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O PADRÃO DE BELEZA IMPOSTO PELA SOCIEDADE BRASILEIRA

INFLUENCIA NO DESENVOLVIMENTO DE DISTÚRBIOS PSICOLÓGICOS

Lila Ribeiro Conde Domingues 1

SUMÁRIO

Introdução; 1. Contexto Histórico da Mulher Brasileira; 2. O Meio Social Como Influência Direta Para a Evolução dos Distúrbios Psicológicos; 3. A Atuação da Indústria da Moda e da Mídia no Progresso do Culto ao Corpo; Considerações Finais; Referências.

RESUMO

Este artigo tem como intuito promover a reflexão e, consequentemente, a conscientização sobre

o tema do padrão de beleza imposto pela sociedade brasileira que influencia no

desenvolvimento de distúrbios psicológicos. Para se compreender a problemática é necessário

inteirar-se do contexto histórico da mulher brasileira, marcado pela imposição patriarcal

machista, limitando sua liberdade e estabelecendo condutas a se seguir. Ademais, interligando

os fatores sociais do contexto onde se vive, a cultura, e como os paradigmas familiares atuais,

novamente, exercem interferência na autoestima e na visão estética pessoal e, portanto, como a mídia em consonância com a indústria consumista da moda agravam um problema tão sério como a anorexia e a bulimia.

PALAVRAS-CHAVE: Mulher; Sociedade; Padrão de beleza; Distúrbios Psicológicos.

INTRODUÇÃO

A precisão de se impor padrões de beleza na sociedade brasileira está enraizada há

muito, apesar de que a cada momento da historiografia social as exigências mudam. A mulher,

1 Graduanda em Direito Escola de Direito de Brasília/Instituto Brasiliense de Direito Público, Brasília, Distrito Federal Email: lilaconde5@gmail.com

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principal personalidade da estética social, tem uma longa trajetória de imposições de conduta, vestimenta entre outros ritos que fazem jus a determinada época.

Atualmente, com a globalização e o processo de expansão da mídia, a reprodução de um padrão ideal de beleza alicerçado na magreza e em um corpo franzino, com poucas formas, tem ganhado abrangência e adeptas, tendo como inspiração o mundo da moda com suas modelos esqueléticas e pálidas.

A complexa problemática é que o culto ao corpo tem se tornado um estilo de vida, e não

é o saudável e sim, a obsessão em se conseguir, a qualquer custo, a magreza extrema, resultando

no surgimento de distúrbios psicológicos graves, como a anorexia e a bulimia nervosa.

O controle da sociedade sobre os indivíduos não se opera simplesmente pela consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo, com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que, antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma realidade bio−política. 2

A sociedade tenta de todas as maneiras controlar seus indivíduos, e a estipulação de um

padrão de beleza é uma forma de manipular uma grande maioria que visa a autossatisfação e a felicidade promovidas por meio desse paradigma de manequim 34. Por meio do domínio que exerce, quem não segue e não está dentro do padrão imposto, não está apta a fazer parte do círculo social, ou seja, a necessidade de participar e de ser vista pela sociedade é tamanha que as mulheres estão cada vez mais dispostas a fazer qualquer coisa para atingir esse objetivo inalcançável.

O clímax se dá a partir do momento que a saúde da mulher é posta à prova a fim de

alcançar o menor número da balança, desenvolvendo transtornos alimentares, recorrendo a diversas técnicas para intensificar o emagrecimento, como por exemplo, a inanição, indução ao vômito, práticas físicas intensas, autoimagem destorcida e, em casos extremos, podendo levar à óbito.

Destarte, este artigo busca contribuir para a maior conscientização e mudança da realidade social, alertando para o fator prejudicial de se impor um padrão de beleza ideal na sociedade brasileira, por meio do contexto social, da mídia e da indústria da moda. À vista disso, a problemática reflexiva que se apresenta é:

2 FOUCAULT, Michel - Microfísica do Poder. 1979 p.80

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Quais fatores sociais brasileiros contribuem para o avanço de distúrbios psicológicos em mulheres, atrelado a transtornos alimentares por meio de seu padrão ideal de beleza?

1. O CONTEXTO HISTÓRICO DA MULHER BRASILEIRA

A mulher brasileira tem, recorrentemente, surgido sob a ideia de estereótipos, dando uma impressão de imobilidade ilusória. E a história, desde o século XIX, tem dado à mulher um espaço demarcado cuidadosamente pela representação e ideais masculinos dos historiadores, que há pouco tempo, ainda era produzido com exclusividade. Somente nos anos 1980 o tema emergiu como um campo de pesquisa científica, ganhando abrangência dentro da historiografia. 3

Caio Prado Jr. e Gilberto Freyre entram em consonância que o reconhecimento das mulheres no período colonial era restritamente para o uso luxurioso do corpo. 4 As mulheres negras, em especial, eram objeto sexual de seus senhores, pois as sinhás tinham os corpos marmóreos, brancos e frios, sem prazer. 5

Há muito a mulher é idealizada, talvez não da mesma forma em cada etapa da história social, mas ainda assim, “vende-se” a imagem de uma mulher perfeita: virgem, submissa, mãe, devota à religião e que reprime seus desejos sexuais, agindo como o marido determina e seguindo os preceitos da Igreja quanto à conduta feminina. Ainda na contemporaneidade a mulher é limitada, apesar de seus esforços de inserção no meio social por intermédio de movimentos, como o feminismo, que luta pela igualdade de gêneros, mas a cultura patriarcal é intrínseca à sociedade brasileira, dificultando o ingresso feminino completo na sociedade.

No Brasil colonial, o papel da mulher revela a postura machista que predominava, um sistema de dominação, juntamente com os dogmas da Igreja, pois atribuía um papel submisso e de dependência, ratificando uma diferenciação e estabelecendo padrões de conduta social, nos quais eram tomados como alicerce familiar. Às mulheres cabia a incumbência de organizar a casa e a responsabilidade dos filhos, ou seja, sua imagem não se desvinculava do aspecto familiar e doméstico. A vida feminina sempre restrita ao desempenho doméstico e à assistência à família, tendo o dever de fortalecer os laços.

A realidade da mulher dentro do contexto social brasileiro é acompanhada, desde os primórdios, da discriminação e da objetificação de seu corpo. Inúmeros autores brasileiros

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fazem comparações escrachas à função feminina na sociedade. Roberto Damatta, em seu livro O que faz o brasil, Brasil? expõe uma metáfora um tanto quanto machista sobre o papel da mulher:

Mas há comida e comidas. Falamos que “mulher oferecida não é comida”, num trocadilho chulo mas revelador da associação, intrigante para estrangeiros, entre o ato sexual e o ato de ingerir alimentos. Entre a mulher da rua, a prostituta, ou a mulher que controla e é dona de sua capacidade de sedução e sexualidade, e certos tipos de alimento. Assim, a mulher que põe à disposição do grupo (da família) seus serviços domésticos, seus favores sexuais e sua capacidade reprodutiva tornam-se a fonte de virtude que, na sociedade brasileira, se define de modo pastoral e santificado. É a virgem, a esposa e a mãe que reside nas casas e que jamais é comida ou poderá virar comida: presa fácil de homens que se definem como sexualmente vorazes. Ou melhor, tais mulheres podem ser comidas, mas primeiro são transformadas em noivas e esposas. O bolo do casamento e o banquete que segue a cerimônia podem muito bem ser vistos como um símbolo dessa “comida” que será a noiva, algo elaborado e, sobretudo, socialmente aprovado pelos homens do seu grupo. Ora, a mulher da rua, essa que é a comida de todos, é algo muito diferente, conforme já assinalei acima. Em contraste com a mãe, a virgem e a boa esposa, ela surge como aquela mulher que pode literalmente causar indigestão nos homens, provocando a sua perturbação moral. Dessas mulheres deve-se fugir diz a moral brasileira tradicional , mas sem elas, reza paradoxalmente essa mesma ética, o mundo seria insosso como uma comida sem sal. As mulheres da vida, na nobre metáfora brasileira, estão para as mulheres da morte assim como as comidas fáceis e potencialmente indigestas, mas deliciosas na sua ingestão escondida e apaixonada, estariam para as comidas caseiras que eventualmente podem perder a capacidade de deleitar, servindo tão-somente para alimentar

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Pode-se afirmar que dentro dessa cultura de valorizar ao máximo a mulher pelo corpo ao invés de valorizá-la pelo que ela é, tenha se tornado uma válvula de escape para a mulher se expressar através de seu estereótipo, mostrando o que é, como pensa, como se comporta, entre outros conceitos, por meio de seu corpo, sua vestimenta e sua compostura. Destarte, o culto ao corpo tomou grandes proporções e se tornou o enfoque principal para que uma mulher seja admirada, para que se encaixe no padrão de beleza e para que seja aceita dentro de suas perspectivas sociológicas. A necessidade de se ajustar dentro da sociedade é explicada por Peter Berger, em seu livro Perspectivas Sociológicas: Uma Visão Humanística, descreve exatamente como se dá o processo de enquadramento por meio da localização social:

A sociedade determina não só o que fazemos, como também o que

somos. Em outras palavras, a localização social não afeta apenas nossa

“ O significado da teoria do papel

poderia ser sintetizado dizendo-se que, numa perspectiva sociológica, a

conduta; ela afeta também nosso ser.”[

]

6 DAMATTA, Roberto O que faz o brasil, Brasil?. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. p. 39, 40.

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identidade é atribuída socialmente, sustentada socialmente e transformada socialmente. 7

Haja vista, a identidade não é uma coisa preexistente, sua atribuição se dá em atos de

seu reconhecimento social, ou seja, aplicando ao parâmetro da mulher, ela é aquilo que os outros

creem que ela seja. E como a sociedade padroniza tudo, para que se torne um senso comum, o

protótipo de mulher ideal não poderia ser diferente e, para que essa identidade perdure, é preciso

que a sociedade sustente, com bastante regularidade, levando em conta a maior quantidade de

adesões.

O MEIO SOCIAL COMO INFLUÊNCIA DIRETA PARA A EVOLUÇÃO DOS DISTÚRBIOS PSICOLÓGICOS

Levando em conta o conceito de Peter Berger quanto à relação do homem na sociedade,

2.

é plausível afirmar que o meio onde habita tem uma forte influência em suas ações e

personalidade. Além de todo o sistema de controle social institucionalizado, ele descreve outro

ambiente que exerce intensa interferência:

Por fim, o grupo humano no qual transcorre a chamada vida privada da pessoa, ou seja, o círculo da família e dos amigos pessoais, também constitui um sistema de controle. Seria erro grave supor este seja necessariamente o mais débil de todos, apenas por não possuir os meios formais de coerção de alguns dos sistemas de controle. É nesse círculo que se encontram normalmente os laços sociais mais importantes de um indivíduo. A desaprovação, a perda de prestígio, o ridículo ou o desprezo nesse grupo mais íntimo têm efeito psicológico muito mais sério que em outra parte. 8

Segundo o sociólogo norte-americano Talcott Parsons, as principais funções da família

é a socialização primária e a estabilização da personalidade. A socialização primária é entendida

como o processo em que o indivíduo aprende a se tornar um membro da sociedade, ou seja,

imposição de padrões são fixadas à pessoa; 9 e a estabilização da personalidade compreende-se

ao papel desempenhado pela família ao fornecer estrutura psicológica desde a infância até a

idade adulta . 10

7, 8 BERGER, Peter L Perspectivas Sociológicas: uma visão humanística. Petrópolis, 2011. p. 88, 89 e 107,

112.

9 BERGER, Peter L; BERGER, Brigitte Socialização: como ser um membro da sociedade, cap.13, Sociologia e sociedade: leituras de introdução à sociologia. 21.ed. s.I: LTC, 2008. p. 204. 10 GIDDENS, Anthony Sociologia. 4.ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. p. 152.

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Tendo em vista essas definições sobre como a família e outras pessoas próximas influenciam no estilo de vida do indivíduo, Freud 11 , Nancy Chodorow 12 , entre outros autores da psicanálise, expõem a relação conturbada que existe entre mãe e filha e a interferência que

a primeira exerce quanto às influências sociais que, muitas vezes, ultrapassam os limites e se tornam manipulação.

A imposição de expectativas em todos os âmbitos da vida da mulher, acarretam em

algumas, a obsessão em superar a confiança depositada, em suma, a relação com o corpo e seus cuidados. Mães manipuladoras e autoritárias têm o hábito de controlar suas filhas em todos os aspectos, principalmente no que se refere à como atingir e permanecer no padrão de beleza ideal. 13 Nessa perspectiva, o desenvolvimento de distúrbios psicológicos se inicia, por exemplo, com a anorexia e a bulimia nervosa. Vale ressaltar que, não somente a mãe exerce a carga de pressão, mas como também todo o contexto social que a mulher está inserida.

A obsessão em viver em busca de atingir o corpo ideal, a beleza plena e a aceitação da

sociedade têm se tornado um problema de saúde pública. As taxas de diagnósticos de anorexia

e bulimia no Brasil tem aumentado a cada ano, isto é, 150 mil casos de anorexia por ano e 2

milhões de casos de bulimia, dados que comprovam o quanto é perigoso essa luta por alcançar

um padrão que não cabe a todas as mulheres pelo simples fato de haver uma gama de elementos genéticos que culminam na formação de um determinado modelo de corpo. 14

Estar bela, malhada, sentir-se bem consigo mesma. Não ter gordurinhas sobrando. Ter um corpo rígido, cabelos e peles impecáveis. Ser admirada por sua beleza ou por seu corpo em forma. Ter um corpo perfeito. Encaixar-se nos padrões de beleza massificados. Cultuar os esforços físicos para que ele desabroche em sua melhor forma. Estas falas, todas nativas, apontam para um processo central das últimas décadas (1980-2000), que é o culto ao corpo. Embora seja quase impossível estabelecer com certeza quando as expressões "culto ao corpo" e "cultura do corpo" apareceram pela primeira vez, numerosos antropólogos, sociólogos e historiadores vêm se utilizando destes termos para designar um comportamento onde o corpo figura como elemento central e definidor de identidades. 15

A mulher passa a ser responsabilizada pela sua imagem a tal ponto que ela tem a

obrigação de se manter bela e de recorrer a intervenções, independentemente de quais sejam,

11 FREUD, Sigmund - Interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1976 12 CHODOROW, Nancy Psicanálise da maternidade: uma crítica a Freud a partir da mulher. Ed. Rosa dos Tempos, 2002.

13 SOUZA, Karina C. V O feminino na estética do corpo: uma leitura psicanalítica. Tese para obtenção do título de Mestre em Psicologia Clínica pela Universidade Católica de Pernambuco, 2007. p. 112, 113.

14 Fontes: Hospital Israelita Albert Einstein. Google, 2016.

15 BERGER, Mirela Corpo e Identidade Feminina. Tese do Programa de Pós-Graduação em Antropologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2006. p. 131, 132.

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para permanecer dentro do padrão, reforçando assim, estereótipos e construções de gênero. Antoine Prost, embasa com estrutura a realidade contemporânea da estética e como a mulher dá importância ao corpo:

De fato, o corpo se tornou o lugar da pessoa. Sentir vergonha do próprio corpo seria sentir vergonha de si mesmo. As responsabilidades se deslocam:

nossos contemporâneos se sentem menos responsáveis dos que as gerações anteriores por seus pensamentos, sentimentos, sonhos e nostalgias; ele os aceitam como se lhe fossem impostos de fora. Em contraposição, habitam plenamente os seus corpos: o corpo é a própria pessoa. Mais do que identidades sociais, máscaras ou personagens adotadas, mais até do que ideias e convicções, frágeis e manipuladas, o corpo é a própria realidade da pessoa. Portanto, já não existe mais vida privada que não suponha o corpo. A verdadeira vida não é mais a vida social, do trabalho, dos negócios, da política ou da religião: é a das férias, do corpo livre e realizado. 16

A beleza se tornou uma espécie de capital simbólico que a define como status social e representação de sucesso. Consequentemente, essa pressão prescrita desencadeia o citado acima, distúrbios psicológicos, e que resultam em efeitos devastadores, levando à morte, em casos extremos. A anorexia e a bulimia nervosa têm tomado cada vez mais espaço em discussões sociológicas e da psicanálise, pois as mulheres, principalmente as adolescentes, estão em busca do ideal inalcançável do corpo perfeito e, essa insatisfação é advinda da baixa autoestima, fruto do padrão de beleza imposto pela sociedade e veiculado pela mídia. No que tange ao culto do corpo, a sociedade influi de tal forma na vida da mulher ao ponto de fazê-la se tornar escrava da própria estética. À vista disso, o investimento em dietas, excesso de exercícios, inanição e outros métodos a fim de alcançar a magreza, desencadeia a anorexia, caracterizada pela aversão aos alimentos, onde a mulher tem uma visão deturpada de seu corpo, sentindo-se cada vez mais gorda, enquanto a realidade é outra, ela se torna mais magra, podendo até mesmo, vir a óbito por complicações. Essa recusa em manter o peso normal para a estatura individual é traduzida pelo medo constante de engordar e, vencer a fome transforma-se em uma questão de valor pessoal, pois o desejo de se manter cada vez mais magra se torna uma imposição reforçando sua identidade individual. Em contrapartida, a bulimia se caracteriza pela compulsão alimentar, pois impõe-se regras dietéticas muito rígidas, que não conseguem cumprir e, logo após a ingestão exagerada de alimento, advinda da ansiedade e frustração, o sentimento de culpa predomina levando a mulher a induzir o vômito ou fazer uso de laxantes. 17

16 PROST, Antoine Fronteiras e Espaços do Privado (História da Vida Privada da 1º Guerra a nossos Dias). São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 105, 106. 17 CARDOSO, Sônia Cristina M. Para uma abordagem sociológica dos distúrbios alimentares. IV Congresso Português de Sociologia. Coimbra, Portugal, 2000.

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É comprovado que mulheres vítimas desses transtornos alimentares sofrem de baixa autoestima, depressão, ansiedade, descontrole emocional e físico e intolerância à frustração. A constante que determina essa situação é, geralmente, a pressão de uma sociedade cada vez mais competitiva, o estresse, experiências traumáticas que, associadas ao culto ao corpo perfeito, desestruturam o psicológico de muitas mulheres, levando-as a maltratar seu próprio organismo em virtude de um objetivo inviável. Nessa conjuntura, é viável relatar a experiência de uma jovem de 18 anos, que desde os 11 anos sofre com o transtorno alimentar e psicológico da bulimia:

Começou quando eu tinha uns 11 anos. Tive uma adolescência muito precoce, por isso a vaidade veio muito cedo também. Eu nunca fui magra, mas eu sempre quis ser. A mãe de uma amiga sempre me lembrava como eu estava redondinha, foi quando eu comecei a perceber que as pessoas magras são consideradas mais bonitas, a roupa cai melhor, os meninos reparam mais, a aceitação dentro do contexto social é maior, etc. Eu sempre gostei muito de doce, e comecei por eles, eu comia e vomitava, com uma frequência absurda, às vezes mais de três vezes por dia eu forçava o vômito. Até hoje tenho uma facilidade muito grande para induzir o vômito em razão do tempo que fiz isso. Depois dos doces comecei a fazer a mesma coisa quando almoçava, lanchava, jantava ou sempre que comia alguma coisa que eu pensava que me faria engordar. Quando entrava em crise também via minha imagem no espelho distorcida. Emagreci muito rápido, mas tive problemas estomacais que trato até hoje. Tive gastrite nervosa, que deveria ser temporária, mas se tornou uma gastrite crônica. Quase toda semana ia para o hospital tomar soro por conta da

fraqueza que sentia todos os dias. A má alimentação e a indução do vômito me deixavam cada vez mais fraca. Minha mãe levou um tempo até perceber o porquê de eu estar sempre doente, até que contrai hepatite A e, por conta da imunidade baixa, tive complicações sérias. Fiquei ao ponto de fazer transfusão sanguínea. Ao melhorar da hepatite, descobri uma anemia severa, que tratei até o ano passado (2015) com remédio antes das refeições. Com a ajuda do psicólogo e da minha mãe aos poucos eu melhorei, me conscientizei que fazia mal para mim e que não valia à pena. Mas até hoje eu tenho gastrite, faço acompanhamento para regular a anemia e às vezes, ainda forço o vômito. Principalmente quando acho que estou acima do meu peso normal ou quando uma roupa não fica tão bem quanto deveria, não é com frequência, mas me sinto mal quando faço isso e não conto para ninguém quando acontece. A compulsão alimentar ainda ocorre quando estou durante a TPM, em situações de estresse constante ou alteração emocional. Tenho medo de voltar a induzir

o

vômito e fazer isso para sempre. Se eu passar quatro dias sem comer direito

e

vomitando o que eu conseguir comer, emagreço 2kg com facilidade. 18

No que concerne à consciência coletiva, é verossímil afirmar que por ser um conjunto de crenças, senso comum dos membros da sociedade e que tem autonomia para ter vida própria e ser um sistema determinado, pode-se aplicar à situação de como o meio social que a mulher se relaciona tem influência direta em suas ações, tendo como base o relato da jovem vítima da

18 Pesquisa realizada em outubro de 2016.

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bulimia. Exerce-se uma forte dominação em quais recursos ela irá recorrer para se encaixar na

sociedade e ter aceitação majoritária. 19

3. A ATUAÇÃO DA INDÚSTRIA DA MODA E DA MÍDIA NO PROGRESSO DO CULTO AO CORPO

Na contemporaneidade, o culto ao corpo perfeito tem tomado uma abrangência cada vez

maior, sendo um importante instrumento para manter boas relações sociais. Logo, a mídia

desfruta dessa imposição do padrão de beleza para manipular a sociedade e lucrar com a ampla

reprodução, incutindo nas pessoas o desejo de fazer parte de um contexto que cultua a “cópia

do outro”, pois o que é belo deve ser mostrado e copiado. A indústria da moda e do consumismo

apresenta como técnica a padronização e a produção em série instigando um estilo de vida em

que a mulher precisa alcançar as expectativas do corpo perfeito, fazendo com que ela se torne

uma prisioneira de sua própria vaidade.

Ela [a mulher] continua submissa. Submissa não mais às múltiplas gestações, mas à tríade de "perfeição física". A associação entre juventude, beleza e saúde, modelo das sociedades ocidentais, aliada às práticas de aperfeiçoamento do corpo, intensificou-se brutalmente, consolidando um mercado florescente que comporta indústrias, linhas de produtos, jogadas de marketing e espaços nas mídias. A intensificação desse modelo corporal é tão grave, que suas consequências na forma de técnicas e práticas vêm sendo largamente discutidas por sociólogos e historiadores. A pergunta que ainda cabe é: que tipo de imagem preside a ligação entre as mulheres e essa tríade? Foi sempre assim? O que mudou? O interesse dessas perguntas é que a imagem corporal da mulher brasileira está longe de desembaraçar-se de esquemas tradicionais, ficando longe, portanto, da propalada liberação dos anos 1970. Mais do que nunca, a mulher sofre prescrições. Agora, não mais do marido, do padre ou do médico, mas do discurso jornalístico e publicitário que a cerca. No início do século XXI, somos todas obrigadas a nos colocar a serviço de nossos próprios corpos. Isso é, sem dúvida, uma outra forma de subordinação. Subordinação, diga-se, pior do que a que se sofria antes, pois diferentemente do passado, quando quem mandava era o marido, hoje o algoz não tem rosto. É a mídia. São cartazes da rua. O bombardeio de imagens na televisão. 20

O mundo inteiro é forçado a passar pelo filtro da indústria cultural. A vontade que a

mídia capitalista incita nas mulheres ao querer ser iguais às modelos, por exemplo, as mantém

tão reféns em corpo e alma que sucumbem sem resistência ao que lhes é oferecido. Como já

19 ARON, Raymond - As etapas do pensamento sociológico. A geração da passagem do século, DURKHEIM, Émile. São Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 462 20 DEL PRIORE, Mary - Corpo a Corpo com a Mulher: Pequena História das Transformações do Corpo Feminino no Brasil. São Paulo: Senac, 2000, p.15.

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mencionado nos tópicos acima, a imagem da perfeição estética está intrinsecamente ligada ao sucesso e, consequentemente, à autossatisfação. Essa concepção tem como premissa a credibilidade midiática quanto às modelos, artistas de televisão, revistas e cinema, que são considerados protótipos perfeitos e reais a serem copiados.

Os interessados inclinam-se a dar uma explicação tecnológica da indústria cultural. O fato de que milhões de pessoas participam dessa indústria imporia métodos de reprodução que, por sua vez, tornam inevitável a disseminação de bens padronizados para a satisfação de necessidades iguais.

Os padrões teriam resultado originariamente das necessidades dos

consumidores: eis por que são aceitos sem resistência. De fato, o que explica é o círculo da manipulação e da necessidade retroativa, no qual a unidade do sistema se torna cada vez mais coesa. O que não se diz é que o terreno no qual a técnica conquista seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade. A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma. 21

] [

A cultura do corpo é tão inerente à sociedade brasileira ao ponto de que nada é mais

importante e melhor do que ser magra. Lucien Sfez, declarou que a relevância dada ao corpo é tanta que substituiu o culto à informação por uma “religião” biogenética, moldada na utopia do corpo. 22 Dessa forma, não somente a relação do contexto social interfere no desenvolvimento

de distúrbios psicológicos como também, a mídia e a indústria da moda que vendem a perfeição ligada à magreza excessiva como um padrão ideal de beleza.

A internet tem se mostrado uma grande aliada à disseminação de informações tendenciosas e prejudiciais com relação à anorexia e a bulimia nervosa, havendo uma gama de perfis em redes sociais, blogs e sites que apoiam o progresso dos distúrbios alimentares, até mesmo apelidam a anorexia como “Ana” e a bulimia como “Mia”, ou seja, referindo-se a esses distúrbios como amigas. No âmbito da indústria da moda a realidade não é diferente, muitas modelos morreram devido a complicações em detrimento dos transtornos alimentares. Quanto mais magra a modelo, menos “competição” há entre o seu corpo e a roupa, isto é, tem a função de uma espécie de cabide.

A ideia de magreza está tão disseminada ao ponto de a mulher nunca estar satisfeita com

seu corpo, mesmo que use de artifícios para tentar padronizá-lo de acordo com o senso comum.

21 ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. p. 114. 22 SFEZ, Lucien - "Saúde perfeita é a utopia do final de século". Jornal O Estado de São Paulo, 7 de outubro de 1996, n. 788, ano 16.

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Interessante notar que o padrão de beleza de alguns anos atrás era inteiramente diferente, por exemplo, a mulher do início do século passado deveria apresentar depósitos de gorduras, ter quadris largos, coxas grossas, abdômen marcado e seios fartos para se adequar ao perfil de beleza da época. No período pré-industrial, a mulher que apresentava um quadro de obesidade era tido como o padrão ideal, pois representava força e tinha energia suficiente para enfrentar as dificuldades e proteger a família. Nos dias de hoje, o enfoque de corpo ideal é cultuado pela magreza excessiva, palidez e poucas formas corporais.

Atualmente, um corpo bonito e perfeito, seja de homem ou de mulher, é sinônimo de realização e felicidade. Com isso, o marketing usa da ludibriação da mídia e da indústria consumista para envolver cada vez mais mulheres a comprar o modelo de estética ideal. A publicidade é o elixir dessa padronização corporal perfeita, e quanto mais pessoas aderem a esse estilo, mais perpetuado é. A necessidade, portanto, de ser bem aceita em um contexto social, sentir-se satisfeita com a aparência e fazer parte do padrão de beleza estabelecido pela sociedade é tamanha que a mulher está disposta a tudo para alcançar o objetivo do tão sonhado corpo perfeito.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do delineamento feito no decorrer deste artigo, é plausível afirmar que o padrão de beleza ideal imposto pela sociedade agrava o desenvolvimento de distúrbios psicológicos, como a anorexia e a bulimia nervosa, por exemplo.

É sabido que a sociedade brasileira valoriza ao extremo o consumo e os valores materiais e estéticos que governam a vida de uma maioria feminina, tornando-se mandamentos essenciais para a convivência social. E, aproveitando-se desse parâmetro, a indústria cultural tem vendido um padrão de beleza interligado ao culto do corpo, tendo como premissa o objetivo de se conseguir a extrema magreza, podendo assim, se encaixar nos padrões sociais e fazer parte do contexto social determinado.

No entanto, a busca pela perfeição é em vão, impossível de se conseguir atingir esse paradigma estético, mesmo que de maneira saudável, pois cada mulher tem seu fenótipo e estrutura corporal. Apesar disso, mais de 2 milhões de mulheres todo ano, são diagnosticadas com algum tipo de distúrbio psicológico, advindo da tentativa de atingir o corpo perfeito.

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Faz-se necessário dar maior atenção a esse problema que tem crescido progressivamente

e se tornado uma questão de saúde pública. Muitas mulheres já perderam a vida por não saberem

dosar o limite da vaidade e por comprar a falsa satisfação da autoimagem através da publicidade que divulga uma realidade falaciosa e equivocada no que diz respeito à cultura do corpo.

O primeiro passo para contornar a situação agravante dos crescentes casos de anorexia

e bulimia é a desmistificação do padrão ideal de beleza e a cultura ao corpo, que tomou conta

até mesmo da importância dada aos valores internos do ser e, conscientizar as mulheres de que

não adianta tentar alcançar um modelo perfeito de corpo se a estrutura corporal não permite chegar a um resultado igual. É de suma importância ter uma vida saudável com práticas de exercícios físicos e alimentação saudável, mas o mais fundamental é ter amor próprio e se aceitar como é, tentando melhorar o que for viável dentro dos limites que a saúde permitir.

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. p. 114. ARON, Raymond - As etapas do pensamento sociológico. A geração da passagem do século, DURKHEIM, Émile. São Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 462 BERGER, Mirela Corpo e Identidade Feminina. Tese do Programa de Pós-Graduação em Antropologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2006. p. 131, 132. BERGER, Peter L Perspectivas Sociológicas: uma visão humanística. Petrópolis, 2011. p. 88, 89 e 107, 112.

BERGER, Peter; BERGER, Brigitte Socialização: como ser um membro da sociedade, cap.13, Sociologia

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CHODOROW, Nancy Psicanálise da maternidade: uma crítica a Freud a partir da mulher. Ed. Rosa dos Tempos, 2002. DAMATTA, Roberto O que faz o brasil, Brasil?. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. p. 39, 40. DEL PRIORE, Mary A mulher na história do Brasil. 4.ed. São Paulo: Contexto, 1994. p. 11, 12.

13

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Fontes: Hospital Israelita Albert Einstein. Google, 2016.

FREUD, Sigmund - Interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

FOUCAULT, Michel - Microfísica do Poder, 1979 p.80 GIDDENS, Anthony Sociologia. 4.ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. p. 152.

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