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07/06/2020 Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra

Acórdãos TRC Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra


Processo: 6399/18.5T9CBR.C1
Nº Convencional: JTRC
Relator: MARIA JOSÉ NOGUEIRA
Descritores: FALSIDADE DE TESTEMUNHO
RECUSA A DEPOR
JUSTA CAUSA
ILICITUDE
CAUSA DE JUSTIFICAÇÃO
Data do Acordão: 13-05-2020
Votação: UNANIMIDADE
Tribunal Recurso: COIMBRA (JUÍZO LOCAL CRIMINAL DE COIMBRA – J1)
Texto Integral: S
Meio Processual: RECURSO PENAL
Decisão: CONFIRMADA
Legislação Nacional: ARTS. 360.º, N.º 2, E 31.º, DO CP
Sumário: I – A referência normativa “sem justa causa” constante do n.º 2 do
artigo 360.º do CP não integra o tipo objectivo do crime de “recusa
a depor”, constituindo a “justa causa” dessa recusa uma
circunstância dirimente da ilicitude.
II – Tendo presente o carácter geral e abstracto dos tipos
justificadores, bem como o leque de situações passíveis de
consubstanciar causas de justificação, não é exigível que a acusação
tenha de narrar factos destinados a demonstrar a inexistência de
qualquer causa de exclusão da ilicitude.
III – A recusa de o arguido prestar, enquanto testemunha, perante
um agente da PSP, declarações em processo no qual se investigava
a prática de um crime de ofensa à integridade física e onde então
era arguido um recluso, sob invocação de se ter de “proteger no
estabelecimento prisional” onde também estava preso, não legitima
(justifica) a referida omissão.

IV – Não obstante as dificuldades acrescidas na vivência no interior


de estabelecimento prisional, designadamente quanto aos
“diferendos” que se podem gerar, compete às instâncias formais,
designadamente à Direcção daquela instituição e, afinal, ao Estado,
prover à segurança/protecção dos reclusos.
Decisão Texto Integral: Acordam em conferência os juízes na 5.ª Secção Criminal do
Tribunal da Relação de Coimbra
I. Relatório
1. No âmbito do processo comum singular n.º 6399/18.5T9CBR, do
Tribunal Judicial de Coimbra, Coimbra – JL Criminal – Juiz 1,
mediante acusação pública, foi o arguido A., melhor identificado nos
autos, submetido a julgamento, sendo-lhe então imputada a prática de
um crime de falsidade de testemunho, p. e p. pelo artigo 360.º, n.ºs 1 e
2, do Código Penal.
2. Realizada a audiência de discussão e julgamento, por sentença de
04.10.2019, o tribunal decidiu [transcrição do dispositivo]:

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1. Condenar o arguido A. pela prática de um crime de falsidade de


testemunho, previsto e punido pelo artigo 360º, nº 1 e 2 do Código
Penal, na pena de 1 (um) ano e 9 (nove) meses de prisão efetiva.
[…].
3. Inconformado recorreu o arguido, formulando as seguintes
conclusões:
i. O presente recurso tem como objeto toda a matéria de facto e de
direito da sentença proferida nos presentes autos, que condenou o
recorrente pela prática do crime de um crime de falsidade de
testemunho, previsto e punido pelo artigo 360º, nº 1 e 2 do Código
Penal
ii. O Tribunal a quo cometeu um erro na apreciação e valoração de
determinada prova e julgou incorretamente determinados factos,
porquanto, a prova produzida em audiência de discussão e julgamento
impunha uma decisão diversa da verificada.
iii. A sentença recorrida enferma de manifesto erro na apreciação e
valoração da prova constante dos autos, que impunha uma decisão
diversa no sentido da absolvição do arguido, aqui recorrente.
iv. No concerne ao enquadramento jurídico-penal o ora recorrente veio
acusado e condenado, na douta sentença de que se recorre, de um crime
de falsidade de testemunho, previsto e punido pelo artigo 360.º, n. º1 e
2 do Código Penal.
v. Refere o nº 1 do referido 36º que: “1 - Quem, como testemunha,
perito, técnico, tradutor ou intérprete, perante tribunal ou funcionário
competente para receber como meio de prova, depoimento, relatório,
informação ou tradução, prestar depoimento, apresentar relatório, der
informações ou fizer traduções falsos, é punido com pena de prisão de
6 meses a 3 anos ou com pena de multa não inferior a 60 dias”.
vi. Entendemos que face a esta previsão o legislador ordinário
pretendeu que o bem jurídico a tutelar fosse o da realização da justiça,
daí se encontrar na sistemática do Código Penal, no capítulo dos
“Crimes Contra a Realização da Justiça” e para isso impõe, sobre a
testemunha, um dever de colaboração no processo judicial ou análogos
em que é interveniente.
vii. No caso do recorrente, e atento o provado em julgamento, a recusa
deste em depor visou defender um bem maior, isto é, a vida do aqui
Recorrente.
viii. O universo dos Estabelecimentos Prisionais é pautado por regras,
posturas e realidades bastante peculiares, que por diversas vezes se
afastam dos princípios basilares do nosso Estado de Direito, onde
impera a Lei do mais forte e princípios, que hoje são repugnados pelo
nosso ordenamento jurídico mas que em tempos desregrados

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imperaram, como a tão antiga Lei de Talião – a retaliação em medidas


proporcionais, no vulgo conhecida como olho por olho dente por dente.
ix. É neste complexo contexto, e que aos olhos de um jurista se afigura
desvirtuado, que o Recorrente passou e passará parte da sua vida
adulta, onde sobre a sua cabeça paira a Espada de Dâmocles, não
remetendo para o poder, mas antes à constante insegurança vivida no
mundo Prisional, onde existe a dita espada.
x. Esta realidade molda e condiciona todo o comportamento a ter pelos
reclusos e com os reclusos,
xi. A simples ideia de que um recluso pode ou veio a denunciar um
companheiro é motivo para atentar contra a vida do denunciante,
porquanto a vida de um rato não tem qualquer valor no meio prisional.
xii. O Recorrente encontra-se inserido neste universo peculiar e
também ele tem que se reger pelas regras aí ditadas e aplicadas,
xiii. O recorrente sabe perfeitamente que existem limites
intransponíveis e que a não atuação de acordo com o preestabelecido
determina, irremediavelmente, problemas com os seus pares.
xiv. Perante duas realidades tão disformes entre si, de um lado o dever
do testemunho, do outro a problemática da vida de um delator dentro
de uma prisão, não será difícil de compreender a relutância, do aqui
Recorrente, em falar no dia no dia 14 de Maio de 2018,
xv. Perante uma situação com a particularidade como é a nossa,
qualquer pessoa que preze a sua vida e que tenha amor-próprio faria o
mesmo, isto é, recusaria delatar sobre o que fosse relativamente a um
acontecimento verificado no interior de uma EP, sabendo que ao fazê-lo
estaria a pôr a sua própria vida em perigo.
xvi. O caso do recorrente apresenta dois pesos bem diferentes na
balança da justiça e é esse a analise que terá que ser aqui feita,
xvii. Não pode, em sistema algum, o bem jurídico da Realização da
Justiça ter o mesmo peso que o bem jurídico da vida – sem o qual a
própria ideia de justiça é inexistente, inócua e obsoleta.
xviii. O crime de que o Recorrente foi acusado tem, no seu número 2
do artigo 360 do código penal, uma válvula de segurança que
acrescenta alguma elasticidade e abertura ao formalismo positivado
pelo legislador.
xix. Admitindo esta disposição legal a existência da tão digna Justa
Causa – a contrário, nos seguintes termos: “2 - Na mesma pena incorre
quem, sem justa causa, se recusar a depor ou a apresentar relatório,
informação ou tradução”.
xx. A existência de «justa causa» para a recusa de depor é causa de
«exclusão da ilicitude» (art. 31 do Cod. Penal).

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xxi. A justa causa para depor faz parte dos «tipos justificadores».
xxii. Ora, nos termos do nº 1 daquele art. 31 do Cod. Penal, “o facto
não é punível quando a sua ilicitude for excluída pela ordem jurídica
considerada na sua totalidade”.
xxiii. A expressão «sem justa causa» usada pelo legislador é
redundante, porque nenhum comportamento é criminalmente punido
quando o agente atua com «justa causa».
xiv. São exemplos de «justa causa» para a recusa de depoimento as
prerrogativas consignadas na lei processual para alguns familiares do
arguido (art. 134 do CPP), a existência de segredo (art. 135 do CPP) ou
a alegação pela testemunha de que das respostas resulta a sua
responsabilização penal (art. 132 nº 2 do CPP).
xxv. Não foi intenção do legislador – conclusão que se retira da analise
da jurisprudência Nacional dos Tribunais Superiores bem como o
entendimento da doutrina maioritária – tornar a justa causa um tipo
justificador taxativo, inerte e sem qualquer abertura à realidade jurídica
que constantemente se manifesta na mutabilidade dela mesma,
xxvi. A situação do recorrente não pode nem deve ser uma situação
alheia a esta mutabilidade e adaptação do próprio sistema jurídico,
xxvii. A situação do recorrente submetida a julgamento e sentenciada,
deve ser visto como uma manifestação de uma realidade muito própria
e complexa e que pelas suas características deve ser abordada com
cautela e precaução, pois, caso não se faça podemos causar ações sem
retorno.
xxviii. A justa causa não pode ser analisada como algo concreto e
previamente prevista bem como não pode assumir uma natureza rígida,
pois como doutamente ensina o Prof. Figueiredo Dias “os tipos
justificadores ou causas de justificação são estruturalmente, por sua
natureza, gerais e abstratos, no sentido de que não são em princípio
referidos a um bem jurídico determinado, antes valem para uma
generalidade de situações independentes da concreta conformação do
tipo incriminador em análise”. (…). A causa justificativa, ao contrário
do que constitucional e legalmente sucede com o tipo incriminador, não
está sujeita em princípio à máxima nullum crimen sine lege, nem às
suas consequências (…). Nem as concretas causas de justificação
precisam de ser certas e determinadas como se exige nos tipos
incriminadores; nem elas estão sujeitas à proibição de analogia; nem se
está impedido de fazer causas supra legais de exclusão da ilicitude;
nem relativamente a elas vale o princípio da irretroatividade da lei
penal” - Direito Penal, parte geral, Tomo I, pág. 363.
xxix. ORA; a situação do recorrente não deve ser encarada de modo
diferente, não sendo de estranhar a aplicação do n.º 2 do artigo 360.º do
Código Penal, pois por diversas vezes a Jurisprudência Nacional tem
abordado o conceito de Justa Causa como um conceito jurídico em

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constante mutação e de aplicação extensiva, nomeadamente no


Acórdão n.º 354/13.9TAMDL.G1, 26-01-2015, Tribunal da Relação de
Guimarães bem como no Acórdão da Relação de Évora, de 04.06.2013
(processo 207/11.5TAPSR.E1) em que “uma testemunha, em situação
de reclusão, que, depois de transportada do estabelecimento prisional
respetivo até ao tribunal, para prestar depoimento, aguardou até esse
depoimento dentro da viatura celular e durante cerca de quatro horas,
sem lhe ter sido facultada alimentação ou água para beber”, tendo-se
considerado que “os seus deveres como testemunha não foram
respeitados ponderado o cariz humanista de que se reveste todo o
sistema penal português” e, por isso, assistir-lhe “justa causa para essa
recusa”
xxx. No caso ora em recurso os pesos na balança da Deusa Justitia não
são iguais, são bastante disformes entre si, concluindo-se que “(…)
posto perante a acusação de se ter recusado a depor, o arguido pode
alegar algum facto que integre o conceito de justa causa, suscetível de
tornar lícito o seu comportamento.
xxxi. Alias, é a própria lei que permite e impõe que “Também o juiz
deverá investigar autonomamente tal facto, se a questão se suscitar no
julgamento.” (sublinhado do recorrente).
xxxii. Nesta parte, nenhuma diferença existe entre a «justa causa» do
art.º. 360.º, nº 2 do Cod. Penal e as outras causas de «exclusão da
ilicitude» nominadas, elencadas no art. 31 nº 2 do Cod. Penal.” -
Acórdão n.º 354/13.9TAMDL.G1, 26-01-2015, Tribunal da Relação de
Guimarães,
xxxiii. O Recorrente recusou-se a depor com o receio de ver a sua vida
em risco caso tivesse delatado sobre a situação que o levou a assumir as
vestes de testemunha.
xxxiv. Tal recusa fundamentada e justificada em audiência de
julgamento, perante o julgador, visava tão-somente o exercício de uma
“legitima defesa especial” com o objetivo de proteger a sua vida, a sua
integridade física mesmo que isso lhe custasse uma condenação
criminal,
xxxv. Esta necessidade de proteger o seu bem maior que é a sua vida, é
no entender do recorrente, causa mais que suficiente para afastar a
culpa do agente, pois que justifica e fundamenta a sua recusa em depor.
xxxvi. Analisada e valorada a causa invocada para se recusar a depor,
impunha-se que a sua conduta não fosse criminalmente sancionada,
nem desse lugar á instauração do procedimento criminal contra a sua
pessoa.
xxxvii. Face á prova produzida impunha-se que o julgador absolvesse o
arguido por falta de preenchimento do elemento subjetivo do crime de
que vem acusado, ou seja por inexistência de culpa na prática do facto
que poderia vir a subsumir.se num ilícito penal.

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xxxviii. Desta feita, mal andou o tribunal a quo ao condenar, sem culpa
o arguido, violando o princípio da nula peona sine culpa, e do in dúbio
pro reo!
xxxix. A douta decisão em crise viola por erro notório na apreciação da
prova, por erro de interpretação e aplicação o artigo 127 do CPP, e os
princípios de presunção de inocência, principio do in dúbio pro reo
consagrados no artigo 32 nº 2 da CRP e o princípio basilar do direito
penal português de que não pode haver crime sem culpa” nullum
crimen sine culpa”
xl. O Tribunal a quo não tinha fundamentos legais e fácticos para
condenar o arguido pelo crime de que vinha acusado!
Nestes termos e nos melhores de direito, devem Vªs Exs. dar
provimento ao presente recurso e por via dele ser revogada a douta
sentença proferida por outra que absolva o arguido
Por ser de inteira e merecida Justiça
4. Foi proferido despacho de admissão do recurso.
5. Em resposta ao recurso a Digna Magistrada do Ministério Público
concluiu:
1º – Inexiste qualquer erro de julgamento na apreciação da prova
produzida em julgamento;
2º – Inexiste justa causa na recusa do depoimento do arguido;
3º – A dosimetria da pena de multa foi adequada;
4º – Foi justa e adequadamente condenado o arguido pela prática do
crime constante da acusação pública.
Termos em que deve negar-se PROVIMENTO ao recurso interposto
pelo arguido, mantendo-se, na íntegra, a sentença recorrida, fazendo-
se, desta forma, a desejada e costumada JUSTIÇA!
6. O Exmo. Procurador-Geral Adjunto emitiu parecer, pronunciando-se
no sentido de o recurso não merecer provimento.
7. Cumprido o disposto no n.º 2, do artigo 417.º do CPP, o recorrente
não reagiu.
8. Realizado o exame preliminar e colhidos os vistos foram os autos à
conferência, cabendo, pois, decidir.
II. Fundamentação
1. Delimitação do objeto do recurso
Tendo presente as conclusões, pelas quais se delimita o objeto do
recurso, sem prejuízo do conhecimento de eventuais questões de
natureza oficiosa, no caso em apreço importa decidir se (i) ocorre «erro
de julgamento», e/ou «erro notório na apreciação da prova» e/ou
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violação do «in dubio pro reo»; (ii) se verifica «justa causa» da recusa
em depor.
2. A decisão recorrida
Ficou a constar da sentença [transcrição parcial]
II - Da audiência de julgamento resultaram provados os seguintes
factos:
1. No dia 14 de Maio de 2018, entre as 18h11m e as 18h25m, o arguido
foi inquirido como testemunha no processo n.º (…), na esquadra da
PSP de (…), sita na (…), pelo agente da PSP (…), tendo sido
previamente advertido das circunstâncias em que se podia recusar a
depor, nos termos definidos pelo artigo 134º, nº 1, als. a) e b), e 2, do
CPP.
2. Como não se verificava relativamente ao arguido nenhuma causa de
recusa legítima de depoimento nos termos do artigo 134.º, n.º 1, als. a)
e b), do CPP, foi o mesmo, depois de identificado, questionado acerca
da matéria dos autos que se investigavam no processo referido em 1,
designadamente a prática de ofensas à integridade física entre terceiros.
3. Porém, o arguido recusou-se a prestar declarações, referindo que era
“contra o sistema” e que “se tiver que passar por cima de alguém para
ir para a sua cela, que o faz”.
4. Foi então o arguido informado por aquele agente da PSP a que só se
poderia recusar a prestar declarações nos casos previstos na lei, e que
naquele caso não estava dispensado de o fazer.
5. No entanto, o arguido continuou a recusar prestar declarações.
6. O arguido foi ainda elucidado por aquele agente da PSP que a recusa
a prestar declarações o poderia fazer incorrer em responsabilidade
criminal.
7. O arguido manteve sempre a sua recusa em prestar declarações,
afirmando que “só ali estava porque é obrigado”, afirmando ainda o
arguido que “não se importa de vir a incorrer em responsabilidade
criminal”.
8. O arguido foi alertado por mais duas vezes que a sua recusa o faria
incorrer em responsabilidade criminal, mantendo o arguido sempre a
recusa em prestar declarações e inviabilizando, desse modo, a
inquirição.
9. O arguido agiu livre, voluntária e conscientemente, com o propósito
concretizado de injustificadamente não prestar depoimento, bem
sabendo que o seu depoimento, a que estava obrigado, constituía meio
de prova, bem como sabia que com a sua conduta obstruía a o exercício
da investigação criminal.

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10. O arguido sabia ainda que a sua conduta era proibida e punida por
lei penal.
11. O arguido já foi anteriormente condenado nos seguintes processos:
(…).
13. O arguido iniciou o seu percurso escolar em idade normal, com
abandono aos 16 anos, após duas retenções no 9º ano de escolaridade.
Logo a seguir trabalhou com o pai na construção civil até aos 19 anos,
altura em que abandonou a casa dos pais para ir viver com uma
namorada, mãe do seu filho, em (…).
14. Foi também nesta altura que iniciou o consumo de estupefacientes,
na companhia da namorada.
15. Trabalhou pontualmente, em atividades indiferenciadas.
16. Logo após o nascimento do filho, este foi-lhes retirado pela
Segurança Social e entregue aos pais do arguido.
17. Durante este período A. manteve-se ativo profissionalmente na
empresa (…), bem como na construção civil com o seu pai.
18. Iniciou também nesta altura acompanhamento no CRI de (…),
integrado no programa de substituição por metadona, com indicadores
de estabilidade e conformidade às orientações clínicas.
19. O filho do arguido e a mãe foram viver para França, continuando a
manter contacto, tendo o arguido intenção de ir para junto deles quando
se encontrar em liberdade.
20. A. aparenta ter alguma consciência crítica face aos seus
comportamentos, verbalizando arrependimento, contudo manifesta
grandes fragilidades em termos pessoais no que diz respeito aos
consumos.
21. É conotado como toxicodependente no meio social de residência,
mas não se vislumbram sentimentos de rejeição à sua presença no local.
22. No EP de (…) terminou o curso de refrigeração e climatização, que
lhe deu equivalência ao 12º ano de escolaridade, encontrando-se
atualmente inativo, apesar de já ter pedido colocação laboral, em
virtude de várias sanções que sofreu. Retomou o ensino regular
frequentando o 11º ano de escolaridade, pois pretende frequentar a
Universidade.
23. (…) é um recluso educado e mantém um comportamento adequado,
contudo tem muitas fragilidades no que diz respeito aos seus
comportamentos aditivos, tendo em virtude de tal situação várias
sanções disciplinares, o que implica a ausência de medidas de
flexibilização da pena.
24. Beneficia de várias visitas de familiares e amigos.

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25. O arguido recusou prestar declarações contra outro recluso para se


proteger no estabelecimento prisional.
III – Factos não provados
Inexistem factos não provados.
IV - Motivação da decisão de facto
3. Apreciação
§1. Da impugnação da matéria de facto
(…).
§2. Da verificação da «justa causa» da recusa a depor
Não se conforma o recorrente com a condenação pela prática do crime
de falsidade de testemunho, p. e p. no artigo 360.º, n.ºs 1 e 2 do Código
Penal, defendendo a justificação da sua conduta por via da causa de
exclusão da ilicitude, traduzida na circunstância de a recusa do
depoimento se ter ficado a dever ao facto de temer represálias por parte
de outro recluso.
Vejamos.
De acordo com o artigo 360.º do Código Penal:
“1 – Quem, como testemunha, perito, técnico, tradutor ou intérprete,
perante tribunal ou funcionário competente para receber como meio de
prova, depoimento, relatório, informação ou tradução, prestar
depoimento, apresentar relatório, der informações ou fizer traduções
falsos, é punido com pena de prisão de seis meses a três anos ou com
pena de multa não inferior a 60 dias.
2 – Na mesma pena incorre quem, sem justa causa, se recusar a depor
ou a apresentar relatório, informação ou tradução.
[…]”.
Trata-se de um crime, cujo bem jurídico protegido é a realização ou
administração da justiça, enquanto função do Estado – [cf. Medina de
Seiça, “Comentário Conimbricense do Código Penal”, Coimbra
Editora, 2001, Tomo III, págs. 460-461], traduzindo-se o tipo objetivo
nas ações e omissões descritas nos n.ºs 1 e 2, entre as quais se inscreve
a “recusa em depor”, consubstanciando, nesta vertente, um crime de
omissão pura – [cf. Paulo Pinto de Albuquerque, “Comentário do
Código Penal”, Universidade Católica Editora, 2008, págs. 846-847],
compatível com qualquer modalidade do dolo.
No caso em apreço, nas circunstâncias de tempo e lugar descritas na
matéria de facto assente, tendo-se o arguido/recorrente, recusado a
depor, enquanto testemunha, no âmbito do processo n.º
4040/17.2T9CRR, perante agente da PSP, após ter sido advertido das
situações em que, de acordo com o artigo 134.º, n.º 1, als. a) e b), e 2,
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do CPP, se podia recusar a fazê-lo, o que na verdade se discute – se


pode discutir – reside em saber se o que consignado vem sob o item 25
dos factos provados, é suscetível de integrar a “justa causa” a que se
reporta o n.º 2, do artigo 360.º do Código Penal.
A propósito escreve Medina de Seiça “a lei pune, ainda, “quem sem
justa causa, se recusar a depor ou apresentar relatório, informação ou
tradução”. O legislador equipara, assim, à falsidade ativa a simples
recusa a prestar depoimento que constitui, pois, um crime de omissão
puro. Quanto aos comportamentos aqui abrangidos, incluem-se quer
as situações em que o depoente manifestou, logo no início da
declaração, a sua recusa (hipótese de recusa total de depoimento),
quer aquelas em que, no decurso de um interrogatório, o declarante se
recusa a responder a uma concreta pergunta (hipótese de recusa
parcial de depoimento). (…) Decisivo, para a realização do tipo, é não
haver uma justa causa para a recusa. Por justa causa entendem-se
todos os fundamentos legítimos de recusa, maxime os privilégios
consignados na lei processual para os familiares do arguido (cf. art.
134º do CPP; art. 618º do CPC), para os portadores de segredo (cf.
art. 135º do CPP; art. 618º do CPP), para a não incriminação (cf. art.
132º, nº 2, do CPP).”- [ob. cit. pág. 478; no mesmo sentido, vide Paulo
Pinto de Albuquerque, ob. cit., pág. 847 e Victor de Sá Pereira,
Alexandre Lafayette, CÓDIGO PENAL, Anotado e Comentado, QUID
JURIS, pág. 875].
Se a “justa causa” para recusa de depoimento constitui elemento do
tipo ou integra, antes, os tipos justificadores é questão que não tem
merecido resposta unânime por parte dos tribunais, designadamente da
Relação. Assim, enquanto no acórdão do TRC de 30.04.2014 (proc. n.º
245/13.3TACTB.C1) se fala em “factos negativos”, cuja alegação se
tornaria necessária, considerando-a (a justa causa) elemento do tipo, já
no acórdão do TRG de 26.01.2015 (proc. n.º 354/13.9TAMDL.G1) é a
mesma encarada como causa de exclusão da ilicitude – ou como
fazendo parte dos tipos justificadores – à luz do n.º 1 do artigo 31.º do
Código Penal, nos termos do qual “O facto não é punível quando a sua
ilicitude for excluída pela ordem jurídica considerada na sua
totalidade”. A propósito consigna este último aresto:
“Verdadeiramente, a expressão «sem justa causa» usada pelo
legislador é redundante, porque nenhum comportamento é
criminalmente punido quando o agente atua com «justa causa». Ainda
que não existisse tal expressão na norma do art. 360 nº 2 do Cod.
Penal, nunca seria penalmente punível a recusa do depoimento nos
casos acima apontados (certos familiares, portadores de segredo e
direito à não autoincriminação), porque a ilicitude do comportamento
sempre estaria “excluída pela ordem jurídica considerada na sua
totalidade. A inexistência de «justa causa» não faz parte do tipo de
crime. A expressão «sem justa causa» não indica mais de que a recusa
não é ilícita se ocorrer algum tipo justificador”, daí que a acusação não
tivesse de «narrar» factos destinados a demonstrar a inexistência de
qualquer causa de exclusão da ilicitude. E mais adiante, “Afirmar que
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alguém atuou «sem justa causa» não é imputar um facto, mas formular
um juízo ou conclusão” o que “implicaria que na acusação se
discriminasse, concretizando, não terem ocorrido factos que
demonstrassem não ser o caso de cada uma das hipóteses que
poderiam configurar a existência de «justa causa» (…), tarefa
impossível, pois como ensina o Prof. Figueiredo Dias “os tipos
justificadores ou causas de justificação são estruturalmente, por sua
natureza, gerais e abstratos, no sentido de que não são e princípio
referidos a um bem jurídico determinado, antes valem para uma
generalidade de situações independentes da concreta conformação do
tipo incriminador em análise. (…) – Direito Penal, parte geral, Tomo I,
pág. 363.”
Posição esta, que se perfilha!
Com efeito, constituindo um imperativo a narração, pela acusação, de
factos – que não de juízos conclusivos, genéricos e/ou de direito -,
tendo presente o caráter geral e abstrato dos tipos justificadores, bem
como o leque de situações (factos) passíveis de consubstanciar causas
de justificação, com refere o acórdão que vimos acompanhando de
perto, “sempre seria votada ao insucesso a pretensão de na acusação
se relatar factos que abrangessem todas as hipóteses conjeturáveis”.
Isto dito, importa retomar o caso concreto.
Decorre do acervo factual, agora definitivamente assente, que pese
embora os motivos invocados (não sem que antes haja sido informado
das circunstâncias em que o podia declinar, e após das consequências
da respetiva recusa) por ocasião da recusa do arguido em prestar
depoimento, na qualidade de testemunha, perante o agente da PSP, no
âmbito do processo n.º (…), no qual se investigava a prática de ofensas
à integridade física, entre terceiros, o mesmo “recusou prestar
declarações contra outro recluso para se proteger no estabelecimento
prisional” – [cf. item 25 dos factos provados].
Neste quadro, defende o recorrente consubstanciar semelhante motivo
de recusa o conceito de «justa causa» e, assim, ver justificada, através
de uma causa de exclusão da ilicitude, a sua conduta, muito embora -
no que revela alguma confusão - se refira igualmente à inexistência de
culpa por “falta de preenchimento do elemento subjetivo do crime de
que vem acusado” (cf. os pontos xxxvi e xxxviii das conclusões),
alegação esta que não encontra suporte no acervo factual, já no que
concerne ao elemento intelectual, já no que respeita ao elemento
volitivo do dolo.
Poderá, nas circunstâncias descritas, o motivo determinante da recusa
em depor por parte do ora recorrente configurar a «justa causa» a que
se reporta o n.º 2, do artigo 360.º do Código Penal?
Não temos qualquer rebuço em responder negativamente à questão!

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Admitindo que para além dos casos expressamente previstos na lei de


faculdade de recusa em depor, como os que são vulgarmente apontados
nesse sentido (certos familiares, portadores de segredo e direito a não
autoincriminação), outras situações possam ocorrer suscetíveis de
consubstanciar, à luz do artigo 31.º do Código Penal, um tipo
justificador e, assim, afastar a ilicitude do facto, não é certamente o
propósito por parte de um recluso em se proteger, no estabelecimento
prisional, de outro recluso, que legitima (justifica) a recusa em depor,
muito menos, como preconiza o recorrente, por via do “exercício de
uma legítima defesa (especial)” (cf. v.g. o ponto xxxiv das conclusões),
cujos pressupostos (não presentes no caso) se mostram enunciados no
artigo 32.º do Código Penal.
Ocupa o recorrente parte significativa das conclusões a discorrer sobre
os “perigos” da vida prisional para justificar a sua conduta omissiva
com o risco que o seu depoimento representaria para a sua vida ou
integridade física. Ora, se poucos poderão duvidar das dificuldades
acrescidas da vivência no interior do estabelecimento prisional,
designadamente quanto aos “diferendos” que se podem gerar entre
reclusos, não é menos verdade que compete às instâncias formais,
designadamente à respetiva Direção – uma vez reportados os factos e
apreciadas as concretas circunstâncias - prover à segurança/proteção
dos reclusos, que enquanto tal são responsabilidade do Estado. Veja-se
que pela “tese” do recorrente nunca os “crimes” praticados no interior
de um estabelecimento prisional, que envolvessem indivíduos privados
da liberdade, poderiam contar com o testemunho de um recluso, ainda
que os tivesse presenciado, pois não seria de afastar um potencial risco
(v.g. para a integridade física ou mesmo para a vida) que tal
representaria.
É óbvio que a “coisa” não pode ser posta nestes termos, menos ainda
com fundamento numa abstração, nunca compaginável com o tipo
justificador, em que se traduz a «justa causa» da recusa.
Por fim, independentemente do que se pense sobre a solução
encontrada no caso a que se reporta o acórdão do TRE de 04.06.2013,
proferido no âmbito do processo n.º 207/11.5TAPSR.E1, convocado
pelo recorrente, os factos ali e aqui em apreço não são passíveis de
comparação, porquanto na situação naquele apreciada, como bem
reporta o aresto, a testemunha, por razões intimamente ligadas a um
estado de debilidade emocional, psicológica, em consequência de ter
sido privado, por várias horas, das mais elementares necessidades de
qualquer ser humano, se recusou naquele momento e naquelas
circunstâncias a prestar depoimento, “mas não a prestar depoimento
em momento e circunstâncias diferentes”.
Em suma, o recurso terá de improceder.
III. Dispositivo
Termos em que acordam os juízes que compõem este tribunal em julgar
improcedente o recurso.
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Custas, com taxa de justiça que se fixa em 4 (quatro) UCs, a cargo do


recorrente – [cf. artigos 513.º e 514.º do CPP; artigo 8.º do RCP, com
referência à tabela III].
Coimbra, 13 de Maio de 2020
[Texto processado e revisto pela relatora]
Maria José Nogueira (relatora)
Frederico Cebola (adjunto)

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