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Poder Judiciário

Justiça do Trabalho
Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região

Dissídio Coletivo de Greve


0000343-60.2021.5.10.0000

Processo Judicial Eletrônico

Data da Autuação: 01/05/2021


Valor da causa: R$ 10.000,00

Partes:
SUSCITANTE: AUTO VIACAO MARECHAL LTDA
ADVOGADO: EIJI JHOANNES YAMASAKI
SUSCITANTE: CONSORCIO HP - ITA
ADVOGADO: ALESSANDRO EDUARDO SILVA DE MOURA
ADVOGADO: EIJI JHOANNES YAMASAKI
SUSCITANTE: EXPRESSO SAO JOSE LTDA
ADVOGADO: GERSON PEDRO DA SILVA
ADVOGADO: EIJI JHOANNES YAMASAKI
SUSCITANTE: VIACAO PIONEIRA LTDA
ADVOGADO: MARCUS RUPERTO SOUZA DAS CHAGAS
ADVOGADO: EIJI JHOANNES YAMASAKI
SUSCITANTE: VIACAO PIRACICABANA S.A.

ADVOGADO: VICTOR MARCONDES DE ALBUQUERQUE LIMA


ADVOGADO: EIJI JHOANNES YAMASAKI
SUSCITADO: SIN DOS TRA EM E DE T T DE P U I E E T E DE T CARGAS DF
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PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 10ª REGIÃO
GABINETE DO PLANTONISTA
DCG 0000343-60.2021.5.10.0000
SUSCITANTE: AUTO VIACAO MARECHAL LTDA E OUTROS (5)
SUSCITADO: SIN DOS TRA EM E DE T T DE P U I E E T E DE T
CARGAS DF

Vistos.

AUTO VIAÇÃO MARECHAL LTDA., CONSORCIO HP – ITA (URBI MOBILIDADE


URBANA VIAÇÃO PIONEIRA LTDA.), VIAÇÃO PIRACICABANA LTDA., VIAÇÃO
PIONEIRA LTDA. e EXPRESSO SÃO JOSÉ LTDA ingressam com este dissídio
coletivo de greve em face do SINDICATO DOS TRABALHADORES EM
EMPRESAS DE TRANSPORTES TERRESTRES DE PASSAGEIROS URBANOS,
INTERESTADUAIS, ESPECIAIS, ESCOLARES, TURISMO E DE CARGA DO
DISTRITO FEDERAL – SITTRATER-DF.

Narram que tiveram conhecimento, por meio de notícias veiculadas em


diversos meios de comunicação, o que veio a ser confirmado por Nota
Pública divulgada pelo Suscitado, que a categoria profissional dos
rodoviários do Distrito Federal irá paralisar suas atividades por
24 horas a partir da 0h de 3/5/2021, próxima segunda-feira.

Afirmam que o interesse primordial da paralisação iminente é


protestar contra o Governo do Distrito Federal em razão da não
inclusão dos rodoviários no grupo prioritário da vacinação contra a
COVID-19.

Sustentam que a paralisação não detém nenhuma relação com


descumprimento de normas contratuais ou coletivas pelos
empregadores, possuindo, portanto, nítida feição política.
Asseguram, assim, a caracterização de abusividade, acentuada pela
ameaça de suspensão total do trabalho e não observância dos
requisitos de validade determinados na Lei nº 7.783/1989, como, por
exemplo, convocação da categoria para deliberar sobre a greve,
autorização assemblear, comunicação prévia irregular, garantia de
manutenção de efetivo mínimo.

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Discorrem sobre a essencialidade da atividade do transporte
coletivo que desenvolvem, ao tempo em que assinalam que a súbita
paralização configura flagrante violação dos arts. 9º, §§1º e 2º,
10, inc. V, 11 e 14 da lei de regência.

Ressaltam que a prestação de serviços ficará severamente


comprometida, resultando em prejuízo aos próprios trabalhadores e a
toda população do Distrito Federal, especialmente tendo em vista a
greve dos metroviários.

Dessa forma, as Suscitantes entendem presentes a probabilidade do


direito e o perigo de dano, razão pela qual postulam a concessão de
tutela de urgência, inaldita altera pars, a fim de que seja
determinado ao Sindicato Suscitado “que se abstenha de realizar a
paralisação total dos empregados, bem como seja inibida qualquer
manifestação violenta ou ocupação/obstrução de garagem, garantindo-
se 100% dos trabalhadores ativos do serviço, em todas as bacias e
linhas, bem como em todos os horários, além daqueles que desejem
trabalhar ” e, subsidiariamente, que seja determinado o
funcionamento de 80% (oitenta por cento) do contingente dos
trabalhadores, sob pena de multa diária de R$500.000,00 (quinhentos
mil reais) para cada uma das autoras da presente demanda em caso de
descumprimento.

Requerem a confirmação da liminar ao final, declarando-se a


abusividade da paralisação, com consequente autorização para
desconto das horas paradas daqueles trabalhadores que participaram
da greve.

Brevemente relatado, cabe consignar, de início, que observo que o


advogado que assina eletronicamente a petição inicial, dr. EIJI
JHOANNES YAMASAKI (OAB: DF0025989), somente possui expressos
poderes para representar as 1ª e 5ª Suscitantes. Nesse passo, com
base no permissivo inscrito no art. 321 e seu parágrafo único do
CPC e observado o procedimento especial do dissídio coletivo de
greve, assino às demais, CONSORCIO HP – ITA (URBI MOBILIDADE URBANA
VIAÇÃO PIONEIRA LTDA.), VIAÇÃO PIRACICABANA LTDA. e VIAÇÃO PIONEIRA

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LTDA. prazo de 24 horas para regularizarem sua representação
processual.

A respeito da pretensão cautelar, ressalto que a Constituição


Federal assegura o direito de greve ao trabalhador, cabendo à
categoria a que pertence decidir sobre a oportunidade de exercê-lo,
bem como sobre os interesses que serão defendidos no exercício
desse direito (art. 9º).

Em regulamentação desse preceito constitucional, a Lei nº 7.783, de


29 de junho de 1989, em seu art. 2º, destaca ser legítimo o
exercício do direito de greve, consubstanciada "na paralisação
coletiva, temporária e pacífica de prestação pessoal de serviços a
empregador."

Nesse contexto e sem descurar que o exame das questões afetas à


eventual abusividade da greve pertence à 1ª Seção Especializada
deste egr. Regional, a teor do que dispõem os arts. 25, inc. I e
32, inc. VIII, do RITRT10, cumpre destacar lição do Exmo. Ministro
Mauricio José Godinho Delgado, de que “se a greve política ou de
solidariedade mostra real conexão com temas de importante interesse
profissional dos grevistas, naturalmente que ela deve ser tida como
harmônica ao disposto no art. 9º da Constituição de 1988. Ela deixa
de ser greve estritamente política ou de solidariedade e passa a
ser movimento paredista com conteúdo igualmente econômico,
profissional e/ou equivalente” (TutCautAnt-1000693-
10.2021.5.00.0000, julgado em 26 de abril de 2021).

Dessa forma, de acordo com o ordenamento jurídico pátrio, há


inquestionável direito dos trabalhadores em aderirem à greve.
Assim, eventual ilicitude não se orienta pela conduta dos sujeitos
coletivos, abrindo-se apenas espaço para aplicação de sanções
penais, civis e trabalhistas decorrentes.

Em contraponto, é cediço que nenhum direito é absoluto, sendo certo


que o próprio texto constitucional estabelece limitações ao
exercício de greve, ao ressaltar que, em se tratando de serviços ou
atividades essenciais, devem ser atendidas as necessidades

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inadiáveis da comunidade (art. 9º, § 1º, da Constituição Federal).
Na mesma toada, a Lei nº 7.783/1989 assegura que, quando o direito
de greve é exercido em atividades consideradas essenciais,
sindicatos, empregados e empregadores se obrigam a garantir a
prestação de serviços mínimos, de forma a evitar danos à
sobrevivência, à saúde e à segurança da população, dispondo, ainda,
que, no caso de inobservância dessa determinação, pode o Poder
Público intervir no movimento para que a Lei seja cumprida, além de
os grevistas empregarem “meios pacíficos tendentes a persuadir ou
aliciar os trabalhadores a aderirem à greve" (arts. 6º, 11 e 12).

Cabe acentuar que o art. 10 da Lei de Greve descreve os serviços e


atividades cuja prestação não pode ser descontinuada, definindo
como essencial, dentre outras, a atividade de transporte coletivo
(inc. V).

Sob a perspectiva da tutela de urgência, pontuo que sua concessão


se revela possível, desde que, claro, encontrem-se presentes a
verossimilhança do direito alegado e o perigo de dano ou risco ao
resultado útil do processo (caput do art. 300 do CPC).

No caso concreto, embora aos autos tenham sido colacionadas apenas


notícias de provável sustação coletiva do trabalho pela categoria
dos trabalhadores, considerando-se a essencialidade da atividade
prestada pelas Suscitantes, as quais transportam diariamente
milhares de passageiros, aliada à notoriedade de que o Distrito
Federal atravessa atualmente fase crítica quanto ao número de
infectados e de óbitos causados pela pandemia do novo
coronavirus, não se duvida que a paralisação noticiada implica
efetivo prejuízo direto a toda população deste ente federativo,
restando, portanto, ser vislumbrada a plausibilidade do direito e o
perigo de dano a autorizar a concessão de tutela de urgência
requerida.

Entretanto, não há como ser acolhido o pedido de que seja


determinado que se mantenha em atividade o contingente integral dos
trabalhadores, sob pena de ferir-se o princípio da razoabilidade e
inviabilizar-se o próprio exercício do direito de greve.

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Nessa quadra, em cognição sumária, DEFIRO PARCIALMENTE a liminar
para determinar que, caso venha haver sustação coletiva do
trabalho, seja garantido o contingente mínimo de 60% (sessenta por
cento) nos horários considerados de pico (5h às 9h30 da manhã e 17h
às 19h30), e de 40% (quarenta por cento) nos demais horários, sob
pena de pagamento de multa diária de R$50.000,00 (cinquenta mil
reais).

Advirto que eventuais ilícitos praticados por empregados ou


empregadores no curso do movimento paredista serão apurados por
meio dos remédios processuais próprios.

Designo audiência, a ser realizada na modalidade telepresencial,


por meio da plataforma de comunicação digital Microsoft Teams, para
3/5/2021, às 15h30.

Em razão de o processo ter sido direcionado ao ambiente do gabinete


do plantonista, as Suscitantes são consideradas intimadas nestes
autos.

Brasília-DF, 01 de maio de 2021.

BRASILINO SANTOS RAMOS


Desembargador do Trabalho

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https://pje.trt10.jus.br/pjekz/validacao/21050120261147600000010826017?instancia=2
Número do processo: 0000343-60.2021.5.10.0000
Número do documento: 21050120261147600000010826017