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2

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UNIDADE

3

ETICA MEDIEVAL

\ ocê se considera

já refletiu

:

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1~

uma pessoa boa? Já se perguntou

sobre as razões que teríamos

vimos

que,

na Antiguidade

do bem correspondia

de tudo,

agir

conforme

o que significa

os filósofos

da nossa

ser bom e se isso

é possível?

Ou,

essas

bem,

nesse

; ainda,

.'

para desejar

Por isso,

uma vida em acordo

consideraram

própria

as teorias

natureza

éticas

com o bem?

como

Agir

!.~' m

Anteriormente, que a busca

eles,

era,

antes

grega,

à realização

questões

racional.

e entenderam

segundo

a razão.

desenvolvidas

contexto

são consideradas

racionalistas.

Durante

a Idade

Média

e a Modernidade,

a tendência

racionalista

continuou

predominante

no campo

dà reflexão

ética.

Porém,

os fundamentos

da ação

moralmente

correta

passaram

a incluir

novos

conceitos,

além

da felicidade

(eudaimonía) ou do

prazer,

tais

como:

a

fé,

o dever

e

a

utilidade.

Além

disso,

a

influência

cristã

fez

com que,

no

Período

Medieval,

a busca

por

uma vida

ética

tomasse

como

modelo

a

santidade

personificada

por figuras

de destaque

no contexto

religioso,

cujas

afirmações

adquiriram

o peso

de autoridade.

 
 

Por outro

lado,

o pensamento

moderno

herdou

de algumas

reflexões

medievais

uma maior

atenção

em

relação

ao conceito

de vontade, tido

como

elemento

constituinte

da natureza

humana,

ao lado

da razão.

Sendo

assim,

algumas

teorias

filosóficas

desse período

apontaram

novos

fundamentos

possíveis

ética. Apesar

disso,

de um modo geral,

podemos

afirmar,

entre

elas,

o predomínio

da tendência

para a ação racionalista,

que

só seria

fortemente

abalada

na passagem

ao pensamento

contemporâneo.

 

Nesta

etapa

de estudos,

você conhecerá

reflexões

medievais,

modernas

e contemporâneas,

que poderão

ajudá-lo a encontrar suas próprias respostas para questões sobre a natureza da ação e seu alcance.

ética,

seus fundamentos

 

CONCEITO FILosóFICo

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correspondia

aos desejos

vontade como faculdade de agir e escolher, que poderia seguir, ou não, as orientações da razão. Nesse contexto, adquiriu importância o conceito de livre-arbítrio, ou seja, de vontade livre, capaz de optar pelo bem ou pelo mal a cada ação e a cada escolha.

No pensamento

antigo, o conceito

de vontade

ao querer compatível

com a razão, e o de paixões,

que entenderam

a

de natureza

sensível. Na Idade Média e na Modernidade,

porém, houve pensadores

NASCIMENTO

DA ÉTICA

CRISTÃ

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A partir

religião

oficial

do século

IV d.C.,

em seus domínios,

o Império

Romano

o que impulsionou

adotou

o cristianismo

como

a formação

de um pensamento

fil

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co

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consonanCla

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com

da Igreja

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para adaptar

a

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as de Platão

os

e

Aristóteles, ao conteúdo das Sagradas Escrituras, a(>esar de existirem contradições., .

Portanto,

inclusive

c,onceltos

a Etica,

centrais

para

as diferentes

O bem,

a ação

moral

por

-"

áreas

da reflexão

encontrou

o

meio

para

filosófica,

em Deus

a união

foram

reinterpretados.

de modo

que

exemplo,

se tornou

a sua personificação,

do homem com ele.

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ENSINO

MÉDIO

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em dois grupos: o Antigo

Testamento, anterioraJesus Cristo e o NovoTestamento escrit~ pelos discípulos dele:

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Nesse

contexto,

verificou-se

uma

grande

aproximação entre reflexões éticas e teológicas. Por exemplo: de acordo com o Novo Testamento bíblico, acrescentou-se às virtudes cardeais de Platão (temperança, prudência, justiça e coragem ou fortaleza) e às virtudes éticas de Aristóteles (coragem ou fortaleza, temperança, liberalidade, magnanimidade, mansidão, franqueza e justiça), um novo conjunto

r

formado pelas virtudes

,

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e candade.

teologais

-

fe, esperança

passaram a ser considerados normas morais absolutas, a

OS Dez Mandamentos

Alem dlSSO,

n

As leis divina~ en-

tregues

a MOlSés,

conformeo Antigo

Testamento.

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que todos teriam o dever de respeitar

qualquer circunstância.

Essa nova

concepção

de Moral

em

_@'~.!~12~.:3

Os Dez Mandamentos

e de Ética esteve

presente

nas obras filosóficas e teológicas

medievais,

incorporandoas noções de fé, dever e salvação do homem

às suas reflexões.

(ações) humanas estendeu-se

Assim, a investigação

das condutas

do

também às intenções

'1

agente, enquanto o dever e a beatitude

assumiam o

Essa gravura pode ilustrar a personificação do bem e do mal no pensamento filosóficomedi~l, aqui repre-I lugar outrora ocupado pela felicidade (eudaimonía) e pelo

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e a beatitude,

como bem-aventurança,

ou seja, um tipo

de felicidade associado à comunhão com Deus. Esse contexto deu origem a um conjunto de reflexões

autores designaram como Ética cristã, e outros, como Moral cristã. Em busca de uma visão panorâmica dessa nova perspectiva, apresentaremos algumas contribuições dos maiores representantes do pensamento cristão medieval, cuja

influência se estendeu por um longo tempo e ainda se faz presente, em especial, nos meios católicos. Trata-se de

que alguns

Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, que se destacaram na Patrística e na Escolástica, respectivamente,

santificados

pela Igreja,

em razão de suas obras e de sua vivência

da fé cristã. r}]

sendo

CONTRIBUIÇÃO

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AGOSTINIANA

do

pensamento

e do estoicismo.

doutrina persa iniciada por Mani e, por isso, denominada maniqueísmo, que apresentava uma visão dualista do

o pensamento

de Agostinho

recebeu

influências

greco-romano,

em especial, do neoplatonismo

Além disso, na juventude, ele seguiu uma

a razão, fazia parte da essência humana. Apresentou a razão

como sendo a faculdade de conhecer, e a vontade como sendo

Destacou,

entendido como liberdade de escolha, dada ao homem por

a faculdade

de escolher.

ainda, o livre-arbítrio,

Deus,justamente

para que ele pudesse direcionar a vontade à

mundo. Porém, unia vez convertido ao cristianismo,

busca do melhor. Noentanto, para Agostinho, o uso incorreto

dedicou-se à construção de uma Filosofia cristã, aceitando

a

concepção

de Deus como ser perfeito,

sumamente bom

dessa liberdade pelo homem, desviando-a do melhor, seria a causa do mal moral, ou seja, do pecado humano.

e

criador

de todas: as coisas.

Diante

disso,

uma questão

Para compreender

a possibilidade

do

mal

moral

permanecia sem resposta: como explicar a origem do mal? Anteriormente, ele haviaadotado a visão maniqueísta,

segundo a qual existiriam, no Universo, duas forças ou substâncias primordiais: o bem e o mal. No entanto,

a criação

perfeição do Deus cristão. Assim, Agostinho

sua origem

substância existente, mas como manifestação de carência

e desvio em relação ao bem.

não como uma

do mal era incompatível

na ação humana,

com a bondade

encontrou

e

a

a

definindo-o

no pensamento agostiniano, é preciso considerar sua crença na existência de inúmeros bens, uma vez que

ele entendia

Deus

perfeito.

e o conjunto

bom. Ainda assim, o bem supremo seria Deus, o Criador

e, por sua natureza,

-lo acima de tudo. No entanto,

a criação

como obra de amor

de um

Logo, todas as coisas particulares

harmônico,

formado

a vontade

seriam boas,

por elas, seria muito

humana deveria buscá-

ao inverter a hierarquia

natural,

submetendo

a alma ao corpo,

o homem poderia

Para explicar

a possibilidade

dessa transgressão,

ele

voltar-se

para

os bens

inferiores,

preferindo-os

a

recorreu ao conceito de vontade, elemento que, assim como

Deus. O pecado

seria justamente

esse uso inadequado

ENSINO

MÉDIO

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do llvre-arbítrio, esse desvio da vontade, ou seja, um ato de soberba da criatura que se afastaria voluntariamente do Criador. Segundo Agostinho, males físicos, como as doenças e a morte, vieram do pecado original, representado pela soberba de Adão e Eva, por meio de que a alma pecadora corrompera a carne.

da graça

Depois desse delito, o homem divina para se redimir. Contudo, em um segundo

passou

a necessitar

a salvação

ato de amor, Deus lhe concederia

do indivíduo.

a graça,

Ela poderia tornar boa a vontade corrompida, a tal ponto que o indivíduo pudesse direcionar o livre-arbítrio ao verdadeiro bem, para o qual ele fora criado, tornando-se, assim, incapaz de fazer

como meio de proporcionar

o mal. Essa impossibilidade,

ao ápice da liberdade r

segundo Agostinho,

humana.

corresponderia

1

Apósa sua conversão ao cristianismo, Agostinho ~~
I

i abdicou da visão maniqueista que considerava

I

I

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o mal como uma substáncia.Passou,então,

a vê-lo como carência e desvio ,em relação ao

bem. Ainda hoje o adjetivo "maniqueismo"é

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utilizado

para se refedr.a

umavisãoduaUsta

do

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I mundo,

baseada

em uma oposição

radical

entre

I

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o bem e o mal, sem considerarpossibilidades

intermediárias.

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CONCEITO

FILOSÓFICO

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No pensamento

de Agostinho, a graça pode ser compreendida

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nuscrito do séculoVIIIou IX.1 pinturà

.

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como "do,m gratuito

de Deus", em es-

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pecial, o dom da salvação. Por amor divino, ela seria oferecida à humanidade, formada por criaturas

imperfeitas, que compartilhavam o pecado original de Adão e Eva. Segundo Agostinho, além do livre- -arbítrio, o homem também necessitava da graça, para retomar a Deus.

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Nos textos a seguir, você poderá

compreender

e livre-arbítrio,

bem como a relação destescorn

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ENSINO

MÉDIO

melhora

abordagem

deAgostinho

a possibilidade

do mal moral:

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sobre os conceitos

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de vontade

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Livre-arbítrio'

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[.u] Se é verdade que o homem em si,é bom, mas não poderia agir bem exceto por querer, seria

preciso que tivesse vontade

livre para que pudesse

agir de,sse modo.

De fato, não é porque

o homem

pode usar a vontade

uma razão pela qual Deus deu ao homem est,a caracterrstica, pois, sem ela, não poderia viver e agir

corretamente. Pode-se compreender, então, que ela foi, concedida ao homem para esse fim, conside-

livre para pecar que se deve supor que Deus a concedeu

para isso. Há, portanto,

rando-se que, se um homem a usar para pecar, recairão sobre ele as punições divinas. [u.] ,

 

'

,

Quando Deus pune o pecador

não te parece que

lhe diz o

i!:IIEstou te punindo

porque não usas-

te de teu livre-arbrtrio

para fazer aquilo

para o que

eu o

u seja, para agires corretamente.

. De libero arbltrio.ln: MARCONDES.Danllo.,Textos básicos de ~tiCa:

-'

2008. p.53.

'

~

Tomás de

Aquino

Contribuição tomista

j

Tomás

de Aquino,

que viveu

no século

XIII,

também

se destacou

entre

os teólogos

da Igreja

Católica.

Dos diversos

temas

filosóficos

sobre

os quais

ele

refletiu

e escreveu,

abordaremos

algumas

das principais

contribuições

ao campo

da política.

Sob a influência

das obras

de Aristóteles,

Tomás

defendia

a participação

dos cidadãos

para

o êxito

do

governo

e previa

a necessidade

de que

o próprio

governo

se conformasse

à virtude.

Ele entendia

a virtude

como

inclinação

e hábito

de agir

conforme

a razão,

ressaltando

as virtudes

cardeais

üustiça,

temperança,

 

fortaleza

e prudência).

Afirmava

que as virtudes

regulavam

a vida

interna

do homem,

guiando

suas intenções.

Enquanto

isso,

as leis

regulavam

a vida

externa

do homem,

guiando

as suas ações.

Contudo,

uma "lei"

que

não se conformasse

à razão

não passaria

de iniquidade.

 

Por

outro

lado,

sendo

conformes

à razão,

as verdadeiras

leis

conduziriam

os seres

humanos

à

sua

finalidade

comum:

a beatitude.

Mas,

não deveriam

garanti-la

apenas

para

o indivíduo

e,

sim,

preocupar-se

com o bem da coletividade.

Além

disso,

Tomás identificava

uma hierarquia

entre

elas:

todas

deveriam

partir

da

lei

eterna,

que seria

o próprio

Deus,

o governante

da primeira

e maior

das comunidades

-

o mundo.

Ela

se

manifestaria

nos seres

humanos

sob

a forma

das leis

naturais,

ou seja,

das inclinações

comuns,

regidas

pelos

princípios

da moralidade:

fazer

o bem

e evitar

o maL. Em seguida,

viriam

as leis

humanas,

estabelecidas

para

ordenar

os aspectos

particulares

de cada

sociedade.

Elas deveriam

emanar

da própria

comunidade

ou

de seu representante

legítimo.

tomista,

 

No pensamento

as sansões

eram

consideradas

naturais,

uma

vez que

o afastamento

da ordem

natural

necessária

(os instintos)

acarretaria

o mal e a destruição

de qualquer

criatura

não racionaL.

No caso

do

homem,

como

criatura

livre

para optar

pela observância

ou transgressão

da reta

ordem,

haveria

recompensas

ou castigos.

Porém,

a tirania,

considerada

como degeneração

do melhor

regime

(a monarquia

de um governante

 

justo)

não deveria

ser aceita

incondicionalmente.

Caso fosse

moderada,

o melhor

seria

suportá-la,

para proteger-se

dos perigos

de fazer-lhe

Para

evitá-la,

Tomás

indicava

a observação

das características

do homem

indicado

para o trono

oposição. e a ordenação

do

poder

de

modo

a não

abrir

oportunidades

para um governo

despótico.

Mas,

uma vez que ele se instalasse,

por

usurpação

ou degeneração

do governo,

e que

o tirano

exorbitasse

do poder,

caberia

à autoridade

pública

que

o

designou

levá-to

a abdicar.

O povo

só poderia

fazê-lo

diretamente,

nos locais

em que

ele

próprio

elegesse

o seu governante.

Além

disso,

nos casos

em que

não

houvesse

solução

humana,

deveria

recorrer

a Deus,

a

14

fim

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de que

ele

ENSINO

pusesse

MÉDIO

termo

a essa condição

infeliz.

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OS FINS JUSTIFICAMOS MEIOS?

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Maquiavel

Durante o Renascimento,

da Igreja

Católica,

despertou

o reencontro

com o pensamento

antigo,

novas ideias politicas.

Intelectuais

,.-

\

anterior

ao estabelecimento

do poder teocrático

europeus, em especial na Itália,

assumiram o I

ideal republicano, ou seja, de uma vida politica ativa,

baseada em leis que promovessem

o bem comum,

em vez de

uma vida contempLativa

e da submissão

defendidas

pelos religiosos.

No entanto,

o cristianismo

permanecia como

cenário em que se desenvolviam

as novas concepções.

Logo, ainda

que diversos

pensadores

políticos

recusassem a

I

concepção de governo como predestinação

divina,

a ideia de um governo justo,

em acordo com as leis divinas ainda

preponderava:

o príncipe

virtuoso

e justo

continuava

representando

um ideal

a ser buscado.

Os laços entre

a Ética

e a Política

permaneciam

sólidos

entre

os representantes

da nova mentalidade,

muitos dos quais escreveram obras

para aconselhar

os príncipes

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a respeito

da melhor

postura

a adotar

em relação

aos súditos

e ao poder.

Todavia,

em 1513,

a obra

O

príncipe, de Nicolau Maquiavel,

abalou

alguns

desses pilares da

tradição

ocidental:

a Política

entreLaçada à Ética e o modelo do

príncipe

virtuoso,

responsável

pelo bom governo.

Como outras

publicações

renascentistas,

ela

aconselhava

o príncipe

sobre

a melhor

conduta

no

governo,

mas inovando

muito

nos

conselhos.

A

partir

de

estudos

da história

 

e

de

sua

experiência

como

diplomata

(numa

Itália

dividida,

sob

disputas

e invasões),

Maquiavel

propôs-se

a falar

da política

real

e não

da ideaL.

 

,

A roda da deusa Fortuna é ,uma representação dássica para as mudanças ocorridas, na sorte humana. Maquiavel utilizou

sentação em OprCncipe.Afirmou que a fortuna era a ocasião que se apresentava e mencionou também a virtú, ou seja, a capacidade de perceber a, ocasião favorável. ou forçá-ta, e agir para realizar os objetivos poüticos: conquistare manter o poder. Vale lembrar que

esses objetivos não eram, maisassodados à virtude, porém mantinham-se vinculados ao ideal do bem comum. Ressaltamos, ainda, que

Oprlndpe inaugurou o pensamentopoütico moderno:.eParandolnemediavelmente a virtude

questionando ,a identidadedássica e medieval entre Ética e Poütica; explicitando o conflito social originário, o que afrontava o ideal medieval do corpo DÚltico-poütico do rei, ligado ao direito divino de, governar. Assim, em contraposição à tese de uma comunidade

homogênea, presente nos modelos anteriores, Maquiavel estabeleceu o solopara o floresclmento das teorias contratuaUstas dos séculos

essa repre-

poütica das virtudes morais e religiosas;

I I XVII e XVIn, que abordaremos em outro momento.

L

16 t

ENSINO

MéDIO

Portanto,

negava

que

a origem

dos

Estados

efetivos

estivesse

na vontade

divina

ou

em uma

natureza

humana

voltada

à justiça

e ao

bem

comum.

Dizia,

ao contrário,

que os Estados

nasciam

da oposição

entre

os

grandes,

que desejavam

dominar,

e o povo,

que desejava

não ser dominado.

Afirmava

ainda

que eles poderiam

estabelecer

a unidade

social,

através

de

um

poder

maior,

esse conflito

sem,

no entanto,

eliminá-lo.

Porém,

toda

ação do príncipe

tenderia

que administrasse um dos lados

a contrariar

dessa disputa,

o que exigia

o uso

da força

e

um

novo

tipo

de virtude,

propriamente

politica,

a virtú. Esta se caracterizava

como

a capacidade

de bem aproveitar

a fortuna

(sorte),

ou seja,

de achar

a ocasião

favorável

à realização

dos verdadeiros

fins

 

-

politicos:

a conquista

e a manutenção

do poder.

Além

disso,

fugindo

à tradição

greco-romano-cristã,

Maquiavel

não classificou

os governos

em originais

e

degenerados,

contrário

os governos em que os grandes conseguissem esmagar o povo com um poder maior que o do governante.

nem os submeteu ele considerava

à hereditariedade

legitimo

qualquer

.que decorria

governo

do princípio

do direito

divino

de governar.

Ao

disso,

que estivesse

a serviço

do povo e tinha

como ilegitimos

Assim,

abria a possibilidade

da formação

de novos

principados,

por meio

da conquista

de quem

soubesse

fazer

bom

uso

da virtú

e da fortuna,

as quais

também

seriam

necessárias

para saber

mantê-los.

 

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o texto

a seguir

revela o contraste

entre

as concepções

políticas

de Maquiavel

tE IT!(JRÀiF.ILO'SÔF'] tA'

e a tradição

que o antecedeu.

Os conselhos apresentados ao governante podem esclarecer quanto ao escândalo provocado pela obra Opríncipe entre os contemporâneos de seu autor.

ENSINO

MÉDIO

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17