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Senso comum e senso crítico - as concepções de educação e de sociedade e as teorias educacionais

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Senso comum e senso crítico: as concepções de educação e de sociedade e as teorias educacionais

Senso comum e senso crítico: as concepções de educação e de sociedade e as teorias educacionais
Rogério da Silva Santos

Senso comum e senso crítico

Em Filosofia ocorre sempre a discussão sobre o que é senso comum e senso
crítico, o que, de certa forma, orienta rumos a serem tomados nesse campo do saber.

Quando

observamos a Filosofia da Educação, tal colocação não poderia ser

diferente: todos os estudos relacionados às concepções de educação e de sociedade desenvolvidos no Brasil e no mundo vão partir desses dois tipos de conhecimentos que muitas vezes mesmo não são bem caracterizados pelos próprios educadores.

Pode-se estabelecer uma relação do que é senso comum com a tradição, com o
pensamento preconceituoso, acrítico, sentimental, imobilista, superficial, ametódico, particular, fragmentário e utilitário, prático.

Nesse sentido, o senso comum – chamado por Paulo Freire (2002) de curiosidade
ingênua – não contribui para o entendimento da sociedade e de seus movimentos característicos, sendo como o fundo da caverna no mito criado por Platão.

Não que algumas dessas características do senso comum não sejam importantes
ou mesmo necessárias à vida social, mas de modo geral, não contribui para a formação de novas consciências e responsabilidades.

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Concepções de educação e de sociedade e teorias associadas Segundo Luckesi (2011). tem relação com o pensamento que. e que a inteligência – ou as inteligências – é característica de nossa espécie. podendo ser associado à fuga da “caverna”. O desenvolvimento da criticidade de um indivíduo está associado à transposição do estado de senso comum deste para um estado de senso crítico. ainda que em níveis diferentes. de forma consciente e responsável. do questionamento constante. Paulo Freire (2002) chama o senso crítico de curiosidade epistemológica e esse tipo de pensamento contribui para um melhor entendimento da sociedade e de seus movimentos. da investigação metódica. que são. na verdade. formas de compreensão da educação e seu direcionamento: redentora. da “escuridão” segun do o mito de Platão. tanto a educação quanto a sociedade são compreendidas por meio de três concepções. o que permite enfrentar novos desafios e conflitos. 2 . o permite desenvolver novas aprendizagens por meio da busca consciente. da sensibilidade.Senso comum e senso crítico: as concepções de educação e de sociedade e as teorias educacionais Já o senso crítico. E vale dizer que todo ser humano tem sim algum nível de consciência. tendências filosófico-políticas. reprodutora e transformadora. por sua vez. E os conhecimentos resultantes do senso crítico são revestidos de sentido e de significado. entendendo o indivíduo como ser cultural.

portanto. que é a própria sociedade. que não se encontram no seio funcional dessa sociedade. 3 . como se a escola e a educação estivesse numa “redoma de vidro”. tenham ou não a população e os educadores consciência disso. contribuir para um estado de “opressão” (FREIRE. portanto. Em outras palavras. 1987) dos indivíduos que não pensam nem constroem essa sociedade. mas que apresenta certos indivíduos ou grupos de indivíduos. A concepção redentora considera a sociedade “como um conjunto de indivíduos que vivem e sobrevivem num todo orgânico e harmônico” (LUCKESI. se esse “todo” é orgânico e harmônico e todos devem ser integrados a ele. não existe de forma alguma sob a ótica da “neutralidade”. sempre existe um “querer” que orienta a educação. a discussão sobre a sociedade não se encontra em pauta: ninguém é levado. Todas as práticas educacionais que não promovem o desenvolvimento da criticidade dos indivíduos (aí não sendo tratados como sujeitos) encontram-se amparadas por essa concepção redentora de educação que tem o objetivo de “redimir” a socied ade e que podem ser compreendidas por uma teoria “acrítica” (não crítica) de educação . a pensar sobre a sociedade. inclusive as novas gerações. 1987) e que. consequentemente. que estão à sua margem. ou seja. o que pode. “salvando-os” dessa marginalização. o que importa para a concepção redentora de educação e de sociedade é integrar esses indivíduos ou grupos de indivíduos ao todo social. desconsiderando o contexto no qual tal educação está inserida. 2011). totalmente distinta da sociedade. de alienação sobre as verdadeiras estruturas e funcionamento da sociedade. Contudo. Logo. o que facilita a permanência num estado de senso comum.Senso comum e senso crítico: as concepções de educação e de sociedade e as teorias educacionais É preciso lembrar que a educação é um “ato político” (FREIRE.

ou seja. Por isso a teoria que a fundamenta é chamada de crítico-reprodutivista (SAVIANI. 1987). prende-se à questão da reprodução e não observa alternativas de ação: a educação apenas é utilizada para reproduzir seus próprios condicionantes. uma vez que o objetivo da concepção reprodutora não é reproduzir a sociedade. Embora seja uma concepção de fundamentação marxista e.Senso comum e senso crítico: as concepções de educação e de sociedade e as teorias educacionais A concepção reprodutora já compreende a educação como parte da sociedade. as classes dominantes se utilizam da educação para tentar manter o status quo. mas denunciar a reprodução da sociedade por meio da educação: para os pensadores “reprodutores” (ou que denunciam essa reprodução da sociedade). portanto. se possível perpetuando-a. a estrutura da sociedade. não a redimindo. mas reproduzindo-a. crítica. existe aí uma pequena confusão. 4 . Na verdade.

proporcionando-lhes o desenvolvimento de seu senso crítico. os interesses das classes dominantes. a concepção transformadora de educação e de sociedade parte do princípio de que a educação não precisa estar sempre em favor das classes dominantes. Essas teorias explicam. até porque não apontou soluções para o problema da reprodução. de Establet e Baudelot.Senso comum e senso crítico: as concepções de educação e de sociedade e as teorias educacionais A concepção reprodutora não produziu práticas pedagógicas. 2011). deve-se entender que a educação não manterá ou mudará nada sozinha. 5 . Logo. mantendo-se apenas na crítica a essa reprodução das estruturas da sociedade. cada qual ao seu modo. . todas de cunho filosófico-sociológico. tais mudanças somente são possíveis se houver um envolvimento real e consciente de todos os sujeitos. compreender que a educação sempre será apenas um meio ao lado de muitos meios para que cumpra o papel colocado no seu projeto social (LUCKESI. pois. ela não reproduz nem redime a sociedade: dependendo do projeto social ao qual estiver vinculada. Entretanto. . que são as seguintes: . a educação deve ser entendida como mediação de um projeto social. de Pierre Bourdieu e Passeron. ela pode ser conservadora ou transformadora. Se a transformação da sociedade é pretendida nesse suposto projeto. Por fim. assim. de sua criticidade. sua conscientização e consequente fuga do estado de alienação. a educação pode sim estar em favor de mudanças significativas. pode ser observada por meio de algumas teorias menores – não num sentido pejorativo. Contudo. É preciso. de Louis Althusser. por si. porém. que pode ser pensada segundo um projeto de sociedade.Teoria da Escola Dualista. como que a educação é utilizada para manter o status quo. em outras palavras. claro – oriundas do pensamento neomarxista da chamada Escola de Frankfurt. uma vez que faz parte de um sistema social maior e complexo.Teoria da Violência Simbólica.Teoria dos Aparelhos Ideológicos do Estado. as estruturas da sociedade e.

Todas as práticas educacionais decorrentes dessa concepção transformadora de educação e sociedade contribuem para o desenvolvimento da criticidade dos indivíduos. as três concepções de educação e de sociedade estariam assim representadas: CONCEPÇÕES TEORIAS TEORIAS ASSOCIADAS OBSERVAÇÕES Produz práticas pedagógicas nas salas de aula que não desenvolvem o senso crítico dos educandos. pois vê a educação apenas a serviço das classes dominantes e da reprodução das estruturas da sociedade. responsáveis de seus sujeitos também históricos. permitindo sua conscientização e a assunção de novas responsabilidades. uma vez que essa considera a sociedade como perfeita e que basta à educação integrar as pessoas a essa sociedade. de novas práticas. Num quadro. REDENTORA NÃO CRÍTICA (ACRÍTICA) - APARELHOS IDEOLÓGICOS DO ESTADO REPRODUTORA CRÍTICO-REPRODUTIVISTA VIOLÊNCIA SIMBÓLICA ESCOLA DUALISTA TRANSFORMADORA CRÍTICA - Conhecer tais concepções de educação e de sociedade pode contribuir para ações mais conscientes e responsáveis de educadores e de instituições de ensino. A concepção transformadora está vinculada a uma teoria crítica. de novas e significativas ações em relação à sociedade. Produz práticas pedagógicas na sala de aula que desenvolvem o senso crítico dos educandos. considera a concepção reprodutora pessimista. prendendo-se à critica da reprodução da sociedade por uma educação comprometida apenas com os interesses das classes dominantes.Senso comum e senso crítico: as concepções de educação e de sociedade e as teorias educacionais Saviani (1987) considera a concepção redentora otimista. Não produziu práticas pedagógicas nas salas de aula. 6 . portanto. crítica e válida a todos os sujeitos da sociedade. uma vez que observa as estruturas da própria sociedade e seus condicionantes históricos para buscar ações mais conscientes e. preferencialmente no desenvolvimento de uma educação transformadora. Mas a concepção transformadora é vista como a possibilidade de novos horizontes.

_______. São Paulo: Cortez. P.Senso comum e senso crítico: as concepções de educação e de sociedade e as teorias educacionais REFERÊNCIAS: FREIRE. 7 . C. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 2011. São Paulo: Paz e Terra. 1987. São Paulo: Cortez / Autores Associados. P. Filosofia da Educação. D. Pedagogia da Autonomia. Observação: ilustrações retiradas da Internet. Escola e democracia. Pedagogia do Oprimido. 1987. 2002. LUCKESI. SAVIANI.

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