Você está na página 1de 1

Sexta-feira, 10 de outubro de 2003 DIÁRIO DO GRANDE ABC 3

O educador Tião Rocha fala sobre o Bornal, Para ele, o jogo é ótimo instrumento de
projeto que utiliza jogos para auxiliar em educação que promove uma interação
diversas situações de aprendizagem prazerosa entre alunos e professor

O JOGO Seri

também
ensina
ião Rocha é antropólogo, folclorista e

T
educador, presidente e fundador do
CPCD (Centro Popular de Cultura e
Desenvolvimento), ONG de Belo
Horizonte, Minas Gerais, que realiza
trabalhos educativos por todo o
país. Na rede municipal de
ensino de Santo André, presta assessoria
para os projetos Sementinha e Bornal de
Jogos. Ele diz que “o jogo é um dos
grandes instrumentos da educação pois
ensina por meio da brincadeira e proporciona sinais de
uma interatividade interessante, uma relação soma (+) e
prazerosa, entre alunos e professores”. “As subtração (-). As
crianças precisam brincar e se divertir, mesmo crianças para realizar um oficinas, que os
na hora de aprender”, afirma. lance na partida precisavam educadores criem ou
Claudinei Plaza 14/9/01
Segundo o educador, o CPCD foi fundado fazer a operação matemática. O adaptem jogos a partir das
em 1984 com a missão de promover educação resultado foi excelente.” dificuldades em sala de aula para
popular e o desenvolvimento comunitário a Depois deste primeiro passo, a partir de auxiliarem no processo de aprendizagem. “Já
partir da cultura, tomada como matéria- 1995, a utilização dos jogos passou a ser temos inclusive jogos sobre cidadania,
prima de ação institucional e pedagógica. utilizada de forma sistematizada pelo CPCD, respeito, direitos humanos, sexualidade. Todo
Para cumprir esta missão, a ONG desenvolve conta o folclorista. tipo de dificuldade pode ser trabalhada.
diversos projetos “Criamos uma série de jogos para atender as Procuramos desenvolver medidores de
educacionais. dificuldades de aprendizagem apresentadas avanço para avaliar se os jogos estão
Embornal “Trabalhamos com pelos alunos. Como a iniciativa deu muito realmente sendo aproveitados pelos
“Para quem não sabe, embornal crianças desde certo, as crianças passaram a levar os jogos participantes. Avaliamos junto às crianças o
é uma sacola, geralmente feita de quatro, cinco para a escola e mostrar nosso trabalho. Os grau de coerência, harmonia, apropriação,
pano ou couro, usada para carregar
anos de idade professores vieram procurar o CPCD para dinamismo, criatividade, eficiência, estética,
apetrechos de trabalho, ou diversão. Nós nos
inspiramos nele para criar o nosso Bornal de no projeto obter mais informações e propor novos jogos felicidade, oportunidade e transformação de
Jogos: uma bolsa de cultura, onde podemos Sementinha, para diversos tipos de situações de ensino. um jogo.”
carregar nosso saber, a ser transformado em passando por Passamos a realizar oficinas com os Uma das principais questões para o sucesso
ferramenta para o trabalho. Nossa experiência com meninos do educadores, sempre criando ou adaptando de um jogo, de acordo com Tião Rocha, é que
educação tem nos mostrado que, para a criança é projeto Ser jogos para tratar de dificuldades em sala de ele mantenha-se “lúdico, divertido,
muito importante dominar todo o processo de Criança, que aula. Um dia um menino levou um embornal estimulante, instigador, bonito e atraente,
aprendizagem. Foi assim que, alguns dos melhores
têm de sete a cheio de jogos para a escola e daí nasceu o mesmo usado para ensino ele não pode virar
jogos foram criados ou adaptados pelas próprias
crianças. Por serem confeccionados com material 17 anos, até projeto Bornal de Jogos.” cartilha”, diz.
simples e fácil de se encontrar, os jogos perderam projetos que Segundo Tião, o CPCD chegou a ter um Tião defende que o educador precisa sentir Tião Rocha: ‘Crianças devem se
o caráter formal e passaram a fazer parte do envolvem acervo de 168 jogos para diversas situações de que o material lúdico é bom. “O professor divertir mesmo na hora de aprender’
dia-a-dia das crianças, das rodinhas de jovens e ensino. Para sistematizar a utilização desses precisa entender que o jogo é um facilitador do
amigos, transformando a aprendizagem adultos. O jogos pelo projeto Bornal a ONG criou um contato entre ele e os alunos. Um instrumento
numa grande brincadeira.” Bornal de Jogos processo de avaliação de cada um deles. de comunicação. Se o educador for um sujeito etária. Atualmente o Bornal de Jogos atende a
Texto retirado do site do CPCD
(www.cpcd.org.br)
nasceu dentro do “Testamos os jogos em vários contextos e emburrado, carrancudo, o jogo perde o prazer crianças de ensino infantil e fundamental mas
projeto Ser Criança”, cenários com alunos de ensino infantil e a alegria e, ainda assim, continua sendo mais há expectativas da criação do Bornalzinho
explica. fundamental da rede municipal da cidade de divertido que uma cópia de texto. Portanto, o (para o projeto Sementinha) e do Bornalzão
O Bornal parte do pressuposto Curvelo, em Minas, procurando certificá-los professor precisa entender que o aprendizado (para alunos do ensino médio). “O jogo
de que é possível aprender com brincadeiras, dentro do conceito de tecnologia educacional. deve ser gostoso.” O presidente da CPCD constrói interesses, tem custo baixo e pode ser
através de atividades lúdicas e divertidas, diz Alguns chegaram a ser jogados seis mil vezes. também afirma que os jogos auxiliam feito com materiais recicláveis. É melhor que a
Tião. “É possível aprender tudo, qualquer Os participantes avaliavam várias questões professores inseguros. “Ele cria um clima para Internet e possibilita que os professores criem
conteúdo através dos jogos. Nós realizávamos como uso do raciocínio, linguagem, que os educadores fiquem mais à vontade. e adaptem jogos a partir de suas necessidades.
uma ação complementar à escola no projeto expressão, comunicação, prazer. Só os que Sem aquela obrigação de responder à Promove contato com a comunidade também.
Ser Criança e passamos a ensinar brincando. tiveram aprovação acima de 70% é que foram expectativa de ser mestre, sabe-tudo. Propicia Em Santo André há experiências exemplares,
Começamos a utilizar jogos adaptados para mantidos em nosso acervo.” uma relação mais afetuosa com os alunos.” como na Emeief da Vila Floresta, onde mães
desenvolver os conteúdos. Por exemplo, Hoje o projeto Bornal está presente em O educador mineiro considera o jogo um de alunos cuidam do Bornal de Jogos. Elas
criamos um jogo de damas onde o tabuleiro vários outros municípios, inclusive em Santo dos grandes instrumentos do ensino, de criam e desenvolvem os jogos com as crianças
apresentava uma série numérica e as peças André, incentivando, com a realização de excelente interatividade para qualquer faixa dentro da escola.”
Fotos: Claudinei Plaza

A jogada da rede Aluna da Emeief


Cecília Barbazia, diretora da Emeief Maria
Maria da Graça
da Graça de Souza, na Vila Floresta, em Santo de Souza brinca
André, conta que o Bornal de Jogos é utilizado durante atividade
na escola há quatro anos. “As crianças têm promovida pelas
muitos ganhos com os jogos. Os professores ‘mães dos jogos’
percebem melhor as atitudes dos alunos e têm
mais subsídios para conhecer as crianças. O
lúdico também faz parte da aprendizagem”,
diz.
Segundo Cecília, a utilização do Bornal foi
uma iniciativa da diretora que a antecedeu.
“Ela foi atrás do projeto e trouxe para cá. E
implantou um trabalho que promoveu a
integração com mães de alunos também.
Duas vezes por semana, elas vêm para a
escola em horário de aula e desenvolvem
jogos com todas as crianças do ensino Infantil
e Fundamental.” São 50 minutos de atividade
com cada classe. A A diretora Cecília Barbazia mostra o
Fale com @ gente diretora explica que as Bornal de Jogos utilizado na escola
lhubner@diarionaescola.com.br professoras passam
Tel: 4996-1993 para as mães as ansiosas pelo dia dos jogos. Além disso, as anos. “Fiz um curso com o pessoal do CPCD diferença, mas é o sorriso das crianças que
dificuldades que mães estão até fazendo um trabalho de (Centro Popular de Cultura e fala tudo.”
enfrentam na sala de aula e elas desenvolvem sensibilização com alunos mais agressivos.” Desenvolvimento) e aprendi sobre dinâmica, Cecília lembra que os pais que não
os jogos para auxiliar naquela situação. “As De acordo com a diretora, os jogos fazem jogos de percurso e adaptação dos jogos. A conhecem bem o projeto apresentam alguma
mães criam os próprios jogos além daqueles parte do planejamento da escola. “Em todas partir do que as professoras pedem nós resistência por não entenderem que a
do Bornal.” as reuniões pedagógicas semanais eu desenvolvemos a atividade. Por exemplo, brincadeira faz parte do processo de
São seis “mães dos jogos”, voluntárias que incentivo os professores a trabalhar os jogos podemos adaptar um bingo para desenvolver aprendizagem, mas as seis mães dos jogos
trabalham divididas em três no período com as mães. Também promovemos avaliação conteúdos como matemática ou alfabeto. O fazem uma boa publicidade. “Elas vão às
matutino e três no vespertino. “Elas dos resultados.” Ela acrescenta que mesmo os Bornal traz cerca de 100 jogos, mas não outras escolas e mostram como é o trabalho
trabalham com ensino infantil às quartas- educadores mais resistentes, ao longo do ano usamos todos, às vezes criamos os nossos. O com jogos. A escola não pode ser fechada.
feiras e com o fundamental às sextas”, explica acabam se envolvendo no projeto Bornal que vem no Bornal é uma ficha explicando Dizem que o ensino público é fraco porque
Cecília. Para ela os jogos apresentam bons desenvolvido pelas mães de alunos. como é o jogo e como ele deve ser montado. não conhecem nosso trabalho, por isso é
resultados. “As crianças demonstram Lucília de Oliveira, 37 anos, um filho na Usamos material reciclado para prepará-lo. importante a propaganda das mães. A
mudanças visíveis, têm mais companheirismo 2ªsérie do 1º ciclo e outro na 1ªsérie do 2º Os resultados da utilização dos jogos são comunidade dentro da escola é o diferencial
e adoram as atividades lúdicas, elas esperam ciclo, é uma das “mães dos jogos” há quatro ótimos. Com os meus filhos eu já sinto a do ensino público municipal”, conclui.

Coordenação pedagógica – Luciana Hubner Edição – James Capelli Diagramação – Alexandre Elias Diário na Escola – Santo André é um projeto do Diário em parceria com a Secretaria de Educação e Formação Profissional de Santo André.