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O sofrimento de mães cujos filhos cometeram suicídio

Julia Joergensen Schlemm 1 Maria Virgínia Filomena Cremasco 2

O presente trabalho tem como objetivo compreender o sofrimento psíquico de mães que perderam seu filho/ sua filha pelo suicídio. Para tanto serão usadas vinhetas das falas destas mães, as quais foram retiradas de entrevistas, atendimentos clínicos psicológicos e/ou de comentários realizados no grupo de apoio ao luto Amigos Solidários na Dor do Luto que ocorre semanalmente na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Estas falas serão entrelaçadas por uma leitura psicanalítica do tema.

O suicídio

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2006), as mortes por suicídio anualmente são maiores que as mortes causadas por todos os conflitos mundiais combinados. Esta organização estima que aproximadamente um milhão de pessoas tenha cometido suicídio em 2000 colocando o suicídio entre as dez causas de morte mais freqüentes em muitos países do mundo. Este número teve um aumento de 60% nos últimos 50 anos. Além dos atos bem sucedidos de suicídio, a OMS (2006) acredita que neste mesmo ano aproximadamente dez a vinte milhões de pessoas tentaram suicidar-se. Dessa forma, percebe-se o alcance do suicídio em todo o mundo o que o coloca como questão de

1 Formada em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) (2013). Mestranda em Psicologia Clínica da Universidade Federal do Paraná. Desenvolve pesquisa sobre luto sob orientação da Profª Maria Virginia Filomena Cremasco; atua na clínica psicanalítica. Endereço eletrônico: schlemm.julia@gmail.com

2 Doutora em Saúde Mental (Unicamp/2002), Pós-doutorado no Centre d´Études en Psychopathologie et Psychanalyse (Paris VII/2009-2010). Professora no Departamento e Mestrado em Psicologia da UFPR, Chefe da Unidade de Programas e Projetos da Pró Reitoria de Extensão e Cultura da UFPR, Diretora do Laboratório de Psicopatologia Fundamental da UFPR (CNPq), organizadora do livro: Trauma, Traços e Memória, Curitiba, CRV, 201e, entre outros. Membro da Associação Universitária de Pesquisa em

Psicopatologia Fundamental.Endereço eletrônico: mavicremasco@hotmail.com

saúde pública para a Organização Mundial da Saúde e para o Ministério da Saúde do Brasil.

O suicídio, de acordo com Roudinesco e Plon (1998), era

considerado antes do século XV como um crime voltado para o próprio sujeito contrário à concepção atual que entende o suicídio como conseqüência de uma patologia. Historicamente, na Idade Média o suicídio era visto pela igreja católica como um insulto e um pecado. Atualmente ainda é considerado um pecado, mas a igreja não realiza mais execuções como fazia antigamente permanecendo em silêncio,

assim como o faz o estado. No entanto, nem sempre nem em todas as culturas o suicídio é visto como um pecado. Como exemplo podem ser citados os suicídios cometidos pelos gregos e romanos e atualmente os dos "homem-bomba", todos estes vistos como atos honrosos.

Já para Freud (1917) entende-se a partir do artigo "Luto e

Melancolia" que o suicídio é um desejo primitivo inconsciente. É um desejo de matar voltado para o próprio indivíduo. O suicídio ocorre quando o ego se a - sujeita, não é mais sujeito de suas ações e deixa-se tomar como objeto. Por isso o suicida não atende ao instinto de preservação de vida, tornando possível o matar-se ou deixar-se morrer. Para Freud (1917), o suicídio seria, então, decorrente de uma melancolia, uma patologia: o ego fica completamente à mercê de um superego super crítico que o julga negativamente como objeto. Contudo, mesmo tão presente na sociedade, pouco se fala sobre o suicídio. Por envolver a decisão de tirar a própria vida, algo de tão sagrado como propaga a igreja, não é bem visto pela sociedade. Assim, é considerado um estigma, um tabu e por isso evita-se pensar e falar sobre este ato. O silêncio da religião e do estado ajudam a criar e a reforçar a imagem de tabu deste tema. Pode-se observar estas afirmações na fala de uma das mães entrevistadas que perdeu seu filho pelo suicídio:

”O suicídio tem um estigma de covardia de ter tirado a própria vida. É um tabu."

"A Igreja Católica já mudou um pouco o conceito, mas antes [quem se suicidasse] não podia nem ser enterrado no cemitério. E o espiritismo diz que a alma fica penando.".

Como diz Freud (1914) em seu texto "Totem e Tabu" o tabu é algo inabordável que se mostra nas proibições que o envolvem. É, segundo o autor, inabordável, pois envolve os desejos mais primitivos dos seres humanos: o incesto e a morte - vontade de matar. Estes desejos, no entanto, não podem ser colocados em prática como aponta em o "Mal- Estar na Civilização" (1930). Eles impossibilitam a vida em sociedade e, portanto, a civilização a favor de Eros, pulsão de vida integradora, "exige" sua repressão. É o superego do sujeito, a lei internalizada, que realiza esta repressão. Esta instância psíquica não apenas reprime estes desejos como também critica o que acredita ser seu criador, o ego. Este é julgado erroneamente, pois na verdade estes desejos são originários do id. E é deste julgamento do superego ao ego que se origina o sentimento de culpa. Todavia, como estes desejos foram reprimidos, resta ao sujeito apenas o sentimento de culpa sem conhecimento de sua causa (FREUD,

1923).

Como se percebe não é apenas o conflito entre ego e superego que causa a culpa, mas também os sentimentos hostis de desejos de morte voltados às pessoas amadas. Assim, Freud (1930) coloca este conflito e este sentimento como causa ontogenética da culpa enquanto que o assassinato do pai da horda por seus filhos é apontado como origem filogenética (FREUD, 1914). Conseqüentemente, o suicídio de um filho gera uma grande culpa em uma mãe, pois através deste ato os desejos inconscientes uma vez sentidos por esta, são colocados em prática justamente pela pessoa a quem amou tanto e, ao mesmo tempo, ambivalentemente, se desejou a morte:

"Me sinto culpada da morte de meu filho. Será que ele achou que não gostávamos mais dele?"

Fácil perceber que o suicídio remete aos desejos recalcados e traz

à tona algo de que se repudia: o assassinato de si mesmo, a agressividade voltada ao próprio sujeito. As mães participantes do grupo Amigos Solidários na Dor do Luto em sua unanimidade consideram que não há dor maior que a perda de um filho/uma filha, mas acreditam que uma dor ainda maior é causada por um filho que cometeu suicídio. Não é de duvidar que uma mãe que perde um filho por este tipo de morte pense o mesmo:

"E tem

a coisa principal disso tudo, que é do tipo de morte

[suicídio]

que é muito diferente de um outro tipo de morte!"

Vemos que a dor em perder um filho por suicídio é ainda mais superlativa com a incidência da culpa que as escraviza melancolicamente numa posição de não aceitação desta perda.

Luto ou Melancolia?

Freud (1917) em seu texto "Luto e Melancolia" mostra o caminho para compreensão dos sofrimentos que a perda de uma pessoa querida pode causar. Sofrimentos estes que denomina de luto ou melancolia. A partir deste sentimento de que a maior dor é a perda de um filho pelo suicídio fica a pergunta de que sofrimento se trata nesta perda: luto ou melancolia? Para Freud (1917) o luto é colocado como um processo de reação

à perda real de um ente querido como, por exemplo, a morte de um filho, enquanto que a melancolia também pode se referir à perda ideal de um objeto amado. Dessa forma, há diferenças entre os processos. O luto é considerado uma reação necessária e não-patológica, já a melancolia uma reação unicamente patológica. Assim o é, pois, diferentemente do luto, não é possível explicar o que está absorvendo o ego o que leva a um processo de sofrimento inconsciente em contraste com o processo consciente do luto (FREUD, 1917).

Todavia, estas duas reações à perda de uma pessoa amada também têm características em comum. Freud (1917) aponta para o sentimento de culpa sentido tanto na melancolia quanto no luto. Como supracitado, a culpa é decorrente do desejo inconsciente alguma vez sentido de que o ente querido morresse e o julgamento que seu superego faz deste sentimento. Além disso, em ambos os processos, a pessoa direciona sua libido, antes investida em outros objetos, para a dor da perda. Como se recusa a abrir mão deste processo, não consegue substituir o objeto de amor, o filho amado que faleceu, por outro ou outros objetos. Isso explica porque o sujeito que passa tanto pelo processo do luto quanto da melancolia se afasta de sua atitude habitual perante a vida e perde seu interesse na vida, em suas atividades e relações amorosas (FREUD, 1917). Na melancolia, contudo, além da perda pelo interesse do mundo externo há uma perda de valor de seu mundo interior, isto é, há uma perda de auto-estima. Freud (1894) em seu “Rascunho E" define a melancolia como um acúmulo de tensão sexual psíquica. Acrescido a esta definição no seu “Rascunho G” (1895) explica que a melancolia seria decorrente de uma perda de excitação sexual somática, o que, conseqüentemente, obriga os neurônios a se desfazerem de suas excitações, causando sofrimento. Assim, a melancolia seria um luto pela libido. Neste mesmo texto coloca que a reação à perda do objeto amado surgiria de uma combinação com uma angústia intensa. Somando a estes fatos, na melancolia, ao contrário do que ocorre no luto, o melancólico sabe quem perdeu, mas não sabe o que, ou seja, ocorre uma retirada deste objeto da consciência. O sujeito a partir de uma escolha objetal narcísica, identifica-se com seu filho morto e ao invés de investir a libido em outro objeto volta-a para seu ego, introjetando-a como uma regressão à fase oral, de modo canibalístico. Como supõe em seu texto “O ego e o Id” (1923), esta seria uma forma possível do id abandonar o objeto. Com isso é estabelecida uma identificação entre ego e objeto, a qual faz a perda objetal ser sentida como a perda de si mesmo (FREUD, 1917). Assim, parte do ego é tomada como objeto e toda a recriminação que se sente pelo objeto é voltada para o ego como uma

auto-recriminação. De acordo com Freud (1923), o que exerce esta auto- recriminação é o superego que conseguiu apoio na consciência e maltrata o ego. Estas auto-recriminações são, segundo Freud (1917), decorrentes da perda "desconhecida" sentida pelo melancólico as quais puxam o indivíduo para o nada, a morte. Uma conseqüência da melancolia pode ser, então, o suicídio pelo fato do ego ser tomado como objeto e deixar-se morrer por não se sentir amado e protegido pelo superego. É uma luta ambivalente entre o amor e o ódio sentido pelo objeto introjetado no ego do sujeito. Conseqüentemente, de acordo com Freud (1917), o que existe na melancolia e não no luto é uma escolha objetal do tipo narcísica assim como uma forte fixação no objeto amado e uma catexia objetal com pouco poder de resistência (FREUD, 1917). Portanto, entende-se que uma perda ideal/real de um objeto amado, a culpa que se sente por esta morte e/ou a escolha objetal narcísica são fatores que podem levar um indivíduo a padecer de uma melancolia. Dessa forma, a teoria de Freud nos aponta para a possibilidade da culpa sentida e/ou da dor da perda deste objeto amado poderem levar o indivíduo a retroceder a uma escolha objetal narcísica que resulta na identificação e introjeção deste objeto perdido. O término destes dois processos se dá de forma distinta. No luto o sujeito após um tempo rompe suas ligações libidinais com o objeto e aceita sua morte. O que torna possível este rompimento é a vontade do sujeito em permanecer vivo, pois apenas dessa forma suas satisfações narcísicas são atendidas. Inversamente, na melancolia o processo ocorre em mão contrária à pulsão de vida. As auto-recriminações vão pelo caminho da morte (FREUD, 1917).

A seguir serão analisados dois casos, ambos de mães que perderam filhos pelo suicídio. A primeira fala se refere a uma mãe participante do grupo de luto supracitado enquanto que a segunda se refere a uma mãe que realiza atendimentos psicológicos desde março de

2014:

CASO 1

Mulher X. de aproximadamente 60 anos, teve dois filhos. No entanto, perdeu seu filho mais velho há 7 anos quando este aos 34 anos cometeu suicídio. Relata que aos 26 anos seu pai, com o qual diz se identificar, também cometeu suicídio. Fala que não compreende porque seu filho se suicidou; era muito alegre e nunca teve problemas de relacionamento. Após a morte de seu filho começou a lembrar de algumas evidências de depressão que na época não as via como tal. No entanto, diz que nunca imaginou que seu filho chegaria a se matar e até hoje não acredita e não aceita que seu filho tenha tirado sua própria vida. Aponta seu filho estar mais próximo de si após sua morte e que queria morrer junto com ele. Sente seu filho como sendo parte de si mesma e que com sua morte perdeu quase tudo de si. Acredita que outras pessoas a vêem de forma ruim porque seu filho se suicidou. Para ela a morte pelo suicídio é a pior possível. Diz que esta dor não passa nunca. Apresenta sentimentos de culpa.

A partir do caso desta mãe é possível perceber a culpa que sente desta morte principalmente por achar que outras pessoas a julgam pelo suicídio do filho. Ademais, percebe-se que esta identifica como a maior dor a decorrente do suicídio de um filho. Isso mostra uma identificação com esta dor, com este sofrimento. Conseqüentemente se mostra identificada com este filho e pai, ambos suicidas sofredores. Com este sofrimento a existência deste filho morto internalizado é perpetuada. Assim, esta mãe não quer fazer terapia com psicólogo e quer apenas dar depoimentos para "ajudar" o projeto. Como coloca Freud (1917), na melancolia o ego aceita sua culpa e suas conseqüentes auto- recriminações, dessa forma, esta mãe não quer melhorar, ou melhor, não pode. Afinal, não melhorando pode inconscientemente criticar este filho que a desejou abandonar e também pode tê-lo sempre consigo. Por estes fatores se recusa a abrir mão deste sofrimento e também de senti-lo como um sentido para sua vida.

CASO 2

Mulher Y. de aproximadamente 50 anos, teve 7 filhos. Há um ano seu terceiro filho aos 28 anos que estava com problemas com drogas cometeu suicídio. Sente muita falta do filho e diz que era muito seu companheiro. Não entende porque fez isso; questiona-se se seu filho se matou porque achava que estava incomodando a família com as drogas ou porque acreditava que a família não gostava mais dele pelo mesmo motivo. Pergunta-se se tivesse cuidado dos remédios do filho e se tivessem se mudado de onde moravam, como desejava seu filho, ele não teria se matado. Sente-se culpada de não ter conversado mais com o filho e de não ter ido em um teatro que o filho encenaria. Interroga se foi uma boa mãe; diz que ajudava os filhos e dava o que queriam, mas que brigou algumas poucas vezes com filhos por causa de drogas.

Este segundo caso mostra como esta mãe sofre pela morte de um filho. Sente-se culpada e sente sua falta, mas aceita um tratamento psicológico o que aponta para uma vontade de superar o sofrimento sentido e de não aceitar a culpa sentida, contrariamente ao primeiro caso. Além disso, nesta mãe não se encontra uma identificação com este filho morto, características do primeiro caso. Ele não renasceu dentro de sua mãe, ao contrário do que ocorre com a outra mãe. Esta mãe também não fala que a morte de um filho e que o suicídio são a pior dor do mundo.

Conclusão

O suicídio de um filho gera uma culpa muito grande, pois denuncia sentimentos ambivalentes de uma mãe para seu filho. Esta morte coloca em ato o que foi desejado causando o imaginário de "a pior dor do mundo". No entanto, este sofrimento provocado pela culpa juntamente com o tabu, o estigma, a violência contra si e a renegação da vida que envolvem o ato suicida não são necessariamente sinônimos

desta pior dor. O que a faz ser sentida desta forma são aspectos

inconscientes que se atualizam na morte por suicídio. Assim, o segundo

caso apresentado mostra que o abandono desejado de um filho e a culpa

que uma mãe sente pelo suicídio deste não levam necessariamente a uma

melancolia. Ambas perderam seu filho da mesma forma e apresentam

este sentimento, mas apenas uma está identificada narcisicamente com o

morto em uma posição melancólica. Esta última perpetua o morto dentro

de si e, diferentemente da outra mãe, não deseja sair desta posição de

sofrimento. Afinal de contas, seu filho, após sua morte, está mais perto

dela do que jamais esteve. Conclui-se, então, que o sofrimento psíquico

de uma mãe que perdeu um filho pelo suicídio atualiza perdas e

sofrimentos inconscientes que podem proporcionar o trabalho de luto

pela elaboração da perda ou impedi-lo, como na melancolia.

Referências Bibliográficas

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