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Artigo - Casamento por procuração - Por Carlos Eduardo Silva e Souza

Por Carlos Eduardo Silva e Souza: Advogado e consultor jurídico do Escritório


Silva Neto e Souza Advogados. Professor da Universidade Federal de Mato Grosso
(UFMT) e da Faculdade Afirmativo (FAFI). Autor de diversos artigos jurídicos.

RESUMO: Este artigo objetiva trazer breve reflexão a respeito do casamento por
procuração, especialmente com o intuito de saber se ambos nubentes podem estar
ausentes no momento da cerimônia do matrimônio e fazendo-se representar por
procurador, bem como se este pode ser único, isto, comum aos nubentes.

PALAVRAS-CHAVE: Casamento por procuração. Ambos nubentes ausentes.


Procurador único.

SUMÁRIO: Introdução; 2. Solução ao questionamento; 3. Considerações finais. 4.


Referências bibliográficas.

INTRODUÇÃO

O casamento, em nosso entender, é o contrato que objetiva regular a união civil


entre o homem e mulher, firmando assim instituição familiar, com destaque
especial para o regramento das relações sexuais, do zelo com a prole comum e a
assistência recíproca entre os pactuantes.

Nas palavras de Maria Helena Diniz, o casamento é "o vínculo jurídico entre o
homem e a mulher que visa o auxílio mútuo material e espiritual, de modo que haja
uma integração fisiopsíquica e a constituição de uma família" (in Curso de direito
civil brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2004. v. 5. 19 e. p. 39)

Sílvio de Salvo Venosa, por sua vez, citando conceito Sílvio Rodrigues, esclarece
que o casamento "é o contrato de direito de família que tem por fim promover a
união do homem e da mulher, de conformidade com a lei, a fim de regularem suas
relações sexuais, cuidarem da prole comum e se prestarem mútua assistência" (in
Direito Civil. São Paulo: Atlas, 2005. v. 6. 5. e. p. 43).

É sabido que o casamento é, possivelmente, o instituto mais célebre do Direito da


Família, o qual ainda guarda uma série de formalidades e atos indispensáveis na
sua realização, estando disposto no Código Civil, no livro IV (direito de família),
título I (do direito pessoal), no subtítulo I (do casamento), especialmente a partir
do art. 1.511.

Evidentemente que o casamento tem perdido espaço e importância frente à


indispensável e correta valorização da união estável, que recebeu o mesmo status
daquele instituto.

Em artigo anterior ("Casamento por procuração: procurador deve ser do sexo


distinto do procurador do nubente presente na celebração do matrimônio?"), já
esclarecemos que a regra geral é que o casamento venha a se celebrar na presença
de ambos os nubentes.

Entrementes, é sabido que o ordenamento jurídico faculta aos nubentes fazerem-se


representar por procurador, por expressa previsão do art. 1542 do Código Civil em
vigor.
Sobre o assunto, nunca demais lembrar as pertinentes de Silvio de Salvo Venosa,
especialmente que "não se coaduna com o espírito personalista da realização do
matrimônio e a convivência dos cônjuges que lhe segue e é inerente" (in Direito
Civil. São Paulo: Atlas, 2005. v. 6. 5. e. p. 110).

A maior exigência que se verifica é apenas que a procuração seja constituída por
instrumento público, com poderes especiais, conforme dispõe o já citado art. 1.542
do Código Civil.

Os poderes especiais aqui noticiados referem-se especificamente a designação da


pessoa que o mandante deseja casar, sob pena de restar prejudicado o livre
consentimento, exigido no casamento.

SOLUÇÃO AO QUESTIONAMENTO

Traçadas as primeiras linhas sobre a noção do casamento por procuração, neste


artigo objetivo discutir se ambos os procuradores podem estar por procurador e,
neste caso, se o procurador poderia ser o mesmo.

Oportuna a transcrição preliminarmente a transcrição do art. 1.542 do Código Civil,


tão comentado anteriormente:

"Art. 1542. O casamento poderá celebrar-se mediante procuração, por instrumento


público, com poderes especiais.

§ 1º A revogação do mandato não necessita chegar ao conhecimento do


mandatário; mas, celebrado o casamento sem que o mandatário ou o outro
contraente tivesse ciência da revogação, responderá o mandante por perdas e
danos.

§ 2º O nubente que não estiver em iminente risco de vida poderá fazer-se


representar no casamento nuncupativo.

§ 3º A eficácia do mandato não ultrapassará noventa dias.

§ 4º Só por instrumento público se poderá revogar o mandato."

Percebe-se, assim, claramente que o Código Civil, ao dispor sobre a hipótese do


casamento por procuração, nada dispôs a respeito da necessidade de presença de
um dos nubentes ou, pela via transversa oblíqua e transversa, da possibilidade de
apenas um procurador na celebração do matrimônio.

A resolução da questão começa a nos parecer bastante simples. Há de se aplicar o


princípio constitucional de que "ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer
senão em virtude de lei", inscrito no art. 5º, II da Carta Magna brasileira.

Nesse sentido, podemos afirmar, desde logo, que ambos os nubentes podem estar
ausentes na celebração do seu próprio casamento e, assim, devidamente
representados por procuradores devidamente constituídos.

Devemos ter cuidado, entretanto, no que se refere a procurador único para ambos
nubentes, pois certamente seria colocada em xeque a natureza do consentimento,
tão peculiar do instituto do casamento.
Ademais, bom observar que o legislador, ao falar sobre a revogação do mandato
(art. 1.542, § 1º do CC/2002), teve o cuidado de colocar a expressão o procurador
ou "o outro contraente", em nítida impressão de que vedação a figura do
mandatário único.

Nesse sentido, trilha a lição de Sílvio de Salvo Venosa, senão vejamos:

"... não deve ser admitido que os dois nubentes confiram poderes à mesma pessoa,
porque desvirtuaria a natureza do consentimento. A lei não o diz expressamente,
mas dela se infere quando menciona no texto 'o outro contraente' (...), expressão
que é mantida no § 1º do artigo vigente do Código. Se os dois nubentes casarem
por procuração, deverão ser dois procuradores." (in Direito Civil. São Paulo: Atlas,
2005. v. 6. 5. e. p. 111).

Na outra ponta de entendimento, entretanto, o posicionamento de Pontes de


Miranda, entretanto, não vê qualquer óbice no procurador único (in MIRANDA,
Pontes de. Tratados de direito privado. 3. e. Rio de Janeiro: Borsoi, 1971. p. 306)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Assim, concluo o presente artigo, posicionando-me no sentido de que: 1) ambos


nubentes podem estar ausentes na celebração do matrimônio, desde que estejam
representados por procuradores, devidamente constituídos por instrumento público
com poderes especiais; 2) é indispensável, nessa situação, que cada nubente seja
representado por procurador distinto do outro, não se permitindo a figura do
mandatário único.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: direito de família. 19. ed. São
Paulo: Saraiva, 2004. v. 5.

FIUZA, Ricardo. Novo código civil comentado. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2003.

MIRANDA, Pontes de. Tratados de direito privado. 3. ed. Rio de Janeiro: Borsoi,
1971.

MONTEIRO, Washignton de Barros. Curso de direito civil: direito de família. 33. ed.

RODRIGUES, Sílvio. Direito civil. Direito de família. 24. ed. São Paulo: Saraiva,
1996.

VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: direito de família. 5. ed. São Paulo: Atlas,
2005. v. 6.

WALD, Arnoldo. Direito de família. 10. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1995.

Fonte: Jus Navigandi