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21/10/2018 Descoberta de um Universo: A Evolução do Desenho Infantil

Descoberta de um Universo: A Evolução do Desenho Infantil
 
Autora: Thereza Bordoni

  "Antes eu desenhava como Rafael,
 
mas precisei de toda uma existência
  para aprender a desenhar como as  
crianças".
  (Picasso)  

Os primeiros estudos sobre a produção gráfica das crianças datam do final do século passado e estão
fundados nas concepções psicológicas e estéticas de então. É a psicologia genética, inspirada pelo
evolucionismo e pelo princípio do paralelismo da filogênese com a ontogênese que impõe o estudo científico
do desenvolvimento mental da criança (Rioux, 1951).
 
As concepções de arte que permearam os primeiros estudos estavam calcadas em uma produção estética
idealista e naturalista de representação da realidade. Sendo a habilidade técnica, portanto, uma fator
prioritário. Foram poucos os pesquisadores que se ocuparam dos aspectos estéticos dos desenhos infantis.
Luquet (1927 ­ França) fala dos 'erros' e 'imperfeições' do desenho da criança que atribui a 'inabilidade' e  
'falta de atenção', além de afirmar que existe uma tendência natural e voluntária da criança para o realismo.
Sully vê o desenho da criança como uma 'arte embrionária' onde não se deve entrever nenhum senso  
verdadeiramente artístico, porém, ele reconhece que a produção da criança contém um lado original e
sugestivo. Sully afirma ainda que as crianças são mais simbolistas do que realistas em seus desenhos
(Rioux, 1951).
 
São os psicólogos portanto, que no final do século XIX descobrem a originalidade dos desenhos infantis e
publicam as primeiras 'notas' e 'observações' sobre o assunto. De certa forma eles transpõem para o domínio
do grafismo a descoberta fundamental de Jean Jacques Rousseau sobre a maneira própria de ver e de pensar
da criança.
 
As concepções relativas a infância modificaram­se progressivamente. A descoberta de leis próprias da psique
infantil, a demonstração da originalidade de seu desenvolvimento, levaram a admitir a especificidade desse
universo.

A maneira de encarar o desenho infantil evolui paralelamente.

Modo de expressão próprio da criança, o desenho constitui uma língua que possui vocabulário e sua sintaxe.
Percebe­se que a criança faz uma relação próxima do desenho e a percepção pelo adulto. Ao prazer do gesto
associa­se o prazer da inscrição, a satisfação de deixar a sua marca. Os primeiros rabiscos são quase sempre
efetuados sobre livros e folhas aparentemente estimados pelo adulto, possessão simbólica do universo adulto
tão estimado pela criança pequena.

Ao final do seu primeiro ano de vida, a criança já é capaz de manter ritmos regulares e produzir seus
primeiros traços gráficos, fase conhecida como dos rabiscos ou garatujas ( termo utilizado por Viktor
Lowenfeld para nomear os rabiscos produzidos pela criança).

O desenvolvimento progressivo do desenho implica mudanças significativas que, no início, dizem respeito à
passagem dos rabiscos iniciais da garatuja para construções cada vez mais ordenadas, fazendo surgir os
primeiros símbolos Essa passagem é possível graças às interações da criança com o ato de desenhar e com
desenhos de outras pessoas. Na garatuja, a criança tem como hipótese que o desenho é simplesmente uma
ação sobre uma superfície, e ela sente prazer ao constatar os efeitos visuais que essa ação produziu. No
decorrer do tempo, as garatujas, que refletiam sobretudo o prolongamento de movimentos rítmicos de ir e
vir, transformam­se em formas definidas que apresentam maior ordenação, e podem estar se referindo a
objetos naturais, objetos imaginários ou mesmo a outros desenhos. Na evolução da garatuja para o desenho
de formas mais estruturadas, a criança desenvolve a intenção de elaborar imagens no fazer artístico.
Começando com símbolos muito simples, ela passa a articulá­los no espaço bidimensional do papel, na areia,
na parede ou em qualquer outra superfície. Passa também a constatar a regularidade nos desenhos
presentes no meio ambiente e nos trabalhos aos quais ela tem acesso, incorporando esse conhecimento em
suas próprias produções. No início, a criança trabalha sobre a hipótese de que o desenho serve para imprimir
tudo o que ela sabe sobre o mundo. No decorrer da simbolização, a criança incorpora progressivamente
regularidades ou códigos de representação das imagens do entorno, passando a considerar a hipótese de
que o desenho serve para imprimir o que se vê.

É assim que, por meio do desenho, a criança cria e recria individualmente formas expressivas, integrando
percepção, imaginação, reflexão e sensibilidade, que podem então ser apropriadas pelas leituras simbólicas
de outras crianças e adultos.

O desenho está também intimamente ligado com o desenvolvimento da escrita. Parte atraente do universo
adulto, dotada de prestigio por ser "secreta", a escrita exerce uma verdadeira fascinação sobre a criança, e
isso bem antes de ela própria poder traçar verdadeiros signos. Muito cedo ela tenta imitar a escrita dos

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adultos. Porém, mais tarde, quando ingressa na escola verifica­se uma diminuição da produção gráfica, já
que a escrita ( considerada mais importante) passa a ser concorrente do desenho.

O desenho como possibilidade de brincar, o desenho como possibilidade de falar de registrar, marca o
desenvolvimento da infância, porém em cada estágio, o desenho assume um caráter próprio. Estes estágios
definem maneiras de desenhar que são bastante similares em todas as crianças, apesar das diferenças
individuais de temperamento e sensibilidade. Esta maneira de desenhar própria de cada idade varia,
inclusive, muito pouco de cultura para cultura.

Luquet Distingue Quatro Estágios:

1­ Realismo fortuito: começa por volta dos 2 anos e põe fim ao período chamado rabisco. A criança que
começou por traçar signos sem desejo de representação descobre por acaso uma analogia com um objeto e
passa a nomear seu desenho.

2­ Realismo fracassado: Geralmente entre 3 e 4 anos tendo descoberto a identidade forma­objeto, a
criança procura reproduzir esta forma.

3­ Realismo intelectual: estendendo­se dos 4 aos 10­12 anos, caracteriza­se pelo fato que a criança
desenha do objeto não aquilo que vê, mas aquilo que sabe. Nesta fase ela mistura diversos pontos de vista (
perspectivas ).

4­ Realismo visual: É geralmente por volta dos 12 anos, marcado pela descoberta da perspectiva e a
submissa às suas leis, daí um empobrecimento, um enxugamento progressivo do grafismo que tende a se
juntar as produções adultas.

Marthe Berson distingue três estágios do rabisco:

1 ­ Estágio vegetativo motor: por volta dos 18 meses, o traçado e mais ou menos arredondado, conexo
ou alongado e o lápis não sai da folha formando turbilhões.

2 ­ Estágio representativo: entre dois e 3 anos, caracteriza­se pelo aparecimento de formas isoladas, a
criança passa do traço continuo para o traço descontinuo, pode haver comentário verbal do desenho.

3 ­ Estágio comunicativo: começa entre 3 e 4 anos, se traduz por uma vontade de escrever e de
comunicar­se com outros. Traçado em forma de dentes de serra, que procura reproduzir a escrita dos
adultos.

Em Uma Análise Piagetiana, temos:

1 ­ Garatuja: Faz parte da fase sensório motora ( 0 a 2 anos) e parte da fase pré­operacional (2 a 7 anos).
A criança demonstra extremo prazer nesta fase. A figura humana é inexistente ou pode aparecer da maneira
imaginária. A cor tem um papel secundário, aparecendo o interesse pelo contraste, mas não há intenção
consciente. Pode ser dividida em:

• Desordenada: movimentos amplos e desordenados. Com relação a expressão, vemos a
imitação "eu imito, porém não represento". Ainda é um exercício.
   
• Ordenada: movimentos longitudinais e circulares; coordenação viso­motora. A figura humana
pode aparecer de maneira imaginária, pois aqui existe a exploração do traçado; interesse pelas
formas (Diagrama).

Aqui a expressão é o jogo simbólico: "eu represento sozinho". O símbolo já existe. Identificada: mudança de
movimentos; formas irreconhecíveis com significado; atribui nomes, conta histórias. A figura humana pode
aparecer de maneira imaginária, aparecem sóis, radiais e mandalas. A expressão também é o jogo simbólico.

2 ­ Pré­ Esquematismo: Dentro da fase pré­operatória, aparece a descoberta da relação entre desenho,
pensamento e realidade. Quanto ao espaço, os desenhos são dispersos inicialmente, não relaciona entre si.
Então aparecem as primeiras relações espaciais, surgindo devido à vínculos emocionais. A figura humana,
torna­se uma procura de um conceito que depende do seu conhecimento ativo, inicia a mudança de
símbolos. Quanto a utilização das cores, pode usar, mas não há relação ainda com a realidade, dependerá do
interesse emocional. Dentro da expressão, o jogo simbólico aparece como: "nós representamos juntos".

3 ­ Esquematismo: Faz parte da fase das operações concretas (7 a 10 anos).Esquemas representativos,
afirmação de si mediante repetição flexível do esquema; experiências novas são expressas pelo desvio do
esquema. Quanto ao espaço, é o primeiro conceito definido de espaço: linha de base. Já tem um conceito
definido quanto a figura humana, porém aparecem desvios do esquema como: exagero, negligência, omissão
ou mudança de símbolo. Aqui existe a descoberta das relações quanto a cor; cor­objeto, podendo haver um

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desvio do esquema de cor expressa por experiência emocional. Aparece na expressão o jogo simbólico
coletivo ou jogo dramático e a regra.

4 ­ Realismo: Também faz parte da fase das operações concretas, mas já no final desta fase. Existe uma
consciência maior do sexo e autocrítica pronunciada. No espaço é descoberto o plano e a superposição.
Abandona a linha de base. Na figura humana aparece o abandono das linhas. As formas geométricas
aparecem. Maior rigidez e formalismo. Acentuação das roupas diferenciando os sexos. Aqui acontece o
abandono do esquema de cor, a acentuação será de enfoque emocional. Tanto no Esquematismo como no
Realismo, o jogo simbólico é coletivo, jogo dramático e regras existiram.

5 ­ Pseudo Naturalismo: Estamos na fase das operações abstratas (10 anos em diante)É o fim da arte
como atividade expontânea. Inicia a investigação de sua própria personalidade. Aparece aqui dois tipos de
tendência: visual (realismo, objetividade); háptico ( expressão subjetividade) No espaço já apresenta a
profundidade ou a preocupação com experiências emocionais (espaço subjetivo). Na figura humana as
características sexuais são exageradas, presença das articulações e proporções. A consciência visual
(realismo) ou acentuação da expressão, também fazem parte deste período. Uma maior conscientização no
uso da cor, podendo ser objetiva ou subjetiva. A expressão aparece como: "eu represento e você vê" Aqui
estão presentes o exercício, símbolo e a regra.

E ainda alguns psicólogos e pedagogos, em uma linguagem mais coloquial, utilizam as seguintes
referencias:

• De 1 a 3 anos
 
É a idade das famosas garatujas: simples riscos ainda desprovidos de controle motor, a criança ignora os
limites do papel e mexa todo o corpo para desenhar, avançando os traçados pelas paredes e chão. As
primeiras garatujas são linhas longitudinais que, com o tempo, vão se tornando circulares e, por fim, se
fecham em formas independentes, que ficam soltas na página. No final dessa fase, é possível que surjam os
primeiros indícios de figuras humanas, como cabeças com olhos.

• De 3 a 4 anos
   
Já conquistou a forma e seus desenhos têm a intenção de reproduzir algo. Ela também respeita melhor os
limites do papel. Mas o grande salto é ser capaz de desenhar um ser humano reconhecível, com pernas,
braços, pescoço e tronco.
 
• De 4 a 5 anos
   
É uma fase de temas clássicos do desenho infantil, como paisagens, casinhas, flores, super­heróis, veículos e
animais, varia no uso das cores, buscando um certo realismo. Suas figuras humanas já dispõem de novos
detalhes, como cabelos, pés e mãos, e a distribuição dos desenhos no papel obedecem a uma certa lógica,
do tipo céu no alto da folha. Aparece ainda a tendência à antropomorfização, ou seja, a emprestar
características humanas a elementos da natureza, como o famoso sol com olhos e boca. Esta tendência deve
se estender até 7 ou 8 anos.
 
• De 5 a 6 anos
   
Os desenhos sempre se baseiam em roteiros com começo, meio e fim. As figuras humanas aparecem
vestidas e a criança dá grande atenção a detalhes como as cores. Os temas variam e o fato de não terem
nada a ver com a vida dela são um indício de desprendimento e capacidade de contar histórias sobre o
mundo.
 
• De 7 a 8 anos
   
O realismo é a marca desta fase, em que surge também a noção de perspectiva. Ou seja, os desenhos da
criança já dão uma impressão de profundidade e distância. Extremamente exigentes, muitas deixam de
desenhar, se acham que seus trabalhos não ficam bonitos.
 
Como podemos perceber o linha de evolução é similar mudando com maior ênfase o enfoque em alguns
aspectos. O importante é respeitar os ritmos de cada criança e permitir que ela possa desenhar livremente,
sem intervenção direta, explorando diversos materiais, suportes e situações.

Para tentarmos entender melhor o universo infantil muitas vezes buscamos interpretar os seus desenhos,
devemos porem lembrar que a interpretação de um desenho isolada do contexto em que foi elaborado não
faz sentido.

É aconselhável, ao professor, que ofereça às crianças o contato com diferentes tipos de desenhos e obras de
artes, que elas façam a leitura de suas produções e escutem a de outros e também que sugira a criança
desenhar a partir de observações diversas (cenas, objetos, pessoas) para que possamos ajudá­la a nutrisse

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de informações e enriquecer o seu grafismo. Assim elas poderão reformular suas idéias e construir novos
conhecimentos.

Enfim, o desenho infantil é um universo cheio de mundos a serem explorados.

Referências Bibliográficas

LUQUET, G.H. Arte Infantil. Lisboa: Companhia Editora do Minho, 1969.
   
MALVERN, S.B. "Inventing 'child art': Franz Cizek and modernism" In: British Journal of Aesthetics, 1995,
35(3), p.262­272.
   
MEREDIEU, F. O desenho Infantil. São Paulo: Cultrix, 1974.

NAVILLE, Pierre. "Elements d'une bibliographie critique". In: Enfance, 1950, n.3­4, p. 310. Parsons, Michael
J. Compreender a Arte. Lisboa: Ed. Presença, 1992.
   
PIAGET, J. A formação dos símbolos na Infância. PUF, 1948

RABELLO, Sylvio. Psicologia do Desenho Infantil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935.
   
READ, HEBERT. Educação Através da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1971.
   
RIOUX, George. Dessin et Structure Mentale. Paris: Presses Universitaires de France, 1951.
   
ROUMA, George. El Lenguage Gráfico del Niño. Buenos Aires: El Ateneo, 1947.

REFERENCIAL CURRICULAR NACIONAL PARA A EDUCAÇÃO INFANTIL. Ministério da Educação e do Desporto,
secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. 3v.
 
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