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Filiação e Reconhecimento de Filhos. Cristiano Chaves.

1. Noções Gerais e Históricas sobre a filiação.


Historicamente, a filiação foi vista como a relação juridica travada entre uma pessoa e aqueles que lhe deram origem
dentro de um casamento. Perspectiva biológica. Essa concepção fez com que historicamente o direito filiatorio fosse
baseado na biologia e, mais ainda, no casamento.
Célebre frase de napoleão. A sociedade não tem interesse no reconhecimento de filhos bastardos
Se demonstra hoje em dia incompativel. Descobertas da biotecnologia. Relevancia juridica do afeto. A possibilidade do
reconhecimento das uniões afetivas como entidades familiares. Já não se pode afirmar que a filiação seria a relação
juridica entre uma pessoa e aquelas que lhe deram origem dentro de um casamento
Doutrina argentina. Zanoni. É o vinculo de parentesco no primeiro grau determinado pela praternidade e/ou pela
maternidade.
2. Princípio constitucional de igualdade entre os filhos
Pondo fim a um histórico de desigualdades, a constituição reconheceu a igualdade entres os filhos. 227, §6º, crfb. Até a
CF 88, o sist jur br tratava os filhos em diferentes categorias. Existiam filhos legitimos, filhos ilegitimos, filhos quase
legitimos e os filhos adotivos. Filhos legitimos tinham direitos que não eram reconhecidos aos ilegitimos, os filhos quase
legitimos tinham menos direitos que os legitimos e mais que os ilegitimos e os adotivos não tinham direito algum. A
morte dos pais adotivos extinguia a adoção e reestabelecia o vinculo biologico.
A CF/88 encerrou este histórico de desigualdades. 1) Proibiu designação discriminatórias entre os filhos. Acabou com
a adjetivação de filho. Pouco interessa a origem dos filhos. B) Sepultou a hierarquia entre os filhos Todos tem os mesmo
direitos.
Desatrelou a filiação do casamento.
STJ. Interpretação relativa ao principio da igualdade deve ser sempre liberal e como norma de inclusão
A igualdade constitucional entre os filhos pode ser vista em um duplo aspecto. Esta igualdade é, a um só tempo,
patrimonial e existencial. Patrimonial pois nenhum filho pode ser privado da herança. Existencial = igualdade de origem
(biologico, socioafetivo, casamento ou não, biotecnologica. A origem não importa)
3. Prova da maternidade
Filiação agora é o vinculo determinado pela partenidade e/ou pela maternidade.
Mater is semper certus. O pai pode não ser aquele que se registrou, mas a maternidade é sempre certa.
O direito brasileiro se perfilha a este histórico entendimento. Para nós, a maternidade é presumida pela gestação. Neste
sentido, En. 129 JDC.
Mas hoje, em decorrencia da origem socioafetiva do vinculo de filiação e da biotecnologia, a gestação não é mais
presunção absoluta de maternidade, mas presunção relativa.
O sistema juridico admite ação negatória de maternidade (mae e filho são legitimados) e em ação investigatória de
maternidade (só o filho).
Exs para demonstrar que a presunção decorrente da gestação é relativa e não absoluta.
1- Troca de bebes na maternidade. Ação negatória de maternidade. Plenamente possível. A jurisprudencia de
firmou no sentido de que havera responsabilidade civil objetiva do hospital pela troca de bebes na maternidade
tanto pelos danos materiais quanto morais.
2- Barriga de aluguel. Nome na verdade é gestação por substituição ou em útero alheio. No brasil, a barriga de
aluguel não foi disciplinada por lei, mas foi por uma resolução do Conselho Federal de Medicina – CFM, Res.
1.957/10. É possível. Autoriza os médicos em nosso pais a realizar este procedimento, mas deve obedecer a
alguns requisitos. A) pessoas maiores e capazes (incapazes só com aut. Judic.); b) gratuidade do procedimento;
c) devem ser pessoas da mesma família (mae e filha, irmas, sogra e nora). Se não forem da mesma familia, o
medico precisa da autorização do CRM correspondente. D) finalidade médico-terapêutica, ou seja, só naquelas
mulheres que não podem gestar. Não pode por futilidade
4. Critérios determinantes da paternidade.
No direito brasileiro são 3 critérios
I - O critério da presunção legal (1597, CC. Presunção pater is est quaen justae nupcias demonstrant”);
II - O Critério Biológico. (DNA)
III - O Critério Socioafetivo (art. 1593, CC. Filiação pela convivência)
Não há hierarquia entre eles.O juiz deverá utilizar do criterio mais adequado ao caso concreto. Ex: Adoção à brasileira.
Registrar como seu filho que sabe não ser. Anos depois. Briga com a mulher. Ajuiza ação de negação de paternidade.
Far-se-á uso do critério socioafetivo.
Nova tese desenvolvida no brasil. Teoria tridimensional do direito de família. Pluripaternidade; multipaternidade.
Precursores da tese no brasil = BELMIRO PEDRO WELTER / WALSY RODRIGUES JR. Precedentes no TJ/SP e
TJ/SC. STJ ainda não admite a tese.
O que significa a pluripaternidade? A possibilidade de uma pessoa ter, ao mesmo tempo, 2, ou mais, pais e mães. Não
se trata de filiação homoafetiva. O principio constitucional da igualdade entre os filhos não elimina os criterios possíveis.
Ou é biológico ou é afetivo. Não. Eles dizem que uma pessoa pode ter, ao mesmo tempo, pais biologicos e afetivos.
Detarte, uma pessoa pode ter até 3 pais e até 3 mães. Pais. Biologico, afetivo e ontológico.
O pai biologico seria o pai determinado pela genetica. O pai socioafetivo seria determinado pela convivencia. Pai
ontológico seria o modelo de vida, o exemplo.
4.1 Presunção legal ( Presunção pater isest. Art. 1597)
O pai, presumidademente, é o marido da mãe. Ou seja, significa que o casamento produz como um de seus efeitos, a
presunção de paternidade dos filhos que nascerem da mulher. O CC estabelece que a presunção de paternidade é excluiva
do casamento, logo a UE não teria. O STJ não concorda, REsp 23/PR. REsp 1.194.059/SP. A união estável teria a mesma
presunção de paternidade que o casamento.
Art. 1597, CC. Não só manteve a presunção de paternidade, como veio a ampliá-la. Concepção sexual (biológico) +
concepção artificial (fertilização medicamente assistida.)1
Na concepção sexual. Presume-se a paternidade dos filhos nascidos: I) 180 dias depois do casamento II) perdura até 300
dias depois de sua dissolução.
Concepção artifical. São 3 regras. 1597, III, IV, V.
Na homóloga, mesmo que falecido marido. Será herdeiro? Posição majoritária. Sim, se já estiver concebido na data da
abertura da sucessão; na data da morte do pai. Art. 1798, CC.
Na homóloga, mesmo que se trate de embrião excedentário. São aqueles que sobraram. Serão guardados pelo prazo de
3 anos. Lei nº 11.105/05, art. 5º. STF, 35.010/DF. Art foi considerado constitucional. Findo este prazo, o medico
cientificara o casal interessado e o casal podera tentar implantar de novo ou descartará, encaminhando para pesquisas
com celulas tronco.
Na heteróloga, com prévia autorização do marido. Presunção absoluta de paternidade. Reconhecimento previo de filho.
Se pudesse impugnar seria venire contra factum proprio. (aqui o criterio é socioafetivo)

1
In vitro (na proveta).Trabalha com óvulo e semen no laboratório. Concebe no laboratorio e implanta no corpo da mulher.
Inseminação artificla. Médico trabalha somente com o semen e implanta o semen no corpo da mulher, onde se dará a fecundação.
Ambas podem ser homólogas ou heterólogas. Homóloga = materia genetico do proprio casal. Heteróloga = Material genético de
terceiros.
4.2 Critério Biológico. O Exame de DNA.
Súmula 301, STJ. Lei 12.004/09. Alterou a 8560/92. Criou o art. 2º-A. Não é obrigatório o exame de DNA. Ninguém
pode ser compelido a fazer o exame de DNA, no entanto, se alguém se recusa ao exame, não pode invocar
porteriormente, essa recusa em seu favor.
Súmula 301, STJ. Se o réu se recusar, presume-se a partenidade que se buscava aferir. Presunção relativa.
STJ vem entendendo que só se aplica a presunção de paternidade decorrente da recusa na ação de investigação de
paternidade. Interpretação restritiva, portanto.
Lei 1060/50. Art. 3º, VI. O beneficiario da gratuidade judiciaria abrange as custas do processo, inclusive a realização
do exame de dna.
Alguns Estados não estão custeando o exame. Se o autor é beneficiario de gratuidade de justiça, se o reu não se recusou
a fazer o exame e se o Estado respectivo não se submete ao custeio, e agora? STJ. REsp 557.365/RO. Polêmica. Julga
com base em outras provas. Testemunhais. Basta comprovar existencia de relacionamento casual, habito hodierno que
parte do simples “ficar”.
Exame de dna pode ser determinado de ofício pelo juiz. Tribunal pode determinar conversão do julgamento do recurso
em diligencia se o processo chegou em grau recursal sem determinação do exame de dna. STJ entende assim.
4.3 Critério Socioafetivo
A posse do estado de filho é uma situação fática pela qual aquelas pessoas se tratam reciprocamente e convivem como
se pai e filho fossem. “Pai é quem cria”. A posse do estado de filho é a prova da filiação socioafetiva. RESp 709.608/MS.
A filiação socioafetiva existira em inumeras situações. Impossivel listar todas. Alguns exemplos, porem: adoção, adoção
a brasileira, fertilização heteróloga, filho de criação, etc.
O criterio socioafetivo desvincula o pai do conceito de genitor. O vínculo é determinado pelo afeto. Estabelecido o
vínculo socioafetivo cessam todos os vinculos biologicos. REsp 878.941/DF. EN 341, JDC. É por isso que a posição
do stj, até o momento, de que não cabe a multipaternidade
É hipoteticamente possivel a propositura de uma ação de investigação de paternidade socioafetiva.
Advertência. Fixada a filiação pelo criterio socioafetivo, não se pode esquecer a possibilidade do filho socioafetivo ter
acesso a sua origem ancestral, sua origem biologica. Ação de investigação de origem genetica. Não produzira nenhum
efeito nem familiar, nem sucessório. Art. 48, ECA. STJ, REsp 833.712/RS. Ação personalíssima promovida pelo filho
socioafetivo pra saber quem é seu genitor.
Ação de investigação de origem genetica. Se o réu se recusar a se submeter ao dna, isso não gera nenhum efeito. Não
presume nada. Se ele se recusar ao exame a ação será extinta sem analise de merito por perda superveniente do interesse
de agir.
Rolph madaleno. Se o pai não tiver condições de pagar os alimentos, estes poderão ser pagos pelo genitor. Então a ação
de investigação de origem genética poderia desembocar em uma condenação de pagar alimentos. Carater extremamente
excepcional. Teria que provar que nem os avós nem os irmãos teriam condições de pagar. Tese da paternidade alimentar.
Não dá pra pedir HERANÇA.
5. Reonhecimento voluntário de filhos
Se dá através de um ato espontâneo do pai ou da mãe. Tem natureza de confissão. Pode ser praticado pelos genitores
em conjunto ou separadamente. É irrevogável e irretratável. Ato jurídico em sentido estrito.
É possível que, quem reconhece um filho, judicialmente impugne através da ação negatória de paternidade. Mas é
irrevogável e irretratavel
Relativamente capaz pode reconhecer um filho independentemente da presença de seu assistente. O absolutamente
incapaz não. Este só pode reconhecer um filho com autorização judical ouvido o MP.
Art. 1609, CC. Permite o reconhecimento através de multiplas formas. Pode se dar por instrumento publico, por
instrumento particular, por testamento, por registro em cartorio e em ata de audiência.
Antigamente não podia reconhecer um filho na ata do casamento. Lei que dizia isso foi revogada. Hoje em dia pode.
Era porque o filho ja nasceria ilegitimo.
É possível reconhecer o nascituro como filho. Não precisa esperar nascer. De mesmo modo, pode-se reconhecer o filho
morto. Reconhecimento póstumo; funerário.
Ordenamento estabelece que só é possível reconhecer o filho que ja morreu se o ato de reconhecimento não produzir
nenhum efeito patrimonial.
O ato de reconhecimento voluntário precisa do consentimento da pessoa a ser reconhecida? Art. 1614, CC. Se a pessoa
a ser reconhecida é incapaz o ato é unilateral. Mas se ela é maior e capaz, precisa de seu consentimento, logo é ato
bilateral.
O filho menor pode ser reconhecido sem seu consentimento, mas por outro lado, pode impugnar o reconhecimento nos
4 anos que se seguirem a sua maioridade ou emancipação. Ação de impugnação de reconhecimento. Prazo decadencial
de 4 anos da data da plena capacidade.
6. Procedimento de averiguação oficiosa (Lei nº 8560/92)
Procedimento administrativo iniciado ex officio pelo oficial de cartório. Toda vez que houver registro de nascimento
somente em nome da mãe, sem o nome do pai, ele é obrigado a expedir uma segunda via e pegar da mae os dados do
suposto pai. Remete este procedimento para o juiz. Juiz recebe e designa uma audiencia e tenta obter um reconhecimento
espontâneo deste suposto pai. Se o pai concordar, resolve-se o problema e arquiva-se o procedimento. Se ele
nãocomparecer ou não concordar, ai o juiz remete o procedimento para o MP, ai, então o orgão ajuizara ação de
investigação de paternidade em nome do menor.
O MP não promoverá a ação se a criança ou adolescente registrado já estiver no cadastro de adoção. Vai atrapalhar a
adoção.
A mãe pode não dar informações ao oficial do cartório? Cristiano acha que sim. Direito a intimidade. Mas o filho tem
direito de paternidade. Será caso de nomeação de curador especial p/ o filho. Este vai tentar colher dados para a
propositura da ação. Dificil, mas hipoteticamente possível.
7. Reconhecimento judicial.
Reconhecimento forçado. Se dá através de investigação de parentalidade. Ação de investigação de paternidade é uma
das espécies das ações de investigação de parentalidade.
Ação de investigação de parentalidade. Posso investigar meu pai(paternidade), minha mae(maternidade), meu
avo(avoenga)2, meu irmão(fraternidade).

STF 149: “É imprescritível a ação de investigação de paternidade, mas não o é a de petição de herança.”

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STJ entende que só é cabível investigação avoenga se o pai já estiver morto. REsp 807.849/RJ. REsp 876.434/RS.
Art. 7º, Lei n. 8.560/92: “Sempre que na sentença de primeiro grau se reconhecer a paternidade, nela se fixarão os
alimentos provisionais ou definitivos do reconhecido que deles necessite.”
STJ 1: “O foro do domicílio ou da residência do alimentando é o competente para a ação de investigação de paternidade,
quando cumulada com a de alimentos.”
Resposta do réu. Exceptio plurium concumbentium. Exceção de várias relações. Réu alega que a mae do autor mantiha
relações sexuais com várias pessoas além dele. Se ele o fizer, ele tem o onus da prova. Se se recusar ao exame, presume-
se a paternidade
A eventual revelia do reu não conduz a presunção de veracidade dos fatos. A revelia será decretada sem seus efeitos.
Ar. 320, II, CPC. Ações que tratam de direitos indisponiveis, Autor continua tendo que produzir provas.
Sentença fixará alimentos mesmo que não tenham sido requeridos. Serão devidos a partir de quando? Sum 277, STJ.
Serão devidos a partir da citação. Se a sentença fixar alimentos, o recurso interposto será recebido em diferentes efeitos.
O recurso contra o reconhecimento, será recebido no duplo efeito, no que diz respeito aos alimentos, serárecebido
meramente no devolutivo. Desse modo, os alimentos já podem ser executados da sentença.
STJ e STF flexibilizaram a coisa julgada nas ações filiatórias. REsp 226.436/PR e RE 363.889/DF. Estabeleceram que
esta coisa julgada está submetida a clausula secundum eventum probationis. Só transita em julgado a prova
efetivamamente produzida. Dessa forma é possível repropor a ação com base em prova nova.