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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE MINAS GERAIS


Juizado Especial Cível, Criminal e da Fazenda Pública
Comarca de BELO HORIZONTE
05ª UNIDADE JURISDICIONAL CÍVEL
AVENIDA FRANCISCO SALES, 1446, SANTA EFIGÊNIA, BELO HORIZONTE - MG, FONE: (31) 3289-9300

SENTENÇA
PROCESSO: 9000113.22.2019.813.0024 - Procedimento do Juizado Especial Cível

PROMOVENTE(S):
DYESSIKA NUBIA FERREIRA

PROMOVIDO(S):
EMPREENDIMENTOS ITA ENTRETERIMENTO LTDA

Vistos,
DYESSIKA NUBIA FERREIRA ajuizou a presente ação alegando que no dia 16 de
junho, junto com seu filho, dirigiu-se ao parque de diversão pertencente à ré
EMPREENDIMENTOS ITA ENTRETERIMENTO LTDA. Aduz que no momento em que estava
no brinquedo conhecido popularmente como carrinho bate-bate foi atingida na cabeça por uma
peça solta do brinquedo. Relata que foi hospitalizada e diagnosticada com traumatismos múltiplos.
Pede indenização a título de danos morais.
Frustrada a sessão de conciliação, a parte ré apresentou contestação arguindo
preliminar de necessidade de perícia. No mérito, diz que os danos alegados pela promovente
carecem de respaldo probatório, bem como que o referido parque tem autorização do corpo de
bombeiros para funcionar, de modo que o que ocorreu foi uma situação atípica. Por fim, pleiteia
pela denunciação à lide para incluir a seguradora Porto Seguro no polo passivo da demanda. Pede a
improcedência dos pedidos formulados na exordial.
Eis os fatos.
A priori, sustenta a parte promovida a incompetência deste Juizado por ser
necessária a realização de perícia para a solução da lide.
Ao contrário do aduzido, verifico que as alegações iniciais da parte promovente e os
documentos acostados aos autos são suficientes para a solução da controvérsia apresentada,
prescindindo da realização de prova técnica.
A teor do disposto no artigo 472, do CPC, o Juiz pode dispensar a perícia técnica se
desnecessária ao deslinde da causa, diante das provas apresentadas pelas partes, sem que tal fato
atente contra o direito de defesa e o devido processo legal.
Dessa forma, rejeito a preliminar.
Ademais, a parte ré, em sua peça de defesa, pugna pela denunciação à lide. Contudo,
a intervenção do terceiro, a denunciação da lide está expressamente vedada no juizado especial,
conforme artigo 10, da Lei 9.099 de 1995.
Adiante, compulsando os autos, percebo que a parte autora logrou êxito em provar a
existência de fato constitutivo de seu direito, nos termos do art.373, I, do CPC.
Art. 373. O ônus da prova incumbe:
I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito;
II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do
autor.
§ 1o Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à
impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à
maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da
prova de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá
dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído.
§ 2o A decisão prevista no § 1o deste artigo não pode gerar situação em que a
desincumbência do encargo pela parte seja impossível ou excessivamente difícil.
§ 3o A distribuição diversa do ônus da prova também pode ocorrer por convenção das
partes, salvo quando:
I - recair sobre direito indisponível da parte;
II - tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito.
§ 4o A convenção de que trata o § 3o pode ser celebrada antes ou durante o processo.
Analisando o conjunto probatório, infiro que a autora juntou aos autos laudos
médicos e boletim de ocorrência, os quais comprovam que de fato a promovente sofreu inúmeras
lesões ao ser atingida por uma peça solta do brinquedo carrinho bate-bate, tendo, inclusive, perdido
os sentidos em um primeiro momento e posteriormente sido hospitalizada no hospital João XXIII.
A parte ré, por sua vez, apresentou apenas contestações genéricas e infundadas, isto
é, não negou a ocorrência dos fatos, mas limitou-se a dizer que trata-se de uma situação atípica e
que a promovente não comprovou as alegações e a extensão dos danos sofridos por ela.
Ademais, verifico que em nenhum momento a promovida colacionou provas a
demonstrar que forneceu um serviço nos devidos padrões de qualidade e prestou toda assistência
necessária à autora.
Logo, concluo que a ré não se desincumbiu de seu ônus probatório, isto é, não
comprovou a existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito da requerente.
Quanto aos danos morais, pelas regras de experiência ordinárias (artigo 5º da Lei nº
9.099, de 1995), são plenamente vislumbráveis os transtornos pelos quais passou a parte autora.
Sobre a caracterização deste, assinala com propriedade o autor SÍLVIO DE SALVO
VENOSA:
Dano moral é o prejuízo que afeta o ânimo psíquico, moral e intelectual da vítima. Nesse
campo, o prejuízo transita pelo imponderável, daí por que aumentam as dificuldades de se
estabelecer a justa recompensa pelo dano. Em muitas situações, cuida-se de indenizar o
inefável. Não é também qualquer dissabor comezinho da vida que pode acarretar a
indenização. Aqui, também é importante o critério objetivo do homem médio, o bônus
pater famílias: não se levará em conta o psiquismo do homem excessivamente sensível,
que se aborrece com fatos diuturnos da vida, nem o homem de pouca ou nenhuma
sensibilidade, capaz de resistir sempre às rudezas do destino. Nesse campo, não há
fórmulas seguras para auxiliar o juiz. Cabe ao magistrado sentir em cada caso o pulsar da
sociedade que o cerca. O sofrimento como contraposição reflexa da alegria é uma
constante do comportamento humano universa. (VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil:
responsabilidade civil. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2003, p. 33).
Nesse contexto, diante das circunstâncias do presente caso concreto, tenho que a
situação narrada na inicial aponta para a ocorrência de danos efetivamente suportados pelo
requerente, com nexo causal direto à conduta da parte ré.
Certo é que tais fatos foram hábeis a violar os direitos da personalidade e a
dignidade da pessoa humana, razão pela qual cabível o pagamento a requerente de indenização por
danos morais.
Em relação ao quantum indenizatório pelos danos morais, a jurisprudência tem
primado pela aplicação dos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade no seu arbitramento.
O valor deve ser suficiente para compensar o dano moral sofrido, bem como deve incutir na parte
requerida o desestímulo quanto à repetição de condutas ensejadoras de danos à esfera da
personalidade. É bem de ver, ainda, que a indenização não pode alcançar valor excessivo, gerando
enriquecimento sem causa, mas também não pode se revelar módica a ponto de se tornar ineficaz
quanto aos fins acima indicados.
Nesse rumo, considerando a conduta ilícita, a natureza e extensão da lesão
provocada, entendo que devido o valor de R$5.000,00 à promovente, suficiente e adequado para
compensar o dano moral sofrido.
Diante do exposto, JULGO PROCEDENTE a pretensão inicial para condenar a
parte ré a pagar à parte autora indenização por danos morais no importe de R$5.000,00, a ser
corrigida pela Tabela da Corregedoria de Justiça e acrescida de juros de mora de 1% ao mês,
ambos contados da sentença.
Não há condenação em custas e honorários advocatícios, a teor do que dispõe o
artigo 55, da Lei nº. 9.099, de 1995.
Intimem-se.
BELO HORIZONTE, 12 de Agosto de 2019.

ARNOLDO ASSIS RIBEIRO JUNIOR


Documento assinado eletronicamente pelo(a) juiz(íza)