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1/18/2016 Módulo II - Deveres: Inciso III - observar as normas legais e regulamentares

Módulo II - Deveres

Unidade 8 - Deveres elencados nos incisos do artigo 116 da Lei 8.112/90


Inciso III - observar as normas legais e regulamentares
Diante  do  princípio  da  legalidade,  que  norteia  toda  a  conduta  do  agente  público,  tem­se  que  o
dever de observar as normas vigentes, no sentido amplo da expressão (o ilícito se configura com a
inobservância  não  só  de  uma  lei  ou  de  um  regulamento,  mas  sim  de  qualquer  norma,  tais  como
decretos,  regimentos,  portarias,  instruções,  resoluções,  ordens  de  serviço,  bem  como  decisões  e
interpretações  vinculantes  de  órgãos  ou  unidades  legal  ou  regimentalmente  competentes  e
também dos princípios positivados na CF e em leis) é basilar e figura como implícito da atividade
pública.

Sem prejuízo do equilíbrio harmônico principiológico, o princípio da legalidade, ao lado do princípio
da  moralidade  administrativa,  é  considerado  um  princípio  informador  dos  demais  princípios
constitucionais  reitores  da  administração  pública.  E  isto  lhe  atribui  aplicação  quase  totalitária  na
atividade pública, de forma que a vinculação ao ordenamento esteja, em determinado grau, diluída
e  subentendida  em  todos  os  mandamentos  estatutários.  De  fato,  a  leitura  atenta  dos  arts.  116,
117 e 132 da Lei nº 8.112, de 11/12/90, leva a perceber que a legalidade paira, manifesta­se e,
por fim, repercute na grande maioria das infrações disciplinares neles elencadas (enquanto que as
máximas da impessoalidade, da publicidade e da eficiência têm suas repercussões mais pontuais e
restritas).  Em  outras  palavras,  sendo  esse  um  dos  dois  principais  princípios  norteadores  da
atividade  pública,  a  grande  maioria  dos  enquadramentos  disciplinares  tem  em  sua  base  o
descumprimento do dever de observar normas legais e regulamentares, de forma que o dispositivo
especificamente insculpido no art. 116, III valha quase que como regra geral e difusa dos deveres
estatutários.

Sendo a atividade pública vinculada de forma que o agente público somente pode fazer aquilo que
o  ordenamento  expressamente  lhe  permite  e  uma  vez  que  nenhuma  norma  autoriza
o  cometimento  de  irregularidade,  todo  ato  ilícito,  em  regra,  passa,  em  sua  base,  por
uma  inobservância  de  norma.  Todavia,  esta  infração  disciplinar  pode  ser  absorvida  por
irregularidades mais graves. Daí, o enquadramento neste inciso somente se justifica se o ato não
configura irregularidade mais grave. 

Além da questão da gravidade, a diferenciação entre o enquadramento de uma conduta no inciso
III do art. 116 ou nos demais incisos deste artigo ou nos arts. 117 e 132, todos da Lei n° 8.112, de
11/12/90,  também  pode  advir  da  análise  se  o  ato  infracional  comporta  ou  não  enquadramento
mais específico, a prevalecer sobre aquele mais geral e difuso, de forma que pode­se cogitar de lhe
atribuir  valor  quase  residual.  E,  nesse  aspecto,  além  da  busca  do  esclarecimento  do  ânimo
subjetivo com que o ato foi cometido (se com culpa ou se com dolo), também pode ainda se fazer
necessário identificar a ocorrência ou não dos parâmetros elencados no art. 128 da Lei n° 8.112,
de 11/12/90, para diferenciar se o ato, por exemplo, justifica ser enquadrado em afronta do dever
de  observar  normas  legais  ou  regulamentares  (art.  116,  III  da  citada  Lei)  ou  se  merece
enquadramento na proibição de valer­se do cargo para lograr proveito pessoal ou de outrem (art.
117, IX da mesma Lei). 

Neste enquadramento, deve a comissão especificar na indiciação qual norma (tipo da norma, se lei,
decreto, instrução normativa, portaria, etc, número, artigo, inciso) foi descumprida pelo acusado,
sob pena de possibilitar alegação de cerceamento de defesa.

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Destaque­se que a mera divergência de entendimentos ou de interpretação de normas envolvendo
dois  ou  mais  servidores,  desde  que  não  caracterizada  má­fé  de  qualquer  um  dos  dois  lados,  não
configura,  a  princípio,  ilícito  disciplinar.  É  inerente  da  atividade  administrativa,  fortemente
hierarquizada,  o  poder  de  rever  seus  próprios  atos,  em  decorrência  do  princípio  da  autotutela,
inclusive  com  a  atuação  hierárquica.  E,  muitas  vezes,  isto  se  dá  em  função  tão­  somente  de
diferentes interpretações ou entendimentos sem que isto se confunda em afirmar que a postura a
ser reformada decorreu de ato ilícito, passível de responsabilização. 

A leitura atenta do art. 116, III da Lei nº 8.112, de 11/12/90, indica que o Estatuto não conferiu ao
servidor nenhum poder discricionário para apreciar a legalidade de norma ou para avaliar, por seus
critérios  pessoais,  a  conveniência  de  cumpri­la  ou  não.  Opera­se  a  presunção  de  que  as  normas
são legais. A norma, desde que devidamente editada por quem é competente e publicada, a partir
de sua data de entrada em vigor, deve ser plenamente cumprida pelo servidor, ainda que este, em
sua  própria  convicção,  a  considere  ilegal.  A  convicção  por  parte  do  servidor  de  que  a  norma
apresenta  defeitos  de  forma  ou  de  mérito  deve  fazê­lo  provocar  a  unidade  ou  a  autoridade
competente  para  declarar  a  ilegalidade  da  norma  e  para  excluí­la  do  ordenamento  ou  alterá­la;
além disso, se ele tem elementos de convicção de irregularidade na feitura da norma, ele deve até
representar contra quem a editou. Mas jamais o servidor deve deixar de cumprir a criticada norma,
uma vez que, enquanto não revogada na forma legal, o servidor tem o dever funcional de cumpri­
la, por força do dispositivo inquestionável do art. 116, III da Lei nº 8.112, de 11/12/90 e também
por força do princípio da legalidade, sob pena de ver configurado o ilícito em tela.

Eventuais  atos  irregulares  decorrentes  do  descumprimento  de  uma  norma  ilegal  não  acarretarão
repercussão  disciplinar  para  quem  os  cometeu  cumprindo  estritamente  a  norma,  pois  assim  terá
agido  com  atenção  não  só  à  legalidade  mas  também  à  hierarquia.  A  princípio,  o
agente  administrativo  subordina­se  de  forma  mais  irrecusável  aos  mandamentos  internos
emanados por autoridades que lhes são proximamente superiores, como, por exemplo, ordens de
serviço,  instruções  normativas  e  portaria.  Tais  atos  irregulares  em  obediência  a  uma  norma
superior, no máximo, se for o caso, poderão acarretar repercussão disciplinar para quem a editou.
Com mais ênfase ainda se reforçam esses argumentos inibidores para o servidor descumprir lei por
entender  que  ela  é  inconstitucional  (visto,  em  essência,  essa  ser  uma  competência  do  Supremo
Tribunal Federal). 

Não  é  dado  ao  servidor  o  direito  de  alegar  o  desconhecimento  da  norma  a  fim  de  justificar  sua
inobservância. Todos os atos legais (em sentido extensivo do termo) são publicados (seja em DOU,
seja  apenas  internamente).  Tampouco  costuma  prosperar  a  alegação  de  falta  de  treinamento  ou
capacitação. É dever do servidor, inerente à sua função, manter comprometimento e qualidade nos
trabalhos, de forma que a ele próprio incumbe manter­se atualizado com as mudanças e inovações
legais e diligenciar para se familiarizar com o ordenamento que rege sua matéria de trabalho.

Formulação­Dasp nº 73. Erro de direito 

Aplica­se ao Direito Administrativo o princípio de que “ninguém se escusa de cumprir a lei alegando que n

Parecer­Dasp. Abandono de cargo ­ Ignorância da lei 

A ignorância da lei não é cláusula excludente da punibilidade.

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