retirava os valores
que estavam com ele. Passou, um pouco, o tempo, e, aí, ele
passou que eu pudesse ir nas empresas e retirar os valores dos
negócios que eles faziam com as empresas. Consequentemente,
como eu que movimentava os valores, a pedido dele eu passei a

49

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 131 de 486 3543


AP 996 / DF

levar recursos para entregar para o Paulo Roberto Costa e levar


recursos para Brasília para que fosse entregue aos Deputados
do partido.
(…)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
E qual foi o interesse do Deputado José Janene e do
Partido Progressista em indicar e conseguir a nomeação de
Paulo Roberto Costa para a Diretoria de Abastecimento da
Petrobras?
COLABORADOR - Na verdade, para obter recursos para a
campanha do Partido.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E esses eram obtidos como?
COLABORADOR - Eram obtidos com os empresários que
prestavam serviço para a Petrobras.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Quem era que cobrava esses
valores dos empresários?
COLABORADOR - No primeiro momento, o Senhor José
e, depois, eu passei a cobrar.
(…)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
E esses sessenta por cento aí pra o Janene eram entregues
só pra ele ou tinha mais alguém a quem o senhor destinava
esses valores aí?
COLABORADOR - Quando o Senhor José era vivo, ele é
que determinava esses assuntos. Então, ele pedia o dinheiro em
Brasília, enquanto ele era deputado, até 2006, e eu levava na
casa dele, e ele dava o destino dos valores. Algumas vezes, ele
pediu que eu levasse o dinheiro pro Nelson Meurer, pro
Pizzolatti, pro Pedro Correia, nas suas residências.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Esse Negromonte também?
COLABORADOR - E o Mário Negromonte também.
Para as outras pessoas do partido, quando ele era vivo, ele
é que direcionava esses valores.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
Detalha aí como é que teriam ocorrido essas entregas a
Nelson Meurer, que é o acusado na presente ação penal.

50

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 132 de 486 3544


AP 996 / DF

COLABORADOR - Bom, quando o Senhor José era vivo...


Inclusive, o valor acho que era até um pouco menos - bem
menos, né - do que depois que ele faleceu, que eu vim a
participar mais efetivamente, cuidar dos valores. Ele mandava
em torno de R$ 130 a 150 mil por mês. Eventualmente, na época
de campanha, um pouco mais. E, algumas vezes, eu levei,
entreguei esses valores, ou em Brasília mesmo, pro Nelson
Meurer, ou pedi que o Carlos Habib entregasse através do
posto; e, nas outras vezes, eu mandei pra Curitiba, onde ele se
hospedava, no Hotel Curitiba, enquanto o Senhor José Janene
era vivo.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. E depois que...
COLABORADOR - Depois que o Senhor Janene adoeceu,
e, aí, quem passou a comandar o partido foi o Nelson, o
Pizzolatti, o Mário Negromonte e o Pedro Corrêa. Aí, eu passei
a obedecer às ordens deles. E, aí, esses valores aumentaram
nesse sentido. Eu mandava recursos, sim, pra que eles
distribuíssem para o partido, mas, além disso, os quatro tinham
uma retirada maior do que se arrecadava.” (fls. 2.816-2.820)

Do relato dos colaboradores é possível inferir que, na gênese do


estratagema de apropriação de recursos da sociedade de economia mista
ora denunciado, o Partido Progressista (PP) teve seus interesses geridos
por José Mohamad Janene que, por sua vez, procedia à distribuição de
recursos entre os demais integrantes da agremiação partidária, os quais,
até então, eram meros beneficiários das quantias arrecadadas junto às
empresas cartelizadas.
Por ocasião do seu falecimento no ano de 2010, quando tal função foi
diluída entre os demais líderes, todo o sistema de cartelização das
empreiteiras, superfaturamento de contratos e pagamento de propina ao
Partido Progressista (PP) já se encontrava em pleno funcionamento, não
havendo prova nos autos que indique a adesão subjetiva, especificamente
por parte do denunciado Nelson Meuer, à conduta de Paulo Roberto
Costa na obtenção das vantagens indevidas, mormente na extensão
pretendida pela Procuradoria-Geral da República na incoativa.

51

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 133 de 486 3545


AP 996 / DF

Em outras palavras, não há nos autos comprovação de que o


denunciado Nelson Meurer, como integrante do grupo de líderes do
Partido Progressista (PP) após o falecimento de José Mohamad Janene,
tenha direcionado instruções a Paulo Roberto Costa ou a Alberto Youssef
no sentido de como proceder ao desvio de recursos da sociedade de
economia mista, mormente porque não existiu, segundo os autos, solução
de continuidade na prática delituosa por parte dos colaboradores mesmo
por ocasião da troca de comando da referida agremiação partidária.
Enfatizo que a denúncia atribui a Nelson Meurer a participação na
geração de vantagens indevidas em todos os contratos celebrados pelas
empreiteiras cartelizadas no período em que Paulo Roberto Costa esteve à
frente da Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A, presumindo,
assim, que teve participação efetiva na viabilização de tal estratagema.
Entretanto, embora seja certo que tenha se beneficiado diretamente
das vantagens indevidas direcionadas ao Partido Progressista, como se
verá no tópico apropriado, e ainda que seja provável a sua ciência do
estratagema deflagrado para tal desiderato, o conjunto probatório
produzido nos autos não se revela suficiente para o estabelecimento do
indispensável vínculo subjetivo apto a justificar a sua responsabilização
na qualidade de partícipe de Paulo Roberto Costa em todos os contratos
celebrados de forma espúria em detrimento da Petrobras S/A,
circunstância que impede a incidência da norma de extensão prevista no
art. 29 do Código Penal.
Ressalto que tal conclusão não contrasta com a já afirmada
viabilidade da sustentação política envidada para a manutenção de Paulo
Roberto Costa no cargo de Diretor de Abastecimento da Petrobras S/A
configurar, no âmbito das funções parlamentares e partidárias, o ato de
ofício que compõe o tipo penal de corrupção passiva, ao menos em
relação aos fatos em que o Ministério Público Federal imputa ao
denunciado Nelson Meurer a efetiva percepção de vantagens indevidas,
conforme passo a analisar.

2.1.2. Recebimento periódico e ordinário de vantagens indevidas

52

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 134 de 486 3546


AP 996 / DF

no âmbito da Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A.

Diverso e robusto é o quadro probatório no tocante à imputação


relacionada aos recebimentos ordinários e periódicos de vantagens
indevidas, por parte do acusado Nelson Meurer, contando, em algumas
oportunidades, com o auxílio de seus filhos e também denunciados
Nelson Meurer Júnior e Cristiano Augusto Meurer. Essas vantagens, aliás,
eram oriundas do caixa de propinas do Partido Progressista (PP), o qual
se abastecia por meio das empreiteiras cartelizadas que celebravam
contratos com a Petrobras S/A, no âmbito da Diretoria de Abastecimento.
Com efeito, sobre a destinação ao Partido Progressista (PP) de
parcela do percentual de sobrepreço nos contratos celebrados pela
Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A, esclarecedoras são as
declarações de Paulo Roberto Costa:

“(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - E, aí, como é que foi a sua
indicação e como é que começaram a questão de pagamento de
propina, de encaminhamento de recurso para agente político?
Como é (ininteligível)?
COLABORADOR - É, a primeira conversa que eu tive lá
com o Janene e Pedro Corrêa, eles me pediram pra ajudar a
empresas que eles tinham interesse que participassem das
licitações. E eu falei que, para qualquer empresa participar de
qualquer licitação na Petrobras, primeiro ponto, tinha que ser
empresa cadastrada. Se a empresa foi cadastrada e ela tivesse
competência, ela teria condições de participar. E que eu não
poderia agir em relação à comissão de licitação, porque era um,
vamos dizer, a comissão era isolada, era autônoma em relação a
esse assunto, mas, se a empresa fosse cadastrada, participar da
licitação é algo que poderia ser feito.
No início, lá em 2004, 2005, 2006, a minha área não tinha
projetos nem tinha recursos orçamentários. Então, por exemplo,
o sistema de cartel, que eu comentei que ocorreu na Petrobras,
na minha área, em outras áreas já tinha isso antes - eu já

53

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 135 de 486 3547


AP 996 / DF

declarei isso várias vezes -, na minha área só começou a ter


grandes projetos e grandes obras a partir do final de 2006, início
de 2007. E aí, então, eu fiquei até sabendo desse (ininteligível)
eu fiquei sabendo do processo de cartelização, que já ocorria na
Petrobras, em outras áreas, na minha não ocorria porque não
nem projeto nem orçamento. E aí, através desse processo de
cartelização, havia um percentual significativo que era pago à
área política.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Hum, hum! Como é que
funcionava? No percentual de cada contrato que as empresas
firmavam na sua área?
COLABORADOR - É. Das empresas do cartel.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Hum, hum!
COLABORADOR - Petrobras tem... tinha dezenas,
centenas de empresas que prestavam serviço. Mas, nessas obras
grandes, normalmente era em torno de 15 empresas. E essas
empresas então do cartel pagavam valores, na época, para,
inicialmente para, que eu tinha conhecimento, o PT e o PP.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E como é que era o percentual
de divisão?
COLABORADOR - Os orçamentos eram feitos pela
Petrobras, de cada obra dessa. E há um equívoco muito grande
aí, de várias áreas, que até hoje não conseguiram entender como
é que isso funcionava. Como o projeto que a Petrobras punha
pra licitação não era um projeto executivo, um projeto
concluído, a Petrobras sempre contratava só com o projeto
básico, e isso a indústria de petróleo fazia assim, não era algo só
da Petrobras, se olhar, o mundo inteiro fazia assim, porque os
projetos, pra você concluir um projeto de grande porte, seja de
uma plataforma, seja de uma refinaria, você demora cinco, seis
anos pra ter o projeto completo, e, na área de petróleo, qualquer
ano que se avança mais rápido você se ganha muito dinheiro,
ou pode perder muito dinheiro, mas normalmente ganha muito
dinheiro. Então, as empresas a nível mundial contratavam,
faziam os contratos de prestação de serviço não com o projeto
todo concluído, e assim a Petrobras também fazia. Tanto que,

54

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 136 de 486 3548


AP 996 / DF

internamente, a Petrobras aceitava, em relação ao seu


orçamento básico, uma variação de menos 20 a mais 15 - fiquei
no (inaudível) menos 15 ou 20 -, nessa faixa de 15 a 20% de
valor menor por orçamento e valor maior por orçamento; acho
que era menos 20 e mais 15, por ainda ter muitas dúvidas em
relação ao projeto. Então, nessa faixa de variação de preço era
aceita, e as empresas então trabalhavam nessa faixa de preço, a
Petrobras também. O orçamento básico da Petrobras era feito
com dados de mercado, então as mesmas fontes que a Petrobras
fazia o orçamento básico, as empresas faziam. Então, quanto é
que custa a tonelada de aço, quanto é que custa o metro cúbico
de concreto, quanto é que custa um equipamento etc, as fontes
sempre são as mesmas, você não tem muita variação. Agora,
existia, vamos dizer, um percentual de referência, que era algo
como 3%, muitas vezes, e a grande parte das vezes foi menor
que 3%, mas a referência era 3% - estou falando da área de
abastecimento, não das outras áreas da Petrobras -, e
normalmente esse 3%, quando era 3%, 2% era para o PT.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Esse 3% de sobrepreço?
COLABORADOR - De sobrepreço. Vamos dizer que a
empresa lá fez um orçamento e chegou à conclusão de 10%
além do orçamento da Petrobras, como a Petrobras aceitava até
15, 20% além do orçamento, tava dentro do range que a
Petrobras aceitava; muitas vezes era 3%, mas a maior parte das
vezes não era 3%.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E, como elas eram cartelizadas,
elas conseguiram fechar isso nesse preço que elas queriam?
COLABORADOR - Isso, elas se combinavam entre elas, as
empresas se combinavam entre elas: ‘olha, essa ganhadora
agora vai ser a empresa X’. Então, ela vai dar, por exemplo, 10%
acima do orçamento.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Ela já sabia que ela podia botar
um percentual acima, porque não teria outra abaixo.
COLABORADOR - Isso, isso. Agora, eu nunca soube, lá
dentro da Petrobras, que as empresas sabiam do orçamento da
Petrobras a priori; eu nunca soube disso, acho que não ocorria.

55

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 137 de 486 3549


AP 996 / DF

Mas, como eu falei, as fontes de referência eram as mesmas, não


tem fonte de referência diferente. Então, vamos dizer, imagina
que eles chegaram à conclusão que dava 10%, tá, então, em vez
de 10, eu vou colocar aqui 11, 12, 13, pra ter esse sobrepreço.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
COLABORADOR - E aí há uma confusão muito grande,
inclusive do próprio TCU, que não consegue entender isso,
infelizmente, e está gerando distorções gigantes em termos de
valores, valores que colocam na mídia que não existiram. Mas
não sou eu que tenho que comprovar isso. Então, na hipótese,
na hipótese de ser 3%.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Quando era 3%.
COLABORADOR - Na hipótese de 3%, normalmente 2%
era para o PT e 1% era para o PP.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E aí essa divisão do PP, esse 1%
que é o PP, como é que funcionava?
COLABORADOR - É. Essa divisão dentro do PP era 60%
pra classe política, 20% pra os operadores lá, despesa, notas
fiscais, contratos fictícios etc, e 20% restante eu ficava com...,
acho que 60% desse 20%. Está, nos meus termos, indicações, os
números hoje também já não tenho lembrança de todos, que já
não me lembro de todos, mas, se não me engano, ficava com
60% dos 20%.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Dos 20%.
COLABORADOR - 60 a 80%, nessa faixa, acho que era
80% dos 20%.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Tá. E me diz uma coisa, Paulo.
Se você não aceitasse continuar com isso, destinando, fazendo,
participando dessa situação e possibilitando essa destinação de
recurso pros agentes políticos, você conseguiria se manter no
cargo de Diretor de Abastecimento?
COLABORADOR - Não. Se eu não contribuísse com a
classe política, no dia seguinte, eles iam lá e me retiravam, de
imediato, não tinha..., ou você tá dentro do jogo, ou você tá fora
do jogo. E, eu, infelizmente, errei, entrei no jogo, me arrependo
profundamente disso, estou pagando muito caro por isso, mas

56

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 138 de 486 3550


AP 996 / DF

entrei no jogo. A culpa foi minha.


MINISTÉRIO PÚBLICO - Como é que era a participação
do Alberto Youssef em todo esse esquema?
COLABORADOR - Inicialmente, quem fazia esses
contatos todos com as empresas, estava sempre a frente dos
processos todos, eram o Deputado José Janene. O Alberto
Youssef, quando ele teve um papel mais de destaque, quando o
Janene adoeceu e ele veio a falecer em 2010. Então, até o Janene
adoecer e não ter esse, quando não tinha esse problema de
saúde, ele que, pessoalmente, ficava a frente dos processos,
depois o Alberto Youssef assumiu essa função.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E ele que fazia a distribuição
dos recursos pra os agente políticos do PP?
COLABORADOR - É. Eu nunca recebi nada diretamente
de nenhuma empresa e nunca paguei nada pra nenhum
político, sempre era feito através do José Janene, e depois do
Alberto Youssef, e depois outros operadores que tiveram no
processo. Mas os contatos, os contatos com os políticos, em
termos de liberação de recursos ilícitos, sempre era feito ou pelo
Janene ou pelo Alberto Youssef, em relação ao PP” (fls. 2.771-
2.775 - destaquei)

Em depoimento prestado em juízo, o colaborador Alberto Youssef,


responsável pela operacionalização das vantagens indevidas destinadas
aos políticos, inicialmente por indicação de José Janene e, posteriormente,
do grupo que ascendeu à liderança do Partido Progressista (PP), formado,
como já visto, pelo denunciado Nelson Meurer, dentre outros, afirma ter
feito pagamentos periódicos em favor deste referido parlamentar, aqui
denunciado. Infere-se a respeito os seguintes trechos:

“(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
E qual foi o interesse do Deputado José Janene e do
Partido Progressista em indicar e conseguir a nomeação de
Paulo Roberto Costa para a Diretoria de Abastecimento da
Petrobras?

57

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 139 de 486 3551


AP 996 / DF

COLABORADOR - Na verdade, para obter recursos para a


campanha do Partido.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E esses eram obtidos como?
COLABORADOR - Eram obtidos com os empresários que
prestavam serviço para a Petrobras.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Quem era que cobrava esses
valores dos empresários?
COLABORADOR - No primeiro momento, o Senhor José
e, depois, eu passei a cobrar.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
E como é que ocorria o repasse desses valores dos
empresários para o senhor, para o Janene e para o Partido?
COLABORADOR - Algumas empresas pagavam lá fora,
algumas empresas necessitavam de contratos e emissão de
notas para que a gente pudesse obter o recebimento, e algumas
empresas pagavam um valor aqui no Brasil em dinheiro vivo.
(…)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
E, de posse do dinheiro, como é que o senhor fazia chegar
os valores ao Janene ou a quem quer que ele indicasse?
COLABORADOR - Bom, o Senhor José, quando precisava
de dinheiro em São Paulo, eu entregava para ele em São Paulo;
quando era em Londrina, eu levava para ele para Londrina;
quando era em Brasília, eu mandava em Brasília; quando era
em Curitiba, eu mandava para Curitiba; quando era em Recife,
eu mandava para Recife, e assim por diante.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E era o senhor que transportava
ou tinha funcionários que faziam essa função, ou alguém que
prestava esse serviço para o senhor?
COLABORADOR - Às vezes, eu; a maioria das vezes, ou o
Senhor Rafael Ângulo ou o Ceará, que prestava serviço para
mim, ou até o próprio Pieruccini chegou a fazer alguma entrega
também.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
E, com relação aos destinatários aí, era só o José Janene, os
valores iam para alguém mais, a algum outro parlamentar a ele

58

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 140 de 486 3552


AP 996 / DF

vinculado? E explique aí como é que ocorria também a questão


da divisão desses valores. O senhor ficava com alguma parte?
Repassava tudo para ele? Qual era a parte que ia para Paulo
Roberto, etc.?
COLABORADOR - Não, normalmente, ele mandava trinta
por cento do recurso arrecadado - sempre foi assim - para o
Paulo Roberto. Os outros sessenta por cento ficavam para ele, e
ele direcionava quem receberia no Partido. E eu cobrava dez
por cento e dividia essa propina com o Genu.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
E esses sessenta por cento aí pra o Janene eram entregues
só pra ele ou tinha mais alguém a quem o senhor destinava
esses valores aí?
COLABORADOR - Quando o Senhor José era vivo, ele é
que determinava esses assuntos. Então, ele pedia o dinheiro em
Brasília, enquanto ele era deputado, até 2006, e eu levava na
casa dele, e ele dava o destino dos valores. Algumas vezes, ele
pediu que eu levasse o dinheiro pro Nelson Meurer, pro
Pizzolatti, pro Pedro Correia, nas suas residências.
(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
Detalha aí como é que teriam ocorrido essas entregas a
Nelson Meurer, que é o acusado na presente ação penal.
COLABORADOR - Bom, quando o Senhor José era vivo...
Inclusive, o valor acho que era até um pouco menos - bem
menos, né - do que depois que ele faleceu, que eu vim a
participar mais efetivamente, cuidar dos valores. Ele mandava
em torno de R$ 130 a 150 mil por mês. Eventualmente, na época
de campanha, um pouco mais. E, algumas vezes, eu levei,
entreguei esses valores, ou em Brasília mesmo, pro Nelson
Meurer, ou pedi que o Carlos Habib entregasse através do
posto; e, nas outras vezes, eu mandei pra Curitiba, onde ele se
hospedava, no Hotel Curitiba, enquanto o Senhor José Janene
era vivo.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. E depois que...
COLABORADOR - Depois que o Senhor Janene adoeceu,

59

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 141 de 486 3553


AP 996 / DF

e, aí, quem passou a comandar o partido foi o Nelson, o


Pizzolatti, o Mário Negromonte e o Pedro Corrêa. Aí, eu passei
a obedecer às ordens deles. E, aí, esses valores aumentaram
nesse sentido. Eu mandava recursos, sim, pra que eles
distribuíssem para o partido, mas, além disso, os quatro tinham
uma retirada maior do que se arrecadava.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Isso era de, mais ou menos,
quanto?
COLABORADOR - Variava do mês que a gente
arrecadava, mas era em torno de R$ 300/400 mil, mais ou
menos, no máximo, R$ 500/600. Época de campanha, não.
Época de campanha, na campanha de 2010, cada um desses
cinco, fora o que foi dado pra outras pessoas do partido, que, aí,
algumas foi oficialmente e algumas, não, que eu não sei; as que
foram oficial, que eu tratei já está detalhado. Mas cada um
recebeu na campanha, mais ou menos, de 2010, em torno de R$
5 milhões, R$ 5,5 milhões, que eu me lembro na época.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Esses repasses...
COLABORADOR - Em vários repasses, né? Não foi tudo
de uma vez.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Esses repasses periódicos aí ao
Nelson Meurer e ao grupo dele duraram até quando?
COLABORADOR - Duraram até quando o Paulo Roberto
Costa foi Diretor da Petrobras.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Paulo Roberto saiu por volta de
abril de 2012.
(…)
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor mencionou, agora
tratando especificamente sobre as formas de repasse, que
chegou a repassar valores para o Nelson Meurer por meio do
Mustatub, né? Eu queria que o senhor explicasse melhor como é
que se dava isso aí, como é que era sua relação com o Habib,
dono do posto, como é que vocês mantinham essa espécie de
troca de créditos, compensações?
COLABORADOR - O Carlos Habib, na verdade, ele fazia
esse negócio não por remuneração. O Carlos Habib, na verdade,

60

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 142 de 486 3554


AP 996 / DF

ele precisava de dinheiro para comprar combustível e para


poder ter o produto pra vender no posto. E o que acontecia é
que eu mandava esse dinheiro pra ele, entendeu, e, quando eu
precisava dos valores, eu pedia que ele me repassasse, e ele me
repassava em reais, ou eu pedia para ele entregar no
apartamento funcional, na época do Pizzolatti, ou do que... Na
verdade, o apartamento que era do Senhor José ficou com pro
Pizzolatti, o funcional, o mesmo apartamento. Então, eu
mandava entregar, quando era o Senhor José que tava lá,
mandava entregar para o Senhor José; quando Pizzolatti tava lá,
mandava entregar pro Pizzolatti, ou o Pedro Corrêa, que ficava
lá para receber. E, algumas vezes, eu me lembro que eu mandei
entregar algumas coisas diretamente ao Nelson, e, salvo
engano, o Carlos Habib foi e entregou.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Só para entender melhor: o
senhor comprava o combustível que ele necessitava ou o senhor
transferia o crédito?
COLABORADOR - Não, eu não comprava nada. Eu
simplesmente falava: ‘Eu vou precisar de um milhão na semana
que vem em Brasília, ou dez dias antes’. Aí, ele falava: ‘Ah,
então, eu vou te mandar aí umas duplicatas pra você pagar
essas duplicatas pra mim, e depois você retira os valores aqui;
ou vou te passar uma conta de uma distribuidora, você
transfere pra distribuidora e depois você retira aqui’. Era assim
que eu fazia.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E a disponibilização dos valores
correspondentes em Brasília, era o próprio Habib que se
encarregava de entregar ao destinatário? O senhor falou pra
entregar no apartamento funcional do Janene, ou do Pizzolatti,
ou entregar pro Meurer. Era alguém do Habib que levava o
dinheiro ou alguém do destinatário vinha buscar no posto?
COLABORADOR - Eu não sei se ele combinava de alguém
ir buscar. Eu não me lembro de alguém ter ido buscar lá. Eu sei
que eu me lembro que o dinheiro chegava ao destino. Algumas
vezes, eu ia a Brasília, retirava e entregava também, ou, às
vezes, o Rafael passava também. Às vezes, o valor que tinha lá

61

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 143 de 486 3555


AP 996 / DF

não era o total valor que tinha que ser repassado, então, eu
mandava de São Paulo, juntava com que tinha lá, e, então,
quando ia alguém de São Paulo para Brasília, retirava a parte
que tinha lá e o restante completava com que levou.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
E essas entregas em Brasília, o senhor falou no
apartamento funcional de Janene e Pizzolatti, o senhor chegou a
participar de reuniões nesses locais? Nessas reuniões, havia a
presença de Nelson Meurer, havia a entrega de dinheiro, como
é que é?
COLABORADOR - É, eu chegava com os valores lá. Às
vezes, almoçava lá; às vezes, jantava; às vezes, dormia por lá,
quando chegava muito tarde, e, consequentemente, o Nelson
vinha pro jantar ou pro almoço, e a gente conversava sobre os
assuntos todos.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo, mas havia a distribuição
do dinheiro lá?
COLABORADOR - Sim.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Como é que ocorria a
distribuição?
COLABORADOR - Aí, eu não ficava prestando atenção.
Eles entrava lá para dentro do quarto e conversava e distribuía
os valores.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
Em Brasília, o senhor falou que o Rafael também foi,
algumas vezes, entregar dinheiro. Havia mais algum outro
transportador além do senhor e do Rafael, que tenha ido a
Brasília para esse apartamento funcional?
COLABORADOR - O Ceará, eu acho que foi várias vezes
também.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
E, em Curitiba, como é que eram as entregas de valores?
COLABORADOR - Em Curitiba, às vezes, eu pedia pro
Rafael levar, às vezes, eu mesmo levava, ou, muitas vezes, o
Ceará, uma ou duas vezes, três vezes, no máximo. Uma ou duas
vezes, eu pedi pro Pieruccini levar também, porque que ele

62

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 144 de 486 3556


AP 996 / DF

estava em São Paulo, aproveitei que ele estava lá, acabei


pedindo para que ele entregasse. Isso ocorria mensalmente.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Pieruccini era quem? Explique
aí a situação dele.
COLABORADOR - Pieruccini era um amigo meu, eu fazia
alguns investimentos em parceria com ele na questão de
construção civil e que, muitas vezes, ele vinha em São Paulo
para conversar comigo, eu pedia esse favor a ele, e acabava
fazendo.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Ele residia em Curitiba?
COLABORADOR - Residia em Curitiba.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Rafael era seu funcionário, né?
COLABORADOR - Sim.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E Ceará? Qual era a situação?
COLABORADOR - Prestação de serviço, cobrava pra fazer
o serviço.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Serviço de transporte do valor?
COLABORADOR - Sim.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E onde ocorriam essas entregas
ao Nelson Meurer em Curitiba?
COLABORADOR - Às vezes, ele encontrava no aeroporto,
no estacionamento do aeroporto, quando ele vinha de Brasília e
descia no Afonso Pena, e um funcionário meu encontrava ele no
aeroporto e entregava a ele. Ou, muitas vezes, ele se hospedava
no Hotel Curitiba, e a pessoa ia lá e entregava para ele.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor já entregou valores a
ele no Hotel Curitiba Palace?
COLABORADOR - Sim, eu pessoalmente já, sim.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor ou seus entregadores
chegavam a se hospedar no Hotel Curitiba Palace?
COLABORADOR - Não, senhor.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Só chegavam lá...
COLABORADOR - Sim.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Entregavam o dinheiro e
voltavam” (fls. 2.817-2.824 – destaquei)

63

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 145 de 486 3557


AP 996 / DF

Como se extrai dessas declarações colacionadas, a partir da geração


ilícita de recursos na Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A, o
denunciado Nelson Meurer foi, diretamente, beneficiado desde a época
em que o Partido Progressista (PP) era comandado por José Mohamed
Janene, recebendo entregas ordinárias de dinheiro em espécie, para as
quais o colaborador Alberto Youssef utilizava seus funcionários, bem
como os préstimos do proprietário do Posto da Torre, localizado nesta
Capital Federal.
Nesse sentido, corroborando todo o teor da narrativa acima
transcrita, confira-se excerto do depoimento prestado em juízo por Rafael
Ângulo Lopez:

“(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. Em relação a políticos do
Partido Progressista, especialmente vinculados a José Janene, o
senhor entregou o dinheiro para quem?
COLABORADOR - Eu comecei a conhecer o Senhor José
Janene, ele, na época, deputado, isso em 2006, por aí - ele
frequentava o escritório do Senhor Alberto, aqui em São Paulo -,
e nisso acabei conhecendo essas outras pessoas, que,
posteriormente, eu soube que eram políticos. Eles eram João
Pizzolatti, era o Nelson Meurer, Pedro Corrêa, Luiz Argolo,
André Vargas, alguns mais, que não me recordo agora no
momento, mas, normalmente, eram quase todos os políticos
que eram em torno do José Janene, do PP.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. Esta ação penal trata
especificamente de Nelson Meurer. O senhor pode especificar
se o senhor fez entregas de dinheiro para ele, como, onde
ocorreram essas entregas?
COLABORADOR - Sim, eu fiz várias entregas para o
senhor, o Deputado José, desculpe, Nelson Meurer. Isso foi
entregue em escritório do Senhor Alberto; ele entregou também.
E eu pegava o dinheiro que ele pedia, entregava para o Senhor
Alberto, o Senhor Alberto entregava para o Nelson Meurer. Às
vezes, o Nelson Meurer ia no escritório, eu entregava dinheiro

64

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 146 de 486 3558


AP 996 / DF

para ele, o Senhor Alberto pedia, no próprio escritório, em


mãos, a ele.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Esse escritório ficava em São
Paulo?
COLABORADOR - Em São Paulo, na Avenida São Gabriel.
E também levei dinheiro para ele para o Paraná, em Curitiba.
Eu levei várias vezes em hotel. Hum, o hotel, acho que era
Hotel Curitiba ou Palace Curitiba, lá no centro de hotel, perto
do Palácio Avenida. Entreguei dinheiro para ele pessoalmente,
entreguei dinheiro para os filhos dele, Nelson e um outro que
era mais novo, um pouco mais forte, não me recordo o nome
dele, mas eu entreguei, inclusive, no aeroporto de Curitiba. O
Senhor Nelson Meurer me aguardava no aeroporto, às vezes, na
maioria das vezes, com o filho. Ia até o carro dele, dávamos
uma volta em torno do local de via do veículo, pelo
estacionamento, entregava o dinheiro, colocava na pasta dele,
me deixava novamente e eu retornava para São Paulo. Essas
eram as formas que eu entregava, no carro dele, em hotel,
também, em Curitiba, um ou dois, um, além do Curitiba Palace,
para o Nelson Júnior.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. Como é que o senhor
transportava o dinheiro e quanto o senhor transportava?
COLABORADOR - Eu transportava desde 50 mil até 150
mil, ou casos de 200 mil. Isso distribuído pelo corpo e em
alguma coisa, em alguma pasta, de bagagem de mão, nessas
condições.
(…)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. O senhor falou que
entregou valores no aeroporto de Curitiba em um carro. Qual
era esse carro? O senhor lembra?
COLABORADOR - Era um carro prata, tipo aqueles carros
fechados, não era sedan, tipo Tucson, não lembro a marca, mas
era um tipo de peruazinha desse.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Prata?
COLABORADOR - Era prata. Outra vez, era um carro
preto. Mas não lembro marca, porque não reparava.

65

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 147 de 486 3559


AP 996 / DF

MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. E, no Hotel Curitiba


Palace, como é que era o procedimento? Você chegava...
COLABORADOR - Eu chegava na recepção, me
anunciava, já sabia o apartamento porque, quando saía de São
Paulo, já era orientado, às vezes, pelo Senhor Alberto para
quem era e quem procurar e aonde. Outras vezes, quando eu
chegava em Curitiba, ou em outros locais, eu ligava para o
Senhor Alberto de telefone público e ele me informava para
quem era e aonde era.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. Subia ao quarto do
Deputado?
COLABORADOR - Sim.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Ou eles desciam lá embaixo?
COLABORADOR - Não, eu subia; ele mandava subir. Me
anunciava na recepção, entrava em contato - eles me conheciam
mais pelo apelido de velho -, então eu já me identificava por
velho e subia, já sabiam que era eu.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
COLABORADOR - Até porque eles confirmavam com o
Senhor Alberto antes.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Existia alguma outra pessoa
para quem o senhor entregava valores aqui em Curitiba? Ou,
quando o senhor vinha, era só para entregar para Meurer?
COLABORADOR - Eu vinha para Curitiba, normalmente,
mais para entregar para o Senhor Nelson Meurer ou um dos
filhos. Levei também em Brasília dinheiro no apartamento do
João Pizzolatti. Eles se reuniam lá, o José Janene, na ocasião,
Mário Negromonte, o Pedro Corrêa, o Nelson Meurer, todos
esses que eu já tinha citado. E eu levava um determinado valor
e entregava ou pra o José Janene, quando estava lá, ou então, às
vezes, para o Pizzolatti. E ele estava com mais algumas outras
pessoas, que eu não sei se eram motoristas ou assistentes.
Cheguei a entregar em Brasília também várias vezes.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Aí, lá em Brasília, o senhor subia
nesse apartamento?
COLABORADOR - Eu subia no apartamento. Já ligava de

66

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 148 de 486 3560


AP 996 / DF

Brasília, quando eu chegava, para o Senhor Alberto. Ele


informava qual era o endereço, e eu ia. Era sempre no
apartamento que é operacional dele (ininteligível).
MINISTÉRIO PÚBLICO - E Nelson Meurer estava
presente nessas ocasiões em que o senhor foi a Brasília?
COLABORADOR - Algumas vezes, sim.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Com relação aos filhos dele - o
senhor falou Nelson Meurer Júnior -, ele recebeu valores no
hotel? No aeroporto? Era em Curitiba? Ele chegou a vir a São
Paulo ou estava em Brasília? Como é que era?
COLABORADOR - Normalmente, no hotel lá em Curitiba
e, no aeroporto, ele me apanhava. Às vezes, estava me
aguardando, e, no carro, eu entregava às vezes pra ele.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E ele estava acompanhado do
pai ou ele estava sozinho?
COLABORADOR - A maioria das vezes, vamos dizer de
"n", um exemplo, entre cinco vezes, quatro estava com o pai.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. Ou...?
COLABORADOR - Outras vezes, no hotel, o Hotel
Curitiba ou o Palace Curitiba. Às vezes, a maioria das vezes, ele
estava só.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Estava só no hotel.
COLABORADOR - Sozinho, pelo menos quando me
recebeu e...
MINISTÉRIO PÚBLICO - Tá. O outro filho que o senhor
falou que era mais forte...
COLABORADOR - Sim, o mais novo, parece...
MINISTÉRIO PÚBLICO - Ele recebeu como os valores? No
hotel ou no...?
COLABORADOR - Também... No hotel. Mas pra ele eu
entreguei poucas vezes. Foram umas duas ou três vezes só.
(…)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. Nos seus registros de
viagem pra Curitiba, algumas vezes o senhor volta pra São
Paulo no mesmo dia.
COLABORADOR - Sim.

67

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 149 de 486 3561


AP 996 / DF

MINISTÉRIO PÚBLICO - (Ininteligível) o intervalo é


muito pequeno.
COLABORADOR - Sim.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Outras vezes, volta no dia
seguinte.
COLABORADOR - Hum, na parte da manhã.
MINISTÉRIO PÚBLICO - A finalidade da viagem era só
entregar o dinheiro?
COLABORADOR - Só entregar dinheiro. Houve ocasiões -
umas duas, pelo menos - que o filho dele, o Nelson Meurer, me
levava até hotéis, porque eu estava sem..., não ia de carro, pra
conseguir vaga pra dormir, pra voltar pra São Paulo no dia
seguinte.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor chegou a se hospedar
alguma vez no Curitiba Palace?
COLABORADOR - Não. Nesse aí nunca.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
COLABORADOR - Eu não gostava de ficar onde eles
estavam.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Tá. No depoimento prestado nas
investigações, o senhor reconheceu as fotografias do Nelson
Meurer Júnior e do outro filho, Cristiano Augusto Meurer, estão
nas folhas 12 e 13 do apenso. Eu gostaria de mostrar pra o
senhor pra...
JUIZ - O senhor se recorda desse reconhecimento que o
senhor fez de fotos?
COLABORADOR - Eu reconheci muita gente por foto,
várias vezes, durante todo...
JUIZ - Pode mostrar, então. Doutor (ininteligível).
COLABORADOR - É ele sim. Tinha mais cabelo. Esse é o
mais novo.
JUIZ - Qual é a folha ali (ininteligível)?
MINISTÉRIO PÚBLICO - Doze e treze do apenso.
JUIZ - O mais novo é na folha...?
SENHORA - Treze.
JUIZ - Treze? Tá. Só pra ficar registrado.

68

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 150 de 486 3562


AP 996 / DF

SENHORA - Só isso?
JUIZ - Só isso.
COLABORADOR - São esses dois.
JUIZ - Obrigado!
(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Lá no escritório do Alberto
Youssef, além do senhor, havia algum outro funcionário,
alguma outra pessoa que fazia transporte de dinheiro?
COLABORADOR - Sim. Adarico Negromonte; ao mesmo
tempo, o de apelido Ceará, que era o Carlos Rocha; que eu saiba
também, às vezes, o Senhor Alberto pedia pro Carlos Habib
Chater, lá do posto de gasolina de Brasília, entregar para algum
deles no apartamento funcional, ou..., não sei se eles iam buscar,
ou o Carlos Chater entregava no apartamento, mas também era
usada esse meio.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E o Antônio Carlos Pieruccini?
COLABORADOR - O Antônio Carlos Pieruccini também.
De Curitiba, ele já chegou a pegar dinheiro que eu entreguei e
que o Senhor Alberto pediu para entregar para o Carlos
Pieruccini para entregar para alguém em Curitiba. E, algumas
vezes, eu soube que era para o Nelson Meurer ” (fls. 2.791-2.796
- destaquei).

Trago à colação, ainda, as declarações prestadas por Antônio Carlos


Brasil Fioravante Pieruccini, também acionado por Alberto Youssef para a
entrega de dinheiro em espécie ao denunciado Nelson Meurer:

“(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Senhor Antônio, eu queria que o
senhor narrasse aqui como começou a sua relação com Alberto
Youssef até chegar às entregas que o senhor ao Deputado
Nelson Meurer. Então, começando, como começou a sua relação
com Alberto Youssef?
COLABORADOR - O Alberto Youssef eu conheci por volta
de 2002, numa... eu era advogada de uma massa falida e eu fui
fazer um recebimento da Copel, onde eu conheci o Alberto

69

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 151 de 486 3563


AP 996 / DF

Youssef. Desse recebimento, originou um processo no Estado


do Paraná, eu estou respondendo esse processo ainda. E, com o
Alberto Youssef, nós tivemos uma amizade que se prolongou,
mas nada... Se prolongou, primeiro, que nós tínhamos uma casa
de praia vizinhos; e a gente passou; nós passamos a, assim, pelo
menos na temporada, a conviver. E, passado um tempo, o
Alberto Youssef contatou comigo para eu atender um
laboratório aqui em Curitiba, que havia sido comprado pelo
Deputado Janene, José Janene, porque o Alberto era ligado ao
Deputado José Janene. E eu passei a trabalhar para o Janene,
passei a trabalhar para o Janene, eu ia sistematicamente a
Curitiba, quase que semanalmente, e foi quando o Alberto
Youssef me pediu um favor, para trazer um numerário para o
deputado Nelson Meurer. Na ocasião...
MINISTÉRIO PÚBLICO - Isso foi quando, mais ou menos?
Em que ano?
COLABORADOR - Olha, isso foi quando o Deputado
Nelson Meurer era líder da bancada do PP. Isso foi em meados
de 2009. E isso se perdurou até ele deixar de ser o líder do PP,
então acho que foi em torno de 2011. E como eu ia
semanalmente a São Paulo, e sempre ele: ‘leva esse pacote, leva
esse pacote, esse dinheiro’. Às vezes, Alberto nem estava em
São Paulo, eu apanhava no escritório do Youssef com o Rafael
Angulo, que era o financeiro do Alberto Youssef. A priori, nas
primeiras remessas, nunca eu soube a quantia que era. Eu
nunca ganhei um real para fazer essas entregas. O único
dinheiro que eu ganhei, cada vez que eu trazia, o Deputado
Nelson Meurer me agraciava com mil reais, mas do Alberto
Youssef eu nunca ganhei, recebi nada por fazer esses favores,
porque, já que eu trabalhava para uma empresa que ele me
indicou, para o Janene, e eu ia lá também sempre, na maioria
das vezes, atrás de recursos para manter o funcionamento do
laboratório aqui. Então, isso se deu no período de um ano e
meio, dois anos. Eu, para o Deputado, era quase que
semanalmente, era quase que... Semanalmente não. No começo,
eram duas vezes por mês. Aí, quando o Deputado assumiu a

70

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 152 de 486 3564


AP 996 / DF

liderança, aí foi um volume maior. E esse volume de dinheiro,


daí, praticamente, um grande período foi quase que
semanalmente. E, depois, o Deputado deixou de ser o líder do
PP. Deixou de ser o líder do PP, e eu acho que eu trouxe uma ou
duas entregas para ele. E, depois, as entregas cessaram. O
Deputado me ligava perguntando, ele tratava o Alberto Youssef
como ‘primo’: ‘O primo mandou alguma encomenda para
mim? Pô, mas o primo tá me sacaneando’. Eu dizia: ‘Olha,
Deputado, eu simplesmente sou o portador, eu não tenho nada
a ver, com não conheço....’
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor já conhecia o
Deputado Nelson Meurer antes?
COLABORADOR - Eu conhecia o Deputado Nelson
Meurer porque eu sou de Francisco Beltrão; eu vim de
Francisco Beltrão em 1962, para fazer um ginásio em Curitiba, e
não voltei mais. Mas eu conhecia ele de lá, conhecia ele. Ele era
amigo de família.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor tinha contato com ele?
COLABORADOR - Não, não tinha, não tinha contato com
ele.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. E quando o Alberto
Youssef pediu a primeira vez para o senhor, como é que foi? Ele
deu o telefone do Deputado para o senhor? Ele passou o seu
telefone para Deputado?
COLABORADOR - Ele deu o telefone para o Deputado.
Eu tenho até hoje o telefone, eu não estou com meu celular aqui.
Até hoje eu tenho o telefone do Deputado.
MINISTÉRIO PÚBLICO - É esse telefone que o senhor
disse no seu termo de colaboração?
JUIZ - É o telefone que o senhor usava a essa época?
COLABORADOR - Olha, eu não tenho certeza, mas
deveria ser outro número. Mas todas as minhas contas eu
entreguei em juízo, todas as minhas contas eu entreguei em
juízo.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E aí quem fez o primeiro
contato? O senhor recorda? Foi o senhor ligando para ele ou ele

71

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 153 de 486 3565


AP 996 / DF

ligando para o senhor?


COLABORADOR - Não, o primeiro contato foi o Alberto
Youssef, fez o Alberto Youssef. Daí o Alberto Youssef me deu o
telefone: ‘Olha, chegando em Curitiba, você liga nesse número,
converse com Deputado e viabilize a entrega, o local onde ele
vai te dar as coordenadas’. E assim foi feito por todas as outras
vezes.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E, aí, como é que era então? O
senhor buscava esse pacote no escritório do Alberto Youssef em
São Paulo, pegava esse pacote lá...?
COLABORADOR - Sim, inicialmente, o Alberto Youssef
tinha o escritório dele, inicialmente, era na Rua São Gabriel.
Então, eu apanhava esse dinheiro lá, sempre com o Rafael
Angulo. E depois que o Alberto mudou, acho que para a Paes
de Barro ali, ali, depois, eu apanhava nesse escritório onde eu
também buscava o dinheiro para abastecer o laboratório.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. E aí o senhor chegava
aqui em Curitiba, então, e ligava para Deputado?
COLABORADOR - Aí, é interessante, porque o Deputado,
ele vinha toda sexta-feira de Brasília e ele ficava me
aguardando, me aguardando para seguir para Francisco
Beltrão. Aí, basicamente, ele exercia um monitoramento: ‘Já saiu
de São Paulo?’; ‘Ainda não, Deputado, ainda não’. Porque às
vezes demorava, às vezes não era chegar lá e pegar. Às vezes eu
ficava... Já houve vezes de passar mais dia, ficar dois dias para
esperar encomenda dele, porque o Alberto Youssef não
arrumava dinheiro. Aí, o Deputado, ele fazia o monitoramento:
‘Onde você tá?’. E eu ‘Olha, eu estou saindo de São Paulo’;
‘Agora eu tô em Registro’; ‘Que horas você vai chegar?’. Isso era
normal.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E aí o senhor encontrava ele
onde, normalmente?
COLABORADOR - Normalmente, era no Hotel Curitiba.
O Hotel Curitiba é no centro de Curitiba, aqui na avenida... Eu
não lembro o nome... Ermelindo de Leão, se eu não me engano.
Ermelindo de Leão. E eu sempre encontrava ele ali. Houve uma

72

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 154 de 486 3566


AP 996 / DF

ou duas vezes, eu encontrei o deputado no aeroporto. Então a


encomenda estava comigo e o deputado estava chegando de
avião. Aí eu ia até o aeroporto e fazia essa entrega.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Ali no hotel, como é que o
senhor fazia? O senhor chegava ali, estacionava o carro?
COLABORADOR - Estacionava o carro em frente. O
Deputado, geralmente, ele estava no saguão do hotel.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Que horário que era isso, mais
ou menos?
COLABORADOR - Ah, era variado. Era variado, era
variado, a hora que eu chegasse. Quando eu chegava muito
tarde da noite, era pela manhã; mas geralmente não.
Geralmente, 10 horas da noite estava chegando de São Paulo e
eu já me desvencilhava da...
MINISTÉRIO PÚBLICO - Aí, ele estava ali na recepção e o
senhor já entregava para ele ali?
COLABORADOR - Sempre. Às vezes, muita das vezes,
mesmo quando o Deputado estava acompanhado do filho dele,
muitas das vezes eu subia no aposento com filho dele.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O filho dele aguardava o senhor
lá embaixo e o senhor subia?
COLABORADOR - Os dois estavam juntos, daí o
Deputado ficava ali embaixo e eu subia com o filho.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Ah, o Deputado ficava e o
senhor subia com filho?
COLABORADOR - Ficava, mas quando o filho não
estava...
MINISTÉRIO PÚBLICO - Qual era o filho?
COLABORADOR - Olha, eu... O nome... Eu sei que é um
que é advogado. Eu não sei se os dois são advogados. Inclusive,
estive no escritório deles em Francisco Beltrão, fiz uma entrega
para ele em Francisco Beltrão.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Ah o senhor fez uma entrega
(ininteligível). Para o deputado, ou para o filho dele?
COLABORADOR - Para o filho.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Quando que foi isso? Nesse

73

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 155 de 486 3567


AP 996 / DF

mesmo período, foi nesse mesmo (ininteligível)?


COLABORADOR - É, nesse período. Nesse período, é. O
Deputado estava em Brasília, não pôde vir e ele pediu para
mim se eu podia, se faria essa gentileza, ir a Beltrão entregar
essa encomenda.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E aí o senhor foi a Francisco
Beltrão?
COLABORADOR - Fui, entreguei no escritório dele.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Entregou para quem?
COLABORADOR - Para o filho.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor não recorda o nome?
COLABORADOR - Não, não. Eu não sei se é o Nelson
Meurer Júnior. Perdoe, eu não sei. Eu que ele é o advogado.
Agora, eu não sei o nome, não posso...
MINISTÉRIO PÚBLICO - E, aí, como é que foi? Onde é
que era o escritório dele lá em Francisco Beltrão? O senhor se
recorda?
COLABORADOR - Olha, descendo a Avenida Júlio de
Assis, que é a avenida principal de Francisco Beltrão, você desce
em direção ao rio, ele vai ficar à esquerda, numa rua paralela à
esquerda, no primeiro andar. Era um prédio com andar
sobreandar, térreo e sobreandar.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E o senhor chegou ali eu disse:
‘olha, eu vim fazer...’
COLABORADOR - Não, nós já nos conhecíamos por
telefone. Eu tinha o telefone dele, liguei: ‘Ó, tô chegando daqui
(ininteligível)’. Daí ele me deu o endereço, eu fui até ele.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor tinha o telefone do
filho também?
COLABORADOR - Também.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Quem que tinha passado para o
senhor? O senhor recorda?
COLABORADOR - O telefone do filho? Eu não lembro
agora. Provavelmente, como eu fui atender um pedido do
Deputado, provavelmente acho que deve ter sido o Deputado.
Eu não lembro agora. Honestamente, eu não... Quem me passou

74

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 156 de 486 3568


AP 996 / DF

esse... Eu não lembro.


(…)
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor apresentou os seus
extratos de ligação telefônica, né?
COLABORADOR - Sim, apresentei todos eles.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Tem vários contatos seus com
deputado. Todos eles eram para tratar de entrega, ou senhor
tratava de outro assunto com o Deputado?
COLABORADOR - Não, nunca tive outro assunto com
Deputado?
MINISTÉRIO PÚBLICO - Nunca teve?
COLABORADOR - Não.
MINISTÉRIO PÚBLICO - (ininteligível)
COLABORADOR - Não, nunca solicitei nenhum outro
favor e nunca...
MINISTÉRIO PÚBLICO - Nunca falou com ele...
COLABORADOR - Não, não, sobre...
MINISTÉRIO PÚBLICO - ...sobre futebol, sobre qualquer
coisa, só sobre isso.
COLABORADOR - Não, não.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O outro filho do Deputado, o
Cristiano, o senhor não...
COLABORADOR - Não, eu só estive com...
MINISTÉRIO PÚBLICO - Só com um filho.
COLABORADOR - Só com um filho.
JUIZ - Que é o advogado que o senhor não sabe
diferenciar o nome.
COLABORADOR - Isso, o que é advogado.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor lembra, mais ou
menos, quantas entregas o senhor fez?
COLABORADOR - Olha, eu... Precisar, precisar... Mas foi
em torno de... Olha, acho que umas trinta vezes, acho que é. Ou
mais um pouco, talvez. Eu nunca soube, nunca soube o quanto
vinha nos envelopes. O Rafael me entregava lacrado, entregava
lacrado. Nunca (ininteligível).
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor tem conhecimento de

75

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 157 de 486 3569


AP 996 / DF

outras pessoas que faziam esse transporte de dinheiro pro


Deputado?
COLABORADOR - O Rafael.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Ele comentou com o senhor que
fazia?
COLABORADOR - Sim, sim, sim. Aliás, até fui eu que
substituí ele, porque ele é que vinha, anterior.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Ele vinha para Curitiba só para
isso?
COLABORADOR – Provavelmente.” (fls. 2.916-2.922 –
destaquei)

Não é difícil concluir, da simples leitura desses trechos extraídos dos


depoimentos prestados em juízo pelos colaboradores, que todos são
uníssonos, coesos e firmes em afirmar que o denunciado Nelson Meurer,
em algumas oportunidades com o auxílio de seus filhos aqui acusados
(Nelson Meurer Júnior e Cristiano Augusto Meurer), recebeu,
periodicamente, vantagens indevidas que lhes eram disponibilizadas por
Paulo Roberto Costa, por intermédio do operador Alberto Youssef,
mediante a remessa e entrega de dinheiro em espécie.
Não se olvida, merece registro, que somente as declarações dos
colaboradores, de forma isolada, são inservíveis para fundamentar um
decreto condenatório, nos exatos termos do que preceitua o art. 4º, § 16,
da Lei n. 12.850/2013.

“Art. 4º (…)
§ 16 – Nenhuma sentença condenatória será proferida com
fundamento apenas nas declarações de agente colaborador”.

Todavia, os fatos aqui retratados, ao menos em parte, encontram


consistente suporte em outros elementos de prova produzidos sob o crivo
do contraditório, circunstância que atesta e reforça a veracidade dessas
declarações e, portanto, autoriza a sua utilização como fundamento à
resolução do mérito da causa penal em análise.
Com efeito, a partir do cruzamento de dados de companhias aéreas,

76

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 158 de 486 3570


AP 996 / DF

como também dos encaminhados pelo Hotel Curitiba Palace, é possível


afirmar, sem qualquer margem de dúvida, que, ao menos em 6 (seis)
oportunidades, Rafael Ângulo Lopez esteve na cidade de Curitiba nos
exatos dias em que Nelson Meurer, Nelson Meurer Júnior ou Cristiano
Augusto Meurer também foram registrados como hóspedes no aludido
estabelecimento hoteleiro.
Essas mesmas cópias dos bilhetes aéreos corroboram, ademais, a
metodologia revelada por Rafael Ângulo Lopez, utilizada para a entrega
de dinheiro em espécie para Nelson Meurer, consistente em viagens de
ida e volta no mesmo dia entre as cidades de São Paulo e Curitiba,
especialmente próximo ao fim da semana, quando o parlamentar acusado
chegava ao seu Estado de origem.
Nesse sentido, as cópias dos bilhetes aéreos acostadas à fl. 55 do
apenso 1 demonstram que o colaborador Rafael Ângulo Lopez voou de
São Paulo para Curitiba às 6:53h do dia 29.2.2008, retornando à Capital
Paulista no mesmo dia às 10:30h; de acordo com a lista de registro de
hóspedes remetidas pelo Hotel Curitiba Palace, nessa data ali se
encontravam hospedados os denunciados Nelson Meurer e Nelson
Meurer Júnior, conforme se infere do arquivo “lista2008.pdf”, páginas 64
e 219, contido na mídia acostada à fl. 813 dos autos.
Calha destacar que, no ano bissexto de 2008, o dia 29 de fevereiro
correspondeu à sexta-feira, justamente o período da semana em que o
colaborador afirmou ser rotineira a entrega de quantias em espécie na
cidade de Curitiba.
Já à fl. 54 do apenso 1 foram reproduzidos não só os bilhetes aéreos,
mas também o documento de emissão das passagens, cuja análise revela
que o colaborador Rafael Ângulo Lopez viajou de São Paulo para Curitiba
às 8:46h do dia 11.4.2008 (sexta-feira), retornando para a Capital Paulista
no mesmo dia às 14:00h; nessa mesma data, consta registro de
hospedagem de Nelson Meurer Júnior no hotel Curitiba Palace, conforme
informação constante do arquivo “lista2008.pdf”, página 219, contido na
mídia acostada à fl. 813 dos autos.
Dignas de nota, nesse específico ponto, são as declarações do

77

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 159 de 486 3571


AP 996 / DF

acusado Nelson Meurer Júnior por ocasião do seu interrogatório perante


a autoridade policial, no sentido de que jamais houvera se hospedado no
aludido estabelecimento. Confira-se:

“(...) QUE não se hospeda nem se hospedou e nem se


hospedava com frequência no Hotel Curitiba Palace, porém por
vezes já esteve com seu pai, às segundas-feiras, para um café da
manhã” (fl. 753).

Como visto, as diligências encetadas pela autoridade policial não


tiveram dificuldades em infirmar a declaração citada, sendo certo que,
por ocasião do seu interrogatório judicial, o acusado Nelson Meurer
Júnior, ciente da prova documental demonstrando a inveracidade de sua
narrativa, declinou resposta diversa ao mesmo questionamento,
esclarecendo que se hospedava no hotel desde a infância.
Retomando a análise dos elementos de corroboração, no dia 5.6.2008,
uma quinta-feira, a documentação reproduzida à fl. 53 do apenso 1 revela
que Rafael Ângulo Lopez fez o mesmo trajeto saindo de São Paulo às
13:16h, retornando da capital paranaense às 16:05h; no mesmo dia estava
hospedado Cristiano Augusto Meurer no Hotel Curitiba Palace, conforme
informação constante do arquivo “lista2008.pdf”, página 59, contido na
mídia acostada à fl. 813 dos autos.
Idênticos fatos são comprovados pelas cópias de bilhetes aéreos
constantes às fls. 50, 45 e 43 do apenso 1, que atestam viagens de Rafael
Ângulo Lopez nos trechos São Paulo - Curitiba - São Paulo nos dias
7.8.2008, 11.8.2009 e 23.12.2010, respectivamente. Em todas essas datas
foram encontrados registros de hospedagem do acusado Nelson Meurer
no Hotel Curitiba Palace, ressaltando-se que nas duas (2) últimas esteve
acompanhado do também denunciado Nelson Meurer Júnior, conforme
se extrai das informações contidas nos arquivos “lista2008.pdf”, página
218; “lista2009.pdf”, páginas 71 e 232; e “lista2010.pdf”, página 407.
Diante desse cenário, ao contrário do que afirmam as defesas
técnicas dos acusados, o conjunto probatório produzido no seio do
contraditório estabelecido em juízo é apto, insisto, a corroborar as

78

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 160 de 486 3572


AP 996 / DF

afirmações feitas pelos colaboradores, no sentido de que entregas


ordinárias de dinheiro em espécie a Nelson Meuer ocorriam na cidade de
Curitiba, seja no Hotel Curitiba Palace, seja no estacionamento do
Aeroporto Internacional Afonso Pena.
Não fosse isso, somam-se a tais elementos de prova as informações
obtidas por meio do afastamento do sigilo bancário do acusado Nelson
Meurer, as quais revelam dezenas de depósitos fracionados em conta-
corrente de sua titularidade, muitos deles no mesmo dia e em valores
abaixo dos limites utilizados para a fiscalização por parte das autoridade
monetárias.
Aliás, a soma dessas quantias, frise-se, mostra-se flagrantemente
incompatível com as remunerações ordinariamente recebidas em razão
do exercício da atividade parlamentar e da aposentadoria a que faz jus o
denunciado Nelson Meurer.
Assinalo, por exemplo, conforme consigna relatório contido em
mídia encartada à fl. 3 do apenso 1, que no dia 3.9.2008 foram realizados 2
(dois) depósitos de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) na conta 2687216, mais
um depósito de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) na conta 278216, ambas da
agência 4884 do Banco do Brasil, cujo somatório perfaz a quantia de R$
15.000,00 (quinze mil reais), a qual, nos termos do art. 13, I, da Carta
Cicular n. 3.461/2009 do Banco Central, se depositada de forma conjunta,
estaria sujeita à informação ao COAF por parte da instituição financeira.
O mesmo modus operandi é verificado nos dias 28.8.2008, 10.10.2008,
3.5.2010, 8.7.2010, 15.7.2010, 18.8.2010, 10.9.2010 e 3.3.2011, nos quais
foram realizadas operações capazes de burlar as normas que viabilizam a
fiscalização pelas autoridades com atribuição para tal mister.
No que tange às afirmações de que as vantagens indevidas a Nelson
Meurer também foram pagas por intermédio do Posto da Torre,
localizado nesta Capital Federal, de propriedade de Carlos Habib Chater,
pessoa, relembro, com a qual Alberto Youssef mantinha uma espécie de
conta-corrente para disponibilização de recursos em espécie, igualmente
se encontra suporte em elementos de prova produzidos nos autos. Essa
relação, de início, é bem descrita na seguinte passagem do depoimento

79

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 161 de 486 3573


AP 996 / DF

prestado em juízo pelo aludido colaborador, a qual volto a repisar:

“(…)
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor mencionou, agora
tratando especificamente sobre as formas de repasse, que
chegou a repassar valores para o Nelson Meurer por meio do
Mustatub, né? Eu queria que o senhor explicasse melhor como é
que se dava isso aí, como é que era sua relação com o Habib,
dono do posto, como é que vocês mantinham essa espécie de
troca de créditos, compensações?
COLABORADOR - O Carlos Habib, na verdade, ele fazia
esse negócio não por remuneração. O Carlos Habib, na verdade,
ele precisava de dinheiro para comprar combustível e para
poder ter o produto pra vender no posto. E o que acontecia é
que eu mandava esse dinheiro pra ele, entendeu, e, quando eu
precisava dos valores, eu pedia que ele me repassasse, e ele me
repassava em reais, ou eu pedia para ele entregar no
apartamento funcional, na época do Pizzolatti, ou do que... Na
verdade, o apartamento que era do Senhor José ficou com pro
Pizzolatti, o funcional, o mesmo apartamento. Então, eu
mandava entregar, quando era o Senhor José que tava lá,
mandava entregar para o Senhor José; quando Pizzolatti tava lá,
mandava entregar pro Pizzolatti, ou o Pedro Corrêa, que ficava
lá para receber. E, algumas vezes, eu me lembro que eu mandei
entregar algumas coisas diretamente ao Nelson, e, salvo
engano, o Carlos Habib foi e entregou.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Só para entender melhor: o
senhor comprava o combustível que ele necessitava ou o senhor
transferia o crédito?
COLABORADOR - Não, eu não comprava nada. Eu
simplesmente falava: "Eu vou precisar de um milhão na semana
que vem em Brasília, ou dez dias antes". Aí, ele falava: "Ah,
então, eu vou te mandar aí umas duplicatas pra você pagar
essas duplicatas pra mim, e depois você retira os valores aqui;
ou vou te passar uma conta de uma distribuidora, você
transfere pra distribuidora e depois você retira aqui". Era assim

80

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 162 de 486 3574


AP 996 / DF

que eu fazia.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E a disponibilização dos valores
correspondentes em Brasília, era o próprio Habib que se
encarregava de entregar ao destinatário? O senhor falou pra
entregar no apartamento funcional do Janene, ou do Pizzolatti,
ou entregar pro Meurer. Era alguém do Habib que levava o
dinheiro ou alguém do destinatário vinha buscar no posto?
COLABORADOR - Eu não sei se ele combinava de alguém
ir buscar. Eu não me lembro de alguém ter ido buscar lá. Eu sei
que eu me lembro que o dinheiro chegava ao destino. Algumas
vezes, eu ia a Brasília, retirava e entregava também, ou, às
vezes, o Rafael passava também. Às vezes, o valor que tinha lá
não era o total valor que tinha que ser repassado, então, eu
mandava de São Paulo, juntava com que tinha lá, e, então,
quando ia alguém de São Paulo para Brasília, retirava a parte
que tinha lá e o restante completava com que levou.” (fls. 2.821-
2.823).

Para o controle dessas entradas e saídas de dinheiro, a administração


do Posto da Torre utilizava um sistema de contabilidade informatizado
denominado “SISMONEY”, cujo funcionamento é explicado pela
testemunha Ediel Viana da Silva:

“(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Não, claro!
O senhor, durante o trabalho que o senhor teve no posto, o
senhor tomou conhecimento de um Sistema Money utilizado?
TESTEMUNHA - Sim, Sistema Money.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor poderia discorrer que
sistema é esse, como é que funcionava, quem alimentava?
TESTEMUNHA - O sistema tinha esse sistema do banco,
né, o sistema normal que você abria o..., o financeiro abria o
caixa, consultava banco e fazia as conciliações do banco com as
atividades dos pagamentos do posto, né? E ele lançava nesse
Money, que era o sistema do posto.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.

81

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 163 de 486 3575


AP 996 / DF

Nesse sistema, o senhor tomou ciência de que se


denominava contas BB?
TESTEMUNHA - Sim.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E essas contas BB eram
destinadas a quê?
TESTEMUNHA - BB, ele utilizava no Alberto Youssef, que
mandava empréstimo pro posto.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Só para ficar claro, essa conta
recebia dinheiro do Alberto Youssef?
TESTEMUNHA - Recebia dinheiro do Alberto.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Pagava dinheiro pro Alberto
Youssef?
TESTEMUNHA - Não.
Essa conta, vinha dinheiro de empréstimo pro posto, e
posto devolvia através de pessoas que chegavam lá.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
E qual a ligação do Alberto Youssef com essas contas e
com o Habib? Só porque ainda não está claro. É só para ficar
claro.
TESTEMUNHA - Ele sempre colocou que o Alberto era
amigo e socorria ele nas horas de dificuldade do posto. A gente
tinha um... (ininteligível) tem um capital de giro muito alto pra
poder tocar o posto, esse dinheiro não - como é que eu vou
explicar - não ficava no caixa do posto, né? O posto estava
sempre em dificuldade financeira.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
Mas qual o contexto do Alberto, aí? Essas contas, esse
dinheiro dessas contas BBs, que tinham lá no Sismoney, no
Sistema Money, era dinheiro que o Alberto Youssef transferia
pra essa conta?
TESTEMUNHA - Pro Posto da Torre.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O Alberto Youssef transferia pro
Posto da Torre?
TESTEMUNHA - Isso, através de TED, através de
depósito.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Que, no Sistema Money, ficava

82

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 164 de 486 3576


AP 996 / DF

vinculado a essas contas BBs?


TESTEMUNHA - Aí, quando chegava na conta, o André,
que é o financeiro, conciliava. Entrou 500 mil, 100 mil, 300 mil
na conta BB, o que foi feito com ele? Comprou combustível? Aí,
tinha a entrada e tinha a saída dele. E esse crédito dele, as
pessoas que ele mandava iam buscar o dinheiro ou levava. Mas,
pessoalmente, era difícil ele ir no posto buscar esse empréstimo
que ele enviava. Se ele esteve lá umas cinco ou seis vezes nesses
onze anos foi muito.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Ele quem? Desculpe.
TESTEMUNHA - O Alberto Youssef.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O Alberto Youssef. Ele foi lá
algumas vezes nesse tempo, cinco ou seis vezes mais ou menos.
TESTEMUNHA - Que eu me lembre, assim, cinco ou seis
vezes. Poderia ter ido nas minhas férias ou mesmo na minha
ausência, mas não era uma coisa que era pertinente ao Posto da
Torre assim.” (fls. 2.737-2.739).

Percebe-se, dessas declarações, que Carlos Habib Chater escriturava


contabilmente as entradas e saídas de recursos obtidos junto a Alberto
Youssef a título de empréstimo, identificando a respectiva conta com as
siglas “bb”, enquanto a liquidação do mútuo dava-se mediante a
destinação de recursos oriundos do faturamento do Posto da Torre à
pessoas ou contas indicadas por Alberto Youssef.
Pois bem, o referido sistema de contabilidade foi apreendido pela
autoridade policial, no qual se encontram registradas operações
realizadas em favor de “Nelson”, nos dias 19.12.2008 e 22.12.2008, e de
“Nelson Meurer”, nos dias 4.1.2009 e 27.1.2009, conforme se infere da
cópia acostada às fls. 739-740.
Esses dados foram submetidos a exame pericial, oportunidade em
que foram confrontados com o resultado da quebra do sigilo bancário do
acusado Nelson Meurer, tendo os experts declinado as seguintes respostas
aos quesitos formulados:

“(...)

83

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 165 de 486 3577


AP 996 / DF

IV – RESPOSTAS AOS QUESITOS


Quesito 1: Foram encontradas transações registradas
pelo Posto da Torre que fazem referência a Nelson Meurer, CPF
005.648.349-04?
16. Foram encontradas duas transações registradas pelo
Posto da Torre no arquivo ‘posto.mny’ que fazem referência ao
termo "nelson meurer", nos valores de R$ 42.000,00, em
04/01/2009, e R$ 10.000,00, em 27/01/2009, conforme
evidenciado na Figura 1 e na Tabela 1.
17. Essas transações foram registradas no Money99 na
conta contábil ‘bb-2’. Conforme Termo de Dec1arações de Ediel
Viana da Silva, lavrado em 08/10/2014, essa conta contábil era
utilizada para registrar negócios entre Cados Habib Chater,
proprietário do Posto da Torre, e Alberto Youssef.
Quesito 2: Em caso positivo, essas transações constam nos
dados bancários do CASO 002-PF-001743-04?
18. As transações apontadas na resposta ao Quesito 1 são
compatíveis com os depósitos realizados na conta bancária n°
2787210, agencia 4884, Banco do Brasil, titularidade de Nelson
Meurer (CPF 005.648.349-04), conforme evidenciado Tabelas 2 e
3 .” (fl. 749).

Convém ressaltar que, de acordo com os dados obtidos em


decorrência da quebra do sigilo bancário (mídia acostada à fl. 3 do apenso
1), somente no dia 5.1.2009 foram identificados 24 (vinte e quatro)
depósitos na conta n. 2787210, da agência 4884 do Banco do Brasil,
titularizada por Nelson Meurer, perfazendo a exata quantia de R$
42.000,00 (quarenta e dois mil reais), a mesma que consta ter sido
disponibilizada pelo Posto da Torre no dia imediatamente anterior,
4.1.2009.
Idêntica é a constatação alcançada em relação a 8 (oito) depósitos
realizados na mesma conta no dia 29.1.2009, os quais somam R$ 10.000,00
(dez mil reais), equivalentes à anotação constante do sistema de
contabilidade do Posto da Torre como quantia disponibilizada a Nelson
Meurer no dia 27.1.2009.

84

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 166 de 486 3578


AP 996 / DF

Em seu interrogatório, o denunciado Nelson Meurer afirma que tais


quantias foram solicitadas a José Mohamed Janene, a título de
empréstimo, quitado nos meses ulteriores, motivo pelo qual desconhecia
a origem dos recursos, tampouco desconfiou da ilicitude da operação.
Entretanto, esse comum argumento defensivo sucumbe às
circunstâncias fáticas reveladas pelo conjunto probatório, mormente
quando o Posto da Torre, estabelecimento junto ao qual obteve a referida
quantia, era, como já demonstrado, utilizado por Alberto Youssef para
realizar pagamentos na Capital Federal, o qual, no contexto do Partido
Progressista (PP), confessadamente operava recursos ilícitos.
Mais uma vez é legítimo considerar que tais elementos de prova, aos
quais a defesa teve amplo acesso no decorrer da instrução criminal,
corroboram as afirmações feitas pelos colaboradores em seus
depoimentos prestados na fase inquisitorial e, importante registrar,
confirmados no seio do contraditório estabelecido em juízo, todos no
sentido de que o acusado Nelson Meurer recebeu vantagens indevidas
pagas por Alberto Youssef, fruto dos delitos de corrupção praticados por
Paulo Roberto Costa no âmbito da Diretoria de Abastecimento da
Petrobras S/A.
Conforme se infere das declarações prestadas em juízo, o
colaborador Antônio Carlos Brasil Fioravante Pieruccini também afirma
ter feito frequentes entregas de dinheiro em espécie para Nelson Meurer e
Nelson Meurer Júnior na cidade de Curitiba, bem como em Francisco
Beltrão/PR, conforme destacado alhures.
Friso, a esse respeito, que, por ocasião de seu interrogatório, o
denunciado Nelson Meurer negou conhecer ou ter qualquer tipo de
relacionamento com o aludido entregador de Alberto Youssef.
Transcrevo, no ponto, o seguinte excerto de suas declarações:

“(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Eu agradeço. Há uma referência
às pessoas de Adárico Negromonte e Antônio Carlos Pieruccini,
uma referência de que eles também realizaram entregas para o
senhor.

85

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 167 de 486 3579


AP 996 / DF

RÉU - Era o quê?


MINISTÉRIO PÚBLICO - Adárico Negromonte e Antônio
Carlos Pieruccini.
RÉU - Hã.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor conhece essas pessoas?
RÉU - Não conheço.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Não. Esse fato o senhor nega?
RÉU - Desculpa eu dizer, o Negromonte é irmão do Mário
Negromonte, que era funcionário do Youssef.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Sim, esse Adárico.
RÉU - É ele, Adárico (ininteligível). Foi ele que foi com o
Mário Negromonte e fomos almoçar junto.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Compreendo. E o Antônio
Carlos Pieruccini o senhor conhece?
RÉU - Não conheço.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Não? O senhor nega então que
essas pessoas tenham entregado dinheiro ao senhor?
RÉU - Hein?
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor nega que essas
pessoas, alguma vez, tenham entregado dinheiro ao senhor?
RÉU - Exatamente. Não só ele, como tudo o que tá aí,
escrito aí no processo” (fls. 2.877-2.878)

A par dessa peremptória negativa, a análise dos dados telefônicos


fornecidos por Antônio Carlos Brasil Fioravante Pieruccini evidenciam
contatos frequentes entre o seu terminal e os telefones utilizados pelos os
denunciados Nelson Meurer e Nelson Meurer Júnior, circunstância que
infirma a declaração feita pelo primeiro em seu interrogatório e, por
óbvio, corrobora a versão dada pelo colaborador.
Com efeito, quando ouvidos perante a autoridade policial, os
acusados Nelson Meurer e Nelson Meurer Júnior declararam utilizar os
telefones (61) 9978-7371 e (46) 9975-2700, respectivamente (fls. 411 e 753).
Compulsando os extratos telefônicos cujas cópias encontram-se
encartadas às fls. 1.271-1.754, são constatadas dezenas de chamadas entre
os referidos ramais e o utilizado pelo colaborador Antônio Carlos Brasil

86

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 168 de 486 3580


AP 996 / DF

Fioravante Pieruccini nos anos de 2010, 2011 e 2012.


Nesse sentido, à fl. 1.377 consta o registro de ligação de Nelson
Meurer para Antônio Carlos Pieruccini em 13.4.2010, com duração de 54
segundos; à fl. 1.394 é registrada uma ligação de Antônio Carlos
Pieruccini para Nelson Meurer no mês de agosto de 2010, com duração de
54 segundos; à fl. 1.402 consta o registro de ligação de Nelson Meurer
para Antônio Carlos Pieruccini no mês de outubro de 2010, com duração
de 1 minuto e 6 segundos; à fl. 1.406 constam registros de uma ligação de
Antônio Carlos Pieruccini para Nelson Meurer no mês de novembro de
2010, com duração de 1 minuto e 12 segundos, e outra para Nelson
Meurer Júnior, no mesmo mês, com duração de 30 segundos; à fl. 1.411
consta o registro de ligação de Nelson Meurer para Antônio Carlos
Pieruccini no dia 22.12.2010, com duração de 48 segundos.
No mês de fevereiro de 2011 é registrado um contato de Antônio
Carlos Pieruccini com Nelson Meurer Júnior com duração de 36
segundos, conforme informação contida à fl. 1.418, bem como uma
ligação de Nelson Meurer para o aludido colaborador no dia 17, com
duração também de 36 segundos, conforme se infere da cópia de fl. 1.419.
Há registros, ainda, de ligações entre os referidos ramais nos meses
de março (fl. 1.422), maio (fl. 1.429), junho (fl. 1.437), julho (fl. 1.441),
agosto (fl. 1.445 e 1.446), setembro (fl. 1.449), novembro (fl. 1.459) e
dezembro (fl. 1.465) do ano de 2011, bem como no mês de maio de 2010
(fl. 1.495).
Inegável que todo esse quadro é ilustrativo do modus operandi
utilizado por Antônio Carlos Pieruccini para a entrega de dinheiro em
espécie a Nelson Meurer, corroborando suas declarações prestadas em
juízo, especialmente as ligações registradas no dia 9.6.2011, constantes
das fls. 1.437 e 1.439.
É que, nesse dia, foram registradas duas (2) ligações de Nelson
Meurer às 14h56m20s e 15h26m28s, a partir da área 41 do roaming
nacional (cidade de Curitiba), para Antônio Carlos Pieruccini, que as
recebeu na área 11 do roaming nacional, sabidamente correspondente à
cidade de São Paulo. Às 16h58m20s é registrada uma ligação de Antônio

87

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 169 de 486 3581


AP 996 / DF

Carlos para Nelson Meurer também a partir da área 11, ou seja, a cidade
de São Paulo. Por fim, às 22h43m28s, consta a ligação de Antônio Carlos
para Nelson Meurer já na área 41, que abrange a cidade de Curitiba.
Destaco, por derradeiro, que o episódio de entrega de quantias em
espécie a Nelson Meurer Júnior na cidade de Francisco Beltrão/PR, a
pedido de Nelson Meurer, também é corroborado pelos dados constantes
dos extratos telefônicos fornecidos por Antônio Carlos Brasil Fioravante
Peruccini.
Com efeito, como se extrai dos registros de fl. 1.459, no dia 7.11.2011
Antônio Carlos realizou chamada de longa distância com Nelson Meurer
às 12h04m24s, o qual se encontrava na área 61, sabidamente
correspondente à cidade de Brasília; no mesmo dia, às 15h33m45s,
também por chamada de longa distância, o aludido entregador contata o
ramal telefônico de Nelson Meurer Júnior, que se encontrava na área 46,
correspondente à região da cidade de Francisco Beltrão.
Concluo, portanto, que tais elementos de prova confortam a tese
acusatória exposta na exordial e afastam qualquer dúvida acerca do
efetivo recebimento de vantagens indevidas de forma ordinária e
periódica, ao menos em 30 (trinta) oportunidades, por parte do acusado
Nelson Meurer, consubstanciadas: (a) em 6 (seis) entregas realizadas por
Rafael Ângulo Lopez na cidade de Curitiba; (b) em 2 (duas) operações
efetivadas por meio do Posto da Torre; e (c), em 22 (vinte e duas) remessas
de dinheiro em espécie por intermédio de Antônio Carlos Brasil
Fioravante Pieruccini. Nessas, conforme também destaquei, o aludido
acusado foi auxiliado em 5 (cinco) oportunidades pelos codenunciados
Nelson Meurer Júnior - 4 (quatro) entregas em Curitiba e 1 (uma) em
Francisco Beltrão, e 1 (uma) vez por Cristiano Augusto Meurer, na cidade
de Curitiba.

2.1.3. Recebimento extraordinário de vantagens indevidas obtidas


no âmbito da Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A.

A exordial acusatória atribui ao denunciado Nelson Meurer, como

88

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 170 de 486 3582


AP 996 / DF

terceiro fato ilícito, o recebimento de R$ 4.000.000,00 (quatro milhões de


reais) de Paulo Roberto Costa, via Alberto Youssef, correspondente a
pagamento extraordinário de vantagem indevida a partir do caixa de
propinas da Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A, valores que
foram destinados à campanha para a Câmara dos Deputados nas eleições
do ano de 2010.
A referida quantia teria sido disponibilizada ao parlamentar
denunciado mediante entrega de valores em espécie, parte por
intermédio de emissários de Alberto Youssef, parte por meio de doação
eleitoral oficial.
Conforme se infere da denúncia, ditas entregas de dinheiro
ocorreram nas cidades de Curitiba e Brasília:

“(...)
A entrega de valores em espécie ocorreu de forma
parcelada, por meio de contatos entre entregadores de
ALBERTO YOUSSEF, principalmente CARLOS ALEXANDRE
DE SOUZA ROCHA, conhecido como ‘CEARÁ’, e o Deputado
Federal NELSON MEURER ou interpostas pessoas relacionadas
ao parlamentar, notadamente o seu filho NELSON MEURER
JÚNIOR e outros políticos do PARTIDO PROGRESSISTA. Os
repasses dos valores aconteceram em Curitiba, notadamente no
Hotel Curitiba Palace, onde NELSON MEURER se hospeda
frequentemente há vários anos, bem como em Brasília, no
apartamento funcional da liderança do PARTIDO
PROGRESSISTA” (fl. 947).

Ouvido em juízo, o emissário de Alberto Youssef, Carlos Alexandre


de Souza Rocha, também conhecido por “Ceará”, confirma ter feito as
entregas a Nelson Meurer nas aludidas cidades. Colhe-se do seu
depoimento:

“(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. E, tratando já
especificamente aí do caso concreto, o senhor efetuou entregas

89

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 171 de 486 3583


AP 996 / DF

de dinheiro a pedido de Alberto Youssef para Deputado Federal


Nelson Meurer?
TESTEMUNHA - Sim, senhor.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Como é que foram essas
entregas aí? Quando elas ocorreram? Onde ocorreram?
TESTEMUNHA - Olha, em 2010. E elas ocorreram num
hotelzinho pequeno, tinha uma praça na frente, de difícil
acesso, até estacionava meu carro antes, um hotel chamado
Hotel Curitiba. Acho que é isso aí. E eu me identificava na
recepção como o primo e falava o nome de uma pessoa, que eu
não sei se era o nome verdadeiro da pessoa que ia receber ou
não. Depois, eu fiquei sabendo que essa pessoa que recebia esse
dinheiro era filho do deputado.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Essas entregas o senhor fez lá
nesse hotel em Curitiba qual foi o ano?
TESTEMUNHA - 2010; foi o ano da campanha, assim, pré-
campanha, que tinha muito movimento de dinheiro, aí
realmente ele me usava pra complementar aquilo que os
empregados dele não podiam fazer, porque pra ele não era
interessante me usar, porque eu não era empregado dele. Ele
tinha que me pagar um percentual sobre aquilo que eu
carregava, entendeu?
MINISTÉRIO PÚBLICO - Saia mais caro...
TESTEMUNHA - Pra ele.
MINISTÉRIO PÚBLICO - ...se ele usasse seus serviços.
TESTEMUNHA - Claro, pra ele, sim, porque eu entregava
trezentos mil - entendeu? -, e ele me dava geralmente quatro
mil e quinhentos desse dinheiro. Ele dizia que cobrava à pessoa,
pra entregar o dinheiro, 3%.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. Então, ele recorria ao
senhor quando ele não tinha mais disponibilidade de fazer a
entrega com o empregado dele?
TESTEMUNHA - Exatamente. Eu não era funcionário de
Alberto Youssef. Eu não tinha nenhum vínculo empregatício
com ele. Eu não recebia dinheiro dele mensal. Eu tinha, fazia
negócios esporádicos com o senhor Alberto Youssef.

90

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 172 de 486 3584


AP 996 / DF

MINISTÉRIO PÚBLICO - E quantas vezes você fez essas


entregas em Curitiba?
TESTEMUNHA - Especificamente, especificamente ao
Deputado Nelson Meurer, eu fiz três vezes, que eu me recordo
bem.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Lá em Curitiba?
TESTEMUNHA - Lá em Curitiba. Mas eu fiz entregas no
apartamento em Brasília; tá certo? Essa eu fiz mais.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Tá. Vamos, vamos tratar
primeiro das de Curitiba.
TESTEMUNHA - Tá bom.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Teriam sido três.
TESTEMUNHA - Doutor, pode ter sido três, pode ter sido
quatro, mas assim exatamente o número...
MINISTÉRIO PÚBLICO - Em torno de três.
TESTEMUNHA - Em torno de três. Exatamente.
(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. Aí, como era o
procedimento? Chegava lá no hotel, se identificava...
TESTEMUNHA - Chegava no hotel, me identificava na
portaria. Ele mandava eu subir, entendeu? O rapaz abriu... Era
um hotel muito, como é que eu vou dizer pro senhor, assim, um
hotel duas estrelas - né? -, um hotel, entendeu? Até a primeira
vez que eu cheguei lá, fiquei assustado.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Hotel Curitiba, o senhor falou?
TESTEMUNHA - Hotel Curitiba, é.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Palace? Curitiba Palace?
TESTEMUNHA - Curitiba... É algum nome assim, é
algum nome assim. Mas eu reconheço o hotel, se eu voltar lá, ou
se me mostrarem foto. E eu batia na porta, entrava. Era uma
pessoa muito educada, entendeu? Eu tirava o dinheiro. Pedia
pra entrar no toilet, tirava o dinheiro, entregava pra ele, ele
contava as cabeças, entendeu, e eu ia embora.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Havia a conferência do dinheiro,
então?
TESTEMUNHA - Não, só das cabeças.

91

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 173 de 486 3585


AP 996 / DF

MINISTÉRIO PÚBLICO - Só das cabeças?


TESTEMUNHA - Só das cabeças. Dinheiro, um por um,
não. Só as cabeças. Que eu... Eu fazia questão, toda entrega...
Geralmente, assim, de todas as entregas que eu fiz, ninguém, é,
queria que eu entregasse e fosse embora. Eu também queria ir
embora, mas eu fazia questão que contassem as cabeças pra -
né? - eu ficar tranquilo.
(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Tá! Num outro depoimento, ao
longo do inquérito, o senhor chegou a reconhecer, em
fotografia, o filho do Nelson Meurer, que seria o...
TESTEMUNHA - De primeiro, não - né? -, doutor; o
senhor mostrou um..., foi me mostrado um que eu não... Assim,
é muito difícil, para mim, de 2010 para 2015, quando fiz a
minha colaboração, entendeu, eu visualizei uma pessoa poucas
vezes, entendeu, me lembrar exatamente. Me mostraram uma
foto de uma pessoa mais forte e eu falei: "Olha, pode ser, mas
eu acho que não". Entendeu? Aí, no segundo que me
mostraram, esse eu reconheci.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. As fotos e o seu
depoimento estão aqui no apenso na ação penal. As fotos estão
às folhas seis e sete, são as fotos dos dois filhos dele que são
acusados. Vou mostrar pro senhor e o senhor diz se, neste
momento, reconhece como sendo destinatário do dinheiro.
TESTEMUNHA - Só uma foto que o senhor vai me
mostrar?
O SENHOR - Se o senhor quiser pode ficar em pé.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Folha 6, do apenso
(ininteligível).
TESTEMUNHA - Não, não era esse, era o de cima. Esse
não era, era o de cima.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Eram das folhas 6...
TESTEMUNHA - Exatamente.
MINISTÉRIO PÚBLICO - (Ininteligível) a foto do
passaporte. Nelson Meurer Júnior.
(...)

92

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 174 de 486 3586


AP 996 / DF

MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.


Essas foram as entregas em Curitiba. O senhor disse que
fez entregas também em Brasília?
TESTEMUNHA - Sim, senhor.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Como é que eram as entregas
em Brasília?
TESTEMUNHA - O apartamento na 311/Sul, eu não me
lembro o bloco - entendeu? -, realmente não me lembro - ‘H’,
alguma coisa assim. Aí, nesses apartamento, aí, geralmente, aí,
nesses apartamento tava o - eu posso falar as pessoas que
estavam lá?
JUIZ - Sim, sim.
TESTEMUNHA - Nesse apartamento, sempre tava Pedro
Corrêa, Pizzolatti...; é...; o que foi ministro... É... Agora me foge
a memória.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Mário Negromonte?
TESTEMUNHA - Exatamente. Negromonte. E, por duas
vezes, muito discreto, não falava nada, porque sempre era
"Ceará" - né? -, conversavam de vinho - entendeu? -,
conversavam de outros assuntos, eles brincavam e tal, me
ofereciam água, me ofereciam café. Com essa pessoa específica,
única vez que ele se dirigiu pra mim, foi uma..., uma
oportunidade que Pedro Corrêa me apresentou a ele, aí, ele
falou assim: "Você é o famoso Ceará, você é o..."; alguma coisa
assim, ele fez um... Mas a única vez que eu ouvi a voz desse
homem.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Esse homem que o senhor está
falando é...
TESTEMUNHA - É o Nelson...
MINISTÉRIO PÚBLICO - Nelson Meurer.
TESTEMUNHA - Exatamente.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O senhor encontrou ele lá, nesse
apartamento?
TESTEMUNHA - Nesse apartamento. E nunca entreguei
dinheiro a ele. Sempre entregava a Pedro Corrêa ou a Pizzolatti.
Acredito que a Mário Negromonte também acho que eu

93

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 175 de 486 3587


AP 996 / DF

entreguei, mas a ele eu nunca entreguei.


MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. Mas eles dividiam o
dinheiro lá?
TESTEMUNHA - Não sei como funcionava, doutor.
Sempre perguntavam: ‘E o resto, Ceará? E o resto?’. Eu digo:
‘Não sei de resto; eu não tenho resto’. Teve ocasiões, teve
ocasiões, em Brasília, de eu ir duas vezes, nesse mesmo
apartamento, entregar dinheiro.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Aí, como era... O senhor...
TESTEMUNHA - Agora, desses deputados - só para
complementar doutor, porque as vezes eu esqueço, desculpa
interromper o senhor -, não só tinha esses deputados não.
Tinham mais, entendeu? Mas os que eu conheço era, era: Pedro
Corrêa; Mário Negromonte; Pizzolatti; e, e Nelson Meurer, da
cabeça bem branquinha; e o, uma... Mas eu vi esse Nelson
Meurer lá uma ou duas vezes. Não era frequentual, de tá lá
toda hora, todo, toda vez que eu cheguei lá pra entregar
dinheiro não. E por uma vez ou duas vezes, também vi aquele
deputado novinho - ...é... -, Argôlo, Luiz Argôlo, nesse
apartamento.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. Aí como é que era o
procedimento? O senhor levava o dinheiro em mala, ou
também era no corpo?
TESTEMUNHA - Sempre no corpo, doutor. Eu não
carregava dinheiro em mala, nem mochila.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Aí chegava lá...
TESTEMUNHA - Chegava lá, ia no banheiro, tirava o
dinheiro. Eles sempre me ofereciam café, aí vendia alguns
vinhos, vendia alguns vinhos pra eles. Sei lá, faziam alguns
negócios, relógio (ininteligível) - entendeu? -, conversava muito
- né? -, mas só vendia se o Beto dissesse que ia pagar.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo. E deixava o dinheiro com
um deles, o senhor falou...
TESTEMUNHA - Com um deles, com um deles. Sempre
com o Pedro Corrêa, assim. Que eu me lembre, assim, Pedro
Corrêa, Pizzolatti, também, entendeu? Eles... Tinha um que

94

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 176 de 486 3588


AP 996 / DF

pegava o dinheiro, que eu entregava o dinheiro e fazia questão


de contar essas cabeças.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Eles contavam?
TESTEMUNHA - As cabeças.
MINISTÉRIO PÚBLICO - A cabeça.
TESTEMUNHA - Trinta pacotes, entendeu?
MINISTÉRIO PÚBLICO - Se era dividido, ou não, o
senhor não (ininteligível)?
TESTEMUNHA - Como era dividido, eu não sei.
(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - É... E o senhor morava onde,
nessa época aí?
TESTEMUNHA - Eu, quando, quando eu, quando eu fiz
esse serviço, eu morava numa cidade de Santa Catarina
chamada Balneário Camboriú.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Aí, pra fazer as entregas em
Curitiba, o senhor foi de avião, foi de carro?
TESTEMUNHA - Carro, carro. Porque, geralmente, eu
fazia o seguinte, eu trazia o dinheiro, o dólar, vendia o dólar em
Balneário Camboriú - entendeu? -; ou trazia real - tá certo? -; me
arrumava em casa - entendeu? -; e ia me embora entregar o
dinheiro em Curitiba, que era pertinho, 200Km” (fls. 2.744-
2.751).

Embora coerente com as descrições fáticas feitas por outros


colaboradores, como Alberto Youssef, por exemplo, a narrativa de Carlos
Alexandre de Souza Rocha não encontra respaldo em outro elemento de
prova produzido na instrução criminal, circunstância que encaminha, ao
menos à dúvida, impedindo o seu uso para a formação do juízo de mérito
da causa penal em apreço, nos termos do art. 4º, § 16, da Lei n. 12.850/13.
Como se verá, as circunstâncias que permearam as noticiadas
entregas extraordinárias de quantias em espécie em favor de Nelson
Meurer, por sua especificidade, limitaram de forma significativa a
possibilidade de obtenção de elementos de corroboração da versão dada
pelo colaborador.

95

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 177 de 486 3589


AP 996 / DF

Com efeito, consoante se depreende de suas declarações, para


realizar as supostas entregas de dinheiro a Nelson Meurer, na cidade de
Curitiba, Carlos Alexandre de Souza Rocha deslocava-se de carro a partir
do município de Balneário Camboriú/SC, não existindo nos autos prova
que corrobore a efetiva realização desse trajeto.
No tocante às alegadas entregas de dinheiro realizadas em
Brasília/DF, nada obstante tenham as autoridades incumbidas da
investigação encontrado 5 (cinco) voos realizados por Carlos Alexandre
de Souza Rocha, no ano de 2010, a partir das cidades de São Paulo,
Navegantes e Florianópolis, não se pode olvidar que o próprio
colaborador afirmou que as quantias em espécie eram também entregues
a Pedro Corrêa, Mário Negromonte e João Alberto Pizzolatti Júnior, em
imóvel funcional ocupado por este último, mas nunca a Nelson Meurer,
embora este estivesse no local em algumas oportunidades.
Logo, ainda que seja certo que, após a entrega, as quantias eram
divididas entre os membros do Partido Progressista (PP), não há como se
afirmar, sem que se incorra, repiso, em dúvida inadmissível em juízos
criminais condenatórios, que o acusado Nelson Meurer foi diretamente
beneficiado nessas oportunidades, já que tanto Alberto Youssef quanto
Carlos Alexandre de Souza Rocha declararam não ter presenciado o
processo de divisão dos valores.
Nesse ponto, portanto, concluo que não se desincumbiu a
Procuradoria-Geral da República do ônus que lhe é imposto pelo art. 156
do Código de Processo Penal, sendo inviável o acolhimento da pretensão
requerida na exordial acusatória, neste particular.
Cenário diverso é constatado no tocante à doação eleitoral realizada
pela sociedade empresária Queiroz Galvão em favor da campanha de
Nelson Meurer nas eleições do ano de 2010.
Calha esclarecer, preambularmente, que o tema vem sendo objeto de
controvérsias, seja no âmbito acadêmico ou no cotidiano dos tribunais
pátrios, mormente no que diz respeito acerca da possibilidade de a
doação eleitoral oficial configurar a vantagem indevida que tipifica o
delito de corrupção passiva.

96

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 178 de 486 3590


AP 996 / DF

Para ilustrar a extensão das discussões travadas, trago excerto de


artigo publicado na revista eletrônica Consultor Jurídico, de autoria de
Alaor Leite e Adriano Teixeira:

“(...)
É, de fato, difícil estabelecer o limite entre mera doação
eleitoral (regular ou irregular) e corrupção. O discurso de
justificativa de uma possível criminalização das doações
irregulares ou do caixa dois eleitoral vive, a despeito dessa
questão-limite, da suposição de que ambos os fenômenos
relacionam-se de maneira necessária, e que o enfrentamento do
segundo exige a criminalização do primeiro. Em geral,
costuma-se associar vultosas doações eleitorais por parte de
grandes companhias ou de sujeitos opulentos a pagamentos de
‘propina’ em troca da obtenção de contratos ou outras
vantagens perante a Administração Pública. Estabelece-se,
assim, uma relação simbiótica e automática entre doações
vultosas e ‘propina’. Essas doações vultosas seriam
posteriormente mantidas em contabilidade paralela. Por outro
lado, muito comum é o argumento defensivo, utilizado tanto
pelos partidos políticos quanto pelas empresas ou pessoas
doadoras, segundo o qual as doações teriam sido realizadas
regularmente, ou seja, teriam sido registradas devidamente na
Justiça Eleitoral, o que afastaria a pecha de corrupção.
A rigor, ambas as associações acima descritas apresentam
saltos argumentativos: nem a associação automática entre
doação vultosa ou ilegal e corrupção, nem o argumento de que
a regularidade afastaria a existência de corrupção são, por si,
pertinentes. Dito mais concretamente, é possível falar em
corrupção em casos em que a doação foi regular segundo os
padrões do direito eleitoral e, inversamente, é perfeitamente
possível chegar-se à conclusão de que não houve corrupção em
casos de doações vultosas e irregulares. A discussão é mais
complexa do que fazem crer as apressadas associações
referidas, pois exige uma intensa reflexão sobre o conceito de
vantagem indevida e também sobre a necessidade de uma

97

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 179 de 486 3591


AP 996 / DF

conexão entre a vantagem e o exercício da função, o chamado


‘pacto de injusto da corrupção’ (Nem toda doação irregular a
caixa dois é crime de corrupção, 2016. Disponível em:
<https://www.conjur.com.br/2016-nov-15/nem-toda-doacao-
irregular-caixa-dois-constituem-crime-corrupcao>. Acesso em
19 de mar. 2018 - destaquei).

Como já anotado em tópico apropriado deste voto, a configuração


do crime de corrupção passiva pressupõe que a vantagem indevida
percebida pelo agente público ou candidato a ocupar função pública
represente uma contrapartida à sua atuação ou promessa de agir em
desvio de finalidade para atender aos anseios do corruptor.
De acordo com premissa também já fixada alhures, o exercício
ilegítimo da atividade parlamentar, mesmo no contexto das negociações
políticas inerentes ao funcionamento de um governo de coalizão, é apto a
caracterizar o ato de ofício viciado que tipifica o crime de corrupção
passiva, caso motivado pela solicitação, aceitação ou recebimento de
vantagem indevida.
Como o delito de corrupção passiva destina-se a tutelar
prioritariamente a administração pública, não se exige que a vantagem
solicitada, aceita ou recebida seja de cunho exclusivamente patrimonial,
embora esta seja a forma mais comum de adimplemento, sendo
prescindível, ainda, que este se dê por meios sub-reptícios.
A propósito, colho a lição de Guilherme de Souza Nucci:

“(...)
100. Conceito de vantagem indevida: pode ser qualquer
lucro, ganho, privilégio ou benefício ilícito, ou seja, contrário ao
direito, ainda que ofensivo apenas aos bons costumes.
Entendíamos que o conteúdo da vantagem indevida deveria
possuir algum conteúdo econômico, mesmo que indireto.
Ampliamos o nosso pensamento, pois há casos concretos em
que o funcionário deseja obter somente um elogio, uma
vingança ou mesmo um favor sexual, enfim, algo imponderável
no campo econômico e, ainda assim, corrompe-se para

98

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 180 de 486 3592


AP 996 / DF

prejudicar ato de ofício.


(…)
102. Vantagem indevida idônea: não bastam meras ofertas
de vantagens impossíveis ou não factíveis, incapazes de gerar
no funcionário público uma real cobiça ou um atentado à
moralidade administrativa. É preciso que o agente ofereça algo
idôneo e verossímil, de acordo com suas condições, bem como
harmônico com o seu contexto de vida” (Código Penal comentado.
15ª ed. Rio de Janeiro : Forense, 2015. p. 1.341-1.342).

Sendo assim, afasto, de antemão, a assertiva defensiva no sentido de


que a doação eleitoral, porque declarada à justiça especializada, não seria
meio apto à configuração do delito de corrupção passiva.
De fato, o atendimento às formalidades exigidas pela legislação
eleitoral acerca do financiamento de campanhas é requisito para seja
aferida a regularidade do certame, de acordo com as normas que visam
tutelar o equilíbrio entre candidatos que deve nortear a disputa por
mandatos eletivos.
Nesse sentido, trago à colação, uma vez mais, os ensinamentos de
José Jairo Gomes:

“(...)
No que concerne ao financiamento privado, impera o
princípio da transparência, sendo necessário que se divulgue
publicamente por quem e como o candidato é financiado. É
preciso que os eleitores saibam, ou pelo menos possam saber,
da origem e do destino dos recurso usados nas campanhas
políticas, sob pena de votarem ignorando os verdadeiros
patrocinadores do candidato escolhido, o que ensejaria
representação política mendaz, dissociada da verdadeira
vontade coletiva. (…)
A arrecadação de recursos no meio privado submete-se a
complexo regramento legal, havendo controle estrito quanto à
origem e quem pode contribuir, o montante que cada pessoa
pode doar, o destino dado aos recursos. Além disso, os

99

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 181 de 486 3593


AP 996 / DF

beneficiários são obrigados a prestar contas minuciosas à


Justiça Eleitoral” (GOMES, José Jairo. Direito eleitoral. 13ª ed. São
Paulo : Atlas, 2017. p. 427-428)

As normas que regulam a fiscalização do financiamento de


campanhas, entretanto, não cuidam dos motivos que ensejaram a doação
de recursos a determinado candidato, a qual, como é cediço, deve ser
presumida lícita até que se prove o contrário. Caso atendidos os limites e
requisitos previstos na legislação de regência, certamente a prestação de
contas obrigatória será aprovada pela Justiça Eleitoral.
A motivação do financiamento de campanha, todavia, não passou
despercebida pelo Supremo Tribunal Federal por ocasião do julgamento
da ADI 4.650, oportunidade na qual, por maioria de votos, foi declarada a
inconstitucionalidade de dispositivos legais que permitiam doações por
parte de pessoas jurídicas justamente por lhes faltar a capacidade de
exercício da cidadania, sendo oportuno destacar os seguintes
fundamentos invocados pelo eminente relator, o Ministro Luiz Fux:

“(...)
De início, não me parece que seja inerente ao regime
democrático, em geral, e à cidadania, em particular, a
participação política por pessoas jurídicas. É que o exercício da
cidadania, em seu sentido mais estrito, pressupõe três
modalidades de atuação cívica: o ius suffragii (i.e., direito de
votar), o jus honorum (i.e., direito de ser votado) e o direito de
influir na formação da vontade política através de instrumentos
de democracia direta, como o plebiscito, o referendo e a
iniciativa popular de leis (SILVA, José Afonso da. Curso de
Direito Constitucional Positivo. 34ª ed. São Paulo: Malheiros,
2011, p. 347). Por suas próprias características, tais modalidades
são inerentes às pessoas naturais, afigurando-se um disparate
cogitar a sua extensão às pessoas jurídicas. Nesse particular,
esta Suprema Corte sumulou entendimento segundo o qual as
‘pessoas jurídicas não têm legitimidade para propor ação
popular’ (Enunciado da Súmula nº 365 do STF), por essas não

100

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 182 de 486 3594


AP 996 / DF

ostentarem o status de cidadãs. (…)


Deveras, o exercício de direitos políticos é incompatível
com a essência das pessoas jurídicas. Por certo, uma empresa
pode defender bandeiras políticas, como a de direitos humanos,
causas ambientais etc., mas daí a bradar pela sua
indispensabilidade no campo político, investindo vultosas
quantias em campanhas eleitorais, dista uma considerável
distância. É o que defende o saudoso filósofo norte-americano
Ronald Dworkin: as ‘empresas são ficções legais. Elas não têm
opiniões próprias para contribuir e direitos para participar com
a mesma voz e voto na política’ [Do original: ‘Corporations are
legal fictions. They have no opinions of their own to contribute
and no rights to participate with equal voice or vote in politics.’]
(DWORKIN. Ronald. ‘The Devastating Decision’. In: The New
York Tomes Review of Books, 25.02.2010, disponível em
(http://www.public.iastate.edu/~jwcwolf/Law/DworkinCitizens
United.pd f). Assim é que autorizar que pessoas jurídicas
participem da vida política seria, em primeiro lugar, contrário à
essência do próprio regime democrático” (destaques no
original).

É certo que no caso em apreço não se discute a legalidade da doação


eleitoral feita por pessoa jurídica, pois, à época dos fatos, tal liberalidade
era permitida pela legislação de regência.
Entretanto, os fundamentos declinados no precedente citado
evidenciam que a doação eleitoral legítima pressupõe manifestação livre
da vontade do doador em apoiar as ideias e projetos divulgados pelo
candidato donatário, como corolário do exercício da cidadania que
fundamenta o Estado Democrático de Direito em que se constitui a
República Federativa do Brasil.
Mas se os motivos que deram ensejo à liberalidade em favor do
candidato violarem determinado bem jurídico tutelado pelo ordenamento
pátrio, o fato de a doação ter sido registrada e chancelada pela Justiça
Eleitoral não afasta a incidência da sanção prevista em lei para o
malferimento pretérito.

101

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 183 de 486 3595


AP 996 / DF

Em outras palavras, a doação eleitoral, se não realizada com o


propósito de apoiar os ideais propagados pelo candidato ou partido
político beneficiário, travestindo-se de adimplemento de vantagem
negociada no contexto de prática delitiva, passa a ser qualificada como
liberalidade indevida, pois viciada pela simulação que a nulifica, nos
termos do art. 167, § 1º, II, do Código Civil, que dispõe:

“Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas


subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na
forma.
§ 1º Haverá simulação nos negócios jurídicos quando:
(…)
II – contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula
não verdadeira;”

Sobre o referido vício do negócio jurídico, confira-se a lição de


Heleno Taveira Torres:

“(...)
Mediante exercício de autonomia privada, as partes (fonte
normativa) criam uma específica relação entre elas, com a
finalidade de predispor, perante terceiros de boa-fé, uma
aparência de negócio jurídico legítimo, com causa própria, a
partir de concurso de declarações de vontade. O texto que o
constitui poderá ter qualquer objeto, dentre os permitidos pelo
ordenamento, nos termos da declaração, usada tanto para
encobrir outro negócio de interesse das partes (simulação
relativa), como para criar uma ficção (simulação absoluta).
Em paralelo, também por um ato de vontade (decisão ou
‘fonte’) das partes, põe-se outra norma jurídica no
ordenamento, mediante ato jurídico próprio, cujo programa
normativo estabelece uma relação jurídica intra pars, tendo
como objeto a manifestação de declaração contrária ao ato
aparente e desconhecida aos terceiros de boa-fé. Eis a norma do
‘acordo simulatório’. Pragmaticamente, não é outro senão um
ato performativo típico, com função ilocucionária, na medida

102

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 184 de 486 3596


AP 996 / DF

que visa a influir no comportamento do receptor, pois todo ato


de fala realiza ou tende a realizar a ação nomeada, qual seja,
confirmar o conceito do ato aparente na mente dos
destinatários. O pacto simulatório é norma porque decorre do
exercício de autonomia privada, tal como surge aquela do
negócio jurídico simulado, ou mesmo o negócio jurídico
dissimulado. Tem-se aqui, de modo inconteste, a presença de
uma causa desconforme com os valores do ordenamento, da
boa-fé, especialmente.
Como este negócio normalmente não aparece, cumpre ao
terceiro identificar tal vontade normativa mediante
competente produção de prova, construindo seus elementos
por meio de linguagem própria. Assim, quando prejudicado
por essa composição normativa, porque surge o efeito
simulatório, em termos jurídicos, faz-se lícito a qualquer
sujeito sobre quem possa recair suas conseqüências,
(re)constituir, com apoio na linguagem das provas, o pacto
simulatório e demonstrar a ausência de causa no negócio
jurídico (simulação absoluta) ou a dissimulação de outro
negócio jurídico desejado pelas partes (simulação relativa).
(...)” (TORRES, Heleno Taveira. Teoria da simulação de atos e
negócios jurídicos. In: TEPEDINO, Gustavo. FACHIN, Luiz
Edson. Doutrinas Essenciais. Obrigações e Contratos. V. 2. São
Paulo : Revista dos Tribunais, 2011. p. 564-565).

No caso em análise, conforme se passará a demonstrar com arrimo


no conjunto probatório produzido nos autos, a doação eleitoral realizada
pela sociedade empresária Queiroz Galvão em favor da campanha de
Nelson Meurer, nas eleições do ano de 2010, trata-se de negócio jurídico
simulado, praticado com o intuito de encobrir a verdadeira finalidade da
transferência de recursos, que não era outra senão o adimplemento de
vantagem indevida para viabilizar a manutenção da atuação do cartel de
empreiteiras no âmbito da Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A.
Com efeito, em depoimento prestado em juízo, o colaborador
Alberto Youssef relata que a doação oficial realizada pela empreiteira

103

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 185 de 486 3597


AP 996 / DF

Queiroz Galvão à campanha de Nelson Meurer deu-se em razão de


valores devidos a Paulo Roberto Costa, no precitado contexto de atuação
das empresas cartelizadas. Nesse sentido, confira-se:

“(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Durante a Operação Lava Jato,
no começo, em diligência de busca e apreensão, foi arrecadada
uma agenda do Paulo Roberto Costa, que havia uma anotação
4,0 - Nel. Seria uma referência a um repasse a Nelson Meurer.
COLABORADOR - É que, naquele momento que a gente
prestou conta, eu e o Paulo Roberto, porque, na verdade,
prestava-se conta dos dois lados: prestava conta pro Paulo
Roberto, prestava conta pro partido. Então, naquele momento, o
Nelson Meurer, naquele momento da prestação de conta que foi
feita com o Paulo Roberto, ele fez a anotação, era o número, até
aquele dia, que o Nelson Meurer tinha recebido pela campanha.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Campanha de 2010?
COLABORADOR - Campanha de 2010.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Os 4 milhões. O senhor falou
que foram várias formas de repasse.
COLABORADOR - Várias formas. Teve doação oficial,
teve valores em espécie, teve valores entregues em Brasília, teve
valores entregues em Curitiba.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
Além disso, foram interceptadas mensagens,
interceptadas, não, identificadas mensagens de e-mail para o e-
mail que o senhor utilizava, Paulo Goia, que se referem à
cobrança de recibos de doações oficiais da Queiroz Galvão. E
um desses recibos seria referente a uma doação para Nelson
Meurer no valor total de R$ 500.000,00. Eu queria que o senhor
explicasse como é que se deu essa situação aí.
COLABORADOR - A questão da Queiroz foi que eu fui
cobrar a Queiroz e, naquele momento que eu fui cobrar a
Queiroz, já tinha ido várias vezes. A gente tinha um problema aí
de interlocutor, que, na verdade, a Queiroz estava conversando
já com o Fernando Soares, que era o Baiano, e estava fazendo

104

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 186 de 486 3598


AP 996 / DF

esses recebimentos a pedido do Paulo. E eu não sei se estava


repassando para o PMDB ou se estava entregando diretamente
ao Paulo e a ele. Sempre o Paulo dizia que era para o PMDB. Eu
já não sei te dizer se realmente era para o PMDB mesmo ou não.
E, aí, insistentemente, eu com o Pedro Corrêa acabamos
cobrando, cobrando, cobrando, cobrando, até que o Paulo
Roberto conversou com a diretoria ou com o Idelfonso - salvo
engano -, na época, e disponibilizou sete milhões e meio pra
que a empresa ajudasse na campanha. Eu procurei o Oto na
época. O Oto falou pra mim que ia ver como que ele podia
fazer, pra fazer essas doações, mas que ele não trabalhava na
questão de "caixa dois", e que ele ia ver como ia fazer, mas que,
provavelmente, seria como doação oficial. E assim foi feito,
como doação oficial. O partido me passou a lista, e eu
entreguei.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
E como é que foi essa questão do recibo? Ficou faltando o
recibo? O senhor entrou em contato?
COLABORADOR - Não, é que, quando a doação foi feita,
a empresa depois precisa do recibo pra prestação de conta.
Como foi eu que tratei diretamente com a empresa, então, ele
me cobrou que eu mandasse os recibos dos parlamentares pra
ele. E assim eu fiz, cobrei o Nelson Meurer, para que o Nelson
Meurer mandasse os recibos pra empresa.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
Aí, o Nelson Meurer sabia que..., o senhor tem condições
de dizer se ele sabia se os valores eram oriundos desse crédito
de propina da Queiroz Galvão?
COLABORADOR - Sim, ele sabia que esses valores
vinham através do Paulo Roberto Costa, por conta da diretoria
e por conta da prestação de serviço das empresas perante a
Diretoria de Abastecimento” (fls. 2.825-2.826 – destaquei).

Elucidativos são os relatos de Othon Zanoide de Moraes Filho


perante a autoridade policial, nos quais assere que, na qualidade de
representante da sociedade empresária Queiroz Galvão, negociou com

105

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 187 de 486 3599


AP 996 / DF

Alberto Youssef a doação eleitoral a Nelson Meurer no pleito de 2010,


nada obstante a ausência de qualquer afinidade prévia com o
denunciado, assentando, ainda, que a liberalidade a candidato específico
não era a prática usual da empresa. Confira-se:

“(...)
QUE participava da reunião de Diretores da
CONSTRUTORA QUEIROZ GALVÃO, opinando sobre
doações eleitorais, especificamente sobre valores, destinatários,
conforme representatividade dos partidos no cenário nacional;
QUE consigna porém que a última palavra era dada pelo
Presidente ILDEFONSO COLLARES; QUE o declarante era o
responsável, no ano de 2010, por entregar ao setor financeiro da
própria construtora a relação com os dados dos diretórios,
CNPJ e os valores respectivos para doação; (…) QUE não era
responsável por ordenar ao financeiro doação de outros
partidos, mas apenas do PP; (…) QUE em 2008, o então
Deputado JANENE procurou o declarante, no sentido de
solicitar-lhe doação para o PP, porém o declarante reservou-se a
afirmar que trataria do assunto no ano de 2010 quando das
eleições; QUE ainda em 2009, JANENE apresentou-lhe uma
pessoa apenas com a referência de ‘PRIMO’, recentemente
tendo conhecimento se tratar de YOUSSEF, com quem o
declarante deveria tratar a partir de então sobre doações ao PP,
e assim foi feito no ano de 2010; QUE para evitar pagamento em
duplicidade dentro do próprio grupo, considerando a
possibilidade de duas empresas, como exemplo, terem mesmo
interesse na destinação, os presidentes das empresas do grupo
conversaram entre si, para fins de definir a origem dos valores a
serem doados, sabendo informar que a doação era originária de
até 2% do faturamento anual de cada empresa do grupo; (…)
QUE após a conferência, havendo correspondência entre o valor
ajustado nas reuniões precitadas e a movimentação revelada
por extrato, o declarante dava-se por satisfeito, não precisando
mais de qualquer documento para prestação de contas; (…)
QUE acaso faltasse algum documento para prestação de contas,

106

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 188 de 486 3600


AP 996 / DF

conforme informação do financeiro, o declarante pessoalmente


ou ao telefone cobrava; QUE foi isso que ocorreu no e-mail
encaminhado pelo declarante ao ‘PRIMO’ (ALBERTO
YOUSSEF) cobrando os recibos faltantes; QUE não sabe a razão
pela qual foi repassado ao declarante o endereço de NELSON
MEURER; QUE reconhece que doação especificamente a um
político e não ao diretório não era orientação da empresa, mas
assim foi solicitado por YOUSSEF e assim foi feito; QUE não
sabe informar as razões pelas quais YOUSSEF solicitou doações
diretamente a NELSON MEURER; QUE não conheceu
pessoalmente NELSON MEURER; (...)” (fls. 399-400 -
destaquei).

A par dessas declarações não terem sido repetidas em juízo, assinalo


que o próprio denunciado Nelson Meurer, por ocasião do seu
interrogatório judicial, afirmou não ter qualquer vínculo com a sociedade
empresária Queiroz Galvão, tampouco militar em favor de interesses da
área de atuação desta, conforme se infere do seguinte trecho:

“(...)
JUIZ - Segunda a denúncia, esses valores teriam sido
pagos pela Queiroz Galvão, que teria interesse na manutenção
do Paulo Roberto Costa na Petrobras...
RÉU - Isso já não pertencia a mim (ininteligível) do
partido.
JUIZ - O senhor não tinha não tinha vinculação nenhuma
com a Queiroz Galvão? Não foi o senhor pediu isso?
RÉU - Eu não conheço ninguém. E não conheço ninguém
não só da Queiroz Galvão e nenhum empreiteiro da Petrobras.
Nunca tive conhecimento, relação com empreiteiro da
Petrobras, nunca pedi ajuda financeira para empreiteiro
nenhum, nem da Petrobras e de nenhum desses seis mandato. A
única coisa que eu sempre tive foi pedir ajuda financeira para o
meu partido, que me ajudava sempre, e para e pelo comitê do
governador que eu apoiava no Estado do Paraná.
JUIZ - Certo. E o senhor sabe que, na na agenda, pelo

107

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 189 de 486 3601


AP 996 / DF

menos é o que diz o Ministério Público, que foi apreendida no


escritório do Paulo Roberto Costa, onde havia anotação, não sei
se no escritório ou na residência, enfim, foi apreendida em
poder de Paulo Roberto Costa, havia uma anotação dos valores
repassados ao PP, que seriam vinte e oito milhões e quinhentos
mil, e há a informação de que quatro milhões de reais teriam
sido repassados ao senhor.
RÉU - Não, está escrito ‘Nel’. Primeiro que é dúvida. Eu vi
essa... Está escrito ‘Nel’.
JUIZ - Na agenda está escrito Nel, mas segundo a
denúncia...
RÉU - Supostamente, é Deputado (ininteligível). Não
aconteceu comigo isso aqui. Nunca...
JUIZ - O senhor nega isso.
RÉU - Nego, e que não existiu. Não é que nega. Isso não
aconteceu.
JUIZ - E em relação à doação oficial, seria o próximo
tópico que eu indagaria ao senhor, ou seja, a doação eleitoral
que foi contabilizada, vamos dizer assim, o senhor está
esclarecendo que essa doação, ela foi viabilizada por intermédio
do partido, não é isso?
RÉU - Do partido.
JUIZ - Muito bem. Não tinha nenhuma relação, não foi o
senhor, então, que pediu a um representante ou à Queiroz
Galvão essa doação?
RÉU - Não, não, nunca.
JUIZ - O senhor não conhecia?
RÉU - Como eu lhe disse, não conheço nenhum dono ou
nenhum presidente, ninguém de empresa, não só da Queiroz
Galvão, como nenhuma outra empresa, seja da Petrobras ou
não da Petrobras.
JUIZ - E o senhor não achou ruim receber uma doação de
uma empreiteira em relação à qual o senhor nunca tinha tido
contato?
RÉU - Doutor, nota bem, a doação política, quem fez a
doação e quem viabilizou foi o partido político. É permitido por

108

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 190 de 486 3602


AP 996 / DF

lei o Partido Progressista receber doação. Se eu duvidar do meu


partido político, que está fazendo a doação, se eu duvidar
alguma coisa da doação dele, então, eu tenho que deixar, eu
tenho que sair do partido na mesma hora.
JUIZ - Certo, eu entendo o seu ponto de vista. Mas a
minha pergunta, ela diz respeito à formalização dessa doação
que o senhor sustenta que veio do partido. O senhor não... Por
que é que o senhor, enfim, já que o senhor pediu esse dinheiro
ao partido, não solicitou que o próprio partido aparecesse
formalmente como o doador? Só pra eu poder explicar bem a
pergunta. Porque o que o senhor está dizendo é o seguinte: o
senhor precisava de dinheiro para campanha e o Senhor pediu
ao partido.
RÉU - Exato.
JUIZ - O partido, pelo que o senhor está me dizendo, foi
até a Queiroz Galvão, de alguma forma, e pediu esse dinheiro à
Queiroz Galvão. Se quem doou ao senhor foi o partido e não a
Queiroz Galvão, por que que o senhor não teve o cuidado - essa
é a minha pergunta - de pedir que é formalização dessa doação
fosse feita via partido, já que a sua relação era com o partido e
não com a Queiroz Galvão?
RÉU - Mas, por ter esse cuidado, Doutor, é que eu tomei
essa atitude, por ter esse cuidado, eu tomei essa atitude.
Quando o Partido Progressista me ligou, que a Queiroz Galvão
ia viabilizar oficialmente 500 mil para mim, se eu queria o
dinheiro via partido ou via Queiroz Galvão, o que é que eu
falei? É mais transparente a Queiroz Galvão me fazer a doação
para mim, diretamente para mim. Agora, cabe ao partido, nesse
processo, explicar qual foi a forma que o partido chegou à
Queiroz Galvão de fazer essa doação para mim, não só para
mim como outros parlamentares que estão aqui. E por ter este
cuidado que eu pedi, porque, se eu quisesse camuflar, talvez,
essa doação, eu ia dizer: ‘Não, faz via partido’. Porque, naquela
época, o via partido não precisava colocar o nome da empresa
doadora. Essa eleição que passou, sim.
JUIZ - Por que o Alberto Youssef, que acabou

109

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 191 de 486 3603


AP 996 / DF

intermediando essa prestação de contas, vamos dizer assim,


que o senhor teve que assinar um recibo depois, enfim, pelo que
o Ministério Público alega, a empresa solicitou a assinatura do
recibo. E isso, segundo o Ministério Público alega e traz aqui
informações que seriam cópias emails utilizados pelo Alberto
Youssef, ele teria feito a intermediação entre os executivos da
Queiroz Galvão e o senhor, para poder obter...
RÉU - Eu, não. O partido, né? Não eu, o partido. Isso cabe,
é mais um equívoco do Ministério Público. Se foi o partido que
pediu o recurso, se foi..., calculo eu que o partido deve ter
pedido para o seu representante, que era o Paulo Roberto Costa,
o Paulo Roberto Costa que deveria... Porque o Janene, naquele
momento, era o tesoureiro do partido. Talvez, como assessor do
coisa, deve ter pedido. Isso cabe ao partido.
JUIZ - Em 2010 ele ainda era?
RÉU - Exato, 2010. Então, cabe ao partido esclarecer isso.
Eu não conheço o Queiroz Galvão.
(…)
JUIZ - Os recibos, o senhor assinou, vieram preenchidos
já?
RÉU - Não.
JUIZ - Quem preencheu os recibos?
RÉU - Quem preencheu foi o... Quem... Nota bem o
seguinte: quem pediu o preenchimento não foi a Queiroz
Galvão que pediu, não foi a Queiroz; foi o Partido Progressista
aqui de Brasília que pediu o recibo, mandou via... solicitou via
Diretório Estadual do Partido. O Diretório Estadual entrou em
contato com o meu filho, com Nelson Meurer Júnior, que fez a
prestação de conta minha de 2010. Ele, como advogado, como
administrador, foi o que fez administração. Foi ele que
preencheu o... foi Estado, o PP do Paraná que mandou pra ele,
mandou pra mim lá...
JUIZ - Quem preencheu? Foi o seu filho ou foi o...
RÉU - Foi o meu filho.
JUIZ - Seu filho...
RÉU - Meu filho preencheu, me entregou pra mim e eu

110

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 192 de 486 3604


AP 996 / DF

entreguei aqui, em Brasília, no Partido Progressista, eu


entreguei a coisa.
JUIZ - Entendi. Bem, então assim, em resumo, claro que
com as explicações que já estão dadas, o senhor nega todas as
acusações que foram feitas na denúncia.
Esse recibo, que está aqui, nas folhas... a cópia, está
reproduzido nas folhas 953...
RÉU - Para um pouquinho. Nove?
JUIZ - 953.
RÉU - Eu acho que eu não tenho. Quero ver.
JUIZ - Isso.
RÉU - É.
JUIZ - Essa letra que aí, exceto a assinatura...
RÉU - É do meu filho.
JUIZ - Nelson Meurer Júnior.
RÉU - Nelson Meurer Júnior. A minha assinatura é minha.
JUIZ - Othon Zanoide de Moraes Filho o senhor não
conhece?
RÉU - Não, não conheço. Nunca (ininteligível)” (fls. 2.871-
2.875 - destaquei).

Como se vê, o denunciado Nelson Meurer atribui toda a


responsabilidade pelo processo de obtenção de recursos junto à Queiroz
Galvão ao Partido Progressista (PP), afirmando, inclusive, que partiram
da agremiação partidária as instruções para o preenchimento dos recibos,
embora seja incontroversa a natureza personalíssima de tais obrigações,
nos termos do art. 28, § 2º, da Lei n. 9.504/97.
Confirma, ainda, que nunca teve qualquer contato com
representantes da empresa Queiroz Galvão que justificasse a doação
direta de recursos à campanha, cingindo-se a afirmar que, no seu sentir,
tal forma daria maior transparência à operação, “porque, naquela época, o
via partido não precisava colocar o nome da empresa doadora”.
As declarações do colaborador Alberto Youssef são suportadas pelas
cópias de e-mails trocados com o empresário Othon Zanoide de Moraes
Filho (fls. 461-468), cujas informações demonstram que as doações feitas

111

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 193 de 486 3605


AP 996 / DF

em favor de Nelson Meurer foram intermediadas pelo aludido


colaborador, que se encarregou, na interlocução com o representante da
sociedade doadora, de obter os dados faltantes para o preenchimento dos
recibos eleitorais.
Em 30.8.2010, a partir do endereço eletrônico
paulogoia58@hotmail.com, Alberto Youssef estabelece contato com Othon
Zanoide de Morais no e-mail omoraes@queirozgalvao.com solicitando os
“dados das empresas para prestação de conta” (fl. 464), obtendo resposta, no
mesmo dia, no sentido de que, à “exceção do Nacional” (fl. 463), referindo-
se ao Diretório Nacional do Partido Progressista, que teria como doadora
a empresa Vital Engenharia Ambiental S/A, todos os demais recibos
eleitorais seriam emitidos em nome da Construtora Queiroz Galvão S.A.
Posteriormente, novo contato é estabelecido entre os referidos
interlocutores em 23.9.2010, por meio dos mesmos endereços eletrônicos,
no qual Othon Zanoide de Moraes Filho cobra de Alberto Youssef os
“recibos faltantes” (fl. 467), dentre os quais se encontra o referente à doação
feita a Nelson Meurer, no valor de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais).
Conforme atestam os recibos e respectivos comprovantes de
transferências bancárias acostados às fls. 550-573, todas as instruções
dadas por Othon Zanoide de Moraes Filho a Alberto Youssef foram
observadas, inclusive no tocante ao denunciado Nelson Meurer, que
emitiu 2 (dois) recibos no valor de R$ 250.000,00 (duzentos e cinquenta
mil reais), totalizando R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais), constando
como doadora a Construtora Queiroz Galvão S.A (fls. 560-563).
Nada obstante o esforço defensivo em atribuir ao Partido
Progressista (PP) a responsabilidade pela tutela da origem dos recursos
obtidos por meio de doações eleitorais, o recebimento de liberalidade de
empresa com a qual não mantinha contato e que sequer atuava no ramo
abrangido pelo programa político defendido em sua candidatura, por
intermédio de pessoa sem outra vinculação com a agremiação partidária
senão a administração de recursos ilícitos, revela que a conduta do
acusado era destituída de qualquer propósito democrático, sendo
inviável extrair, desse contexto, a espontaneidade da doação para fins

112

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 194 de 486 3606


AP 996 / DF

estritamente eleitorais.
Tal conclusão não importa em juízo de condenação de toda e
qualquer doação eleitoral realizada por sociedade empresária que não
atue na área em que se concentram as propostas de trabalho do candidato
ao cargo eletivo, porque, a esta circunstância, no caso em tela, somam-se a
comprovada destinação de recursos ilícitos ao Partido Progressista (PP)
por Paulo Roberto Costa, bem como a formalização da liberalidade com a
intermediação de Alberto Youssef, conforme atestam os e-mails citados.
Ademais, de acordo com o Relatório de Análise de Material
Documental n. 5, constante da mídia de fl. 777, a Construtora Queiroz
Galvão S.A. era integrante do grupo de empresas cartelizadas que
centralizavam as contratações no âmbito da Diretoria de Abastecimento
da Petrobras S.A., já que, na qualidade de integrante do Consórcio
Ipojuca Interligações, celebrou contratos fictícios de prestação de serviços
com sociedades empresárias ligadas a Alberto Youssef, estratagema já
tratado à exaustividade como forma de viabilizar recursos para o caixa de
propinas do Partido Progressista.
Destaco, por fim, que, podendo obtê-los diretamente do Partido
Progressista (PP), a quem afirma ter feito a solicitação, preferiu o
denunciado Nelson Meurer receber os recursos da empresa Queiroz
Galvão, com a qual, enfatizo, não mantinha qualquer vínculo.
Assim, a partir da reconstrução dos fatos permitida pelo farto
conjunto probatório constituído não só por declarações de colaboradores,
mas também pelos elementos de prova indicados, concluo que a doação
eleitoral em tela foi utilizada como estratégia para camuflar a real
intenção das partes, que não era outra senão pagar e receber vantagem
patrimonial indevida em decorrência da manutenção do esquema de
contratação das empresas cartelizadas no âmbito da Diretoria de
Abastecimento da Petrobras S/A, tratando-se de nítido negócio simulado.
Registro, desde logo, que, nada obstante o denunciado tenha
recebido a doação em 2 (duas) oportunidades distintas, tenho por
configurado delito único, já que as circunstâncias fáticas evidenciam se
tratar de adimplemento parcelado de uma única vantagem avençada.

113

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 195 de 486 3607


AP 996 / DF

2.2. Lavagem de dinheiro.

Como relatei no início deste julgamento, a denúncia também atribui


aos acusados a prática do crime de lavagem de dinheiro, previsto no art.
1º, caput e § 4º, da Lei n. 9.613/1998, que recebeu do legislador ordinário a
seguinte redação:

“Art. 1º Ocultar ou dissimular a natureza, origem,


localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens,
direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de
infração penal.
Pena: reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e multa.
(...)
§ 4º A pena será aumentada de um a dois terços, se os
crimes definidos nesta Lei forem cometidos de forma reiterada
ou por intermédio de organização criminosa”.

Em apertada síntese, de acordo com os fatos trazidos à baila pela


Procuradoria-Geral da República, o denunciado Nelson Meurer teria, no
primeiro momento, contribuído para a ação de lavagem de capitais
praticada por Alberto Youssef, em relação às vantagens indevidas pagas
pelas empreiteiras cartelizadas; ainda o parlamentar acusado teria, em
algumas oportunidades e com o auxílio de seus filhos Nelson Meurer
Júnior e Cristiano Augusto Meurer, cometido o mesmo delito quanto às
vantagens indevidas percebidas de forma ordinária e extraordinária de
Paulo Roberto Costa, em razão do apoio político dado à manutenção do
primeiro à frente da Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A.
Sobre o tema, sabe-se que há sistemas jurídicos os quais
expressamente excluem do âmbito de incidência das normas penais
definidoras do crime de lavagem de bens, direitos ou valores os próprios
autores do delito antecedente, deixando de punir o que a doutrina
denomina “autolavagem”.
Não sendo esse o caso da legislação brasileira, parcela da doutrina

114

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 196 de 486 3608


AP 996 / DF

pátria, mesmo assim, advoga a impossibilidade de apenar-se por lavagem


o autor da infração penal antecedente, uma vez que a ocultação ou
dissimulação dos valores percebidos estaria compreendida como
desdobramento causal natural do crime anterior.
Tal compreensão doutrinária, todavia, já foi expressamente
rechaçada por esta Suprema Corte, por mais de uma vez. Anoto, como
exemplo, trecho da ementa da lavra do Ministro Ricardo Lewandowski,
que resumiu a compreensão do Pleno por ocasião do julgamento do INQ
2.471:

“(...)
IV – Não sendo considerada a lavagem de capitais mero
exaurimento do crime de corrupção passiva, é possível que dois
dos acusados respondam por ambos os crimes, inclusive em
ações penais diversas, servindo, no presente caso, os indícios da
corrupção advindos da AP 477 como delito antecedente da
lavagem” (g.n.) (Tribunal Pleno, j. 29.9.2011).

Não se desconhece, por outro lado, a deliberação que restou


vencedora por ocasião dos Embargos Infringentes interpostos em face do
julgamento da AP 470, quando se assentou que a percepção de valor
indevido, por parte do próprio sujeito ativo do delito de corrupção
passiva ou por interposta pessoa, pode vir a não configurar, igualmente, o
delito de lavagem de capitais na modalidade “ocultar”.
Naquela ocasião, concluiu-se que a possibilidade da incriminação da
autolavagem “pressupõe a prática de atos de ocultação autônomos do produto
do crime antecedente (já consumado)” (AP 470 EI-sextos, Rel. Min. Luiz Fux,
Red. p/ Acórdão: Min. Roberto Barroso, Tribunal Pleno, DJe de 21.8.2014;
AP 470 EI-décimos sextos, Rel. Min. Luiz Fux, Rel. p/ Acórdão: Min.
Roberto Barroso, Tribunal Pleno, DJe de 21.8.2014).
Nesses julgados, o Ministro Luís Roberto Barroso, redator do
acórdão, ressalta que “o recebimento por modo clandestino e capaz de ocultar o
destinatário da propina, além de esperado, integra a própria materialidade da
corrupção passiva, não constituindo, portanto, ação distinta e autônoma da

115

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 197 de 486 3609


AP 996 / DF

lavagem de dinheiro”, cuja configuração demanda a identificação de “atos


posteriores, destinados a recolocar na economia formal a vantagem
indevidamente recebida”.
Tratou-se, naquele emblemático caso, de situação relativa a
parlamentar federal, denunciado por corrupção passiva, cuja vantagem
indevida foi recebida por intermédio de terceira pessoa. O Ministério
Público Federal denunciou-o pelos crimes de corrupção passiva e
lavagem de dinheiro, em concurso material, afirmando que o envio de
terceira pessoa à percepção da vantagem configurava expediente voltado
à ocultação da origem criminosa dos proveitos auferidos com o crime
antecedente. Tal imputação não prevaleceu, firmando-se o entendimento
de que a percepção de vantagem por interposta pessoa faz parte
integrante da descrição típica do art. 317 do Código Penal (corrupção
passiva), mormente quando o recebimento de vantagem indevida,
segundo redação típica, pode ser dar “direta ou indiretamente”, como se
confere do tipo penal:

“Art. 317 - Solicitar ou receber, para si ou para outrem,


direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de
assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar
promessa de tal vantagem:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa”.

Nessa linha, repiso, entendeu o Pleno do Supremo Tribunal Federal


que o recebimento de vantagem oriunda de corrupção, via interposta
pessoa, por fazer parte dos próprios elementos típicos do art. 317 do
Código Penal, pode, a par da própria corrupção passiva, não configurar o
delito de lavagem na modalidade “ocultar”. Asseverou-se, chamo a
atenção, que a existência de atos autônomos do recebimento
escamoteado da vantagem caracterizariam o crime de lavagem de
capitais.
E assim se tem mantido a jurisprudência desta Suprema Corte,
citando-se, de passagem, trecho de ementa da lavra da Ministra Rosa
Weber, por ocasião do julgamento do mérito da AP 694:

116

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 198 de 486 3610


AP 996 / DF

“(...)
5. Lavagem de capitais e crimes contra a administração
pública. Corrupção passiva e autolavagem: quando a ocultação
configura etapa consumativa do delito antecedente - caso da
corrupção passiva recebida por pessoa interposta - de
autolavagem se cogita apenas se comprovados atos
subsequentes, autônomos, tendentes a converter o produto do
crime em ativos lícitos, e capazes de ligar o agente lavador à
pretendida higienização do produto do crime antecedente. Sob
uma linguagem de ação típica, as subsequentes e autônomas
condutas devem possuir aptidão material para ‘Ocultar ou
dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação
ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou
indiretamente, de infração penal’ antecedente, ao feitio do artigo 1º
da Lei 9.613/98” (g.n.) (Primeira Turma, j. 2.5.2017).

Nesse norte, igualmente, os excertos doutrinários de Gustavo


Henrique Badaró e Pierpaolo Cruz Bottini:

“(...)
Assim, se a ocultação ou dissimulação típica da lavagem
de dinheiro se limitar ao recebimento ‘indireto’ dos valores, há
contingência entre os tipos penais, aplicando-se o instituto da
consunção. Isso não impede a verificação do concurso material
entre lavagem de dinheiro e corrupção passiva se constatado no
caso concreto outro ato de ocultação ou dissimulação para além
do recebimento indireto, como, por exemplo, o envio de
dinheiro para o exterior, para contas de terceiros, ou a
simulação de negócios posteriores com a finalidade de conferir
aparência lícita aos recursos recebidos. A menção ao
recebimento indireto no tipo penal de corrupção passiva não
implica salvo conduto para qualquer comportamento de
ocultação posterior” (Lavagem de dinheiro. 3ª ed. São Paulo:
RT, 2016, p. 128).

117

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 199 de 486 3611


AP 996 / DF

A partir desta introdução conceitual sobre o crime de lavagem de


capitais, de base doutrinária e jurisprudencial, passo a analisar de forma
individualizada as imputações contidas na exordial acusatória em
julgamento.

2.2.1. Participação de Nelson Meurer na lavagem de capitais


praticada por Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef no âmbito da
Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A.

De acordo com a denúncia, o acusado Nelson Meurer teria


concorrido para a lavagem de dinheiro levada a efeito por Paulo Roberto
Costa e Alberto Youssef, especificamente sobre todas as vantagens
indevidas angariadas no âmbito da Diretoria de Abastecimento da
Petrobras S/A.
Narra a Procuradoria-Geral da República que, para viabilizar o
pagamento da propina acordada com Paulo Roberto Costa, as empresas
cartelizadas celebravam contratos fictícios de prestação de serviços com
sociedades empresárias ligadas a Alberto Youssef, afirmando que “embora
não prestados, os serviços eram cobrados por meio de notas fiscais falsas, contra
as quais se davam os mencionados pagamentos” (fl. 910).
Esse procedimento deu origem à celebração de 180 (cento e oitenta)
contratos fictícios com as empresas MO Consultoria Comercial e Laudos
Estatísticos Ltda., Empreiteira Rigidez Ltda., RCI Software e Hardware
Ltda. e GFD Investimentos Ltda., cujos valores totalizam R$ 62.146.567,80
(sessenta e dois milhões, cento e quarenta e seis mil, quinhentos e
sessenta e sete reais e oitenta centavos), os quais abasteceram o caixa de
propinas destinado ao Partido Progressista (PP).
Em razão da falta de descrição da prática de atos materiais de
execução desse delito de lavagem de dinheiro por parte do aqui
denunciado Nelson Meurer, também nesse segmento da acusação a sua
responsabilização tem como fundamento a norma de extensão prevista
no art. 29 do Código Penal.
Todavia, como já me manifestei no tópico 2.1.1 deste voto, em

118

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 200 de 486 3612


AP 996 / DF

respeito ao postulado da responsabilização criminal subjetiva que vige no


ordenamento jurídico pátrio, corolário do Direito Penal do fato, a perfeita
subsunção da conduta atribuída a este acusado não se faz sem a análise
do aspecto volitivo na ação ou omissão que lhe é atribuída, extraível das
circunstâncias fáticas retratadas no conjunto probatório produzido no
seio da instrução criminal.
Em outras palavras, nos casos em que se atribui determinada prática
delitiva em concurso de pessoas, é imprescindível que se verifique a
existência do vínculo subjetivo na conduta dos agentes consorciados, bem
como a relevância causal da atuação de cada um deles na violação do
bem jurídico tutelado pela norma penal, sob pena de não incidência do
referido preceito extensivo, diante da impossibilidade de
responsabilização penal objetiva.
Na espécie, embora o denunciado Nelson Meurer tenha
efetivamente se beneficiado, de forma direta, da sustentação política
envidada em favor de Paulo Roberto Costa, como inclusive já afirmei
neste voto, constato que o conjunto probatório dos autos não se apresenta
suficiente a confirmar a sua adesão subjetiva à forma como era realizado
o branqueamento das vantagens indevidas pagas pelas empresas
cartelizadas no âmbito da Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A.
É que, a partir da estruturação do cartel de empresas e do ajuste do
percentual dos contratos que deveria ser direcionado ao Partido
Progressista (PP), o colaborador Alberto Youssef foi responsável por
viabilizar o recebimento desses recursos, como se deflui do seguinte
trecho do seu depoimento:

“(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
E qual foi o interesse do Deputado José Janene e do
Partido Progressista em indicar e conseguir a nomeação de
Paulo Roberto Costa para a Diretoria de Abastecimento da
Petrobras?
COLABORADOR - Na verdade, para obter recursos para a
campanha do Partido.

119

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 201 de 486 3613


AP 996 / DF

MINISTÉRIO PÚBLICO - E esses eram obtidos como?


COLABORADOR - Eram obtidos com os empresários que
prestavam serviço para a Petrobras.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Quem era que cobrava esses
valores dos empresários?
COLABORADOR - No primeiro momento, o Senhor José
e, depois, eu passei a cobrar.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
E como é que ocorria o repasse desses valores dos
empresários para o senhor, para o Janene e para o Partido?
COLABORADOR - Algumas empresas pagavam lá fora,
algumas empresas necessitavam de contratos e emissão de
notas para que a gente pudesse obter o recebimento, e algumas
empresas pagavam um valor aqui no Brasil em dinheiro vivo.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E o senhor operava alguma
empresa que viabilizava o repasse desses valores? Quais eram
essas empresas? Como é que isso ocorria?
COLABORADOR - Eu terceirizava a questão da emissão
de notas. Eu usava as empresas que o Waldomiro tinha, às
vezes, as empresas do Meirelles. Na verdade, eu não tinha
empresa para fazer esse tipo de coisa.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
Quais eram as empresas do Waldomiro?
COLABORADOR - A MO Consultoria, a Empreiteira
Rigidez, que eu me lembre são essas duas, nesse momento.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Tinha a RCI Software?
COLABORADOR - RCI Software também.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E essas empresas tinham
existência efetiva ou eram só empresas de fachada?
COLABORADOR - As empresas tinham local de escritório
e tudo, mas, na verdade, era só uma fachada, ela não tinha
funcionário, ela não prestava serviço.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E esses contratos, eles eram
providenciados por quem, era o senhor ou era o Waldomiro?
Como é que era?
COLABORADOR - Eu combinava tudo e, depois, indicava

120

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 202 de 486 3614


AP 996 / DF

que o Waldomiro procurasse a pessoa da empresa, e, aí, eles


tratavam dos assuntos de contrato e a parte de pagamento.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E quem emitia a nota fiscal?
COLABORADOR - O Waldomiro emitia. Na verdade, eu
pedia para o contador dele emitir, alguma coisa assim nesse
sentido.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Os contratos e as notas eram
fictícios?
COLABORADOR - Sim, senhor.
MINISTÉRIO PÚBLICO - O Waldomiro recebia alguma
remuneração por esse serviço aí de ceder as empresas dele, por
emitir essas notas?
COLABORADOR - Ele tinha remuneração, sim.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Certo.
Aí, como é que se operacionalizava a retirada desses
valores e o repasse para o destinatário?
COLABORADOR - Num primeiro momento, o
Waldomiro fazia a reserva no banco e retirava os valores e, ou
eu, ou o meu funcionário, encontrava com ele no banco e
retirava os valores sacados. Depois, começou a ficar muito
difícil a questão de saque na boca do caixa e, aí, o Waldomiro
me apresentou o Leonardo Meirelles, onde eu passei a enviar as
TED's para ele, e ele me dava os reais vivos no meu escritório”
(fls. 2.817-2.818).

Desse relato é possível concluir que a obtenção de recursos de


origem ilícita, por meio de contratos de prestação de serviços fictícios,
nítida manobra de lavagem de capitais, era operacionalizada
exclusivamente por Alberto Youssef, com o auxílio de Waldomiro de
Oliveira, o qual disponibilizou ao primeiro sociedades empresárias para a
operação, a partir das quais eram emitidas as notas fiscais que
emprestavam a aparência de licitude às despesas feitas pelas empresas
cartelizadas, cujos recursos destinavam-se ao caixa de propinas do
Partido Progressista (PP).
Transcrevo, no ponto, as declarações de Waldomiro de Oliveira:

121

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 203 de 486 3615


AP 996 / DF

“(...)
MINISTÉRIO PÚBLICO - Eu queria só, basicamente, que o
senhor relatasse a sua relação com o Alberto Youssef, como ela
começou, como ela se desenvolveu, e essa questão que o senhor
já mencionou, no depoimento prestado durante o inquérito, do
empréstimo das empresas MO, Rigidez e RCI, pra que ele
recebesse dinheiro de empreiteiras.
INFORMANTE - Então é simples. Eu conheci o Alberto
aqui na Paulista, através de um amigo, e isso já tá tudo nos
autos já, desde quando eu tive em Curitiba, lá com o Doutor
Sérgio Moro, mas vou falar de novo, como o senhor pediu.
Nessa ocasião, eu tinha um escritório aqui na Alameda Santos e
trabalhava normal, com as minhas coisas lá de assessor de
empresa, ou alguma coisinha, mais junta comercial, e a gente
acabou se conhecendo. E houve uma situação de que ele
pediu... A gente acabou se conhecendo e ele falou: ‘Escuta, eu
tenho alguns clientes que eu preciso receber comissões e eu não
tenho como dar, recebendo esse valor, eu não tenho como
comprovante de nota fiscal, isso que a empresa precisa’. ‘Muito
bem, o que você precisa? O que que são?’ ‘Comissões, e essas
empresas me devem, e eu tenho que receber. Certo?’ ‘Por mim,
tudo bem’. Então nasceu dessa forma, ou seja, eu emitia as
notas que ele pedia, pra quem ele queria e, depois, o resto era
problema dele. Foi dessa forma que eu conheci o Alberto
Youssef e onde veio o caso da empreiteira, da Rigidez, da MO;
os casos são todos iguais.
MINISTÉRIO PÚBLICO - A RCI também era sua?
INFORMANTE - Sim.
MINISTÉRIO PÚBLICO - A RCI Software. E essas
empresas tinham existência efetiva?
INFORMANTE - Não. Uma parte, a MO tinha até, depois
ela foi desvirtuada totalmente do caminho, do rumo dela, aí
ficou usando simplesmente pra emissão de notas pro Alberto.
MINISTÉRIO PÚBLICO - E como é que se dava a questão
dos contratos? Porque também a investigação chegou a

122

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 204 de 486 3616


AP 996 / DF

apreender vários contratos.


INFORMANTE - Sim, esses contratos eles eram emitidos
pelas empresas que o próprio Alberto mexia e dizia: ‘Olha, você
vai receber contrato de fulano de tal, fulano de tal, fulano de
tal’. ‘Ok’. O contrato já vinha pronto, eu só assinava e devolvia
o contrato.
MINISTÉRIO PÚBLICO - Chegava a ter alguma prestação
de serviço?
INFORMANTE - Não chegava, não tinha” (fl. 2.812-2.813).

À luz de tal contexto delineado pelos depoimentos colacionados, fica


evidenciada a existência de uma compartimentação de tarefas no acerto
feito para o pagamento de vantagens indevidas em decorrência dos
contratos celebrados no âmbito da Diretoria de Abastecimento da
Petrobras S/A. - tema que deverá ser objeto de análise e deliberação nos
autos do INQ 3.989, em que se investiga o núcleo político de organização
criminosa composto por membros do Partido Progressista (PP) -, não
sendo possível extrair do conjunto probatório qualquer ingerência do
acusado Nelson Meurer nesta etapa específica da viabilização dos
recursos à agremiação partidária.
Idêntica conclusão, aliás, fundamentou o juízo absolutório do
denunciado Nelson Meurer no que diz respeito aos antecedentes crimes
de corrupção praticados por Paulo Roberto Costa em detrimento da
Petrobras S/A. E aqui, mais uma vez, a ausência de comprovação do
vínculo subjetivo às práticas de lavagem de dinheiro por Alberto Youssef
igualmente impede a incidência do contido no art. 29 do Código Penal.

2.2.2. Lavagem do produto da corrupção passiva praticada por


Nelson Meurer, com auxílio de Nelson Meurer Júnior e Cristiano
Augusto Meurer, correspondente aos recebimentos ordinários de
vantagens indevidas.

Inicio, neste tópico, delimitando o campo de incidência hipotética da


imputação feita pela Procuradoria-Geral da República na incoativa, tendo

123

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 205 de 486 3617


AP 996 / DF

em vista que, por se tratar de crime acessório, a configuração do delito de


lavagem de capitais tem por objeto material bens, direitos ou valores
obtidos em prática delituosa anterior.
Conforme exaustivamente analisado no capítulo apropriado deste
voto, na espacialidade narrada pela acusação, o crime de corrupção
passiva praticado por Nelson Meurer, mediante o recebimento de
vantagens ordinárias do caixa de propinas do Partido Progressista (PP),
viabilizado no seio da Diretoria de Abastecimento da Petrobras S/A., foi
configurado em 30 (trinta) oportunidades, das quais em 5 (cinco)
concorreu o coacusado Nelson Meurer Júnior e em apenas 1 (uma)
Cristiano Augusto Meurer.
E ainda que seja desnecessária a cabal comprovação da prática do
crime antecedente à configuração do crime de lavagem de capitais (STF,
HC 94.958, 2ª Turma, Rel. Min. Joaquim Barbosa, j. 9.12.2008), nos termos
do art. 2º, II, § 1º, da Lei n. 9.613/1998, o conjunto cognitivo dos autos não
permite a escorreita identificação de todos os atos de branqueamento
atribuídos aos acusados, como se verá adiante.
Segundo a denúncia, os valores recebidos pelo acusado Nelson
Meurer, correspondentes aos pagamentos ordinários de vantagens
indevidas para a manutenção de Paulo Roberto Costa no cargo de Diretor
de Abastecimento da Petrobras S/A e, consequentemente, do esquema de
corrupção ali deflagrado, teriam sido objeto de lavagem mediante: (i)
recebimentos de dinheiro em espécie; (ii) recebimentos de valores por
intermédio do Posto da Torre, localizado nesta Capital Federal; (iii)
depósitos em dinheiro de forma pulverizada em contas-correntes de sua
titularidade e; (iv) registros, em declarações de ajuste anual de imposto
de renda, da manutenção de considerável quantia de dinheiro em espécie.
Na esteira de entendimento firmado pelo Plenário do Supremo
Tribunal Federal, afasto, de antemão, a pretendida tipicidade aos atos de
mero recebimento de valores em espécie pelos acusados.
Com efeito, como enfatizei ao tratar, de modo genérico, essa
específica imputação, por ocasião do julgamento de Embargos
Infringentes interpostos contra o acórdão proferido na AP 470, esta

124

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 206 de 486 3618


AP 996 / DF

Suprema Corte assentou que o recebimento, ainda que por interposta


pessoa, da vantagem indevida negociada no âmbito do delito de
corrupção passiva antecedente, pode não configurar o crime de lavagem
de ativos. Novamente trago à colação:

“(...)
Embargos infringentes na AP 470. Lavagem de dinheiro. 1.
Lavagem de valores oriundos de corrupção passiva praticada
pelo próprio agente: 1.1. O recebimento de propina constitui o
marco consumativo do delito de corrupção passiva, na forma
objetiva ‘receber’, sendo indiferente que seja praticada com
elemento de dissimulação. 1.2. A autolavagem pressupõe a
prática de atos de ocultação autônomos do produto do crime
antecedente (já consumado), não verificados na hipótese. 1.3.
Absolvição por atipicidade da conduta. 2. Lavagem de dinheiro
oriundo de crimes contra a Administração Pública e o Sistema
Financeiro Nacional. 2.1. A condenação pelo delito de lavagem
de dinheiro depende da comprovação de que o acusado tinha
ciência da origem ilícita dos valores. 2.2. Absolvição por falta de
provas 3. Perda do objeto quanto à impugnação da perda
automática do mandato parlamentar, tendo em vista a renúncia
do embargante. 4. Embargos parcialmente conhecidos e, nessa
extensão, acolhidos para absolver o embargante da imputação
de lavagem de dinheiro” (AP 470 EI-sextos, Rel.: Min. LUIZ
FUX, Rel. p/ Acórdão: Min. ROBERTO BARROSO, Tribunal
Pleno, j. 13.3.2014 - destaquei).

Desse modo, se mesmo por interposta pessoa o mero recebimento da


vantagem decorrente da mercancia da função pública não é conduta apta
a configurar o delito de lavagem de capitais, tal conclusão, por uma
questão lógica, merece incidir sobre a conduta do próprio agente público
que acolhe a remuneração indevida.
Portanto, nesse contexto, tenho por não configurados os crimes de
lavagem de dinheiro consubstanciados nos recebimentos diretos de
quantias em espécie atribuídos aos acusados.

125

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 207 de 486 3619


AP 996 / DF

Conclusão diversa, todavia, se extrai do conjunto probatório no


tocante às quantias recebidas pelo denunciado Nelson Meurer via Posto
da Torre, de propriedade de Carlos Habib Chater e utilizado por Alberto
Youssef para a realização de pagamentos nesta Capital Federal.
De fato, dentre as mais variadas modalidades de ocultação da
origem e da localização de vantagem pecuniária recebida pela prática de
delito anterior, o depósito fracionado da quantia em conta-corrente, em
valores que não atingem os limites estabelecidos pelas autoridades
monetárias à comunicação compulsória dessas operações, é meio idôneo
para a consumação do crime em análise.
Nesse sentido, mais uma vez colho os ensinamentos de Gustavo
Henrique Badaró e Pierpaolo Cruz Bottini:

“(...)
São exemplos da ocultação, a fragmentação dos valores
obtidos para movimentação de pequenas quantias incapazes de
chamar a atenção das autoridades públicas, ou que não exijem a
comunicação necessária de parte dos particulares colaboradores
(smurfing), o depósito do capital em contas de terceiros, sua
conversão em moeda estrangeiras, em outros ativos, e a compra
de imóveis em nome de laranjas” (Lavagem de dinheiro. Aspectos
penais e processuais penais. 2ª ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2013. p. 66 - destaques no original).

Na espécie, está demonstrado, pelo laudo pericial acostado às fls.


745-750, que, logo após receber os recursos provenientes do Posto da
Torre, momento consumativo do crime de corrupção passiva, o
denunciado Nelson Meurer pratica, de modo autônomo e com finalidade
distinta, novos atos aptos a violar o bem jurídico tutelado pelo art. 1º da
Lei n. 9.613/1998, consistentes na realização, somente no dia 5.1.2009, de
24 (vinte e quatro) depósitos na conta n. 2787210, da agência 4884 do
Banco do Brasil, de sua titularidade, perfazendo a exata quantia de R$
42.000,00 (quarenta e dois mil reais), a mesma que consta ter sido
disponibilizada pelo referido estabelecimento comercial no dia

126

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 208 de 486 3620


AP 996 / DF

imediatamente anterior, 4.1.2009.


Idêntica constatação também é alcançada em relação aos 8 (oito)
depósitos realizados na mesma conta no dia 29.1.2009, os quais somam
R$ 10.000,00 (dez mil reais), equivalentes à anotação constante do sistema
de contabilidade do Posto da Torre como quantia disponibilizada a
Nelson Meurer no dia 27.1.2009.
Essas circunstâncias revelam, de forma nítida, a ação dolosa do
acusado Nelson Meurer voltada a ocultar das autoridades fiscalizadoras a
origem espúria das quantias obtidas junto ao Posto da Torre, tratando-se
de atos que se amoldam à figura típica prevista no art. 1º, caput, da Lei n.
9.613/1998.
Destaco, no ponto, que as alterações operadas pela Lei n. 12.683/2012
não influenciam na resolução do caso em exame, pois o produto do delito
de corrupção passiva já se amoldava, antes da abertura do rol taxativo
previsto no art. 1º da Lei n. 9.613/1998, ao objeto material do crime de
lavagem de capitais, consoante se infere da redação do revogado inciso V
(contra a Administração Pública).
No que tange às imputações de lavagem de capitais
consubstanciadas nos demais depósitos fracionados realizados em contas
bancárias titularizadas pelo denunciado Nelson Meurer, embora as
operações listadas às fls. 916-928 sejam indicativas da prática delitiva,
porquanto novamente demonstram modus operandi apto a ocultar a
disponibilidade das quantias depositadas, o conjunto probatório, a meu
sentir, não permite a afirmação peremptória de que tais valores, à exceção
dos já destacados, sejam provenientes da prática delituosa anterior.
Com efeito, diversamente do que se verifica em relação aos
pagamentos efetuados via Posto da Torre, cujos atos de ocultação foram
prontamente atestados nos depósitos subsequentes que perfizeram a
exata quantia descrita no sistema de contabilidade apreendido, os demais
fracionamentos não encontram correspondência com eventuais
pagamentos de vantagens indevidas identificadas, motivo pelo qual não é
possível firmar, com a segurança necessária exigida na seara penal, um
juízo condenatório isento de dúvida.

127

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 209 de 486 3621


AP 996 / DF

Derradeiramente, impende a análise da alegada ocorrência do crime


de lavagem de dinheiro mediante a declaração, em ajustes anuais de
imposto de renda de pessoa física, de disponibilidade monetária
incompatível com os rendimentos regularmente percebidos pelo
denunciado Nelson Meurer.
Sobre o tema, colho lições de Leandro Paulsen:

“(...)
O fato de uma pessoa ter adquirido bens ou realizado
depósito em suas contas e as declarado à Receita Federal pode
ser um indicativo de que se trata de ativos lícitos, mas não é
suficiente para que se conclua nesse sentido. Por vezes,
inclusive, revelará a própria evolução patrimonial a descoberto,
ou seja, a aquisição de bens sem renda lícita correspondente.
Noutras vezes, poderá consistir na tentativa de dar a aparência
de ter sido adquirido com os rendimentos lícitos também
declarados, quando, em verdade, possa ter sido adquirido com
outros recursos, provenientes de crimes antecedentes,
configurando a lavagem” (Crimes federais. São Paulo: Saraiva,
2017. p. 276)

No caso em tela, as informações extraídas das declarações de


imposto de renda fornecidas tanto pelo acusado Nelson Meurer como
pela Receita Federal do Brasil, quando comparadas com os dados obtidos
mediante a quebra do seu sigilo bancário, revelam movimentações
financeiras muito superiores aos rendimentos líquidos declarados nos
anos de 2010 a 2014, conforme conclusão exarada no Relatório de Análise
n. 75/2015, elaborado pela Secretaria de Pesquisa e Análise da
Procuradoria-Geral da República (fls. 518-534, do apenso 3).
Registro, aqui, o fato do aludido acusado, nos mesmos anos
destacados, ter declarado ser possuidor de expressivas quantias de
dinheiro em espécie, as quais também não guardam qualquer
compatibilidade com os rendimentos ordinários percebidos.
De fato, nas declarações de ajuste anual apresentadas nos anos de
2010 a 2014, o denunciado Nelson Meurer informou à Secretaria da

128

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 210 de 486 3622


AP 996 / DF

Receita Federal do Brasil manter em sua guarda R$ 108.160,00 (cento e


oito mil, cento e sessenta reais), R$ 122.408,00 (cento e vinte e dois mil,
quatrocentos e oito reais), R$ 1.365.410,00 (um milhão, trezentos e
sessenta e cinco mil, quatrocentos e dez reais), R$ 763.360,00 (setecentos e
sessenta e três mil, trezentos e sessenta reais) e R$ 804.550,00 (oitocentos e
quatro mil, quinhentos e cinquenta reais), respectivamente.
No entanto, nos anos correspondentes, as declarações de ajuste
anual de imposto de renda demonstram ter auferido rendimentos
líquidos nos valores de R$ 218.413,51 (duzentos e dezoito mil,
quatrocentos e treze reais e cinquenta e um centavos), R$ 303.039,51
(trezentos e três mil, trinta e nove reais e cinquenta e um centavos), R$
307.381,94 (trezentos e sete mil, trezentos e oitenta e um reais e noventa e
quatro centavos), R$ 279.400,23 (duzentos e setenta e nove mil e
quatrocentos reais e vinte e três centavos) e R$ 264.020,44 (duzentos e
sessenta e quatro mil e vinte reais e quarenta e quatro centavos).
Não bastasse esse flagrante e notável descompasso entre os
rendimentos auferidos pelas fontes declaradas e a manutenção de
quantias que em muito os superam, o mesmo Relatório de Análise n.
75/2015 revela que nos respectivos anos foram creditadas em contas-
correntes titularizadas por Nelson Meurer as cifras de R$ 879.162,55
(oitocentos e setenta e nove mil, cento e sessenta e dois reais e cinquenta e
cinco centavos) no ano de 2010; R$ 954.828,75 (novecentos e cinquenta e
quatro mil, oitocentos e vinte e oito reais e setenta e cinco centavos) no
ano de 2011; R$ 861.172,23 (oitocentos e sessenta e um mil, cento e setenta
e dois reais e vinte e três centavos) no ano de 2012; R$ 762.742,57
(setecentos e sessenta e cinco mil, setecentos e quarenta e dois reais e
cinquenta e sete centavos) no ano de 2013 e; R$ 351.135,24 (trezentos e
cinquenta e um mil, cento e trinta e cinco reais e vinte e quatro centavos),
no ano de 2014, sendo certo que, em relação a este último ano a
informação se refere apenas ao primeiro semestre (fl. 521, apenso 3).
O parlamentar denunciado, em seu favor, assenta basicamente que
por sua conta também transitavam verbas indenizatórias decorrentes do
exercício da atividade parlamentar, esclarecendo que o acréscimo

129

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 211 de 486 3623


AP 996 / DF

patrimonial declarado teria como uma das causas a doação de um imóvel


ao IBAMA no ano de 1985, revertida no ano de 2012, o qual teve
significativa valorização no referido lapso temporal. Quanto às quantias
mantidas em espécie, seriam decorrentes de uma operação contábil
relacionada ao fechamento de um supermercado do qual foi sócio na
década de 1980.
Vale transcrever os esclarecimentos prestados pelo próprio acusado
em seu interrogatório:

“(...)
JUIZ - Bom, nas folhas 913 da denúncia, o Ministério
Público, ele alega a existência de um descompasso entre os
rendimentos líquidos que o senhor declarou nos anos de 2010,
2011, 2012, 2013 e 2014. Se o senhor puder dá uma olhadinha, o
senhor está com a denúncia nas mãos. Da denúncia, é a folha
47. Mas, dos autos, se o senhor estiver com uma cópia extraída
dos autos, é a folha 913.
RÉU - É esta aqui, né?
JUIZ - É essa página mesmo. Então, aqui, o Ministério
Público alega que o senhor teria tido no, ano de 2010, um
rendimento líquido de aproximadamente 218 mil reais - eu
estou aproximando aqui os números -; em 2011, 303 mil reais;
em 2012, 307 mil reais; em 2013, 279 mil reais; e 2014, 264 mil
reais. Em comparação com créditos em contas-correntes do
senhor: de 2010, 879 mil; 2011, 954 mil; 2013, 765 mil; e 2014, 351
mil. Segundo o Ministério Público aponta e alega na denúncia
contra o senhor, haveria uma incompatibilidade entre os
rendimentos líquidos declarados pelo senhor e os valores que
ingressaram a título de créditos em suas contas-correntes. Há
mesmo essa incompatibilidade? O senhor reconhece esses
valores como sendo os valores que ingressaram em sua conta-
corrente?
RÉU - Não, não, não. Primeiro, doutor, que não é verdade.
JUIZ - O que que não é verdade? Que parte?
RÉU - O Ministério Público não foi correto nessas
informações, porque ele deixou de incluir, aqui, o recurso que

130

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 212 de 486 3624


AP 996 / DF

eu recebo do Nuvep, que é a verba indenizatória, certo?


JUIZ - Certo.
RÉU - Somando a verba indenizatória, por essa razão, por
essa razão, porque todos os recursos que entraram na minha
conta foram recursos lícitos. Lícitos, tranquilo. Porque existem
empréstimos no banco, que eu fiz para pagar em (ininteligível)
dias no banco; existe a verba indenizatória todo mês. É por
essas razões que foi pedido a... Como é que se diz? A perícia,
para mostrar que o Ministério Público está completamente
equivocado com essas informações, porque não existiu. Porque,
quando eu fiz o meu depoimento para a Polícia Federal no
coisa, eu, imediatamente, voluntariamente, apresentei todas as
minhas declaração de bens, todas as minhas declaração de bens
e todas as minhas contas-correntes das três contas que eu tinha,
que era a 278, a 268 e a conta da Caixa Econômica, que é a
minha mulher que administra, que entra ali a minha
aposentadoria de R$2.600,00 por mês.
JUIZ - Tá. Então, vamos resumir assim. Deixa eu ver se eu
entendi. O senhor não nega esses valores?
RÉU - Não, não. Eu não posso afirmar esses valores, por
essa razão que foi pedida a perícia.
JUIZ - Entendi. Mas, assim, a pergunta que eu faço...
RÉU - Mas não é verdade essa diferença. Essas diferenças
que aconteceram não é verdade, porque não tem nada ilícito aí
nessa história.
JUIZ - Entendi. Mas, então, assim: vamos supor aqui.
Vamos pegar um ano, 2010. Neste ano, o que ingressou na conta
do senhor foi o seu salário de deputado...
RÉU - A verba do Nuvep.
JUIZ - A verba indenizatória, né?
RÉU - A verba indenizatória.
JUIZ - E a sua aposentadoria?
RÉU - E a minha aposentadoria.
JUIZ - Nada além disso?
RÉU - Não, e também os empréstimos que eu fiz no banco.
JUIZ - Empréstimos que o senhor fez no próprio banco?

131

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 213 de 486 3625


AP 996 / DF

RÉU - No Banco do Brasil.


JUIZ - No próprio Banco do Brasil. Tá.
RÉU - E também porque eu sempre tinha, nas minhas
declaração de bens, eu sempre tinha algum recursos, de um ano
para outro, recurso em espécie e (ininteligível).
JUIZ - Tá. Os empréstimos que o senhor fez no banco o
senhor declarou na sua declaração de imposto de renda?
RÉU - Não. Não, tá declarado no imposto de renda, lógico,
o empréstimo que eu devia no Banco do Brasil, tá declarado.
JUIZ - Tá declarado?
RÉU - Tá declarado. A não ser aqueles empréstimos que
você faz para pagar, que você faz durante o ano e quita no
mesmo ano.
JUIZ - Certo.
RÉU - Tu entendeu? Aí ele não vai aparecer no imposto de
renda.
JUIZ - Não precisa, não precisa.
RÉU - Exato.
JUIZ - Pela lei do imposto de renda, não há necessidade.
Tá. Então, assim, todos esses valores que ingressaram nas
contas do senhor são oriundos do subsídio, né - falando
tecnicamente -, de deputado?
RÉU - Exato. O que que entrou na minha conta? O meu
salário, a minha aposentadoria, a verba do Nuvep, que, durante
todos esses anos aqui foi mais de um milhão e meio
JUIZ - Quanto que é? Quanto que é por mês hoje? Quanto
que está por mês hoje a verba do Nuvep?
RÉU - A verba do Nuvep está em... Eu não lembro aqui, no
momento, porque é a minha assessora que vê, mas em torno de
42 mil, por mês.
JUIZ - Hoje?
RÉU - É.
JUIZ - Então todo deputado, hoje, tem à disposição...
RÉU - É, mais ou menos. Eu não posso afirmar o valor
correto, mas...
JUIZ - Sim, aproximadamente 42 mil.

132

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 214 de 486 3626


AP 996 / DF

RÉU - Mas, aproximadamente, isso aí.


JUIZ - Quando foi que teve o último reajuste? O senhor
recorda esse valor?
RÉU - Ah, faz tempo.
JUIZ - Ok.
RÉU - Faz mais de (ininteligível)
JUIZ - A denúncia aponta - não é? - que o senhor teria um
valor em espécie.
RÉU - Isso.
JUIZ - Segundo o juízo de valor expresso na denúncia pelo
Ministério Público, esse valor era incompatível, pelo menos com
aquilo que usualmente ocorre.
RÉU - Por exemplo?
JUIZ - Diz assim, ó: no ano de 2012, as disponibilidades
em dinheiro em espécie do deputado federal Nelson Meurer
tiveram um acréscimo de R$ 1.243.002,00.
RÉU - E estava na minha declaração de bens, né?
JUIZ - Exatamente. Estava na sua declaração de bens.
RÉU - Se estava na minha declaração de bens, e foi
analisado pela Receita Federal, e foi aprovada a minha conta na
declaração de bens, é porque não acharam nenhuma
irregularidade.
JUIZ - Perfeito. O Ministério Público aponta isso como
um...
RÉU - Mas o Ministério Público, só que o Ministério
Público não é a Receita Federal.
JUIZ - Eu sei, deputado, mas é que nós estamos aqui, hoje,
justamente, num ato de defesa pessoal do senhor, justamente
para ajudar o Ministro e, enfim, os demais Ministros da Turma.
RÉU - Não, eu concordo. Tá certo. Eu entendo. O senhor
tem toda razão.
JUIZ - Justamente para decidir se o que o Ministério
Público está falando é verdade ou não.
RÉU - É que nessa...
JUIZ - Então, assim, é uma... Veja, o senhor não tem
obrigação de responder nada, como eu disse.

133

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 215 de 486 3627


AP 996 / DF

RÉU - Não, mas eu faço questão de responder tudo


(ininteligível), porque não tem nada errado e nada ilegal nas
minhas ações.
JUIZ - Está ok. O senhor tinha, em espécie, esse dinheiro
em casa? Onde é que o senhor deixava esse dinheiro? É verdade
isso, o senhor tinha um milhão e duzentos mil reais em casa,
aproximadamente?
RÉU - Nota bem o seguinte, algumas coisas, por exemplo,
que ano foi esse?
JUIZ - Segundo a denúncia, no ano de 2012, o senhor
encerrou...
RÉU - 2012. O senhor foi notar de 2012, aí, desse valor
aqui, é só verificar a minha declaração de bens, e o Ministério
Público verificar, porque eu tinha uma cota da... eu tinha uma
cota do Supermercado Marrecão, que era de novecentos e
poucos mil reais. E fazia muito tempo que o Marrecão estava
fechado, estavam suspensas as atividades dele com a Receita
Federal, e já não tinha mais, e estava ali simplesmente, como é
que se diz, escriturado. E o meu contador, naquele ano, deu
baixa do Supermercado Marrecão. No dar baixa no
Supermercado Marrecão, ele, lógico, transferiu para recurso em
espécie o valor daquela cota, que eu tinha pago Imposto de
Renda, que eu tinha pago tudo (ininteligível). Então, quer dizer,
que eu tinha aquele dinheiro. Não sei se o senhor entendeu.
JUIZ - Estou tentando entender.
RÉU - (ininteligível)
JUIZ - O senhor está querendo me dizer que o senhor
declarou no Imposto de Renda...
RÉU - É só ver no Imposto de Renda.
JUIZ - Sim.
RÉU - O Imposto de Renda meu deve ter, vinha...
JUIZ - O senhor declarou que tinha um milhão e duzentos
mil em espécie, mas, na verdade, o senhor não tinha?
RÉU - Não tinha.
JUIZ - Então, foi uma declaração falsa?
RÉU - Não, não é declaração falsa porque foi a baixa,

134

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 216 de 486 3628


AP 996 / DF

naquela época, foi a baixa que o contador deu do Supermercado


Marrecão, que eu tinha uma cota de novecentos e poucos mil.
JUIZ - O senhor era sócio do Supermercado Marrecão?
RÉU - Era sócio majoritário.
JUIZ - O senhor era sócio majoritário?
RÉU - E ele foi fechado em 87, 88, e o contador não deu
baixa, ficou naquilo por causa que... Se tem um certo tempo...
JUIZ - Então ele colocou na sua declaração de Imposto de
Renda...
RÉU - Exato.
JUIZ - ...um valor em espécie que, na verdade, não existia?
RÉU - Deu aquilo e deu... e ficou aquilo lá, mas, na
realidade... Não era falso porque era um recurso que eu paguei
Imposto de Renda sobre aquilo.
JUIZ - Mas o recurso, de fato, não existia?
RÉU - Não existia. E só esse fato que deu no coisa.
JUIZ - Então, o senhor, na verdade... O senhor tinha
quanto em dinheiro, em espécie?
RÉU - Eu não lembro.
JUIZ - Mas chegava a ter muito dinheiro em espécie em
casa, ou não?
RÉU - Duzentos mil, duzentos e cinquenta mil.
JUIZ - Então, na verdade, era duzentos, duzentos e
cinquenta?
RÉU - É, trezentos mil, dependendo do coisa que tinha.
Não era só da minha conta, às vezes eu tinha emprestado para
um amigo meu, ficava aquele dinheiro, mas não tem.
JUIZ - O senhor, quando emprestava, o senhor não
colocava no Imposto de Renda que emprestou?
RÉU - Não, não colocava” (fls. 2.857-2.862).

Nada obstante a argumentação defensiva no sentido de dar base


fática às declarações prestadas à Receita Federal do Brasil, o conjunto
probatório evidencia que tais operações eram destinadas a criar, de forma
artificiosa, a existência de um patrimônio aparentemente lícito, mas
composto por vantagens auferidas de atividades delituosas.

135

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 217 de 486 3629


AP 996 / DF

Convém assinalar, desde já, que os extratos bancários obtidos por


meio da respectiva quebra de sigilo identificam os valores recebidos dos
cofres do Tesouro Nacional, conforme se infere dos documentos
constantes dos arquivos contidos em mídia encartada à fl. 3 do apenso 1.
Por essa simples razão, não foi necessária a produção de prova pericial
para a aferição da quantia percebida a título de verba indenizatória.
No que diz respeito à reversão da doação de imóvel rural realizada
na década de 1980, não há nos autos qualquer comprovação de sua
alienação, sendo inviável a sua invocação para justificar a descompassada
movimentação financeira em contas-correntes titularizadas pelo
denunciado Nelson Meurer.
Tampouco a liquidação do estabelecimento comercial denominado
Supermercado Marrecão Ltda. serve como justificativa idônea para
sustentar, por exemplo, a declaração de ter em sua guarda a expressiva
quantia de R$ 1.365.410,00 (um milhão, trezentos e sessenta e cinco mil,
quatrocentos e dez reais).
Com efeito, mesmo que se admita tratar-se de uma manobra
contábil, o denunciado Nelson Meurer, nas declarações de imposto de
renda prestadas nos anos de 2011 e 2012 (fl. 566, apenso 2, CD 1),
informou ser proprietário de 103.500 (centro e três mil e quinhentas) cotas
da referida sociedade empresária, ao passo que, no ano seguinte, quando
declarada a sua liquidação, declinou possuir 848.568 (oitocentas e
quarenta e oito mil, quinhentas e sessenta e oito) cotas, atribuindo a cada
uma o valor de R$ 1,00 (um real).
Embora o valor atribuído à totalidade das cotas não tenha se
alterado durante os anos, é certo que o próprio denunciado confessa que
tal sociedade empresária já não se encontrava mais em atividade,
circunstância que revela que a sua liquidação foi utilizada para conferir
ares de licitude a recursos obtidos de forma espúria.
Soma-se a tal constatação o fato de que, nas declarações de imposto
de renda posteriores, o denunciado continuou informando a manutenção
em espécie de quantias muito superiores àquelas que ele mesmo, em seu
interrogatório, declarou como habitualmente guardadas em seu poder,

136

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 218 de 486 3630


AP 996 / DF

algo em torno de R$ 300.000,00 (trezentos mil reais).


Destaco, por fim, que se mostra irrelevante a inexistência de
qualquer procedimento administrativo tributário deflagrado para
perquirir a veracidade das declarações prestadas pelo denunciado à
Secretaria da Receita Federal do Brasil para as conclusões ora exaradas,
em razão da independência da atuação do Estado na ambiência de cada
um dos Poderes da República.
Com essas considerações, tenho por demonstrada a
incompatibilidade entre os rendimentos auferidos pelo denunciado
Nelson Meurer, as quantias movimentadas em suas contas-correntes e os
valores em espécie declarados à Receita Federal, o que caracteriza a
formação dolosa de patrimônio lícito inexistente nos anos de 2010 a 2014,
conduta que perfeitamente amolda-se ao delito previsto no art. 1º, caput,
da Lei n. 9.613/1998.

2.2.3. Lavagem do produto da corrupção passiva praticada por


Nelson Meurer, com auxílio de Nelson Meurer Júnior, correspondente
aos recebimentos extraordinários de vantagens indevidas.

Neste particular, a Procuradoria-Geral da República imputa aos


acusados Nelson Meurer e Nelson Meurer Júnior a prática do crime de
lavagem de capitais em decorrência do recebimento de dinheiro em
espécie, bem como na obtenção de vantagem indevida por intermédio de
doação eleitoral oficial.
No tocante à primeira modalidade, atribuída a ambos os
denunciados acusados, para evitar indesejável tautologia, reporto-me aos
argumentos declinados no item anterior para absolver Nelson Meurer e
Nelson Meurer Júnior acerca da imputação relacionada ao recebimento
de dinheiro em espécie, em função da já definida atipicidade da conduta.
Quanto à possibilidade da doação eleitoral oficial, quando
comprovadamente destituída da gratuidade que a qualifica, configurar
não só o delito de corrupção passiva, mas também o de lavagem de
capitais, anoto que o tipo em análise, como visto, materializa a relevância
penal da ação de “ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização,

137

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 219 de 486 3631


AP 996 / DF

disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores


provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal”.
Cuida-se de delito por meio do qual o agente, em razão da vantagem
indevida obtida como produto de prática ilícita anterior, busca dar-lhe
ares de licitude para viabilizar a sua fruição a par de qualquer embaraço
legal.
Com tal desiderato, é plenamente viável que o agente corrompido
negocie com o seu corruptor que o adimplemento da vantagem indevida
se dê mediante a prática de ato aparentemente lícito, como é o caso de
uma doação eleitoral oficial, hipótese na qual, de forma induvidosa,
estaria configurado o crime de lavagem de capitais, diante da flagrante
inexistência da predisposição do particular em efetuar a liberalidade.
Em situações como estas, mostra-se inegável que o agente
corrompido terá a livre disponibilidade da vantagem indevida negociada,
proporcionada pela chancela da Justiça Eleitoral, caso atendidos os
requisitos e limites legais aplicáveis, para aplicação em gastos de sua
campanha, tornando desnecessário recorrer ao autofinanciamento ou à
obtenção de outros recursos.
Embora não desconheça a divergência existente sobre o tema,
relembro que esta Segunda Turma, em julgado recente, recebeu denúncia
que imputava a parlamentar a prática dos crimes de corrupção passiva e
lavagem de dinheiro em virtude do recebimento de vantagens indevidas
dissimuladas, sob a forma de doações eleitorais declaradas ao Tribunal
Superior Eleitoral (INQ 3.982, de minha relatoria, julgamento em
7.3.2017). Na ocasião, o Ministro Celso de Mello assentou, em seu voto:

“(...)
Peço vênia, bem por isso, para discordar do eminente
Ministro DIAS TOFFOLI quanto ao entendimento de Sua
Excelência, conforme expressamente ressaltado em seu douto
voto, de que inocorreu, no caso, a situação configuradora do
crime de lavagem de dinheiro ou de valores.
É que tenho por inconsistente o argumento de que a
configuração típica do crime de lavagem de dinheiro ou de

138

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 220 de 486 3632


AP 996 / DF

valores exigiria, para concretizar-se, conforme sustentado pelo


Ministro DIAS TOFFOLI, o integral exaurimento de cada um
dos estágios que caracterizam, ordinariamente, o modelo
trifásico.
É sempre importante assinalar, quanto a esse aspecto, o
caráter autônomo das diversas fases que compõem o ciclo
tradicional do processo de lavagem de valores ou capitais,
ainda que possa haver, em alguns momentos ou em
determinados contextos, um nexo de interdependência entre as
diversas operações.
Isso significa que o crime de lavagem pode consumar-se já
em seu primeiro estágio, revelando-se ‘desnecessário atingir o
auge da aparente licitude de bens ou valores (...)’ (MARCO
ANTONIO DE BARROS, ‘Lavagem de Capitais e Obrigações
Civis Correlatas’, p. 49, item n. 1.7.1, 2ª ed., 2008, RT).
Esta Suprema Corte, por sua vez, já se pronunciou no
sentido da superação do modelo trifásico (colocação +
dissimulação/ocultação + integração), como resulta claro do
julgamento proferido no RHC 80.816/SP, Rel. Min. SEPÚLVEDA
PERTENCE.
Essa percepção do tema dá razão ao eminente
Desembargador paulista WÁLTER FANGANIELLO
MAIEROVITCH, estudioso da matéria ora em exame, no ponto
em que observa, atento aos altos objetivos visados pela
comunidade internacional, notadamente a partir da Convenção
de Viena (1988), da Convenção de Palermo (2000) e da
Convenção de Mérida (2003), que delitos como a corrupção
governamental e o tráfico de entorpecentes guardam
indiscutível proximidade, em sua condição de infrações penais
antecedentes (pressuposto hoje abolido pela Lei nº 12.683, de
09/07/2012), com o primeiro estágio (‘placement’) do modelo
trifásico referente ao processo de lavagem.
Vê-se, portanto, que se mostra desnecessário o
esgotamento dos 03 (três) estágios que compõem,
ordinariamente, o ciclo peculiar às operações de lavagem de
dinheiro ou de valores (CARLA VERÍSSIMO DE CARLI,

139

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 221 de 486 3633


AP 996 / DF

‘Lavagem de Dinheiro - Ideologia da Criminalização e Análise


do Discurso’, p. 117/119, item n. 2.3.2, 2008, Verbo Jurídico, v.g.).
Revelar-se-á essencial, no entanto, verificar se se registrou,
ou não, a ocultação ou a dissimulação prevista no tipo penal,
sem prejuízo do exame, em outro momento, da questão
pertinente à denominada ‘willful blindness’ (‘cegueira
deliberada’), que introduz a análise relativa ao dolo eventual
(tipicidade subjetiva) nos delitos previstos na Lei nº 9.613/98,
matéria em torno da qual se instaurou grande debate
doutrinário, com posições teóricas claramente antagônicas
(MARCO ANTONIO DE BARROS, ‘Lavagem de Capitais e
Obrigações Civis Correlatas’, p. 58/60, item n. 1.12, 2ª ed., 2007,
RT; ANTÔNIO SÉRGIO A. DE MORAES PITOMBO, ‘Lavagem
de Dinheiro: A Tipicidade do Crime Antecedente’, p. 133/144,
item n. 6.1, 2003, RT; LUIZ REGIS PRADO, ‘Direito Penal
Econômico’, p. 359/360, 3ª ed., 2009, RT; RODOLFO TIGRE
MAIA, ‘Lavagem de Dinheiro: Anotações às Disposições
Criminais da Lei n. 9.613/98’, p. 87/88, item n. 64, 2ª ed., 2007,
Malheiros; SERGIO FERNANDO MORO, ‘Crime de Lavagem
de Dinheiro’, p. 61/70, item n. 3.3, 2010, Saraiva, v.g.)’.
De qualquer maneira, a questão básica consiste em
identificar, na conduta imputada aos agentes, a sua plena
adequação ao modelo típico, abstratamente definido na lei,
concernente ao próprio núcleo do tipo penal, pois - é
desnecessário dizê-lo -, sem que se evidenciem os atos de
ocultação e/ou de dissimulação, não haverá como reconhecer
configurado o delito de lavagem de valores ou de capitais.
Isso, porém, deverá constituir matéria suscetível de
indagação em momento procedimentalmente oportuno, a ter
lugar na fase instrutória ou probatória do processo penal de
conhecimento.
Assentadas tais premissas, tenho para mim, por relevante,
que a prestação de contas à Justiça Eleitoral pode constituir
meio instrumental viabilizador do crime de lavagem de
dinheiro se os recursos financeiros doados oficialmente a
determinado candidato ou a certo partido político tiverem

140

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 222 de 486 3634


AP 996 / DF

origem criminosa, resultante da prática de outro ilícito penal, a


denominada infração penal antecedente, como os crimes contra
a Administração Pública, pois, configurado esse contexto, que
traduz engenhosa estratégia de lavagem de dinheiro, a
prestação de contas atuará como típico expediente de ocultação
ou de dissimulação da natureza delituosa das quantias doadas
em caráter oficial oriundas da prática do crime de corrupção, p.
ex..
Esse comportamento, mais do que ousado, constitui gesto
de indizível atrevimento e de gravíssima ofensa à legislação
penal da República, na medida em que os agentes da conduta
criminosa, valendo-se do próprio aparelho de Estado,
objetivam, por intermédio da Justiça Eleitoral e mediante
defraudação do procedimento de prestação de contas, conferir
aparência de legitimidade a doações compostas de recursos
financeiros manchados, em sua origem, pela nota da
delituosidade”(g.n.).

No mesmo sentido, trago posicionamento da egrégia Primeira


Turma do Supremo Tribunal Federal:

(…)
Direito Penal e Processual Penal. Senador da República.
Denúncia. Corrupção Passiva. Lavagem de Dinheiro.
Desmembramento. Recebimento da Denúncia. (...) III. Indícios
de Materialidade e Autoria (...) III.2. Quanto ao Crime de
Lavagem de Dinheiro 12. Consta dos autos indícios de lavagem
de dinheiro por meio de (i) depósitos fracionados nas contas do
Parlamentar, comprovados documentalmente; e (ii)
recebimento de vantagem indevida na forma de doações
eleitorais. Quanto a este último, de se ressaltar que configura
a um só tempo indício do crime de corrupção passiva e de
lavagem de dinheiro, na medida em que esses valores são
apresentados na Prestação de Contas Eleitoral como de origem
lícita, a indicar possível estratégia para conferir aparência de
licitude ao dinheiro proveniente de infração penal. IV.

141

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 223 de 486 3635


AP 996 / DF

Conclusão 13. O recebimento da denúncia, como se sabe, não


importa prejulgamento nem muito menos faz concluir pela
culpabilidade do denunciado. Significa, tão somente, a
plausabilidade da narrativa apresentada pelo Ministério
Público e a necessidade de aprofundamento das investigações.
14. Desmembramento para figurar no polo passivo apenas o
Senador. Denúncia recebida quanto aos crimes de corrupção
passiva e de lavagem de dinheiro” (INQ 4.141, Rel.: Min.
ROBERTO BARROSO, Primeira Turma, j. Em 12.12.2017)

Na situação específica, tendo o denunciado Nelson Meurer


comprovadamente recebido vantagem indevida para a prática de ato de
ofício sob a roupagem de doação eleitoral, conforme atestam as
declarações do colaborador Alberto Youssef, corroboradas pelos recibos
eleitorais e pelos e-mails que elucidam a origem espúria de tal
liberalidade, inviável não se concluir pela perfeita subsunção da conduta
que lhe foi atribuída na denúncia ao delito previsto no art. 1º, caput, da
Lei n. 9.613/1998.
Com essas afirmações, concluo, portanto, que o conjunto probatório
atesta a prática de 8 (oito) crimes de lavagem de capitais pelo denunciado
Nelson Meurer, consubstanciados em depósitos fracionados de valores
obtidos junto ao Posto da Torre em 2 (duas) oportunidades; 5 (cinco)
declarações falsas de manutenção de dinheiro em espécie prestadas à
Secretaria da Receita Federal do Brasil e; 1 (uma) doação eleitoral
recebida simulada.
Desde logo, afasto a incidência da causa de aumento de pena
prevista no art. 1º, § 4º, da Lei n. 9.613/1998, tendo em vista que os fatos
denunciados são todos anteriores à entrada em vigor da Lei n. 12.850/13,
a qual introduziu no ordenamento jurídico pátrio o conceito de
organização criminosa, sob pena de malferimento ao princípio da estrita
legalidade, previsto no art. 1º do Código Penal.
Nesse sentido, aliás, foram as ponderações do Min. Celso de Mello
quando do seu voto no INQ 3.982, por ocasião do recebimento, em parte,
daquela denúncia.

142

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 224 de 486 3636


AP 996 / DF

3. Síntese da condenação.

Conforme consignado nos respectivos tópicos, o conjunto probatório


produzido nos autos é sólido e confirma que:
(i) a partir do caixa de propinas do Partido Progressista (PP)
formado por Paulo Roberto Costa no âmbito da Diretoria de
Abastecimento da Petrobras S/A e administrado por Alberto Youssef, o
Deputado Federal Nelson Meurer, como contraprestação à sustentação
política envidada em favor do primeiro para sua manutenção no aludido
cargo, ao menos em 30 (trinta) oportunidades, recebeu, de forma
ordinária, quantias em espécie que se consubstanciam em vantagem
indevida que tipifica o crime de corrupção passiva, tendo sido auxiliado 5
(cinco) vezes por Nelson Meurer Júnior e 1 (uma) vez por Cristiano
Augusto Meurer;
(ii) de forma extraordinária, o Deputado Federal Nelson Meurer,
também como contraprestação à sustentação política envidada em favor
de Paulo Roberto Costa para sua manutenção à frente da Diretoria de
Abastecimento da Petrobras S/A, recebeu da sociedade empresária
Queiroz Galvão doação eleitoral simulada, vantagem indevida originária
do caixa de propina do Partido Progressista (PP), a qual, igualmente,
tipifica o delito previsto no art. 317 do Código Penal;
(iii) parte dos recursos recebidos de forma ordinária pelo Deputado
Federal Nelson Meurer foi submetida a procedimentos de
branqueamento, consubstanciados em depósitos fracionados, em 2 (duas)
datas distintas, dos valores que lhe foram destinados por intermédio do
Posto da Torre, bem como na inconsistência verificada entre as quantias
movimentadas em suas contas bancárias, os rendimentos percebidos de
fontes lícitas e os valores mantidos em espécie declarados à Secretaria da
Receita Federal, em 5 (cinco) oportunidades;
(iv) a doação eleitoral recebida da sociedade empresária Queiroz
Galvão, em razão da sua simulação, teve aptidão para dissimular a sua
origem, o que também tipifica o delito de lavagem de capitais.

143

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 14981838.
Supremo Tribunal Federal
Voto - MIN. EDSON FACHIN

Inteiro Teor do Acórdão - Página 225 de 486 3637


AP 996 / DF

4. Dispositivo.

À luz do exposto, julgo procedente, em parte, a denúncia de fls. 867-


970 para: (a) condenar o denunciado Nelson Meurer como incurso nas
sanções do art. 317, § 1º, do Código Penal, por 31 (trinta e uma) vezes,
bem como nas sanções do art. 1º, caput, da Lei n. 9.613/1998, por 8 (oito)
vezes; (b) condenar o denunciado Nelson Meurer Júnior como incurso
nas sanções do art. 317, § 1º, do Código Penal, por 5 (cinco) vezes, na
forma do art. 29 do mesmo diploma legal; e (c) condenar o denunciado
Cristiano Augusto Meurer como incurso nas sanções do art. 317, § 1º, do
Código Penal, por 1 (uma) vez, na forma do art. 29 do mesmo diploma
legal.