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Superior Tribunal de Justiça

MEDIDA CAUTELAR Nº 18.751 - SP (2011/0297037-3)

RELATOR : MINISTRO LUIS FELIPE SALOMÃO


REQUERENTE : DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO
ADVOGADO : CAROLINA DALLA VALLE BEDICKS - DEFENSORA PÚBLICA
REQUERIDO : UMBERTO SALOMONE - ESPÓLIO
REPR. POR : LÚCIO SALOMONE - INVENTARIANTE
ADVOGADO : SABRINA BERARDOCCO CARBONE E OUTRO(S) - SP138405

DECISÃO

1. Trata-se de medida cautelar, com pedido de liminar, objetivando o


destrancamento e a concessão de efeito suspensivo a recurso especial interposto contra
acórdão prolatado pelo TJ/SP, em sede de agravo de instrumento.
Noticia a requerente que foi ajuizada pelo requerido ação de reintegração de
posse de área onde residem cerca de 4.600 pessoas, sendo certo que somente 30 foram
citadas pessoalmente, não tendo sido publicado edital para a citação das demais.
Acrescentou que não houve intervenção do Ministério Público no curso da ação.
Não obstante, foi concedida liminar para permitir a reintegração, momento em
que a Defensoria Pública alegou as aludidas nulidades, ensejando a suspensão do
cumprimento do mandado pelo Juízo singular.
Foi interposto agravo de instrumento contra essa decisão, que restou provido
pelo Tribunal a quo, nos termos da ementa, ao fundamento de que desnecessária a citação
quando muitos os réus, sem a possibilidade de identificação de todos, bem como que a falta
de intervenção do parquet não geraria nulidade, uma vez que a liminar não fora cumprida.
Confira-se:
POSSE. Reintegração. Sustação de reintegração ordenada por esta Corte.
Inexistência de fato ou nulidade supervenientes a afastar o cumprimento da
ordem. Direito do agravante à posse perdida, em torno da qual gira a
discussão. Agravo provido.

Nas razões do recurso especial interposto com fundamento na alínea "a" do


permissivo constitucional, foi apontada violação dos arts. 82, III e 231, I, do CPC.
Apontou como fumus boni juris a ensejar a cautelar a manifesta ofensa aos
arts. 82, III, e 231, I do CPC, tendo o Ministério Público se manifestado no sentido da
configuração das nulidades.
O periculum in mora consubstancia-se no fato de que a área litigiosa é ocupada
desde 2005, contando com cerca de 645 famílias e 4.600 pessoas, havendo 800 crianças,
inclusive matriculadas em escolas municipal e estadual próximas ao local, que serão
removidas sem possibilidade de exercerem seu direito de defesa na ação de reintegração,
caso se dê cumprimento ao mandado.

Outrossim, trouxe à colação precedentes desta Corte, que entenderam pela


excepcional possibilidade de mitigação da regra do art. 542, § 3º, do CPC, destrancando-se o
recurso especial ante o iminente e irreversível prejuízo à parte.
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A liminar foi concedida apenas para destrancar o recurso especial,
possibilitando o seu juízo de admissibilidade na instância a quo.

É o relatório.

2. Com efeito, o REsp 1.314.615, ao qual se referia a presente cautelar, foi


julgado em decisão assim ementada:
RECURSO ESPECIAL. DIREITO PROCESSUAL CIVIL. REINTEGRAÇÃO DE
POSSE. INVASÃO COLETIVA DE IMÓVEL POR NÚMERO INDETERMINADO
DE PESSOAS. CITAÇÃO POR EDITAL DOS INVASORES NÃO
ENCONTRADOS PELO OFICIAL DE JUSTIÇA. NECESSIDADE.
LITISCONSÓRCIO PASSIVO MULTITUDINÁRIO FORMADO POR RÉUS
INCERTOS. AUSÊNCIA DE CITAÇÃO FICTA. NULIDADE DO FEITO.
1. É firme a jurisprudência do STJ no sentido de que a ausência de
intimação do Ministério Público não enseja, por si só, a decretação de
nulidade do julgado, salvo a ocorrência de efetivo prejuízo demonstrado nos
autos.
2. Nas ações possessórias voltadas contra número indeterminado de
invasores de imóvel, faz-se obrigatória a citação por edital dos réus
incertos.
3. O CPC/2015, visando adequar a proteção possessória a tal realidade,
tendo em conta os interesses público e social inerentes a esse tipo de
conflito coletivo, sistematizou a forma de integralização da relação jurídica,
com o fito de dar a mais ampla publicidade ao feito, permitindo que o
magistrado se valha de qualquer meio para esse fim.
4. O novo regramento autoriza a propositura de ação em face de diversas
pessoas indistintamente, sem que se identifique especificamente cada um
dos invasores (os demandados devem ser determináveis e não
obrigatoriamente determinados), bastando a indicação do local da
ocupação para permitir que o oficial de justiça efetue a citação daqueles
que forem lá encontrados (citação pessoal), devendo os demais serem
citados presumidamente (citação por edital).
5. Na hipótese, deve ser reconhecida a nulidade de todos os atos do
processo, em razão da falta de citação por edital dos ocupantes não
identificados.
6. Recurso especial provido.
(REsp 1314615/SP, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA
TURMA, julgado em 09/05/2017, DJe 12/06/2017)

Dessarte, o superveniente julgamento do recurso evidencia ainda mais o


exaurimento dos efeitos da presente cautelar, haja vista que ela foi concedida tão somente
para determinar ao juízo a quo que efetuasse o juízo de admissibilidade do recurso especial.
3. Ante o exposto, julgo extinto o processo.

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Publique-se. Intimem-se.

Brasília (DF), 29 de setembro de 2017.

MINISTRO LUIS FELIPE SALOMÃO


Relator

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