A luta com o Anjo

Análise textual de génesis

In: ANALYSE STRUCTURALE ET EGESE BIBLIQUEESSAIS D'INTERPRETATION, 1972, Delachaux et Niestlé, Labor et Fides, 1972

O Autor propôs-se a:
Uma análise estrutural clássica justificada pela natureza mítica da narrativa objecto de análise (ESCRITURA) Análise textual - procurar “ver” o texto na sua diferença, encarar o texto como “uma rede aberta”, tentar explicar como se desfaz e não proceder a uma análise de crítica histórica ou estrutural (familiar ao autor) Analisar o texto não expondo qualquer resultado ou método mas sugerindo “uma maneira de proceder”.

I. ANÁLISE SEQUENCIAL

Análise Sequencial
Análise estrutural contempla três tipos\tarefas\objectos de análise: 1. Inventário e classificação dos atributos das personagens que intervêm na narrativa Plano da Frase – a instâncias dos índices 2. Inventário e classificação das funções das personagens “o que fazem” Plano da Frase – particípio presente\análise actancial.

3. Inventário e classificação das acções Plano dos verbos – acções narrativas organizadas em sequências aparentemente ordenadas. ↓

Análise Sequencial

Texto do Génesis igual a análise – Indicial e Actancial
Análise Indicial: luta como índice da força de jacob ↓ Implica: força invencível do eleito de DEUS Análise Actancial: Texto composto por acções aparentemente contingente, sendo portanto a melhor opção de proceder e uma análise sequencial, acrescentando observações sobre o actancial.

Divisão do texto em Sequências:
1. A PASSAGEM 2. A LUTA 3. AS DENOMINAÇÕES

1. A PASSAGEM

Esquema sequencial deste episódio
Duplo ou “estrábico” (visão imediata do seu jogo)
I Levantar-se
23

Reunir
23

Passar
23

I Reunir
24

Mandar passar
24

Ficar só
25

Estruturalmente: Operador do início Pôr-se em movimento \ começo da progressão do discurso

Esquema sequencial: Duas Formas de Ler
A) O próprio jacob passa o vau após o “o combate na
margem esquerda da torrente”, vindo do norte ↓ Ajudar a \ mandar passar = passar ele próprio B) “Jacob ajuda a passar, mas ele não passa”, combate na margem direita do jaboq, antes de passar em posição de retaguarda.

Duas expressões diferentes de legibilidade
A) Jacob fica sozinho antes de atravessar a margem = Leitura “folclorista”do episódio. Referência mítica: excessiva tentativa de imposição de uma prova de luta ao herói antes de ele ultrapassar o obstáculo, isto é, para que possa transpor, saindo vitorioso.

B) Contrariamente se Jacob, após passar a margem, fica sozinho do lado
bom da corrente retira-se a finalidade estrutural da passagem. ↓ Nova Finalidade – Religiosa: Jacob está só e pretende conseguir a passagem marcado pela solidão

Indecisão – um obstáculo colocase perante as duas interpretações
Circunstâncias Histórica – Jacob tenta voltar à sua terra entrar NA TERRA CANAÃ
Passagem de um lugar neutro Passagem Forte Passagem Indiferente


Se Jacob a tiver de conquistar ao génio do lugar


Se o importante for a solidão

A LUTA E A DENOMINAÇÃO

DUAS VERSÕES
Não passar ele Luta e denominação Ter passado

Mandar e ajudar a passar os outros

Passar ele

Continuar

RESUMINDO
O primeiro episódio contém legibilidade sequencial, mas ambiguidade cultural Análise textual: uma espécie de fricção entre duas inelegíveis, que se baseia mais na leitura do que na estrutura objectiva do texto

2. A LUTA

EMBARAÇO
Causado pelo carácter intermutável dos pronomes (“ele” e “alguém”) que reenviam para os protagonistas da luta.

Silogismo

Tu venceste a Deus Ora, aquele que fala é aquele que tu venceste Logo, aquele que te fala é Deus

Identificação ambígua e propícia a desvios, provocada pela estrutura paradoxal da luta.

ESTRUTURA PARADOXAL
A, que desfechou B, não é o vencedor. “A luta com B mas não consegue vencê-lo; para conseguir a vitória custe o que custar, A recorre a uma técnica excepcional, seja usando um golpe baixo (…)”

“decisivo na lógica narrativa”

ESTRUTURA PARADOXAL (cont.)
Lutar

(durativo) 25

.

Impotência de A 26

.

Golpe decisivo 26

.

Negociações 27

.

Pedido de A 27

.

Regatear

27

.

Aceitação 30

.

A sequência tem por função “desequilibrar” os protagonistas, através da vitória de um deles. Tal como se inverte no seu desenrolar inesperado, “marca” um dos combatentes: o mais fraco vence o mais forte, em troca do que é marcado (nervo ciático da coxa)

INVERSÃO DE MARCA
Sentido estrutural do episódio:
Equilíbrio Desequilíbrio A Luta Vitória inesperada

Configuração tradicional:
Equilíbrio Desequilíbrio irmãos ao mesmo nível perante os pais irmão mais velho marcado

Jacob:
Inversão da marca: irmão mais novo suplanta o mais velho

3.DENOMINAÇÕES OU MUTAÇÕES

DENOMINAÇÃO
Objecto: troca de nomes, promoção de novos estatutos, novos poderes Denominação ligada à bênção

TIPOS DE DENOMINAÇÃO
Deus pergunta o nome a Jacob

.
28

Resposta de Jacob

28

.

Efeito da mutação

.
29

Jacob pergunta o nome a Deus 30

.

Resposta indirecta 30

.

Efeito: indecisão

.

Mutação: Peniel 31

ASSIM…
As três sequências analisadas são homólogas:
Nos três casos há uma passagem 1. passagem – do lugar 2. luta – da linha parental 3. denominações – do nome, do rito de alimentar

Tentou-se, nesta divisão sequencial, encontrar uma significância para o texto e não formular um documento filosófico ou histórico detentor da verdade

II. ANÁLISE ESTRUTURAL

Duas Práticas de Análise Estrutural
1. Análise Actancial 2. Análise Funcional

1. ANÁLISE ACTANCIAL

1. Análise Actancial
Análise actancial deve ser usada com prudência e flexibilidade O actante pode reunir várias personagens e uma só personagem pode reunir também vários actantes. Episódio com o Anjo narrativo crítico Passem do obstáculo (A prova)

Análise do Episódio: Os actantes “Preenchem-se”
Sujeito Objecto Destinador Destinatário Oponente Adjuvante Jacob Passagem do lugar guardado da torrente aquele que põe em circulação o objecto da procura Deus na figura de Jacob o próprio Deus Jacob que se serve da sua própria força

Modelo Actancial – A.J.Greimas
Implicação

Destinador: Passagem da torrente

(saber)

Objecto: Passagem do lugar da torrente

(saber)
Destinatário: Deus e Jacob

Projeção (poder)
Adjuvante: Jacob Sujeito: Jacob

(desejo) (poder)
Opositor: Deus

Contradição

Paradoxos na análise
1. Sujeito e destinatário confundidos

Carácter Banal 2. Sujeito e adjuvante confundidos Produz-se em narrativa ou romances “voluntaristas”

Carácter muito raro

Paradoxos na análise
Destinador e oponente confundidos

(cont.)

Produz-se em narrativa que relatam chantagem

Carácter muito raro “A fórmula do (…) texto está longe de ser pacífica (…) é estruturalmente muito audaciosa (…) corresponde ao «escândalo» figurado na derrota de Deus”

2. ANÁLISE FUNCIONAL

2. Análise Funcional
Propp foi o primeiro a estabelecer a estrutura do conto popular, distribuindo-lhe funções. Paralelismos entre o esquema de Propp e a narrativa do génesis:

Paralelismos: Propp/Génesis
PROPP E O CONTO POPULAR 15.Transferência de um lugar para o outro (por meio de pássaros, Cavalos, barcos, etc.). GÉNESIS Tendo partido do Norte, da região dos Arameus, de casa Labão, jacob desloca-se para voltar à sua terra, para casa de seu pai (29.1.;Jacob põe-se a caminho). É a nossa sequência da luta (32.25-28). Jacob é marcado na anca (32.26-33).

16. Combate ente o Malfeitor e o Herói. 17. O Herói é marcado (trata-se em geral, de uma marca no corpo, mas noutros casos é apenas a oferta de uma jóia, de um anel). 18. Vitória do Herói, derrota do Malfeitor. 19. Liquidação da desgraça ou da falta: a desgraça ou a falta tinha sido imposta na ausência do Herói: esta ausência é apagada.

Vitória de Jacob (32.27). Depois de ter conseguido passar Peniel (32.32), Jacob consegue chegar a Siquem, em Cannaã (33.18).

Outros paralelismos
PROPP E O CONTO POPULAR 14. Herói recebe um objecto mágico 29. Transfiguração do herói (ex.: o monstro que se transforma em príncipe) GÉNESIS Talismã: a bênção concedida pelo seu pai cego Mudança do nome (gen. 32.29), implicando o renascimento

Motivações das personagens (a sua razão de agir) não são anotadas

Modelo narrativo: atribui a Deus o papel de Malfeitor

Conclusões:
Seguindo a análise estrutural concluiríamos que a Luta com o Anjo é um verdadeiro conto de fadas. O mais importante na passagem:
Fricções, rupturas, as descontinuidades de legibilidade A justaposição das entidades narrativas que escapam a uma articulação lógica explícita.

O episódio é, “uma espécie de montagem metonímica (Passagem, Luta, Denominações, Rito alimentar) são combinados e não «desenvolvidos»” Prosseguir a disseminação do texto, reforçando a simbologia do episódio (não forçosamente religiosa), mas não o reduzindo a um significado. Manter aberta a sua significância

TRABALHO REALIZADO POR:
MÁRIO MATOS

LILIANA PEREIRA INÊS SARAIVA

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