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PLANO DOS EXCURSOS DO POETA

1. Proposição (1,1-3)

Na proposição, o poeta expõe ao leitor o assunto ou matéria de que vai tratar todo o poema. Os Lusíadas, título a significar os Lusos, os Lusitanos ou os Portugueses aponta-nos logo para uma personagem colectiva, como herói, em vez dos heróis individuais Eneias ou Orlando, respectivamente de Vergílio e Ariosto. «O peito ilustre Lusitano» refere-se ao heroísmo dos Portugueses; «as armas e os barões assinalados» são os Portugueses que passam além da «Taprobana», ilha de Ceilão, e evidentemente além da Índia, onde construíram um «Novo Reino» no Oriente (1,1). No entanto não são só estes os celebrados mas também aqueles reis portugueses que «foram dilatando / a Fé, o Império e as terras viciosas / de África e Ásia andaram devastando». Juntam-se ainda todos aqueles que ficaram famosos por feitos notáveis: «e aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da Morte libertando» (1,2). E necessário ainda acrescentar todos aqueles que realizaram as navegações marítimas e alcançaram glória nas guerras das descobertas: «a quem Neptuno e Marte obedeceram». Hoje não diz muito a personificação do mar e das guerras em «Neptuno» e «Marte», mas na aura do humanismo, os deuses eram conotados com figuras que transcendiam os homens mortais. O herói d'Os Lusíadas é, portanto, uma personagem colectiva, são todos os Portugueses que se notabilizaram por alguma acção de valor, nos então quatro séculos de história portuguesa, os heróis de África e Ásia tanto na terra como no mar, os que tinham navegado, no decurso já de muitas décadas, até Marrocos ou até à Taprobana ou até ao Extremo Oriente na China e Japão. Observem-se na proposição: a expressividade da sinédoque em «praia»; o motivo recorrente da novidade, «nunca dantes»; o símbolo do nome clássico «Taprobana» como limite do mundo (1,1); «engenho e arte», a significar, em poesia clássica, a capacidade de concepção e o poder de realização artística; a duração das acções pelos gerúndios; a imortalização pela perífrase da «Morte» (1,2); a subjectividade emotiva no discurso de l. a pessoa em «cantando espalharei»; o «valor mais alto» dos Portugueses que o dos cele- bérrimos heróis clássicos (1,3).

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2. A Invocação (1,4-5)

As ninfas na mitologia clássica são jovens deusas que viviam nos

campos, bosques e águas que tornavam idílicos pelo seu encanto feminino; eram consideradas filhas de Zeus; sendo divindades secundárias, eram familiares ao imaginário popular e a elas as pessoas dirigiam súplicas. Entram aqui como musas inspiradoras; as musas eram também filhas de Zeus. O estado emotivo de criação literária, na literatura greco-latina, era explicado pela inspiração das musas e ninfas e sobretudo de Apolo. A musa mais vulgar na poesia épica era a deusa Calíope. Ainda hoje, embora não se pense que as

musas dão inspiração, dizemos expressões como «estar ou não inspirado»,

para significar o estado ou a sua ausência de emoção e entusiasmo, no acto, um tanto indescritível, de criação artística, nomeadamente a escrita.

O poeta pede às ninfas do Tejo, «Tágides», um estilo épico e

espontâneo de «som alto e sublimado; «um estilo grandíloco e corrente», uma inspiração extática de «fúria grande e sonorosa» e uma inspiração heróica «de tuba canora e belicosa» (1,4). O poeta opõe este estilo sublime ou grave (lat. sublime, grave, grandiloquum) que já desde a Idade Média era considerado próprio da épica de Vergílio e apropriado à poesia épica, a um outro estilo humilde, ténue ou grácil (lat. humile, ténue, gracile) de «verso humilde» ou «de agreste avena ou frauta ruda» que na mesma tradição era aplicado à poesia lírica e nomeadamente à poesia bucólica de Vergílio. Notem-se na invocação: a criação das «Tágides» a transferir da mítica Grécia para Portugal as musas da inspiração; a abundância de

adjectivos; o acto da fala em invocação, a transmitir a emoção do emissor e os apelos ao receptor (1,4); a simbologia dos instrumentos musicais e sua adjectivação; a sugestão das imagens de «tuba» e da fama «que se espalha»

(1,5).

3. Dedicatória (1,6-18)

Dedica a obra ao rei D. Sebastião dirigindo-se-lhe em tom epicamente encomiástico. Chama-lhe: «certíssima esperança / de aumento da pequena Cristandade». Esta palavra «pequena» indicia certamente que o poeta já tinha consciência de que a Cristandade-Europa era uma muito pequenina parcela do mundo geográfico e do mundo das religiões.

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D. Sebastião é o «novo temor da maura lança» (1,6), pois é público que o jovem rei pensa em dedicar a sua vida à guerra de cruzada contra os Mouros. Chama-lhe também o descendente «de ua árvore de Cristo mais amada», da família real europeia mais amada por Cristo, pois era neto de D. João III e do imperador D. Carlos V. O poeta declara-lhe o que era vulgar e evidente na época: a grande importância do rei português, pelo grande império que governava, tão grande que nunca o sol dele desaparecia, pela esperança que boa parte da nação nele depositava de que haveria de consolidar a posição portuguesa em Africa, nos domínios orientais dos Turcos e na Índia. Vejamos:

Vós, poderoso Rei, cujo alto Império

O Sol, logo em nascendo, vê primeiro,

Vê-o também no meio do Hemisfério,

E quando dece o deixa derradeiro;

(1,8)

Solicita-lhe com humildade que lance um olhar protector à sua obra épica, que ele não escreveu por interesses mesquinhos. A obra foi por si elaborada, só pelo «amor da pátria» e pelo gosto de ser ele o seu imortalizador no Universo:

Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgados numerosos. »

" [

E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo rei, se de tal gente.

]

(1,9-10)

Em vez das «vãs façanhas, / fantásticas, fingidas, mentirosas» das epopeias estrangeiras, oferecerá os factos verdadeiros dos reis de Portugal, dos descobridores, dos heróis do Oriente. Em vez de Eneias, dos imperadores Carlos Magno ou de Júlio César, cantará outros mais valorosos, um Vasco da Gama, um D. Afonso Henriques, um D. João I, um Afonso de Albuquerque ou um D. João de Castro. Pede-lhe mais uma vez que favoreça os seus versos:

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Mas, enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Pera que estes meus versos vossos sejam,

(1,18)

A dedicatória (1,6-18) e a fala final a D. Sebastião (10,145-146), formam como que um círculo narrativo do poeta-narrador que engloba todas as outras narrativas particulares. Apreciem-se na dedicatória: o louvor do rei pela imagem do «alto império» a ser visto pelo sol; a alta expectativa no rei, como «jugo» dos Infiéis; a motivação do poeta na elaboração d'Os Lusíadas apenas baseada no facto de vir a ser conhecido, pelo canto do seu «ninho paterno» (1,10); o contraste absoluto entre as «façanhas» «verdadeiras» e as «fabulosas» (1,11); a oferta a D. Sebastião, ainda criança, dos seus «versos»; o relevo do acto de visão entre o rei e os navegantes (1,18).

4. O homem, um «bicho da terra tão pequeno» (1,105-106)

Vêm os naturais de Mombaça, enviados pelo respectivo rei que já planeava a perdição dos Portugueses. As exclamações do poeta exprimem magistralmente, numa circunstância concreta, um princípio existencial de carácter universal: a pequenez da vida humana. Os «perigos», o «caminho da vida incerto», a «pouca segurança», as tormentas no mar, as misérias em terra, a justiça embora benigna de Deus, tornam o homem um ser frágil, contingente e essencialmente inseguro

(1,105-106).

Para a boa expressão da mensagem contribuem de modo decisivo as exclamações, interrogações e respectiva pontuação, as frases ou membros de frase curtos, os contrastes, as acumulações. Ouçamos um pouco:

Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?

(1,106)

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5. Invocação a Calíope (3,1-2)

Antes de ficcionar Vasco da Gama a contar a história de Portugal e a viagam marítima de Lisboa até Melinde, o poeta invoca Calíope, como musa

da epopeia e da eloquência, pois estava a começar uma história e um

discurso importantes.

O poeta coloca um motivo pessoal, é

nomeadamente a poesia épica, personificada em Calíope:

que

ele

ama

muito

a

arte

Inspira imortal canto e voz divina Neste peito mortal, que tanto te ama.

(3,1)

É tempo de as Musas darem inspiração aos poetas que, como ele, vivem

fora da época e do mundo greco-romano, e ele vive nomeadamente no Renascimento e em Portugal. E o que o poeta pretende exprimir: pede que a

água do Tejo substitua a água inspiradora da fonte de Aganipe! Serve-se duma forte personificação mitológica nas suas ideias, neste caso demasiado cerrada para um leitor actual mas não para um leitor com cultura clássica da época ou de agora; no entanto utiliza nomes com uma carga conotativa importante como: Apolo, o deus das artes, da música, da poesia,

da adivinhação; Orfeu, poeta e músico que encantava as árvores e animais

com a sua música e também ligado ao culto mistérico do Orfismo; Calíope que era a principal entre as nove musas inspiradoras das artes e ciências. O uso destes mitos fazia reviver muitos sentimentos.

se

portugueses? (5,92-100)

6.

Como

pode

cantar

o

«louvor

e

a

justa

glória»

dos

heróis

E necessário situar a reflexão sobre o tema armas-letras; entenda--se por

«armas» os heróis guerreiros e os poderes sociopolíticos constituídos e por «letras» entenda-se um conjunto de escritores e artistas. No Renascimento existia uma classe de humanistas e letrados cos- mopolitas, que pela sua cultura, se assumiam justamente como os novos nobres. Os humanistas a nível europeu, nomeadamente na Flandres e na

Itália desejavam e conseguiam um mecenas para o seu estatuto de doadores

de glória. Os palácios dos Nobres, as sedes hierárquicas do alto Clero na

Igreja e as cortes das Monarquias tinham ao seu serviço, arquitectos, pintores, músicos e literatos; o artista fornecia a imortalização pela sua arte e

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os mecenas retribuíam em doações de títulos ou cargos administrativos ou em estipêndios em terras ou em dinheiro, para uma situação económica condigna. Para apenas falar em Portugal, foi a situação que se viveu entre Zurara e D. Afonso V; era a situação pretendida por Angelo Poliziano, que viveu na corte de Lourenço de Médicis, em carta a D. João II, em que lhe sugeria que mandasse cantar em grego ou em latim os seus feitos e em que oferecia os seus préstimos; foi a situação de João de Barros e D. João III. Este tema é pois um lugar-comum entre os humanistas renascentistas, mas nem por ser um lugar-comum, deixa de ser altamente significativa esta questão. Sabe-se é que Camões não teve, ou não conseguiu, ou ninguém em vida o julgou digno de ser um poeta sustentado por mecenatismo, quando a epopeia era o género literário mais propício a doar a imortalização a qualquer possível mecenas. De que se queixa o poeta? Podendo argumentar consigo próprio e com os exemplos supra referidos

e outros, o poeta não desceu a esse nível de intriga individual. Ficou-se na

verificação e exposição de factos. Os heróis e poderes constituídos de língua latina e grega ou de qualquer outra língua, apreciavam a ciência, a arte e a poesia. Assim o fazia Alexandre Magno que venceu a Grécia e o Egipto mas que apreciava de tal maneira Homero «que sempre se lhe sabe à cabeceira»; o romano Cipião que venceu

o cartaginês Aníbal cultivava a arte de escrever; César que conquistou a Gália tinha sempre «nua mão a pena e noutra a lança» (5,96); o imperador Octávio Augusto, apoiara a Eneida de Vergílio (5,94-95). Os heróis e os poderes constituídos entre os quais incluiria o poder real e Vasco da Gama não têm o dom de apreço pelas artes e ciências, sem o qual

austeros», «rudos» e esquecidos das

ficam «duros e robustos», «ásperos

letras (5,95-98). Depois, tenta explicar esta falta de homens do poder apreciadores da poesia: é que, em Portugal, o mal é geral, não se vê minimamente apreciado por ninguém «o verso e a rima» (5,97). Vem a seguir uma reflexão que pode ser dura para o futuro de Portugal, é que não havendo homens com apreço pelos poetas, deixará simplesmente de

haver heróis conhecidos:

Por isso, e não por falta de natura, Não há também Vergílios nem Homeros; Nem haverá, se este costume dura, Pios Eneias nem Aquiles feros.

(5,98)

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Acusa Vasco da Gama e os seus descendentes de nenhum deles apreciar a poesia épica. Vasco da Gama que agradeça Os Lusíadas ao seu, do poeta, amor pela épica e pelas Musas e ao seu amor desinteressado «de dar a todo o lusitano feito / seu louvor.» (5,100). É certamente uma queixa bem interiorizada, durante os longos anos de elaboração do seu poema. Noutro passo, o poeta tinha dito que apenas visava obter um «prémio alto e quasi eterno», o «de ser conhecido / por um pregão do ninho meu paterno» (1,10); e não desiste de oferecer os seus dotes artísticos para ser um possível poeta oficial de D. Sebastião:

Pera servir-vos, braço às armas feito; Pera cantar-vos, mente às Musas dada; Só me falece ser a vós aceito, De quem virtude deve ser prezada.

(10,155)

7. O caminho dos heróis para a glória (6,95-99)

Depois de terem avistado terra da Índia e o piloto de Melinde ter dito que «esta é por certo a terra que buscais», Vasco da Gama dá «graças a Deus», por lhe mostrar a terra «por quem tanto trabalho experimentava» (6,92-94). Daí parte o poeta para uma reflexão sobre o esforço dos heróis: «as honras imortais» alcançam-se através da vitória sobre os «perigos», os «trabalhos» e «temores» (6,95). Não alcançam a glória: aqueles que vivem encostados à glória dos seus avós; os que vivem para o luxo dos «leitos dourados» ou vestidos com as finas peles de marta; os que vivem de «manjares», «passeios» e «deleites» que efeminam o espírito, nem os que seguem sempre os apetites (6,95-96). Alcança-se a glória: através do esforço, vestindo armaduras de combate, vencendo «tempestades», suportando o frio e ingerindo o «corrupto mantimento» (6,97); com «forçar o rosto» a manter-se imperturbável nas batalhas, com o desprezo das «honras e o dinheiro» adquiridos sem a «virtude justa e dura» (6,98). Só pelas qualidades enunciadas o homem despreza as baixas intrigas nas relações sociais e atinge dignamente o «ilustre mando», num mundo em que «tiver força o regimento direito» (6,99). Na via da glória estão: o trabalho, a luta, a frugalidade, o sofrimento, o estoicismo, as «honras e dinheiros» com trabalho; na via contrária estão: a

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vaidade do nome, a vida luxuosa, a intemperança, o ócio, o prazer e as «honras e dinheiros» fáceis. Repare-se na acumulação de adjectivos, uns mais descritivos outros mais expressivos que qualificam ou desqualificam os comportamentos para a obtenção ou não da glória. Tal acumulação consegue significar as múltiplas facetas das vias seguidas. Evidentemente que se trata de uma defesa da glória pelo mérito, contra a glória obtida por baixas intrigas sociais; é uma crítica social que se mantém sempre actual.

8. Os «cristãos atrevimentos» de Portugal e as fratricidas lutas dos «míseros cristãos» das nações europeias (7,1-15)

Cumpria-se o objectivo, que já tantos navegadores tinham desejado: «já

se viam chegados junto à terra / que desejada já de tantos fora.» O poeta invoca a nação portuguesa, animando-a, pelo prémio material que já tinha diante, a «terra de riquezas abundante!» (7,1).

no mundo» e na

cristandade, se dedica a «conquistar o povo imundo» (7,2). Exalta os

«Portugueses» porque, embora sendo muito poucos, se dedicam, com o sacrifício de muitas vidas a expandir a «lei da vida eterna» (7,3).

Por contraste, critica os povos da restante cristandade: os «Alemães» por se terem levantado contra o papa, pelo movimento da Reforma causado por Martinho Lutero, o «novo pastor e nova seita» (7,4); o rei Henrique VIII, o «duro Inglês», que se diz rei de Jerusalém, por ter matado duas das suas mulheres e por ter incentivado contra o Papa o anglicanismo, «nova

de Cristandade» (7,5-6); o rei D. Francisco I, «galo indigno», que se

alia a maometanos contra cristãos, e pretende conquistar terras «de cris- tãos» em vez da terra de infiéis (7,6-7). Evidentemente que, quando critica reis, está a criticar, por metonímia, as nações. A Itália é criticada porque o seu povo desbarata a vida «em delícias» (7,8).

Apela aos infelizes «cristãos» a que, juntos, libertem, em cruzada, a Palestina sob o domínio otomano, «fazendo-se famosos pela guerra» (7,9); e exorta-os a usar os progressos da «artelharia» contra a cidade «de Bizâncio e de Turquia»; exorta-os a libertar os «Gregos, Traces, Arménios, Georgianos» da imposição do culto maometano (7,12-13). Volta a apontar-lhes o exemplo dos Portugueses, com os seus «cristãos atrevimentos» em expandir a civilização cristã pela Africa, Ásia e América (7,14). Observem-se as invocações enriquecidas com a expressividade do discurso directo: à «gente forte» (7,1); à «geração de Luso» (7,2); aos

maneira

Exalta-a a ela que sendo «tão pequena parte

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«Portugueses» (7,3-6); ao «Galo indigno» (7,6-7); à «Itália» (7,7-8); aos «míseros cristãos» (7,9-14).

9. Lamentações do poeta (7,78-87)

9.1. O cansaço e o peso da vida!

Em invocação às «Ninfas do Tejo e do Mondego», personificações pátrias das musas, pede ajuda, como quem pede socorro, expondo pelas imagens de «caminho tão árduo» e de navegação «por alto mar», a sua aflitiva situação existencial:

Que, se não me ajudais, hei grande medo Que o meu fraco batel se alague cedo.

(7,78)

Todos os perigos e dificuldades se conjuram contra si: a «fortuna», os desgostos e as enfermidades, os perigos do mar e da guerra, a «pobreza avorrecida», os afastamentos por hospedagens alheias, os altos e baixos «da esperança», os perigos do naufrágio (no rio Mecom?). E ele próprio continuamente segurava «nua mão sempre a espada e noutra a pena» (7,79-

80).

Repare-se: na expressividade das imagens referidas, no valor afectivo da invocação às Ninfas, na valorização das dificuldades actuais, por advérbios, pelos verbos no presente e na duração da vida difícil, expressa em frequentes gerúndios.

9.2. A dolorosa ingratidão dos celebrados na epopeia (7,81-82)

O poeta parece referir-se a uma situação concreta infeliz (o degredo em Macau?). Quando esperava prémios daqueles que andava há tempos celebrando n'Os Lusíadas, o poeta queixa-se amargamente às Ninfas; critica ainda, em desabafos revoltados, aqueles que não sabem premiar quem os imortaliza:

Trabalhos nunca usados me inventaram, Com que em tão duro estado me deitaram!

(7,81)

Que exemplos a futuros escritores, Para espertar engenhos curiosos,

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Pera porem as cousas em memória Que merecerem ter eterna glória! (7,82)

Atente-se na expressividade das anáforas, das exclamações, das frases enumerativas.

9.3. Invocação em súplica solitária às Ninfas (7,83-84)

O texto continua em invocação, uma forma muito apropriada a exprimir as emoções do eu-emissor e os apelos ao tu-receptor. No meio de «tantos males», o poeta sente necessidade e pede às Ninfas que ao menos não fique sem a inspiração literária para poder continuar a realizar-se no canto épico: «pois logo, em tantos males, é forçado / que só vosso amor me não faleça» (7,83). Jura-lhes em contrapartida que apenas usará essa inspiração para imortalizar os que o mereçam. Não glorificará apenas «por lisonja». Não glorificará: os egoístas que anteponham «o seu próprio interesse», «ao bem comum e do seu rei»; os ambiciosos que desejam o poder para o usar ao serviço das suas paixões

(7,83-84).

Nem cantará: qualquer detentor do poder ao serviço do «seu desejo feio», que, como Proteu, se apresente, em variadas e hipócritas figuras, para agradar ao povo; nem aqueles que «com hábito honesto e grave» vieram «a despir e roubar o pobre povo»; têm-se visto aqui alusões à influência dos dois irmãos, e ambos sacerdotes, Gonçalves da Câmara, junto do rei D. Sebastião

(7,85).

Também não elogiará: os que hipocritamente achem justo cumprir-se farisaicamente «a lei do rei» e não achem bem «que se pague o suor da servil gente»; os que avaramente e «com mão rapace» pagam mal os «trabalhos alheios» (7,86). Só irá celebrar os que «aventuraram»:

Por seu Deus, por seu rei, a amada vida. Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,

(7,87)

Aliviado do seu peso interior, espera que «Apolo e as Musas» que o têm acompanhado lhe reforçarão o entusiasmo, para continuar o seu canto. Nesta passagem, o poeta perante as injustiças de que se sente vítima, protesta com veemência, em crítica político-social incisiva, contra os

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poderosos egoístas, ambiciosos, hipócritas e exploradores. Trata-se de uma crítica de carácter universal, mas certamente com destinatários visíveis, ainda hoje plenamente actual.

10. A omnipotência do dinheiro e os seus adoradores (8,96-99)

Vasco da Gama que, por intrigas do Catual, estava retido em terra, acordou com o Catual, cedendo a um mal menor, em mandar vir da armada para terra a «fazenda vendíbil», em troca do seu regresso às naus (8,92). Desta atitude interesseira do Catual parte o poeta para uma demolidora e certeira crítica à omnipotência do dinheiro. O poeta apela a que se veja com inteligência e observação:

Quanto no rico, assi como no pobre, Pode o vil interesse e sede imiga Do dinheiro, que a tudo nos obriga!

(8,96)

Lembra os exemplos-símbolo vindos da literatura greco--romana, em que o culto do dinheiro já era criticado: o rei da Trácia matou Polidoro, filho do rei de Tróia, para ficar com um tesouro; Júpiter, metamorfoseado em «chuva d'ouro», seduziu Dánae filha de Acrísio, rei de Argos; a romana Tarpeia entregou «a alta torre», «a troco do metal luzente e louro» (8,97). A ex- pressividade destes símbolos advém-lhes da multiplicidade de receptores- leitores e consequente acumulação de sentimentos provocados e de ecos multiplicados pelas gerações, no decurso de há 2500 anos. Vale a pena ler e ouvir as duas estrofes que se seguem pela acumulação de situações do poder do dinheiro que assim se torna palpável e evidente. Notem-se as múltiplas actividades humanas citadas, em que o poder corrompe: de guerra, de comportamentos morais, de elaboração científica, legislativa e judicial, de poder do rei, das acções dos consagrados a Deus; o valor extremado das antíteses usadas na transformação de situações positivas nas negativas opostas; as repetições lapidares da multiplicidade de situações; a personificação-imagem do dinheiro e o dinamismo conseguido.

Este rende munidas fortalezas; Faz tredores e falsos os amigos; Este a mais nobres faz fazer vilezas,

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[

]

Este deprava às vezes as ciências, Os juízos cegando e as consciências; Este interpreta mais do que sotilmente Os textos; esta faz e desfaz leis;

[

]

Até os que só a Deus omnipotente Se dedicam, mil vezes ouvireis Que corrompe este encantador, e ilude, Mas não sem cor, contudo, de virtude!

(8,98-99)

11. Nova invocação a Calíope (10,8-9)

Antes de iniciar o canto da Ninfa acerca dos heróis e governadores da Índia, o poeta sentiu e por isso o disse, que se tratava de um assunto nobre e nada plebeu e portanto um assunto digno de estilo sublime e não vulgar. O assunto é mais importante que os cantados por «Iopas» na Eneida de Vergílio ou por Demódoco na Odisseia de Homero. Invoca Calíope tratando-a por «minha», por sua confidente e inspiradora, pedindo-lhe, como recompensa do que vinha escrevendo, que lhe desse «o gosto de escrever», que se sentia a perder (10,8). Sente-se cansado: só lhe restam os anos do «Estio até o Outono»; o Destino torna-lhe «o engenho frio»; os desgostos estão a levá-lo à morte. Note-se: a sugestão de cansaço nas metáforas «Outono-Inverno»; a sugestão tenebrosa da morte pela perífrase do «rio» Lete; a emoção subjectiva do emissor e o tom apelativo dirigido ao receptor. Só pede à «Rainha das Musas» que lhe dê entusiasmo para levar ao fim o seu poema imortalizador da «Nação», que chama «minha» (10,9).

12. As lamentações, as exortações e oferecimento do poeta a D. Sebastião

(10,145-156)

desejado» e

tinham oferecido «à sua Pátria e rei temido» D. Manuel, «o prémio e glória» da imortalização.

Os navegantes tinham acabado de chegar ao «terreno

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Assi foram cortando o mar sereno. Com vento sempre manso e nunca irado, Até que houveram vista do terreno Em que nasceram, sempre desejado; Entraram pela foz do Tejo ameno,

E

a sua Pátria e rei temido e amado

O

prémio e glória dão por que mandou

E

com títulos novos se ilustrou.

(10,144)

Repare-se na redução temporal da viagem de regresso: são apenas quatro pinceladas, uma para toda a viagem, outra para o avistar do «terreno desejado», outra para a entrada no Tejo e a última para a entrega do «prémio e glória» ao rei D. Manuel. Falei em «pinceladas» de propósito, tudo se passa como se fosse um quadro de pintura em que com perspectivas diferentes o poeta tivesse distribuído espacialmente, que não temporalmente, múltiplos e vários

eventos: fizeram a extensa viagem; soprou sempre o «vento

porque sentiram felicidade; avistaram a pátria; lembram as saudades que

dela tinham tido; «entraram» pelo «Tejo

amavam a «sua pátria» e respeitavam o seu «rei», por isso lhe ofereceram a «glória» da viagem; D. Manuel ordenara a descoberta, por isso se ilustrara

com «títulos novos». Foram suprimidos ou desvalorizados os tempos passados do sonho de D. Manuel e futuros dos seus «títulos», o tempo já longínquo da partida da Índia; o tempo da duração das saudades. É como se fosse uma pintura em que o primeiro plano fosse o Gama, em tempo presente, perante o rei a oferecer a «glória». Também a multiplicidade de acções expostas supra, incluídas, várias em sugestões apenas, num único período, foram dadas numa única superfície abarcada por um olhar. Mais uma vez a recorrência da «poesia como pintura» (ut pictura poesis). Em contraste com a felicidade mostrada na estrofe anterior, a última da acção narrada, irrompem fundas as lamentações.

ameno», porque sentiam alegria;

manso»,

12.1. As lamentações (19,145-146)

Em desabafo com a «Musa», o poeta diz que não quer cantar «mais», que o seu entusiasmo se esgotara por ver que vinha «cantar a

com a «Musa», o poeta diz que não quer cantar «mais», que o seu entusiasmo se

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gente surda e endurecida». A pátria não lhe merece nada mais, pois nenhum «favor» dá:

Não no dá a Pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza Dua austera, apagada e vil tristeza. (10, 145)

A pátria já «não tem um ledo orgulho e geral gosto», virado para acções gloriosas (10,146)

voz»; a

expressividade dos adjectivos: «destemperada

da

surda

imagem envergonhada da «Pátria».

Observem-se: a sugestão vivíssima da metonímia de «lira

endurecida,

austera,

apagada,

vil

ledo)»;

enrouquecida

a

sugestão

12.2. Louvor e apelo ao orgulho de D. Sebastião (10,146-148)

Dirigindo-se ao rei, aponta-lhe a excelência dos seus súbditos: «olhai que sois / senhor só de vassalos excelentes!». Continua, em lapidar e globalizante estância, a louvar-lhe os vas- salos:

Olhai que ledos vão por várias vias,

Quais rompentes leões e bravos touros, Dando os corpos a fomes e vigias, A ferro, a fogo, a setas e pelouros,

A quentes regiões, a plagas frias,

A golpes de idolatras e de Mouros,

A perigos incógnitos do Mundo,

A naufrágios, a pexes, ao Profundo!

(10.147)

São «obedientes pelo rei:

e contentes» apenas por se sentirem «olhados»

Demónios infernais, negros e ardentes, Cometerão convosco, e não duvido Que vencedor vos façam, não vencido.

(10.148)

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Observem-se na estrofe 147: a sugestão de movimento e valentia da aliteração dos dois primeiros versos; o valor acrescentado da

comparação vassalos-leões; o tom épico e globalizante, expresso pela acumulação e diversidade de «inimigos»; o aspecto lapidar expresso pelo ritmo imposto pela sequência uniforme dos versos, pela repetição anafórica de «a», pela sequência sincopada de cada verso, pelo assíndeto e repetição de densos substantivos a transmitir ideias

frásicas. Na estrofe 148: veja-se o traço hiperbólico de «demónios «atribuído aos «inimigos». Diz-se às vezes que Camões representa a voz da burguesia, pelo progresso que a acção d'Os Lusíadas trouxe à humanidade, mas, se repararmos na maneira como se dirige ao rei e como louva os vassalos, não há dúvida nenhuma que estamos perante a voz dum «cavaleiro» medieval e absolutamente monárquico; esta característica é permanente, lembremo-nos, por exemplo, dos heroísmos relatados na história portuguesa pelas falas de Vasco da Gama e Paulo da Gama e na guerra ultramarina dos heróis da Índia cantados pela Ninfa.

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12.3. O poeta assume, com autoridade, o papel de conselheiro (10,149-153)

Aconselha o rei: a ser humano e a aliviar os vassalos de «rigorosas leis»,

a elevar a seus conselheiros «os mais exprimentados», porque

conhecem «o como, o quando e onde as cousas» se devem realizar

(10,149).

Aconselha-o a favorecer cada um, segundo a sua função específica:

«os religiosos» dediquem-se à oração e penitência pelo rei e seu reino; estime muito «os cavaleiros» que expandem a fé e o império e vencem

os inimigos e «os trabalhos excessivos» (10,150-151). Aconselha-o: a fazer com que «Alemães, Galos, ítalos e Ingleses» não olhem para Portugal como inferior, o que pelos vistos parecia acontecer; a informar-se apenas com os «exprimentados», porque embora os «cientes» tenham a teoria, só o «experto» tem o conhecimento experimental necessário (10,152). Como exemplo, a reforçar o que dizia dos experimentados, o poeta apresenta o exemplo de Aníbal, chefe militar experimentado e vencedor, que se ria do fdósofo Formião por este insistir em ensinar teoricamente como fazer a guerra! (10,153).

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12.4. A voz do «humilde, baxo e rudo» dispõe-se a celebrar D. Sebastião (10,154-156)

O poeta cai na conta de que está a assumir uma posição de

conselheiro, ele que é «humilde, baxo e rudo

sonhado» pelo rei. No entanto logo se apressa a justificar a sua fala, absolutamente consciente do seu valor:

não conhecido nem

Nem me falta na vida honesto estudo, Com longa experiência misturado, Nem engenho, que aqui vereis presente, Cousas que juntas se acham raramente.

(10.154)

Oferece-se como um homem experiente na guerra e dotado de inspiração épica, para cantar uma previsível façanha digna de ser cantada:

Pera servir-vos, braço às armas feito; Pera cantar-vos, mente às Musas dada; Só me falece ser a vós aceito,

(10.155)

Já se pensava ou falava publicamente nos futuros feitos de D. Sebastião e na sua «inclinação divina», no Norte de África, onde o monte Atlante dele terá medo, ou onde derrotará os Mouros de Marrocos. O poeta dispõe-se então a cantá-lo:

De sorte que Alexandre em vós se veja, Sem à dita de Aquiles ter enveja.

(10, 156)

Observe-se: o valor da atribuição ao «eu» de três adjectivos e dois adjectivos verbais (10,154); a sugestão da repetição anafórica e elipse verbal nos dois primeiros versos (10,155); a recorrente cultura clássica

(10,156).

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12.5. O Sebastianismo

Infelizmente os acontecimentos em África viriam a desembocar na derrota de Alcácer Quibir (1578) e no desaparecimento do rei que ficaria no imaginário português como «o desejado», como o núcleo do mito do Sebastianismo, a salvação através de uma fé visionária, tema com muitos ecos na literatura portuguesa. Vejamos só um exemplo:

D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza Qual a Sorte a não dá. Não coube em mim minha certeza; Por isso onde o areal está Ficou meu ser que houve, não o que há.

Fernando Pessoa, Mensagem

in Para uma leitura de Os Lusíadas de Luís de Camões, Silvério Benedito, editorial Presença