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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questoes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
índice
pao.

PEREGRINO DO ABSOLUTO 185

Aparatoso e discutido:
"JESÚS DE NAZARÉ" de Franco Zefllrelll 187

Ecos da Cortina de Ferro:


DUAS CARTAS PROVENIENTES DA U.R.S.S 193

Memorias de um sacerdote russo:


AS CONVERSAS VESPERTINAS DO PADRE DMITRIJ DUDKO 204

Depolmenlo precioso:
"EU FUI TESTEMUNHA DE JEOVA" por Günther Pape 215

LIVROS EM ESTANTE 227

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO :

Contestar o Papa : sim ou nao ? — A nova legislacáo sobre


o divorcio. — "É..." de Mülor Fernandes. — "O poder do
subconsciente" de Joseph Murphy.

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Assinatura anual Cr$ 100,00

Número avulso de qualquer mes Cr$ 10,00

REDACAO DE PR ADMINISTRACAO
- . ~ ,.,.„„„ Llvrarla Misslonárla Editora
Caljra Postal 2.666 Bua México, ics-B (Cnstetní
ZC-00 20 000 Rio de Janeiro (RJ)
20 000 Rio de Janeiro (RJ) Tel.: 824-0059
PEREGRINO DO ABSOLUTO
Ñas obras dos grandes pensadores, encontram-se interés-
santes depoimentos sobre o ser humano e suas aspiragóes. A
guisa de introducto em mais este fascículo de PR, seleciona-
remos e comentaremos dois de tais testemunhos.

O Mahatma Gandhi, famoso a diversos títulos, se auto-


definia nos seguintes termos:
"Sou apenas alguém que procura a Verdade. Julgo ter encontrado um
camlnho que a ela conduz, e crelo estar fazendo todo o meu possfvel para
atingir a meta. Mas confesao que aínda nao chegue!".

Com estas palavras, Gandhi apontava, como ideal de süa


vida, a procura e o encontró da Verdade... Verdade qué
nao é material, corpórea, nem é diretamente lucrativa, nem
palpável como tal, mas que responde a urna anseio incoer-
cível e inato em todo homem. A Verdade é um valor apto
a atrair apaixonadamente os homens; nao somente Gandhi,
mas outros muitos consagraram a vida inteira á procura da
Dama Verdade.
Este fato sugere, entre outras, a seguinte reflexáo: Se
a Verdade é algo de imaterial ou nao corporal, dentro do
homem deve haver um principio nao material ou espiritual
capaz de conhecer e amar a Verdade. É nisto, alias, que o
homem se diferencia do animal irracional; este nao é apto a
consagrar a sua vida á procura da Verdade, mas contenta-se
com a descbberta desta ou daquela verdade que lhe entra
pelos olhos ou pelos ouvidos... Ele nao consegue oonceber a-
nocáo de Verdade, para poder apaixonar-se por ela.
Outro depoimento que interessa mencionar, é o de Henri
Bergson, o pensador judeu que, falecido em 1941, alimentava
grande simpatía pelo Cristianismo, mas nao quis oficialmente
aderir a este, alegando que prefería ser solidario com os
israelitas perseguidos pelo nacional-socialismo. Referindo-se
ao Evangelho, dizia:
"O que me fanpresslonou em Jesús, fol o seu programa de caminhar
sempre para a frente... De tal manelra que se poderla dlzer que o elemento
estável do Cristianismo é a ordem de nunca parar".

Foi certamente o sermáo da montanha (Mt 5-7) que


inspirou esta observacáo de Bergson: Jesús ai exorta os seus
discípulos a procurar «urna justiga melhor», ou seja, um
tipo de vida mais perfeito do que a dos «perfeitos» dos tem-
pos de Cristo: imitem o Pai celeste, que dá o sol e a chuva
aos bons e aos maus (Mt 5,44-48)... Dispensem qualquer

— 185 —
tipo de juramento, porque a simples palavra do cristáo deve
ser táo verídica que nao precise de reforgo algum (Mt
5,33-37). Em suma, nao se contentem com as aparéncias da
santidade, mas cultivem o ámago da mesma santidade, a
qual tem seu modelo consumado no Pai Celeste. Na busca
dessa meta, o cristáo.nunca para; nunca se dá por satisfeito
ou «realizado», mas é sempre séquioso de mais verdade,
mais amor, mais vida... até atingir a plenitude destes valo
res na eternidade. Alias, o Apostólo Sao Paulo diz muito a
propósito:

"Nfio que eu já tenha chegado á meta ou que Já seja perfelto, mas vou
proasegulndo para ver se o alcanco, pote que também já luí alcanzado por
Cristo Jesús. Nto, lrm§os; nao Julgo que eu já tenha alcancado, mas urna
colsa fafo: esquecondo-me do que ftea par.a tras, camlnho reto para dtante,
prossegulndo em demando do alvo..." (Fl 3, 12s).

Por conseguinte, o que impressionou Bergson, foi a


demanda do Absoluto, que faz dos discípulos de Jesús os pere
grinos do Absoluto. Seguindo tal programa, os cristáos pro-
curam viver, de maneira evangélica, o ideal proposto por
Gandhi. Este, ao falar da Verdade, formulava em termos
filosóficos, a mesma meta a que os cristáos tendem quando
procuram a Deus,... Deus que se revelou como Pai.

Pois bem. Ter consciéncia de nunca haver chegado, estar


disponível para atender a qualquer imprevisto na caminhada,
estar livre para um Sim generoso a tudo que possa sadiá-
mente quebrar a ratina..., isto requer, da parte do peregrino,
forte capacidade de perseverar. Sao Joáo da Cruz dizia:
«Se bem que o caminho seja liso e suave para as pessoas de
boa vontade, pouco e difícilmente se adiantará aquele que
nao tiver boas pernas, coragem e constancia viril» («Dizeres
e Máximas» 3).

Todavía é precisamente nessa inseguranpa cheia de ris


cos, mas heroica, que reside o segredo da felicidade e o atra-
tivo do ideal cristáo. É por incitar o homem a crescer sem
pre, ultrapassando-se constantemente, que o Cristianismo pode
pedir a palavra e falar a todos os homens.

Será que os próprios cristáos tém plena consciéncia


disto?... Consciéncia nao apenas teórica, mas eficaz e con
creta?... Possa o mes de maio, que transcorre sob o signo
do Espirito de Pentecostés e o sorriso da Virgem Máe, inci
tar os cristáos a cultivarem a sua vocagáo de peregrinos do
Absoluto, sacudindo ratina e torpor para responder magná
nimamente aos apelos sempre renovados de Deus e dos
homens!
E.B.
— 186 —
«PERPUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XIX — N* 221 — Maio de 1978

Aparatoso e discutido:

"jesús de nazaré"
de Franco Zeffirolli

Em sfntese: Franco Zeffirelli é o autor do filme "Jesús de Nazaré",


cuja prlmelra parte está sendo exlbida no Brasil (aprésente aconteclmentos
desde o nasclmento de Jofio Batista até a primeira predlcáo da Paixfio).
A película é rica em personagens, cenarlos, coloridos e sons, o que a torna
pujante e impressionante. Todavía aprésente María a sofrer as dores do
parto — o que é ambiguo. Quer Isto significar que Maria foi m&e como as
outras mulheres, sem ter conservado o seu titulo de virgindade antes do
parto, no parto e depols do parto? Ou quer Zeffirelli apenas Indicar que
Maria, ficando virgem perpetua, compartilhou o sofrimento de todas as
mSes? A clásslca tradicfio católica sempre representou María Isenta das
dores do parto, a flm de acentuar plenamente a perpetua virgindade da
Santa MSe de Deus. De resto, a IsencSo das dores do parto em Maria nada
tem que ver com a Imaculada Conceigfio da mesma Senhora.

Pode-se também observar que o filme de Zeffirelli ó pouco transpa


rente ao Transcendental e Divino em Jesús. Além do que aprésente um
Cristo cujas atltudes "místicas" nem sempre lembram as do Cristianismo,
mas antes se assemelham ás de outras fontes de esplrltualldade. Todavía
estes dois pontos tém pouca importancia em confronto com o que se
refere ao parto de Maria SS.

N&o obstante, reconhecemos que o filme apresenta cena3 grandiosas


e que, abstracSo feita do referido episodio, poderá ser útil aos espectadores.

Coímentário: O diretor de cinema italiano Franco Zeffirelli,


autor de «Romeu e Julieta» e «Irmáo Sol, Irma Lúa», é res-
ponsável outrossim pelo filme «Jesús de Nazaré», urna película
cuja primeira parte está percorrendo o Brasil, devendo a
segunda parte ser ejdbida em julho. Visto que o diretor se
tomou famoso e o filme tem suscitado controversias, propo
mo-nos, a seguir, comentá-lo sumariamente.

— 187 —
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 22171978

1. «Jesús de Nazaré» (I)

A primeira parte da película compreende os aconteci-


mentos que váo desde os imediatos antecedentes do nascimento
de Joáo Batista até a primeira predigáo da Paixáo por parte
do Senhor, durando a sua exibicáo duas horas e meia.

A película foi filmada no Marrocos, na Tunísia e ha


Turquía, desde 29 de setembro de 1975 até 28 de maio de 1976.

Franco Zeffirelli consultou eclesiásticos e especialistas


para reproduzir da melhor maneira possivel as cenas dos quatro
Evangelhos que ele selecionou segundo criterios válidos: a
natividade de Joáo Batista, a de Jesús, a pregacáo do Batista,
o sermáo das bem-aventurancas, a parábola do filho pródigo e
outras, o episodio da pecadora anónima (que Zeffirelli impro
priamente identifica com María Madalena), o demoniaco de
Gerasa, a pesca milagrosa, a ressurreicáo da filha de Jairo, a
multiplicagáo dos páes, a confissáo de Pedro...

As cenas nao sao apresentadas por Zeffirelli na ordem


mesma segundo a qual se encontram nos Evangelhos... Em
um ou outro caso, o autor fugiu da letra do texto sagrado,
acrescentando-lhe algum tópico ilustrativo, que nao diminuí o
valor da película; assim, por exemplo, apresenta moleques a
ameacarem de incendio a casa da pecadora (supostamente
María Madalena); por ocasiáo da multiplicagáo dos páes, no
filme é a multidáo que se precipita sobre o depósito de páes e
peíxes recém-produzidos, ao passo que o Evangelho diz que
Jesús mandou á multidáo que se sentasse sobre a relva, onde
lhe seriam distribuidos os víveres. Após o perdáo conferido á
pecadora, Jesús lhe entrega um vaso de óleo que serviría para
embalsamar o seu corpo (o que mésela as cenas de Le 7
e Jo 12).

Em geral, o filme se apresenta rico em personagens,


coloridos, música, som... É fortemente movimentado; exibe
cenários grandiosos de desertos, dunas, aldeias, etc., o que
bem corresponde ao estilo de Zeffirelli. Em conseqüéncia, o
espectador nao pode deixar de admirar o aspecto artístico da
película, o qual é eloqüente e digno de apreco. Pergunta-se,
porém: como julgar a mensagem transmitida pelo filme?

É o que tentaremos dizer a seguir.

— 188 —
«JESÚS DE NAZARÉ»

2. Refletindo...

Proporemos tres pontos mais salientes, sublinhando de


novo que é difícil apreciar de maneira exata o filme enquanto
nao se tem o conhecimento da segunda parte (que, entre
outras coisas, apresentará o final da vida de Cristo).

2.1. Opacidad© e transparencia

Todo filme é geralmente concebido em vista de urna tese


que o autor quer sugerir; por isto, o produtor estiliza, realgando
um ou outro tópico que ele julgue mais importante para o
seu propósito. Principalmente um filme sobre Jesús há de ser
transparente & mensagem respectiva, sem, porém, ser piegas
ou adocicado. Ora o filme «Jesús de Nazaré> nos pareceu
insuficientemente transparente: os personagens e as cenas que
apresenta, sao marcados por variedade de cores, sons, movi-
mentos, vestes que impressionam profundamente o espectador,
mas que pouco ou nada insinuam de transcendente. Talvez urna
maior sobriedade dos cenários fadlitasse a percepcáo do outro
lado da realidade ou do misterio de Deus feito homem. Alias,
o próprio Zeffirelli declarou:

"Estou Interessado no aspecto humano de Cristo, de María e dos


demals... algo nunca antes apresentado num filme. Cristo tem sido mos
trado como urna criatura Intocável, super-dlvlna ou como um 'hlpple' rebelde;
ora ambas sfio concepcOes que ficam totalmente alhelas ao meu rotelro"
(prospecto distribuido pela "Cóndor").

Na verdade, é importante frisar o aspecto humano de


Jesús, pois a salvagáo que Ele. veio trazer se baseou na
Encarnacáo e na partilha do humano com os homens; todavía,
para ser fiel á verdade, é preciso que o autor saiba também
deixar transparecer, através do humano, o Transcendental ou
o Divino em Jesús.

2.2. A figura de Cristo como tal

A figura de Cristo apresentada por Zeffirelli nada tem


de hippie (como talvez o tenha o Cristo de Buñel em «A Via
Láctea); também é bem distante do tipo de líder sindical e
chefe de massas que Pasolini insinúa no «Evangelho segundo
S. Mateus». Um tanto fora de propósito, o Cristi de.'Zeffirelli
assume átitudes místicas que lembram fontes de espirituali-

— 189 —
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 221/1978

dade diversas das da mística crista. Com efeito, durante a


multiplicacáo dos páes Jesús se coloca em atitude imóvel,
com a máo levantada e o olhar fixo no fenómeno; tal gesto é
ambiguo, pois lembra o do mago ou o do prestidigitador...
Quando Judas se chega a Jesús pela primeira vez, encontra-o
a orar de olhos fechados, de tal modo que Jesús nao responde
de imediato a Judas; nao haveria urna analogía entre tal
atitude e a do gurú (mestre) indiano absorvido em oragáo,
disposto a se alhear ao mundo e aos homens sistemáticamente?
Tal atitude difícilmente corresponde ao que geralmente se
pensa a respeito de Jesús Cristo, que foi certamente um
grande orante (como homem), mas outrossim um amigo dos
homens, aberto a todas as suas necessidades. Em suma, o
artista Robert Powell, no papel de Jesús, nao foi de todo
feliz.

2.3. As dores do paito

Um dos pontos do filme mais controvertidos é o das dores


do parto que Zeffirelli atribuí a María SS. O autor assim
justifica a sua opcáo:

"Para mlm, esse nasclmento foi tSo Importante que eu tlve de mostrar
que a natlvldade nao era o parto agradável que ó usualmente mostrado
em filmes e pinturas. María teve um parto desesperado, com multas dores.
Ela teve o filho, como urna alma pobre e abandonada, multo jovem e sem
qualquer aluda a nfio ser a do esposo José" (Ib.).

"Mostrel o nasclmento de Cristo da maneira mals realista possl-


vel" (Ib.).

Pergunta-se: essas dores de parto pretendiam significar


apenas que María e Jesús eompartilharam a condigáo sofre
dora dos homens até as últimas conseqüéncias? Ou nao
significam também que María foi máe como as demais mu-
lheres, isto é, sem o título da Virgindade que a fé lhe atribuí
antes do parto, nq parto e depois do parto? Se esta insinuagáo
é a que Zeffirelli teve em vista, entáo realmente o seu filme
destoa da mensagem da fé católica. A Igreja, visando a
afirmar a virgindade de María no parto, sempre lhe atribuiu
um parto sem dor; este é tido como conseqüéncia do fato de
ter guardado a virgindade até mesmo durante o parto.

Note-se bem, de resto: a isengáo de dores no parto, em


María, nao sé deve ao fato de ter sido ela isenta do pecado

— 190 —
«JESÚS DE NAZARÉ»

original. Verdade é que o texto sagrado refere a seguinte


sentenga do Senhor sobre a mulher após a queda original:
«Aumentare! os sofrimentos da tua gravidez; os teus filhos
háo de nascer entre dores» (Gn 3,16). Todavía sabe-se que
as dores do parto, no caso, significam a maternidade em toda
a sua amplidáo; o que o texto do Génesis quer dizer, é que a
mulher, em conseqüéncia do pecado, exercerá com trabamos e
fadigas a sua típica missáo de máe; se, nesse contexto, a
medicina consegue diminuir ou suprimir as dores do parto,
nada se lhe opóe da parte da Lei de Deus; a maternidade
fica sendo ardua e laboriosa tarefa. Como quer que seja,
nao é por causa da imaculada conceicáo de María (isengáo
do pecado original) que a Tradigáo católica sempre ensinou
ter sido indolor o parto de María.

Sao estas as tres consideragóes que julgamos poder


oferecer ao público no tocante ao conteúdo do filme «Jesús
de Nazaré» de Franco Zeffirelli, em sua primeira parte. Das
tres, certamente a terceira é a mais ponderosa porque de
certo modo toca urna verdade de fé, que podería estar sendo
questionada pelo autor.

Resta aínda

3. Urna obsérvaselo final

Após assistir ao filme «Jesús de Nazaré», muitas


pessoas levantam a questáo a respeito do silencio que no
Evangelho cobre o período dos doze aos trinta anos de vida
de Jesús. Por que a propósito nada disseram os evangelistas?

— A resposta nao é difícil. Visto que já foi amplamente


expostas em PR 206/1977, pp. 61-76, basta aqui resumi-la em
poucas frases.

Os Evangelhos geralmente sao tidos como biografías de


Jesús, quando na verdade nao o sao. Os evangelistas nao
intencionaran! descrever a vida e os feitos de Jesús, mas
apenas redigiram por escrito a pregacáo oral dos Apostólos.
Ora esta comecava pelo finí, e nao pelo nascimento de
Jesús; isto é, narrava primeiramente a morte e a reBSurreicáo
do Senhor ou a Páscoa do Cristo, pois o que mais importa
na mensagem crista é a noticia de que Jesús salvou os
homens derramando o seu sangue na cruz e superando a

— 191 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 22171978

morte mediante a ressurreigáo. Em segundo lugar, a pre


gagáo dos Apostólos narrava a doutrina de Jesús apregoada
durante a sua vida pública, visto que esta era o paño de
fundo necessário á compreensáo da morte de Cristo. A vida
pública do Senhor nao era descrita segundo rigorosos crite
rios de cronología e topografía, mas táo somente apresentada
em vista da instrugáo doutrinária dos ouvintes. Para tras da
vida pública ou para tras dos trinta anos de Jesús, nao era
necessário recuar na pregagáo dos Apostólos; em conseqüén-
cia, S. Marcos nos narra apenas o que houve desde o batismo
de Jesús até a sua glorifícagáo, sem aludir á infancia do
Senhor; S. Mateus e S. Lucas acrescentaram ao esquema
da pregagáo apostólica algo sobre o nascimento e a infancia
de Jesús porque o quiseram, e nao porque isso pertencesse ao
conteúdo da mensagem apostólica. Donde se vé que a génese
dos Evangelhos nao é a de urna biografiar esta corneja
pelo nascimento, narra a infancia e a juventude do seu herói,
depois passa á vida profissional e ao declínio do biografado;
se numa biografía falte alguma dessas partes, é justificado
perguntar por que falta. O mesmo nao se dá no género
literario dos Evangelhos; estes comegam pela Páscoa e
encerram sua linha de exposigáo no Batismo do Senhor
ocorrido aos trinta anos; o que para tras neles se acha, é
intencionalmente esporádico.

Quem sabe disto, nao se surpreende pelo silencio dos


evangelistas sobre o período que vai dos doze aos trinta
anos de idade de Jesús, nem vai procurar explicagóes despro
positadas para o mesmo em fontes mediúnicas ou esotéricas,
que só podem falar, a respeito, de maneira fantasiosa e
ilusoria.

Em conclusáo, pois, pode-se dizer: o filme «Jesús de


Nazaré» de Franco Zeffirelli, em seu conjunto, é válido e
interessante. Todavía, no tocante ao episodio do nascimento
de Jesús deixa aberta urna questáo que de perto toca a fé
católica.

— 192 —
Ecos da Cortina de Ferro:

duas cartas provenientes da u. r. s. s.

Em sfntese : Este artigo aprésente duas cartas do jovem russo Georglí


Fedotov, que, internado em urna clínica psiquiátrica de Moscou, narra como
é tratado pelos enfermeiros e pela policía e como foi disslpado um encontró
de jovens na capital soviética em junho de 1976. Esses dols documentos
atestam a veeméncia da perseguido, de um lado, e, de outro lado, a resis
tencia heroica dos cristáos, cujo número val mesmo crescendo, pols se
registra extraordinario e inacreditável surto religioso na Rússla de nossos
días. As conversdes se dfio no selo das familias comunistas e asslnalam
o espontáneo reencontró de Deus por parte do homem, cuja dlmensSo
religiosa é Indelóvel.
• • •

Comentario: A nossa revista tem publicado depoimentos


relativos á realidade social e religiosa da U.R.S.S. Assim
vem procurando por em evidencia o surto de valores cristáos
que, apesar da perseguigáo atéia, váo sendo mais e mais
estimados e cultivados nao só pelos anciáos, mas também
pelos jovens e os intelectuais que hoje representan! a «intel-
ligentzia» da U.R.S.S. Esse despontar religioso é do mais
alto significado, pois nao resulta de fatores políticos ou
sociológicos, mas corresponde á natureza humana como tal,
brotando espontáneamente da consciéncia do homem russo,
que, como qualquer outro, é «homo sapiens» e «homo reli-
giosus».

Desenvolvendo a temática até aqui apresentada, publica


remos, a seguir, em tradugáo brasileira, duas cartas de um
jovem russo que, por causa de sua fé religiosa, foi internado
em hospital psiquiátrico. A primeira dessas missivas refere-se
a um Grupo da Juventude Ortodoxa que foi descoberto em
Moscou e desfeito pela policía russa em junho de 1976.
Varios dos membros desse Grupo jovem foram tratados com
violencia, sendo que um deles, Alexandre Argentov, foi
internado em hospital psiquiátrico (veja-se urna carta de
Argentov em PR 207/1977, pp. 120-122). Outro membro do
Grupo, Georgii Fedotov, escreveu as duas cartas que abaixo
publicaremos. Ambas sao dirigidas á Sra. Tánia Khodorovitch,
membro da Comissáo que em Moscou propugna os direitos
do homem.

— 193 —
_U) «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 221/1978

Antes de transcrever as cartas em foco, diremos algo


sobre a respectiva fonte de informagóes, ou seja, sobre o
chamado Samizdat.

1. «Samizdat» : a fonte de ¡nformagoes

A palavra samizdat quer dizer «edi?óes independentes»,


em oposigáo a oonsizdat, que significa «ediQóes do Estado». Há
cerca de doze anos, um grupo corajoso na U.R.S.S. resolveu
divulgar dentro e fora do país a triste realidade ali ocorrente;
tal movimento, que comecou tímidamente, foi-se desenvol-
vendo e implantando; lioje constituí um fenómeno nao só de
élite, mas também popular; vem a constituir na U.R.S.S.
urna nova cultura, pela qual se interessam cristáos e nao
cristáos. A principio, eram poucos e tímidos os leitores dos
escritos do samizdat, ao passo que hoje em dia sao numerosos,
chegando a arrancar do bolso allieio, para lé-los, os
documentos clandestinos.

Esses documentos sao os mais diversos possiveis: cartas,


crónicas, relatónos de tres ou quatro páginas, ou mesmo
livros de dezenas e centenas de páginas (tratados de filosofía
ou teología, romances...). Há também revistas publicadas
pelo samizdat, em número de vinte ou mais, com edicóes
regulares...

O funcionamento do samizdat é muito simples, pois se


baseia na técnica artesanal: os amigos transmitem os textos
uns aos outros e providenciam a multiplicacáo dos respectivos
exemplares; assim, perfazendo urna cadeia, os documentos
circulam através de toda a Rússia Soviética. Torna-se difícil
avaliar a densidade do fenómeno, pois é certo que todos os
dias dezenas de escritos novos entram em circulacáo; já nao
se trata de fenómeno esporádico ou excepcional, mas de
algo que integra a vida cotidiana do povo russo. O Centro
de Estudos «Russia Christiana», com sede em Milio, possui
mais de tres mil documentos do samizdat, e recebe quase
todos os dias urna remessa dos mesmos. Compreende-se com
que dificuldade chegam a destino esses escritos: tém que
passar pela rede de comunicacóes da Uniáo Soviética e
finalmente atravessar as respectivas fronteiras.
A veracidade das noticias do samizdat tem sido compro-
vada por outra fonte de informacóes: os emigrantes russos.
Calcula-se que semanalmente no mínimo trezentos cidadáos
russos recebem a autorizagáo para deixar o seu país de

— 194 —
DUAS CARTAS DA U.R.S.S. 11

origem: alguns solicitam tal permissáo, outros sao aconse-


lhados ou mesmo constrangidos a emigrar. A abordagem de
tais cidadáos permite aos interessados averiguar, com certa
nitidez, o que ocorre realmente na Rússia Soviética; basta
interrogá-los para se ter a confirmagáo das noticias trans
mitidas pelo samizdat.

Passemos agora ao texto das duas referidas cartas:

2. Dois documentos

2.1. Um grupo desfeito

Como dito, a primeira missiva refere-se ao grupo jovem


ortodoxo que a policía desbaratou em junho de 1976.
Georgii Fedotov assim narra e comenta os acontecimentos:

"Senhora Tánia Khodorovitch,

Venho pedir o auxilio da Sra. a propósito dos aconteci


mentos recém-ocorridos em Moscou e dos quais falo nesta
carta.

Nao sei se a Sra. teve conhecimento de que aos 15 de


junho pp. fol dissolvido um Grupo da Juventude Ortodoxa de
Moscou que se reunía á 'Perspectiva Mira' n? 25. A Sra. poderá
obter do presidente do Grupo da Juventude Ortodoxa, Ale-
xandre Ogorodnikov, as minucias referentes aos interrogato
rios impostos pela KGB a varios jovens cristáos e aos geni
tores destes.

A tentativa da Juventude Ortodoxa no sentido de promover


encontros e de organizar Seminarios cristáos terminou por
causa das repressóes exercidas por pagaos ferozes sob a
influencia do 'espirito universal do mal', contra o qual lutam
também os cristáos.

A nossa juventude, que encontrou a Deus através das


vicissitudes do absurdo profano e da va sabedoria do mundo,
enfrentou Satanás e seus anjos. Mas, além da máquina re-
pressiva do ateísmo do Estado, alguns genitores soviéticos
também se mostravam inimigos dos jovens cristáos, fazendo
reinar entre estes um clima de terror. Tais genitores sao as
vftimas de urna percepcáo nao critica da propaganda comunista.

— 195 —
12 *PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 221/1978

A juventude romana, no século IV, freqCentava as assem-


bléias cristas ñas catacumbas. Em Moscou, porém, no sé-
culo XX nao há nem sequer catacumbas. Nao existe lugar
algum para nos reunirmos; nos apartamentos, os locatarios
nao gostam das reunióes de jovens, porque provocam muito
barulho e suscitam preocupacdes aos proprietários.

Por conseguirle, seria necessáría urna casa na qual os


jovens pudessem reunir-se para estudar o Novo Testamento,
ler as 'Vidas dos Santos1 e tomar conhecimento da santa teo-
logia. Essa casa deveria incluir urna biblioteca crista.

Se existe um movimento da Juventude Cristi em Moscou,


esse movimento deve ter seus correspondentes e amigos no
estrangeiro. Em vista disto, pode-se pensar em constituir urna
sede da Juventude Crista perto de Moscou. As Juventudes
Comunistas tém suas sedes e seus campos de esportes...,
mas a sorte dos jovens cristáos nao comove ninguém a nao
ser a KGB e os hospitais psiquiátricos.

Os jovens cristáos do século XX nao se podem contentar


com urna mentalidade religiosa deteriorada, como a de velhi-
nhas, julgadas pelos Comités de Distrito, que ficam atrás das
caixas de velas ñas igrejas e fazem o dinheiro tlnir. Os jovens
também nao podem pensar como alguns genitores soviéticos,
que procuram sufocar o Cristianismo com o auxilio da milicia
e dos psiquiatras de bairro. As perseguicóes por motivo de
conviccóes religiosas em nossos tempos desenvolvem-se maci-
camente ñas escolas, nos institutos técnicos e nos estabele-
cimentos de ensino superior de Moscou.

Compreenda-me, nao tenciono em absoluto confundir


meus desejos com a realidade: há poucos cristáos formalmente
inscritos nos registros; mas existe imensa multidSo de jovens,
nao inscritos ñas paróquias, que váo á igreja, e procuram,
sonham, interrogam. É urna multidáo independente ; escapa
aos quadros da psicología social dos homens deste mundo.
A procura da Igreja por parte da juventude comecou em Mos
cou, porque Deus a suscitou; se nao fora isto, os poderosos
nao se preoeupariam tanto com tal movimento. Trata-se de
um fenómeno mortal para os burócratas esclerosados, porque
é um movimento sincero e claro como o orvalho da manhá.
Eis um fenómeno digno de entrar na historia da Igreja, como
testemunho do despertar do povo russo.

— 196 —
DUAS CARTAS DA U.R.S.S. 13

Em torno de Sasha Ogorodnikov reuniu-se a juventude


intelectual ortodoxa. Todos os pensadores deveriam mobili-
zar-se para a defesa da Juventude Ortodoxa de Moscou. A
opiniáo pública do mundo inteiro deveria assinalar com o sínete
da infamia os ateus que a combatem com seringa na máo.
Basta de terror 1 É preciso intervir ainda com mais vigor em
favor de Vladimir Boukovsky e todos os prisioneiro? de cons-
ciéncia nos cárceres e nos hospitais psiquiátricos.

Que Deus guarde a Sra.!


(a) Georgii Fedotov
9 de outubro de 1976"

Esta carta, de tom assaz veemente, é o eco fiel do que


sentem muitos jovens de hoje na Rússia. Nem todos os
contestatarios do Governo e da violencia repressiva tém
consciéncia nítida do que sejam o Cristianismo e seus valores;
educados em ambiente ateu, eles váo descobrindo, geral-
mente por autodidatismo (ao qual nao falta a acáo do
Espirito Santo), as perspectivas do Evangelho e da vida
crista. A voz destes jovens é particularmente valiosa pelo
fato de que nao é inspirada pelos mais velhos ou pelos
mestres e escolas oficiáis da Rússia, mas, sim, pelo genuino
senso religioso que existe no fundo de toda consciéncia
humana. O senso religioso desta pode ser impugnado e
reduzido a silencio, mas nao perece; ele se faz ouvir desde
que se propicie ao ser humano a ooasiáo de refletir mais a
fundo sobre o sentido do materialismo e da vida sem Deus.

É á luz destas verdades que deve ser lida a carta de


Georgii Fedotov atrás publicada.

Segue-se a segunda missiva anunciada.

2.2. Aínda os «tratamentos» psiquiátricos

"Sra. Tánia Khodorovitch,

Já há cinco anos que sou o objeto de perseguigñes psi


quiátricas por causa das minhas convicgoes religiosas (1971-
-1976). Antes, fui perseguido pelos agentes do KGB (1963-
-1971).

Desculpe-me, por favor; é extremamente difícil escrever


na atmosfera que aqui reina; o delirio dos doentes, as im-

— 197 —
U «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 22V1978

precacSes dos enfermeiros, o terrivel odor que nos cerca e


causa náusea...

Encontro-me no Hospital Psiquiátrico n? 14 de Moscou,


na 8? secc§o, dirigida pelo Dr. Levitsky Vladimir Yakovlevictch.
Tres agentes da Dlvisao 041 da Milicia de Moscou me trouxe-
ram até cá, a título de me proporcionaren! urna entrevista com
o medico. Haviam-me dito que assim procediam por ordem
da médica do dispensario psiquiátrico dependente do Hospital
n? 14, a Dra. Solomakhina, e acrescentaram que me levariam
de volta do dispensario após a conversa com o médico, e
finalmente me fariam chegar á casa ou ao meu apartamento
(n? 347, Oul. Shipilovskaya 38) em Moscou. Mas, em vez de
me levarem de volta ao dispensario, conduziram-me á recepcáo
do Hospital n? 14, onde, em minha presenca, um dos agentes
entregou ao médico de servigo urna ordem de internacáo que
me dizia respeito. O documento especificava que o meu caso
já nao era da aleada do dispensario e que eu fora enviado
para lá a fim de ser submetido a exame pela comissao de
peritos da Medicina do Trabalho, dado que me atribuiam um
certificado de invalldade de.segundo grau.

Nesse momento, declarei-lhes que eu nao me considerava


um doente mental, e que era membro do Grupo da Juventude
Ortodoxa de Moscou.

'Já temos conhecimento disso1, respondeu-me o médico


de servico; 'recebemos mesmo urna nota segundo a qual vocé
acaba de chegar do mosteiro de Pskovo-Petchersky'.

Outro médico acrescentou descomprometidamente: 'Pa


rece que nos últimos tempos a polícia nos está trazendo mui-
tos erantes'.

Despiram-me por completo; arrancaram-me a cruz que


eu trazia ao pescoco, ameagando amarrar-me caso eu resis-
tisse. Confiscaram-me o meu 'Novo Testamento de Jesús
Cristo', dizendo que era proibido trazer cruzes e orar e, mais
aínda, ler o Evangelho. A seguir, colocaram-me despido em
urna banheira suja, que encheram de agua. Resolví nao opor
resistencia.

Para comecar, levaram-me para a 3? Seccáo e, depois,


para a 4?, onde sofri exames humilhantes. A seguir, fui colo
cado na sala de observacao da 4? Se-ccáo, após ter sido
revestido de velho pijama. Enfiaram-me nos pés sandalias

— 198 —
DUAS CARTAS DA U.R.S.S. 15

usadas, cujos pregos eram salientes, de modo que fiquei com


um pé ferido. A sala estava cheia de espessa fu maga de
cigarro; o ar se ochava saturado de imprecares e de gritos.

De repente, um doente e um enfermeiro puseram-se a


blasfemar contra a rellgiáo. Puseram-se a dizer sujeiras contra
as Religióes, a jurar com palavras obscenas; e isto... impre
vistamente, sem nenhum motivo.

Diante disto, dirigi-me aos pagaos furiosos, dizendo-lhes


que haviam sido criados também eles á imagem e á seme-
Ihanga de Deus,... que é preciso nao ceder á cólera,... que
é necessárío sermos pacientes e dar testemunho de Cristo.
i
Na manhá seguinte, vieram pedir-me perdáo. A seguir, fui
súbitamente transferido para a 8? Secgao, onde me tiraram
sangue para análises. De repente, os enfermeiros se puseram
a me persuadir de renunciar a Deus, dizendo-me que, se eu
nao renegasse a minha fé, seria enterrado vivo para sempre.
Depois disto, espajharam o boato de que eu era membro de
urna seita da aldeia de Üouboutchano nos arredores de Moscou
e que eu Ihes fora levado para ser acalmado. Deram-me urna
injecáo de Triftozinaí. Cercado dos clamores dos loucos e de
gritos obscenos, passei urna noite e um dia inteiro em pesade-
los. De repente, prescreveram-me um tratamento com Haloperi-
dol. O médico da SeccSo Levitsky declarou-me abertamente
que ele nao acreditava em Deus, mas acreditava na. ciencia.
Todavía a ciencia de Levitsky toma a forma de genocidio
psiquiátrico dirigido contra a fé.

Sra. Tánia Khodorovitch, peco-I he que informe o Conse


lho Ecuménico das Igrejas a respeito do que me acontece, e,
pessoalmente, queira dizer ao Dr. Philip Potter que estou 'em
tratamento' para curar-me da minha fé. Possa urna comissao
do Conselho Mundial das Igrejas interessar-se por minha sorte!
Tenho muita coisa a relatar com referencia á sorte dos con-
fessores da fó na U.R.S.S.

Que o Senhor a guarde !


(a) Georgií Fedotov"

Segundo informacóes transmitidas pelas agencias de


imprensa ocidentais em Moscou, Georgii Fedotov foi libertado
do Hospital Psiquiátrico aos 17/11/1976.

Os dois documentos assim publicados sugerem refle-


xóes... Vamos procurar coligi-las sob o novo título:

— 199 —
16 <PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 22V1978

3. A interprétaselo dos fatos


Os dois documentos atrás transcritos atestam, mais urna
vez e com eloqüéncia, o já conhecido fato da perseguido
religiosa na U.R.S.S. Evidenciam que, apesar da evolufiáo
dos tempos e do apregoado abrandamento do comunismo, o
marxismo soviético continua sendo materialista e ateu.

Nao se poderia, porém, deixar de mencionar aqui, com


énfase especial, o fato paradoxal de um ressurgimento reli
gioso na U.R.S.S. — fato este já abordado em PR (cf 197/
1976, pp. 201; 198/1976, pp. 231-245). Com efeito, apesar da
violenta campanha ateísta do Governo, o Cristianismo tem
despuntado corajosamente na Rússia Soviética — o que, alias,
provoca, por vezes, recrudescimento da perseguigáo. Na expec
tativa de ulteriores noticias a serem dadas em PR, vamos
abaixo transcrever um trecho do artigo do Pe. Romano Scalfi,
do Centro de Estudos «Russia Christiana» de Miláo. Como
dito, este Centro recebe regularmente a documentado difun
dida pelo samizdat: está, pois, bem informado sobre as ocorrén-
das religiosas na U.R.S.S. O Pe. Scalfi escreveu sobre «O
renascimento espiritual e cristáo na Rússia de hoje» na revista
«Le Christ au Monde» n* 6, 1976, pp. 447-461; desse interes-
sante estudo destacamos alguns trechos, que de certo oferecem
a interpretado auténtica ou teológica do fenómeno «perse
guigáo religiosa na U.R.S.S.»:

"O renascimento cristáo na Rússia tem como nota parti


cular o valor global atribuido á mensagem crista. Um exemplo
típico a tal propósito é o do Padre Dmitrij Dudko : observe-se
a maneira como falava, numa igreja cheia de gente, a um
auditorio constituido, em boa parte, de nao crlstáos1. Nos sába-
iO relato da obra pastoral do sacerdote ortodoxo Dmitrij Dudko fol
publicado em um livro da autoría do próprlo padre; editado em russo
no ano de 1974, foi traduzldo para o Italiano com o titulo "Padre Dmitrij
Dudko. Párroco a Mosca. Conversazionl serall" (Milfio 1976, 256 pp). A
pubilcacSo Italiana se deve ao "Centro Studl Russia Chrlstlana".
O padre Dudko era responsável pela igreja de S. Nlcolau, porto do
cemitério Preobrazensklj nos arredores de Moscou; embora seja de difícil
acesso, essa igreja era procurada todas as noites por crlstáos e nño crlstños
provenientes de todas as parles da cidade. O padre Dudko trabalhou cora
josamente durante quinze anos nessa paróquia, embora tlvesse passado
anteriormente por um campo de concentraccfio stallniano.
Incomodadas, as autoridades comunistas em flns de 1974 transferirán!
o padre Dudko para urna aldeia distante 85* km de Moscou, e em fins de
dezembro de 1975 Ihe proiblram todo e qualquer ministerio sacerdotal.
Esse ministro do Senhor deu testemunho de fé Intrépida e inabalável,
cuja Imensa repercussSo difícilmente se pode avallar.

_ 200 —
DUAS CARTAS DA U.R.S.S. 17

dos á noite, das 18 ás 22 horas, ele orientava a oragáo durante


duas horas; a seguir, propiciava o coloquio durante outras
duas horas. As pessoas o escutavam obrigatoriamente em pé,
pois nao há assentos ñas igrejas russas e, apesar disto, a
igreja do padre flcava táo cheia que, como disseram muitos
que participaran! de tais coloquios, 'nao restava nem mesmo
lugar para fazer o sinal da «cruz*. Fora da igreja, num frío de
20 a 25° abaixo de zero, outros esperavam para saber ¡me
diatamente o que o padre Dudko dissera em seus coloquios.
Esse sacerdote nao é grande pregador, mas dizia:

Cristo é a salvacáo total do homem. Nos temos de ecle-


sfalizar o mundo (ele nao dizia clericalizar, o que seria outra
coísa), pois um mundo nao eclesializado é um mundo huma
namente perdido... Propomos urna maneira humilde de se
conceber a missáo da Igreja, chamada a salvar o mundo. A
sltuacáo da Igreja é privilegiada; é a situagao igual á do Cal
vario. Ai de vos, se desejais urna situagáo igual á do Oc¡dente!
A nos o Senhor concedeu a graca de experimentarmos a sua
cruz e, por conseguinte, de ver a sua ressurreigáo. Em parte
alguma como em nossa patria Cristo é crucificado, mas todos
aqueles que tém fé podem ver que em parte alguma como em
nossa patria está presente a ressurreigáo. Olhai em torno de
vos, e vede como as pessoas se convertem, toda a juventudel
Nao precisamos.de crer na ressurreigáo; ela é o fato mais
auténtico, mais concreto, mais verificável da nossa sociedade!
E dizia aos jovens:

'Rezem pelos mais velhos, porque tém dificuldade para


se converter:... os velhos, isto é, os que tém mais de cin-
qüenta ou sessenta anos. O que melhor exprime a vitalidade
da geragáo nova, é essa sede do Cristianismo, essa volta
a ele!'

Pudemos visitar o Pe. Dudko depois que, acidentado por


um carro, tivera as duas pernas quebradas e se encontrava
imobilizado num leito. O amigo italiano que me acompanhava
comegara por perguntar-lhe como o acídente Ihe acontecerá.

'Nao percamos tempo com futilidades, respondeu o padre.


Falemos de coisas serias. Digam-me como os cristáos vivem
a sua fé na Italia. Edifiquem-me desse modo, pois, para quem
tem a fé, tudo se torna ocasíao de salvagáo. Nunca batizei
tanta gente quanto nestes últimos dez dias, em que estou imo
bilizado na cama. Da manhS á noite vém pessoas para ser
batizadas'.
— 201 —
13 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 22371978

Realmente quando se tem fé, nada é impossíve!" (pp. 458s).

"Para terminar, eis algumas palavras sobre os católicos


da Lituánia. Aqui nao se trata propriamente de um renasci-
mento religioso, pois nunca houve na Lituánia um declínio da
espiritualidade. Gracas a fatores favoráveis, as comunidades
católicas sempre foram um exemplo para toda a Uniáo Sovié
tica. Por isto muitos sao os ortodoxos que váo passar ferias
de veráo na Lituánia para comparar as suas comunidades com
as comunidades católicas.

Um episodio recente pos em relevo o nivel da espirituali


dade católica lituana. Há alguns meses, urna cidadá lituana
de 38 anos, chamada Denise Dunaiter, foi condenada a tres
anos de campo de concentracáo e exilio, simplesmente por
que tora depreendida a copiar a 'Crónica da Igreja Católica
na Lituánia'. Essa Crónica é urna das revistas que circulam
clandestinamente entre os cristáos nao só na Lituánia, mas
em toda a Uniáo Soviética. Chamada a responder em pro-
cesso, Denise comecou por renunciar a um advogado, dizendo
que a verdade se defende por si mesma. Depois afirmou :

'Devo declarar, antes do mais, que amo todos os homens,


mesmo cada um de vos, meus juízes. É precisamente isto que
me permite dizer a verdade abertamente. E a verdade é que
os animadores da 'Crónica' amam o seu povo e sabem sacri-
fícar-se por ele. Agradeco ao Senhor Deus a possibilidade
nao só de trabalhar pela Igreja Católica, mas também de sofrer
por ela. Este é o mais belo dia da minha vida; é realmente para
mim um triunfo porque fui julgada digna de sofrer pelo Senhor
e por meu povo. Minha única dor é a de nao ter feito bastante
por meu povo. Aproximando-me hoje da Verdade Eterna, que
é Jesús Cristo, vém-me ao espirito as palavras das bem-aven-
turancas : 'Bem-aventurados os que tém fome e sede de jus-
tica, porque seráo saciados' (Mt 5,6).

E, terminando, disse:

'Peco a este tribunal ponha de novo em liberdade todos


aqueles que, tendo lutado em prol dos direitos do homem e
da justica, estáo atualmente encarcerados nos campos de con-
centracao e nos hospitais psiquiátricos. Mostrareis assim a
vossa boa vontade e contribuiréis de maneira notável, para
que reinem mais harmonía e amor na sociedade'.

— 202 —
DUAS CARTAS DA U.R.S.S. 19

Quando o oficial de justiga leu para Denise a sentencia


que a condenava a tres anos, ela fez esta reflexáo : 'Vos me
destes muito pouco!'

Este é apenas um exemplo da coragem com que a fé é


vivida na Lituánia. Essa fé nao é apenas o desejo individual
de viver em comunháo com o Senhor, mas é o desejo de
formar urna comunidade sempre mais unida na Igreja e em
torno do sacerdote. Por isto, cada vez que um sacerdote vem
a ser condenado, toda a comunidade paroquial se levanta, pro
testa, ¡ntervém. E, quando os sacerdotes voltam dos campos de
concentragáo, sao acolhidos .como urna nagáo acolhe os seus
heróis. é por isto também que as autoridades, as quais nao
sao simpáticas aos clérigos, sao obrigadas a levar em conta
todas essas manifestagoes do despertar da fé. Compreendem
que toda condenagáo proferida contra um sacerdote é a oca-
siáo de um fortaieclmento dos sentimentos religiosos e suscita
na populagáo urna solidariedade sempre maior" (pp. 460-461).
As narrativas do Pe. Scalfi talvez surpreendam o leitor,
como, alias, o admite o redator da revista «Le Christ au
monde», da qual foram transcritas. Todavia sao tiradas de
fontes auténticas ou mesmo do contato direto com a realidade
soviética. O senso religioso dos povos submetidos ao jugo
soviético é muito mais forte do que parece, apesar dos
sessenta e mais anos de perseguigáo religiosa. Diz mesmo o
Pe. Scalfi:
"As conversSes ao Cristianismo verificam-se geralmente
em familias atéias. Nao se julgue que se trata do despertar de
urna tradigáo crista, pols é do ateísmo que as pessoas passam
para o Cristianismo. Sempre mais numerosos sao os jovens,
principalmente dos vinte aos trinta anos, que encontram no
Cristianismo a sua próprla razáo de ser".
O fenómeno russo assim descrito é altamente significativo.
Leva a pensar mais tuna vez ñas famosas palavras de S. Agos-
tinho: «Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e inquieto é o nosso
coragáo enquanto nao repousa em Ti» (Confissóes I 1). Sim;
a perseguigáo religiosa jamáis poderá extinguir este inato
anseio do homem por Deus.
A propósito do surto religioso na Rússia Soviética, veja:
PR 197/1976, pp. 201-216 (artigo do Card. Koenig);
PR 198/1976, pp. 231-245 (valores transcendental na literatura rússa);
PR 200/1976, pp. 327-336 (os jovens o a religllo);
PR 207/1977, pp. 120-124 {dlssidentes políticos) ;
PR 203/1977, pp. 187-201 (Sakharov : "Meu país e O Mundo").

— 203 —
Memorias de um sacerdote russo:

as conversas vespertinas do padre


dmitrij dudko

Em sfntese: As páginas que se seguem, apresentam trechos de um


llvro que refere os coloquios paslorals do sacerdote russo Pe. Dmitrij
Dudko... Este vlgário nos suburbios de Moscou conseguía atralr á sua
pequeña Igreja grandes multiddes, que com ele dialogavam e ouvlam res-
postas para as suas dúvidas. Os coloquios do Pe. Dudko foram impressos
em russo e, depols, em tradujo italiana, tendo atravessado a fronteira
soviética mediante a organizado do samizdat.

Nessas páginas, em que o Pe. Dudko nao so expoe suas reflexSes


possoals, mas também transcreve cartas dos seus amigos e paroquianos,
manffesta-se o extraordinario vigor da fé existente no povo russo; muitos
dos que foram educados no ateísmo, desdizem esta filosofia e se voltam
para os valores religiosos; verifica-se assim um surto de fé que nao tem
expllcacáo senSo no senso religioso ¡nato e indelével em todo homem. A
coragem de um homem e de seus destemldos ouvlntes é também algo que
transparece através dos depoimentos que, a seguir, sao apresentados.

Comentario: As pp. 200s deste fascículo já assinalamos a


obra do sacerdote russo Dmitrij Dudko, que escreveu as suas
próprias memorias, traduzidas para o italiano com o título
«Padre Dmitrij Dudko. Párroco a Mosca. Conversazioni serali»
(Milano 1976).

É desse interessante livro que vamos, a seguir, extrair


alguns tópicos salientes, aptos a mostrar urna faceta do que
acontece na Rússia Soviética com respeito á fé e ao renasci-
mento religioso. O livro merece crédito, pois é da autoría do
próprio Pe. Dudko e foi divulgado em italiano pelo Centro
de Estudos «Russia Christiana» de Miláo, que é dirigido por
especialistas e mantém intenso intercambio com o samizdat.

1. IntrodusSo do editor italiano


"A Igreja de Sao Nicolau, perto do cemitério Preobra-
zenskij de Moscou, cortamente nao é daquelas que atraem os
apaixonados da arquitetura russa antiga nem os admiradores

— 204 —
MEMORIAS DE SACERDOTE RUSSO 21

da grandiosidade da Liturgia ortodoxa. Pequeña, estreita, baixa,


ela so tem duas iconostases. Os icones sao simples; nada
tém do esplendor e da arte dos antigos. Mais ainda: para
chegar lá, a partir do centro de Moscou, o trajeto é bastante
longo e penoso.

Todavía essa modesta igreja se tornou famosa e popular.


As pessoas lá acorrem a partir de todos os pontos da imensa
capital, e mesmo dos suburbios. Que será que atrai assim a
populacáo e a leva até lá?
Nessa igreja, há cerca de qulnze anos, oficia o padre
Dmitrij Dudko. Realiza sua tarefa regularmente, com seriedade
e sentido de responsabilidade. As suas celebracdes só tém
um aspecto extraordinario : encerram-se com pregagoes ar-
dentes, corajosas, atuais.

Objetivo dos ateus: cortar da realidade a Igrefa

Ñas publicacóes dos ateus, pode-se ler que nestes últimos


tempos a Igreja ortodoxa intensificou a pressáo da sua pro
paganda em meio aos fiéis. Mas essa acusacáo é pura ficcáo.
Nossos sacerdotes, tendo os pés e as máos atados pelas ins-
trugoes verbais das autoridades atéias, nao ousam sequer abrir
a boca para defender as suas maís caras conviccóes; estáo,
pois, muito longe de exercer pressóes. O clero, infelizmente,
ainda sofre a ansia do medo provocado pelas violentas repres-
s6es dos decenios de 1920 e 1930. Alguns se calam por medo
dos judeus' (Jo 19, 38); outros por indiferenca, outros ainda
por 'consideragóes elevadas', a saber: para preservar a Igreja
da repressáo do poder secular, sem levar em conta ou querer
levar em conta que a Igreja, cuja missao é levar ao mundo a
verdade do Cristianismo, se torna assim hermética; desta
forma a Igreja exclui-se da historia dos homens e se trans
forma em circulo restrito de pessoas que tém a mania da
religiáo. Ora é precisamente isto que os ateus querem: isolar
da vida a Igreja, confiná-la no tempto, separá-la da sociedade
mediante um muro de medo e de incompreensáo, para final
mente fazé-la morrer. Tal é, entre nos, o programa da política
antieclesiástica.

Profunda necessidade de ouvír a verdade

Na Igreja, o ar se tornou pesado: chegou a hora de abrir


largamente as portas. Isto é necessário a todos nos, crentes,

— 205 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 221/1978

e mais aínda aos nao crentes, obrigados a ficar sfastados da


viva fonte da verdade crista. Diariamente as brumas da decep-
cáo, da incredulidade e do cinismo acumulam-se mais e mais
sobre o nosso povo. As tradicoes que servem de criterio á vida,
estáo morrendo, sem que haja algo que as substitua, de modo
que o homem permanece so, desamparado, a bragos com ele
mentos maus e impenetráveis. Todos os sucedáneos sao inú-
teis, os 'ismos' caem uns após os outros e só deixam no espi
rito um amargo sabor de vazio.

Tal é o motivo pelo qual as pregagóes de Dmitrij Dudko


suscitam tanto interesse entre os crentes e entre aqueles que
aspiram á fé, em particular os jovens e os intelectuais.

Urna fé marcada polas p:wvac5es

A biografía do Padre Dmitrij é a dos bons sacerdotes rus-


sos : infancia vivida em pobre aldeia despojada pela coletivi-
zagao, privagóes precoces, primeiras ¡mpressoes religiosas
reforgadas pelas repressóes exercidas contra os fiéis, que se
tornavam freqüentemente auténticos mártires, desconhecidos
de todos. Depois houve a transferencia para a frente de com
bate: terminada a guerra, o estudsnte de teología Dmitrij Dudko
foi- atirado num campo de concentragáo staliniano. Oito anos
e meio desse regime 'universitario' abriram-lhe mais ainda os
olhos : os verdadeiros valores da vida apareceram de maneira
precisa; a sua fé se fortaleceu e arraigou... Em seguida,
vieram a reabilitagáo, a Academia de Teologia...

O Cristianismo eleve impregnar a vida inteira

"O Cristianismo deve impregnar a vida inteira. Deve pro-


jetar sua luz sobre todos os problemas. Nao pode ser encer
rado nos limites de quadro algum... Hoje é preciso fazer
entrar na Igreja tanto o círculo recreativo quanto a reuniáo
de traba I hado res... É nesessário eclesializar toda essa vida
que se desenrola fora do templo. Nao se pode encerrar o Cris
tianismo dentro de urna concha; ele tem que participar dos
sofrimentos dos homens'. Estas poucas palavras sao tiradas
das pregagóes do vigário de Sao Nicolau.

O Cristianismo tem que penetrar a vida inteira, tal é o


pensamento fundamental do Pe. Dudko. Cristianizar a vida, eis
o que ele opóe aos finónos designios do ateísmo, que quer
sufocar a Igreja, limitando-a sos lugares de culto.

_ 206 —
MEMORIAS DE SACERDOTE RUSSO 23

Pregacáo de maneira nova : coloquio

Mde e pregai', foi este o testamento deixado por Cristo


aos Apostólos. Dmitrij Dudko, sacerdote da Igreja una, santa,
ecuménica e apostólica, cumpre imperturbavelmente esse
mandamento divino.

Nos últimos tempos, ele inaugurou urna nova forma de


homilía. Se bem que totalmente eclesial quanto á sua eubstán-
cia, ela é nova para nos e eficaz. Contribuí para estabelecer
um contato vivo entre o pastor e seu rebanho, e utiliza corto
linguajar que em nossos dias se ia perdendo. Além disto, tal
forma de coloquio mantém-se na atualidade dos assuntos abor
dados e serve ao nobre objetivo almejado pelo preg3dor: cris
tianizar a vida inteira. Eis por que nos coloquios sao consi
derados os temas mais diversos, sao levantadas as questces
mais candentes e dolorosas da vida. Tudo isso é examinado
á luz do Cristianismo.

Ambiguidade e recelo das autoridades

A atividade do padre Dmitrij Dudko nao cleixou de preo


cupar os 'tutores' ateus da Igreja. No outono de 1972, houve
urna tentativa de retirar-lhe a faculdade de celebrar os oficios
na igreja. Apenas o grande alcance que esta medida teria,
assim como a intervencáo enérgica dos fiéis ¡mpediram que
o projeto fosse executado. Foi entao que se tornou patente
o modo de proceder daqueles que, ao mesmo tempo que pro-
clamam a nao ingerencia do Estado nos assuntos da Igreja,
afastam os homens da Igreja tidos como indesejáveis, mas
tém medo do rumor da publicidade".

Vamos agora extrair do livro do Pe. Dudko trechos de


cartas que lhe enviaram os seus ouvintes, portadoras de
breves crónicas e de sentimentos pessoais desses fiéis.

2. Trechos de cartas pesscáis


Transcreveremos aqui as passagens mais notáveis de
quatro cartas enviadas ao Pe. Dudko.

2.1. lima viúva

"Meu marido morreu há pouco tempo. Se eu nao me


tivesse voltado para a Igreja, para o Cristo, eu provavelmente
teria ficado louca. Grata á Igreja I"

— 207 —
J4 tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 221/1978

Comenta o Pe. Dudko:

"Eis um documento desconcertante. E venham dizer-nos


que a Igreja nao é mais necessária ao nosso tempo I A mulher
ferida pela viuvez talvez tivesse anteriormente rejeitadq a
Igreja, mas atualmente encontra nela o seu reconforto. A carta
dessa pessoa, e provavelmente toda a sua vida, confirmam a
utilidade da Igreja. Mulher, em nome de toda a Igreja, obri-
gado por suas palavras 1"

2.2. Meu filho educado no ateísmo

"Tenho um filho. Eduquei-o no ateísmo. Mais tarde, ele


se pos a beber e a vadiar. Eu nao sabia o que fazer: a mulher
é um ser fraco, como todos sabem. Meu marido abandonou-me
para Ir-se com outra. Também ele era ateu como eu. Impre
vistamente o milagre aconteceu : meu filho comegou a crer
em Deus e a freqüentar a Igreja. A principio eu me surpreendia
com a mudanga de vida e, para bem dizer, tinha medo de
falar dlsso com meu filho, porque nos nos tfnhamos incompa-
tibilizado. Eu me regozijava em silencio, receando aue ele
recomecasse a beber e a se entregar á desordem. Ele. ao
contrario, tornava-se diariamente melhor; até o seu aspecto
exterior mudara. Por fim, nao aguantando mais, perguntei-lhe:
'Dize-me, filho, o que te aconteceu. Tu te tornaste táo bom..."
Ele me respondeu: 'Mae, crelo em Deus, e freqüento a Igreja'.
As suas palavras me comoveram profundamente ; eu estava
como que atingida por um raio e nao sabia o que dizer. Mais
tarde, vim a saber que ele encontrara dificuldades no seu
empreao. primeramente porque bebia, depois... por urna
razáo diferente. Rebaixaram-no de fungáo na profissáo, e dimi-
nuiram o seu salario; apesar disto. n§o desanimou. Vendo a
mudanoa ocorrlda em meu filho, comecei a pensar e a refletir
sobre mim mesma. Cheauei á con-clusSo de que devia. eu
também, pedir o batismo. Meus pais, ateus como eram, infe
lizmente tinham deixado de o fazer por mim : tive que o fazer
aos quarenta anos. Agora sou batizada, vou á igreja e ouso
afirmar que a fé é a única coisa necessária. Em nossa época,
mais do que nunca, ela é Indispensável; estou firmemente
convicta disto".

Eis outra carta:

— 208 —
■ MEMORIAS DE SACERDOTE RUSSO 25

2.3. Oprimido pela tristeza

"Havia muito que eu andava oprimido pela tristeza e nao


sabia o que fazer. Interrogue! muita gente: ninguém conseguía
explicar-me por que eu estava triste. Bebí, embrlaguei-me a
ponto de perder consciéncia, para esquecer; mas, urna vez
passada a embriaguez, eu me encontrava aínda mais triste.
Tentei mergulhar-me no trabalho, tomando a mim diversas
fungóes públicas. Mas a tristeza parecía zombar de mim:
'Queres esconder-te...? Mas aqui estou e fleo1. A tristeza
aumentava a ponto que eu nada mais conseguía fazer de bom.
Furioso, deixei o meu emprego, e permanecí semanas ¡nteiras
sem ir á usina. Eu ficava indefinidamente estendido na cama,
perguntando-me donde podia vir essa tristeza.

Transfoimaeóo completa

Felizmente aconteceu algo: um üvrinho caiu-me ñas máos,


mais fino do que todos os que atualmente sao impressos:
'O Novo Testamento de Nosso Senhor Jesús Cristo'. Comeceí
a lé-lo, e um mundo totalmente novo se abriu para mim, um
mundo cheio de alegria e felicidade. Eu lía sem conseguir
saciar-me. Cada palavra desse lívro santo penetrava em mínha
alma. E o milagre se produziu: minha tristeza díssipou-se. So
poderáo compreender este fato aaueles que tenham feito a
mesma experiencia. Minha tristeza desapareceu, pus-me a crer
em Deus, pedi o Batismo. Atualmente freqüento a igreja. e ás /
vezes vou mesmo cantar no coro. Todavía as minhas dificul-
dades no trabalho sao maiores do que antes: deram-me urna
licenga sob pretexto de reduzir o pessoal. e meu paí procura
¡nternar-me numa Clínica Psiquiátrica, porque minha fó está
em contradicáo com as suas conviecóes. Apesar de tudo, estou
cheio de alegría".

Passamos a outro depoimento.

2.4. O sentido da vida

"Há alguns anos, urna pergunta terrfvel me atormentava:


Qual a finalídade de todas as coisas? Por que vivemos? Todos
os nossos entusiasmos, cedo ou tarde, estaráo encerrados
num caixáo. Se as coisas sao tais, está claro que somos seres
ridículos. Nosso otimísmo, nossa atividade sao absurdos: é
como se nos quiséssemos engañar a nos mesmos. Embora
saibamos de antemáo que tudo acaba no nada, tomamos cora-

— 209 —
jjj «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 221/1978

gem. Mas, se a morte há de vir, tudo é destituido de sentido!


Um dia, percebi claramente o absurdo de tudo, e senti-o pro
fundamente a ponto de morrer de tristeza e de tornar-me louco.
Tomei a decisáo de matar-me. Nao sei quem me salvou: meu
anjo da guarda talvez, ou as oragóes da minha pobre máe.
Pus-me a refletir sobre a religiáo: quem sabe se ela nao me
daria resposta para a minha terrível pergunta ? Mas quem
me forneceria as explicacSes desejadas? Eu poderia ao menos
ler a Biblia, pensava eu; mas onde encontrá-la? Um dia estava
numa loja de livros velhos, quando vi com alegría um volume
intitulado : 'Biblia para crentes e nao crentes1. Pedi á balconista
que mo desse a ver. Ao folheá-lo, porém, logo compreendi que
tudo ali era explicado em tom de ironia. Isto pareceu-me abo-
minável. Como se pode brincar com os mais nobres sentimen
tos humanos? Foi entáo precisamente que os sentimentos reli
giosos me pareceram ser os mais nobres de todos. Eu tinha
a impressáo, naquele momento, de que alguém me cuspira na
alma. Eu estava a ponto de estourar, e quisera dizer palavras
de cólera á balconista, mas contive-me e disse-lhe apenas:
'Se vocé respeita as pessoas, a ninguém dé esse livro'. Ela me
olhou tristemente sem nada dizer, mas provavelmente com-
preendeu, pois colocou o livro debaixo do balcáo. Após esse
momento, senti-me tomado do grande desejo de saber o que
é a religiao. Nao sei por que, eu tinha a idéia de que certa-
mente respondería ao meu problema.

Encontró com um sacerdote

Junto a mím vivia urna mulher idosa. Eu ignorava se era


crista ou nao, mas, dada sua idade, julguei que fosse crista.
Comecei, pois, a interrogá-la com precaucáo.
'Eis que termine! a Universidade, disse-lhe eu. Conheco o
materialismo histórico e dialético. Mas tenho a impressáo de
que me falta algo que nao sei exatamente definir'.
A mulher olhou-me com ctacunspecgáo. Senti que ela que
ría dizer urna alavra, mas desconfiava. Entáo perguntei-Ihe :
'A Sra. nao conheceria um sacerdote ?'
'Aguarde, respondeu ela, veremos !'
Alguns dias mais tarde, ela me apresentou um sacerdote.
Pela primeira vez, eu via diante de mim- um sacerdote vivo.
Digo 'vivo', porque o sacerdote sempre nos fora apresentado
como um ser morto, supersticioso, ignorante, impostor, homem

— 210 —
MEMORIAS DE SACERDOTE RUSSO 27

ávido de dinheiro. Aquele era um jovem de 33 a 35 anos. Con


versamos tongamente entre nos; escutei-o com grande inte-
resse. Se bem que eu tivesse terminado os meus estudcs
universitarios, diante dele eu me sentia como um ignorante.
Ele conhecia táo bem quanto eu o materialismo, e, embora
tivesse sido afastado da Universidade por causa de suas con-
viccóes religiosas e nao tivesse podido terminar seus estudos,
mostrou-se bom conhecedor de todas as ciencias. Deu-me a
!er o Novo Testamento; após o que, nos nos despedimos. Vol-
tando á casa, eu pensava: minha esposa também cursou a
Universidade e, juntos, educamos nosso filho em espirito anti-
-religioso. Mais: ela ensina no Instituto do marxismo-leninismo.
Que dirá ela se me vir com esse livro? Por conseguinte, es-
condi-o. Mas aconteceu que ela o encontrou e comecou á lé-lo
ás ocultas. Eu o lia ás ocultas, e ela também; depois recolocá-
vamos o livro no seu lugar secreto. Mais tarde, vim a saber
que minha mulher pedirá o Batismo e mandara batizar a crian-
ca. Que me restava fazer? Nao somente o livro me interessava,
mas eu me tornara crente. Só me faltava receber o Batismo
publicamente. Pediram-me a carteira de identldade e inscre-
veram meu nome num registro. Eu pensava: será que a Igreja
vai denunciar-me? Eu ainda nao sabia que essa medida fora
tornada obrigatória pelas autoridades soviéticas. De todo modo,
eu decidirá receber o Batismo. No lugar em que trabalho, o
fato se tornou conhecido; tive que comparecer diante do tri
bunal da empresa coletiva. Ao final puseram os pingos so
bre os li:
'Se tivéssemos tido conhecimento disso mais cedo, nos
nao te teríamos atribuido esse apartamento !'
Entao tudo se me tornou claro; o ateísmo hoje ¿apenas
urna questáo de apartamento ou moradia. Agora acredito pro
fundamente. A idéia do suicidio desapareceu há muito. Conti
nuo a realizar o mesmo trabalho, mas faco-o melhor, mais
honestamente. Antes eu tolerava defeitos na producáo e me
furtava ás responsabilidades; doravante a minha consciéncia
crista me diz: 'Tu nao podes proceder assim'.
Comenta o Pe. Dudko:
"Li apenas pequeña parte das cartas desse tipo. Julguem
quanto elas sao eloqüentes !"
Táo significativos depoimentos abrem ao leitor ocidental
perspectivas novas sobre a Rússia de hoje; o homem eterno,
com as suas aspiragóes religiosas, manifesta-se espontanea-
mente, á revelia de toda a publicidade materialista e atéia.

— 211 —
_28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 22V1978

A guisa de conclusáo, transcreveremos ainda breve


passagem do livro citado, em que o autor, Pe. Dudko,
expressa a sua tempera corajosa.

3. Depoímento pessoal do autor

Uberdade e escravidáo

"Para compreender o que é a liberdade, é preciso sofrer


a escravidáo. Por exemplo, a escravidáo da reclusáo. Quem
tenha feito a experiencia desta, sabe quais foram seus senti-
mentos quando respirou, depois, as primeiras baforadas de ar
livre,... como o vento da liberdade fez revivar o seu espirito
deprimido,... que alegría Irte causavam todas as coisas: um
arbusto, um pouco de ervas, um verme, um camundongo,...
tudo Ihe era caro, tudo era rico de significado. Um sopro de
liberdade toma-se mais precioso do que a vida de prisioneiro.
Lembro-me do que eu mesmo experimentei quando sal do
campo de concentracáo pela primeira vez. Era como se a liber
dade me dilatasse o peito a ponto de sentir dor,... a ponto
que parei, incapaz de dar um passo a mais, tomado de verti-
gem por esse extraordinario sentimento de liberdade. Foi urna
auténtica bem-aventuranca. Agora já nao experimento esse
sentimento maravilhoso.

Há pessoas que me acusam de faltar de modestia porque,


a quanto dizem, falo sempre do meu encarceramento. Lem-
brem-se das palavras do Apostólo: 'Se é lícito gloriar-se, glo-
riemo-nos táo somente da cruz e do sofrimento'. Minha prisáo
é minha cruz e meu garbo. Eu o sei muito bem : um grande
número dos meus compatriotas tem, em larga escala, direito
a essa ufania. O que nao consigo compreender, é como alguns
nao somente nao se gloriam, mas, ao contrario, parecem ter
vergonha da sua cruz. Quanto a mim, sou e serei sempre ufano
da cruz, e nao deixarei de dar gracas a Deus pelas provacoes
que Ele me enviou. A recordacáo das mesmas é, para mim,
urna forca, urna luz para o espirito. Por isto a ressurreicáo de
Cristo me é muito próxima e muito cara. Nao compreendo,
antes tenho pena das pessoas que dissimulam aquilo de que,
em verdade, poderiam ser ufanas, ao passo que se compra-
zem em ninharias, em seu sucesso no trabalho, em seu carro,
em seu mobiliario... Isto tudo parece-me vaidade! As pala
vras de um companheiro de campo de concentracáo que pas-
sara dezessete anos na prisio, voltam-me á memoria. Disse-me
certa vez:

— 212 —
MEMORIAS DE SACERDOTE RUSSO 29

'Como nos tornamos piores e menos livres na liberdade !


Lembra-te das nossas conversas no campo de concentracao.
Como nos elevávamos! Como ardíamos! Aquí, ao contrario,
estamos entorpecidos e apenas produzimos fumaca!'

Superar o medo do sofrimento


Os ateus exploram o medo que temos do sofrimento e
oprirnem nossas mentes, nosso espirito, nossos sentimentos.
Temos que superar o medo do sofrimento; só entáo nos tor
naremos realmente livres, criativos, invenclveis. Somente entáo
chegaremos a superar os argumentos dos ateus contra a res-
surreigáo de Cristo, pelos quais eles fazem violencia á nossa
mente; refiro-me á violencia desses argumentos que, á pri-
meira vista, parecem libertar o espirito, mas que, na verdade,
o paralisam. A fé triunfa da violencia feita ao espirito; ela nos
levanta por cima dos obstáculos e das barricadas das demons-
tragoes; ela abre nossos coracSes para Cristo em total liber
dade. A fé é um ímpeto em diregáo da eternidade. A fé é o
ultrapassamento da morte. Ao invés, a incredulidade é a perda
da liberdade em todos os sentidos: pensamento, sentimentos,
vontade...
Coloquios contestados
Ao que me parece, há quem acolha os nossos coloquios
com grande entusiasmo, enquanto outros os criticam. Uns estao
de acordó comigo; outros me censuram. Dizem que eu deveria
ter urna autorizagáo especial para fazer o que fago e nao pro
ceder segundo o meu alvitre.
Respondo que nada fago de especial. Fago o que todo
sacerdote deve fazer. Vi que o ateísmo corro i o organismo reli
gioso do homem; procure! entáo despertar as forgas vitáis e
ajudar as pessoas a resistir á doenga. Devo fazer isto? Sim ;
é meu dever I Desgrasa a mim, se eu nao pregasse o Evan-
gelho! Sou sacerdote; minha tarefa obrigatória é pregar.
Por conseguinte, fago o que tenho de fazer... Fago-o
sem sair das paredes da minha igreja — o que é um mínimo.
Os ateus tém á sua disposigáo a imprensa, as artes, o cinema,
os clubes. Eu só tenho a minha modesta cátedra. Se eu qui-
sesse tornar-me missionário junto dos ateus, por exemplo,
numa praga, num clube, entáo, sim, eu necessitaria de autori
zagao especial.
Sou sacerdote e pensó que, como diz o Evangelho, aque
les que crerem e forem batizados, seráo salvos... Nao tenho

— 213 —
J30 sPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 221/1978

eu o direito de estender a máo aqueles que estáo a sucumbir?


Ten no mesmo o dever de fazé-lo. Se nao o fago, nao sou
sacerdote. Por conseguinte, nada há de especial na minha
atividade. é a tarefa normal de um crístao. Alguns dizem que
meus coloquios se tornaram um fato sensacional. Observo que
nada tém de sensacional; fazemos o que se deve fazer em
toda parte, em todas as igrejas. Se alguém julga que isto ó
acontecimento sensacional, só posso suspirar com tristeza.

Advertencia dos que tém medo

Há bilhetes de pessoas que me dizem que se rao encar-


cerados todos os que vém éscutar os meus coloquios; amea-
cam-me também de enviar-me para urna prisáo ou para urna
casa de loucos. Considero esses bilhetes como manifestacáo
de pánico de pessoas que perderam a cabéca. Deixamo-nos
dominar pelo medo ; tudo nos espanta. Mas o que, ácima
de tudo, nos deveria espantar, é o atefsmo, pois é pior do que
a peste, visto que vem a ser a porta da morte nao só do corpo,
mas de tudo, inclusive da alma.

De resto, eu pergunto: por que nos encarcerariam? Seria


porque desejamos o bem do próximo? Porque procuramos
esclarecer-nos mutuamente á luz do Cristianismo? Porque nos
preocupamos com a moraiidade do povo ?
Por fim, desejo dizer que os meus coloquios comecaram
nao por minha iniciativa pessoal, mas a pedido dos paroquia-
nos. Se eles me interrogam, tenho a obrigacáo de responder-
-Ihes. Portanto, ai nada há de sensacional nem estranho. Tudo
é perfeitamente natural. De resto, quem tem medo, pode muito
bem nao vir escutar. Nos nao constrangemos ninguém".

Este espelho de herói nao pode deixar de impressionar a


quem o leia. O Pe. Dudko tem fé, e sabe que a sua agáo
corajosa vale nao somente pelos frutos visiveis que possa
produzir, mas também pela graga de Cristo; é Este quem,
em última análise, prolonga a sua obra através das criaturas,
seas instrumentos, dando á atividade destas urna eficacia
que 'a mais sagaz operosidade humana nao poderia atingir.

Que o testemunho dos que sofrem perseguicáo, desperté


as consciéncias dos que usufruem de liberdade, para que nao
venha a acontecer o que já se tem dito: «Há muita gente
livre debaixo da opressáo, e há muita gente nao livre dentro
da liberdade!»

— 214 —
Depoímento precioso:

11 eu fui testemunha de jeová"


por GOnther Pape

Em sintose: O llvro de Günther Pape narra as experiencias que este


cidadSo alemáo reallzou desde que aderiu, como crianca, á sella das Tes-
temunhas de Jeová (Socledade "Torre de Vigia"). Atraído pelas promessas
de Imlnente era paradisiaca a ser Introduzida na térra pelo Cristo Josus
logo após a batalha de Harmagedon, empenhou-se corajosamente pela
dlfusáo de tal mensagem, tornándose prestigioso membro da "Torre de
Vigia". Aos poucos, porém, fol verificando que fora iludido; as profecías e
as determinacOes dos dirigentes se contradizlam — o que evldenciava nSo
serem de orlgem divina. Após aínda haver procurado convencer-se da vera-
cldade da doutrlna das Testemunhas, resolveu estudar de novo as Escrituras
Sagradas e, para grande sur presa sua, chegou á conclusáo de que a Igreja
Católica é que corresponde á imagem da Igreja apresentada pelos escritos
do Novo Testamento. iA principio, GOnther reslstiu a esta perspectiva, mas
decidlu-se finalmente a conhecer de mals parto a Liturgia e os membros
da Igreja Católica. Tal contato só fez confirmá-lo em sua conclusfio, de
modo que se tornou fiel católico.

O autor observa que descreveu o seu itinerario religioso nSo no intuito


de difamar os seus antigos correligionarios, mas, sim, com a finalidade de
evitar que pessoas desprevenidas calam nos erros que ele nSo conseguid
evitar. Interessante capitulo do livro é dedicado ¿s "predicóos" de fim do
mundo apregoadas pelas Testemunhas e suas incoerénclas. Outro capitulo
aprésente as atitudes da "Torre de Vigía" frente a socledade civil, consi
derada como Irremediavelmente dominada pela serpente, a ponto de só
poder provocar a repulsa dos que se querem salvar do Iminente julzo do
Senhor.

O llvro é de grande utilldade para a identlficacSo das Testemunhas,


cuja acto proselltlsta é notoria no Brasil.

Comentario: As Testemunhas de Jeová constituem urna


seita recente que se vem tornando notoria pelas suas
pregagóes e publicagóes, chegando a deixar dúvidas e inter-
rogacóes em,1 numerosas pessoas com que tém contato. É, por
isto, muito interessante que o público tome conhecimento do
depoimento de alguém que, como Günther Pape, aderiu á
seita com toda a sinceridade, militou arduamente em seu
favor, mas finalmente, decepcionado, a abandonou; depois de

1 Ed. Paulinas, SSo Paulo 1977, 180 pp., 130x200 mm.

— 215 —
& «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 221/1978

muito haver estudado e pesquisado, resolveu fazer-se católico,


julgando ser esta a única atitude coerente com o testemunho
das Escrituras.

Vamos, pois, abaixo apresentar as Testemunhas de Jeová;


a seguir, resumiremos o conteúdo do livro de Günther Pape,
procurando salientar os pontos que mais atengáo nos
parecem merecer.

1. Quem sao as Testemunhas de Jeová ?


Em poucas palavras, a seita das Testemunhas de Jeová
pode ser assim apresentada:

O fundador dessa denominacáo religiosa é Charles Taze


Russell (1852-1916), jovem comerciante americano de
Pittsburg (Pensilvánia). Nascido de familia presbiteriana,
nao se dava por satisfeito com a sua crenca religiosa, de
modo que, depois de muito procurar, resolveu fundar urna
Sociedade de Estudiosos da Biblia dita «Torre de Vigia»
(cf. Hab 2,1). Examinando a Biblia, Russell pesquisou a data
da segunda vinda de Cristo após as frustradas tentativas
dos grupos adventistas de 1843, 1844 e descobriu entáo que,
após a morte dos Apostólos, ninguém mais compreendeu a
Biblia, ficando reservada a Russell a missáo de apregoar ao
mundo o verdadeiro sentido da mesma.

Ora, baseando-se em textos de Daniel e Ezequiel, Russell


em 1874 predizia para 1914 a vinda de Cristo, acompanhado
dos patriarcas Abraáo, Isaque, Jaco e dos profetas da fé.
Dar-se-ia entáo a batalha de Harmagedon (cf. Ap 16,16), na
qual Deus aniquilaría os maus e daría inicio ao reino milenar
de Cristo sobre a térra, reino de bonanga e paz... Tal
anuncio despertou a atengáo de muita gente, que se filiou á
nova seita. Contudo em 1914 nada do previsto aconteceu;
Russell entáo explicou: «O Senhor ainda concede um pouco
de tempo», e indicou o ano de 1918 como o do inicio do
aprgeoado reino milenar. A morte, que o colheu em 1916,
poupou-o de novo desengaño.

O sucessor de Charles Russell — Joseph Franklin Ruther-


ford (1869-1942) — viu-se obrigado a refazer os cálculos, indi
cando em conseqüéncia o ano de 1925 como o da vinda de
Cristo e o da batalha final de Harmagedon. Muitas pessoas,
aflitas pela dura situacáo do mundo após a guerra de
1914-1918, aderiram férvidamente a tal profecía.. Dado que

— 216 —
«EU FUI TESTEMUNHA DE JEOVA» 33

em 1925 também nada do predito ocorreu, Rutherford se


pos a rever todo o calendario das Testemunhas e houye por
bem nao fixar de imcdiato data alguma para o cumprimento
das suas profecías. Em 1968, porém, Nathan Knorr, entáo
presidente da Sotíedade, afirmou, pela revista «Despertai!»,
que o dia de Harmagedon cairia em 1975, segundo a crono
logía biblica. Tal cronología era proposta nos seguirites
termos: Adáo foi criado no outono do ano 4.026 aC; donde
se segué que em 1975 se completarían! 6.000 anos da exis
tencia do género humano. Esses 6.000 anos seriam seguidos
do reino milenar de Cristo, paralelo ao descanso. sabático
em que o Senhor Deus entrou após os seis dias da criacáo do
mundo. — O atual presidente da Sociedade «Torre de Vigia»,
Frederick Franz, interrogado pela revista «Time» (11/07/1977,
p. 39s) a respeito do nao cumprimento da profeda em
1975, respondeu que a contagem deve ser alterada, pois o
sétimo dia só comegou após a criacáo de Eva, a qual foi
posterior á de Adáo; visto que a duracáo do intervalo entre
o surto de Adáo e o de Eva aínda nao foi revelada pelo
Senhor Deus, nao se pode ainda dizer quando comegará o
sétimo milenio da humanidade ou o reino milenar de Cristo!

A Sociedade «Torre de Vigia» até hoje tem sua sede


em Brooklyn, donde espalha pelo mundo numerosos livros e
panfletos, assím como as revistas «Sentinela» e «Despertai!»

Ulteriores noticias sobre as Testemunhas e suas doutrinas


encontram-se em PR 157/1973, pp. 25-42.

2. Um enredo efe vida

Günther Pape comeca a narrar a sua própria historia a


partir da infancia.

Em 1930 vivia ele com os pais e um irmáo na cidade-


zinha alema de Thale (Harz). Seu genitor trabalhava na
siderurgia local, enfrentando a grave crise económica por
que passava a Alemanha; comunistas e nacional-socialistas
se defrontavam entáo no cenário politico, prometendo
reformar e renovar as financas do país.

Um belo dia o pai de Günther perdeu o emprego — o


que tornou mais crutíante ainda a situacáo económica da
familia. Nessas circunstancias penetrou em Thale o jornal-
zinho «A Idade de Ouro» publicado pelas Testemunhas de

— 217 —
^4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 221/1978

Jeová; exibia tristes imagens da situagáo sócio-económica do


país e escarnecía os Partidos políticos, apregoando «a única
solugáo» para a crise, a saber: a iminente vinda da era
paradisiaca e da idade do ouro, preparada por Deus especial
mente para os pobres. As Testemunhas afirmavam ser os
verdadeiros cristáos em meio a um mundo pervertido ou
subjugado pela serpente! Impressionados pela calorosa pro
paganda, os pais de Günther resolveram descrer de todos os
programas políticos oferecidos a populagáo alema, para se
tornarem convictas Testemunhas de Jeová. Tal atitude reper-
cutiu na formagáo dos dois filhos, que aderiram outrossim á
seita.

Em 1933 o nacional-socialismo, tendo á frente Adolf


Hitler, subiu ao poder. Isto implicou perseguido as Teste
munhas, sob o pretexto de que eram urna faceáo judaica
ligada aos Estados Unidos da América. Os pais de Günther,
ferrenhos como eram, foram privados do patrio poder, e o
menino Günther se viu agregado ao Jungvolk, organizagáo
hitlerista para a infancia...; passou a yiver num asilo, em
que se encontravam pessoas idosas e criangas destituidas de
condicóes sociais. No fim da segunda Guerra Mundial, ou
seja, em marco de 1945, o jovem Günther foi enviado para
a frente de batalha, onde, apesar das convicgóes incutidas
pelas Testemunhas, atirou contra um tanque russo e matou
um adversario — o que lhe oausou tremendo drama de
consciéncia. Poucos dias depois, caiu prisioneiro dos ingleses.

Urna vez terminada a Guerra (1945), voltou a exercer


suas atividades de pregador do Reino. Éstas encontravam
acolhida fervorosa por parte da populagáo alema destrocada
pelo confuto armado e os saques conseqüentes. O próprio
Günther foi confirmado em seu ministerio de pregador pela
Sociedade «Torre de Vigia» (com sede em Brooklyn, EE. UU.)
— o que lhe fez crer que Jeqvá lhe perdoara o pecado de
haver entrado em guerra e abatido um adversario.

O sucesso missionário de Günther foi grande. Todavía


teve que enfrentar dificuldades... Algumas provinham da
própria seita, visto que os dirigentes da mesma nao queriam
que se casasse, alegando que o Mundo Novo estava para
irromper sobre a térra e, por conseguinte, era necessário
dedicar o tempo integral á pregacáo do Reino, sem preocupa-
góes com familia; aguardasse o Mundo Novo para se casar!
Nao obstante, Günther desobedeceu, ünindo-se em matrimo-

_ 218 —
<EU FUI TESTEMUNHA DE JEOVA» 35

nk>... — Outras dificuldades eram originadas pelas autori


dades russas, que ocupavam a Alemanha Oriental. Após
serios conflitos, conseguiu em 1950 fugir com a esposa para
a Alemanha Ocidental, estabelecendo-se finalmente em
Storzeln, perto da fronteira com a Suiga; Günther continuou
a exercer a sua missáo de pregador. Aos poucos, porém, foi
verificando rivalidades e rixas entre os seus correligionarios:
aspiravam aos cargos de relevo, recorrendo a meios nem
sempre legítimos. Mais: a grandiosidade das promessas feitas
pela Diregio Geral da Sociedade com relagáo ao iminente
Mundo Novo e o nao cumprimento das mesmas comecaram
a deixar interrogagóes na mente de Günther; assaltavam-no
dúvidas de fé, que ele procurava reprimir, pensando na
autoridade que os dirigentes da Sociedade «Torre de Vigía»
atribuiam a si mesmos. «Por tras de todas essas dúvidas nao
estariam os demonios?» (p. 44). Contudo, por mais que
Günther Pape procurasse dar crédito aos sucessivos presi
dentes (Russell, Rutherford, Knorr...) da Sociedade, percebia
mais e mais que caiam em contradigóes entre si, principal
mente no tocante á data da segunda vinda de Cristo e da
irrupgáo do Mundo Novo sobre a térra:

"Rutheriord nao havla declarado que suas doutrinas eram 'conheci-


mentos que o Sonhor Ihe comunicava para anunciar ao povo...1? Com
quo dlrelto Knorr depols os repellrla? Como se podem rejeitar 'verdades
que o Senhor 'comunlcou'? Ou, entfio, o Senhor nSo comuntcou colsa
atguma! Havla, em tudo isso, algo que nao correspondía aos principios
basilares" (p. 47).
Além do mais, em 1952 a «Torre de Vigía» resolveu
desencadear violenta ofensiva contra o comunismo — o que
mais abalou Günther. Com efeito, no passado as Testemunhas
de Jeová tinham-se declarado contrarias á participagáo na
vida política e em outros setores deste «mundo mam, funda-
mentando-se sobre textos bíblicos; contudo já entáo abriam
a luta política, violando os principios de neutralidade que
haviam proclamado!

Günther resistiu corajosamente aos assomos de dúvida


que o sobressaltavam:
"Nos sempre levávamos a serio a propaganda de nossos dirigentes.
Sempre nos inculcaron) que a 'Torre de Vigía', além de ser a única socie-
riade religiosa que tem o dlreito de subsistir dianto de Deus, é também a
mais impórtenle organlzacfio do mundo. E assim vivemos, oscilando em
nossa inconsciencia, embalados pelos discursos 'espetaculares' de nossos
chefes, como se ffissemos o eixo do mundo em torno do qual glram todas
as coísas. Quem, no mundo, poderla igualar-so a nos em importancia 7
Ninguém I

— 219 —
j$6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 221/1978

Por isso os confrades da direcfio central estáo sempre preocupados


em despertar o entusiasmo das massas com novos llvros, novos opúsculos,
novos volantes, publicados sempre com a 'graca de Jeová'. E é de ver com
que entusiasmo as multlddes os empunham ñas gigantescas concentrares,
e os levantam de faces radiantes, cerno se esses livros e esses folhetos cons-
tltulssem os mais sagrados talismSs da alegría que pudesse haver na terral"
(p. 90s).

A luta de Günther consigo mesmo a fim de se manter


fiel aos principios das Testemunhas tornava-se cada vez mais
ardua, a ponto de lhe abalar as forcas físicas. Era-lhe neces-
sário reconhecer que se engañara, doando-se totalmente a
um ideal religioso que na verdade nao fora suscitado pelo
Senhor Deus, mas, sim, por «visionarios» e falsos profetas;
chegava assim a conceber dúvidas sobre a própria existencia
de Deus (cf. p. 102). A insónia e o esgotamento físico nao lhe
permitiam assumir por muito tempo as responsabilidades de
um emprego, de modo que, desempregado, comegou a se
endividar. Para que os filhos nao sentissem demasiado a
fome que afligía o lar, Günther e sua esposa tinham de se
privar de alimentos. A própria mulher de Günther procurou
trabalho remunerado, mas veio a adoecer por sua vez, tendo
que ser internada. Günther ia-se aproximando do desespero;
a sua vida parecia-lhe ter fracassado em todos os sentidos,
ou seja, tanto no plano religioso como no profissional-econó-
mico e no familiar; os seus filhinhos inocentes teriam que
carregar as conseqüincias dos passos infelizes que ele dera.

"Era muito belo pregar o Reino de Deus como única esperanca do


mundo. Tlnhamos todo o necessárlo para o nosso sustento. O resto nfio
nos Interessava. Para que nos preocupar com as coisas do cotidiano, se
tudo o mais nos seria dado com o advento do Mundo Novo? Todos os
problemas serlam resolvldos no dia de Harmagedon. O importante era
perseverar fielmente em minha mlss&o, até a chegada deste dia.

Mas o sonho da caslnha e do jardim no Mundo Novo havla-se des


vanecido. Els-me parado no meló do caminho, sem ver mais nada dlante
de mlm" (p. 105).

Finalmente Günther resolveu reagir contra a perplexi-


dade; mais urna vez e resolutamente, voltar-se-ia para a
Biblia, procurando nela consolo e energía. Orava instante
mente ao Senhor, pedindo-lhe luz para urna nova opgáo reli
giosa.

Em 1957 as Testemunhas de Jeová excluiram Günther


da sua Sodedade, «acusando-o de haver agido de modo
incoerente e antiteocrático» (p. 106).

— 220 —
«EU FUI TESTEMUNHA DE JEOVA? 37

"Mas, na prétlca,... que religlflo abracar? Talvez conviesse que eu


mesmo tentasse encontrar a verdade, investigando sozlnho a Biblia, sem
levar em conta a doutrlna de alguma Igreja? Eu nSo encontrarla, talvez, a
verdade em alguma das Igrejas constituidas ? Cristo, que é a verdade, nño
prometeu que flcaria com as testemunhas de sua doutrlna todos os dias,
até o fim do mundo? Todos os dias... EntSo a Igreja de Cristo deve ter
existido, vlslvel e inlnterruptamente, desde os prlmeiros tempos até os días
de hoje.

Más que Igreja tem existido ininterruptamente desde os prlmeiros


crlstfios ? — A resposta que eu ful obrlgado a me dar, me foi como um
choque. NSo serla a Igreja Católica, que as Testemunhas de Jeová qualifi-
cam de servidora de Satanás? Todo o meu interior se recusava a aceitar
a Igreja Católica como a verdadeira Igreja de Cristo. NSo, nfio era possfvel I
A Igreja Católica, tal como me haviam apresentado até entáo, nunca poderla
ser a Igreja de Cristo t Jamáis I

Continué) a procurar e a investigar, sem descanso" (p. 171).

"Se a Igreja de Cristo se tivesse paganizado ]á desde os primeiros


tempos, as portas do Inferno tertam prevalecido contra ela, contradlzendo,
asslm, as promessas de Cristo. E nlsto eu nSo podía nem devia acreditar...

U com avidez as páginas da Biblia sobre as comunidades da Igreja


primitiva. E qual era a Igreja que encontrel no comeco do Cristianismo ? A
tSo odiada Igreja Católica! Um dia, apesar de toda a resistencia interior,
dirlgl-me a um templo católico. Quería asslstlr a urna Mlssa. Tudo nao pas-
sava de 'cerlmónlas1, de 'representacfio teatral', pensava eu. Mas, coisa
estranha : este 'teatro', estas 'cerimónlas1, a partir dal, tifio me delxaram mals
em paz... Por que, propiamente, nfio sel. Só Deus sabe 1

Tlnha multo desejo de entrar em contato com sacerdotes católicos.


O primelro que encontrel havia consumido suas fo reas ffslcas no trabalho
pastoral junto aos mlnelros. Como poderla eu julgar aquele zeloso pastor,
transformado num Inválido, como um hipócrita, um fariseu e um servidor do
demonio, quando estava dlante de mim um sacerdote leal e bondoso? E
aquele padre jesuíta que conhecl em seguida, podaríamos quallflcá-lo de
esperto e refinado marcador de almas? Nada disto pude constatar..."
(p. 172).

Paulatinamente os preconceitos de Günther contra o


Catolicismo foram-se esvanecendo — o que lhe abriu o cami-
nho para se tornar um convicto fiel católico:

"Pus-me entSo a estudar a doutrlna católica, sem preconceitos, e nela


tenho encontrado até hoje multa paz e multa alegría. Por certo, fol um longo
e fatigoso camlnho aquele que, da heresla das Testemunhas de Jeová, me
fez chegar á fe de crlstfio católico. Mas o certo é que a Igreja Católica é
a única Igreja que se perpetua até hoje e á qual Cristo prometeu sua pre-
senca e seu governo, todos os días, até o flm do mundo" (p. 174s).

Urna vez terminado o seu longo itinerario religioso,


Günther Pape houve por bem escrever a respeito um livro,

— 221 —
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 221/1978

nao no intuito de difamar os antigos correligionarios, mas,


sim, a fim de esclarecer o público e evitar que incautos
incidam nos mesmos erros doutrinários em que caira. «As
experiencias ■ pelas quais passei, me póem continuamente
diante dos olhos as proporgóes e a periculosidade destes
erros. Nao devo me calar! Nao posso me calar!» (p. 178).

Examinemos agora alguns dos principáis pontos que


Günther denuncia como falsos na mensagem das Testemu-
nhas de Jeová.

3. Pontos vulneráveis

Salientaremos tres pontos mais importantes: 1) as


profecías sobre o fim do mundo; 2) as atitudes frente á
sociedade civil; 3) o uso do nome Jeová.

3.1. As profecías

Como exposto atrás, as Testemunhas de Jeová consti-


tuem urna sociedade adventista extremada. Sua razáo de
ser é apregoar a iminente vinda de Jesús- Cristo e o juizo ds
Deus sobre os maus... O fato de terem indicado com
precisáo a data de tais acontecimentos atraiu-lhes, sem
dúvida, muitos adeptos, pois os homens hoje em dia, desilu
didos palo curso dos acontecimentos contemporáneos, sao
propensos a aguardar do Além as condigóes de vida melhor
que os políticos e governantes nao conseguem dar á humani-
dade; foram justamente a miseria e a desesperanga que
levaram os país de Günther Pape a aderir á Sociedade «Torre
de Vigia».

Todavia as constantes frustragóes a que se véem sujeitos os


membros da seita, levam-nos a abandonar a «Torre de Vigia»,
tornando evidente qin» esta nada tem de sobrenatural, mas se
deve á fantasia exuberante e desorientada de seu fundador e
de seus sucessores; ó o fanatismo cegó, irracional, associado
ao desánimo das massas frente á situagáo mundial, que
alimenta a vida da Sociedade. — Günther Pape, com pers
picacia, percebeu esse aspecto ilusorio e cheio de contra-
digóes das profecías da seita, de modo que se afastou da
mesma (nao sem muito lutar para vencer as categorías do
fanatismo que a seita incute em seus adeptos).

222 —
«EU FUI TESTEMUNHA DE JEOVA> 39

Na verdade, a S. Escritura nao tenciona revelar o día


da consumacáo da historia. Muito ao contrario, o Senhor
Jesús declarou:

"Nfio vos compete conhocer os tempos e os momentos que o Pai


reservou em seu poder" (At 1,7).

"Quanto áquele dia e áquela hora, nlnguém sabe de nada, nem sequeiv
os an|os do céu, mas somente o Pai" (Mt 24, 36).

Os cálculos feitos por Russell, Rutherford, Knorr, Franz


e seus seguidores sao todos arbitrarios, nao levando ém
conta o género literario dos textos biblicos e o significado,
nao raro, simbolista que os números tém ñas Escrituras
Sagradas. Baste citar, como exe&nplo, o episodio de
Gn l,l-2,4a, em que os sete dias da criagáo estáo longe de
significar o prazo dentro do qual o mundo e o homem se
constituirán!. Nao se pode hoje em dia pretender interpretar
auténticamente a Biblia se nao se leva em conta o exprés-
sionismo próprio dos antigos povos orientáis.

3.2. Testemunhas de Jeová e sociedad© ¿vil

Günther Pape dedica um capitulo inteiro de seu livro


(pp. 141-168) as incoeréncias das Testemunhas de Jeová
diante do Estado e das instituigdes civis.

Na verdade, as Testemunhas julgam que toda a huma-


nidade, distribuida em nagdes e crencas religiosas, está eob
o poder da serpente ou de Satanás. Apenas a «Torre de
Vlgia» está isenta de tal jugo, constituindo um pequeño
rebanho comparavel aos 144.000 aos quais o Apocalipse
(14,1) promete a salvacáo.

Por isto as Testemunhas rejeitam qualquer relacáo


amigável com o Estado e seus órgáos de Governo; quem
pactue com essas instituicSes, comete «prostituicáo ou adul
terio espiritual», e sujeita-se a ser aniquilado em Harmage-
don juntamente com «este sistema de coisas».

Em conseqüéncia, as Testemunhas

a) rejeitam o servigo militar seja em tempo de paz,


seja em tempo de guerra, chegando a perder os direitos
políticos por causa dessa sua atitude;

— 223 —
JO «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 22V1978

b) condenam o juramento á bandeira como compromisso


de fidelidade á patria, pois na verdade estáo engajados no
exército do Rei do Novo Mundo, a cuja bandeira juraram
fidelidade;

c) recusam qualquer tentativa de cristianizar a política,


pois, para eles, o mundo é incorrigível; nenhum esforgo
humano é capaz de melhorar as condicóes da historia; só
Jeová o poderá mediante interveneáo drástica no curso dos
acontecimentos. As Testemunhas sao incitadas por seus diri
gentes a nao favorecer Partido político algum nem apoiar
alguma forma de Governo (democracia, monarquía ou
ditadura...). Quem faz política, é inimigo de Deus, pois
tenta melhorar as condicóes da vida humana, tarefa esta
que só a Deus compete. As campanhas antipolíticas das
Testemunhas sao chamadas pela Sociedade «Torre de Vigia»
obra educadora;

d) escarnecem, por vezes, os governantes com veemén-


cia, como se depreende do texto abaixo:

"Os hotnens farlam bem, se pensassem que seguir os poderosos e


suas promessas, em qualquer Partido que seja, é se entregar a criaturas
moribundas e corrompidas pelo pecado. Do mesmo modo que um cegó
nada pode fazer, quando guia um seu semelhante, asslm tamben» esses
chafes n9o podem devolver os favores divinos a um mundo nascldo no
pecado... Nao é extremada tollce revestir a criatura decaída com as
insignias da autorldade, elevá-la ácima dos seus com participantes no pecado,
cumula-la de louvores, cercá-la com um poderoso exórclto e, depols, esperar
que este]a em condlcáos de libertar os seus próprios companhelros ? Como
ó Insípido e pueril pensar que um Partido político seja 'a aalvacáo deste
país' ou de qualquer outro palsl Como podem os 'deuses' vlsivels ou invl-
sivels deste mundo salvar alguma colsa, se nem eles estSo em condignas
de salvar-se a si próprlos...?" (Senttnela, 1953, ed. alema, p. 36);

e) as Testemunhas combatem a Organizagáo das Nacóes


Unidas na medida em que esta procura profligar as guerras
e harmonizar os povos entre si. Tal tarefa equivale a querer
evitar o dia de Harmagedon e tentar fazer aquilo que só
Jeová pode fazer sobre a térra. Assim a ONU oferece ao
mundo um sucedáneo hipócrita do Governo legitimo e per-
feito de Deus;

f) recusam orar pela paz deste mundo, pois Jeová nao


aceita tal tipo de oracáo, dizem as Testemunhas. O Senhor
disse a Jeremías, referindo-sé ao povo de Judá decaído: «Nao
intercedas por este povo; nao eleves em favor dele clamores
nem súplicas, nem insistas comigo, porque nao te ouvirei»

— 224 —
*-EU FUI TESTEMUNHA DE JEOVA» 41

(Jr 7,16). Ora análogamente faria o Senhor a mesma adver


tencia as Testemunhas que se dispusessem a orar pela paz
das nagóes contemporáneas.

Estas atitudes das Testemunhas frente as instituigóes


civis sao táo pouco naturais e táo fanáticas que, como
observa Günther Pape, os próprios membros da seita nao as
sustentam coerentemente. Existem textos dos dirigentes da
seita que se referem com benevolencia aos governantes e aos
Governos das nagóes. Em tais textos prevalecem os senti-
mentos de solidariedade e comunháo que todo homem expe
rimenta em relagáo aos seus concidadáos. Contudo nao se
pode negar que a atitude hostil frente -as instituigóes civis
esteja na lógica das premissas da seita.

3.3. O nome «Jeová»

As Testemunhas fazem questáo cerrada de designar o


Altíssimo pelo nome Jeová; mediante este apelativo, revelado
por Deus mesmo, o verdadeiro Deus se distinguiría dos falsos
deuses.

Em conseqüéncia, as tradugóes da Biblia difundidas pelas


Testemunhas usam o nome Jeová. Pergunta-se, porém: será
que o texto original hebraico apresenta a forma nominal
Jeová?

Eis o que em resposta se pode dizer:

Os hebreus antigos nao usavam vogais, mas apenas


consoantes. Por conseguinte, escreviam o nome revelado por
Deus a Moisés (Ex 3,14) mediante as consoantes JH VE
Embora estas consoantes exigissem as vogais a e e, provo
cando a leitura JAHVEH (Javé), os israelitas nunca pronun-
ciavam o santíssimo nome de Deus por motivo de reverencia.
Por conseguinte, ao se defrontarem com o tetragrama
J H V H, liam ADONAY (meu Senhor). Com o tempo, ou
seja, na Idade Media (após o século XI), os rabinos reaH-
zaram a fusáo das consoantes de JAHVEH com as vogais
de ADONAY; donde

J H V H
D
r
e 0 N a Y
J e H 0 V a H

Observe-se a propósito: 1) a primeira vogal, no caso, é


e e nao a porque o a inicial de ADONAY é mudo, equivalendo

— 225 —
42 «PERGUNTr: E RESPONDEREMOS> 221/1978

a e; 2) a letra Y de ADONAY é semiconsoante, e nao vogal


pura; por isto nao entrou na composic.áo do nome Jehovah.

Como se vé, o nome Jeová é urna composicáo dos rabinos


da Idade Media; está longe de ter sido pronunciado por
Moisés ou pelos profetas antigos. Por conseguinte, em vez
de ser genuino distintivo da revelacáo de Deus aos homens,
é algo que nao corresponde plenamente a essa revelacáo. A
própria sociedade «Torre de Vigia», em seu livro «Equipado
para toda boa obra» (p. 25 da edigáo alema), reconheceu
que «Jeová» nao é a forma original do nome de Deus.
Observa entáo Günther Pape:
"Por que os dirigentes das Testemunhas de Jeová n&o rejeltam o nome
de Jeová, se o reconheceram como designando errónea de Deus?...

As Testemunhas estáo acoslumadas com o nome de Jeová. Basta


somente pensamos na imensa importancia que a Torre de Vlgia atribuí a
esse apelativo. Abolir o uso do nome de Jeová seria desastroso para a
OrganlzacBo. Toda a sua popularidade, conquistada a duras penas, cairla
por térra. Os dirigentes das Testemunhas, no entanto, pensam e agem, pelo
menos aparentemente, como homens de negocio. Mantém-se o fióme de
urna firma de prestigio, mesmo multo depois de ter mudado de proprietárlo.
E por que Isto ? NSo é somente por razQes de lucros e popularidade, mas
também por razCes de mercado e clientela.

Nao encontramos outras raz6es pelas quals os confrades de Brooklyn


tanto se apegam ao falso nome de Jeová" (p. 99s).

Sao estas as tres objecóes mais significativas que Gün


ther Pape levanta contra as Testemunhas de Jeová. Sabe
mos que estas também se tornaram conhecidas pelo fato
de nao aceitarem transfusáo de sangue, preferindo a morte a
tal tipo de tratamento. E isto..., em virtude de leitura literal
dos textos bíblicos que afirmam ser o sangue a própria vida
(cf. Gn 9,5s; Lv 17,11; Dt 12,3). Ora, como a vida é de
Deus só, nao é lícito ao homem tomar sangue, pois isto equi-
valeria a usurpar a propriedade de Deus. Todavía é certo
que a Biblia, nos versículos citados, nao pretende definir
assuntos de biología, identificando autoritariamente sangue e
vida!

Nao há dúvida, a leitura do livro de Günther Pape há


de ser de grande utilidade a quemacompanha a vida contem
poránea. As Testemunhas visitam domicilios e empenham-se
por convencer seus interlocutores.
Daí a grande conveniencia
de se conhecerem as suas origens, as suas teses principáis e
as experiencias daqueles que lhes aderem.

Esteváo Bettencourt O.S.B.

_ 226 —
livros em estante
O tempo que se chama hoje. Urna Introdujo ao Antlgo Testamento,
por Wolfgang Qruen.' — Ed. Paulinas, Sao Paulo 1977,130 x 200 mm, 275 pp.

O Pe. Wolfgang Gruen tem-se distinguido por seu apostolado bíblico.


Acaba da reunir num só llvro artlgos que publlcou na revista "Familia Crista"
(Ed. Paulinas) de abril de 1976 a dezembro de 1977; para tal edlcflo todo
o material fol revisto, corrigldo, ampliado e devidamente articulado.

O autor aprésenla os livros do Antigo Testamento nao segundo a


seqüéncla do respectivo canon, mas de acordó com a ordem cronológica da
sua redagáo. Isto permite compreender melhor a historia das idéias entre
o povo do Antlgo Testamento e o significado próprlo de cada livro. A flirt de
favorecer tal objetivo, o autor nao quis relacionar os livros do Antlgo
com os do Novo Testamento: fica ao leitor a tarefa de realizar tal conjuncao,
que na verdade é indlspensável para a boa compreensfio da Biblia Sagrada.

O que tal volume tem de característico, é o seu estilo altamente didá-


tlco, a sua linguagem fácil, moderna, os seus quadros slnótícos, os seus
mapas ...; tudo isto penetra naturalmente dentro do espirito do leitor, sem
que este faca grande esforgo para aprender. O llvro é, pols, eminente
mente pastoral, sem deixar de ser sólidamente científico; as suas opcfies
exegéticas s&o todas consentáneas com os rumos das ciencias bíblicas
católicas. Ñas páginas • Introdutórtas, o autor propóe certas normas para o
bom uso dessa IniciagSo á Biblia, chamando a atencSo para a necessldade
de se manusear o próprlo texto sagrado e de se consultarem diretamente
as passagens bíblicas citadas no corpo do livro; é preciso famlliarizar-se
diretamente com a Escritura Sagrada.

Congratulamo-nos com o Pe. Qruen por esta sua valiosa obra, á qual
auguramos frutlfique amplamente.

EducacSo Religiosa Escolar. Rotelros de aulas do 2? grau, pelo Con-


selho Interconfessional para a Educac&o Religiosa (CIER). — Ed. Vozes
de Petrópolls e CIER de Florianópolis 1978, 180 x 250 mm, 224 pp.

A aproxImacSo entre católicos e protestantes tem levado alguns grupos


de educadores a procurar ministrar ñas escolas um ensinamento religioso
que satisface a católicos e protestantes de tal modo que nSo seja necessárlo
dividir as turmas segundo as conflssSes religiosas por ocasi&o das aulas
de Religiao.

Em S. Catarina este projeto tem agora o seu manual, devldo ao CIER


(fundado aos 26/06/72). O llvro em pauta procura apresentar apenas ver
dades comuns a católicos e protestantes. — Reconhecamos o valor da
metodología sugerida, o respelto ¿ psicopedagogla e á psicología evolutiva
dos educandos, que caracterizan! a obra. Além disto, verificamos que varios
temas ai sao abordados de manelra feliz: assim o da origem do homem
<pp. 31s), o da historia do povo de Deus (pp. 51-72), a Cristologia (pp. 75-89),
os aspectos da sexualldade (pp. 135-138)... Todavía é inevltável que, do
ponto de vista católico, o leitor perceba lacunas na exposlcfio doutrlnárla
do llvro. Assim, por exemplo, a respeito de María SS. nada se diz sobre
a sua virgindade e os seus demais privilegios (pp. 92-94); nSo se encontra

— 227 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 221/1978

urna palavra referente á S. Eucaristía, que é o centro da vida crista; dos


sacramentos, apenas o Batlsmo e o matrimonio sSo mencionados (sendo
que este último n9o é referido explícitamente como sacramento). No tocante
aos novlsslmos, poucas palavras mencionam o céu e o inferno (p. 199), nao
havendo mencSo do purgatorio.

Os capítulos dedicados á Igreja (pp. 156-160) e ao ecumenismo


(pp. 169-171) abordam o tema "Igreja" em sentido Insuficiente, pols Insinuara
certo relativismo. A p. 158 afirma-se que os ortodoxos repudiaram as imagens
dos santos, sem se levar em conta que muitos mestres ortodoxos (S. Joao
Damasceno, varios Patriarcas de Antioquia e de Jerusalém, os monges...)
defenderam as imagens e que o Concilio de Nlcéla II (786-787) reiterou o
valor do culto ás imagens consoante a antiga tradlcao crista oriental. Note-se
ainda: o capitulo sobre a conscidncla moral (pp. 126-129) esvazla a nocao
de leí natural. .

Tais deficiencias, decorrentes, em grande parte, do intuito de elaborar


um manual de educapcSo religiosa para católicos e protestantes, sugerem
a pergunta: será realmente válida tal tarefa ecuménica ? Prestará verda-
delro servlco a católicos e protestantes? — Cremos que nlo, e explica-
monos :

A intencio de aproximar e unir católicos e evangélicos é de todo lou-


vávei. Todavía a InstrucSo religiosa ministrada de m'anelra Incompleta nao
prepara católicos auténticos nem talvez protestantes auténticos fmais fácil
mente preparará protestantes auténticos, pols as omlssSes doutrinárias s§o
devldas ao intuito de nSo ferir a consclencla protestante). A propósito enslna
o Concillo do Vaticano II:

"É absolutamente necessário que a doutrlna Intelra seja lucidamente


exoosta. Nada é tfio alhelo ao ecumenismo quanto aquele falso Irenlsmo
pelo qual a pureza da doutrlna católica sofre detrimento e seu sentido ge
nuino e certo ó obscurecido" ("Unitatls Redlntegratlo" rfí 11).

Tem-se dito — e com razfio — que o movimento ecuménico só tem


a lucrar se católicos e protestantes se tornarem sempre mals sinceros (e
nfio relativistas); com efelto, a sinceridade abre o coracSo ao Espirito Santo,
aue, em última anállse, ó o grande promotor da unldade entre os cristáos.
Sendo asslm, nao se pode ver por que delxar de dar aos católicos urna
formapfio religiosa específicamente católica e aos protestantes a respectiva
formacao protestante; o que se há de evitar, é a polémica, em lugar da
qual deverüo mais e mais ser apresentados aos alunos os pontos que
aproxlmam entre si as diversas conflssOes cristas. Aos teólogos é que com
pete elaborar as slnteses de pontos doutrlnários discutidos entre católicos
e protestantes, afastando falsos problemas e mostrando a convergencia entre
as diversas conflss8es cristas. Essas slnteses, urna vez estudadas e aceitas
pelos teólogos, nSo de ser levadas ás autoridades religiosas de cada con-
fissáo e finalmente a todo o povo de Deus.

Tais Idélas vao aqui proooslas á guisa de contrlbuicSo para se ava-


liarem as diversas tentativas de enslno religioso unificado ]á em curso no
Brasil; )ulgámo-las portadoras de relativismo e, por conseguinte, contra
producentes. «■

— 228 —
Jograls evangélicos para catequese do 1? grau, por A. A. Aguiar.
Distribuidores: Zéllo Blcalho Portugal e Cia. Uda., Av. Presidente Vargas,
502/17?. Rio de Janeiro 1977, 160 x 223 mm. 234 pp.

O prof. Antonio A. Aguiar é um entusiasta da catequese á base dos


Evangelhos. Após haver experimentado durante atguns anos a apllcacao do
texto do Evangelho, sob a forma de jograis, ás turmas da 5?, da 6?, da 7?
e da 8? series, houve por bem publicar tais pegas para que outros cate
quistas se possam beneficiar da experiencia. Quer-nos parecer que se trata
de método original, apto a produzir bons frutos, visto que se serve de
recursos pedagógicos modernos.

Chama a atencáo o fato de que as pegas produzidas pelo prof. Aguiar


incluem termos de girla como "legal paca" (p. 145), "vé se te amarras
nesta" (p. 145), "barato total" (p. 125), "bacana-hiper-legal" (p. 127)...
Este vocabulario nao conviria á pregagáo nem a urna palestra para adultos,
multo menos... á oracSo litúrgica ; todavia, em se tratando de pegas a ser
recitadas por meninos e meninas, acompanhadas de discos catequétlcos,
nSo vemos inconveniente no emprego da glria inocente que caracteriza a
llnguagem dos jovens de hoje. Na verdade, todo o trabalho do prof. Aguiar
procura construir urna mentalidade evangélica fiel á sá doutrina e incutlr
a prátlca da virtude.

Louvamos, pois, o mestre pela sua obra ploneira, e desejamos-lhe


grande éxito I

Violencia na socledade contemporánea, por Dallo Caram. Publlcagfies


CID, Sociología Rellglosa/3. — Ed. Vozes, Petrópolis 1978, 138 x 210 mm,
250 pp.

Este livro contém a tese apresentada pelo autor na Faculdade de


Teologia da Universldade de Friburgo, Sufga, para a obtengño do grau de
doutor em Teologia. Após vasta leltura de obras relacionadas com o assunto,
D. Caram aborda o tema em tres partes: 1>) fatores que contribuem para
a InstltucionalizagSo da violencia (inclulndo estudos biológicos e psicoló
gicos altamente interessantes); 2) respostas á violencia estruturada, com
especial considerado da nao violencia (defendida por D. Helder Cámara,
Martín Luther Klng, Régamey, Haerlng...); 3) o ponto de vista crlstáo
concernente ¿ violencia. Nesta última parte, o autor discorre sobre justica
e carldade, denunciando a falsa caridade, que, dando esmolas, ó conivente
com a injustlca (pp. 218-226). Levando em conslderacáo a América Latina,
Caram mantém-se em nivel mais teórico do que prátlco, evitando formular
difames concretos para a agSo dos crlstSos em nosso continente. O livro
é recomendável, distinguindo-se pela riqueza da sua erudigfio e das suas
InfotmagSes, que hio de Ihe merecer a atengao dos estudiosos.

E. B.
PRECE DE GRATIDÁO
6
WS SJ8I 3
TER VOZ QUE FALA E CANTA,

S^^M^Ü^ MOS,CA E
OAUa1JÍ>R0 HAAGTAATDOsTuRDOS. QUE NADA OUV|M.

»**»■

QUAANDOETANTOS NAO TÉM COM QUE SACIAR A SEDE.


é maraThoso senhor, sentar-se junto a u-a mesa

mamPEDIR,

MAS TANTO PARA VOS AGRADECER.


AMÉM. M QUOjSt _ A. Lorenzatto