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A abordagem funcional

O treinamento tem muitas conotações diferentes, dependendo da perspectiva de cada um.


Tradicionalmente, para indivíduos sadios ou atletas, ele enfoca força, flexibilidade ou
treinamento cardiovascular. Esse treinamento, em geral, é supervisionado por um educador
físico (personal trainer) ou técnico de força e condicionamento (F&C). Este livro promove uma
abordagem diferente, na qual o objetivo do treinamento é promover o desenvolvimento
atlético (1,2). Da perspectiva do desenvolvimento atlético sustentável, o treinamento não se
limita apenas aos domínios de força, flexibilidade ou cardiovascular, mas também enfoca os
fundamentos de agilidade, balanço (equilíbrio) e coordenação como uma base para o
desenvolvimento de um aperfeiçoado repertório motor (3).

Ironicamente, quando o aprendizado do repertório motor se torna a meta do desenvolvimento


atlético, o treinamento não só fica mais funcional como também começa a se sobrepor à
reabilitação clínica. Ele se torna mais funcional na medida que o foco do treinamento é
desenvolver os padrões de movimento estereotípicos (p. ex., empurrar, puxar, agachar, correr)
que um atleta usa em todos os esportes, em vez de movimentos isolados de articulações
específicas (p. ex., contração do bíceps/flexão do cotovelo, contração dos isquiotibiais/flexão
do joelho). Um fisiculturista pode preferir treinar um músculo de forma isolada para causar
hipertrofia, mas a hipertrofia não é a meta primária para um atleta. Um princípio importante
da ciência do exercício é o da Adaptação Específica a Demandas Impostas (SAID, Specific
Adaptation to Imposed Demands). O princípio SAID mostra que os ganhos do treinamento são
específicos para o movimento que é treinado (4,5). Portanto, um movimento isolado, treinado
repetitivamente, não transfere necessariamente algum benefício para tarefas funcionais, ao
passo que, se habilidades fundamentais do movimento ou o aprendizado de padrões de
movimentos é realizado, haverá uma alta transferência de benefícios para a prática do esporte
de alto desempenho, bem como para a prevenção de lesões (6-12).

A reabilitação clínica de distúrbios musculoesqueléticos também enfocava a prescrição de


exercícios isolados, repetitivos. Por exemplo, a reabilitação do ombro envolvia exercícios
resistidos para os músculos individuais do manguito rotador do ombro em diferentes ângulos
de elevação do braço (13). Essa abordagem tem evoluído ao longo das últimas duas décadas
para incluir ênfase maior em atividades de controle motor e funcionais (14-16). Por exemplo, a
reabilitação de um arremessador de beisebol com tendinose do manguito rotador, ou
insuficiência labral, poderia ser tirada de uma lista envolvendo estabilidade escapulotorácica,
exercício de cadeia fechada, estabilização central (core) e treinamento de cadeia posterior da
perna em apoio monopodal (17-19). Há paralelos tanto no campo da reabilitação como do
treinamento com uma evolução na direção de maior ênfase sobre o controle motor e uma
concomitante diminuição da ênfase dada sobre treinamento isolado de músculos e
articulações (20, 21).

Um processo importante corroborando a ênfase no treinamento funcional através de padrões


de movimento, em vez de isolar músculos e articulações individuais, é chamado de
plasticidade cortical. Movimentos que são repetidos são aprendidos pelo sistema nervoso
central (SNC) como uma nova rede neural. Maus hábitos posturais e adaptações à dor ou lesão
resultam em eficiência comprometida dos movimentos. Com treinamento apropriado, o
“software” do corpo é atualizado para abordar esses “vírus”. O objetivo é “selar” ou isolar vias
sinápticas para padrões de movimento funcional de alta qualidade. A plasticidade cortical
ocorre por meio de “adaptação neural” ao nível intracelular envolvendo mudanças estruturais
na glia, neurônios de ligação e mielina circundando as conexões intersinápticas (22-24).

Se só treinarmos movimentos isolados, como o princípio SAID implica, não haverá uma
melhora em nossas habilidades funcionais (25). Esse legado do fisiculturismo com enfoque em
movimentos isolados pode modificar nosso “hardware” pela hipertrofia de músculos
individuais, mas não aumentará a qualidade ou eficiência dos movimentos – nosso “software”
– e pode mesmo corrompê-lo por causar ou perpetuar desequilíbrios musculares ou padrões
defeituosos de movimento (26-28). Portanto, o treinamento moderno e a reabilitação têm
chegado ambos à mesma conclusão. Se nosso objetivo for obter programas motores de
melhor qualidade para tarefas funcionais que são relevantes para o atleta na competição,
devemos enfocar o treinamento funcional em padrões de movimento integrado, em vez do
mero treinamento isolado de músculos e articulações individuais (20, 21, 29-36).

Se o objetivo é identificar e remediar padrões de movimento defeituosos, isso significa que se


deve ignorar articulações e músculos individuais? Não. Frequentemente haverá uma disfunção
específica de uma articulação (p. ex., bloqueio da articulação acromioclavicular [AC]
restringindo a adução do braço), músculo (p. ex., encurtamento do piriforme restringindo a
função do quadril) ou fáscia (p. ex., encurtamento dos peitorais restringindo a elevação do
braço por sobre a cabeça), que, se corrigida, facilitará um melhor desempenho. O que muda é
a maneira de conceituar isso.