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“O que devo fazer”: a ética kantiana

É sabido que Kant dedicou sua vida intelectual a responder quatro problemas
filosóficos: o que posso saber (teoria do conhecimento), o que devo esperar (filosofia da
religião), o que devo fazer (filosofia moral) e o que é o homem (antropologia).
Aristóteles, na Metafísica, separara a filosofia em três campos: ciências
teoréticas, ciências poiéticas e ciências práticas. A ética, juntamente, com a política,
situa-se neste último âmbito de reflexão. Kant assimila o princípio das ciências teoréticas
(metafísica), dá-lhe um novo sentido e o aplica, a seu modo, ao campo não só da teoria
do conhecimento (criticismo como superação do racionalismo), mas também das
ciências práticas, em seu caso a ética ou metafísica dos costumes, que deve se moldar
pela razão prática a priori, não a experiência empírica.
Para abreviar a apresentação de seu pensamento ético, veja-se o esquema do
teorema V, onde estão os principais elementos de sua teoria. Tudo se inicia pelo vértice,
onde estão os eventos ou acontecimentos. O que Kant tem diante de seus olhos? A
busca de uma fundamentação para a ação individual do ser humano. Toda a reflexão
ética anterior – Aristóteles e Maquiavel, por exemplo – respondeu ao mesmo problema,
só que não de maneira distinta.
Como Aristóteles pensou sua ética? Em linhas gerais, o ser humano existe para
ser feliz (alcançar a eudaimonia). Onde ela se encontra? Não no poder, riquezas e status,
pois estes são apenas meio, mas não a felicidade mesma. Para ele, a felicidade encontra-
se na contemplação racional como fim último da vida ética. É em vista deste fim que o
ser humano deve conduzir sua vida cotidiana. Deve cultivar a virtude, esta é o meio termo
entre dois vícios: o excesso e falta. Entre o destemor e o medo, a virtude a ser buscada
neste caso é a coragem. A virtude a ser cultivada consiste em buscar a mediania.
Maquiavel subverte a lógica aristotélica, pois para ele, não há uma relação
coerente entre meios e fins. Se o Príncipe deseja alcançar e manter-se no poder, todos os
médios são válidos. Ele deve superar a lógica entre ser e dever ser, pois esta preparia sua
própria ruína. Então, os fins justificam os meios. Qualquer meio é válido desde que
conduza aonde o príncipe deseja chegar.
Kant, que vive num contexto iluminista, sente-se desafiado a buscar um novo
fundamento para a ética. Critica uma ética baseada na felicidade porque, a rigor, em se
baseando na experiência e sendo esta diversa, não há um fundamento seguro do que seja
ela. Diverge também de uma ética baseada na perfeição divina infinita. Racionalmente,
tudo que se pode dizer de Deus são seus atributos, o que não oferece segurança para
apontar com segurança o caminho da moralidade. Para ele, estas duas propostas éticas
se fundamentam nos imperativos hipotéticos, isto é, em motivos e conteúdos externos
determinam a vontade. Na verdade, o “como devo agir” é definido é definido nestas éticas
baseado nas inclinações próprias da natureza humana. Kant não fundamenta a ética nos
conteúdos, mas na forma pura e a priori da lei da razão.
A novidade inaugurada por ele é que a ação moral não se deve ancorar na
experiência humana das inclinações, desejos e apetites humanos. Nem também nos
sentimentos, nas emoções, ou nos mandamentos religiosos. A ação humana deve basear-
se única e exclusivamente na razão pura para daí extrair os elementos da ação prática.
Somente a razão pura deve mover a vontade humana no momento em que se toma
decisão.
No topo esquerdo do teorema V, em Filosofia, apresenta-se o conceito de ética
deontológica. Kant elaborou a ética do dever, porém não se trata de cumprimento de
deveres como no caso dos mandamentos ou as leis constitucionais. Dever para Kant
significa agir movido exclusivamente pela razão pura. O que isto significa? O ser humano
se caracteriza por duas dimensões: natureza e liberdade. Como ser de natureza, como os
animais, somos movidos pelos instintos, por algo que ultrapassa nossa vontade. Como
seres naturais agimos movidos também pelos desejos, paixões e interesses. Não se pode,
portanto, fundamentar aí a moralidade. Por que? Porque somos também seres de
liberdade. Podemos nos distanciar das ações naturais. Por isso que propõe que somente
a razão pura deve mover nossa vontade em suas ações. A isto ele chama de a priori. Agir
por dever significa que em mim a razão se impõe ao meu ser de natureza (“animal”). Ser
livre e autônomo significa exatamente deixar que a razão e somente a razão conduza
nossas decisões. Por isto as outras éticas antes dele de foram denominadas materialistas,
isto é, que o que move o ser humano são elementos extrínsecos ou intrínseco que não
necessariamente a razão.
Para ele, os princípios éticos procedem exclusivamente da razão pura; eles são
a priori; são universais e são necessários. Com isto, Kant se distancia da ética utilitarista
de Bentham e J. S. Mill, que defende uma ação moral que atende o interesse da maioria,
não de todos. Ao invés de imperativo hipotético (se quero ser respeitado, ... devo
respeitar os demais), Kant propõe o Imperativo Categórico (cuja essência se encontra na
forma de lei, na sua racionalidade), que por si elimina a definição da ação moral baseada
nas consequências e resultados.
É isto que está em Teorias (teorema V). As ações serão morais se, e somente
se, forem de tipo tal que queiramos que todas as pessoas as sigam em todas as
circunstâncias (universalismo), sendo os atos humanos intrinsecamente corretos por si
mesmos, sem pensar na lógica dos resultados.
Em Princípios do teorema V reafirma-se que a razão é suficiente para mover
a vontade; que os imperativos categóricos determinam a vontade (não coisas, pois ele
não depende do conteúdo) sem buscar efeitos desejados; que a lei moral não depende do
conteúdo (mandamentos, virtudes...), mas da forma da lei (lei da razão pura); que a
liberdade é a independência da vontade em relação à lei natural dos fenômenos, ou seja,
ao mecanismo causal e também que a liberdade significa independência dos conteúdos
da lei moral.
Alguns conceitos importantes presentes na ética kantiana:
a) Heteronomia – nomos (lei) + hetero (diferente) = a lei que vem de fora. Do ponto
de vista moral, significa pautar as ações desde as inclinações, apetites, vontades,
religião, instinto, costumes, pressão do grupo...
b) Autonomia – autós (si, eu) + nomos (lei) = é a capacidade de dar a si mesmo suas
próprias leis tendo o outro e em consideração. A fonte desta lei é a razão, nada
c) mais. É sinônimo de liberdade (independência da vontade em relação às
inclinações).
d) Máximas – princípios práticos válidos somente para o sujeito que a propõe, mas
não para todos, portanto são subjetivas.
e) Imperativo - é o princípio prático objetivo, isto é, válidos para todos. São regras
que expressam a necessidade objetiva da ação.
f) Imperativo hipotético – determina a vontade só sob a condição de que ela queira
alcançar determinados objetivos.
g) Imperativo Categórico – é a lei prática que vale incondicionalmente para o ser
racional. Ele determina a vontade a priori, não em vista de obter um efeito
desejado, mas simplesmente como vontade.
h) Lei moral – são imperativos categóricos; são leis universais, necessárias
i) Deontologia – é a busca de fundação da ética a partir da noção de dever que a
própria razão se impõe versus uma ética materialista (de) conteúdos
j) Respeito – sentimento racional puro a priori.
k) Boa vontade –é valor a priori, universal e puro que dá sentido ao agir ético
l) Dever – é a categoria criada para referir-se ao esforço que faz a razão para se
contrapor às inclinações como fundamento da ética.
m) Liberdade – independência da vontade em relação à lei natural dos fenômenos e
ao mesmo tempo capacidade da vontade independente de autodeterminar-se
(autonomia).
No item Asserções de conhecimento encontra-se a resposta ao problema
colocado “como devo agir”. Kant apresenta três critérios de como a ação humana pode
se tornar ética.
1) Forma universal: Aja de modo que a máxima (subjetiva) de tua vontade possa
valer sempre, ao mesmo tempo, como princípio de uma legislação universal
(objetiva);
2) Dignidade humana: Aja de modo a considerar a humanidade, tanto na minha
pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre também como finalidade, e
jamais como simples meio;
3) Determinação da vontade: Aja de modo que a vontade, com sua máxima,
possa se considerar como universalmente legisladora em relação a si própria.
Elas são muito parecidas, e ressaltam os aspectos de racionalidade,
universalidade e necessidade como sendo elementos que se devem tomar em
consideração quando se toma determinada decisão. O próprio Kant se coloca a questão
se o ser humano deve mentir em determinadas ocasiões. A resposta dele é categórica.
Aplicando as três máximas, a resposta é negativa em si mesma, antes de pensar nas
consequências do ato. O critério é: “olha tuas ações pela ótica do universal e
compreenderás se são ações moralmente boas ou não”. Para Kant, não basta que uma
ação seja conforme à lei. Uma ação pode ser “legal”, mas não moral. Se para no semáforo
vermelho, respeito a lei, mas não estou sendo necessariamente moral, pois podia fazê-lo
por medo da multa, por exemplo. Para ser moral, é preciso agir por dever e não
necessariamente conforme ao dever. Se faço caridade aos pobres por puro dever, faço
uma ação moral. Se faço por compaixão (sentimento estranho ao dever), faço uma ação
simplesmente legal ou até mesmo hipócrita, se for para me mostrar generoso.
No item “Asserções de Valor”, ressalta-se as contribuições de sua ética para
a sociedade. O primeiro aspecto diz respeito ao que hoje ficou conhecimento como
direitos humanos. Foi ele o primeiro teórico a justificar racionalmente a necessidade de
se constituir direitos universais para todos os seres humanos, independente da cultura,
raça, biótipo, etc. Ou seja, abriu as portas para um direito cosmopolita.
Além disso, seu conceito de autonomia e liberdade marcou o discurso e a
prática da pedagogia moderna e também da psicologia escolar e da psicologia moral. Em
vários documentos nacionais e internacionais, fala-se da educação para o princípio da
autonomia e educação da liberdade.
Teoricamente, influenciou vários outros filósofos posteriores, como são os
casos de Jurgen Habermas (Ética do Discurso), J. Hawls (teoria da justiça).
Talvez a crítica que se faça com razão a Kant é o fato de, no cumprimento de
sua ética, haver possíveis conflitos entre os deveres. O “não devo mentir” pode conflitar,
por exemplo, “com o direito de salvar vida” em situações de apuro. Concretamente, devo
dizer a verdade a um paciente na UTI sobre o resultado de novo diagnóstico mortal?