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A dimensão ético-política Ética

A necessidade de fundamentação da moral


– duas perspetivas filosóficas

SUMÁRIO:
Éticas deontológicas e Éticas consequencialistas.
A Ética deontológica - o dever como fundamento da
moralidade (Immanuel Kant)
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Problema

Qual o fundamento da moralidade?

Qual o critério para avaliar a moralidade


das ações?
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Duas teorias Éticas


Éticas Deontológicas Éticas
▼ Consequencialistas
Teorias que fazem depender ▼
a moralidade de uma ação Teorias que fazem depender
do respeito por princípios a Moralidade de uma ação das
▼ suas consequências
Devemos agir por obediência ▼
a regras Devemos escolher a ação que
▼ tem as melhores consequências
Exemplo: para Kant mentir globais
é errado ainda que do ato ▼
de mentir resultem Exemplo: para Stuart Mill mentir
benefícios não é errado por princípio,
▼ mas em função das
Kant pergunta: qual foi a consequências
intenção da ação? ▼
S.Mill pergunta: quais as
consequências das ações?
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Uma teoria deontológica:


a ética racional de Kant

Immanuel Kant (1724-1804)

Filósofo alemão, um dos mais importantes da época moderna.


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Problema

O que torna as ações Qual é o critério para


boas ou más ? avaliar as ações?
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Legalidade e moralidade
Kant caracteriza o domínio da moralidade e apresenta um
critério para avaliar a moralidade das ações (Obra:
“Fundamentação da Metafísica dos Costumes”)

• Em que circunstâncias uma ação é boa?

• Basta respeitar as regras?

•Um automobilista que pare no sinal vermelho de um


semáforo, a ação só por si é moralmente boa?

• Parar no sinal vermelho de um semáforo, será suficiente


para se poder falar em moralidade?
Kant >>>
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1º exemplo: É na verdade conforme ao dever que


o merceeiro não suba os preços ao comprador
inexperiente (...) Mantém um preço fixo geral para
toda a gente, de forma que uma criança pode
comprar na sua mercearia tão bem como
qualquer outra pessoa. É-se, pois, servido
honradamente; mas isso ainda não é bastante
para acreditar que o comerciante tenha assim
procedido por dever e princípios de honradez; o
seu interesse assim o exigia. A ação não foi,
portanto, praticada (...) por dever, mas somente
com intenção egoísta. (...)
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Kant
2º exemplo: Pelo contrário, conservar cada qual a sua vida
é um dever, e é além disso uma coisa para que toda a
gente tem inclinação imediata. Mas por isso mesmo é
que o cuidado que a maioria dos Homens lhe dedicam
não tem nenhum valor intrínseco e a máxima que o
exprime nenhum conteúdo moral. Os Homens
conservam, habitualmente, a sua vida, conforme ao
dever, sem dúvida, mas não por dever. Em
contraposição, quando as contrariedades e o desgosto
sem esperança roubaram totalmente o gosto de viver;
quando o infeliz (…) deseja a morte e contudo conserva
a vida sem a amar, não por inclinação ou medo, mas
por dever, então a sua máxima tem conteúdo moral.
Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes
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Kant apresenta três exemplos


1) Fixando um preço, o merceeiro respeita a regra moral, mas
escolhe a honestidade por interesse, não por dever

2) Temos o dever de conservar a vida e gostamos de viver. Se


conservarmos a vida por gostar de viver, fazemo-lo por
inclinação e não por lhe atribuir valor intrínseco: conservamos
a vida por conformidade ao dever

3) Se perdermos a vontade de viver e desejarmos morrer mas


conservarmos a vida por dever, estamos a agir moralmente,
pois a regra particular (Kant chama-lhe máxima) que seguimos
ao escolher o dever tem valor moral

Diz Kant:
Conservo a vida não por ter gosto de viver, mas porque é meu dever
respeitar o princípio universal não matarás.
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Distinção legalidade versus moralidade

Legalidade = Moralidade =
ações boas ações morais

Carácter das ações Carácter das ações


simplesmente boas, realizadas não só em
i.é., em conformidade com a
conformidade com a norma, mas também
norma (dever) por respeito ao
dever
Exemplo 1 e 2 Exemplo 3
O ideal moral: tornar a vontade boa
OS ATORES DO DRAMA MORAL

RAZÃO SENSIBILIDADE
Sede da lei moral Fonte de inclinações sensíveis

VONTADE

Se a vontade age pura e Se a vontade age influenciada


simplesmente determinada ou determinada por
pela razão, sem qualquer inclinações sensíveis
condicionamento sensível, a (interesses, paixões, etc.) a
sua ação é moralmente válida. sua ação é empiricamente
Só uma ação em que a condicionada, SEM VALOR
vontade é puramente racional MORAL
tem validade moral.
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O ideal moral: tornar a vontade boa


• Quem opta é a razão; quem decide realizar a ação é
vontade (a “faculdade do querer”)

• Nós nem sempre escolhemos de acordo com a


nossa racionalidade. Porquê?

• Porque na deliberação e na decisão somos


influenciados pelo que Kant chamou as três disposições
do ser humano
As três disposições do ser humano

Disposição Disposição Disposição racional


sensível sensível

para a para a para a

animalidade humanidade personalidade


ser vivo ser vivo e ser ser racional capaz de
racional responsabilidade:
a natureza em tornar-se pessoa
influências da
nós: inclinações
sociedade e da exigências auto
e necessidades
comunidade de impostas pela razão -
sensíveis
interesses desprendimento e
autonomia
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Como alcançar a boa vontade?


• A boa vontade é, do ponto de vista moral, a
única coisa absolutamente boa.

•O que torna a vontade boa? A ação que pratica?


Os resultados que consegue? NÃO.

•O que torna a vontade boa é a intenção


que subjaz à ação
= o que caracteriza a boa vontade é cumprir o
dever sem outro motivo ou razão a não ser fazer o
que é correto.
O cumprimento do dever é um Imperativo
Categórico
Questão essencial: Como cumprir de forma
moralmente correta o DEVER?

Numa LEI presente na consciência de todos os


seres racionais = LEI MORAL:

“Deves em qualquer circunstância cumprir o


dever pelo dever”:
Enuncia-se em imperativos, tais como:
“Não deves mentir” “Não deves matar”
•“Não deves roubar”
IMPERATIVOS
CATEGÓRICOS:
Ações por DEVER
expressam-se em: Ordem incondicional
que impõe a ação
como necessária e
justificando-a como
um fim em si mesma.

Ações em
conformidade IMPERATIVOS
com o dever HIPOTÉTICOS:
(legais) Expressam uma
expressam-se ordem condicionada
em: (sujeita a uma
condição)
➢ ______________________________ ➢ Se não queres ter problemas,
não deves ofender os teus
colegas.
➢ ______________________________
➢ Se queres passar o ano, deves
estudar.

➢ ______________________________ ➢ Se não queres ir preso, não


deves roubar.

➢ Se queres um planeta limpo e


➢ ______________________________ saudável para os teus filhos,
não deves polui-lo.

➢ Se queres que te respeitem,


➢ _______________________________ trata bem os outros!

➢ Se não te calas vais para a rua!


➢ O meu dever é respeitar os outros e ➢ Se não queres ter problemas,
nunca provocar problemas. não deves ofender os teus
colegas.
➢ Estudar é o meu dever enquanto
estudante. ➢ Se queres passar o ano, deves
estudar.
➢ Roubar é um mal em si mesmo.
➢ Se não queres ir preso, não
➢ É meu dever respeitar o planeta. deves roubar.

➢ Mereço dos outros o seu respeito ➢ Se queres um planeta limpo e


assim como eu também os saudável para os teus filhos,
respeito. não deves polui-lo.

➢ É meu dever estar calado na aula, ➢ Se queres que te respeitem,


respeitando assim os outros. trata bem os outros!

➢ Se não te calas vais para a rua!


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Fundamento e critério de moralidade >>>

Segundo Kant
Perguntas:
O fundamento da moralidade é a
racionalidade, i.e. , a autonomia
1) Qual o da vontade
fundamento
da Isso implica:
moralidade • cumprimento do dever por
das ações? dever
• independência face às
disposições sensíveis
• opção pela personalidade
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Fundamento e critério de moralidade

O critério para identificar


uma ação como boa é o
2) Qual o
carácter incondicional e
critério para
avaliar a universalizável da máxima
moralidade das que determina a escolha,
ações?
ou seja, o carácter racional
da lei moral.
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Organograma conceptual
Uma teoria deontológica
a ética racional de KANT

Ser Humano
Disposição para a Disposição para a Disposição para a
animalidade ► ◄ humanidade ► ◄ personalidade

ação legal lei moral racional


↓ imperativo categórico

cumpre a lei dever

o móbil são as inclinações sensíveis ação moral (por dever)

acção por interesse, não por dever autonomia


vontade boa
Ser Humano (pessoa)
fim em si mesmo
FIM