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REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE

——
TRIBUNAL ADMINISTRATIVO

PRIMEIRA SECÇÃO

Processo n.º 209/2012 – 1.ª

ACÓRDÃO N.º 31/2017

Acordam, em conferência, na Primeira Secção do Tribunal Administrativo:


Rosário Simão Sinanalica, com os demais elementos de identificação constantes
dos autos, veio perante esta instância jurisdicional interpor recurso contencioso
contra o despacho da Ministra da Justiça, relativo à pena de expulsão aplicada em
processo disciplinar, estribando-se nos termos do artigo 26 e alínea d) do artigo 28
do Lei n.º 9/2001, essencialmente, no seguinte:

A Ministra da Justiça exarou um despacho que aplica a pena de expulsão ao


recorrente, na sequência de instauração de 3 processos disciplinares n.ºs 12/PD/09,
05/PD/2011 e 12/PD/2011, acusado de ter facilitado a fuga de um recluso de nome
Dadi Hassane Licholojo, de ter tirado 17 reclusos alegadamente para trabalho
externo sem obedecer as formalidades exigidas e de ter cometido 26 faltas
injustificados, de 6 a 24 de Junho e 27 de Junho a 1 de Julho de 2011.

Importa referir que o ora recorrente, na sua defesa, datada de 6 de Novembro de


2009, deixou bem claro, e é do conhecimento da Direcção da Penitenciária
Industrial de Nampula, que a fuga do recluso Dadi Hassane Licholojo foi facilitada
pelo senhor Ibramugi Adamugy, a troco de um suborno no valor de 25.000,00MT
(vinte e cinco mil meticais). O recorrente indica como testemunha o senhor Afati,
antigo Chefe do Controlo Penal e Segurança da Penitenciária, actualmente em
exercício no Comando Provincial da PRM em Nampula, afecto ao Departamento
da Administração Prisional.

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O instrutor do processo disciplinar, cuja decisão é matéria do presente recurso,
agindo de má-fé, rasurou a lista passando o corrector no nome do recluso visado e
remeteu assim, para decisão, como forma de ludibriar a Ministra para decidir
erradamente, convencida de que, na verdade, o Dadi não era recluso Brigadista.

Quanto aos demais 17 reclusos visados que eram brigadistas, realizavam tarefas
sob orientação dos chefes dos departamentos, com atribuição de tarefas existentes
em cada um deles, as quais eram dadas num dia para serem realizadas no dia
seguinte, como brigada móvel, de tal forma que, no fim da jornada de trabalho,
aqueles pernoitavam nas residências pertencentes à PIN (Penitenciária Industrial de
Nampula), fora do recinto prisional, situação que prevalece até hoje.

As faltas não foram derivadas pela ausência do recorrente, mas sim, porque foi
impedido de assinar o livro de ponto na secretaria, por ordem do Director do
Estabelecimento Penitenciário.

O ora recorrente apresentou, em tempo útil, a sua contestação no processo


disciplinar, no qual foi determinada a medida tomada sem que efectivamente fosse
considerada alguma circunstância atenuante que pudesse evitar a pena aplicada,
como dispõem as alíneas c) e e) do n.º 1 e o n.º 2 do artigo 90 do EGFAE,
conjugados com o n.º 3 do artigo 175 do Regulamento do EGFAE.

Os mencionados processos disciplinares, em termos de prazo, não obedecem ao


legalmente prescrito, basta só dizer que no primeiro o recorrente se defendeu a 6 de
Novembro de 2009 e só foi decidido em 18 de Abril de 2012 e os restantes também
têm prazos extravasados, violando-se o disposto no n.º 1 artigo 156 do
Regulamento do EGFAE.

Termina, pedindo que sejam anulados os processos disciplinares, por acarretarem


irregularidades processuais, devendo, também, ser revogado o despacho da
Ministra da Justiça que aplica a pena de expulsão, por ser ilegal.

Citada, a recorrida veio dizer que o recorrente, antes do cometimento da infracção


que culminou com a medida disciplinar de expulsão, praticou duas outras
infracções, uma em 2009 e outra em 2011, que foram objecto de processos
disciplinares e constituem circunstâncias agravantes invocadas no Despacho ora
recorrido. Assim, não há lugar ao benefício das circunstâncias atenuantes
reclamadas pelo recorrente.

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O impetrante alega, ainda, que na nota de acusação não constam de forma clara as
infracções de que é acusado; tal é inverdade de todo, pois nesta, não só se descreve
a matéria factual das infracções como também a respectiva subsunção jurídica.

O processo disciplinar foi tratado obedecendo a tramitação ritual prescrita na lei.


Com efeito, ofereceu-se ao arguido a nota de acusação que contestou e,
subsequentemente, foi decidido através do Despacho pertinente e por quem tem
competência.

Termina, requerendo que o recurso seja julgado improcedente e, em consequência,


a recorrida absolvida da instância.

Em sede das alegações facultativas, o recorrente reiterou os fundamentos da


petição inicial, a fls. 40 a 42, que os mantém na íntegra, e a entidade recorrida não
respondeu à notificação.

No visto final, o Ministério Público pronuncia-se nos seguintes termos:


“(…)
Compulsados os autos, verifica-se que contra o recorrente foram instaurados três
processos disciplinares, designadamente, 12/PD/09, 05/PD/011 e 12/PD/011, nos
quais foi acusado de ter facilitado a fuga de um recluso, ter tirado 17 reclusos
alegadamente para trabalho externo sem obedecer às formalidades exigidas e ter
cometido 26 faltas injustificadas, respectivamente.

Da análise do Processo Disciplinar n.º 12/PD/011, o último a ser instaurado,


verifica-se que, em sede do relatório final, foram arroladas novas acusações contra
o arguido, ora recorrente, designadamente, ter tentado, sem sucesso induzir aos
seus colegas para uma desobediência colectiva, usando os meios de comunicação
social provincial para denegrir a imagem do seu dirigente máximo e da instituição,
assim como, foi alterada a sanção de multa que constava da nota de acusação
entregue ao arguido, para a de demissão.
Ora, o facto de os novos elementos arrolados no relatório final não constarem da
nota de acusação viola o disposto no n.º 2 do artigo 106 do EGFAE.

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Outrossim, constata-se que, no despacho impugnado (vide fls. 6), consta a
circunstância agravante de reincidência; contudo, esta circunstância não consta de
nenhuma das notas de acusação, assim como a sanção de demissão proposta pelo
instrutor do processo foi alterada para sanção de expulsão sem a devida
fundamentação, o que viola o disposto no n.º 2 do artigo 106 do EGFAE e o n.º 2
do artigo 173 do Regulamento do EGFAE.

Portanto, no caso em apreço, constata-se que o arrolamento de novos factos e de


circunstâncias agravantes em sede do relatório final, que não constaram da nota de
acusação, assim como a alteração da sanção disciplinar proposta pelo instrutor do
processo sem a devida fundamentação, impossibilitaram o pleno exercício do
direito de defesa garantido constitucionalmente (vide n.º 1 do artigo 62 da CRM) e
legalmente ao arguido, pois não teve a oportunidade de deduzir a sua defesa
perante tais factos e circunstâncias. Esta violação constitui uma nulidade insuprível
em processo disciplinar, nos termos do disposto no n.º 1 do artigo 108 do EGFAE.

Pelo exposto, o Ministério Público promove a procedência do presente recurso".

Tudo visto, cumpre apreciar e decidir.

O recorrente vem impugnar o despacho da Ministra da Justiça, de 18 de Abril de


2012, que no culminar dos processos disciplinares n.ºs 12/PD/09, 05/PD/011 e
12/PD/011, lhe aplica a pena de expulsão (fls. 6), alegando não ter cometido as
infracções das quais foi acusado e não terem sido elencadas circunstâncias
atenuantes em sede do processo disciplinar contra ele instaurado.

Ao apreciar o Processo Disciplinar n.º 12/PIN/011, consta a fls. 56 a Nota de


Acusação, datada de 15 de Julho de 2011, com o seguinte teor:

Contra o agente Rosário Simão Sinanalica (…) deduzidos os seguintes


artigos de acusação, autos do processo disciplinar n.º (…).

I
Ter faltado ao serviço sem justificação formal e não ter comunicado aos seus
superiores hierárquicos, violando neste contexto o n.º 1 do artigo 65 do Estatuto
Geral dos Funcionários e Agentes do Estado, conjugado com o n.ºs 1 e 2 do artigo
95 do Regulamento (…).

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II
Os artigos da acusação acima deduzidos relevam (revelam?) a incompetência
profissional e incumprimento dos Deveres Especiais do funcionário do Estado, em
particular dos Agentes do Corpo da guarda Prisional. As responsabilidades acima
mencionadas têm por consequência, pelo n.º 2, alínea f), artigo 140 do
Regulamento do Estatuto Geral dos Funcionários e Agentes do Estado.

Da presente nota de acusação, o arguido (foi) notificado tendo-lhe sido advertido


de que tem, nos termos do previsto pelo n.º 1 do artigo 106 do Estatuto Geral dos
Funcionários e Agentes do Estado, o prazo de cinco (5) dias, querendo apresentar
a sua defesa.

A esta Nota de Acusação o arguido respondeu no dia 20 de Julho de 2011 (Vide


fls. 65 do PD). No entanto, consta dos autos a Informação datada de 07.07.2011, de
folhas 88 e 67, em que Domingos Rosário Cumpenda, Elias Martins Gimo e
Gonçalves Bernardo, todos colegas do arguido, dão a conhecer e esclarecer que no
dia 29.06.2011, pelas 06 horas, fôramos solicitados pelo colega Rosário Simão
Sinanaleca, (…) teria nos convidado a fim de ir aos Órgãos de Comunicação
Social, para expor o caso da nossa suspensão, em virtude desta nós não aceitamos
que até o colega foi obrigado a ligar para um encontro e nós rejeitamos (…).

No Relatório Final (fls. 69), o instrutor refere que constata-se que o arguido
usando-se da situação irregular em que se encontra por cometimento de várias
infracções disciplinares tentou sem sucesso induzir aos seus colegas para uma
desobediência colectiva usando os meios de comunicação social provincial para
denegrir a imagem do seu dirigente máximo e da instituição. (…).

Por seu turno, no Processo n.º 05/PD/PIN/2011, a informação dos colegas, acima
referida, está inserida a folhas 27 e 28, sem que seu conteúdo conste da Nota de
Acusação de folhas 27 e 28 nem referida na defesa do arguido (fls. 31 e 32),
embora venha a ser dito, em despacho de 30.08.2011, do Director da Penitenciária
que “Estão provados no presente processo que o arguido cometeu infracção de
desobediência (desacato a autoridade), em incitação a desobediência colectiva,
acção frustrada para o uso de meios de comunicação social como forma de dirimir
conflito no trabalho e persuadir a imagem pública, (…)”.

Portanto, segundo o relatório final do mesmo, verifica-se que foram arroladas


acusações novas contra o recorrente, ou seja, ter tentado induzir aos seus colegas
para uma desobediência colectiva, usando meios de comunicação social provincial
para denegrir a imagem do seu dirigente máximo e da instituição.

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Logo, estamos perante uma violação do disposto no n.º 2 do artigo 106 do EGFAE,
segundo o qual “da nota de acusação deve constar, obrigatoriamente e de forma
clara, a infracção ou infracções de que o arguido é acusado, a data e local em que
foram praticadas e outras circunstâncias pertinentes, bem como as circunstâncias
atenuantes e agravantes se as houver e ainda a referência aos preceitos legais
infringidos e às sanções aplicáveis”.

Refere, ainda o recorrente que “os mencionados processos disciplinares, em termos


de prazo, não obedecem ao legalmente prescrito, basta só dizer que no primeiro o
recorrente se defendeu a 6 de Novembro de 2009 e só foi decidido em 18 de Abril
de 2012 e os restantes também têm prazos extravasados, violando-se o disposto no
n.º 1 artigo 156 do Regulamento do EGFAE”.

Embora requisitados na sequência da promoção do Ministério Público, os autos do


processo disciplinar instaurados em 2009 (referidos pelo recorrido como n.º
12/PD/09) não foram remetidos a esta instância, conforme ilustra a Nota n.º
138/GMJ/2013, de 03/06/3013, do Gabinete da Ministra da Justiça. Todavia,
compulsando os remetidos “dossiers I e II”, que constituem os processos
disciplinares registados, respectivamente, sob n.ºs 12/PIN/011 e 05/PD/PIN/11,
ambas as notas de acusação foram elaboradas a 15 de Julho de 2011 e os relatórios
finais datados de 25 de Julho e 04 de Agosto, tendo a decisão sobre os mesmos
sido emitida por despacho de 18 de Abril de 2012.

Não consta nenhuma referência ao lapso de tempo que medeia a conclusão dos
relatórios finais e a respectiva decisão, ferindo-se, assim, o disposto nos n.ºs 2 e 4
do artigo 111 do EGFAE, aprovado pela Lei n.º 14/2009, de 17 de Março, tendo,
consequentemente, originado a caducidade do procedimento disciplinar, pois o
prazo de 15 (quinze) dias para a decisão foi largamente ultrapassado, sem
justificação.

Relativamente à alegada falta de fundamentação da alteração da pena de demissão


proposta pelo instrutor e a de expulsão na decisão final, não se vislumbra nenhuma
ilegalidade na medida em que o instrutor do Processo n.º 012/PIN2011 propôs a
aplicação da pena de demissão e o dirigente competente aplicou a pena de
expulsão, por despacho que foi notificado e apresentado pelo ora recorrente como
Anexo 1 da sua PI, despacho em que constam as razões de facto e de direito que o
sustentam.

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Pelo acima exposto, a irregularidade da nota de acusação, por omissão de factos
referidos no Relatório Final, impossibilitou o pleno exercício do direito de defesa
pelo arguido, pois, o mesmo não teve acesso a todos os factos e circunstâncias,
constituindo assim, uma nulidade insuprível em processo disciplinar, nos termos
do n.º 1 do artigo 108 do EGFAE, conjugado com o n.º 1 do artigo 62 da
Constituição da República de Moçambique (CRM). Igualmente, verifica-se a
caducidade do procedimento disciplinar, por injustificada não observância do
prazo para a decisão, após a elaboração da proposta do instrutor no Relatório Final.

Nestes termos, os Juízes Conselheiros desta Secção decidem julgar procedente o


recurso e, em consequência, declarar nulo e de nenhum efeito o despacho da
Ministra da Justiça, por violação da lei, dada a verificação da nulidade insuprível
cominada no n.º 1 do artigo 108 do EGFAE, aprovado pela Lei n.º 14/2009, de 17
de Março, e por caducidade do procedimento disciplinar.

Sem custas.

Registe-se e notifique-se.

Pode-se interpor recurso ao Plenário do Tribunal Administrativo, no prazo de 10


(dez) dias, ao abrigo do disposto no artigo 135 e seguintes da Lei n.º 9/2001, de 7
de Julho, ex vi do artigo 228 da Lei n.º 7/2014, de 28 de Fevereiro.

Maputo, 19 de Abril de 2017.

David Zefanias Sibambo – Relator

José Luís Maria Pereira Cardoso

José Maurício Manteiga

Pelo Ministério Público,


Fui presente

Taíbo Caetano Mucobora


Procurador-Geral Adjunto