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Representação do Mansa Musa do Mali.

Pormenor do Atlas Catalão de 1375.

FARIAS, Paulo Fernando de Moraes. Sahel: a outra costa da África.


Curso apresentado no departamento de História da USP, setembro de
2004. Transcrição Daniela Baoudoin.
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Sahel: a outra costa da África que há uma África branca ao norte do Sahel, de populações
- Paulo Fernando de Moraes Farias como os mouros da Mauritânia, que falavam berbere numa
época recuada da história, e que hoje falam árabe, ou como os
tuaregues do Mali e do Níger; e ao sul, uma África negra de
[...] Há toda uma disciplina - a paleo-climatologia - que se populações como os mandê, os songai e muitas outras. No
preocupa em estudar sedimentos no fundo dos lagos da África entanto, esta afirmação é uma simplificação excessiva e quase
e a espessura dos anéis de crescimento vegetal, através da qual absurda, pois não há uma divisão clara de dois grupos de cor
é possível lançar um olhar de volta ao passado e tentar de pele diferente. A divisão que se faz, muito frequentemente,
reconstruir que tipo de clima existiu, por exemplo, no século emprega dois nomes: bidan e sudan; os primeiros sendo os
XI ou no século VIII da era cristã. Há uma variação brancos, e os segundos, os negros. Mas, na verdade, as
considerável... se olharmos para esse sítio arqueológico que é populações ditas brancas têm uma grande mistura de
(inaudível), que pode muito bem corresponder a uma cidade populações negras dentro do grupo, e o contrário também
medieval muito conhecida: Awdahust. As descrições que acontece. Ademais, trata-se de populações africanas nos dois
temos dela na Idade Média sugerem uma possibilidade de lados dessa divisão.
cultivo em escala relativamente grande, possibilidade essa que
já não existe. É muito possível que a isoieta que passava por A África é o continente onde a humanidade tem tido presença
Tegdaost já não passe mais; a linha que indica a precipitação por mais longo tempo, é precisamente aí onde se encontra a
pluvial que passava ao norte da cidade, hoje passa mais ao sul. maior acumulação de mutações fortuitas, que é uma das
Mas, essa fímbria, essa margem, que é uma fronteira entre o principais fontes de diferença entre os grupos humanos.
deserto do Saara e a África tropical, não deve ser vista como Portanto os berberes, as populações ditas bidan, os mouros, os
uma margem ou uma fronteira que divide duas ondas tuaregues, não devem ser tratadas como às vezes os são, como
ecológicas bem diferenciadas, pois há trocas muito populações estrangeiras à nossa definição de África; são
importantes entre uma zona e a outra. O Sahel é, na verdade, populações geneticamente aparentadas, e o fato de que a
uma articulação central num sistema de trocas e de diferença de aparência física entre esses grupos não seja muito
relacionamentos, que envolve economia, cultura e outras grande, não vem apenas da intensidade de miscigenação, que
atividades. tem acontecido através dos séculos, vem também do fato de
que de princípio elas também não eram muito diferentes, elas
Costuma-se fazer, em relação ao Sahel, uma divisão entre são descendentes de ancestrais comuns. Esse é um dado
populações ditas de cor branca e de cor negra, e essa genético que é necessário ter sempre em mente. A informação
classificação não é feita apenas por olhares estrangeiros, que temos a respeito das populações do Saara e do Sahel
também é referida pelas tradições do próprio Sahel. Afirma-se através da história, deixa claro que grupos que hoje são
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identificados como grupos bidan eram, originalmente, grupos de exploração econômica que cada grupo pratica numa
negros, e vice-versa: grupos que hoje são classificados como determinada situação histórica e numa determinada
indisputavelmente grupos sudan eram, originalmente, bidan. conjuntura climática.
É possível mostrar isso em detalhe em países como o Senegal e
a Mauritânia. Essa zona saheliana de trocas e de relacionamentos, parece ter
sido assim desde muito antes do grande comércio
As diferenças étnicas no Sahel estão intimamente ligadas à transaariano das grandes rotas, que foi um fenômeno
especialização em tarefas econômicas e à exploração de nichos relativamente tardio. Parece que os gregos, ou o próprio
ecológicos. Os bidan, em teoria, não são cultivadores, são império romano, tiveram contatos esporádicos através do
gente que cria camelos. Os sudan são cultivadores ou criadores deserto com a África saheliana e com a África tropical. Os
de gado. Essa descrição não funciona na prática, porque cada grandes contatos regulares se desenvolvem a partir do
grupo de população no Sahel explora as possibilidade que tem segundo século da era cristã, com a difusão da presença do
numa determinada situação climática e ecológica. Então, um camelo no Saara e com a formação de grandes tribos nômades.
grupo negro que tradicionalmente se dedicou ao cultivo da A grande tribo nômade presente no deserto tampouco existiu
terra e que, de repente, se encontra numa situação em que o eternamente, houve um processo de colonização de uma área
cultivo da terra não é mais possível ou não é mais rentável, ecológica difícil, que só pôde acontecer quando o camelo ficou
pode optar por mudar de estilo de vida, de passar, por disponível. Há uma grande massa de vegetação e uma
exemplo, à criação de camelos. quantidade grande de água no deserto que está irregularmente
distribuída e varia muito de ano para ano, e o nomadismo é a
Fontes árabes medievais nos mostram mais de um caso desse única estratégia econômica que permite a exploração desses
processo, como o das populações que fundaram a cidade de recursos. Na medida em que grandes tribos nômades
Tadmekka ou Es Souk. Uma fonte medieval indica claramente passaram a existir, também guias e organizadores de
que esse era um grupo de origem meridional e negro que, caravanas para comerciantes estabelecidos no norte, passaram
pouco a pouco, mudou seu estilo de vida, cessou de viver no a descer até o sul; mas este fenômeno se dá depois da vinda do
sul dedicado ao cultivo da terra e passou a criar camelos e a islã e dos árabes ao norte da África, isto é, começa de uma
viver junto com outros grupos que criavam camelos e que maneira sistemática a partir dos anos 800. Já na segunda
eram bidan. Através de matrimônio, através de mistura, metade do século VIII, ao redor de 780, há sinais de tráfego
passaram a ser um grupo branco, e muitos dos grupos brancos transaariano, mas deveu-se, principalmente, porque nesse
têm uma cor bastante escura. Essa divisão entre brancos e período houve, por assim dizer, um estreitamento do deserto,
negros deveria ser deixada de lado e substituída por uma houve maiores precipitações pluviais, tanto no norte quanto
outra, uma classificação baseada no tipo de trabalho, no tipo no sul. Havia mais água no Saara, portanto ficava mais fácil
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atravessá-lo, e é desse período que datam essas grandes rotas processo, não como penetração, mas, pelo contrário, como
e que datam os grandes contatos entre o norte e o sul. extroversão.

A arqueologia, ao estudar lugares com a cidade de Djenné ou Extroversão é um conceito que está se tornando muito popular
de Gao, no arco oriental da curva do Níger, pôde mostrar a em estudos africanos, principalmente para estudos de
existência de sociedades complexas e de complexos urbanos períodos mais recentes da história africana, como, por
altamente organizados antes do começo do tráfego exemplo, o estudo da atual cultura popular africana, que
transaariano sistemático. Essa é precisamente uma das absorve tanta coisa que vem do outro lado do Atlântico, e que
contribuições mais recentes e mais interessantes ao estudo da se transforma. Contudo, eu proponho a utilização desse
região, o fato de que cada vez mais se tem acesso à evidência conceito para a época inicial do tráfego transaariano. A
que mostra que a origem de grandes estados, de sociedades aplicação do conceito a esse processo consiste em propor que o
complexas e grandes complexos urbanos precedeu, na que aconteceu, na verdade, dentro das sociedades sahelianas
verdade, o estabelecimento do comércio transaariano. foi um grande interesse de conhecer o externo e de se
Contudo, não há nenhuma dúvida de que o estabelecimento apropriar de idiomas externos para re-dizer coisas que eles
desse comércio transaariano fez uma enorme diferença à diziam antes, de outra maneira. Não digo isso de um ponto de
história da África. vista romântico, negando a importância das influências
externas, mas chamo a atenção para o fato de que as
Há duas maneiras de olhar para esse fenômeno, uma é o que influências externas, por elas mesmas, não teriam tido efeito
poderíamos de chamar 'maneira clássica', que consiste em considerável se não houvesse já, na própria sociedade do
dizer: houve uma penetração do continente africano por Sahel, uma receptividade ativa e um interesse ativo em receber
influências culturas e econômicas vindas do Mediterrâneo, essas coisas de fora e em retrabalhá-las. Então, o enigma a
vindas do Oriente Próximo, que passaram através do Saara e decifrar é: por que de repente houve esse interesse? Em
transformaram o que está do outro lado do deserto. Trata-se primeiro lugar, se tivesse havido interesse antes, os meios de
daquela linguagem que fala em conversão dos africanos ao satisfazê-lo não existiam, porque a passagem através do Saara
Islã, ou penetração do Corão na África. É uma linguagem que era extremamente difícil. Quando o camelo e a caravana
precisa ser criticada, pois ela produz automaticamente uma tornaram o Saara permeável, o Sahel pôde interessar-se pelo
imagem de passividade histórica. A África saariana e saheliana mundo de fora e pôde começar a ter uma participação nele,
aparecem, à luz desse discurso, como quase que desprovidas pois nessa época do desenvolvimento do tráfego transaariano,
de agência histórica, como receptores mais ou menos passivos a África saheliana intervém de uma maneira bastante firme,
de influências vindas de fora. Porém, é preciso ver este bastante decisiva, nos eventos históricos que estão
acontecendo fora dela. O grande exemplo disso é um
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movimento que começou no século XI, ao norte do rio


Senegal, justamente na região da cidade de Awdaghust, e Esse processo de abertura do Sahel ao exterior não é um
também na região da cidade de Azugi; um movimento político- processo em que as portas são abertas para que tudo entre, é
religioso que se expandiu para o norte, conquistou o que hoje é um processo em que o próprio Sahel sai de si mesmo para
o Marrocos, conquistou o que hoje é a parte ocidental da invadir a Espanha, o Marrocos ou a Argélia. É um processo
Argélia, e não ficou por aí, passou adiante, cruzou os estreitos que tem que ser visto desse ponto de vista. Estou falando,
e conquistou uma boa parte do que era na época a Ibéria naturalmente, de grandes tropas através do Saara, mas há
muçulmana, do que veio a ser a Espanha e do que veio a ser outras tropas importantes que passavam entre o Sahel e as
Portugal. Esse é um dos raros exemplos em que vemos na regiões africanas mais ao sul. Por exemplo, se olharmos o
história um império africano vindo bem do sul, não vem da mapa há símbolos que representam as minas de sal, as de
África do norte, mas do Saara ocidental. cobre e as de ouro. Há dois minerais cuja distribuição é muito
característica; as minas de ouro estão no que hoje são a
[(interrupção) ... chegando até a Europa meridional ...] República de Gana, a República da Costa do Marfim,
meridional em Sevilha, mas que tinha a sua metrópole no sul República do Mali e República do Senegal. Não há minas de
do Marrocos, em Marrakesh, e cuja força principal era ouro no Saara. O que há ali - em Teghaza, Taoudeni, Erbed, e
constituída por contingentes sahelianos de gente que não assim por diante - são grandes minas de sal. O sal é uma
falava árabe, em sua maioria falava berbere, e que incluía substância vital aos moradores do interior da África tropical,
também contingentes negros do vale do Senegal. Isto pode ser que têm uma grande necessidade fisiológica de sal e muito
usado como argumento para sublinhar o fato de que o que pouca possibilidade de se aprovisionarem em sal localmente.
estava acontecendo naquela época não era simplesmente uma Portanto, a troca deve ter existido desde um período muito
conversão da África saheliana ao Islã, nem simplesmente uma remoto entre o sal, trazido para o sul pelos habitantes do
introjeção do Islã na África saheliana, mas era uma deserto, e o cereal, cultivado no sul pelos que viviam ao longo
extroversão da própria África saheliana. A África saheliana do vale do Níger e do vale do Senegal. Outros produtos
busca novos idiomas e novas estratégias, e essas estratégias e também, como a noz de cola, vieram do sul, e, na medida em
esses idiomas que são de status, digamos, internacional, são que esse circuito, a princípio limitado a trocas entre o deserto,
necessariamente islâmicos, porque o mundo externo, acessível o Sahel e a África tropical, se amplia, para abranger trocas com
ao Sahel, na época, era o mundo islâmico. A população entra o norte da África e com o Oriente Médio, o ouro, que está no
em contato com idiomas novos para tratar do tempo, para sul, na África tropical, passa a ser importantíssimo.
mapear o espaço do próprio Sahel, para legitimar o poder
político, para descrever formas novas de acumulação de Esse é um período em que havia o que se pode chamar de uma
riqueza na região. fome de ouro na Europa e poucas possibilidades de acesso a
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ele. A África tropical, a partir do desenvolvimento do tráfego sua própria cultura estabelece, e esse é um dos mecanismos
transaariano, veio a ser a América antes da América, o lugar que permitem mudanças na história e na cultura.
onde a Europa podia, não só a Europa cristã, mas o mundo
Mediterrâneo, incluindo a Europa muçulmana, se Assim, esses muçulmanos, sem deixar de, por isso, serem
aprovisionar em ouro. Esse circuito de trocas se estende, muçulmanos pios e obedientes à lei do Islã, fecharam os
portanto, a regiões bastante ao sul, e tudo isso passa pelo ouvidos a essas recomendações, a esses desencorajamentos, e
Sahel. Para que essas trocas comerciais fossem possíveis, foi continuaram; ora vindo eles mesmos ao sul, ora financiando
necessário que certos fatores se pusessem em ação. O primeiro essas vindas.
desses fatores foi a presença de comerciantes vindos de fora da
África, vindos do norte; no Sahel, esses comerciantes eram A presença do Islã é uma presença importante, e uma das
muçulmanos. A característica mais interessante da vinda deles características centrais dela é ter sido uma presença pacífica.
é a de que eles não deveriam ter vindo. As autoridades O Sahel nunca foi conquistado por nenhum islâmico vindo do
religiosas do norte da África não proibiam a vinda de norte, a não ser muito mais tarde, já no final do século XVI,
caravanas muçulmanas ao sul, mas as desencorajavam durante todo o período que corresponde no Sahel à Idade
fortemente, sistematicamente. Esse processo se deu por uma Média europeia. É um comércio pacífico, são comerciantes
razão muito simples. Quem vive numa sociedade muçulmana, viajantes, missionários, que vêm, atravessam o deserto e se
de acordo com a lei muçulmana, sabe que vive de acordo com estabelecem na região. Essa penetração pacífica se acompanha
regras muito precisas a respeito de assuntos como divisão de de concessões feitas pelos estados do sul, que tinham interesse
propriedade e a distribuição de herança. Mas quando um em manter essa presença e, por isso mesmo, estão dispostos a
comerciante, ou um grupo de comerciantes, deixava uma modificar costumes importantes em sua sociedade e, assim,
sociedade islamizada, ao norte da África, e vinha para o sul, facilitar a vida desses estrangeiros que chegavam através do
entrava em territórios onde a lei do país não era a lei islâmica. Saara. Isso fica muito claro em descrições de cerimonial em
Se, por acaso, um desses comerciantes morria, deixando cortes africanas, do qual fazia parte da etiqueta real local que
herança e dívidas, não haveria segurança de que sua um súdito, ou qualquer pessoa de status não real, ao penetrar
propriedade seria administrada de uma maneira legal à lei da na corte, se prosternasse diante do rei e que, muitas vezes,
luz muçulmana. E é por esta razão que havia o lançasse um pouco de poeira sobre a cabeça. Isto era anátema
desencorajamento. Mas a atração do ouro ao sul do Saara foi para um muçulmano ortodoxo, porque o ato de prosternação
demasiado forte para que essas proibições tivessem efeito por ocorre precisamente na prece dirigida a Deus, e não deve ser
muito tempo. É um desses casos em que membros de uma dirigido a um soberano deste mundo. O que as fontes
cultura navegam cuidadosamente ao redor das proibições que medievais nos contam é que o rei de Gana se mostrou
perfeitamente satisfeito em eximir os muçulmanos desse
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costume. Se você não fosse muçulmano, ao entrar na corte também importantes, mas não tão grandes, têm ocorrido em
estava obrigado a se prosternar; se você fosse muçulmano, Gao, outras de grande porte em Djenné, alguma coisa em
simplesmente batia as mãos, como se estivesse aplaudindo, e Tombuctu, muito pouco em Tadmekka ou Es Souk. Contudo,
isso era aceito pelo rei como reverência suficiente. Então, são suficientes para que se possa, por exemplo, deduzir que
houve sempre esse jogo, os que viviam no sul queriam certos tipos de vidro que são encontrados no Sahel foram
conservar a presença dos que viviam no norte, queriam atraí- trazidos por comerciantes, pois era vidro produzido no norte
los mais, e os que vinham do norte, por sua vez, faziam da África, na Tunísia, por exemplo; certo tipo de lâmpada a
concessões, sendo que a maior delas era a de evitar óleo, que foi encontrado na cidade de Tagdawest (Awdahust)
proselitismo. O Islã chega ao Sahel na Idade Média e, ao pode ser facilmente ligado a modelos de lâmpadas do mesmo
contrário do que acontecia naquela época histórica em outras tipo que eram produzidas no norte da África, e assim por
regiões do mundo, não chega como uma religião proselitista, diante. A arqueologia nos diz tudo isso, o que ela não nos dá
uma religião que se esforça para converter outros - conversões são textos ou informações verbais de qualquer tipo, a não ser,
acontecem, mas não há um esforço sistemático. O Islã muito raramente, quando ao arqueólogo acontece desenterrar
estabelece-se como a cultura ou religião daqueles que uma inscrição.
praticam no Sahel o comércio internacional. Ao mesmo
tempo, a própria presença de comerciantes muçulmanos Outra grande categoria de documentos que existem são os
engendra uma correspondência na sociedade do Sahel, na qual tratados escritos na Idade Média por pessoas que vinham ou
grupos de pessoas começam a se dedicar a esse comércio do norte da África ou da península Ibérica. Essas pessoas
internacional e começam a participar de todo o circuito que escreviam por interesse político ou comercial, algumas delas a
envolve comércio e religião. Visto que as rotas transaarianas serviço do califado de Córdoba, outras a serviço do califado
de comércio servem também para que as pessoas viagem à que existiu na Tunísia no século X. São documentos escritos
Meca em peregrinação, há uma combinação constante de por pessoas que tinham muito pouca abertura ao tipo de
fatores religiosos e de fatores econômicos. cultura existente no Sahel na época, portanto são fontes que
devem ser utilizadas tendo em conta de que se trata de um
Como é que se pode saber disso tudo? Há três grandes tipos de olhar extremamente externo, de pessoas que reuniam
documentação histórica que nos permitem dizer alguma coisa informações de comerciantes, de visitantes que geralmente
sobre isso. Um é a arqueologia e o que as escavações não passavam ali muito tempo e não tinham tempo suficiente
arqueológicas são capazes de descobrir a respeito da cultura para se adentrarem no conhecimento da sociedade local. Um
material do Sahel na época. Tem havido escavações de grande outro tipo de documento escrito é uma coleção de crônicas que
porte em lugares como Awdahust e Kumbi Saleh, que foram foi escrita muito mais tarde na cidade de Tombuctu, no século
grandes cidades comerciais na Idade Média. Escavações XVII, e que são documentos que continuamos a utilizar.
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Há uma espécie de grande divisão vertical que passa a leste de


Quanto à documentação oral, há um vasto corpo de tradições Tombuctu; quem viaja de Tombuctu para o oeste não acha
orais, sobretudo ao sul, e também em outras regiões, como no inscrições medievais; quem viaja de Tombuctu para o leste até
planalto onde está a cidade de Tadmekka. Durante muito Agadez, quem visita Es Souk, Gao ou Bentyia encontra vastos
tempo acreditou-se que seria possível reunir todos os dados cemitérios cheios de inscrições árabes datadas. Por que essa
que se pôde obter das fontes escritas, das fontes orais e da diferença, por que essas duas metades do Sahel são tão
arqueologia, e pôr tudo junto numa espécie de soma diferentes nesse particular? Não há uma resposta
aritmética. Isso se revelou inviável, porque, ao invés de se absolutamente certa, mas há respostas hipotéticas que
juntarem pacificamente e de colaborarem para nos dar, no fim podemos considerar. Em primeiro lugar, o fato de o Islã ter
de tudo, um grande panorama de conhecimento histórico, chegado ao Sahel não significaria, necessariamente, que a
essas diferentes categorias de fontes subvertem-se umas às prática de criar inscrições deveria chegar junto, pois dentro da
outras e se contradizem frequentemente. Então, um tipo de própria tradição islâmica, embora inscrições fúnebres fossem
criticismo mais sofisticado teve de ser introduzido pouco a feitas desde uma época bastante inicial da sua história, houve
pouco, com alguma dificuldade, a partir da década de 1970, sempre uma grande resistência a elas. Para muitas das
deixando para trás uma excessiva esperança, que havia nos autoridades em lei islâmica que dissertaram sobre o assunto,
anos sessenta, de que reunindo fontes orais e escritas, e fazer inscrições é um ato de impiedade, a morte é um decreto
arqueologia, se chegaria a uma visão panorâmica muito rica e divino que deve ser aceito tal qual. Construir sobre o túmulo,
bem detalhada do que tinha acontecido no passado africano. pôr uma bela lápide de mármore encima dele, e ainda
inscrever um texto nessa lápide, se assemelha a uma reação
Há, finalmente, um outro tipo de fonte feita por gente do local, que poderia ser considerada como um desafio ao decreto
do próprio Sahel, escrita e contemporânea dos fatos que divino sobre a morte de quem ali está enterrado. As mesmas
descreve. Esse tipo de fonte são inscrições árabes ou inscrições autoridades que recomendavam aos muçulmanos do norte da
berberes que começaram a existir em certas regiões do Sahel, África que, se possível, desistissem de vir fazer comércio no
da África ocidental, desde o século XI, e que continuaram sul, recomendavam que não se levantasse nenhuma
sendo feitas, internamente datadas, até o fim do século XV. A construção, nem se pusesse nenhuma inscrição sobre o túmulo
partir dessa época o costume de datar essas inscrições de um muçulmano. Então, as pessoas que se converteram ao
desaparece. Há uma grande mutação cultural e quem fazia a Islã no sul tinham uma escolha a fazer: qual das duas atitudes
inscrição ou deixa de fazer ou faz sem utilizar mais o elas iriam seguir.
calendário, sem pôr o ano ou o século no texto da inscrição.
Esse tipo de fonte foi pouco utilizado até hoje. [Trecho não gravado]
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[...] Espanha, e que era um movimento extremamente glorificação de reis e príncipes, é uma escrita demótica, usada
puritano, resistiu à prática de inscrever lápides tumulares, por indivíduos do povo para falar sobre seus namorados e suas
mas há uma razão provavelmente mais forte que explica o que namoradas e para dizer: eu estive aqui, ou fiz isso ou aquilo.
aconteceu. Não há, por exemplo, a não ser muito raramente, inscrições
tumulares escritas em tifinah. Esta é uma escrita que trata de
Há uma região do Sahel, que é a pátria das inscrições árabes coisas da vida, mas que não trata de todas as coisas da vida,
datadas, onde há vários cemitérios, em cidades como Bentyia, pois é especializada em certos assuntos.
Gao, Saney e Es Souk. Em toda esta área, onde inscrições
árabes se estabeleceram tão bem, havia uma particularidade O tifinah pode ser escrito de cima para baixo, de baixo para
importante: antes da escrita árabe chegar, já existia outra cima, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita,
escrita, uma escrita africana que precedeu o árabe na região. ou também em zigue-zague. Uma inscrição típica
Essa escrita, o tifinah, se fazia, e se faz, com caracteres simplesmente diz: ‘sou eu’. Geralmente, as inscrições
diferentes do árabe, e transcrevem uma língua que não é o começam com uma afirmação do eu, ‘sou eu’. ‘Sou eu Fátima,
árabe, é o berbere. Mas, neste caso, a escrita não é usada em filha de Dris, que digo: eu saúdo Agbadi, filho de Agnii, minha
inscrições tumulares, trata-se de grafitos. Tifinah é uma parte no filho de Agnii está garantida’. Essa é uma inscrição
palavra que significa, basicamente, letras, caracteres gráficos, bastante inocente, há outras até um pouco menos inocentes,
é um plural e é provável que se refira a um adjetivo púnico. Há mas é extremamente comum que o texto delas seja uma
especialistas que tentaram ligar a origem da escrita tifinah à mensagem de amor trocada entre pastores, escrita por homens
escrita dos cartagineses do norte da África e, em última ou por mulheres.
instância, à escrita dos fenícios. Por outro lado, há outros que
defendem a tese de que essa escrita se originou localmente, a Essa escrita, hoje em dia, faz parte do domínio do
partir de signos gráficos utilizados por artesãos para marcar nacionalismo berbere. As culturas berberes desde a década de
trabalhos de cerâmica ou em metal, ou por proprietários de setenta se têm reconhecido como culturas vitimizadas na
animais para marcar os seus camelos. Esta é uma disputa Argélia ou no Mali, onde a língua berbere não recebeu o
sobre a qual muito se tem escrito. mesmo status oficial de línguas como o árabe ou o bamaná.
Portanto, a afirmação da escrita tifinah faz parte de um
As inscrições tifinah não contêm nenhuma data; a outra movimento de renascimento da consciência nacional berbere,
característica delas é que participam de um tipo de escrita cujo e o uso do computador têm tornado muito fácil a
uso foi totalmente diferente dos usos da escrita árabe. É modernização dessa escrita. Era uma escrita que não separava
utilizada para fins pessoais, lúdicos, uma escrita sem as palavras, e que não usava símbolos para as vogais. Hoje em
solenidade, que não está ligada à expressão do poder, nem à dia há tentativas de escrever em tifinah separando palavras, de
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produzir textos que sejam perfeitamente compatíveis com a existente na região, de que isso poderia trazer conseqüências
produção de um livro legível para quem tenha se dado ao espirituais muito perigosas.
trabalho de aprender o alfabeto tifinah.
A feitura de inscrições, que a princípio seria uma infração do
A presença do tifinah parece ter funcionado em relação ao comportamento legal islâmico, torna-se cada vez mais uma
árabe como um desafio ou como uma provocação. A escrita afirmação do Islã, porque o simples fato de inscrever o nome
árabe constrói o espaço do muçulmano, é um dos recursos dos mortos vai contra a prática da cultura anterior, da cultura
através dos quais se pode fazer de um espaço, um espaço não-islâmica que existia na região. Essa talvez seja a
muçulmano, com uma inscrição religiosa na parede ou com explicação de porque, exatamente nas regiões onde as
uma lápide tumular inscrita em árabe. Quando o Islã chega a inscrições em tifinah são tão abundantes, as inscrições árabes
essa parte do Sahel, o espaço dos vales, as paredes das também o são.
montanhas estavam cheias já de inscrições em tifinah,
inscrições que falavam de tudo menos de Deus, inscrições que No oeste, onde hoje é a Mauritânia, embora ainda existam
se ocupavam do prazer. Penso que como uma espécie de minorias que falam berbere, perdeu-se a tradição de uma
reação a isso, ou como uma espécie de afirmação da escrita especificamente berbere, não há escrita tifinah, e
identidade religiosa do Islã, os muçulmanos locais tomaram a tampouco houve tradição medieval de inscrições tumulares em
peito a tarefa de multiplicar a escrita árabe no local, com o árabe. Já no leste, onde o tifinah continua a existir, o árabe se
intuito de que o espaço não ficasse abandonado, por assim afirmou nesse terreno de inscrições tumulares.
dizer, à escrita tifinah. E se era uma coisa feita contra a
proibição dos doutores do norte da África, que continuavam É possível chamar a atenção para o fato de que não fora
dizendo ‘não se deve fazer inscrição’, havia algo novo que o simplesmente uma penetração do Islã, que chega com sua
muçulmano podia dizer agora. bagagem e se estabelece, tal qual como veio. A região onde o
Islã aporta faz uma filtragem e adota esta ou aquela parte da
Uma das razões pelas quais não há inscrições tumulares em bagagem. Uma parte do Sahel adota a parte X da bagagem,
tifinah é porque um tuaregue não deve pronunciar o nome de que, no entanto, é rejeitada em outra região. Há sempre um
um morto, por uma questão de etiqueta, mas também por uma trabalho de filtragem e de busca, idiomas novos estão
questão relativa a crenças a respeito do mundo dos espíritos, chegando, e estão sendo solicitados a vir, mas estão sendo
crenças que existiam entre os tuaregues muito antes de o Islã também filtrados e re-trabalhados.
ter chegado. Os muçulmanos, ao fazerem inscrições em árabe
e ao acrescentarem o nome do morto, estão negando a crença Um dos idiomas novos que chega é o calendário muçulmano.
Os calendários saarianos que existem nessa região,
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calendários não muçulmanos, não anotam nem o século nem o dessa maneira, adiciona uma série de outras expressões que
ano, o ano não é identificado por um número, é identificado reforçam no leitor a consciência de que ele está lidando com
por um nome. Por exemplo, se aconteceu qualquer coisa o ano uma data muçulmana. Após a data do falecimento vem uma
passado, poderemos dizer: aconteceu no ano do gafanhoto – frase dizendo um ano do calendário do profesta ou um ano da
se, por acaso, houve uma praga de gafanhotos -; e se aconteceu era muçulmana; e, às vezes, isso é repetido. Há uma espécie de
alguma outra coisa inusitada, se um avião explodiu em ênfase excessiva na datação, característica específica desse
determinada cidade, pode-se dizer que isso aconteceu no ano gênero de epigrafia tumular do Sahel dessa época.
em que o avião explodiu.
Há uma inscrição curiosa, pois ela não está num túmulo, está
As pessoas são capazes de guardar um número respeitável de num grafito, e se limita a uma declaração de data,
anos pelo nome desses anos, indo 50, 60, 0 anos para trás, simplesmente diz: ‘Este é o ano 404’, que corresponde ao
mas como não há notação de século, a partir de certo período de 1013 a 1014. É um dado aparentemente sem
momento fica difícil manter uma cronologia detalhada e nenhuma importância porque não está acoplado a nenhum
extensa. Ora, uma das transformações culturais que ocorrem evento histórico, não está acoplado ao nome de ninguém, é
no Sahel nesse momento é a adoção de outro tipo de uma simples declaração de ano, e é interessante que uma
calendário, que envolve uma concepção vetorial do tempo, pessoa tenha achado importante declarar tão alto o fato de que
como uma flecha que está avançando e vai sempre adiante. Os era este ano. Outro fato curioso nesta inscrição é que ela não
calendários locais contavam o tempo de modo diferente, o comporta nenhuma frase inicial dizendo ‘Em nome de Deus’,
tempo quase que girava em torno a uma estação chuvosa, sem como geralmente todo texto muçulmano comporta; tampouco
essa preocupação de ênfase vetorial. consta o nome de quem a escreveu, nem está dirigida a
ninguém, é simplesmente uma declaração de tempo. Esta
O comércio transaariano opera uma mudança cultural que cria inscrição é emblemática dessa preocupação com o calendário
uma necessidade, um desejo por esse tipo de calendário novo, mundial, não local, um calendário que permitisse ao Sahel
que se expressa nas inscrições da região de uma maneira que viver em sincronia com outras regiões do mundo, e faz parte
chega a ser excessiva, o que denuncia o fato de que havia um desse processo que podemos chamar de extroversão, em que o
interesse extremamente forte na introdução desse novo Sahel se interessa e se volta para dados culturais externos.
calendário. Nas regiões mais clássicas do Islã, na Espanha
muçulmana ou no Oriente Médio, uma lápide tumular Mas não há só a questão do tempo, há também a
simplesmente oferecia a data, dizia ‘morreu no dia tal do mês reorganização do mapeamento do espaço, de maneira a
tal do ano tal’, e, muitas vezes, aí terminava. Uma larga ultrapassar o espaço local e incluir espaços muito mais vastos,
proporção das inscrições do Sahel, além de exprimir a data o espaço do mundo inteiro, em teoria. Esse mapeamento
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consistiu em pôr o Sahel dentro desse mapeamento centrado contra as outras, ali podiam conviver em paz, pois o espaço de
na cidade de Meca, um mapeamento islâmico, estabelecido Meca era sagrado e o derramamento de sangue, impensável.
pela disciplina física de rezar cinco vezes por dia em direção à
Meca, mas também pelo posicionamento do corpo na O que se estava estabelecendo no Sahel era um centro
sepultura, e, com isto, o posicionamento das lápides inscritas comercial e religioso semelhante à Meca, não só pelo nome,
sobre ela. Tudo isso funcionava como uma espécie de bússola mas também pelo fato de funcionar como espaço neutro para
que, ao muçulmano, indicava o leste, a direção de Meca, e receber caravanas, muitas vezes organizadas por grupos que
dava a direção geral de cada um dos outros pontos cardeais. podiam ser, em outras circunstâncias, rivais, mas que podiam
Não é mera coincidência que na língua tuaregue, por exemplo, convergir sobre Tadmekka e proceder ali a trocas comerciais
o nome dos pontos cardeais tenha a ver com o nome do leste em paz.
em árabe e tenha a ver, também, com nomes derivados de
outras palavras árabes – o mapa muçulmano marcou Tadmekka não era governada por um poder militar, um estado
profundamente o mapa local. capitaneado por guerreiros. Era, como muitas outras cidades
comerciais saarianas, governada por pessoas que se
Há uma inscrição que corresponde a um estágio ainda mais propunham um status de certa santidade e, portanto, sua
avançado nesse processo de mapeamento, onde não se trata autoridade política, que lhes permitia controlar atividades
simplesmente de pôr o Sahel no mapa geral do território econômicas de vastas confederações tribais, era uma atividade
islâmico, trata-se de criar dentro dele uma espécie de símile, decorrente desse status religioso que se atribuíam, e que
de contrapartida à própria cidade de Meca. Há, por exemplo, outros lhes reconheciam.
uma inscrição que diz que foi escrita por fulano e prossegue,
dizendo que continuará existindo no lugar um mercado A transferência de Meca para o Sahel é também a introdução
semelhante à Meca e também a escritura, o Corão. Essa no Sahel desse tipo de legitimidade político-religiosa, que
inscrição pode ser identificada no sítio arqueológico com a permitia a grupos sem exércitos mobilizados exercerem um
cidade de Tadmekka de que falam as fontes medievais, cujo poder considerável na região. O Islã é, portanto, importante
nome é uma expressão berbere que significa ‘aqui está também como uma doutrina que provê a região com esse tipo
verdadeiramente Meca’. É a transferência de um espaço de legitimidade.
simbólico para o Sahel, mas também a entronização de um
certo tipo de atividade econômica e de legitimidade política. A inscrição da rainha Suwa é uma pedra de mármore que veio
Uma cidade como Meca, pela sua importância religiosa na de Almeria, no sul da Espanha, que comemora a morte de uma
Arábia, era um território neutro, onde pessoas que, rainha ao norte da cidade de Gao, o que indica como essas
encontrando-se em qualquer outro lugar, saltariam umas ligações transaarianas eram também caminhos para a
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introdução de estratégias de legitimização política. Os reis de O processo de extroversão não era tampouco um processo de
Gao não importaram inscrições em mármore somente da braços abertos em que, com uma amistosidade infinita, o
Espanha. Essa importação de inscrições era uma importação Sahel se apronta a aprender o resto do mundo e o resto do
de bens de consumo conspícuos, porque a maioria dos súditos mundo se apronta a abraçar o Sahel com amor. Era uma luta
do rei de Gao talvez fosse incapaz de ler essa inscrição, que pelo poder em que a abertura das portas e a introdução de
além do mais está escrita em caracteres árabes cúficos, mais idiomas novos era calculada por muitos como uma
difíceis de ler do que outros tipos disponíveis de letras árabes. oportunidade de acréscimo de poder e de monopólio de
autoridade.
A importação de uma inscrição da Espanha fazia parte de um
outro processo necessário à entronização, que consistia em Nesse processo de contato com o Islã houve um terceiro
que o rei de Gao recebesse um sabre e um exemplar do Corão elemento envolvido, o elemento judaico. Havia uma
enviados pelo califa, neste caso o califa de Córdoba, Espanha. comunidade judaica importante na região dos oásis de Tuwat
Não há nenhuma prova de que isso realmente acontecesse e de e sabemos que ela existia, no mínimo, desde o século XIV,
que os califas de Córdoba realmente enviassem um sabre e um porque foi encontrada aí uma inscrição datada de 1329 da era
exemplar do Corão a cada rei de Gao que se instalava no cristã e 5089 da era judaica. Essa comunidade existiu e
poder, mas isso era o que era declarado na corte de Gao a manteve relações comerciais com o Sahel até o final do século
visitantes que nos deixaram a informação registrada por XV, quando foi massacrada e eliminada; os sobreviventes
escrito no século XI. Portanto, embora a maioria dos súditos emigraram para outras regiões mais ao norte. Que
não fosse capaz de ler essa inscrição, o simples fato de ter a consequências culturais e religiosas poderá ter tido a presença
possibilidade de importar de tão longe um objeto de consumo dessa comunidade do Tuwat sobre o Sahel? É uma questão
tão conspícuo e tão raro, adicionava algo à autoridade do ainda muito pouco estudada, mas há, certamente, lendas
soberano de Gao. registradas pelas crônicas de Tombuctu a respeito de regiões
no vale do Níger, às quais se atribuem, em certa época,
Parte do processo de extroversão consiste em que agências governantes judaicos ou grupos de artesãos praticando o
locais trabalhem com a intenção de monopolizar os idiomas judaísmo. Essa é uma das muitas questões ainda a investigar
novos ou as mercadorias novas, que se tornam disponíveis na história da região.
através desse processo, como fonte de poder próprio. E era
exatamente isso que fazia a elite em Gao e em outras regiões No estudo das tradições desses povos do Sahel duas grandes
do Sahel. barreiras foram criadas, primeiro pelo colonialismo e depois
pelo nacionalismo pós-colonial. Pelo colonialismo, quando
dividiu a região entre um império de língua francesa e um
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império de língua inglesa. A maior parte do Sahel está, na carne, ou até, simplesmente, o adubo animal que um
verdade, na região que foi parte da língua francesa, mas há cultivador songhai precisa para a sua cultura, tem de vir dos
prolongamentos até o norte da Nigéria, onde essa divisão rebanhos dos nômades que ocupam um outro nicho ecológico.
criada pelo colonialismo se faz sentir. E, da mesma forma que tem havido essa simbiose econômica,
que tampouco foi um idílio amoroso, houve toda uma história
A divisão criada pelo nacionalismo pós-colonial é mais séria de lutas de poder em que um grupo escravizou ou oprimiu
ainda no caso do Sahel e se acompanha de especializações no outro. Porém, há uma simbiose fundamental, que é o respaldo
mundo acadêmico. Por exemplo, o nacionalismo tuaregue de da existência de todos eles, e se estende também à tradição
língua berbere, que afirma a necessidade de defender e fazer histórica. É possível mostrar que tradições que aparentemente
renascer a sua cultura. Esse nacionalismo se acompanha de são o mais songhai possível, porque falam da origem da sua
comportamentos acadêmicos de certos departamentos identidade e da origem da realeza, na verdade permanecem
universitários, que se ocupam única e exclusivamente dos obscuras até as compararmos com tradições que são correntes
tuaregues e do estudo da língua berbere e de suas tradições e entre os tuaregues. Sem entender o modelo do oposto,
não se preocupam com nada do que está em volta. De modo expresso de maneira mais clara por essa tradições tuaregues,
semelhante, o nacionalismo étnico dos songhai, inspira fica simplesmente impossível alcançar o significado completo
investigações acadêmicas que se preocupam simplesmente do que estão dizendo as tradições songhai. Por isto, a única
com os songhai, não prestam nenhuma atenção aos fulani, aos perspectiva que se pode adotar no estudo dessa região que é,
tuaregues ou a outras populações. ao mesmo tempo, uma janela para o mundo e uma região de
variedade ecológica e cultural, é, precisamente, uma
O resultado de tudo isso são histórias várias que servem a perspectiva regional. Quem quer que adote uma perspectiva
glorificações nacionais várias, cada povo se intitulando um local, concentrada num micro-universo étnico, num mundo
passado glorioso totalmente independente e diferente do linguístico particular, corre sempre o risco de não poder
passado dos outros. É aquele cálculo um pouco simplório que estudá-lo bem. É preciso pôr lentes que permitam um ângulo
todo nacionalismo faz, de que é necessário a cada nação mais largo e, na medida em que sejam vistos juntos, o
possuir um passado distinto e glorioso. Ora, o que acontece tuaregue, o fulani, o songhai e o mandê ou o dogon, será
aqui é que cada povo tem vivido em simbiose com muitos possível começar a entender como as coisas se passaram.
outros, porque quem ocupa um espaço nessa região não pode Portanto, qualquer fuga dessa escala regional para uma escala
viver somente do que se produz naquele nicho ecológico, é menor, incorre num risco histórico muito grande, que é o risco
muito raro que isso aconteça. Um tuaregue não pode viver sem de perder o fio da história, o risco de perder de vista a direção
cereais, e os cereais de que ele necessita para viver têm de vir dos processos que realmente tiveram lugar nessa região.
de fora do nicho ecológico que ele ocupa. Da mesma forma a