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O QUE É ANTROPOLOGIA LEGAL?

Para examinarmos os conceitos de antropologia legal, devemos discutir primeiro o problema do direito em si. Para um
estudante do direito, a questão é relativamente simples: uma lei é uma regra proposta pelas organizações próprias ao
Estado. Geralmente é uma legislação com aprovação do Executivo e dos poderes judiciários. Para o antropólogo e o
sociólogo, a lei é algo muito mais complexo. O cientista social não está interessado apenas nas regras formais
especificas e nas instituições do Estado, mas em todo o padrão das normas, e nas sanções que mantêm a ordem social e
que permitem a uma sociedade funcionar. As leis formais do Estado são somente um elemento desse padrão. De fato, o
assunto da antropologia legal clássica é exatamente o do direito “primitivo”, que é a lei nas sociedades simples e sem
escrita, onde o Estado é ausente ou muito distante.
Thomas Hobbes e muitos doutores da lei ensinaram que o Estado é um elemento necessário para garantir a ordem
social. De acordo com a filosofia de Hobbes (Leviathan, 1968), sem o poder coercitivo do Estado a vida seria
“grosseira, bruta e breve” na “guerra de todos contra todos”. A antropologia moderna provou que esta visão da
sociedade é em grande parte falsa. Muitas sociedades existiram e ainda existem sem quaisquer leis escritas, ou poder
burocrático, ou violência organizada do Estado. Isto não significa que essas sociedades não tenham regras ou normas
sociais, nem quer dizer que não há mecanismos de controle social ou sanções contra aqueles que infringem essas regras.
Todavia esses mecanismos existem em outras instituições que não o Estado e, o que é ainda mais importante, estas
instituições continuam a funcionar mesmo na moderna Sociedade urbana.
Há muitas regras e costumes dentro de qualquer sociedade, que não são leis formais, mas que mesmo assim as pessoas
obedecem. Isto é, normas e hábitos que têm efeito real na ordem social ainda que não sejam escritos em códigos ou
livros de direito. De fato, provavelmente quase toda interação e comportamento sociais ocorrem sem ação direta alguma
de qualquer Estado. Esta é a mensagem fundamental dos grandes sociólogos do direito, como Eugen
Ehrlich (Fundamental principles of lhe sociology of law, 1936), Wilhelm Aubert (Sociology of law, 1969) e Jean
Carbonnier (Flexible droit, 1971) - o papel relativamente secundário que o Estado representa na vida cotidiana e na
manutenção da ordem social. Carbonnier fez uma útildistinção entre o grand droit - as leis e instituições do Estado, e
o petit droit - as outras regras e instituições essenciais à ordem e à vida sociais.
Entretanto isto não significa que as pessoas vivendo em sociedades sem Estado, ou mesmo os modernos cidadãos
urbanos, levando uma vida calma e honesta, sejam escravos dos costumes e obedeçam às regras instintivamente e sem
questionamento. Quase todos os filósofos jurídicos, inclusive Hans Kelsen (General theory of law and state, 1952) e H.
L. A. Hart (The concept of law, 1961), ensinaram que a natureza fundamental do direito é o poder que tem a sociedade
de aplicar sanções ou punir uma conduta disruptiva ou “ilegal”. Hart sugeriu que em qualquer sociedade há “regras
primárias”, isto é, sobre o comportamento do indivíduo, e “regras secundárias”, normas da sociedade referentes às
primárias, ou seja, fórmulas sociais para aplicar sanções àqueles que não obedecem às regras primárias. O grande
antropólogo Paul Bohannan (The differing relms of the law. In: Law and warfare, 1967) propôs uma visão semelhante
quando escreveu que a maioria das sociedades tem “dupla institucionalização”, isto é, instituições sobre conduta e
instituições para punir condutas extravagantes.
Para melhor compreensão deste assunto, tomaremos como exemplo os esquimós (Inuit) do Alasca, Canadá e
Groenlândia que sobreviveram por cerca de 3.000 anos sem vestígio qualquer de Estado. “É difícil imaginar um povo
que seja mais anárquico”, disse um observador. É sabido, por exemplo, que não há nenhuma palavra para “guerra” na
língua esquimó e realmente eles julgam que grupos de pessoas brigando uns contra os outros é uma tolice.
Os esquimós vivem numa região onde, na época do inverno, o frio mata uma pessoa em cinco minutos se ela não
estiver adequadamente vestida. Eles têm sido tradicionalmente caçadores e muitos ainda o são e, no inverno, essa
atividade torna-se bastante árdua. Partindo desse fator geográfico básico, os esquimós desenvolveram durante muitos
séculos uma série de leis que lhes permite sobreviver num dos ambientes mais hostis da terra. Uma dessas leis é: quem
tem um excesso de carne ou outro alimento deve reparti-lo com os outros. Armazenar comida é um crime mortal na
visão desse povo. Em seu ponto de vista, é natural as pessoas dividirem seus bens. Devido a essa crença, os primeiros
comerciantes ingleses nunca puderam instalar um posto comercial em território esquimó. Os esquimós sempre estavam
dispostos a repartir suas peles e alimentos com os ingleses, porém nunca conseguiram entender porque estes mantinham
um estoque enorme de mantimentos sem dividi-lo. Tal procedimento não lhes era natural ou, melhor, era “crime”. Por
três vezes os ingleses estabeleceram postos comerciais no território esquimó no século passado e por três vezes, após
algumas discussões sobre justiça e divisão, as comunidades esquimós simplesmente mataram os comerciantes ingleses e
distribuíram seus alimentos. Isto foi “justo” para o direito esquimó, já que, para eles, o crime mortal não era o roubo,
mas sim a ganância.
Modelos sobre a dualidade da lei

Outra lei esquimó foi relatada pelo antropólogo Knud Rasmussen (Intellectual culture of the Iglulik eskimos. In:
Reports of the Fifth Thule Expedition — 1921-1924), da Groenlândia, em 1929. Uma regra geral de todas as sociedades
esquimós é: em épocas de privações, geralmente no inverno, os indivíduos que não podem mais produzir ou caçar não
devem comer. Portanto, ás vezes, deixavam-se morrer crianças nascidas no inverno e, o que é também de se notar,
esperava-se que as pessoas muito velhas, consideradas inúteis à sociedade, se matassem. Este era um dos mais sagrados
deveres dos idosos: devido aos rigores do inverno e à escassez de alimentos, eles deviam sacrificar-se para que os
demais membros do grupo pudessem sobreviver. Era bem possível, em tais casos, que os velhos perambulassem pela
neve e desaparecessem. Porém Rasmussen informou que era mais correto e honroso para o filho mais velho ajudar seus
pais a cometerem o suicídio. Qualquer outra coisa era sinal de desrespeito. Ele conta o caso de uma família com quem
estava viajando em pleno inverno de 1921, em que a velha mãe da família decidiu que não mais poderia continuar
viajando. Para honrá-la, o filho construiu-lhe um iglu sem saída e ela sentou-se nele confortavelmente Depois disto, a
família inteira cantou músicas de despedida ao redor do iglu durante toda a noite e continuou a viagem na manhã
seguinte. Isto é homicídio na visão ocidental, mas também é o maior ato de justiça para os esquimós.

Este é, então, um postulado básico da antropologia legal, o de que as regras são feitas a partir de bases sociais e
econômicas e precisam ser vistas em seu conteúdo social. Além disso, de acordo com Sally Falk Moore (Law as
process, an anthropological approach, 1978) e outros antropólogos jurídicos, as sociedades sem Estado, “primitivas”,
raramente têm leis nocivas ou inúteis. Sem um instrumento para fazê-las cumprir e sem maneira de escrevê-las, as leis
desnecessárias serão geralmente esquecidas dentro de poucos anos. Desse modo, as leis dos povos “primitivos” são
freqüentemente muito mais verdadeiras do que as das sociedades modernas, além de serem geralmente bem conhecidas
por quase todos os membros da sociedade. Assim, é possível falar de uma “cultura legal” como aquela estrutura e
hierarquia de normas e valores que permitem a uma pessoa sobreviver em seu ambiente, em sua sociedade. Além disso,
as leis que compõem o padrão legal das sociedades simples devem ser relativamente poucas, já que não as há escritas e
poucos são os especialistas em direito (se é que há algum) para elaborá-las. Assim, o antropólogo legal concordaria não
com Kelsen, para quem o direito é uma ciência pura, coerente em si mesma, mas poderia anuir com Oliver Wendell
Holmes, ou seja, que a vida do direito não é a lógica, mas a experiência.
As regras da sociedade sem Estado, o direito “primitivo”, são uma acumulação histórica das normas de vida social que
se têm mostrado valiosas ao longo das gerações, no sentido de manter a ordem e a organização sociais. Essas regras são
freqüentemente expressas em fórmulas que se mostram estranhas aos estudiosos do direito europeu, em formas
metafísicas ou religiosas, e o desvio é muitas vezes caracterizado como feitiçaria ao invés de crime. Contudo, a
sociedade pode funcionar muito bem desta maneira.
Não se deve supor, porém, que as sociedades simples e sem Estado não tenham instituições de verdadeiro poder para
punir os transgressores. O modelo das regras primárias e secundárias proposto por Hart (The concept of law, cit.) pode
aplicar-se igualmente à antropologia legal e ao direito moderno. Para os antropólogos contudo, as burocracias jurídicas
formais são apenas algumas dentre as diversas instituições que podem aplicar sanções aos indivíduos.
Anthony F. C. Wallace (Administratíve forms of social organization, 1968) referiu três instituições principais que
formam a ordem social. São elas: a família, a comunidade e a administração.
As categorias são imperfeitas, porém muito úteis, e podem ser combinadas ou ainda mais divididas. A “administração”,
por exemplo, pode incluir tanto corporações como um governo. Ambos têm o poder de aplicar sanções. Porém, em
geral, a divisão é útil para uma análise das forças de ordem social em qualquer sociedade. No caso dos esquimós citado
acima, pode-se ver a importância tanto da família como da comunidade em fazer cumprir as normas sociais.
Uma série adicional de conceitos importantes de serem salientados são aqueles desenvolvidos por Max Weber em sua
análise de política e lei (Economy and society, 1968). Eles estão correlacionados à contradição fundamental em
qualquer estudo jurídico que, por sua vez, se relacione com o problema da dualidade da lei ou com as regras primárias e
secundárias. O direito consiste numa série de normas e regras que são consideradas, pelo menos por muitos, como boas
e justas, e que deveriam ser obedecidas. Mas a lei é também um sistema de punir os indivíduos que desobedecem a
essas regras. Esta é a grande questão, proposta por Weber, que é assunto não só da antropologia legal, mas também de
toda a ciência Política: por quê um homem obedece a um outro?

Nesta pergunta, Weber fez a distinção fundamental entre: 1) autoridade (Herrschaft) que é a obediência voluntária
porque o indivíduo crê que ele deve obedecer; e 2) poder (Macht), que é a obediência obtida apesar da oposição Nas
palavras mais exatas: “Autoridade é a probabilidade de que uma ordem com um certo conteúdo seja obedecida por um
grupo definido de pessoas qualquer que seja o motivo para esta obediência”, enquanto “poder é a probabilidade de que
esta ordem seja obedecida apesar da oposição” (Weber Economy and socíety, cit., p. 35).

Outro conceito básico proposto por Weber é o da legitimação. Este é, fundamentalmente o processo de criar poder, ou
um padrão de ordens e obediência justo na opinião das pessoas. A autoridade legítima é a autoridade sem oposição
perceptível, obediência livre. É importante observar que na opinião do cientista social, a legitimação não é simples-
mente ato de uma legislatura ou de um órgão oficial, porém processo social pelo qual os líderes de uma sociedade
demonstram que suas ordens são de interesse geral para o povo.

Finalmente, há certas distinções básicas no tipo de pesquisa que os antropólogos fazem no domínio da lei. O primeiro
é o trabalho clássico do antropólogo legal, já parcialmente discutido, o estudo da ordem social, de regras e sanções em
sociedades “simples”, o “direito primitivo” na terminologia mais antiga (v. Hoebel, The law of primitive man: a study in
comparative legal dinamics, 1954). Este é o campo tradicional da antropologia legal e há centenas de estudos sobre este
tema publicados, inclusive muitos dos grandes clássicos da antropologia. A essa disciplina denominaremos antropologia
legal.

Um segundo tipo de pesquisa que tem interessado aos antropólogos pode ser chamado de antropologia jurídica. É o
emprego de métodos antropológicos de pesquisa, observação participante e comparação com modernas instituições do
direito. Trabalhos nesta linha têm sido feitos na Polícia, na magistratura e até em prisões. São feitos estudos também nas
instituições jurídicas que ligam o Estado e a lei urbana às comunidades rurais isoladas. Deve-se dizer que este tipo de
pesquisa é, às vezes, muito difícil de ser levado a termo, porque, como notou o grande antropólogo do direito
norueguês, Wilhelm Aubert (Sociology of law, cit.), os detentores do poder freqüentemente não querem vê-lo como alvo
de estudos, e já que eles têm poder, podem impedir tal pesquisa, se quiserem. O exemplo mais óbvio disto é a
dificuldade que envolve o estudo da sociologia política.
Um terceiro campo de pesquisa para o antropólogo, bem como para o estudioso da ciência jurídica, é o do direito
comparado, cujas principais escolas encontram-se na França e no México. O antropólogo está numa posição
excepcionalmente boa para auxiliar nesta espécie de trabalho, pelo alcance de seu conhecimento multicultural e de sua
consciência de muitos tipos diferentes de instituições jurídicas que não as das sociedades modernas ocidentais. Porém,
até agora, a união entre os campos do direito e da antropologia tem-se mostrado bem distante.

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O PROBLEMA DA ORDEM NAS SOCIEDADES SIMPLES

Iniciaremos este capitulo com o caso de um índio Cheyenne apresentado por Llewellyn e Hoebel (The Cheyenne way,
cit., Caso 2, p. 6-9), contado por Lobo Negro.

“Pawnee, quando muito jovem, era um Cheyenne da região sul, porém nos anos posteriores morou conosco aqui em
cima. Ele estava o tempo todo cuidando da moral das pessoas e aconselhando os rapazes sobre o bom comportamento.
Eu o ouvi contar sua história muitas vezes quando eu era muito jovem, porém sempre a estava nos contando como uma
lição. Ele tinha sido um velhaco terrível, lá embaixo, em Oklahoma, quando era moleque: roubando carne das
prateleiras das pessoas, pegando seus cavalos para um passeio sem lhes pedir autorização. Depois, quando chegava ao
local em que ia, soltava o cavalo e o deixava vaguear de volta a seu dono, se é que alguma vez o animal o fazia.
Desrespeitava muito as pessoas e as xingava na cara. Todos achavam que ele era um menino desprezível e era
considerado culpado por qualquer coisa que acontecesse no acampamento. Esta história que vou contar aconteceu...
quando os soldados estabeleceram um regulamento de que ninguém no campo podia pegar o cavalo de uma outra
pessoa sem permissão. Isto é o que Pawnee costumava nos contar:

“Lá embaixo (em Oklahoma) havia dois cavalos malhados muito amados pela sua família. Um dia eu os peguei e me
dirigi para o oeste. Três dias se passaram e eu ainda me encontrava a salvo. Agora eu estava fora de dificuldade e então
comecei a me sentir muito bem. No quarto dia, enquanto olhava para trás, vi surgirem algumas pessoas. Não é nada,
pensei, apenas algumas pessoas viajando. Quando me alcançaram, vi que eram soldados Corda-de-Arco procurando por
mim.

“Você roubou aqueles cavalos”, eles gritavam enquanto me puxavam de meu cavalo. “Agora nós encontramos o seu
rastro”. Atiraram~me no chão e me bateram até que eu não pudesse ficar de pé, estragaram minhas armas e danificaram
minha sela; cortaram meus cobertores, mocassins e deixaram minhas roupas em tiras. Quando terminaram, levaram toda
a minha comida e saíram com os cavalos, deixando-me sozinho na planície, com dores e sem recursos, fraco e ferido
demais para me locomover.

No dia seguinte, iniciei o retorno, viajando o melhor que pude o dia todo. Eu sabia que lá fora tinha um pequeno
acampamento de caçadores de búfalos e estava procurando por ele. Viajei o dia todo. No dia seguinte, pensei que fosse
morrer. Eu não tinha comida, somente água. À tardinha acampei num riacho. Meus pés estavam sangrando e eu não
podia caminhar mais. Rastejei vagarosamente sobre as mãos e joelhos até o cimo de uma alta colina a fim de achar um
lugar para morrer. Esperei em pranto. Longe, ao sul de mim, eu podia ver a terra ondulada; à oeste, minha visão estava
bloqueada. Meu cachimbo e meu tabaco tinham desaparecido. Sem fumo, eu me sentei pensando em muitas coisas,
enquanto observava o sangue pingar através de meus pés inchados.

Enquanto eu contemplava firmemente o sul, um caçador apareceu na colina atrás de mim. Quando me viu, ele parou e
observou-me por longo tempo. Após três dias e duas noites na minha situação, eu devo ter estado quase surdo, pois não
o ouvi até que ele falasse de seu cavalo bem atrás de mim. Eu estava nu. Levei um susto quando ouvi sua voz surgir no
silêncio.
O homem desceu do cavalo e me abraçou. Ele chorou de tão mal que se sentia ao ver minha situação. Era Lobo-do-
Dorso-Alto, um homem jovem, porém já um chefe. (Um famoso chefe Cheyenne, morto posteriormente numa
escaramuça com as tropas americanas em julho de 1865 - nota de Llewellyn e Hoebel.) Ele colocou seu cobertor em
volta de mim e levou-me para casa. O acampamento era no riacho abaixo, escondido bem em torno de uma curva onde
eu não o tinha visto. Sua esposa me deu comida e me alimentou.
Depois Lobo-do-Dorso-Alto mandou buscar os chefes que estavam no acampamento. Quatro ou cinco vieram, um
dos quais era um chefe-soldado.
Lobo-do-Dorso-Alto falou primeiro ao chefe-soldado: ‘Esta é a primeira vez, desde que me tornei um grande chefe
tribal, que encontrei por acaso um homem tão pobre; agora vou equipá-lo. Até que ele se restabeleça, não lhe farei
perguntas. Depois saberemos como ele veio a ficar nu. Eu não vou pedir a vocês para lhe darem qualquer coisa, a
menos que vocês desejem fazê-lo. Conheço este homem’, ele disse. ‘Ele é um grande fumante. Porém não vou lhe dar
fumo até que ele tenha em primeiro lugar comida.’ (Na minha própria opinião, eu preferiria fumar primeiro.)
Em primeiro lugar, deram-me um pouco de sopa, depois carne.
Depois Lobo-do-Dorso-Alto encheu o cachimbo. Enquanto ele o apontava nas cinco direções, orava: ‘Este é o meu
primeiro ato bom como chefe. Ajude este homem a dizer a verdade’. Depois, segurou o cachimbo para que eu fumasse;
em seguida, deu-o ao próximo homem e aos outros. Então ele encarou-me novamente. ‘Agora conte a verdade. Você foi
agarrado por inimigos e despojado de seus pertences? Ou foi alguma outra coisa? Você me viu fumar este cachimbo,
você o tocou com seus próprios lábios. Isto é para ajudá-lo a falar a verdade. Se você nos disser honestamente, Mayun
te ajudará’.
Eu contei-lhes toda a história. Contei a quem pertenciam os cavalos que roubei. Contei-lhes que foram os soldados
Corda-de-Arco que me haviam punido.
Lobo-do-Dorso-Alto sabia que eu era maroto, portanto ele me repreendeu. ‘Agora você tem idade suficiente para saber
o que é certo’, ele pregou. ‘Você tem estado em guerra. Agora desista desta tolice. Se não tivesse acontecido de eu ir
passear nas colinas a cavalo, você teria morrido. Ninguém saberia o seu fim. Você sabe como nós Cheyennes tentamos
viver. Você sabe como caçamos, como vamos à guerra. Quando pegamos cavalos, os pegamos dos inimigos, não dos
Cheyennes. Seria melhor você juntar-se a uma sociedade militar. Você pode aprender bom comportamento com os
soldados. Porém peço-lhe uma coisa. Seja decente de agora em diante! Pare de roubar! Pare de debochar das pessoas!
Não use mais uma linguagem grosseira no acampamento! Leve uma vida decente!’
‘Agora vou auxiliar você. Ë para isto que estou aqui, porque sou um chefe do povo. Aqui estão suas roupas. Lá fora
há três cavalos. Você pode fazer sua escolha.’ Ele me deu um revólver de seis tiros. ‘Eis uma pele de onça. Eu
costumava usá-la nos desfiles. Agora eu a dou a você.’ Ele me ofereceu todas estas coisas e eu as peguei.
Os outros me deram peles de castor para trançar em meu cabelo, colares e mocassins extras e mais dois cavalos.
Depois Lobo-do-Dorso-Alto finalizou: ‘Agora, não vou te dizer para deixar este acampamento. Você pode ficar aqui o
tempo que desejar. Não te direi que direção tomar, oeste ou sul’.
Eu tinha uma namorada no sul, porém quando essas pessoas fizeram isto por mim, senti-me envergonhado. Tinha
todas as coisas com as quais pareceria belo, porém não ousei voltar, pois eu sabia que ela teria ouvido o que os Corda-
de-Arco fizeram a mim. Achei mais conveniente ir para o norte até que a coisa estivesse morta.
Quando os Flexas se foram, renovados, os Raposos (sociedade de soldados) montaram sua tenda para conseguir mais
homens. Eu entrei, me reuni a eles... Eu permaneci com os Cheyennes do norte por muito tempo, até o tratado de Horse
Creek. (Um tratado observado pelos índios, em 1851, porém nunca ratificado pelo Congresso dos Estados Unidos
— nota de Llewellyn e Hoebel.) Embora eu viesse a me tornar um chefe dos Soldados Raposos entre os povos do norte,
eu nunca me importei com os bandos do sul. Essas pessoas sempre se lembravam de mim como uma pessoa sem valor.
Vocês, meninos, lembrem-se disso. Você pode fugir, porém seu povo sempre lembra. Apenas obedeçam às leis do
acampamento e vocês farão tudo certo”’.

Esta história, excepcionalmente rica em sutileza e detalhes revela tanto o método antropológico como a prática real do
direito “primitivo” em sua melhor forma. A vantagem do estudo do direito nas sociedades simples é reduzir os seus
elementos: a formação, a ajudicação, a aplicação e a execução da lei, como a reabilitação a seus elementos mais básicos,
livres de burocracias complexas, ou mesmo de confusões deliberadas. O direito é fundamentalmente uma série de regras
primárias, desenvolvidas para permitir que uma sociedade funcione, para solucionar disputas entre grupos e entre
indivíduos, e também uma série de normas secundárias, estabelecidas para cercear aqueles que ameaçam a ordem social
sob controle.

É um erro dizer que as sociedades socialmente simples e sem Estado não têm leis. Como se viu no caso de Pawnee, o
povo Cheyenne tinha leis, maneiras formais de estabelecer leis, juízes e até Polícia. A diferença é que todas essas
funções eram realizadas pelos membros da própria comunidade e não por setores burocráticos profissionais. Lobo-do-
Dorso-Alto, em seu papel de grande chefe, agia como juiz e conselheiro, porém principalmente por conta própria e
arcando com as despesas.
Já que nas sociedades simples geralmente falta um sistema administrativo profissional, elas precisam contar com
outras instituições de ordem social, de modo especial a família, que é fundamentalmente um agrupamento biológico e
social, e a própria comunidade que, nessas sociedades, é basicamente uma unidade econômica. Esses grupos têm
imenso poder real.
Na prática, provavelmente se possa dizer com segurança que a família é a instituição legal mais importante em todas
as sociedades. Seu papel no controle social é duplo. Primeiro, ela é fundamental na socialização, na incorporação dos
valores e da cultura legal de uma sociedade aos seus membros mais jovens. Ainda que a comunidade maior compartilhe
disto, não há dúvida de que a orientação social básica de uma pessoa provém do seu próprio lar, que é o grupo de
parentes ou a família.
Este problema de ontogonia da lei foi foco de inúmeras pesquisas, de Sigmund Freud a Jean Piaget. (Para uma
sinopse desse problema atual, v. Lickona, Moral development and behavior, 1976.)
Em segundo lugar, a família age de maneira muito mais direta ao punir imediatamente uma conduta que seus
membros vêem como incorreta. Em parte isso é importante por causa dos fortes laços de dependência emocional que os
membros mais jovens da família normalmente sentem por aqueles que os criaram. Também durante todo o período da
dependência infantil, são geralmente os membros mais velhos da família que punem diretamente os procedimentos
considerados inadequados dos mais jovens, ao lhes negar afeição, alimento, ou punindo-os fisicamente. Este papel de
sanção da família continua, freqüentemente, por toda a vida, e muitas sociedades acreditam que a família seja o agente
principal de controle social em todas as ocasiões. É exemplo desse tipo de sociedade, até hoje, o Japão.
É necessário observar aqui que o antropólogo está consciente da ampla variação nos modelos de família. A família
nuclear básica, composta de pais e filhos, tão comum na moderna sociedade ocidental, é rara no mundo em geral. As
sociedades “simples” muitas vezes têm uma organização familiar excepcionalmente complexa e geralmente são essas
famílias “maiores” que em muitas culturas formam tanto as instituições de socialização como as de sanção. Pode-se
observar o extenso clã patrilinear, às vezes com dúzias de gerações envolvendo milhares de pessoas, que tiveram uma
enorme importância legal na sociedade tradicional de países como China, Japão e Coréia. Nessas sociedades, ser
expulso do clã de alguém não era simplesmente uma desgraça, significava uma perda real dos direitos civis e
econômicos, já que o Estado aceitava a decisão da família nesses assuntos.
A segunda grande instituição legal nas sociedades simples é a comunidade. A comunidade é normalmente definida
como um grupo co-residencial que vive todos os dias frente a frente. Esta definição é útil desde que possa ser aplicada
tanto aos bairros urbanos como às vilas rurais e às cidades. Nas sociedades de caça e colheita, bem como nas sociedades
agrícolas, a comunidade muitas vezes tem um significado mais profundo. Isto é devido ao fato de nessas sociedades a
comunidade poder também formar a base econômica e a unidade de produção. Nas sociedades que se dedicam à caça, o
grupo de caçadores é denominado “bando” pelos antropólogos e pode abranger poucos ou centenas de indivíduos. A
“comunidade” em tais sociedades pode, freqüentemente, consistir de vários bandos, embora o vínculo possa ainda ser
econômico: os bandos bem-sucedidos na caça repartem com os menos favorecidos da comunidade. Nas aldeias
agrícolas, o maior grupo econômico pode ser necessário somente em períodos específicos do ano, como na colheita ou
na época de preparo de novas roças, quando o trabalho comunitário (no Brasil, o mutirão) é necessário.
Foi Malinowski quem primeiro enfatizou a importância da interdependência econômica da comunidade na ordem
social. Qualquer membro de uma pequena sociedade comunal está atado a uma rede muito complexa de dívidas e
obrigações econômicas que são importantes para a sua própria sobrevivência e a de sua família. A expulsão da
comunidade significa, na melhor das hipóteses, ostracismo social, e, na pior, morte pela fome. Embora em algumas
sociedades de caçadores, possa ser possível um indivíduo sobreviver sozinho, como Pawnee pareceu sentir que pudesse
fazer, no final das contas é altamente difícil viver só, e mesmo Pawnee foi forçado, com o tempo, a retornar ao bando,
senão ao dele pelo menos a um outro. A vida solitária, em qualquer circunstância, seria extremamente arriscada e
desagradável. Dessa maneira, a comunidade mantém verdadeiro domínio sobre seus membros, assim como tem também
uma vantagem no controle social que a cidade moderna não possui. Devido ao fato de seus membros estarem
regularmente em interação constante uns com os outros, todos sabem o que sucedem com seus vizinhos. Nessas
condições, é muito difícil manter um ato desviado em segredo. Por outro lado, as redes sociais e econômicas altamente
complexas, existentes nessas sociedades, em geral levam a crer que as pessoas não estão dispostas a tomar atitudes
violentas contra vizinhos, O ato de violência pode conduzir de forma muito fácil a uma outra ação violenta posterior,
em resposta, podendo mesmo causar uma ruptura perigosa na estrutura social e econômica da comunidade, a menos que
haja um consenso geral de que a violência deve ser aplicada pela própria comunidade contra um determinado indivíduo.
Assim é que a maioria das sociedades sem Estado desenvolveu uma série elaborada de sanções sociais e psicológicas
mais leves a fim de dar uma advertência adequada ao infrator, bem como obter o apoio da comunidade antes de tomar o
passo sério da expulsão violenta ou da execução comunal.
Os esquimós, um povo anárquico em política, mas com leis muito bem elaboradas, têm uma série progressiva de
sanções desta espécie:
1) Escárnio: os esquimós são mestres na arte de se divertir com os defeitos dos outros, como o egoísmo, a cobiça, ou
o orgulho excessivo. Qualquer pessoa que não se sinta bem tratada por outra, começa a ridicularizá-la em público. Isto é
tanto uma sanção direta como uma maneira de ganhar o apoio da comunidade. Muitos antropólogos foram atormentados
pela arte do escárnio dos esquimós.
2) Disputas constantes: se o escárnio é insuficiente para mudar a conduta de alguém, o indivíduo ofendido pode
desafiar seu oponente para uma competição com música, onde a disputa é apresentada e discutida publicamente, de
maneira formal, através do canto e da música. Este é um modo de expressar hostilidade publicamente com um mínimo
de ruptura violenta à estrutura social; é um mecanismo usado nas pequenas comunidades em todas as partes do mundo
(semelhante ao desafio, costume do Brasil e de Portugal).
3) Recorrendo à influência de um ancião respeitado: este indivíduo deve ser parente do acusado e o ofendido precisa
ser capaz de persuadi-lo da seriedade do problema e de que este é do interesse da comunidade.
4) Destruição das armas e da provisão de alimentos do outro: ato de violência muito sério, porém ainda não é contra
a pessoa, mas muitas vezes pode gerar mais violência.
5) Desafio para um duelo de boxe: é um estado de violência aberto, embora ainda controlado por certos regulamentos
públicos e fixos. Uma partida de boxe esquimó acontece com golpes formais trocados alternativamente até que um
membro desista ou seja posto fora de combate, inconsciente.
6) Homicídio: se tudo o mais fracassar, um individuo ofendido tem a faculdade de tentar matar seu inimigo. Isto pode
tomar duas formas. Se o ofendido tiver o apoio da comunidade, poderá recrutar outros membros dela, inclusive parentes
do próprio inimigo, para ajudá-lo. Nos casos extremos de indivíduos altamente hostis, uma comunidade pode convencer
seu irmão ou primo a cometer o ato, confirmando assim o consenso geral para uma “execução”. Nos casos onde o
acusador não tem o apoio da comunidade, ele pode agir sozinho, porém sabendo que depois terá que fugir para evitar
vingança por parte dos parentes da vítima (van den Steenhoven, apud Hoebel, The law of primitive man, cit.).
A função principal desses procedimentos elaborados pelo direito esquimó, como em outras sociedades simples, é obter
a simpatia popular, o apoio geral, para que a própria comunidade atue como uma unidade ao sancionar o infrator. Isto é
importante para evitar divisões na comunidade e nos feudos, o que poderia prejudicar muitas pessoas. Nestas sociedades
não há “crimes” no sentido de um delito contra a comunidade, mas só contra indivíduos. Mesmo assim pode haver
“criminosos”, como pessoas condenadas pelo grupo social por uma série de delitos individuais.
Nas sociedades de caçadores e coletoras, estes mecanismos comunitários são menos desenvolvidos do que nas
sociedades agrícolas, já que uma cisão física naquelas comunidades é normalmente menos prejudicial. O grupo
ofendido pode simplesmente ir para um outro lugar. Nas sociedades agrícolas, com comunidades mais fixas e maior
acúmulo de riquezas, os mecanismos para impedir a divisão dos feudos e das comunidades são muito mais severos. É
nessas sociedades agrícolas que encontramos os primórdios das instituições jurídicas, como juizes e processos.
Robert Weaver Shirley, In: “Antropologia jurídica”, São Paulo, 1987, Saraiva