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DIREITO DAS SUCESSÕES 2017/2018

Programa desenvolvido e calendarização

AULAS 1 /2
I INTRODUÇÃO AO DIREITO DAS SUCESSÕES
1. O Direito das Sucessões
O Direito das Sucessões como parte do Direito Civil.
O sentido do Direito Civil como disciplina ao serviço do livre
desenvolvimento e realização da pessoa nas suas relações com as outras
pessoas; a autonomia da pessoa, poder de autodeterminação e igualdade.
2. O problema do Direito das Sucessões e o seu fundamento
2.1. O problema sucessório
A rutura provocada pela morte e o problema da atribuição das relações
patrimoniais transmissíveis de que era titular o de cuius. Uma abordagem
contemporânea e funcional do problema sucessório: o problema da
“atribuição” do património – em sentido global e jurídico - do falecido.
2.2. Fundamento do Direito Sucessório e conceito de sucessão mortis
causa.
Uma perspetiva do fundamento do Direito das Sucessões coerentemente
articulada com os princípios constitucionais: o reconhecimento do direito
fundamental à propriedade privada e à sua transmissão em vida e por morte
(artigo 62º, n.º1, da CRP). Um conceito de sucessão mortis causa prática e
sistematicamente adequado: a “aquisição” como liberalidade do património
do falecido.
Rejeição da teoria da continuação da pessoa do defunto pelo seu herdeiro. O
significado do preceito consagrado no artigo 71.º, n.º 1: proteger o interesse
que pessoas vivas têm na integridade da pessoa moral do falecido; a proteção
é limitada às providências adequadas, não havendo lugar a direito de
indemnização (HÖRSTER, A parte geral....1992, p. 302).

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3. O sistema sucessório português
3.1 Caraterísticas gerais do sistema
O direito fundamental à propriedade privada e à sua transmissão por morte,
com consagração constitucional (art. 62.º CRP) é assegurado, no plano da
legislação ordinária, pelo princípio do direito de dispor por testamento e pelo
primado da sucessão testamentária, combinado com a consagração de uma
quota indisponível reservada aos herdeiros legitimários com a finalidade de
realizar um princípio de solidariedade familiar (a Família, como célula
básica da sociedade, é protegida pela CRP, designadamente, no artigo 67.º).
3.2. Raízes históricas do sistema
O atual Direito sucessório português faz parte da chamada família romano–
germânica. As suas notas individualistas remontam ao Direito romano, sendo
o direito de dispor por morte corolário do direito de propriedade; e a quota
indisponível ou legítima entronca nos elementos de natureza familiar do
Direito germânico, assegurando a permanência de um “património familiar”.
Os aspetos estruturais básicos da regulação da sucessão mortis causa foram
recebidos da tradição romanística pela nossa cultura jurídica, sobretudo da
regulação justinianeia tal como foi acolhida nas codificações do período
liberal: liberdade testamentária, herdeiros legitimários, sucessão ab
intestato, proibição da propriedade “vinculada”, princípio da obrigação de
pagamento das dívidas do defunto cum viribus hereditatis.
3.3 Integração do sistema português nos grandes sistemas ou família de
Direitos
3.4 Sistematização do Código Civil português de 1966 e suas limitações
O Direito das Sucessões integra uma das divisões do Direito Civil, de acordo
com a impropriamente chamada classificação germânica que preside à
arrumação das normas no atual Código Civil português. Inspirado no BGB
alemão e no sistema das pandectas, o Código Civil de 1966 segue um critério
de divisão baseado no conceito de relação jurídica, surgindo o Direito das

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Sucessões em último lugar1. A principal crítica dirigida a essa
sistematização, é sobretudo exposta no campo do Direito das Sucessões, uma
vez que as suas normas não regulam uma categoria própria de relações
jurídicas.
A relação jurídica sucessória distingue-se pela sua causa: aquisição de
direitos e deveres com causa na morte.
3.5 A relevância do conceito de liberalidade (atribuição patrimonial
gratuita).
O Direito das Sucessões está intimamente ligado ao regime das liberalidades.
O Código Civil não afirma expressa e explicitamente um conceito unitário
de liberalidade (ato de atribuição patrimonial a título gratuito), encarando o
ato liberal na sua veste mais comum de contrato de doação e de testamento
(negócio jurídico unilateral), que são os atos de disposição de bens a título
gratuito mais relevantes. A gratuitidade exprime-se como intenção liberal,
residindo na falta de correspetivo do ponto de vista económico. O conceito
de atribuição patrimonial abrange os atos de disposição (alienação de bens),
mas também atos de oneração, realização de despesas, remissão de dívidas e
outras atribuições que não envolvem propriamente uma transferência
patrimonial.

1
O plano de ordenação da matéria civilística conhecido por plano de Gaio ou romano
francês, que dividia o Direito Civil em três partes: pessoas (a pessoa e a família), coisas
(direitos reais) e ações ou modos de adquirir (as sucessões por morte, as obrigações e os
contratos). O Código português de 1867, se bem que influenciado pelo modelo francês,
consagrou uma sistematização original, partindo do homem como sujeito de direitos e
traçando aquilo a que se chamou uma biografia do sujeito jurídico (cfr. CARLOS ALBERTO
DA MOTA PINTO, Teoria Geral do Direito Civil, 4ª Edição (por António Pinto Monteiro e
Paulo Mota Pinto), Coimbra Editora, 2005, p. 28 e 29). No Código de Seabra as Sucessões
apareciam reguladas na Parte II, como referentes a direitos que se adquirem por mero
facto de outrem e direitos que se adquirem por simples disposição da lei. O Código Civil
de 1966 afastou o sistema do Código anterior adotando a chamada sistematização
germânica, modelo que a doutrina portuguesa já vinha a seguir desde Guilherme Moreira
(cfr. CAPELO DE SOUSA, ob. cit., 2000, pp. 15-16, referência em nota sobre as
sistematizações dos Códigos Civis portugueses de 1867 e de 1966).

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As liberalidades feitas em vida têm importância sempre que existem
herdeiros legitimários, situação em que terão de ser imputadas numa das duas
quotas (disponível e indisponível) em que se divide a herança, a fim de
salvaguardar a sua liberdade de dispor e preservar as liberalidades que ele
tenha feito. O instituto da imputação das liberalidades feitas pelo de cuius
não está regulado pela lei autonomamente e em termos gerais, havendo
algumas disposições que resolvem problemas pontuais de imputação (artigos
2114.º, n.º 1, 2114.º, n.º 2, 2165.º, n.º 4, do CC). A herança de quem tem
herdeiros legitimários é constituída pelos bens deixados e pelos bens doados,
impondo a lei a chamada “restituição fictícia dos bens doados” (artigos
2162.º, 2162, n.º 2, 2112.º, n.º 2, do CC).
3.6. Relação do sistema sucessório com o contexto político e económico
O Direito sucessório tem uma estreita ligação com o modelo de ordenação
jurídica de uma sociedade, sobretudo no que diz respeito aos critérios que
presidem à atribuição dos bens e à apropriação das utilidades que
proporcionam. Nessa medida, o princípio do reconhecimento do fenómeno
da sucessão mortis causa é um corolário do direito à propriedade privada.

II PRINCÍPIOS DO DIREITO SUCESSÓRIO PORTUGUÊS


A. Enquadramento constitucional
1. Direito fundamental à propriedade privada e à livre
transmissibilidade em vida e por morte (art. 62.º da CRP)
A propriedade privada como pressuposto da dignidade da pessoa humana.
Função individual e social da propriedade privada. O princípio social e as
exigências do bem comum. A transmissibilidade mortis causa do património
adquirido.
2. Relevância da Família como instituição fundamental da sociedade e
sua proteção (arts. 36.º e 67.º da CRP)

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O princípio da subsidiariedade e a função de solidariedade familiar do
património. A tributação das aquisições sucessórias pelo Imposto de Selo e
a atual isenção das transmissões gratuitas a favor do cônjuge, descendentes
e unido de facto.

AULAS 3/4
B. Princípios estruturantes do sistema sucessório português
1. Direito à transmissão por morte e sucessão mortis causa
a) A morte como pressuposto da abertura da sucessão.
Morte física. Presunção de morte e justificação do óbito. Morte presumida.
Presunção de comoriência. Prova da morte. Registo da morte.
b) Conceito de sucessão mortis causa: aquisição por causa da morte («a
aquisição por uma ou mais pessoas, a título gratuito, como liberalidade, de
direitos e vinculações que integram o património de uma pessoa falecida, ou
que nele se fundam, e que se não extinguem por efeito da sua morte»
(CARVALHO FERNANDES, Lições de Direito das Sucessões, cit., p. 62).
c) A morte como causa ou concausa de aquisição de bens.
Distinção entre atos inter vivos e atos mortis causa; atos post mortem e atos
trans mortem
d) objeto da sucessão: a transmissibilidade por morte da generalidade das
relações patrimoniais. As situações de intransmissibilidade por morte.
Hereditabilidade do direito a compensação por danos não patrimoniais. O
caso particular do dano da privação da vida. Transmissão mortis causa de
direitos cujo regime não segue o da sucessão comum (o direito ao
arrendamento urbano para fins habitacionais ou para fins não habitacionais).
Direitos que se constituem com a morte sem haver sucessão (ex. direito de
usufruto, direitos dos beneficiários de seguro de vida).
e) Os sucessíveis: a designação sucessória. Títulos designativos e sua
hierarquia. Consistência das designações sucessórias: expetativa jurídica dos

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designados a título de herdeiros legitimários e respetiva tutela em vida do
autor da sucessão; esperança de facto dos sucessíveis testamentários e
legítimos (remissão para o estudo da sucessão contratual quanto à
consistência dos sucessores contratuais). Fixação das designações
sucessórias no momento da abertura da sucessão.

AULAS 5/6
f) Os sucessores e sua qualificação: critério de distinção entre o herdeiro e o
legatário e importância prática da distinção
g) A legitimação sucessória. Vocação sucessória: vocação inicial, vocação
subsequente, vocação diferida (conceturos, pessoas coletivas a constituir).
Pressupostos da vocação sucessória: titularidade da designação sucessória
prevalente, personalidade jurídica (o caso especial da vocação sucessória
legal e testamentária dos nascituros e da vocação testamentária dos
conceturos), capacidade sucessória (situações de indignidade referentes a
todos os sucessores, efeitos da indignidade, casos em que a indignidade tem
de ser declarada, reabilitação do indigno e seus limites) (alusão à distinção
com a deserdação e remissão do seu estudo para o contexto da sucessão
legitimária).

AULAS 7/8
h) Conteúdo da vocação sucessória: atribuição do direito de suceder, direito
esse que o sucessível pode aceitar ou repudiar (remissão do seu estudo mais
aprofundado para o contexto do princípio da liberdade de aceitar ou
repudiar). A transmissão do direito de aceitar ou repudiar: quando o
efetivamente chamado falece sem ter exercido o seu direito de aceitar ou
repudiar a sucessão, transmite-se este direito aos seus herdeiros, verificando-
se então dois fenómenos sucessórios.

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i) Prova da qualidade de sucessor: a habilitação notarial (arts 82.º ss do C.
Notariado); a habilitação de herdeiros na Conservatória do Registo Civil (art.
210.º Q do CRC) em procedimento simplificado de sucessão hereditária
(arts. 210.º A a 210.º do CRC); a habilitação de herdeiros no processo de
inventário (art. 11.º da Lei n.º 23/2013, de 5 de março); o incidente de
habilitação de herdeiros no decurso de uma ação judicial (arts. 372.º a 377.º
do CPC).
j) Modos de vocação sucessória: vocação direta e vocação indireta (alguém
é chamado à sucessão tendo por referência a posição de um terceiro que não
entra na sucessão). Modalidades de vocação indireta: o direito de
representação, o direito de acrescer, a substituição direta.
- O direito de representação. Noção legal. Pressupostos do direito de
representação na sucessão legal e na sucessão testamentária. Efeitos do
direito de representação: 1) chamamento à sucessão de parentes que não
seriam chamados em virtude do princípio da preferência de grau de
parentesco 2) realização da partilha por estirpes e não por cabeça 3) restrição
do direito de acrescer aos membros da mesma estirpe 4) obrigação que incide
sobre o representante de cumprir as obrigações (de imputação e conferência
das liberalidades feitas em vida) a que o representado estaria obrigado.
Fundamento do direito de representação: garantir a permanência de direitos
e deveres na estirpe sucessória de modo a impedir que circunstâncias
fortuitas (como a pré-morte, a incapacidade ou o repúdio) alterem o
mecanismo normal da sucessão. Distinção entre as figuras do direito de
representação e da transmissão do direito de aceitar ou repudiar.
- O direito de acrescer. Noção: o direito do sucessível, chamado
simultaneamente com outros, de adquirir o objeto sucessório que outro não
pode ou não quis aceitar. Direito de acrescer entre herdeiros e direito de
acrescer entre legatários. Pressuposto positivo: a verificação de uma quota
vaga e a existência de co-herdeiros ou de colegatários.

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Pressupostos negativos (não verificação de 1) substituição direta, 2) vontade
contrária do autor da sucessão, 3) direito de representação 4) transmissão do
direito de aceitar ou de repudiar 5) pessoalidade no legado.
- A substituição vulgar.

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2. Liberdade de dispor por testamento
a) Noção e modalidades do testamento.
b) O testamento como ato de disposição de última vontade (facto
designativo). A liberdade de testar. A tutela da vontade do testador.
c) Características do testamento como negócio jurídico: mortis causa,
unilateral, não recetício, gratuito, pessoal (as exceções da substituição
pupilar e quase pupilar em que são designados os sucessores do filho menor
de dezoito anos ou do filho interdito por anomalia psíquica), singular (a
eventualidade da intervenção do cônjuge meeiro nos termos do artigo 1685.º,
n.º 3, b)) (ANTUNES VARELA); formal, livremente revogável (revogação
expressa e revogação tácita).
d) Capacidade testamentária e ilegitimidades testamentárias (arts. 2192.º a
2198.º).
e) Falta e vícios da vontade.
f) Interpretação e integração do testamento (arts. 2187.º).
g) Regime da invalidade do testamento (arts. 2308.º a 2310.º) e
aproveitamento de disposições inválidas (arts. 292.º e 2187.º).
h) Caducidade do testamento (art. 2317.º).

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3. Sucessão “forçada” a favor dos familiares mais próximos (sucessão
legitimária a favor do cônjuge, descendentes e ascendentes)

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a) Herdeiros legitimários (art. 2157.º). Efeitos sucessórios da adoção. Os
legados legais atribuídos ao membro sobrevivo da união de facto (com
relevância jurídica) em caso de morte do membro proprietário da casa de
morada comum e do respetivo recheio: direito real de habitação sobre a casa
de morada comum e direito de uso do recheio pelo período de cinco anos
(prorrogável por razões de equidade por decisão judicial) (artigos 2.º, 3.º e
5.º, da Lei 7/2001, de 11 de maio com as alterações introduzidas pela Lei
23/2010 de 10 de agosto).
b) A legítima ou quota indisponível. Cálculo da herança para efeitos de
determinação da legítima (restituição fictícia do valor dos bens doados e do
valor das despesas sujeitas a colação (art. 2162.º). Medida da legítima
(2158.º a 2161.º).
c) Princípios da sucessão legitimária (arts. 2157.º, 2134.º, 2135.º, 2136.º).
d) Intangibilidade da legítima: medidas de proteção da legítima ainda em
vida do autor da sucessão (arts. 242.º, n.º2, 152.º, 156.º e 141.º) e após a sua
morte (redução das liberalidades inoficiosas, arts. 2168.º a 2178.º). Proibição
de o autor da sucessão afastar os herdeiros legitimários da sucessão.
Pressupostos da deserdação. Proibição de o autor da sucessão impor
encargos sobre a legítima. Proibição de o autor da sucessão designar os bens
que devam preencher a legítima contra a vontade do herdeiro legitimário. O
legado "por conta" e o legado "em substituição" da legítima. Cautela
sociniana. A imputação ex se das liberalidades (inter vivos e mortis causa)
para determinação da legítima: o objetivo final de preservar a porção
disponível do autor da sucessão, correspondendo assim à sua vontade global
(PAMPLONA CORTE-REAL). Regime da venda a filhos ou netos. Colação
como operação da partilha e medida indireta de proteção da legítima
(remissão). A partilha em vida como doação inter vivos a presumidos
herdeiros legitimários.

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e) Natureza jurídica da vocação legitimária: os herdeiros legitimários
têm direito a uma parte/valor dos bens da herança (PEREIRA COELHO,
CAPELO DE SOUSA) ou o direito de ser herdeiro (OLIVEIRA
ASCENSÃO).

AULAS 13/14
f) A colação como medida indireta de proteção da legítima: operação da
partilha prevista na lei para o caso de concurso hereditário de descendentes
que os obriga à imputação das liberalidades (doações e despesas) feitas pelo
autor da sucessão a seu favor, com vista à maior igualação possível entre eles
(artigos 2104.º, 2015.º, 2110.º, 2108.º). Diferentes regimes e âmbitos das
obrigações de conferência e de igualação: o regime supletivo; o regime
convencional da dispensa de colação (2113.º e 2114.º). O regime
convencional da colação absoluta (Escola de Coimbra): as doações por conta
da legítima (a vontade do doador manifestou-se no sentido da igualação total
entre os descendentes, mesmo que tal igualação implique a redução das
doações). A doutrina que defende que o cônjuge também está sujeito a
colação.

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4. Proibição dos contratos sucessórios
a) O princípio (2028.º, n.º 2, do CC) e sua justificação tradicional: preservar
a liberdade de dispor por morte e o direito de aceitar ou de repudiar do
sucessível. Escassa relevância prática dos pactos sucessórios legalmente
admitidos. Importância prática, no plano do planeamento sucessório, da
proibição de renunciar à sucessão de uma pessoa viva e da proibição de
dispor de um eventual (futuro) direito à sucessão de uma pessoa viva.

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b) Contratos sucessórios legalmente admitidos: as doações mortis causa
inseridas em convenção antenupcial (artigo 1700.º) (pactos designativos
gratuitos - instituição de herdeiro ou nomeação de legatário - justificados
tradicionalmente pela ideia de favorecer o casamento (favor matrimonii)
direta (quando é em benefício de um ou de ambos os esposados) ou
indiretamente (quando é em benefício de terceiro). Alguns aspetos do seu
regime: princípio da irrevogabilidade unilateral e não prejudicabilidade por
atos gratuitos (1700.º, n.º1); exceções: revogabilidade por mútuo acordo das
disposições feitas por terceiro; possibilidade de alienação dos bens doados
com fundamento em grave necessidade do doador ou dos membros da
família a seu cargo, com autorização do doador ou respetivo suprimento
judicial (1701.º, n.º 2 CC); possibilidade de, no caso de instituição na
totalidade da herança, de disposição gratuita de 1/3 da herança (1702.º, n.º2).
Caducidade (1703.º CC) e ineficácia (1716.º CC) dos pactos sucessórios.
c) Conversão legal de uma doação mortis causa nula em disposição
testamentária (2028.º, n.º 2, e 946.º, n.º 2): irrelevância da intervenção do
donatário e livre revogabilidade. Sentido da exigência de terem sido
observadas "as formalidades dos testamentos": a doação terá de ter sido feita
por escritura pública ou forma equivalente.

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5. Proibição de cláusulas de inalienabilidade nos atos de última vontade
em mais de um grau
a) A proibição das cláusulas de inalienabilidade em mais de um grau (artigo
2295.º).
b) A substituição fideicomissária e a sua limitação a um grau (artigos 2286.º
e 2288.º). Direitos e obrigações do fiduciário (artigo 2290.º), autorização
judicial para alienar ou onerar os bens em fideicomisso (artigo 2291.º),
devolução dos bens ao fideicomissário (artigo 2293.º).

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c) Fideicomissos irregulares; consequências no plano dos limites à validade
das liberalidades com encargos ou sob condição
d) Exemplificação de situações que podem implicar a inalienabilidade dos
bens: possibilidade de o autor da sucessão impor a inalienabilidade
(temporária) dos bens através da constituição de direito de usufruto gratuito,
vitalício, simultâneo e sucessivo (por contrato de doação ou testamento)
(artigos 1439.º, 1440.º, 1441.º, 1442.º, 1443.º e 1446.º, 2258.º); doações e
legados testamentários a favor de conceturos (artigos 952.º e 2033.º, n.º2,
2240.º); constituição de fundação por ato entre vivos ou por testamento
(artigos 185.º), com indicação nos estatutos dos termos da extinção e da
fixação do destino dos respetivos bens; liberalidades com encargos ou sob
condição suspensiva (artigos 2237.º: limites à sua validade (2230.º a 2234.º,
2244.º, 2245.º, 2247.º, 2248.º).

AULAS 19/20
6. Sucessão ab intestato (sucessão legítima)
a) Fundamento da sucessão legítima; natureza supletiva da sucessão legítima
b) Herdeiros legítimos: a relevância dos vínculos familiares mais próximos;
efeitos sucessórios da adoção restrita
c) O processo especial de liquidação da herança vaga em benefício do Estado
(artigos 2152.º a 2155.º do CC e 938.º a 940.º do CPC): citação dos
interessados incertos, declaração de herança vaga, liquidação da herança,
adjudicação do remanescente ao Estado).
d) Princípios da sucessão legítima.
7. Carácter unitário da herança
a) O tratamento unitário da herança. A herança como fenómeno de separação
patrimonial (património separado do património do herdeiro). Os vários
estados da herança e implicações de regime. Autonomia patrimonial quanto

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aos encargos, possibilidade de alienação da herança como um todo, a petição
da herança.
b) A herança jacente.
c) A herança indivisa como património autónomo e a responsabilidade pelos
encargos da herança: o princípio da obrigação de pagamento das dívidas do
defunto cum viribus hereditatis. Aceitação da herança pura e simples e
aceitação a benefício de inventário (remissão).
d) A administração da herança indivisa (herança aceite e ainda não
partilhada): cabeçalato (cabeça-de-casal, art. 2079.º) e testamentaria (art.
2320.º). Os deveres do cabeça-de-casal no processo de inventário.
e) Petição da herança.
f) Alienação da herança.
8. Liberdade de aceitar ou de repudiar
a) O conteúdo da vocação sucessória: o direito de aceitar ou de repudiar.
A vocação sucessória consiste na atribuição do direito de suceder, direito
esse que o sucessível pode aceitar ou repudiar. Entre a abertura da sucessão
e a aceitação a herança encontra-se na situação de herança jacente (art.
2046.º). Os interesses da conservação e administração dos bens (arts. 2047.º
e 2048.º). Prazo de caducidade para o exercício do direito de aceitar ou
repudiar (art. 2249.º). O interesse da celeridade na determinação do herdeiro
e o processo cominatório de aceitação ou repúdio arts. 2049.º do CC e 1039.º
do CPC).
b) A transmissão do direito de aceitar ou de repudiar (art. 2058.º CC –
remissão)
c) Modalidades de aceitação. Aceitação expressa e tácita e aceitação pura e
simples e aceitação a benefício de inventário (arts. 2056.º e 2052.º).
Obrigatoriedade de realização de inventário (art. 2102.º, n.º2, b) e c)). Efeitos
da aceitação (art. 2050.º). A aceitação como condição necessária da
aquisição da herança (exceto no caso do Estado).

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d) O repúdio. Forma e efeitos do repúdio (arts. 2063.º, 1683.º, 2062.º,
2032.º). O artigo 2067.º permite que os credores reajam contra a eventual
diminuição da sua garantia patrimonial mediante uma ação proposta contra
o repudiante e contra os sucessíveis imediatos que aceitaram (arts. 606.º CC
e 1041.º do CPC): em rigor, o credor não se sub-roga no exercício do direito
do primeiro chamado (devedor), direito que já foi exercido pelo repúdio, nem
impugna o repúdio (mantém-se o chamamento dos sucessíveis imediatos nos
termos do art. 2049.º, que aceitando aproveitam o remanescente.
Afastamento do enquadramento dogmático que a terminologia legal sugere
(CARVALHO FERNANDES): o credor não aceita, não é sucessor, a lei
apenas lhe faculta a possibilidade de realizar o seu direito de crédito sobre
bens que, tendo em conta o repúdio do devedor, não poderia atingir, uma vez
que não chegam a entrar no património deste. Trata-se de um instrumento
jurídico não reconduzível a nenhum outro, mas indiscutivelmente de
natureza obrigacional: um meio específico de conservação da garantia
patrimonial dos credores do repudiante (CARVALHO FERNANDES).
Sendo a ação procedente o crédito do credor é tratado como um novo encargo
da herança (OLIVEIRA ASCENSÃO: adesão à herança de uma nova
dívida).
9. Retroatividade da aceitação e do repúdio.

AULAS 21/22
10. Direito de exigir a partilha no caso de pluralidade de herdeiros
a) A herança indivisa como património coletivo.
b) O direito à partilha (=o direito a fazer cessar a indivisão da herança).
O fim último a que a sucessão mortis causa se destina só é alcançado com a
atribuição dos bens aos sucessores, isto é, quando os bens ingressam no
património do sucessor. Os legatários adquirem, com a aceitação, direitos
sobre os bens a que foram nomeados (embora a determinação dos bens possa

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estar dependente de alguma operação jurídica). Sendo vários os herdeiros,
estes adquirem com a aceitação apenas o direito a uma quota da herança e,
enquanto se mantiver a situação de indivisão, o seu direito não incide sobre
bens determinados. Só pela partilha (operação destinada a fazer cessar a
indivisão) serão atribuídos a cada herdeiro direitos sobre bens determinados.
Assim se compreende que qualquer herdeiro tenha direito a exigir a partilha.
c) Modalidades de partilha. Partilha por acordo dos interessados: havendo
acordo dos interessados, a partilha é realizada nas conservatórias ou por via
notarial (art. 2102.º, n.º1): procedimentos simplificados de sucessão
hereditária (arts. 210.º A a 210.º R do CRCivil), no caso de a herança
compreender algum bem imóvel ou móvel sujeito a registo ou participação
social sujeita a registo (para as sucessões abertas antes de 18 de dez. de 2007
notário / escritura pública); nos demais casos, a partilha por acordo pode ser
feita por negócio jurídico escrito, não sujeito a forma especial. O processo
de inventário tem sobretudo interesse em caso de pluralidade de herdeiros
sempre que não há acordo sobre os termos da partilha (art. 2102.º, n.º2).
Contudo, este processo pode interessar mesmo que exista um só herdeiro,
para efeitos de relacionamento dos bens e servir de base à liquidação da
herança (por exemplo, quando o sucessor aceitar a benefício de inventário).
A Lei n.º 23/2013, de 5 de março, aprovou o Regime Jurídico do Processo
de Inventário, criando um sistema mitigado, em que a competência para o
processamento dos atos e termos do processo de inventário é atribuída aos
cartórios notariais, sediados no município do lugar da abertura da sucessão,
sem prejuízo de as questões que, atenta a sua natureza ou a complexidade da
matéria de facto e de direito, não devam ser decididas no processo de
inventário serem decididas pelo juiz do tribunal da comarca do cartório
notarial onde o processo foi apresentado. A Portaria n.º 278/2013, de 26 de
agosto, regulamenta o processamento dos atos e os termos do processo de
inventário. A aplicação deste regime tem tido muitas dificuldades, em muitos

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aspetos tem sido invocada a sua inconstitucionalidade (LOPES
CARDOSO2).
c) Operações da partilha da herança.
- Atos preparatórios da partilha: habilitação de herdeiros (=prova da
qualidade de sucessor); cálculo da massa da herança (a partir da relação de
bens); separação de eventuais meações; determinação em abstrato dos
quinhões hereditários; preenchimento dos quinhões hereditários através das
adjudicações preferenciais a realizar na partilha; eventual
crédito/recebimento/renúncia relativo ao pagamento de tornas (*nos
procedimentos simplificados parece não poder ficar omisso o campo relativo
à alusão ao recebimento de tornas por causa da garantia conferida no art.
705.º do CC); eventual consentimento dos cônjuges; eventual declaração
expressa de credor quando o pagamento de uma dívida (por ex. relativa a um
imóvel a partilhar) ficar a cargo do herdeiro F…).
- Operações da partilha da herança (operações com valores):
1) Cálculo do valor partilhável da herança; separação de meação no
caso de o de cuius ter sido casado num dos regimes de comunhão e deixar
cônjuge sobrevivo (do valor da herança partilhável só faz parte o valor dos
bens próprios do falecido +valor da sua meação);
2) Determinação do valor das quotas indisponível e disponível e da
quota subjetiva de cada herdeiro em abstrato (havendo herdeiros
legitimários);
3) Determinação concreta do valor da quota hereditária subjetiva
(herdeiros efetivamente chamados, aceitantes e partilhantes; implicações da
ocorrência eventual de vicissitudes como repúdio, indignidade, deserdação
(eventual direito de representação ou de direito de acrescer);

2
AUGUSTO LOPES CARDOSO, Partilhas Judiciais, 6ª Edição, Vol. I, II e III, Almedina,
Coimbra, 2015, pp. 72-75.

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4) Imputação do valor das liberalidades feitas em vida e colação.
Preenchimento das quotas dos partilhantes com bens concretos: no
preenchimento dos quinhões hereditários pode acontecer que o valor dos
bens licitados e adjudicados a um dos herdeiros exceda o valor do seu
quinhão, podendo os outros reclamar o seu direito a “tornas”.
d) Retroatividade da partilha.
e) Natureza jurídica da partilha: A partilha tem como efeito atribuir direitos
sobre bens em concreto desde o momento da abertura da sucessão (art.
2119.º, podendo dar origem a situações de contitularidade na forma de
compropriedade). Não é a partilha que é o facto aquisitivo, mas ela opera
uma modificação do direito de que o herdeiro era titular. Assim, não tem
natureza constitutiva, mas também não é meramente declarativa pois
modifica (concentra) o direito do herdeiro (OLIVEIRA ASCENSÃO).

AULAS 23/24
III TUTELA DOS DIREITOS SUCESSÓRIOS
A. Perspetiva do autor da Sucessão: o planeamento sucessório
1. Escolha dos elementos que integram o património
2. Separação de elementos do património
3. Testamentos e negócios alternativos
4. Negócios de antecipação dos efeitos sucessórios
B. Perspetiva dos sucessores: aspetos substantivos e processuais
1. Tutela dos direitos na pendência da sucessão: herança jacente e herança
sob condição suspensiva
2. Direito de suceder e a prova da qualidade de sucessor. Habilitação de
herdeiros e legatários
3. Tutela dos direitos sobre a herança adquirida (Remissão: petição da
herança e reivindicação do legado; administração da herança; alienação da
herança; liquidação do passivo hereditário; sonegação de bens da herança).

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4. Impugnação de testamentos
5. Tutela dos direitos no caso de pluralidade de herdeiros. Partilha
extrajudicial e procedimentos simplificados da sucessão hereditária.
Processo de inventário. Providências cautelares (em especial: a providência
especificada de arrolamento).
ELEMENTOS DE ESTUDO
Texto de base:
FERNANDES, Luís Carvalho, Lições de Direito das Sucessões, 4ª Edição, Quid Iuris,
2012.
Outros textos:
Para a questão repúdio e tutela dos credores do falecido: FERNANDES, Luís Carvalho,
Da aceitação da herança pelos credores do repudiante: regime, fundamento e natureza
jurídica, Quid Iuris, 2010
Para a questão do fundamento do Direito das Sucessões e o conceito de sucessão mortis
causa: XAVIER, Rita Lobo, «O fundamento do Direito das Sucessões e o conceito de
sucessão mortis causa no ensino do Professor Luís Carvalho Fernandes», in Estudos
dedicados ao Professor Doutor Luís Alberto Carvalho Fernandes, Universidade Católica
Portuguesa Editora, Lisboa, 2011.
Leituras (facultativas) complementares
XAVIER, Rita Lobo,
«Para quando a renovação do Direito sucessório português?» in SEQUEIRA, Elsa Vaz e
SÁ, Fernando Oliveira (coord.) Edição Comemorativa do Cinquentenário do Código
Civil, Universidade Católica Editora, Lisboa, 2017 (593-614).
«Notas para a renovação da sucessão legitimária no
Direito português» in CORDEIRO, António Menezes... [et al.] (orgs.) Estudos em
Homenagem ao Professor Doutor Carlos Pamplona Corte-Real, Edições Almedina,
Coimbra, 2016 (351-372).
«Beneficiários nos seguros de vida e Direito sucessório» in Revista de Direito e de
Estudos Sociais, Janeiro-Setembro 2013, Ano LIV (XXVII da 2ª Série) n.ºs 1/3, Coimbra,
Almedina (7-22).
LEITÃO, Luís Manuel Teles de Menezes, «A partilha em vida» in CORDEIRO, António
Menezes... [et al.] (orgs.) Estudos em Homenagem ao Professor Doutor Carlos Pamplona
Corte-Real, Edições Almedina, Coimbra, 2016 (145-158).

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