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DIREITO PENAL

Princípios Constitucionais Aplicáveis ao Direito Penal


Produção: Equipe Pedagógica Gran Cursos Online

PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS APLICÁVEIS AO DIREITO PENAL

No rol de princípios constitucionais aplicáveis ao direito penal encontram-se:


1. Princípio da presunção de “inocência”;
2. Princípio da responsabilidade pessoal (intranscendência);
3. Princípio da legalidade;
4. Princípio da reserva legal;
5. Princípio da anterioridade;
6. Princípio da taxatividade;
7. Princípio da irretroatividade maléfica/retroatividade benéfica;
8. Princípio da individualização da pena;
9. Princípio da humanização das penas;
10. Mandados expressos de criminalização.

PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE “INOCÊNCIA”

Durante o processo, a pessoa é considerada inocente. Há doutrinas que não


utilizam o termo “presunção de inocência”, pois o termo “inocência” não está
descrito de forma explicita na Constituição Federal:

Art. 5º, LVII – ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sen-
tença penal condenatória;

Assim, durante o processo, não se pode dizer que alguém é inocente ou cul-
pado. Além disso, a lei dispõe que a pessoa não pode ser considerada culpada.
Nesse sentido, o princípio que melhor se adequa é o da não culpabilidade.
Para a Constituição Federal, a pessoa só pode ser considerada culpada com
o trânsito em julgado de sentença penal condenatória, ou seja, quando não for
cabível nenhum recurso.
Em regra, a sanção penal só pode ser iniciada depois do trânsito em julgado.
Antes disso, pode ocorrer apenas a prisão processual (temporária/preventiva).
Esse entendimento foi alterado pela chamada execução provisória da pena. O
Supremo Tribunal Federal entende que a pena pode ser iniciada na segunda ins-
tância ou nos casos de foro por prerrogativa de função.
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Isto é, se uma pessoa é condenada pelo juiz e entra com recurso de apelação
para o Tribunal (TJ, TRF etc.), da decisão desse Tribunal cabe o Recursos Espe-
cial (RESP) ou o Recurso Extraordinário (RE). Assim, mesmo que a condenação
ainda não tenha transitado em julgado por estar pendente de RESP ou RE, já é
possível executar a pena por meio de execução provisória. Essa situação não se
trata de uma prisão processual.
Sobre o foro por prerrogativa de função, um exemplo é o julgamento de um
prefeito, que não acontece na primeira instância, mas direto no tribunal. Nesse
caso, mesmo que estejam pendentes o RESP ou RE, já é possível executar a
pena imposta pelo Tribunal.

 Obs.: a execução provisória da pena, conforme o Supremo, não fere a presun-


ção de inocência.

PRINCÍPIO DA RESPONSABILIDADE PESSOAL

CF/1988
Art. 5º, XLV – nenhuma pena passará da pessoa do condenado, podendo a
obrigação de reparar o dano e a decretação do perdimento de bens ser, nos termos
da lei, estendidas aos sucessores e contra eles executadas, até o limite do valor do
patrimônio transferido;

A pena não pode transcender a pessoa do condenado e deve ser aplicada


somente a ele. Exemplo: o filho não pode ficar preso por causa do pai e vice-
-versa. A Constituição Federal não dispõe exceção a esse princípio.
As obrigações de reparar o dano e o perdimento dos bens não são sanções
penais, mas sim civis e administrativas.
Para entender esse princípio, é possível utilizar o seguinte caso concreto
como exemplo:
João praticou um crime e foi condenado a pena privativa de liberdade de 10
anos, além de 10 mil reais de multa e 10 mil reais de obrigação de reparação de
dano. João tem um patrimônio de 50 mil reais e vem a falecer, deixando apenas
um filho, José.
Nesse caso, quanto José deverá pagar?
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José não precisará cumprir a pena privativa de liberdade no lugar de seu pai.
Além disso, pagará os 10 mil reais de obrigação de reparar o dano por meio do
patrimônio de 50 mil reais que seu pai deixou em forma de herança, porém não pre-
cisará pagar os 10 mil reais de multa, pois trata-se de uma sanção de caráter penal.

 Obs.: existe o confisco de bens como sanção penal e, nesse caso, ele não pas-
sará para os sucessores do condenado, diferente do que ocorre no caso
do confisco de bens de caráter civil/administrativo.

PRINCÍPIO DA LEGALIDADE

O princípio da legalidade é um dos mais importantes, pois, além de constar


descrito na Constituição Federal, pode ser encontrado em diversos outros diplo-
mas jurídicos como o Código Penal, o Código Penal Militar, em tratados interna-
cionais de direitos humanos, dentre outros.

Art. 5º, XXXIX – não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia
cominação legal;

Para que haja um crime é necessário que exista uma lei que verse que tal
conduta caracteriza crime. A doutrina dispõe que a legalidade é igual a reserva
legal (lei em sentido estrito) + anterioridade. Assim, além de existir a lei, essa
deve ter sido criada antes que a conduta tenha sido praticada pelo agente.
Nesse sentido, pode-se dizer que ao inciso XXXIX da CF/1988 aplica-se o
princípio da taxatividade, pois a conduta deve estar plenamente definida na lei.

Atenção!
Em prova, geralmente o termo “legalidade” tem o mesmo sentido de “reserva
legal”. O uso de qualquer um dos dois não torna uma questão errada.

Como decorrências desse dispositivo, tem-se que:


1. Costume não cria crime, nem os revoga;
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2. Analogia não pode criar crime, pois a lei deve definir o crime, veda-se
analogia in malam partem. Analogia é forma de suprimento judicial que pode
completar as lacunas de uma lei; no Direito Penal, só pode ser aplicada em
benefício do acusado;
3. Só lei em sentido próprio pode criar crimes, por consequência as medi-
das provisórias não criam crimes;

 Obs.: a medida provisória não é lei, mas tem força de lei. Ela é editada pelo
chefe do Poder Executivo da União. Assim, quando o Presidente da Repú-
blica edita uma medida provisória, esta terá força de lei; porém, para que
continue sendo válida, esta deve ser convertida em uma lei. Contudo, a
medida provisória não pode versar sobre direito penal.

É possível que uma medida provisória trate de um tema de direito penal não
incriminador, ou seja, fazendo com que uma conduta deixe de ser crime? Há uma
divergência na doutrina quanto a esse assunto, pois o Supremo já convalidou,
por duas vezes, Medida Provisória que tratou de direito penal não incriminador.
Uma das vezes foi em relação ao crime tributário, quando a pessoa devia ao
Estado. Assim, foi editada uma Medida Provisória versando que a pessoa que
fizesse o pagamento da dívida ficaria extinta da punibilidade. A segunda hipótese
foi em relação à abolitio criminis temporária, no Estatuto do Desarmamento. Em
2003, com a aprovação do Estatuto do Desarmamento, foi definido um prazo
para que as pessoas pudessem entregar suas armas de fogo ou registrá-las.
Durante esse prazo não era crime a posse de arma de fogo. Tal prazo foi pror-
rogado várias vezes por medidas provisórias. Assim, ao mesmo tempo que se
aumentava o prazo, aumentava-se também o tempo da abolitio criminis tempo-
rária (questão de direito penal).
Nas duas situações acima o Supremo Tribunal Federal foi provocado e em
ambas deu um parecer favorável. Então, para o Supremo é possível a Medida
Provisória em direito penal não incriminador, mas essa é vedada no âmbito do
direito penal incriminador.
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4. Só existe crime a partir da vigência da lei, não se aplica a fatos anterio-


res. Em relação a este disposto é complementado por outro, inciso XL, que diz:
• A lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu;

Atenção!
O dispositivo que dispõe sobre a retroatividade benéfica não versa a respeito
da lei processual penal, pois essa tem aplicação imediata, mesmo que seja
maléfica e que o processo esteja em andamento.

5. Normas híbridas: são normas que possuem conteúdo penal e processual


penal, não podendo ser separadas. Sobre essas normas aplica-se a regra penal:
só retroage para beneficiar o réu.
6. Normas benéficas retroagem:

Art. 2º, parágrafo único do CP: A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o
agente, aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença conde-
natória transitada em julgado.

 Obs.: se a pessoa foi condenada e é criada uma nova norma benéfica ao réu é
criada durante a execução de sua pena, esta poderá ser aplicada ao con-
denado por meio do juiz de execuções. Ou seja, a lei benéfica retroage
mesmo que tenha ocorrido o trânsito em julgado de sentença penal
condenatória (Súmula n. 611 do STF).

PRINCÍPIO ESTRITA LEGALIDADE, DA RESERVA LEGAL E DA TAXATIVIDADE

Art. 5º, XXXIX – não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia
cominação legal;

A lei deve definir a conduta criminosa, ou seja, dispor estritamente o que é o


crime (não pode ser lei genérica).
Um exemplo de lei genérica é a Lei de Abuso de Autoridade, assunto que
será tratado no próximo bloco de aula.

Este material foi elaborado pela equipe pedagógica do Gran Cursos Online, de acordo com a
aula preparada e ministrada pelo professor Wallace França.

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