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ORDEM DOS ADVOGADOS

CNEF / CNA
Comissão Nacional de Estágio e Formação / Comissão Nacional de Avaliação

PROVA ESCRITA NACIONAL DO


EXAME FINAL DE AVALIAÇÃO E
AGREGAÇÃO
(RNE)

Questões de Deontologia Profissional


(6 valores)
e de
Prática Processual Civil
(5,5 valores)

30 de Junho de 2010
I
DEONTOLOGIA PROFISSIONAL

O Dr. António Águas, advogado, representa Álvaro Belo, médico, numa acção
judicial de reivindicação de um imóvel, que corre termos na 2.ª Vara Cível de
Lisboa. O valor processual é de 260.000 euros. O julgamento, já em segunda
data, encontra-se marcado para daqui a 15 dias.
Entretanto, o Dr António Águas foi contactado pela Antunes & Francisco, Lda,
para interpor uma acção judicial contra a Belo ― Clínica Médica, Lda, para
cobrança de uma dívida que ascendia a 25.000 euros. Esta sociedade de
médicos tinha como gerente o Dr. Albino e como sócios o Dr Albino e o Dr.
Álvaro Belo. A Antunes & Francisco, Lda, era representada por Antunes Dias,
que veio ter com o Dr António Águas por lhe ter sido recomendado por um
amigo comum. O Dr António Águas ouviu a exposição de Antunes Dias e, de
imediato, manuscreveu procuração, que foi de pronto assinada por Antunes
Dias enquanto representante da Antunes & Francisco, Lda.
No dia do julgamento, em conversa, o Dr. Álvaro Belo confidenciou com o Dr
António Águas que a sua sociedade andava cheia de dívidas, que um dia destes
tinha de falar com ele para tratar de uns assuntos, nomeadamente a
negociação de um acordo de pagamento com a Antunes & Francisco, Lda. O
Dr. António Águas ouviu aquilo, recordou-se que essa sociedade era por si
representada, mas nada disse ao seu constituinte.

1) Acha que o Dr. António Águas efectuou os procedimentos adequados


quando aceitou a procuração da Antunes & Francisco, Lda? Justifique a sua
opinião. (2v)

2) Entende que se verifica a violação de alguma regra deontológica


quando o Dr António Águas manteve o patrocínio da sociedade e do Dr. Álvaro
Belo? (2v)

2
3) O que faria no lugar do Dr António Águas quando se apercebeu da
situação, imediatamente antes do julgamento ter início? Justifique a sua
resposta. (2v)

II

PRÁTICA PROCESSUAL CIVIL

Mariana e Bernardo foram viver para a moradia dos seus sonhos em Agosto de
2005, juntamente com os filhos de ambos, Carolina e Miguel. A casa,
residência habitual da família, situa-se em Algés. Ela foi construída pela
sociedade Telhados Lusos, Lda., que foi contratada por Mariana e Bernardo
para tal, bem como para desenhar e projectar a casa e para apresentar o
correspondente pedido de licenciamento de obra na câmara.
A Telhados Lusos, Lda. terminou a obra e entregou a moradia a Mariana e a
Bernardo em meados de Julho de 2005.
Logo em Janeiro de 2006, depois de um Inverno rigoroso, Mariana e Bernardo
começaram a ter problemas graves de infiltração no sótão da casa, tendo
começado a aparecer humidade nas paredes do tecto e nas paredes laterais,
que ficaram negras e manchadas. Acto contínuo, Bernardo enviou logo uma
carta registada com aviso de recepção ao gerente da sociedade Telhados
Lusos, Lda. onde se queixava dos problemas das infiltrações e exigia ao
empreiteiro que resolvesse o problema.
A sociedade empreiteira não se dignou responder sequer à carta que lhe foi
endereçada por Bernardo.
No decurso do mês de Janeiro de 2009, o casal constata que as paredes
interiores da garagem da moradia, situada na cave, começaram a apresentar
fendas e fissuras muito grandes, tendo começado a aparecer água dentro da
própria garagem sem que Mariana e Bernardo conseguissem perceber de onde
vinha toda aquela água. Bernardo voltou a escrever uma carta, registada, à
Telhados Lusos, Lda., o que fez em Agosto de 2009, queixando-se dos novos
problemas encontrados na moradia que aquela sociedade havia construído e

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exigindo a reparação imediata de todos os defeitos da casa, bem como uma
indemnização pelos estragos causados pelos defeitos da casa.
Desta vez, a sociedade empreiteira endereçou uma carta a Bernardo, em Maio
de 2010, dizendo que não ia reparar as fissuras e as fendas que apareceram na
garagem, nem o problema da infiltração da água na cave da moradia, nem
qualquer outro, porque tais problemas não se deviam à construção da casa,
nem aos materiais usados na sua construção. O que sucedia, de acordo com a
sociedade empreiteira, era que a câmara municipal havia licenciado a obra
exigindo que a moradia fosse circundada por grossos e altos muros de suporte
de terras, em virtude de ela se situar num declive acentuado, pelo que os
problemas que surgiram na casa tinham de ser imputados à câmara municipal,
pois tinha sido o mau licenciamento do projecto pela câmara o facto causador
de todos os problemas sofridos por Mariana e Bernardo na sua moradia.
Fartos de conviver com uma situação que queriam ver resolvida, Mariana e
Bernardo procuraram um advogado no dia de hoje para pedir em tribunal a
eliminação dos defeitos da moradia e uma indemnização por todos os
prejuízos sofridos, mas que eles não conseguiam ainda quantificar. De todo o
modo, gostariam de ter a possibilidade de recorrer até ao Supremo Tribunal
de Justiça, no caso de as coisas correrem menos bem.

1) Elabore a petição inicial do meio processual que considerar adequado a


salvaguardar os direitos de Mariana e Bernardo, estruturando-a
adequadamente. Se achar que é necessário fundamentar alguma opção que
fez ao elaborar a peça processual, fundamente-a a final (4v)

2) Sendo mandatário de Mariana e Bernardo, pode nessa qualidade citar a


parte passiva na demanda? Fundamente. (0,50v)

3) Como e em que altura é que o pedido de indemnização deduzido por


Mariana e por Bernardo pode ser liquidado? (0,50v)

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4) No dia da audiência, as partes chegam a acordo no processo, mas não
tem poderes especiais para transaccionar em nome dos seus constituintes e
estes não estão presentes. Pode celebrar o acordo em representação dos A.A.?
Em caso afirmativo, o que sucede posteriormente? Fundamente (0,50v)