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Direito Processual Civil I Filipa Lemos Caldas Subturmas A2, A3, A5 e A6

Algumas questões relevantes sobre os pactos de jurisdição previstos no art. 23.º do Regulamento (CE) n.º 44/2001

Estes apontamentos não dispensam o estudo dos manuais, artigos e outras fontes bibliográficas recomendadas, sendo apenas notas soltas sobre a matéria para organizar o estudo.

Estes apontamentos foram pensados para os alunos das subturmas 2, 3, 5 e 6, para complementar e tendo em conta o que já foi dado (e ainda será) nas suas aulas práticas.

Estes apontamentos não pretendem esgotar a matéria dos pactos de jurisdição, nem se pode retirar a conclusão de que só é preciso saber o que deles consta. No entanto, estão aqui expostas algumas das questões mais relevantes da matéria.

1- A autonomia da vontade no âmbito da competência internacional

Na determinação do tribunal internacionalmente para dirimir um litígio plurilocalizado, a escolha das partes tem vindo a ganhar uma enorme importância, principalmente ao nível do comércio comunitário e internacional.

Assim, é cada vez mais comum a inclusão de pactos de jurisdição nos contratos internacionais, pelo que é essencial conhecermos esta figura, que será muito útil a qualquer jurista na sua vida prática.

2- Noção de pacto de jurisdição

Um pacto de jurisdição é uma convenção pela qual as partes definem como internacionalmente competentes os tribunais de um Estado, em princípio diverso dos competentes por força das regras de competência internacional aplicáveis (sejam estas internas, convencionais ou comunitárias).

Os pactos de jurisdição podem ser, da perspectiva portuguesa:

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a. Privativos aqueles que submetem à jurisdição estrangeira uma causa para a

tribunais

qual,

portugueses;

segundo

as

regras

aplicáveis,

seriam

competentes

os

b. Atributivos aqueles que submetem à jurisdição portuguesa uma causa para a qual, segundo as regras aplicáveis, seriam competentes os tribunais de uma jurisdição estrangeira, isto é, para a qual os tribunais portugueses seriam incompetentes.

Note-se que um pacto de jurisdição se qualifica como privativo ou atributivo conforme a perspectiva que se adopte. Se adoptamos a perspectiva portuguesa, os privativos retiram jurisdição aos tribunais portugueses e os atributivos atribuem jurisdição aos tribunais portugueses. Se adoptarmos a perspectiva de outro país, o mesmo pacto já poderá ter uma qualificação diferente.

Isto será extremamente relevante ao nível das consequências da violação de um pacto de jurisdição.

3- Pactos de jurisdição e pactos de competência

Enquanto os pactos de jurisdição determinam a competência internacional dos tribunais para dirimir um determinado litígio, os pactos de competência determinam a competência interna.

Na ordem jurídica portuguesa, os pactos de competência só podem incidir sobre competência territorial, e não em razão da hierarquia, matéria, valor ou forma de processo.

Quanto à relação entre estes dois pactos, ver questão 9.

4-

A importância dos pactos de jurisdição na aplicação do Regulamento (CE) n.º 44/2001

Recorde-se o que falámos nas aulas acerca dos âmbitos de aplicação do Regulamento (CE) n.º 44/2001, em especial quanto ao âmbito espacial ou subjectivo:

em regra, o Regulamento só é aplicável quando o réu tiver domicílio no território de um Estado-Membro, nos termos do n.º 1 do art. 4.º.

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Porém, esta regra não se aplica quando se está perante competências exclusivas do art. 22.º ou competência convencional do art. 23.º (como refere a parte final do art. 4.º). Assim, quando se preencha o âmbito de aplicação do art. 22.º ou do art. 23.º, ainda que o réu não tenha domicílio num Estado-Membro, o Regulamento é aplicável.

Temos então de saber quando é que se considera que a previsão do art. 23.º está preenchida.

5- Qual o âmbito de aplicação do art. 23.º?

Há três requisitos para aplicarmos o art. 23.º:

1-

Pelo menos uma das partes deve ser domiciliada num Estado-Membro.

Pode ser o autor ou o réu (até porque quando se celebra o pacto de jurisdição não se sabe que posição processual as partes vão ocupar!);

-

A parte pode ter vários domicílios, bastando que um deles seja num Estado- Membro (tal como no art. 4.º);

-

Quando nenhuma das partes tem domicílio num Estado-Membro há ainda uma questão a ter em conta, que veremos no ponto 10;

-

-

Discute-se na doutrina quando se deve aferir o critério do domicílio (pois

desde o momento em que o pacto é celebrado, até ao momento em que o litígio é submetido ao tribunal, o domicílio das partes pode alterar-se). Autores

como KROPHOLLER defendem que se deveria considerar o momento da

propositura da acção. MIGUEL TEIXEIRA DE SOUSA e DÁRIO MOURA VICENTE

defendiam para a Convenção de Bruxelas (que continha um artigo idêntico) que basta considerar o momento da celebração do pacto. A letra do art. 23.º, o princípio da boa fé e o princípio da estabilidade dos compromissos contratuais parecem apontar neste último sentido, mas cada aluno poderá defender a sua posição.

2-

As partes devem designar um tribunal ou tribunais de um Estado-Membro.

Fundamento lógico: a UE não pode impor as suas normas a Estados terceiros;

-

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- O TJCE, quanto a uma norma semelhante na Convenção de Bruxelas, já

admitiu que as partes pudessem atribuir competência a vários Estados- Membros (caso Meeth c. Glacetal, de 1978). O TJCE atribui uma grande liberdade à autonomia das partes.

- Se as duas partes tiverem domicílio no mesmo Estado-membro, o pacto de

jurisdição pelo qual atribuam a esse Estado-Membro competência internacional só se integra no art. 23.º se derrogar a competência de outros Estados-

Membros (que a teriam, por exemplo, nos termos dos arts 5.º ss do Regulamento).

- A doutrina discute se as partes se poderão limitar a excluir competências que resultassem do Regulamento. Por exemplo, se o art. 2.º atribui competência à jurisdição francesa, e o art. 5.º à jurisdição alemã, se o pacto se limitasse a exclui a competência dos tribunais franceses, estaria implicitamente a escolher os alemães. O TJCE já considerou que sim (Ac. Anterist, de 1986). (o Prof. MIGUEL TEIXEIRA DE Sousa parece não concordar com esta posição, mas terei de confirmar)

- Atenção: não basta, por exemplo, dizer que o tribunal competente é o que certa parte escolher. Tem mesmo de definir tribunais ou jurisdições.

- Segunda chamada de atenção: as partes podem escolher o tribunal que

quiserem! Simplesmente, para se aplicar o art. 23.º do Regulamento, têm de ter escolhido o tribunal de um Estado Membro.

3- O conflito deve ser plurilocalizado

- Este requisito não resulta do art. 23.º, e não é consensual entre a doutrina e jurisprudência;

- A questão é a seguinte: se a situação controvertida for meramente interna

(isto é, não tiver elementos de conexão com outras ordens jurídicas) as partes

podem conferir-lhe internacionalização, escolhendo os tribunais de outro Estado-Membro, e passando a aplicar-se o Regulamento, em vez das regras

portuguesas? MIGUEL TEIXEIRA DE SOUSA e DÁRIO MOURA VICENTE, quanto à

Convenção de Bruxelas, defenderam que isso não seria possível, pois permitiria “uma internacionalização artificial do litígio e a subtracção das partes às normas imperativas potencialmente aplicáveis”. Um Acórdão do STJ de

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2003 parece apontar no mesmo sentido, e assim também MOTA CAMPOS. O Prof. MIGUEL TEIXEIRA DE SOUSA nas suas novas lições não aborda esta questão, pelo que ainda tentarei compreender se mantém esta posição ou se a alterou. No entanto, podem sempre citar esta posição de 1997.

- SOFIA HENRIQUES defende que nem todos os elementos de conexão a outras

ordens jurídicas são relevantes para considerar se o conflito é plurilocalizado. Seriam, por exemplo, o lugar de cumprimento da obrigação, o lugar de

celebração do contrato, etc. Mas exclui a nacionalidade, por entender que o Regulamento lhe retira a relevância, não sendo possível considerar a diferença de nacionalidade das partes um elemento de estraneidade (lembram-se desta expressão?) relevante. No entanto, o Prof. MIGUEL TEIXEIRA DE SOUSA nada diz quanto a esta questão, pelo que parece aceitar qualquer elemento de conexão;

- Atenção: desde que o conflito seja plurilocalizado, a jurisdição escolhida pelas partes pode ser uma que não tenha qualquer conexão com a situação controvertida! (veremos depois que a regra do CPC é diferente). Isto é, se a situação tiver conexão com a Alemanha, Portugal e Espanha, as partes podem escolher o Reino Unido. Tem é de haver elementos de conexão com o estrangeiro, não pode ser puramente interna.

- Segunda chamada de atenção: as partes podem celebrar pactos de jurisdição

quando as situações são puramente internas! Só que não se aplica a esse pacto o art. 23.º do Regulamento, mas sim as regras internas de cada Estado (ou outras regras convencionais, se existirem).

6- Requisitos de validade dos pactos de jurisdição

Para além disto, em termos de validade o art. 23.º exige que:

1- O pacto de jurisdição tenha uma forma especial.

- Estas exigências de forma não podem ser afastadas pelas partes;

- Se o pacto constar de cláusulas contratuais gerais, o TJCE considerou que é necessário que o contraente com diligência normal constatasse a sua existência (Ac. Estasis Salotti di Colzani c. Rüwa, de 1976);

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- Quanto à “confirmação escrita” (art. 23.º/1/a)), esta considera-se satisfeita se, depois do acordo verbal, a confirmação escrita for recebida pelo outro contraente e este não formule qualquer objecção à mesma (não tem de haver uma confirmação escrita das suas partes!).

2-

O pacto indique quais os litígios que serão objecto de um processo ou qual a relação jurídica que está na origem desses litígios.

-

Não é válida a convenção pela qual as partes atribuam competência a um

tribunal para dirimir todos os litígios que as venham a opor. Pelo contrário, tem de se delimitar bem a relação jurídica subjacente (por exemplo, todos os litígios

resultantes de um certo contrato).

3-

O pacto não derrogue certas competências (art. 23.º/5).

-

Não pode derrogar competências do art. 22.º, por serem exclusivas;

- Não pode derrogar regras especiais de competência, com requisitos mais exigentes, em matéria de seguros (13.º), contratos celebrados por consumidores (17.º) ou matéria laboral (21.º), por se destinarem a proteger a parte mais fraca.

Assim, num caso prático, faz sentido averiguar qual a jurisdição competente pela seguinte ordem (como vimos na aula):

-

 

1.º - 22.º;

2.º- 13.º, 17.º ou 21.º, conforme a matéria;

3.º- 23.º;

4.º- 2º e 5.º ss.

O art. 25.º determina que se o pacto violar o art. 22.º, o tribunal se deve declarar incompetente oficiosamente (isto é, sem necessidade de alegação pelas partes);

-

7-

A nulidade do contrato em que se insere o pacto de jurisdição

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Se o pacto de jurisdição se inserir num contrato, sendo apenas uma das suas cláusulas, a nulidade do contrato não afecta a validade do pacto de jurisdição. Foi isso que o TJCE decidiu no Ac. Benincasa c. Dentalkit, de 1997.

8- Quais os efeitos dos pactos de jurisdição?

Os pactos de jurisdição têm, em regra, dois efeitos: atributivo de competência a um tribunal, e derrogatório de competência a todos os outros.

De facto, o art. 23.º determina que, salvo se as partes convencionarem o contrato, a atribuição de competência é exclusiva. Isto significa que se as partes escolhem os tribunais portugueses, estão a escolher apenas os tribunais portugueses, retirando a competência a todos os outros tribunais que, ainda que pelas regras do Regulamento fossem competentes, deixam de o ser.

No entanto, as próprias partes podem definir que pretendem apenas “acrescentar” uma jurisdição àquelas que o Regulamento já considerava competentes. Assim, a competência não será exclusiva, mas sim alternativa, podendo o autor (que poderá ser qualquer uma das partes, pois quando o pacto é celebrado ainda não há litígio) decidir onde propõe a acção. É, ainda possível, na opinião de alguns autores, como MIGUEL TEIXEIRA DE SOUSA as partes acordarem que uma delas só pode propor a acção num tribunal, e que a outra tem esta competência alternativa que referimos.

Ainda quanto a outros efeitos, veja-se as questões 9 e 10.

9- Relações possíveis entre pactos de jurisdição e de competência

As convenções das partes acerca da competência podem assumir uma de três formas:

a.

Determinam apenas a jurisdição competente, isto é, apenas a competência internacional (ex. “tribunais portugueses”). Nestes casos, cabe à lei desse Estado-Membro (no nosso caso, CPC e LOFTJ) determinar qual o tribunal concretamente competente a nível interno.

b.

Determinam

apenas

o

tribunal

concretamente

competente,

isto

é,

a

competência territorial interna (ex. “tribunal de comércio de Lisboa”). Nestes casos, considera-se que o pacto de jurisdição pode surgir de forma implícita num pacto de competência. Isto é, se num conflito plurilocalizado, as partes

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indicarem como tribunal competente o tribunal de Braga, resulta implicitamente da sua vontade um pacto de jurisdição a favor nos tribunais competentes.

Assim, a convenção das partes vale como pacto de jurisdição, ao atribuir competência internacional aos tribunais portugueses, e como pacto de competência, por designar o tribunal territorialmente competente a nível interno. Aceitaram já esta modalidade, em Portugal, por exemplo, um Ac. TRLx de 2004 e um Ac. STJ 1991.

c. Determinam expressamente a competência internacional e interna. Neste caso, há simultaneamente um pacto de jurisdição e um pacto de competência.

Das hipóteses b. e c. retira-se que o pacto de jurisdição e de competência podem surgir em conjunto. Ao pacto de jurisdição, aplica-se o art. 23.º do Regulamento. Ao pacto de competência não se poderá aplicar o Regulamento, pois este não tem nenhuma norma autónoma para regular estas convenções. Por sua vez, as ordens jurídicas internas contém, normalmente, regras para regular estas figuras (em Portugal, os arts. 99.º - pacto de jurisdição - e 100.º CPC pacto de competência).

Assim, levanta-se a questão: perante um pacto de jurisdição que contém um pacto de competência (b. e c.) aplicamos apenas o art. 23.º, que permite que as partes convencionem o tribunal ou os tribunais do Estado Membro, e retiramos dele a competência internacional e interna, ou aplicamos o art. 23.º à parte em que se determina a competência internacional, e o art. 100.º CPC (no caso português), na parte em que determina a competência interna?

A resposta a esta questão é muito relevante porque os requisitos do art. 100.º são muito apertados: só aceitam a convenção de competência territorial, e mesmo assim nem toda!

Assim, podemos imaginar três tipos de resposta:

1-

Se o pacto for válido, pelo art. 23.º do Regulamento, determina-se não só a competência internacional, mas também interna, sendo competente (a nível territorial, hierárquico, material, valor e forma de processo) o tribunal escolhido pelas partes;

2- Se o pacto for válido, pelo art. 23.º do Regulamento, determina-se não só a competência internacional mas também a territorial interna, sendo que a matéria, hierarquia e forma de processo ficariam excluídos do art. 23.º, devendo ser determinados pela lei interna (esta tese faria sentido com base no

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próprio Regulamento, sendo que tanto o art. 2.º como os arts. 5.º ss. determinam não só a competência internacional, mas também interna territorial, ainda que nunca a competência em razão da hierarquia e matéria);

3-

O art. 23.º do Regulamento só tem vocação para determinar a validade do pacto de jurisdição, sendo que o pacto de competência terá de passar pelo crivo do art. 100.º CPC.

A segunda posição já foi adoptada num Ac. RLx em 2009. A terceira posição é defendida por KROPHOLLER e SOFIA HENRIQUES. Ainda não sei qual a opinião do Prof.

MIGUEL TEIXEIRA DE SOUSA.

10- O que acontece se nenhuma das partes for domiciliada num Estado- Membro, mas celebrar um pacto de jurisdição em que atribui competência aos tribunais de um Estado-Membro?

Como vimos anteriormente, se nenhuma das partes for domiciliada num Estado- Membro não se aplica o art. 23.º, e não se aplica sequer o Regulamento (excepto se tivermos perante uma situação do art. 22.º).

No entanto, se a acção vier a ser proposta nos tribunais de um Estado-Membro, o tribunal desse Estado deverá analisar a sua competência à luz das suas regras de competência internacional. Só depois de este se declarar internacionalmente incompetente é que outro Estado-Membro poderá conhecer do litígio. É o que nos diz o art. 23.º/3.

Assim sendo:

a. O tribunal do Estado-Membro que foi escolhido pelas partes, e onde foi proposta a acção, deve primeiro ver se a situação não preenche o art. 22.º do Regulamento, e, se a resposta for negativa, deve então apreciar a sua competência internacional de acordo com as regras da sua lei nacional sobre pactos de jurisdição;

b. Se uma das partes propuser uma acção no tribunal de um Estado-Membro não escolhido pelas partes, esse tribunal não deve conhecer o litígio, até que o tribunal escolhido pelas partes no pacto de jurisdição se declare incompetente. Se este já o tiver feito, deverá então apreciar a sua competência internacional de acordo com as regras da sua lei nacional sobre pactos de jurisdição.

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11- O que é um pacto tácito de jurisdição?

O pacto tácito de jurisdição vem previsto no art. 24.º do Regulamento.

Assim, se o autor propuser uma acção num tribunal que, de acordo com as regras do Regulamento (arts. 2.º, 5.º ss ou 23.º), não fosse competente, mas o réu comparecer em juízo e não arguir a incompetência do tribunal, este torna-se competente para conhecer do litígio (excepto, mais uma vez, se for um dos casos do art. 22.º).

Podemos, então, concluir que só não se forma pacto tácito de jurisdição quando o réu compareça em juízo para arguir a incompetência (ou quando houver competência exclusiva do art. 22.º).

No entanto, o TJCE tem considerado que também não se forma pacto de jurisdição se

o réu contestar a competência do tribunal e, subsidiariamente, apresentar a sua defesa quanto ao mérito (para não correr o risco de o tribunal se considerar competente, e ficar na situação de não se ter defendido).

Esta prorrogação tácita da competência funda-se na presunção de que o réu, ao comparecer perante o tribunal incompetente sem arguir a incompetência desse tribunal, o demandado aceita tacitamente ser julgado por essa jurisdição.

Quando se aplica o art. 24.º? Têm, obviamente, de estar preenchidos os âmbitos material e temporal de aplicação do Regulamento.

É, no entanto, controverso, o âmbito espacial: é necessário, como no art. 4.º, o réu ter domicílio num Estado-Membro, ou basta, como no art. 23.º, uma das partes? Na doutrina estrangeira, há quem defenda qualquer uma destas soluções, como há ainda quem defenda que nenhuma das partes necessita de ter domicílio num Estado- Membro.

Em Portugal, MIGUEL TEIXEIRA DE SOUSA e DÁRIO MOURA VICENTE defenderam, no

âmbito na Convenção de Bruxelas (que tem um artigo equivalente), que o pacto tácito de competência tem de preencher os mesmos requisitos que o art. 23.º, pelo que só se verifica se uma das partes tiver domicílio num Estado-Membro.

No seu Relatório de Mestrado sobre o tema, SOFIA HENRIQUES defende que a solução deve ser diferente conforme a competência que se afasta resulte das regras dos arts. 2.º e 5.º ss. do Regulamento, ou de um pacto de jurisdição. Assim, se o tribunal

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competente seria, de acordo com o art. 5.º/2, um tribunal espanhol, e estamos a avaliar se o pacto tácito se formou num tribunal alemão, a validade desse pacto tácito depende de o réu ter domicílio num Estado-membro (pois é esse o requisito que o art. 5.º/2, que está a ser afastado, exige, por aplicação do art. 4.º). Pelo contrário, se o tribunal competente seria espanhol, por efeito de um pacto de jurisdição, válido pelo art. 23.º, e estamos a avaliar se se formou um pacto tácito face a um tribunal alemão, a validade desse pacto tácito já só exige que alguma das partes tenha domicílio num Estado-Membro (pois é esse o requisito que o art. 23.º, que está a ser afastado, exige).

12- Quais as consequências da violação de um pacto de jurisdição?

Quando um pacto de jurisdição é violado ou seja, quando o autor propõe uma acção num tribunal diferente do escolhido pelas partes - pode acontecer uma de duas coisas:

a. O réu comparece e não o alega, e estão reunidas as condições para se formar um pacto tácito, como dissemos no ponto 11 art. 24.º;

b. O réu comparece e não o alega (ou nem sequer comparece), mas não estão reunidas as condições para se formar um pacto tácito, pois estamos perante uma das situações do art. 22.º, logo, o juiz declara-se oficiosamente incompetente art. 25.º;

c. O réu comparece e não o alega, mas não estão reunidas as condições para se formar pacto tácito, por não estar preenchido o âmbito espacial do Regulamento aplica-se, naturalmente, a lei nacional;

d. O réu não comparece, logo, não se forma pacto tácito (art. 24.º), mas não se aplicam os arts. 25.º e 26.º aplica-se a lei nacional (parece ser esta a posição do Prof. MIGUEL TEIXEIRA DE SOUSA, mas terei de confirmar);

e. O réu comparece e alega-o, e o tribunal declara-se incompetente;

Em Portugal, a violação da competência convencional, isto é, que resulta da vontade das partes, tem como consequência a incompetência relativa art. 108.º e 101.º - que gera, neste caso, a absolvição do réu da instância (art. 111.º/3). Note-se, que, esta incompetência não é de conhecimento oficioso (art. 110.º), sendo esta a solução das alíneas c. e d.

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13- Conjugação do art. 23.º do Regulamento com as regras internas sobre pactos de jurisdição

O art. 99.º CPC regula a relevância da vontade das partes na determinação da competência internacional. Este artigo só se aplica quando o art. 23.º do Regulamento não se aplicar, isto é, quando os pressupostos e requisitos que vimos anteriormente não se verificarem.

Como já explicámos anteriormente, os pactos de jurisdição podem ser atributivos ou privativos de jurisdição.

Do art. 99.º, ao contrário do art. 23.º, resulta que, salvo convenção em contrário, a competência do tribunal designado pelas partes é concorrente com a daqueles cuja competência resulta da lei. Na prática, isto significa que, se as partes não disserem que atribuem competência exclusiva a uma jurisdição que não a portuguesa (por exemplo, aos tribunais espanhóis), e da aplicação das regras de competência internacional resultar a competência internacional dos tribunais portugueses, se considera que tanto os tribunais espanhóis como os portugueses são competentes para dirimir o litígio.

Do art. 99.º/1 resulta que as partes só podem celebrar pactos de jurisdição se a relação controvertida tiver conexão com mais do que uma ordem jurídica (corresponde ao requisito de internacionalização que abordámos quanto ao art. 23.º). Quando o litígio é puramente interno não se podem celebrar pactos de jurisdição.

Requisitos de validade do pacto (n.º 3):

a. Disponibilidade do objecto;

b. Respeito pela competência exclusiva dos tribunais portugueses (65.º-A);

c. Aceitação da competência pela lei do tribunal designado quer quando a competência atribuída é exclusiva quer quando é concorrente;

d. Existência de um interesse sério de uma das partes, e inexistência de um interesse sério para a outra (v. também art. 19.º/g) LCCG). De acordo com ABÍLIO NETO e o STJ, esse interesse não pode ser uma manifestação de oportunismo, capricho ou mera comodidade.

e. Forma escrita ou verbal com confirmação por escrito (também n.º 4);

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f. Referir expressamente o tribunal ou tribunais competentes sendo que se aplica inteiramente aqui o que anteriormente foi dito sobre a coincidência de pactos de jurisdição e de competência (ponto 9);

Como já referimos anteriormente, a violação de competência internacional convencional determina a incompetência relativa do tribunal (108.º e 101.º), sendo uma excepção dilatória (494.º/a) e 493.º/2), que conduz à absolvição do réu da instância (288.º/e) e 111.º/3), mas não é de conhecimento oficioso (110.º e 495.º), só podendo ser arguida pelo réu no prazo fixado para a contestação (109.º) e conhecida pelo tribunal até ao despacho saneador (110.º/3).

Assim, na medida em que não há conhecimento oficioso da incompetência por violação de pacto de jurisdição, pode formar-se pacto tácito.

14- Qual a relevância da distinção entre pactos atributivos ou privativos de competência?

A distinção é relevante porque o regime em caso de violação de cada um deles é distinto.

A violação de que falámos no final do ponto 13 é a violação de um pacto privativo de competência, que se dá quando um pacto de jurisdição retirava a competência à jurisdição portuguesa e, ainda assim, a acção foi proposta nos seus tribunais. Assim, os tribunais portugueses têm de apreciar a sua competência para dirimir aquele litígio, sendo que só podem conhecer da violação do pacto de jurisdição que lhes retirava a competência se o réu a alegar na contestação, como referimos.

Já na violação de um pacto atributivo de competência à jurisdição portuguesa, a violação ocorre precisamente porque a acção é proposta num tribunal estrangeiro. Assim, os tribunais portugueses não têm oportunidade de conhecer dessa excepção dilatória, porque a acção não corre nos seus tribunais. Deste modo, a violação do pacto atributivo só será relevante em sede de revisão de sentença estrangeira em Portugal (que os alunos à partida não têm de conhecer).