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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

INSTITUTO DE CULTURA E ARTE


CINEMA E AUDIOVISUAL

CONDICIONAMENTO OPERANTE: GRITOS EM UM ROTEIRO DE CURTA-


METRAGEM.

FRANCISCO WALLYSSON DE MENEZES COSTA

Fortaleza – Ceará, JUNHO/2019


UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ
INSTITUTO DE CULTURA E ARTE
CINEMA E AUDIOVISUAL

FRANCISCO WALLYSSON DE MENEZES COSTA

TRABALHO FINAL DA DISCIPLINA DE METODOLOGIA DE PESQUISA EM


ARTES, FILOSOFIA E CIENCIA.

Orientador Pedagógico: Deisimier Gorczevski


Professores: Deisimier Gorczevski e Pedro Cândido
Coordenador do Curso de Cinema e Audiovisual: Samantha Capdeville

Fortaleza – Ceará 2019


SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ………………………………………….……………..…………………...…4
1.1. Considerações importantes sobre o behaviorismo….……………………….......…4
1.2. O Roteiro………………………………………………………................……...……7
2. O CONTATO COM O CAMPO…………………………………………………………....…8
2.1. Textos que antecederam o processo………………………...………...…………..…8
2.2. Pesquisas cinematográfica……………………………...……………………..……..9
2.3. Da conclusão……………………………………………………...………….…….…9
3. O PROCESSO DE ROTEIRIZAÇÃO……………………………...…………………….…11
3.1. Storyline e sinopse…………………………...………..…………………………….11
3.2. Argumento………………………………………...…..………………………….…12
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS………………………………………………………………...13
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS…………………………………….……….……..…14

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1. INTRODUÇÃO
O seguinte texto surge como proposta de trabalho final da disciplina de Metodologia de
Pesquisa em Arte, Filosofia e Ciência, componente da grade do curso de Cinema e Audiovisual da
Universidade Federal do Ceará e visa apresentar o processo de elaboração de um roteiro de curta-
metragem, junto de todas as etapas de pesquisa que o antecedem.
Quando questionado sobre o tema e o tipo de texto que abordaria, uma explosão de ideias
me trouxe certa angústia. Busquei então, analisar o que cada uma tinha em comum e qual se
tornaria mais viável para a disciplina. Era um mês em que o atual presidente iniciava uma chuva de
cortes que afetava um público muito específico ao qual eu estava incluso, a cultura. Era também a
semana em que li um artigo sobre a eleição de Trump e a análise de perfis da internet realizada pela
empresa responsável por sua campanha política. O artigo me trouxe a reflexão sobre o novo
modelos panóptico em que vivemos, frequentemente observados por telas e câmeras. Lembrei de
uma antiga ideia que tive: um roteiro sobre uma espécie de caixa de Skinner para humanos.
Bem, não é de hoje que somos modelados pela mídia para sermos certos e aceitarmos o
óbvio. A mídia dita a moda, o que usamos, o que comemos, o que compramos, pra onde vamos e
quando o fazemos. Não me pareceu uma má ideia relatar e criticar esse sistema expondo de forma
clara e compreensível os mesmos estudos e técnicas utilizados pelos agentes da mídia para realizar
a sua persuasão, as técnicas behavioristas estudadas por Pavlov, Watson e Skinner e que foram tão
úteis nas eleições de Trump, Bolsonaro e diversos outros políticos.

1.1. Considerações importantes sobre o behaviorismo


Antes de relatar o processo, é importante que alguns conceitos do campo da psicologia
fiquem claros para que haja uma boa compreensão do texto. Primeiramente devemos compreender
os conceitos de condicionamento clássico e operante e para tal, precisamos voltar um pouco no
tempo e entender como nasce o behaviorismo.
Com o passar dos anos, nossos ancestrais evolutivos desenvolveram comportamentos físicos
necessários para a sobrevivência da espécie. Os riscos frequentes de um mundo desconhecido,
obrigou a espécie a criar mecanismos de autoproteção que é conceituado por teóricos do
behaviorismo como reflexos inatos. A pupila que dilata quando incide a luz, o coração que acelera
ao ouvir um barulho que lhe assuste, o corpo que começa a suar ao entrar em contato com um
ambiente quente, são exemplos desses reflexos inatos e a maior relação entre eles é a necessidade
de que haja sempre “uma alteração no ambiente que causa uma alteração no organismo (no corpo
do indivíduo)” (MOREIRA e MEDEIROS, 2007, p.17).

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Observando esses reflexos o fisiologista russo Pavlov em suas pesquisas sobre digestão,
descobre a possibilidade dos mesmos serem aprendido. No experimento conhecido como “Os Cães
de Pavlov”, o fisiologista pretendia medir o nível de salivação de um cão a partir de uma variedade
de alimentos. Após algumas sessões, Pavlov notou que o cão passou a salivar a partir da presença
de seu assistente. Pavlov passa então, a estudar a presença de estímulos no meio e a consequente
resposta.
Basicamente, o que Pavlov fez foi emparelhar (apresentar um e logo em seguida o
outro), para o cão, a carne (estímulo que naturalmente eliciava a resposta de
salivação) e o som da sineta (estímulo que não eliciava a resposta de salivação),
medindo a quantidade de gotas de saliva produzidas (resposta) quando os estímulos
eram apresentados. Após cerca de 60 emparelhamentos dos estímulos (carne e som
da sineta), Pavlov apresentou para o cão apenas o som da sineta, e mediu a
quantidade de saliva produzida. Ele observou que o som da sineta havia eliciado no
cão a resposta de salivação. O cão havia aprendido um novo reflexo: salivar ao
ouvir o som da sineta. (MOREIRA e MEDEIROS, 2007, p.31)
Os estudos de Pavlov leva a J. B. Watson, considerado o pai do behaviorismo, a conceituar o
tal. Watson inicia uma severa crítica a psicologia e ao seu objeto de estudo e defende a tese de que o
campo de estudo da psicologia é o comportamento humano e se aprofunda no estudo do estímulo-
resposta iniciado em Pavlov e já explorado por outros teóricos como L. Thorndike, para criar o
conceito de condicionamento clássico. Watson defende a ideia de que o humano é dependente de
seu meio e fruto do mesmo, sendo assim, passível de modelação.
Dê-me uma dúzia de crianças saudáveis, bem formadas, e meu próprio mundo
especificado para criá-los e eu vou garantir a tomar qualquer uma ao acaso e treiná-
lo para se transformar em qualquer tipo de especialista que eu selecione –
advogado, médico, artista, comerciante-chefe, e, sim, mesmo mendigo e ladrão,
independentemente dos seus talentos, inclinações, tendências, habilidades,
vocações e raça de seus antepassados. Eu vou além dos meus fatos e eu admito
isso, mas tem os defensores do contrário e eles foram fazendo isso por muitos
milhares de anos. (WATSON , 1930, p 104)
A partir de seus estudos sobre condicionamento, Watson cria um modelo behaviorista de
aprendizagem a partir do estímulo-resposta. Seus estudos geram diversas discussões ética dentro da
psicologia. O condicionamento clássico não surge como um modelo filosófico que sucinta a
possibilidade de reflexão sobre quem somos e porque somos, mas bombardeia a psicologia com um
discurso pragmático de modelagem do indivíduo e das massas e é a sua teoria quem inicia o
processo de manipulação dentro do campo da mídia.

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Explorando ainda com mais força o campo da modelagem e aprendizagem por
condicionamento, surge então, o teórico que mais importa nesse trabalho, B. F. Skinner e seu
modelo de condicionamento operante. Para objetivar nossa pesquisa, trataremos aqui do
condicionamento operante como um modelo de aprendizagem onde são dispostas as condições de
estímulo necessárias para alcançar determinada resposta, usando os conceitos de reforço (positivo e
negativo) e punição (positiva e negativa).
Reforço e punição visam aumentar ou diminuir, respectivamente, a frequência com que
determinado comportamento acontece. Compreende-se reforço positivo, como a adição de um
determinado estímulo a fim de obter determinado resultado. Um exemplo é quando damos uma
estrelinha para uma criança sempre que ela alcança um bom desempenho na aula, o que a leva a
buscar um bom desempenho frequente para obter novas estrelinhas. Já o reforço negativa diz
respeito a retirada de um estímulo ruim do ambiente, por exemplo, quando tomamos um analgésico
ao sentir uma dor de cabeça e isso reforça o nosso comportamento de tomar analgésicos. Quanto a
punição positiva é uma contingência em que um determinado comportamento gera um estímulo que
reduzirá a frequência do mesmo. Um exemplo é uma criança que toca em um espinho e sente dor,
logo, ela tende a não tocar mais em espinhos. Quanto a punição negativa, retira-se determinados
reforçadores como consequência de um determinado estímulo. Por exemplo, uma pessoa que rouba
e retira-se sua liberdade, ela tende, em tese, a não roubar mais.
Tomando como base as ideias de reforço e punição, Skinner inicia um experimento
denominado Caixa de Skinner e que serve como base para a criação deste roteiro. Skinner define o
homem como “no máximo um lugar em que muitas linhas de desenvolvimento se reúnem em uma
configuração única” (Skinner, 1971, p.209). Assim, se analisarmos como determinado indivíduo se
comporta e passarmos a inserir ou retirar (reforço e punição) estímulos em seu cotidiano, seria
possível modelar o seu comportamento para alcançarmos determinado objetivo. Ele exemplifica
isso em seu experimento em que consiste uma caixa de metal e frente de vidro onde em seu interior
contém um bebedouro, uma barra e um comedouro. Na caixa ele pôs um rato e passou a reforçá-lo
com água e comida, sempre que o ele realizava o comportamento desejado e a puni-lo com um
choque que vinha do chão sempre que ele se recusa a cumprir o comportamento. Exemplificando de
forma mais clara, se o cientista deseja que o rato fique em pé com as patas traseiras, ele tende a
alimentar o rato sempre que ele o faz e a puni-lo caso não o faça em um longo período de dentro
determinado pelo cientista.
O objetivo desse roteiro é metaforizar a caixa de Skinner e a manipulação da mídia,
apresentando um enredo que gira em torno desta mesma caixa de Skinner, mas adaptada para o teste
em humanos.

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1.2. O Roteiro
Esse roteiro surge, principalmente, de uma enorme necessidade que tenho de gritar ao
mundo que não estamos bem. Diariamente eu me pego vendo a mesma imagem desesperadora de
uma mãe preocupada com o que comer, ou com um estudante que está prestes a ter um surto
psicótico enquanto tenta extrair de sua mente o conhecimento que lhe disseram para crê ou negro
estirado no chão com uma bala na cabeça apenas porque é negro e foi confundido com o perigo.
Por vezes li sobre nossa liberdade e de onde ela vem, mas me questiono até onde somos
livres se não podemos escolher quem somos sem que isso seja um grande problema. O modelo
político-social que vinga neste mundo, obriga as pessoas a olharem para um lado específico da
moeda. Todos os dias nos é dito para sermos originais e buscarmos o sucesso, sermos alguém, mas
para isto, precisamos adentrar uma caixa onde está escrito sucesso na tampa e aceitar toda a pressão
que essa caixa exerce sobre nós. Tenho a impressão que antes de qualquer coisa, este roteiro serve
para mim mesmo, para que sempre que eu me pegue vendo meus arquivos eu o encontre e lembre
de todo o processo, de toda a angústia que eu senti durante o processo de pesquisa, porque estou me
sentindo fatigado. Que a caixa onde me enfiaram está ficando cada vez menor para o meu tamanho
e estou sufocado.
Pretendo, dentro desta obra, externar minha inquietação com essa maldita mania humana de
manipular as massas e criar verdades absolutas e usarei uma única ferramenta para isso: a própria
realidade. A ideia é expor de forma metafórica o funcionamento do mundo e esperar para ver como
o mundo reage a isto.

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2. O CONTATO COM O CAMPO
Durante todo o processo de pesquisa me surgiram alguns textos e filmes que me ajudaram a
criar os perfis dos personagens e ambientar o universo do curta. Gostaria de destacá-los a seguir,
expondo o que me modifica em cada um deles.

2.1. Textos que antecederam o processo


Dentro da minha estadia no curso da psicologia, muitos questionamento da ciência entraram
no meu campo pessoal. Já trouxe na introdução deste texto diversos teóricos e artigos dentro do
campo do behaviorismo. Meu desconforto com esses textos é, com certeza, o maior sentimento. A
ciência tem a tendência de tratar o homem como objeto, e por vezes é uma visão compreensível,
levando em consideração que é por onde o campo atua. Mas é a frieza com que se estabelece a
relação pesquisador-objeto que me causa desconforto. Em uma visão ética, o behaviorismo inicia
uma discussão temerosa sobre a alienação, manipulação e modelagem de massas. Não quero, com
essas palavras, julgar ou descriminar os estudos realizados por seus teóricos, menos ainda levar a
reflexão sobre o certo ou errado, quero apenas demonstrar meu espanto com rumo que as coisas
tomaram.
Ora, não consigo lembrar de grandes catástrofes no passado sem conseguir desvincular o uso
do behaviorismo para o mesmo. O holocausto é um ótimo exemplo de condicionamento operante. A
Alemanha do século XX é uma enorme caixa de Skinner que deve ter ênfase neste trabalho, visto o
rumo que minha história tomará. Entre todas as reflexões possíveis, é na fenomenologia que eu
encontro um suporte para o resultado da aplicação deste experimento em humanos.
Me questiono o que, dentro de uma caixa de Skinner, diferenciaria nós humanos, de um
ratinho e a fenomenologia me responde: a razão. O pensar humano, leva o homem a atingir as
coisas sensíveis e corporais e também as realidades imateriais e incorporais. É esta habilidade de
sentir e pensar sobre virtudes, emoções e o próprio tempo, o leva a refletir sobre o estado de prisão
e reagir a tal. Quando observado o ciclo vicioso de nossas vidas, quando o suspendemos e o
observamos em vez de apenas seguirmos, surge em nós a angústia e consequentemente, nossa
liberdade como melhor explica Ferreira quando diz: “a angústia abre para o homem a possibilidade
de ele sair da publicidade do cotidiano e assumir o seu ser, seja com propriedade ou impropriedade”
(2002, p.75). É dentro desta angústia que se forma os personagens, nesta busca por entenderem
quem são, onde estão e o que querem, enquanto se desafiam a escapar da caixa onde lhe puseram.

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2.2. Pesquisa cinematográfica
Tentando entender o que já se havia produzido dentro do campo em questão, retomei a
filmes do qual gosto muito e que estabelecem relação com o meu filme, além de escolhas novas. O
clássico Laranja Mecânica (Kubrick, 1972). É uma obra fantástica, adaptado do livro de mesmo
título, e que gosto muito, onde fica bastante evidente o modelo de condicionamento clássico
proposto por Watson. Um ponto interessante deste filme, é como ele destaca as consequências deste
condicionamento. a sensação de mal-estar vivida pelo personagem Alex após passar pelo processo
de condicionamento, a tentativa de suicídio, me remete a uma sociedade adoecida e pressionada
pelo capitalismo e que resulta em um surto de transtornos psicológicos. com certeza esse é um
ponto que quero abordar em meu roteiro.
Duas outras obras que me ajudaram foram O Experimento de Aprisionamento de Stanford
(Alvarez, 2015) e Whinplash (Chazelle, 2014). A primeira, destaco que é inspirada em um fatos
reais, é cabível a mim levando em consideração a relação de agressividade ao qual os envolvidos no
experimento começam a estabelecer. Essa relação me fez questionar se não faria sentido que o
mesmo acontecesse dentro de minha história, levando em consideração a situação claustrofóbica ao
qual estão envolvidos. Quanto ao segundo, é a ideia de trauma criado pela forma abusiva como o
professor se relaciona com seus alunos, me faz refletir sobre um possível segundo momento após a
saída da caixa onde seriam exposto os traumas adquiridos pelos personagens dentro do
experimento.
Mas é no filme Show de Truman (Weir, 1998) em que encontrei maior identificação. Isso se
dá pela ideia panóptica que o filme estabelece. O personagem Truman, está dentro de um enorme
domo, frequentemente observado, manipulado, vivendo uma enorme mentira e acreditando está
bem, apenas pela sua inocência. É sobre isto que quero escrever, sobre a inocência, sobre estamos
sendo observados e manipulados e sorrimos para as câmeras pois acreditamos que estamos todos
bem, mesmo que não tenhamos a opção de escolher se realmente estamos.

2.3. Da conclusão
Agora que finalizo minha pesquisa, acredito já está ciente do que pretendo fazer. Já sei onde
estão minhas fontes filosóficas e minhas inspirações estéticas. Encontro identificações e
implicações para o desenvolvimento da trama. Estou ciente do que pretendo escrever e os caminhos
que quero traçar, além do que pretende encontrar no final deste processo. Agora me sinto focado,
pronto e bastante ansioso para dar início ao processo de roteirização.
Contudo, me vejo agora no tal estado de angústia. Tenho medo de que minha ansiedade me
leve a cometer o erro da pressa. Ainda por cima, me encontro em um momento de extrema crise

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existencial. O fim do semestre é sempre um momento difícil para todos os estudantes. Me vejo
atolado de trabalhos acadêmicos, profissionais e pessoais que devem ser finalizados o mais rápido
possível. Além disso, minha mente está cansada e com problemas. A caixa que citei anteriormente
parece ter diminuído extremamente. A pressão social, familiar, afetiva e profissional me golpeou e
me vi despreparado por um tempo. Desestabilizado, me vi num estado de espírito enfraquecido e
sem forças para escrever qualquer coisa, o resultado é uma quantidade enorme de tarefas a serem
finalizadas e um tempo muito curto para concluí-las.
Ora, iniciei esta disciplina com a intenção de apresentar um roteiro em sua conclusão, mas
agora estou correndo para entregar o máximo que conseguir. Assim, descreverei não mais todo o
processo de roteirização, visto a impossibilidade de finalizar este roteiro dentro do cronograma da
disciplina, mas apresentarei o processo de escrita das etapas que já finalizei: storyline, sinopse e
argumento.

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3. O PROCESSO DE ROTEIRIZAÇÃO

Visto as diversas formas possíveis de se escrever um roteiro, utilizo um modelo comum de


escrita que muito me agrada, principalmente, por ser possível observar a evolução do seu texto.
Inicialmente descrevo a história e uma linha, que chamo de longline, em seguida, transformo essa
linha e um pequeno parágrafo de até 4 frases, que chamo de storyline. Daí, transformo o storyline
em uma sinopse, uma breve descrição da história e a sinopse em um argumento, um que contém
todas as informações narrativas da trama.
Uma outra forma é escrever uma sinopse; uma síntese narrativa do que
acontece em sua história incorporando alguns diálogos; uma sinopse pode
ter de 4 a 20 páginas, também se usa o argumento, especialmente em
televisão, onde você conta a história numa detalhada progressão narrativa da
trama; diálogo é parte essencial do argumento, que tem entre 28 e 60
páginas. (Syd Field, 2001, p.141)
Só então inicio o processo de transformar o texto literário em um roteiro, com a escaleta.
Esta etapa consiste em quebrar o argumento em cenas, com uma breve descrição delas e por fim o
roteiro, adição de diálogos e de descrição detalhada das ações.

3.1. Storyline e sinopse


Após fechar meus olhos e imaginar as primeiras imagens desta história, chego a seguinte
longline: um homem acorda sem memória em um quarto branco.
Trabalhando melhor essa longline, comecei a me questionar por qual caminho eu queria que
a história andasse. Me dei conta do óbvio. Fiquei tão preciso em criar uma percepção lógica e
coerente do experimento, que me desprendi das linhas narrativas e não me preocupei com elas em
momento algum.
É aqui que eu retorno ao começo de tudo e me pego pensando sobre o que é essa história.
Sobre o que estou escrevendo? Concluo: se quero falar sobre agressividade, sobre manipulação, se
quero descrever uma situação traumática, se quero expor os gritos que damos dentro de nossas
caixas, talvez eu precise criar um conflito visível ali, não apenas uma ideia abstrata.
Minha história começa a ganhar forma, agora entendo que quero falar sobre dois
personagens. Os estímulos apresentados pelos cientistas, que nunca aparecerão nessa história,
deverão deixar evidentes um conflito entre eles. Minha história é então, sobre duas pessoas que
acordaram dentro de uma caixa branca e que receberam frequentes estímulos (reforços e punições)
quando realizam movimentos específicos. Nada está muito claro para eles, nada faz muito sentido,
mas quando, em uma situação de extrema fome, um deles age de forma agressiva e recebe comida

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por isso, eles percebem que a real intenção daquilo tudo é fazer eles brigarem entre si e que talvez
matar um ao outro seja a única forma de conseguir escapar daquele lugar.

3.2. Argumento
Em linhas narrativas, me dei conta de um grande problema. Há como eu fazer uso do tempo,
não como eu expor se é dia ou noite e consequentemente demonstrar passagens de tempo. Retornei
as minhas referências cinematográficas e aderi a mesma técnica utilizada no filme Experimento de
Aprisionamento de Stanford, onde o filme é dividido em dias que são apresentados através de
cartelas. Começo então a pensar quanto tempo seria preciso para que um humano respondesse a
modelagem. Visto a quantidade de questões a serem consideradas (desde a visão de mundo de cada
um a até fatores cognitivos), acabei me apegando a fatores biológicos e estudos sobre fome e
agressividade.
A divisão do tempo evidencia o período em que os personagens se encontram sem se
alimentar. Considerei então a possibilidade de dividir o filme em 5 dias, onde o primeiro diz
respeito a introdução dos personagens, o segundo é uma apresentação do ambiente e recebimento
do primeiro estímulo, uma pequena quantidade de comida, após o personagem se machucar na
barra. Ao receber este estímulo, os personagens começam a acreditar que se a intenção é destruir o
lugar e iniciam uma série de ataques a caixa, onde são frequentemente punidos com choques
elétricos. O terceiro dia é onde a fome começa a apertar e um dos personagens chega a desmaiar.
No quarto dia, o segundo reforço, uma pequena quantidade de água, é fornecida após um
personagem gritar com o outro, fica evidente a necessidade da briga para se manterem vivos, mas
elas se recusam. Só no quinto dia, após uma longa vigília, visto o medo de serem mortos enquanto
dormem, é que o estresse, a fome e a sede levam os dois personagens a entrarem e um conflito
intenso em que um deles morre e a caixa se abre.
Surge em mim, aqui, já no argumento, uma necessidade de dar continuidade a essa história,
com um segundo curta-metragem que explica o que aconteceu após a abertura da caixa, expondo a
descoberta do experimento, da realidade e a frequente paranoia de chara está sendo observado o
tempo todo.

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4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Foi um processo gratificante, sem dúvidas. Durante toda essa análise do processo, me dei de
cara com vários Wallys diferente. Pus meus próprios questionamentos em questão. Repensei sobre
o que eu acredito, sobre quem sou e entrei em conflito comigo mesmo. Repensei e agora estou aqui:
outro Wally complemente diferente.
No início da orientação me foi sugerido para leitura o texto, por sinal incrível, pensamento,
corpo e devir, da Suely Rolnik em que ela leva ao questionamento o repensar as memórias. Ela usa
um conceito de marcas que pode, perfeitamente bem, definir todo o meu processo de construção,
não só deste trabalho, mas também de vida.
Dentro deste conceito, Suely destaca que as marcas se atualizam e essa atualização nos leva
a criar um novo corpo que será marcado mais na frente. Esse trabalho, acaba por gerar em mim um
novo corpo, que me tira de meu corpo antigo, mas não o abandona, apenas o atualiza e me constrói
como estou agora, mas não estarei em alguns anos. Me sinto, de certa forma, ainda incompleto, o
que é ótimo, pois isso faz nascer em mim o sentimento de ir em busca de mais.
O processo de criação deste roteiro, me ajudou a analisar mais uma vez a condição do
mundo. Me fez surtar com as indagações sobre a minha existência e me trouxe um questionamento
do que quero. Me fez refletir sobre o estado de imposição da mídia sobre uma tal verdade absoluta e
reforçou em mim o sentimento de desagrado quanto a isso. Reforçou em mim a vontade por ir
embora, por sair da caixa de Skinner em que me botaram, por gritar que é injusto está nesta caixa, é
injusto correr nesta roda, é injusto apenas morrer sem ter vivido o seu máximo. Mais que isso, esse
trabalho me deu vontade de gritar ainda mais que estou vivo e que quebrarei quantas caixas forem
preciso.

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5. Referências Bibliográficas

1. MOREIRA, Márcio Borges; MEDEIROS, Carlos Augusto. Princípios Básicos de Análise


do Comportamento. São Paulo: Artmed, 2006.

2. WATSON, John B. Behaviorismo. [S. l.: s. n.], 1930.

3. SKINNER, B. F. Some contributions of an experimental analysis of behavior to


psychology as a whole. The American Psychologist, v. 8, n. 2, p. 69-78, 1953.

4. FERREIRA, Acylene Maria Cabral. Culpa e angústia em Heidegger. Cogito, Salvador, v.


4, p. 75-79, 2002. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S1519-94792002000100012&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 16
jun. 2019.

5. FIELD, Syd. Manual do roteiro: os fundamentos do texto cinematográfico. Rio de


Janeiro: Objetiva, 2001.

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