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TÉCNICAS CIRÚRGICAS

1) CELIOTOMIA

É a abertura da cavidade abdominal pela linha média do abdômen.

É realizada uma incisão retroumbilical com a ponta do bisturi, de aproximadamente 3cm,


retilínea e uniforme.

Segue-se com a divulsão do subcutâneo com tesoura Romba até que se identifique a linha
Alba. Traciona-se a musculatura adjacente à linha Alba com pinças Allis a fim de afastá-la
dos órgãos internos para realizar uma punço-incisão segura. A punço-incisão é feita
delimitando-se a ponta do bisturi com os dedos e tracionando-a em direção à cavidade
abdominal.

Feita a punço-incisão, passa-se pela abertura uma tesoura Romba-Romba fechada de


modo a localizar pontos de aderência na parede abdominal e, então, amplia-se
seguramente a incisão com a tesoura, se houver necessidade.

Em animais obesos o bisturi pode ser utilizado após a incisão para ter acesso à linha Alba.

2) CISTOTOMIA

É a incisão da vesícula urinária. Empregada na rotina principalmente para remoção de


cistólitos.

Procede-se com a retroflexão da bexiga com auxilio de compressas, forrando-a em seguida


para evitar extravasamento do seu conteúdo na cavidade abdominal. A incisão é realizada
com bisturi na linha média da face dorsal do órgão, de modo a evitar as áreas de maior
vascularização, e ampliada com tesoura apenas o suficiente para a remoção do cistólito.
Procura-se fazer a incisão o mais perto possível do ápice para evitar o local onde os
ureteres desembocam.

A sutura é feita em dois planos. O primeiro plano de sutura será invaginante


contaminante, uma vez que mantém contato com a urina. Deve-se utilizar um padrão de
sutura contínuo com fio absorvível sintético 3-0; o padrão de eleição é o Schimieden.
Passa-se tintura de iodo 2% exclusivamente sobre a incisão a fim de controlar o
crescimento bacteriano enquanto se troca o material por outro estéril. O segundo plano de
sutura, que utiliza geralmente os padrões Cushing ou Lembert, é invaginante não-
contaminante, abrangendo apenas as camadas sero-muscular.

Segue-se à omentalização de modo a evitar a aderência de outros órgãos à área da sutura.

Após a cirurgia o animal deve permanecer sondado pois a bexiga entra em atonia por
aproximadamente 3 dias após manuseio.

A retroflexão da bexiga busca reduzir o posterior contato do fio de sutura com a urina,
proporcionado pela gravidade. A sutura na porção ventral, além de aumentar o risco de
extravasamento, favorece a formação de novos cálculos pela deposição de minerais no fio de
sutura.

A bexiga é um órgão que edemacia com facilidade, podendo formar pontos de aderência que
vão interferir em acessos futuros. É contra-indicado realizar a retroflexão usando pinças Allis ou
pontos sero-musculares devido à friabilidade do tecido e a expessura da parede.

Os ureteres fazem uma tuneilização na parede vesical, desembocando na parede dorsal entre o
meio e a base da bexiga. Se a sutura for feita muito próxima a essa região, a tração do tecido
pode provocar a obstrução da saída dos ureteres.

O Categut não deve ser utilizado na sutura devido ao seu tempo rápido de absorção.

A omentalização é ancoragem do omento na área de sutura, com pontos sero-musculares na


parede da vesícula.

3) GASTROTOMIA

É a incisão da parede do estômago. É uma intervenção rotineira para remoção de corpos


estranhos e descompressão em casos de dilatação gástrica.

Com o estômago cuidadosamente exteriorizado e forrado por compressas, é realizada


uma punço-incisão com a ponta do bisturi entre as curvaturas maior e menor. Amplia-
se a incisão com tesoura Romba apenas o suficiente para a retirada do corpo estranho
sem lacerar as bordas da incisão.

Deve-se sempre observar o órgão externamente para realizar a incisão em sua parte
mais viva e a uma distância segura do piloro.

As suturas são feitas em dois planos, o primeiro utilizando padrão Schimieden e o


segundo utilizando Cushing ou lembert, com fio de sutura absorvível sintético 2-0 a 3-
0. Passar tintura de iodo 2% exclusivamente sobre a incisão para controlar o
crescimento bacteriano enquanto se troca o material cirúrgico por outro estéril.

Não se realiza omentalização se o estômago se encontrar na posição anatômica pois


aumenta-se o risco de aderência e tração de outros órgãos.

O estômago requer manuseio delicado pois é um órgão que lacera facilmente.

A artéria gástrica passa pela curvatura menor do estômago e a artéria gastroepiplóica passa
pela curvatura maior. Ambas se originam das artérias espl~enica e celíaca.

A espessura da parede gástrica pode variar se houver, por exemplo, uma gastrite ( aumento
de espessura) ou um processo necrótico ( diminuição na espessura e aumento na
friabilidade).

Incisões muito próximas ao piloro podem provocar obstrução gástrica uma vez que a sutura
pode provocar invaginação excessiva do tecido.
4) ENTEROTOMIA

É a incisão de uma alça intestinal, realizada geralmente para remoção de corpo estranho.

No Intestino Delgado:

Exterioriza-se uma boa porção das alças intestinais adjacentes àquela que será
incisada e realiza-se um ordenhamento destas de modo a afastar o conteúdo intestinal
da área de incisão. Protege-se a abertura da cavidade abdominal com compressas para
evitar extravasamento de conteúdo.

A incisão é realizada na face anti-mesentérica, enquanto o auxiliar pressiona a alça


intestinal de ambos os lados da incisão de modo a evitar refluxo de conteúdo na área
incisada.

No caso do duodeno, que é fácil de ser localizado mas tem difícil acesso por estar
intimamente aderido ao pâncreas na face anti-mesentérica, a incisão deve ser
lateralizada.

O íleo, apesar de apresentar a mesma arcada mesentérica e vascularização das demais


porções, possui uma artéria que percorre a face anti-mesentérica do seu início até o
ceco e, portanto, a incisão aqui também deve ser lateralizada.

A sutura é feita em um único plano, com padrões de sutura separados e não


invaginantes. O Swift é o padrão de escolha, pois é idêntico a um ponto simples
separado, não penetrando a mucosa, porém.

Como não há um segundo plano de sutura, realiza-se a omentalização.

No Intestino Grosso;

A incisão também é realizada na face anti-mesentérica, mas pode ser feita e dois
planos uma vez que o IG se distende facilmente.

Não se faz omentalização, tanto pela distensão quanto pela tração excessiva que pode
exercer sobre o omento devido à sua localização mais caudal. São utilizados fios
absorvíveis sintéticos 3-0 até 4-0.

A vascularização do intestino delgado é em forma de arcada no mesentério (arco jejunal,


arco terminal, e vasa reta).

No caso de corpo estranho linear, que requer múltiplas incisões, as alças já incisionadas que
estiverem fora da cavidade abdominal devem ser enroladas em compressas embebidas com
solução fisiológica morna.

O intestino delgado estenosa facilmente procedendo-se, então, um plano de sutura apenas.


Também não se utiliza padrão de sutura contínuo devido ao maior fibrosamento que tendem
a causar.

A vascularização do intestino grosso provém da artéria vasa reta, que caminha paralela ao
contorno intestinal.
5) ESPLENECTOMIA

É a remoção completa do baço. Procedimento comum na rotina, principalmente em


decorrência de neoplasias, torção e trauma grave.

Realiza-se uma incisão abdominal que se estende do processo xifóide até um ponto
caudal ao umbigo (pré-umbilical). Pode ser necessário estender a incisão em casos de
lesões extensas ou para permitir a exploração abdominal completa (pré-retro-
umbilical).

Muitos órgãos são irrigados pelos mesmos vasos principais que irrigam o baço.
Dependendo da localização da ligadura, pode haver necrose e desvitalização por
hipoxia de porções de outros órgãos, e estase sangúinea. Ligam-se, então, os pequenos
ramos secundários que adentram o baço, mas nunca a vascularização principal.

Faz-se a ligadura dos vasos seguida de incisão dos mesmos e retirada do baço.

A vascularização esplênica chega, em uma só concentração pela malha do omento, à sua


linha média. A irrigação provém da artéria esplênica, que se origina da artéria celíaca,
enquanto a drenagem e feita pela veia esplênica, que sege para a veia porta.

A artéria esplênica, antes de chegar ao baço, emite ramos para o lado esquerdo do pâncreas,
de onde também parte uma veia que desemboca na veia esplênica.

O ramo ventral, tanto da veia quanto da artéria esplênica, emite ramos para o ligamento
esplenocólico e omento maior, que por sua vez emitem outro ramo apenas para o omento
maior.Também emitem as artéria e veia gastroepiplóicas esquerdas, que vão para o
estômago e omento menor.

O ramo dorsal, além dos vasos pequenos que adentram o baço, emite as artéria e veia
gástricas menores.

6) OVARIOSALPINGOHISTERECTOMIA (OSH)

É a remoção do aparelho reprodutivo feminino (ovários, tubas uterinas e útero). É o


procedimento mais freqüente na rotina.

Técnica das Três Pinças Tradicional:

Posicionam-se três pinças hemostáticas no pedículo ovariano juntamente com o


ligamento suspensor (promimal, mediana e distal).

Segue-se à ligadura anterior à pinça proximal, e sobreligadura entre as pinças


proximal e mediana. Ao apertar o nó da sobreligadura deve-se retirar a pinça
proximal, e o nó deve ficar no lugar dela.

Faz-se uma incisão entre a pinça mediana e a distal, retirando esta última com o
ovário. Após verificar a hemostasia do pedículo ovariano e a firmeza dos nós, retira-se
a pinça mediana.
Técnica das Três Pinças Modificada:

Utilizada em pacientes cujo pedículo ovariano é muito curto (fêmeas obesas ou com pouco
relaxamento anestésico). É uma técnica desenvolvida para evitar acidentes.

Posicionam-se duas pinças no ligamento suspensório (prximal e mediana) e uma no


ligamento prórpio (distal) para evitar sangramento.

Após aplicar uma das duas técnicas no pedículo, segue-se à divulsão com tesoura Romba do
ligamento largo, de modo que o excesso do ligamento fique no animal, ajudando na
cicatrização do coto uterino.

No útero, repete-se a técnica das três pinças, posicionando-as logo distal à cervix. O fio
utilizad9o é absorvível e preferencialmente sintético.

Em cadelas os ovários são mais presos que nas gatas. A veia ovariana direita drena direto
para a cava caudal e é muito próxima dela. Quando o pedículo é muito curto ou não
apresenta a distendibilidade necessária, o posicionamento das 3 pinças pode obstruir a
inserção da veia ovariana direita na cava caudal, possibilitando uma hemorragia de difícil
controle na hora da incisão.

A veia ovariana esquerda drena primeiro para a veia renal, e em seguida, para a cava caudal.
Veia ovariana esquerda e veia renal estão muito próximas e a colocação das três pinças no
pedículo pode lesionar a veia renal esquerda, tanto na incisão quanto na ligadura,
provocando estase renal.

Pacientes pequenas ou nulíparas apresentam útero e vasos uterinos finos, podendo


penvolver todos ao mesmo tempo durante a técnica das três pinças. Em fêmeas maiores e
em úteros mais calibrosos a transfixação geralmente é necessária.

Em casos de piometra a transfixação não deve ser feita devido ao risco de extravasamento
de pus.

Em fêmeas que já pariram os vasos adjacentes ao útero são mais calibrosos e evidentes,
então afasta-se os vasos com a pinça mosquito e realiza-se a ligadura deles separadamente
do coto uterino.

7) CELIORRAFIA

É a sutura da cavidade abdominal. São realizados três planos de sutura, geralmente


peritônio+musculatura, seguido do subcutâneo e, por fim, a pele.

Peritônio + Musculatura:

O padrão de sutura utilizado é o Sultan (ou X) por dar mais segurança e sustentar
bastante tecido e peso, principalmente em animais com parede abdominal espessa.
Feita com fio absorvível preferencialmente sintético, variando o calibre com a
espessura da parede.
Em casos de animais que despertam da anestesia no decorrer da sutura deve ser
realizada uma cerzidura (simples continua) ou uma sutura festonada (mais rápida e
segura que a cerzidura).

Subcutâneo:

Deve ser aproximado a fim de reduzir o espaço morto e diminuir a formação de edema
e seroma.

A sutura é feita no padrão Cushing, também com fio absorvível sintético. Esse padrão
aproxima bem as bordas da pele diminuindo a tensão sobre a sutura de pele.

Pele:

A estética da sutura fica melhor quando feita em ponto simples separado. É


comumente utilizado fio não absorvível sintético (náilon).

Fêmeas obesas ou muito grandes requerem pontos de pele que ofereçam maior firmeza
como o U horizontal (captonado ou não – pode ser feito continuo quando demandar
rapidez).

8) ORQUIECTOMIA

É a remoção dos testículos, um dos procedimentos mais freqüentes na prática.

No cão:

Realiza-se uma incisão com a ponta do bisturi na pele do espaço pré escrotal, em
direção única, e uniforme.

Divulsiona-se o subcutâneo com uma tesoura Romba, rápida e superficialmente no


sentido de profundidade, apenas para liberar tecido para melhor localização da túnica
vaginal.

Faz-se uma pressão no testículo, empurrando-o para que apareça encoberto pela
túnica, que é incisionada com bisturi.

Individualiza-se o testículo e traciona-o. Realiza-se a técnica das três pinças no


funículo espermático como um todo. Utiliza-se fio absorvível sintético. Faz-se os dois
testículos pela mesma incisão.

Aproxima-se superficialmente o subcutâneo, com padrão cerzidura e fio absorvível.

A sutura de pele é feita com fio não absorvível sintético.

Gatos:

Incisão sobre a pele escrotal sobre cada testículo, já fazendo pressão sobre o testículo,
pois quase não há tecido subcutâneo, possibilitanto expor a túnica vaginal em um
único corte. Pode-se realizar uma única incisão escrotal na rafe mediana em gatos
magros ou com pouca pele escrotal.
Segue-se o mesmo procedimento realizado no cão.

A tração excessiva do testículo predispõe a formação de hérnia inguino-escrotal.

Na região abaixo do subcutâneo se encontram o corpo peniano, a uretra e, por cima destes, o
músculo retrator do pênis. Se a aproximação do subcutâneo for profunda há o risco de se
suturar o músculo junto a ele, assim, quando o cão urinar não haverá exposição da glande,
fazendo com que a urina caia dentro do prepúcio queimando a mucosa prepucial.