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ROTEIRO DE AULA INAUGURAL

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO

DEFINIÇÕES DE DIREITO

I- Algumas definições sobre o direito

Sempre que alguém nos pergunta sobre possíveis definições sobre o direito,
procuramos nos atentar para as concepções tidas como descritivas, pois estas tratam do
direito em seu sentido lexical tal como já se procede com as conceituações extraídas dos
dicionários. Vamos verificar algumas destas definições lexicais

a) Direito é justo, aquilo que uma pessoa deve fazer ou deixar de fazer em uma
sociedade ordenada e justa. Nota-se aqui a relevância do direito em considerar a
relação entre leis que existem ou estão em vigor num dado país e os ideais de
justiça a ela vinculados;

b) O direito implica em algo que alguém pode fazer exercendo para tanto uma
faculdade (direito de ir e vir ou votar nas eleições), pode exigir algo de alguém
(recebimento do preço após a comercialização de uma mercadoria), contemplando
também casos em que a conduta do agente deverá voltar-se a uma omissão
(exigência que os vizinhos deixem de incomodar ouvindo música após a meia-
noite para não produzirem barulho). Percebemos aqui que a percepção do
direito aqui se voltou ao sujeito, razão pela qual podemos inicialmente
enfatizar uma reflexão do “direito subjetivo”.

c) O direito pode caracterizar o estudo das normas jurídicas de tal maneira que a
análise de suas disciplinas jurídicas coincide com a avaliação das “ciências
jurídicas”.

d) Concepção do direito como o conjunto de normas jurídicas que objetivam


regulamentar o comportamento das pessoas na sociedade. Essas normas são
editadas pelas autoridades competentes e preveem em caso de violação, a
imposição de penalidades por órgãos do Estado. Percebemos novamente uma
abordagem diferente da segunda concepção porque agora o significado do
direito se refere a uma espécie de direito apresentado, “posto” para todos que
o deverão observar. Cuida-se aqui da definição do chamado “direito
objetivo”.

Diante da extensão e variedade de significados que o direito assimila, vejamos


algumas de suas mais célebres e notórias definições apresentadas em mais de vinte
séculos de história:

Platão
- O princípio fundamental é dar a cada um aquilo que ele merece, devendo este
princípio ser guardado pelo Estado (posiciona-se em letra maiúscula por se identificar
como governo e aparelhos imbuídos do poder político).
- Estrutura do Estado condizente com três tipos de natureza humana: pessoas
movidas pelo desejo, pessoas movidas pela coragem e outras pessoas movidas pela razão.
Povo, militares e filósofos ganham destaque como personagens desta sociedade (com
preferência para os filósofos).

Aristóteles

- Cabendo ao Estado a definição do direito deve este por consequência ser


responsável também pelo emprego do critério da justiça. O direito é justo quando protege
os interesses gerais da sociedade da sociedade, além de tratar de maneira igual às pessoas
que se encontram em situação igual. Imaginemos aqui situações às quais mostra-se
pertinente o restabelecimento à situação anterior após um evento gerador de uma
reponsabilidade (civil ou penal). Tem-se uma perfeita equidistância das partes
relativamente ao centro, onde se situa o justo meio (exemplo de justiça comutativa ou
corretiva).

- Outra percepção que emana da definição aristotélica do direito converge para o


aspecto geométrico do direito na qual a distribuição será alcançada sempre que se
proporcionar a cada qual aquilo que lhe é devido, dentro de razão de proporcionalidade
participativa, pela sociedade (evita-se a representação do excesso ou da falta). Como se
pode notar esta forma elevada de justiça constrói um cenário de desigualdade social
com intensa valoração pessoal dos critérios que o norteiam (casos expressivos desta
forma de justiça são espelhadas na distribuição de honrarias, cargos, títulos em
conformidade com a posição social das pessoas).

Tomás de Aquino

Para o teólogo italiano, canonizado pela Igreja Católica a autor da Summa


Theologica, divulga que as leis são mandamentos da boa razão, organizadas e aplicadas
pelo Monarca. Temos que além da instituição de um direito positivo (ius positivum), o
príncipe guarda também como atributo o respeito aos mandamentos divinos que
constituem a lei eterna, proveniente de Deus e alicerçada nos moldes da chamada “lei
natural”.

As possibilidades de conflitos instaurados no âmbito da lei natural se mostravam


possíveis, dando-se preferência para a resposta que a primeira concedia. Contudo admite-
se nesta mesma análise a prevalência de medidas e atitudes do monarca de restrição de
valores individuais, como por exemplo a liberdade quando desordens e revoltas surgirem
em desfavor à hegemonia de uma lei positiva.

Thomas Hobbes

Este filósofo inglês propõe uma reunião dos homens para a criação de sociedades
organizadas, abdicando de sues direitos naturais, entregando-os a uma autoridade central
com amplos poderes, qual seja o Estado. Cabem a este distribuir direitos e obrigações,
garantindo seu respeito mediante a ameaça de punições. Notamos com atenção que o
poder absoluto do Estado leva ao estabelecimento de leis pacíficas propiciando uma
convivência segura e harmônica. A constatação e aferição de justiça e correção em
cada uma das leis não se apresentam como argumento unânime na definição do
direito, extraindo-se desde então a ideia de que a afirmação do Estado é exercida
pelo poder de impor leis mesmo que distantes da origem do direito natural.

Samuel Pufendorf.

A introdução pelos conhecedores e estudiosos do direito romano do direito natural


influenciou na propagação de um direito comum a todos os homens que tal como os
animais procedem da natureza. Este ambiente de pretensa igualdade acomodou a intenção
de Pufendorf de mostrara liberdade humana de forma regulada e limitada mediante a lei.
A tarefa do direito natural consiste, sobretudo em indicar um conflito entre a tendência
do homem a unir-se com os demais e sua marcante vontade de preservação dos interesses
egoísticos.

Apenas com um exame profundo da natureza humana, podemos retirar desta a


racionalidade que permita uma convivência pacífica entre os homens, que por sinal
abrange uma série de disposições naturais de observância necessária tais como a
obrigação de respeito à vida, a propriedade a honra frente aos demais e aos próprios
compromissos. O respeito à vontade dos governantes traduzida pela presença do direito
positivo é importante diante da autoridade do Estado adquirida desde a sua criação.
Contudo a contrariedade das normas positivadas quando confrontadas com a lei natural,
faz com que até mesmo o soberano possa cometer um pecado. Logo até mesmo o súdito
pode deixar de cumprir a norma quando restar claro que esta contraria a transparente lei
natural e que ao desrespeitar tal norma pode o mesmo incorrer no pecado que como vimos
não faz parte da construção da lei natural.

Jean Jacques Rousseau

Para este filósofo de origem suíça (1712-1778) autor do prestigiado ensaio “Do
contrato social”, o cenário de extensas desigualdades e injustiças sociais poder ser
atribuída à propriedade privada que permite às minorias poderosas explorar e oprimir a
maioria.

-Em sua obra “Discurso sobre a desigualdade” Rousseau aponta que em conjunto
com a riqueza, a nobreza ou a posição, o poder e o mérito pessoal são em geral as
principais distinções pelas quais os homens se medem na sociedade. Observa ainda que
em sentido oposto a esta constatação que a origem natural do sentido da justiça faz com
que a ideia de propriedade possa nascer a partir da mão-de-obra, pois não se vê o que,
para apropriar-se das coisas que não fez, o homem pode introduzir além do seu trabalho.
Dar ao lavrador o direito sobre o solo pelo menos até a colheita faz com que este de ano
em ano possa ter uma posse contínua que transforme em propriedade. Note-se aqui que o
direito de propriedade origina-se do direito natural e não de uma acumulação de riqueza
capaz de distinguir pessoas que deveriam compartilhar de seus dons e talentos em favor
de seu semelhante.

- A manifestação do direito em Rousseau baseia-se no empenho e propagação


da “autolegislação” fundamentado em um pacto social democrático. Por meio dele
o direito representa a soberania do povo e garantia da ordem e segurança sem
afrontar a liberdade dos membros da sociedade. O direito para garantir a harmonia
social deve segundo Rousseau promover ações para que o povo participe das
decisões e desta maneira evitar a proliferação da desigualdade vinculada a um poder
quase sempre arbitrário e afastado da democracia.

Hans Kelsen

Na visão do jurista austríaco (1881-1973) considerado por muitos estudiosos do


direito como a principal referência para o estudo do direito no século XX, o direito dever
ser avaliado em concordância com o chamado “positivismo jurídico”. A base de seu
pensamento consiste dentre outros em associar a tarefa da ciência jurídica com a
explicação quanto ao funcionamento do ordenamento jurídico.

-Se para alguns outras disciplinas tão importantes como a sociologia, a história, a
ciência política e a psicologia podem interferir ativamente e eficazmente na definição do
direito, Kelsen edifica uma teoria do direito como organização da força ou ordem de
coação. Ao vigorar num determinado território o direito consegue ser politicamente
imposto e reconhecido pela maioria da população tendo. Já em relação as norma jurídicas
estas são obrigatórias e aplicadas mesmo em oposição à vontade dos cidadãos.

- Caso ainda remanesça a dúvida quanto a implicação dos fatos políticos e sociais
para a criação das normas constatamos preliminarmente que a fundamentação do direito
não se dá sob a interferência de tais fatores mas sim pela existência de uma norma
superior. Com ela verificamos a presença de autoridades competentes para criação das
normas sem contar a aplicação de procedimentos para a concretização do objetivo criador
do legislador.

II- Em busca de algumas conclusões.

Como vimos não se exibe como tarefa simples a conquista de uma definição
unânime do direito ou que venha ser aceita por uma parcela dos estudiosos de forma mais
benvinda quando comparada a outras ideias do direito igualmente partilhadas aqui.

Entretanto talvez possamos identificar alguns traços comuns entre as definições


apresentadas:

1- Relatividade histórica do direito.


- O direito se comportou da mesma forma em todas as passagens da história da
civilização? Será que existiu direito em todas as épocas da civilização? Apenas para
ilustrar imagine uma caverna onde dois moradores que após um dia de caça levaram o
alimento para o lugar para se alimentarem, recebendo a visita de outro indivíduo
considerado por eles estranho. Quando este tenta pegar o alimento para também se
alimentar receberá dos outros dois moradores um imediato castigo de natureza corporal.
O que parece á nossa conclusão um ato instintivo de sobrevivência poderia para o direito
simbolizar o cometimento do crime de furto com a aplicação de uma pena pelo tribunal
formado pelos dois moradores da caverna Um absurdo!!!!! A amplitude do direito e sua
inserção na sociedade pelo contrário, teve sua presença marcada pelo desenvolvimento
da escrita cuneiforme e organização de regras e costumes que mais tarde serviram como
fontes do direito que se aplicou às civilizações.
- O direito se evidencia a partir da convivência dos indivíduos em sociedade? Se
todos concordarmos que o direito é composto de normas que regulamentam o
comportamento das pessoas na sociedade veremos simplesmente que o direito se atenta
às regras que indicam aquilo que devemos (ou não devemos fazer). Portanto melhor
menção quanto ao direito é aquela que nos introduz à prática do dever ser.
- O direito é composto em sua essência de coerção. Como se depreende da leitura
de uma norma ou lei aplicável no direito penal o dever ser por vezes é forte e ameaçador.
Desta maneira a comunidade como um todo deve respeitar os mandamentos inclusos nas
normas jurídicas existindo para tanto ferramentas de coerção dos transgressores da
mesma.
- Existem divergências ideológicas sobre a definição do direito? Sem dúvida que
sim, a começar da moldura que cada um de nós revestiu o direito (desenvolvimento de
ideias subjetivas sobre o que justo ou correto). Tome como parâmetro a engrenagem
teórica de Kelsen o qual contempla um direito puro sem interferência de aspectos sociais.
Já Pufendorf, Kant e outros estudiosos a serem analisados entendem que descartar a
moral, a aplicação do direito na sociedade e as expectativas que emanam desta subtraem
a vida do direito e consequentemente a realização da justiça que dele se espera.
Ao apego dos aspectos acima destacados como construtores de um definição
minimamente convergente do direito teremos inicialmente de equilibrar as doses
“injetadas” no conceito de nossas opções, convicções políticas ou carga emotiva.
Superada esta etapa temos igualmente de nos preocupar com análise extremamente
crítica depositada pelo direito como se este brotasse simplesmente da “lei do mais
forte” aplicando-se exclusivamente serviços dos ricos e poderosos.
Em nossa aula inaugural a apresentação do direito poderá seguir a
definição neutra que nos é apresentada por Dimitri Dimoulis desta forma refletida:
“O direito das sociedades modernas é um conjunto de normas que objetiva
regulamentar o comportamento social” É a partir desta definição que nossa
disciplina estará estruturada.

Bibliografia e leituras básicas previstas para a unidade


BETIOLI, Antonio Bento. Introdução ao direito. 14. São Paulo Saraiva 2015 1 recurso
online ISBN 9788502627109.
- Leitura das Lições II (O Mundo do Direito) e III (Leis Físicas, Culturais e Éticas)
* Esta obra indicada está disponível no acervo da biblioteca PUC Minas no acervo online
(para maiores informações sobre como acessar o livro online procure a biblioteca da PUC
Minas em Poços de Caldas)
NADER, Paulo. Introdução ao estudo do direito. 38. Rio de Janeiro Forense 2016 1
recurso online ISBN 9788530969462
- Leitura dos capítulos 4, 5,6 e 8
REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. 27. São Paulo, SP: Saraiva, 2002. 1
recurso online ISBN 9788502136847
- Leitura dos capítulos 1,2,5 e 6