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Universidade Federal da Bahia (UFBA) – Faculdade de Direito

Direitos das Obrigações I (DIRA90)

Docente: Raphael Rego

Assunto: Classificação das Obrigações quanto à exigibilidade e quanto ao conteúdo

CLASSIFICAÇÃO DAS OBRIGAÇÕES QUANTO À EXIGIBILIDADE

1. Obrigações civis

Modelo clássico de obrigação. Havendo o inadimplemento obrigacional surge para o


credor uma pretensão de mover a maquina judicial de maneira a sujeitar o patrimônio
(em sua integralidade) do devedor ao cumprimento da obrigação.

Art. 391, CC - Pelo inadimplemento das obrigações respondem todos os bens do


devedor.

Observações:
a) Tal artigo, entretanto, não deve ser interpretado de maneira literal, ocorre que
existem uma serie de bens que não respondem pelo inadimplemento. A tais bens é
dado o nome de empenhoráveis, tendo como exemplo, joias de família;
b) Deve se lembrar que a responsabilidade é patrimonial e não pessoal (É o caso da
história do mercador de Veneza, aonde o não pagamento de uma dívida culminaria
na retirada de uma parcela de carne do peito do devedor, tal fato, atualmente, não é
concebido/permitido pelo Ordenamento Jurídico).

Há casos aonde a maquina judicial é movida de maneira coercitiva, tais casos estão
previstos no Códex brasileiro, sendo eles: A prisão do depositário infiel (revogado pelo
Pacto de San José da Costa Rica + ratificação da proibição pelo STF) e a prisão nos
casos de Inadimplemento de pensão alimentícia. Deve-se conceber, entretanto, que a
prisão civil não é uma forma de satisfação da obrigação, e sim uma forma coercitiva de
se forçar o adimplemento por parte do devedor.

2. Obrigações naturais ou judicialmente inexigíveis

As obrigações naturais ou judicialmente inexigíveis dizem respeito a aquelas as quais


ainda há uma obrigação, entretanto, não há mais possibilidade de se mover o aparelho
judicial para exigir o seu adimplemento. Dessa forma, é dito que o credor não tem a seu
favor uma pretensão, logo não se pode exigir um cumprimento forcado (ou seja, a
tutela direta da obrigação). Existe debito, mas inexiste obligatio.

 Tutela indireta ou Repetição excepcional

Na situação a qual o devedor efetua o pagamento da obrigação natural (de maneira


voluntaria). Há um resguarde/defesa do credor (tutela), tendo em vista que é vedado ao
devedor que este possa exigir a devolução do pagamento.
As exceções a essa regra (ou seja, a não aplicação da irrepetibilidade da obrigação
natural), também chamada de repetição excepcional, se dão em dívidas de jogo:

-Caso essa divida for originada por dolo (Exemplo: O credor trapaceou);
-Se o perdente for incapaz.
 Promessa de cumprimento
O devedor pode prometer cumprir uma obrigação natural?

Depende da razão pela qual o direito retira a exigibilidade da referida obrigação


natural. Assim, a conversão do natural em civil só pode ocorrer se isso não se
configurar como burla aos motivos que levaram àquela obrigação ser natural.
Por exemplo, a lei tira a exigibilidade da dívida de jogo em razão do seu juízo de
reprovação, pois ela quer desestimular tal pratica (a das apostas em jogos). Assim, ela
não poderá ser convertida.
Observação: Tais vedações se dão pois há uma primazia a segurança jurídica frente ao
crédito do credor.

 Garantia

Não é possível garantir o pagamento das obrigações naturais, seja a garantia real ou
pessoal, tendo em vista que a garantia está relacionada à exigibilidade. Assim, como
aqui não se tem exigibilidade, caso se pudesse ter garantia, se esvaziaria o conceito da
obrigação natural.

 Fraude contra credores

Sabe-se que o devedor da obrigação natural só paga quando lhe convier. No entanto tal
devedor não pode escolher pagá-la em prejuízo dos seus credores de obrigações civis.
Isso significa que, havendo estado de insolvência ou perspectiva de insolvência do
devedor de uma obrigação natural, este tem que priorizar o pagamento de seus
credores de obrigações civis, para depois pagar a aqueles os quais possui obrigações
naturais.
A inversão dessa ordem configura fraude contra credores, ou seja, quem recebeu será
obrigado a restituir esse valor em razão dos credores prejudicados.
 Espécies

i. Dívidas prescritas (mais conhecida);


ii. Disposição de última vontade que não esteja em testamento;
iii. Pagamento de alimentos por quem não é obrigado por lei (Exemplo: O irmão
pode ser obrigado a pagar alimentos ao irmão, mas não o sobrinho para o tio);
iv. Dívida de jogo. Deve-se conceber, entretanto, que nem toda a dívida de jogo é
uma obrigação natural. A dívida de jogo se divide em três categorias distintas (a
depender da natureza do jogo). São elas:
a) A dívida decorrente de jogos regulamentados , ou seja, jogos que possuem
disposição normativa/ legal. Dessa forma, há possibilidade de se mover a maquina
judicial para cobranças.
Exemplo: Loteria; Purfing (corrida de cavalos); Competições esportivas (pagamento ao
vencedor de um campeonato).
b) A dívida decorrente de jogos proibidos , como o objeto é ilícito, existe a
nulidade. Assim a dívida de jogo proibido (devido a ilicitude do objeto) não
permitem que a máquina judicial seja utilizada. Dessa forma, quando uma dessas
dívidas for exigida judicialmente, ocorrerá a perda do bem, uma expropriação,
sendo o bem recolhido em favor não do credor, mas sim a uma instituição
beneficente a critério do juiz.
Exemplo: Jogo do bicho; Bingo; Caça níquel; Demais jogos de azar.
c) A dívida decorrente de jogos tolerados , ou seja, jogos que não apresentam
regulação expressa na lei, mas também não são proibidos. Há nesses casos uma
obrigação natural.
Exemplo: Poker; Dominó; Baralho; Etc.

CLASSIFICAÇÃO DAS OBRIGAÇÕES QUANTO AO CONTEÚDO

1. Obrigação de Meio: Na obrigação de meio a prestação do devedor é o emprego de


todos os meios e diligências necessárias para obter determinado resultado. Nessa
obrigação, o devedor se exonera (se libera do vinculo obrigacional) empregando
todos os meios para alcançar o resultado (ainda que tal resultado não seja
alcançado). O devedor não esta vinculado a entrega do resultado, e sim a sua busca,
alcança-lo é uma mera eventualidade. Caso o resultado não seja alcançado, cabe ao
credor insatisfeito provar que não forma adotados os meios necessários para o
cumprimento da obrigação.

Exemplos:
a) A assistência técnica ao tentar recuperar/resolver um dado problema de um
aparelho. O credor quer o concerto do aparelho, a assistência irá tentar resolver
a situação, empregando todos os meios possíveis para tal;
b) A obrigação do advogado é, a priori, de meio, tendo em vista que o advogado
não pode assegurar seu cliente um dado resultado.
c) Consultas e cirurgias médicas, a priori, são obrigações de meio, pois não há
como este confirmar que uma dada enfermidade será curada.

2. Obrigação de resultado: Diz respeito a aquela situação na qual o devedor se


compromete a obter um dado resultado. O adimplemento do vinculo obrigacional
só se dará com a obtenção do resultado. Caso o resultado não seja alcançado, cabe
ao devedor comprovar que o resultando não foi alcançado por fato que não lhe é
imputável (ônus da prova), podendo alegar caso fortuito, força maior, ação de
terceiro, etc..

Exemplos:
a) Caso o advogado celebre com o cliente um contrato de êxito (sucesso,
satisfação), este estará vinculado a uma obrigação de resultado. Tal fato é
chamado de quota litis.

Observação: O contrato firmado entre o advogado e seu cliente com cláusula quota litis,
ou seja, que autoriza o pagamento dos honorários somente quando do final do
processo, ou seja, a remuneração só se dá com base naquilo que foi obtido no processo.

b) Na jurisprudência brasileira há uma serie de julgados os quais coloca o cirurgião


plástico como sendo aquele que apresenta uma obrigação de resultado,
entretanto, tal visão tem sido contestada (não devendo ser tomada como
verdade absoluta), principalmente no que concerne a realização de cirurgias
reparadoras.
Observação: A análise se a obrigação seria de meio ou resultado depende da análise do
caso concreto.

3. Obrigação de Garantia: Diz respeito a uma obrigação de suportar um risco, ou seja,


o devedor cumpre a obrigação ao assumir um risco para o credor. Quando se firma
um contrato de garantia não se aplica o res perit domino, pois o devedor assume o
risco do dano.

Exemplo: Seguradora.