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Breves apontamentos sobre a pedagogia crítica de Georges Snyders

Notas breves sobre la pedagogía crítica de Georges Snyders

Doutor em Sociologia
Antonio Carlos Dias Junior
Professor da Faculdade de Educação da Unicamp
kleber2910@gmail.com
(Brasil)

Resumo
O artigo tem por objetivo analisar brevemente alguns dos aspectos presentes no pensamento do filósofo e pedagogo
francês Georges Snyders (1917-2011), sua crítica às pedagogias não-diretivas e seu modelo de pedagogia progressista,
baseado na perspectiva da luta de classes e naquilo que chamou de alegria na escola.
Unitermos: Georges Snyders (1917-2011). Pedagogia Progressista. Alegria na escola.

Recepção: 24/09/2014 – Aceitação: 04/10/2014.

EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 19, Nº 197, Octubre de 2014. http://www.efdeportes.com/
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I
Georges Snyders, nascido e morto em Paris (1917-2011), teve sua formação ligada à filosofia e sua carreira como pesquisador atrelada
à educação e à pedagogia. Ingressou na prestigiosa École Normale Supériere (ENS) em 1937, e foi professor das Universidades de Nancy
e Paris V. Lecionou, mesmo depois de se aposentar, até a década de 1990.
Membro da Resistência francesa na II Guerra, Snyders, que era judeu, foi preso em 1944 e enviado a Auschwitz. Segundo ele, a
experiência da prisão, da fome e da miséria o sensibilizariam por toda a vida, e estariam inextricavelmente refletidas em sua obra e
militância comunista (CAMILLIS, 2006). Casou-se com uma professora e teve dois filhos, que também se tornaram professores. Por
incentivo de seu pai, começou a tocar piano aos seis anos de idade e a música, desde então, passou a ter um grande significado em sua
vida.
Autor de obra extensa e reconhecida na França, seu pensamento passou a ser amplamente divulgado fora da França com a publicação
das obras Pedagogia Progressista (1974b [1971] e Para Onde Vão as Pedagogias Não-Diretivas? (1974a [1973], que constituíram
referência para importantes pedagogos brasileiros, como Dermeval Saviani e José Carlos Libâneo.

Imagem: pcf.fr
A obra de Snyders pode ser entendida em dois conjuntos. De acordo com esta divisão, analisada por Carvalho (1999), a primeira volta-
se para uma crítica das diversas correntes da pedagogia tradicional e também do movimento escolanovista. Constituem o núcleo desta
fase as duas obras citadas acima além de Escola, Classes e Luta de Classes (2005 [1976]), na qual Snyders estabelece as bases de sua
pedagogia de inspiração marxista, trazendo reflexões sobre a educação e o fato de ela estar inextricavelmente relacionada com a sociedade.
Esta discussão colocava em pauta na França (e alhures) a educação dos filhos dos operários, tendo em vista a luta de classes e o projeto
comunista de sociedade.

No segundo conjunto das obras, realizado entre as décadas de 80 e 90, Snyders passa a focar seus esforços naquilo que ele chamava
de alegria na escola, isto é, e na satisfação que a escola deve dar ao aluno. Os textos mais representativos deste período são Alegria na
Escola (1988 [1986]), A Escola Pode Ensinar as Alegrias da Música? (1997 [1989]), Alunos Felizes (1993 [1991]), e Feliz na
Universidade (1995 [1994]). Suas reflexões se encaminham mais para a prática escolar e pedagógica propriamente ditas, vale dizer, para
o papel central da cultura e das artes (música e literatura, sobretudo) na consecução de seu ideal filosófico de educação. Para o autor, a
alegria faz parte de uma luta de transformação, tanto na escola quanto no conjunto da sociedade. Ao analisarmos os dois conjuntos de
obras, observa-se certa continuidade, sendo o segundo conjunto de obras um desenvolvimento do primeiro.
Com a publicação de A Alegria na Escola Snyders não abandona sua crítica de matriz marxista, mas aprofunda a discussão de alguns
temas de sua pedagogia progressista para além da perspectiva da luta de classes. Nesta obra, trabalha com três temas: a ambição de renovar
a escola, a própria função da escola bem como suas relações com a cultura. A ambição maior de Snyders com a obra pode ser resumida
em dois temas: dar alegria e ao mesmo tempo trazer a renovação dos conteúdos culturais. Assim, a escola deveria ser um lugar em que
ocorre satisfação cultural e existencial. A proposta do livro, portanto, é a de encontrar a alegria na escola e a de propor uma cultura
satisfatória voltada para a transformação do aluno.
Em Alunos Felizes, considerada por Carvalho (1999) como uma continuidade de Alegria na Escola, Snyders traz a reflexão sobre a
alegria na escola a partir de livros literários, como romances e poemas, e também através de biografias, autobiografias e diários. Também
em Feliz na Universidade Snyders aborda o tema biográfico, mas agora com o objetivo de ressaltar que a vida do universitário pode ser
um período prazeroso. O autor trata ainda da alegria que visa o desenvolvimento cultural e, a partir dos autores estudados, recolhe
elementos para que os estudantes possam refletir sobre os problemas encontrados na universidade.
Em A escola pode ensinar as alegrias da música? Snyders retoma um tema que diz respeito à sua própria vida e trajetória pessoal, e
que já aparecia em seus primeiros escritos: a música e o papel que seu ensino pode desempenhar no contexto escolar. Snyders traz salutares
reflexões a respeito dos compromissos democráticos e culturais escolares com a música. Para ele, a escola deve propor ao aluno e aos
jovens as progressivas alegrias dos encontros com a música, com a obra-prima. O professor, neste caso, deve estar familiarizado com o
universo musical, a fim de desenvolver sua tarefa adequadamente e de apresentar novos tipos de experiências musicais aos alunos.
II
Segundo Planchard (2006), a educação tradicional está baseada em uma concepção livresca, concebida por manuais, e exige dos alunos
silêncio, receptividade e disciplina. A educação, nesta perspectiva, se iguala ao adestramento. Assim, a Escola Nova surgiu com o
propósito de renovar a educação, de combater a educação tradicionalista. Nessa concepção, o aluno passa a ser mais ativo e ter mais
liberdade, bem como o ensino torna-se individualizado. A educação, portanto, deveria ter um caráter de autoformação: dinâmico,
progressista e existencialista.
Carvalho (1999) observa que Snyders já não considerava a educação tradicional como capaz de responder aos seus próprios objetivos
educacionais, e afirma que a Educação Nova, que veio para suprir suas falhas, não teria conseguido superá-la. Para ele, seria necessário
localizar os limites da educação tradicional e ultrapassá-la, bem como seria necessário ver até que ponto a Educação Nova conseguiria
ultrapassar a educação tradicional, a fim de verificar quais seriam os seus limites.
Dessa forma, Snyders, utiliza os pontos positivos de cada uma das formas de educação para formular uma pedagogia não-diretiva que
traria em si a possibilidade de formação de um sujeito autônomo. Ainda segundo Carvalho, para Snyders, os problemas da educação
tradicional estão nos conteúdos, e não em seus métodos, pois esses podem ser transformados conforme a visão de sociedade a que se
almeja.
O objetivo de Snyders não seria o de estabelecer uma relação crítica ou reformadora entre essas duas formas de educação
(tradicional/Nova), mas sim construir um a pedagogia marxista, tendo como base pessoas conscientes de seu papel na sociedade, que
vejam as escolas como instâncias de luta. Esta pedagogia progressista propõe um modelo de educação que leve o aluno a um conhecimento
verdadeiro e científico, e que traga a possibilidade de formação e posse do conhecimento acumulado pela humanidade.
Desta maneira, os alunos poderão contribuir para a transformação da escola, que está ligada à realidade dos alunos, fornecendo, ao
mesmo tempo, elementos para romper com o diálogo dominante. Nesse contexto progressista, para Snyders, o professor tem o papel de
guiar os alunos nesse movimento de ruptura, ao conduzi-los a uma reavaliação crítica da cultura dominante (Carvalho, 1999).
Com essas idéias em mente, Snyders visualiza a possibilidade de transformação social e da escola, conduzida pela união de diversos
setores das classes dominadas contra a classe dominante. A escola poderia se transformar, nesta perspectiva, em um local crít ico e, ao
mesmo tempo, de alegria, que prepara os jovens para o futuro, uma vez que eles passam a vida toda em ambientes escolares. Enfim, para
o autor, a escola deveria ser um lugar de satisfação cultural.
III
Em Escola, Classes e Luta de Classes, publicada na França em 1976, Snyders elaborou crítica bastante abrangente à educação burguesa.
O autor visava mostrar que o proletariado e os demais setores explorados pelo capitalismo tinham sua base reforçada pelo modelo
educacional que lhe servia de esteio. Apoiado num modelo diretivo e conteudista, no qual o professor ocupa papel central ao guiar a busca
dos alunos tendo em mente a apreensão crítica da realidade com vistas à transformação social, Snyders logrou recuperar os bens culturais
que foram retirados do proletariado. Seu intento, ao fim e ao cabo, era o de buscar a superação do capitalismo e de sua ideologia para,
assim, criar as bases para uma cultura socialista.
Para tanto, Snyders analisa criticamente do pensamento de cinco autores, tomados como pretensamente progressistas: P. Bourdieu-J-
C. Passeron e C. Baudelot-R. Establet (esses pares analisados em conjunto), além I. Illich. Snyders empreende a análise através do modelo
de escola no capitalismo tendo como objetivo central combater o fanatismo e o derrotismo, pois em sua visão estes autores trouxeram a
idéia segundo a qual a escola é um local que não passa nada de valor e que tão somente reproduz as instâncias de dominação da sociedade.
Neste registro a cultura não teria nenhum valor real, e a escola deixaria de ser um local que contribuiria para combater a opressão de
classe.
Cabe lembrar que Snyders publica suas primeiras obras no contexto do maio de 68, período em que a França passou por agudos
questionamentos por parte dos estudantes e operários, que criticavam o rígido e hierarquizado sistema educacional francês, e através dele
a própria configuração da sociedade.
É pelo mesmo movimento que os trabalhadores avançam e fazem avançar a escola. São os trabalhadores que reivindicam, para os seus
filhos, uma escola realmente aberta a todos, a sensibilidade às injustiças da escola agudiza-se paralelamente com a convicção de que é
possível uma outra sociedade. São os trabalhadores que reivindicam a compreensão e o domínio que executam. Aspiram dominar a técnica
em lugar de se deixar escravizar por ela [...] (SNYDERS, 2005, p.104).
Paulatinamente, contudo, Snyders (à época já um intelectual sexagenário) passa a focar suas análises mais na satisfação do aluno dentro
da sala de aula que fora dela, vale dizer, caminha da crítica pedagógica de orientação marxista (luta de classes) para o tema do
antiautoritarismo e da satisfação do aluno no âmbito propriamente escolar (alegria na escola). Snyders relata que a escola é, muitas vezes,
um local de repressão; quando o aluno não tem opção de escolha, e tem que agir sob regras impostas pelo professor, deixa de ter alegria,
pois esta é sinônimo de opção, e as regras não dão opção.
No entanto, Snyders observa que é possível implantar alegria nas ações, mesmo as obrigatórias, uma vez que a obrigação pode abrir
espaço para experiências emotivas. Emoções essas que seriam vivas e violentas, mas que, no entanto, poderiam ser controladas por um
conjunto de situações, levando o aluno a um novo tipo de alegria nascida dos medos gerados pela obrigação. Com efeito, as regras também
são um aspecto da alegria.
A obrigação escolar ainda ajudaria o aluno a não se desviar de seus objetivos, protegendo-o contra si próprio e contra a arbitrariedade
dos outros. Essas obrigações levariam o aluno para um caminho que ele, sozinho, não enxergaria; seria uma forma de progredir, uma vez
que se a escola não colocasse tais obrigações para o aluno, ele não atingiria a alegria de progredir, isto é, não o incitaria a ir ao máximo
de suas forças. Esse ponto, portanto, representa uma característica da educação tradicional que Snyders transforma em beneficio para o
aluno.
A renovação e alegria na escola são orientações que Snyders traz em suas teorias onde educar vai levar o aluno à liberdade. Tendo a
escola a função de conduzir o aluno a mudar seus desejos existentes, como também a fazer surgir novos desejos, Snyders observa que o
autoritarismo aconteceria na escola a partir do momento em que o aluno é obrigado a aceitar uma cultura que não é a dele e que não
condiz com sua realidade. É exatamente esse aspecto que o autor combate, propondo um modelo não-repressivo e antiautoritário.
É preciso reconhecer realmente que a escola é de inicio lugar de divergência entre as maneiras de ser: do professor aos alunos, desacordo
de idade, de formação, de gostos; corre-se o risco de que o professor esteja voltado para seu passado que justifica enquanto que os alunos
estão voltados para o futuro [...] (SNYDERS, 1988 p. 216).
Deste cenário decorre a crítica derradeira de Snyders, baseada nos métodos repressivos exercidos nas escolas. Para o autor, a
escola descola o aluno de sua realidade, e impõe, de maneira repressiva, não somente métodos e padrões a serem seguidos no âmbito
escolar, mas antes – e sobretudo – certa visão de mundo cindida em que a liberdade e a autonomia, enfim a alegria (para usar um termo
caro ao autor) não são possíveis.
Referências bibliográficas
 CAMILLIS, L. S. Entrevista com Georges Snyders – Paris. Revista Zero a Seis. Florianópolis, no. 13, janeiro/junho, pp. 159-164, de 2006.
 CARVALHO, R. M. Georges Snyders: em busca da alegria na escola. Revista Perspectiva. Florianópolis, no.32, v. 17, 1999.
 PLANCHARD, É. A Pedagogia Contemporânea, Coimbra, Coimbra Editora, 2006.
 SNYDERS, G. A Alegria na Escola. São Paulo, Editora Manole, 1988.
 SNYDERS, G. A escola pode ensinar as alegrias da música? São Paulo, Cortez, 1997.
 SNYDERS, G. Alunos Felizes, reflexão sobre a alegria na escola a partir de textos literários. São Paulo, Paz e Terra, 1993.
 SNYDERS, G. Escola, Classes e Luta de Classes. São Paulo, Centauro, 2005.

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