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O Trabalhador e as Condições de Trabalho nos Séculos XVIII e XIX
Marcus Vinicius Rodrigues IN: Qualidade de Vida no Trabalho Ed. Vozes, 2000. 8ª Edição, Cap. 2

Tomando como ponto de partida as primeiras manifestações da Revolução Industrial, com as devidas repercussões nos métodos de produção, explicitamos os principais posicionamentos dos cientistas da época sobre as formas de produção e sobre a expectativa de comporta- mento do indivíduo diante do trabalho. Adam SMITH, com sua proposta para a racionalização da produção, seguido de Robert OWEN, Henry POOR e Frederick TAYLOR, este último com sua Administração Científica, são alguns dos cientistas abordados neste capítulo.

As primeiras manifestações: homem x produção No início do século XVIII houve uma grande mudança nos processos industriais. A população mundial crescia aceleradamente, o mercado consumidor estimulava a produção em grande escala e induzia o aprimoramento tecnológico. A mão-de-obra tornava-se abundante: parte, devido ao crescimento populacional; parte proveniente do meio rural. A Inglaterra detinha a hegemonia tecnológica. Com as conquistas coloniais e o domínio dos mares, os ingleses tinham o indispensável para ativar suas indústrias: o mercado consumidor e o transporte.

BENTHAN. No levantamento bibliográfico que realizamos. OWEN aparece como o pioneiro de métodos para humanizar as condições de trabalho no interior da fábrica. Com os inventos de John KEY (a lançadeira volante). salários suportáveis e educação para os filhos de seus operários" (p. . 1981). 1794. Com relação ao salário. com o melhor desempenho produtivo. silenciosa e incessante. O "acúmulo de capital" era a palavra de ordem entre os donos de fábricas e comerciantes (TREVELYAN. TOWNSEND. reflete muito bem o pensamento da época. de forma prática. 58). O trabalhador vivia em condições desumanas. se fazia necessária uma mudança nos processos produtivos para dinamizar a manufatura (SMITH. O liberalismo clássico servia de base teórica e filosófica sobre a natureza e comportamento do homem e como orientação dos processos produtivos. HOBSBAWN.3 também citado por HUNT & SHERMAN (1986). . surgiram as primeiras preocupações com a racionalização da produção e com o comportamento do trabalhador diante de sua tarefa. onde suas necessidades básicas não eram consideradas. As jornadas de trabalho chegavam a 18 horas diárias (MALTHUS. Neste contexto. 1976). 58). OWEW. A melhor qualidade de vida na fábrica foi então correlacionada. .2 citado por HUNT & SHER. Diz RICARDO que "o salário deve ser o preço necessário para que o trabalhador subsista e perpetue sua classe. BARBEIRO. Richard ARKWRIGHT (o tear hidráulico). A especialização das etapas da produção foi vista pelo autor como eficiente meio para a maior destreza do trabalhador e a minimização do tempo de produção. foi provavelmente o primeiro dono de fábrica a "proporcionar condições decentes de trabalho. James WATT (a máquina a vapor). somente o aguilhão da fome tange os trabalhadores para o trabalho" (p. é contundente ao afirmar que "a fome não apenas exerce uma pressão mansa. como também obriga aos mais intensos esforços. 78). 1946).1 citado por MALTHUS (1946). 1967. 188). RICARDO. 4citado por HUNT & SHERMAN (1986).As indústrias se modernizavam.MAN (1986). afirma que o trabalhador possuía aversão ao trabalho e que "emoções como o amor ou o desejo é o ócio" (p. sem aumento ou redução" (p. James HARGREA VES (a "spinning Jenny"). O trabalhador tinha assim uma vida no trabalho. SMITH (1794) foi um dos grandes incentivadores da racionalização da produção. .

uma relativa satisfação no trabalho. passaram a ser teorizados timidamente e. 1980). 1966. disseminado em outros empreendimentos da mesma natureza em território americano. causada pela especialização. foi defendida por MIIJ. fatores que afetavam diretamente a vida do trabalhador no local de trabalho. POOR. A motivação econômica. os Estados Unidos viveram grandes mudanças..5 citado por LODI (1978). foram expostas por MARSHALL (1936). em algumas poucas empresas. o coordenador deste empreendimento. O Sul. A fácil comunicação entre os trabalhadores dos diversos níveis. As preocupações com a monotonia. que sugere ainda um salário proporcional à produção de cada trabalhador .1sto sem dúvida motivou e deu alguma satisfação ao trabalhador. considerava a monotonia um mal de primeira ordem na divisão do trabalho. os salários proporcionais ao desempenho de cada trabalhador e um ambiente de trabalho. poderíamos até afirmar. surgia também como um novo mercado para os produtos industrializa. através da especialização. 1868. mesmo sendo a favor deste processo de produção. A expansão das estradas de ferro no território americano constituiu-se em um dos maiores empreendimentos da época. Os métodos aplicados pelo engenheiro ferroviário Henry POOR. 1976. a explicitação constante dos grandes objetivos das estradas construídas. O trabalhador na visão de Taylor Após a Guerra Civil. . A divisão da tarefa. que induzia liberdade e desbravamento. Mesmo sem afetar a prática dos processos produtivos. A partir de seu "modelo". passou a dominar e a influenciar os métodos produtivos do Sul. com a vitória. Um exemplo notável ocorreu nos Estados Unidos no final do século XIX. POOR proporcionou a seus trabalhadores uma grande motivação e. MAIOR.dos (BARBEIRO. O Norte industrial. além de contribuir com a liberação de mão-de-obra para a indústria. o trabalhador passou a ser motivo de preocupação e questionamento. agrário e escravocrata. serviram de preparo para o posterior surgimento da Administração Científica de Frederick TAYLOR. CORIAT. tomou como diretriz para uma maior eficiência três fatores: a organização. que. a comunicação e a informação. fizeram com que os trabalhadores sentissem que estavam realizando algo significativo e que estavam sendo valorizados. (1965).A eficiência da produção continuou sendo muito questionada no século XIX. a melhoria do ambiente de trabalho e a monotonia com a especialização. considerados de forma prática.

que abandonou o caminho profissional previamente defendido. Mas havia um grande problema: os processos produtivos. Vindo de família de classe média superior da Nova Inglaterra. Empiricamente. voltada para a produção individual. utilizando-se da mão-de-obra do trabalhador não especializado. 1978). O mercado e a expectativa para o consumo de produtos industrializados. BRAVERMAN (1980) diz que: “. 1961. 1980). nos quais escamados o conhecimento adicional e as perícias de seus ofícios” (p. essas primeiras oficinas eram simplesmente aglomerações de pequenas unidades de produção. como lembra MALTHUS (1946). pesquisou métodos e deduziu formas mais eficientes para o desempenho das máquinas e dos trabalhadores. a indústria assumiu o controle do processo produtivo e pôde aumentar substancialmente sua produtividade e produção. Assim. interna ou externa. CORIAT. de modo que o trabalho permanecia sob imediato controle dos produtores. Esse é o quadro que TAYLOR encontra para aplicações de suas idéias sobre produtividade da produção. refletindo pouca mudança quanto aos métodos tradicionais. existiam. Frederick Winslow TAYLOR. aproveitado na produção americana a partir de TAYLOR. que também eram chamados de trabalhadores profissionais. a divisão do trabalho em tarefas simples e previamente definidas. Vale ressaltar o perfil do trabalhador não especializado. ou seja. tinham o “conhecimento total” do “fazer” e constituíam um grupo dominante na indústria (CORIAT. TAYLOR (1987) estabeleceu e compôs técnicas para uma administração.Na Europa. como base para um maior e melhor desempenho global da indústria. era bloqueada pelos artesãos. Advocacia. Com os princípios de TAYLOR. na época. uma grande crise de desemprego. vivia-se. a Midvale Steel Co. a utilização da mão-de-obra não especializada passou a ser amplamente possível e viável. A partir de métodos empíricos. O que motivou milhares de trabalhadores a emigrarem para os Estados Unidos (REMOND. 61). (LODI. A “arte de fazer” não era propriedade da indústria. A produtividade era baixa e a introdução de trabalhadores não especializados.. 1980). em particular na Inglaterra. que formavam a grande massa trabalhadora. Os artesãos. iniciou seus trabalhos como simples operário em uma siderúrgica de amigos da família. Eram imigrantes ou sulistas que tinham como experiência de vida as condições . A mão-de-obra não especializada era abundante e barata..

. esses gêneros de trabalhos" (p. 32). uma melhor Qualidade de Vida no Trabalho e serviram de base para o atual estudo do comportamento humano no trabalho. habituando-os a desempenhar os tipos de trabalhos mais elevados.). FORD (s. preocupações não só empresariais. indivíduos com poucas aspirações profissionais. diz TAYLOR: “Prosperidade para o empregado significa. TAYLOR valorizou o trabalhador e lhe deu condições de ganhar proporcionalmente a sua produção. A princípio. A filosofia proposta era a racionalização da produção. considerando o contexto da época.d. Os valores introduzidos por TAYLOR aparentemente proporcionaram ao trabalhador. apresentadas pelo taylorismo. mas também sociais. 1964. a produtividade e a motivação econômica do trabalhador. para os quais tenham aptidões naturais e atribuindo-lhes. as críticas aos métodos de trabalho e principalmente à forma como o taylorismo abordou o trabalhador são constantes. O taylorismo e o fordismo proporcionaram aos trabalhadores da época melhores condições de trabalho. Tanto no aspecto motivacional como no projeto do cargo e ambiente físico de trabalho. A forma racional de execução das tarefas. com este marco. A respeito da "prosperidade" do trabalhador. além de salários mais altos do que os recebidos habitualmente pelos obreiros de sua classe. sem dúvida. PERROW. acreditava que uma das necessidades básicas para a "prosperidade" do trabalhador era os aspectos físicos do local de trabalho. trazendo. criticar a sua administração científica. Alguns tentam entender TAYLOR no contexto atual e. podemos ver na "atitude" de TAYLOR. na época. sociais e alienados quanto aos direitos a melhores condições no trabalho. introduzida no início deste século (ETSIONI. que foi um adepto do taylorismo. levou o trabalhador a um desgaste físico quase desumano. na administração científica. FORD defende que uma "condição essencial para conseguir unir o melhor rendimento à maior humanidade na produção é dispor de acomodações amplas. vividas em seus países de origem ou a "escravidão" nas propriedades rurais do Sul. Logo. 1972). o aproveitamento dos homens de modo mais eficiente. mas. numa visão atual. sempre que possível. limpas e devidamente ventiladas" (p. Hoje. tornou a tarefa mais significativa.desumanas. como produtos finais. 93).

Harper & Row. 5 POOR. Assim as idéias de TAYLOR ainda estão vivas.Entretanto a Administração Científica "foi assim uma das idéias pioneiras. Life of Robert (New York. David. Editado por Willian MILLER. 84). hoje. Knopf. p. naquele tempo. The evolution of Liberalism. Tais posicionamentos não negam que a motivação econômica proposta pelo taylorismo. hoje. 3. O taylorismo não mais existe como taylorismo como tão apropriadamente afirma George SAULE6. a Qualidade de Vida no Trabalho. 74.N. p. 3 TOWNSEND. 1963. libertadoras. 84). p. ele. Principles of po1itical economy. p. Com outros títulos ou rótulos ou inseridas implicitamente nas diversas escolas sociais ou de produção. 111). não mais é suficiente para manter o trabalhador comprometido com a eficácia e produtividade organizacional ou a levar o mesmo a ter uma satisfação no trabalho. desapareceu na grande depressão dos anos 30. 2 . New York. que se tenha difundido e se tomado amplamente aceita. BRAVERMAN (1980) critica a noção popular de que "o taylorismo foi superado por escolas posteriores de psicologia industrial ou relações humanas" (p. 1952. S. o conhecimento dele tinha-se difundido na indústria e seus métodos de filosofia eram lugares comuns em muitas escolas de engenharia e de administração" (p. p. BENTHAN. 1952. Logo não podemos desprezá-las ao analisarmos. 132). Henry. New York. seria impossível o verdadeiro estudo dos seres humanos no trabalho" (DRUCKER. Economic forces in american history. 83). 1920. New York. Cap. Collier. venha a desaparecer como seita" (p. A interpretação do que disse SAULE é feita por BRAVERMAN ao afirmar: "o taylorismo está obsoleto ou superado apenas no sentido em que uma seita. Joseph. 1 RICARDO. New York. 4 A abordagem feita por HUNT & SHERMAN tem como base a obra de M.. Sem ela. “como movimento distinto. 1972. Jeremy. Reinhard. 1963. BEER.T. Harper & Row. 5. mas. George. provavelmente pela expectativa de maiores recompensas ou mesmo pelo fato de se manter ou conseguir um emprego. Citado por GNERZ. In: Men is business. 6 SAULE. Work and authority in industry. Citado por BENDIX. Qualidade esta deflagrada no início do século. 86. H. 241. citado por BRAVERMAN (1980). p. 3 ed.K.

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