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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MATO GROSSO

FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS


CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE CÁCERES “JANE VANINI”
CURSO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS

BIANCA DOS ANJOS DE OLIVEIRA

TEORIA DA CONDITIO SINE QUA NON: A APLICABILIDADE DA


RELAÇÃO DE CAUSALIDADE NO DIREITO PENAL

CÁCERES - MT
2017
BIANCA DOS ANJOS DE OLIVEIRA

TEORIA DA CONDITIO SINE QUA NON: A APLICABILIDADE DA


RELAÇÃO DE CAUSALIDADE NO DIREITO PENAL

Monografia apresentada à Universidade do


Estado de Mato Grosso – UNEMAT, como
requisito parcial para obtenção do grau de
Bacharel em Direito.

Orientador: Prof. Me. Jefferson Antonione


Rodrigues

CÁCERES - MT
2017
BIANCA DOS ANJOS DE OLIVEIRA

TEORIA DA CONDITIO SINE QUA NON: A APLICABILIDADE DA


RELAÇÃO DE CAUSALIDADE NO DIREITO PENAL

BANCA EXAMINADORA

______________________________________________
Orientador :Prof. Me. Jefferson Antonione Rodrigues.

_______________________________________________
Membro: Prof. Felipe Teles Tourounoglou

________________________________________________
Membro: Prof. Linnet Mendes Dantas

Cáceres-MT, 20 de fevereiro de 2017.


À minha mãe Cristina, por simplesmente tudo.
Cada conquista que tive e hei de ter na vida,
você com certeza é a maior responsável.
Por sua causa,
eu posso sonhar alto, porque sei que de você,
terei todo o apoio e auxílio sempre.
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus, pelo dom da vida e por me permitir ter as


maiores riquezas que dinheiro nenhum no mundo pode comprar: saúde, família
amorosa, amigos de verdade e um amor sincero.
Agradeço aos amigos espirituais pela proteção e boas energias.
A toda a minha família, principalmente à minha mãe e minha irmã. Minha
eterna gratidão por todo o amor puro e paciência comigo, mesmo quando não mereço.
Amo muito vocês.
Agradeço imensamente a todos os meus amigos que Deus sempre colocou em
minha vida para eu nunca saber o que é se sentir sozinha no mundo. Em especial,
agradeço a minha querida Chrislayne Karine Lopes, que é com certeza a generosidade e
a mais pura bondade em forma de pessoa, são simplesmente incontáveis as vezes que
você me ajudou, em todos esses anos de faculdade, sem nunca pedir nada em troca.
Ao meu amado namorado Sidnei David Igual. Conviver com você é uma das
partes mais gostosas e bonitas da minha história. Obrigada por regar a minha vida com a
sua paz e seu amor. Obrigada também, por todo o apoio, por cada ajuda, cada conselho
e principalmente, por ser a minha constante fonte de inspiração para ser uma pessoa
melhor. Te amo muito.
Aos dois lugares maravilhosos em que trabalhei, Clínica Psiquê e Ministério
Público de Mirassol D’Oeste-MT, com chefes e colegas de trabalho que tive o prazer de
conviver e principalmente, de aprender muito com os conselhos e com os exemplos de
profissionais que são.
Por fim agradeço aos professores, técnicos e funcionários da Universidade do
Estado de Mato Grosso, Campus de Cáceres-MT, aos colegas de classe e aos
companheiros de ônibus.

A todos vocês, meu muito obrigada!


RESUMO

O presente trabalho tem como objetivo compreender e analisar o procedimento de


aplicabilidade da Teoria da Equivalência dos Antecedentes Causais, conhecida pela
expressão conditio sine qua non (condição sem a qual não), no âmbito do direito penal.
Nessa linha, verificaremos a importância que a delimitação da relação de causalidade
tem para se imputar um fato delituoso ao possível agente causador. Para o estudo do
tema, serão abordados, inicialmente, os aspectos gerais que envolvem o Direito Penal na
estruturação da teoria crime, seus requisitos e sub-requisitos de caracterização, para
assim, chegar-se à conceituação da relação de causalidade com a teoria da equivalência
dos antecedentes causais ou da conditio sine qua non. Após, demonstraremos seu
método de aplicabilidade da teoria da conditio sine qua non, sob a perspectiva de várias
hipóteses apresentadas pela doutrina, bem como os aspectos divergentes quanto à
aplicação e suas consequências. Por fim, serão abordados os reflexos teóricos e práticos
da teoria da conditio sine qua non, com a análise de outras teorias que, usadas como
exceção em nosso ordenamento jurídico penal, são consideradas alternativas para a
eficácia na demonstração do nexo de causalidade e também, com a demonstração de
aplicabilidade sob a perspectiva jurisprudencial, com a análise final das vantagens e
desvantagens de sua aplicabilidade.

Palavras-chave: Conditio Sine Qua Non – Relação de Causalidade – Teoria da


Equivalência dos Antecedentes Causais - Nexo Causal – Direito Penal.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...............................................................................................................8

1. O DIREITO PENAL E SUAS INTERFACES JURÍDICAS.........................11

1.1 Da teoria do crime: fato típico, antijuridicidade, culpabilidade..........................11

1.2 Do fato típico: conduta, resultado e nexo de causalidade....................................13

1.3 A teoria da equivalência dos antecedentes causais..............................................16

2. A RELAÇÃO DE CAUSALIDADE E A APLICABILIDADE DA TEORIA


“CONDITIO SINE QUA NON”....................................................................................20

2.1. Das relações de causalidade: causa versus concausa..........................................20

2.2. As espécies de causa...........................................................................................21

2.3. A teoria da “conditio sine qua non”: aplicabilidade penal..................................26

3. OS REFLEXOS TEÓRICOS E PRÁTICOS DA “CONDITIO SINE QUA


NON”..............................................................................................................................30

3.1. A teoria da causalidade adequada e da imputação objetiva.................................30

3.2. Os reflexos da aplicabilidade nas perspectiva jurisprudencial............................35

3.3. Vantagens e desvantagens da aplicabilidade.......................................................38

CONCLUSÃO................................................................................................................40

REFERÊNCIAS.............................................................................................................42
8

INTRODUÇÃO

O presente trabalho trata da Teoria da Equivalência dos Antecedentes Causais,


também conhecida como conditio sine qua non, que é adotada como regra pelo Código
Penal Brasileiro para delimitar a relação de causalidade entre a conduta praticada pelo
agente e a produção do resultado, e assim, descobrir seu grau de responsabilização penal
no fato delituoso.
A relação de causalidade é um dos requisitos do fato típico, que por sua vez, é
um dos elementos do crime. Seu estudo e domínio são de suma importância, pois é a
parte responsável em apontar se determinado resultado é ou não, obra da conduta em
análise.
Várias teorias foram formuladas ao longo dos anos para dar soluções aos
problemas de aferição do nexo de causalidade. Dentre elas, se destacou a teoria da
equivalência dos antecedentes causais, a qual, inspirada nas ciências naturais, atribui
relevância a todos os antecedentes do resultado naturalístico.
Assim, o enfoque do presente estudo é o exame do nexo causal existente entre
a conduta e o resultado à luz da teoria da conditio sine qua non. Em que consiste esta
teoria? Como determina a causalidade? Qual seu método de aplicabilidade? Quais as
críticas? É suficiente para resolver todos os problemas de nexo causal? Quais as
alternativas existentes?
Verifica-se, durante o estudo, que apesar de adotada como regra em nosso
ordenamento jurídico, a teoria da conditio sine qua non sofre diversas críticas pelo seu
critério utilizado para determinar o nexo causal, o qual pode conduzir a exageros no
grau de extensão das causas do resultado.
9

Nesse contexto, é que surgem duas teorias que funcionam como limitadoras do
alcance da conditio sine qua non, são elas, a teoria da Causalidade Adequada, aplicada
como exceção no artigo 13, § 1º do Código Penal e a teoria da Imputação Objetiva, que
apesar de não ter previsão legal no ordenamento jurídico pátrio, é permitida sua
aplicação.
Portanto, abordagem deste tema se justifica exatamente em saber se a
atribuição de um resultado ao agente com base na teoria da conditio sine qua non é
realizada de forma justa e proporcional, se esta teoria ainda se mostra adequada e
suficiente a resolver os problemas dos fatos delituosos da sociedade atual.
Dessa forma, o objetivo deste estudo é compreender se a teoria ora em análise
tem realmente uma aplicabilidade efetiva e justa, se está ou não, de fato, defasada e não
mais cumprindo o seu papel. Além disso, busca também, analisar quais são os seus prós
e contras na aplicação penal aos casos concretos e quais as interpretações doutrinárias a
respeito disso.
Assim, no primeiro capítulo é realizada uma breve abordagem acerca da teoria
do crime e seus elementos, e com isso, a análise do fato típico e seus requisitos, quais
sejam, conduta, resultado e nexo de causalidade, com maior enfoque, claro, neste
último. Em seguida, é conceituada a teoria da equivalência dos antecedentes causais e
demonstrado seus requisitos gerais de aplicabilidade, tanto nos crimes comissivos,
como nos omissivos, bem como sua fórmula de eliminação hipotética, bastante criticada
pela doutrina.
O segundo capítulo traz os conceitos e exemplos de aplicação das diversas
espécies de causas e as concausas formuladas por esta teoria para a delimitação da
relação de causalidade e a demonstração de sua forma de aplicabilidade penal, conforme
determina a doutrina, com a abordagem e análise, da hipótese da causa superveniente
relativamente independente envolvendo a infecção hospitalar ou o erro médico, que,
pelas suas peculiaridades, causa muitas interpretações divergentes entre os juristas.
Já no terceiro capítulo, examina-se as teorias que funcionam como limitação à
aplicabilidade da conditio sine qua non, quais sejam, a teoria da Causalidade Adequada
e a teoria da Imputação Objetiva, com a apresentação de seus conceitos, formas de
aplicabilidade e críticas existentes. Também é retratada neste capítulo, a forma como se
dá a aplicabilidade da conditio sine qua non no âmbito dos entendimentos
jurisprudências do Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso. Encerrando o estudo,
10

são apontadas as possíveis vantagens e desvantagens presentes na aplicação da teoria da


conditio sine qua non aos casos concretos.
Adotamos no presente trabalho uma metodologia dedutiva qualitativa, uma vez
que “grande parte dos objetos estudados pelas ciências jurídicas tem contornos voláteis,
não mensuráveis completamente, de difícil manipulação exata1”. É baseada em uma
pesquisa dogmática envolvendo consultas em obras doutrinárias, na legislação penal
brasileira e também, em consultas às jurisprudências do Tribunal do nosso Estado de
Mato Grosso, que tratam da relação de causalidade.

1
LAMY. Marcelo. Metodologia de Pesquisa Jurídica – Técnicas de investigação, argumentação e
redação. Rio de Janeiro : Elsevier. 2011, p. 69.
11

O DIREITO PENAL E SUAS INTERFACES JURÍDICAS

1.1 Da teoria do crime: fato típico, antijuridicidade, culpabilidade.

O Direito Penal pode ser conceituado como “o corpo de normas jurídicas


voltado à fixação dos limites do poder punitivo do Estado, instituindo infrações penais e
as sanções correspondentes, bem como regras atinentes à sua aplicação 2”, é o
instrumento pelo qual se busca tutelar as relações sociais, por meio dos princípios e da
interpretação das normas penais.
Seu poder punitivo, por ser mais rigoroso, é a ultima ratio em nosso
ordenamento jurídico, em respeito ao princípio da intervenção mínima, sendo sua
aplicação necessária, somente quando os demais ramos do direito se mostrarem
insuficientes para dar a devida proteção e resposta Estatal a determinado fato3.
Por se tratar de matéria destinada combater a prática de crimes, se torna de
extrema relevância a conceituação do que vem a ser crime, o qual pode ser definido sob
três aspectos: formal, material e analítico. De forma clara e direta, Cunha conceitua da
seguinte maneira:

Sob o enfoque formal, infração penal é aquilo que assim está rotulado em
uma norma penal incriminadora, sob a ameaça de pena. Num conceito
material, a infração penal é comportamento humano causador de relevante e
intolerável lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico tutelado, passível de

2
NUCCI, Guilherme de Sousa. Código Penal Comentado – 15ed – Rio de Janeiro: Forense, 2015, p. 21.
3
MIRABETE, Júlio Fabrini; FABRINI, Renato N. Manual de Direito Penal – Parte Geral, 26ª ed, São
Paulo, 2010, p. 02.
12

sanção penal. O conceito analítico leva em consideração os elementos


estruturais que compõem infração penal, prevalecendo fato típico, ilícito e
culpável4.
Estefam e Gonçalves explicam que a utilidade dessas três formas de conceito
está na possibilidade de restringir a liberdade do legislador na escolha de quais
comportamentos criminalizar (conceito material), na identificação de quais ilícitos
merecem tratamento penal (conceito formal) e também, na possibilidade de definir
elementos e critérios objetivos que permitam imputar determinado fato criminoso ao
agente de forma clara e segura (conceito analítico)5”.
O conceito analítico do crime é, portanto, o responsável por “guiar” o jurista na
tarefa de imputação de um crime ao agente, que deve ser feito mediante o exame do fato
é típico, ilícito e culpável.
O fato típico, afirma Cunha “pode ser conceituado como a ação ou omissão
humana, antissocial que, norteada pelo princípio da intervenção mínima, consiste numa
conduta produtora de um resultado que se subsume ao modelo de conduta proibida pelo
Direito Penal6”. Seus elementos são a conduta, resultado, nexo causal e tipicidade, os
quais serão estudados no próximo tópico.
A ilicitude ou antijuridicidade “é a contrariedade entre o fato típico praticado
por alguém e o ordenamento jurídico, capaz de lesionar ou expor a perigo de lesão bens
jurídicos penalmente tutelados7”. As causas excludentes de ilicitudes, ou seja, que
excluem o crime estão previstas no artigo 23 do Código Penal, são elas: o estado de
necessidade, a legítima defesa, o estrito cumprimento do dever legal e o exercício
regular de um direito.
O terceiro elemento do crime é a culpabilidade, que segundo Masson, é “o
juízo de censura, o juízo de reprovabilidade que incide sobre a formação e
exteriorização da vontade do responsável por um fato típico e ilícito, com o propósito de
aferir a necessidade de imposição da pena8”.
São requisitos para a culpabilidade: a imputabilidade do agente, que é a
capacidade mental de entendimento e de autodeterminação; a potencial consciência da

4
CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal – Parte Geral, 4ª ed. Salvador: Juspodvm,
2016, p. 150.
5
ESTEFAM, André; GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Direito Penal Esquematizado – Parte
Geral. São Paulo: Saraiva, 2012, p.213/214.
6
CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal – Parte Geral, 4ª ed. Salvador: Juspodvm,
2016, p. 177.
7
MASSON, Cleber. Direito Penal Esquematizado - Parte Geral – vol. 1 - 3 ed. Rio de Janeiro:
Forense; São Paulo: Método, 2015, p. 463.
8
Ibid, p. 539.
13

ilicitude, na qual figura como a possibilidade de, no caso concreto, o agente conhecer o
caráter ilícito do fato praticado; e a exigibilidade de conduta diversa, uma vez que só é
culpável o agente que pratica o fato em uma situação de normalidade, ou seja, quando
lhe era exigível uma conduta diversa.

1.2. Do fato típico: conduta, resultado e nexo de causalidade.

Entende-se por fato típico o fato humano, e também da pessoa jurídica em


crimes ambientais, que se amolda perfeitamente à descrição do tipo penal e tem como
requisitos para a sua configuração, a conduta, o resultado, a relação de causalidade ou
nexo causal e a tipicidade9.
A conduta figura como o elemento essencial para a configuração de um crime,
nullum crimen sine conducta, é o ponto de referência que orienta a análise dos demais
elementos do delito, como a tipicidade, antijuridicidade e a culpabilidade. Assim, como
forma de conceituá-la, nosso ordenamento jurídico penal adotou a teoria finalista da
ação, criada pelo alemão Hans Welzel na década de 1930, a qual considera que conduta
é a ação ou omissão humana, consciente e voluntária, dirigida a uma finalidade10.
A omissão, como conduta penalmente relevante, segundo Bitencourt, é quando
“o agente não faz o que pode e deve fazer e que lhe é juridicamente ordenado 11”, se
divide em:
a) Própria: quando o próprio tipo penal descreve a conduta omissiva, contendo
no verbo nuclear, um não fazer, como por exemplo, nos crimes de omissão de socorro
(art. 135), abandono material (art. 244), omissão de notificação de doença (art. 269).
São considerados crimes de mera conduta, ou seja, o tipo não prevê resultado
naturalístico12.
b) Imprópria ou comissivo por omissão: quando o tipo penal prevê
determinado crime baseado em uma ação, mas o agente, no entanto, incorre no delito
agindo de forma omissa. O agente somente será imputado por crime desta natureza se

9
MASSON, Cleber. Direito Penal Esquematizado - Parte Geral – vol. 1 - 3 ed. Rio de Janeiro:
Forense; São Paulo: Método, 2015, p. 288.
10
NUCCI, Guilherme de Sousa. Código Penal Comentado – 15ed – Rio de Janeiro: Forense, 2015, p. 119
11
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Geral 1, 17 ed. São Paulo: Saraiva,
2012, p. 658.
12
ESTEFAM, André; GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Direito Penal Esquematizado – Parte
Geral. São Paulo: Saraiva, 2012, p.238.
14

tem o dever e poder de agir para evitar o resultado, baseado nos requisitos previstos no
art. 13, § 2º, do CP, quais sejam, pela imposição legal, pela posição de garante ou
quando criou o risco da ocorrência do resultado13.
A conduta também deve ser consciente e voluntária, pois não são punidos pelo
Código Penal Brasileiro, os crimes praticados em estado de inconsciência, coação física
irresistível e movimentos reflexos, uma vez que nesses casos, a conduta é considerada
ausente por não existir no agente, consciência e voluntariedade dirigida a um fim14.
A finalidade da ação se pauta na análise da vontade do agente, a qual “implica
sempre uma finalidade, porque não se concebe que haja vontade de nada ou vontade
para nada; a vontade sempre é vontade de algo, isto é, a vontade sempre tem um
conteúdo, que é uma finalidade15”. Dessa forma, conforme aponta Capez, “dependendo
do elemento subjetivo do agente, ou seja, de sua finalidade, a qualificação jurídica do
crime muda completamente (crime doloso, crime culposo ou crime preterdoloso)16”.

O homem, quando atua, seja fazendo ou deixando de fazer alguma coisa a


que estava obrigado, dirige a sua conduta sempre à determinada finalidade,
que pode ser ilícita (quando atua com dolo, por exemplo, querendo praticar
qualquer conduta proibida pela lei penal) ou lícita (quando não quer cometer
delito algum, mas que, por negligência, imprudência ou imperícia, causa um
resultado lesivo, previsto pela lei penal)17.

Outro elemento do fato típico é o resultado, que pode ser dividido em


normativo ou naturalístico. O resultado normativo está presente em todas as formas de
infração penal, é definido como a lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico tutelado pela
norma penal18, já sob a visão naturalística, o resultado é considerado como a
modificação no mundo concreto provocada pela conduta do agente, modificação esta,
que ocorre apenas em determinados crimes, como por exemplo, no furto, com a perda
patrimonial; no homicídio, com a morte.

13
Ibid, p.238
14
MASSON, Cleber. Direito Penal Esquematizado - Parte Geral – vol. 1 - 3 ed. Rio de Janeiro:
Forense; São Paulo: Método, 2015, p. 295.
15
ZAFFARONI, Eugênio Raúl; PIERANGELI, José Henrique. Manual de Direito Penal Brasileiro: vol
1 – Parte Geral, 9 ed. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011, p. 362.
16
CAPEZ. Fernando. Curso de Direito Penal – Parte Geral. 19 ed. São Paulo : Saraiva, 2015, p.141.
17
GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal – Parte Geral – 17 ed, Rio de Janeiro: Impetus, 2015, p.
205.
18
ESTEFAM, André; GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Direito Penal Esquematizado – Parte
Geral. São Paulo: Saraiva, 2012, p.242.
15

Assim, levando-se em conta o resultado, com a mudança ou não do mundo


concreto, os crimes são divididos em materiais, formais ou de mera conduta, conforme
bem define Masson:

O resultado naturalístico estará presente somente nos crime materiais


consumados. Se tentado o crime, ainda que material, não haverá resultado
naturalístico. Nos crimes formais, ainda que possível sua ocorrência, é
dispensável o resultado naturalístico. E, finalmente, nos crimes de mera
conduta ou de simples atividade jamais se produzirá tal espécie de
resultado19.

Considerando, conforme o exposto, que a prática de um crime material consiste


na conduta humana e no resultado naturalístico, surge, a partir daí, o nexo causal entre
esses dois elementos. Este nexo causal, também chamado de relação de causalidade ou
nexo de causalidade, nada mais é do que a ligação física, de causa e efeito, entre a
conduta do agente e o resultado naturalístico por ele provocado, existente apenas em
crimes materiais20.
A importância do estudo da relação de causalidade se fundamenta na garantia
de determinar, com precisão, se a conduta do agente foi efetivamente responsável e
determinante para a produção do resultado, para assim “evitar que o agente responda
por resultados de exclusiva responsabilidade de terceiro ou puramente causais,
estranhos, em todo caso, à sua vontade21”.
Pierangeli, citando Aníbal Bruno, considera que:

A causalidade é um problema geral de maior relevância em alguns tipos


penais, principalmente nos crimes contra a vida e no de lesões corporais, mas
a sua importância, à evidência, não se esgota nestes. Geralmente, a relação
causal constitui uma questão pratica de fácil e imediata solução, mas às
vezes, é capaz de obscuridades e incertezas difíceis de remover, e isso ocorre
principalmente em certos crimes de homicídio, de lesões corporais ou de
estelionatos22.

Por ser um momento de constatação das causas do resultado, não há valoração


da vontade subjetiva na conduta do agente na verificação do nexo causal. Esta

19
MASSON, Cleber. Direito Penal Esquematizado - Parte Geral – vol. 1 - 3 ed. Rio de Janeiro:
Forense; São Paulo: Método, 2015, p. 295.
20
CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal – Parte Geral. 19 ed. São Paulo:Saraiva, 2015, p. 174.
21
QUEIROZ, Paulo. Direito Penal – parte geral, 4ª ed; Rio de Janeiro-RJ, Editora Lumen Juris, 2008. p.
169.
22
PIERANGELI, José Henrique. Nexo de causalidade e imputação objectiva. Instituto de Derecho
Penal Europeo e Internacional, Praia – Cabo Verde, 2002, p. 23-24.
16

valoração, do dolo ou da culpa, é realizada em momento posterior, no denominado nexo


normativo.
Assim, na busca de uma forma eficaz e segura de aplicação da relação de
causalidade no caso concreto, teorias foram construídas as quais se traçavam
basicamente em duas formas:
As que não faziam qualquer diferenciação das causas que antecedem o
resultado, e nesse caso, se enquadrava a teoria da equivalência dos antecedentes causais,
também denominada teoria da condição simples, teoria da conditio sine qua non. E
também, as que estabeleciam às causas antecedentes, uma espécie de hierarquia,
conforme o grau de contribuição para a produção do resultado, como é o caso da teoria
da causalidade adequada, também chamada de teoria da condição qualificada ou
individualizadoras23.
O Código Penal Brasileiro adotou como regra, previsto no caput do artigo 13
do Código Penal, a teoria da equivalência dos antecedentes causais. No entanto, no § 1º
do referido artigo, é aplicada, como exceção, a teoria da causalidade adequada.

1.3 A teoria da equivalência dos antecedentes causais.

A teoria da equivalência dos antecedentes causais, também chamada de


causalidade simples ou conditio sine qua non (condição sem a qual não) foi criada pelo
austríaco Julius Glaser já no ano de 1853, e aprofundada por Maximilian von Buri e
Stuart Mill em 187324.
No Código Penal, o tema que trata acerca da relação de causalidade está
disposto no artigo 13, caput:

Art. 13 - O resultado, de que depende a existência do crime, somente é


imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a
qual o resultado não teria ocorrido.

Assim, enquanto a primeira parte do artigo dispõe que a relação de causalidade


aplica-se somente aos crimes de resultado, ou seja, em crimes materiais, a segunda parte

23
LIMA, André Estefan Araújo Lima. Nexo de causalidade: O art. 13 do CP e a teoria da imputação
objetiva – Mestrado em Direito, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, São Paulo
2008, p. 50,51.
24
Ibid, p. 51.
17

consagra a adoção da teoria da equivalência dos antecedentes causais (conditio sine qua
non)25.
É a teoria mais aceita e, portanto, ainda dominante no direito penal pátrio e
internacional26 por adotar um critério lógico-científico à imputação penal de um
determinado resultado a um agente. O critério adotado se baseia na busca das causas
antecedentes que contribuíram, de qualquer modo, para a produção do resultado. E o
resultado, nesse caso, só poderá ser atribuído ao agente que lhe deu causa.
Assim, a causa, para esta teoria, segundo a clara definição de Masson, em
consonância com o entendimento majoritário da doutrina, é:

Todo o comportamento humano, comissivo ou omissivo, que de qualquer


modo concorreu para a produção do resultado naturalístico. Pouco importa o
grau de contribuição. Basta que tenha contribuído para o resultado material,
na forma e quando ocorreu27.

Nas palavras de Fragoso, causa é “todo antecedente que não pode ser
suprimido in mente, sem afetar o resultado28”, já na definição de Bitencourt, causa é
“todo fator – seja ou não atividade humana – que contribui, de alguma forma, para a
ocorrência do evento29”.
Importante frisar que, como o próprio nome da teoria já diz, as causas são
equivalentes entre si, ou seja, na formação de uma relação de causalidade é dispensado
qualquer tipo de valoração do grau de influência das causas30. Para uma conduta ser
considerada causa, basta tão somente ter contribuído, de qualquer forma, para a
produção do resultado.
Para Nucci, esta teoria é considerada a forma mais simples e segura de
apuração da relação de causalidade entre a conduta e o resultado, pois não se examina a
responsabilidade penal, que depende de dolo ou culpa, mas apenas o nexo causal31.
Neste momento, portanto, não há preocupação com a aplicação da responsabilização
25
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Geral 1, 17 ed. São Paulo: Saraiva,
2012, p. 678.
26
PIERANGELI, José Henrique. Nexo de causalidade e imputação objectiva. Instituto de Derecho
Penal Europeo e Internacional, Praia – Cabo Verde, 2002, p. 26.
27
MASSON, Cleber. Direito Penal Esquematizado: Parte Geral – vol. 1 - 3 ed. Rio de Janeiro:
Forense; São Paulo: Método, 2015, p. 303.
28
FRAGOSO, Heleno Cláudio. Lições de direito penal – parte geral, 16 ed. Atualizada por Fernando
Fragoso. Rio de Janeiro: Forense, 2003, p. 165.
29
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Geral 1, 17 ed. São Paulo: Saraiva,
2012, p. 678
30
Ibid, p. 678.
31
NUCCI, Guilherme de Sousa. Código Penal Comentado – 15ed – Rio de Janeiro: Forense, 2015, p.
147.
18

penal ao agente, mas apenas em determinar, com clareza e precisão, se a conduta deste
deu causa ou não ao resultado. A análise da vontade subjetiva (dolo ou culpa) na
conduta do agente deve ser realizada em momento subsequente.
Para constatar se uma causa, ou seja, uma conduta humana, foi responsável
pela produção do resultado, é adotado o método da eliminação hipotética, que foi
desenvolvida pelo professor sueco Thyren, em 1894, e consiste basicamente em fazer
um juízo hipotético de eliminação, suprimindo mentalmente determinada ação ou
omissão da cadeia de condutas presentes no contexto do crime.
Todavia, este método de eliminação hipotética recebe críticas por ser
considerado cego e, portanto, gerador de um regresso ao infinito. Exemplificando a
referida crítica, Cezar Roberto Bitencourt aduz:

No exemplo clássico do homicida que mata a vítima com um tiro de revólver,


evidentemente que tal conduta foi necessária à produção do evento; logo, é
causa. Mas o comerciante que lhe vendeu a arma também foi indispensável
na ocorrência do evento; então também é causa. Se remontarmos ainda mais,
teríamos que considerar causa a fabricação da arma, e até os pais do
criminoso, que o geraram, seriam causadores32.

Tais críticas, no entanto, são infundadas, uma vez que é sabido que a
equivalência dos antecedentes não é aplicada ao caso concreto em sua forma pura e
simplista. São levados em conta também, outros critérios que de fato limitam seu
alcance.
O primeiro critério, defendido por Welzel, criador do finalismo, sustenta que
qualquer excesso na busca das causas será filtrado pela análise do dolo ou da culpa na
conduta do agente que, por qualquer circunstância, deu causa ao resultado, haja vista
que no direito penal não é admita a responsabilização objetiva ao agente.
A segunda maneira de limitação do regresso ao infinito no método de
eliminação hipotética se dá pela análise da presença das concausas que, por si só,
produzem o resultado, pois nesse caso, adota-se a teoria da causalidade adequada.
A terceira é a aplicação da teoria da imputação objetiva, que embora não seja
adotada pelo Código Penal, vem ganhando cada vez mais relevância na doutrina.
Com relação à aplicação da teoria da equivalência dos antecedentes causais nos
crime omissivos, Damásio de Jesus ressalta que:

32
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Geral 1, 17 ed. São Paulo: Saraiva,
2012, p. 679, 680.
19

A estrutura da conduta omissiva é essencialmente normativa, não


naturalística. A causalidade não é formulada em face de uma relação entre a
omissão e o resultado, mas entre este e a conduta que o sujeito estava
juridicamente obrigado a realizar e omitiu. Ele responde pelo resultado não
porque o causou com a omissão, mas porque não o impediu realizando a
conduta em que estava obrigado33.

Assim, a teoria da equivalência dos antecedentes causais aplica-se apenas às


condutas omissivas impróprias ou comissivas por omissão, que são aquelas em que o
tipo penal aponta uma ação como crime, mas a omissão do agente, que podia e devia
agir para evitar o resultado, dá causa a este34.
Até porque, nos crimes de omissão própria, em que a conduta negativa já é
descrita no tipo penal, não há resultado naturalístico e, portanto, impossível a aplicação
da relação de causalidade, uma vez que o crime se consuma apenas com a conduta do
agente.
Vale lembrar, no entanto, que a responsabilização penal do agente pelos crimes
omissivos impróprios se dará apenas se sua omissão se enquadrar nos três requisitos
previstos nas alíneas do art. 13, § 2º, do CP, in verbis:

Art. 13.
(...)
Relevância da omissão
§ 2º - A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia
agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem:
a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância;
b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado;
c) com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado.

Assim, na aplicação desta lei penal não se pune o comportamento físico


negativo em si, mas a omissão ilegal, isto é, não ter o agente cumprido o seu dever
legal. É necessário, portanto, o dever legal e a possibilidade real de fazê-lo, sem risco
pessoal, do agente agir para impedir o resultado, sob pena de ser responsabilizado pelo
resultado tanto a título de dolo, como também, na forma culposa35.

33
JESUS, Damásio de. Direito Penal, volume 1 – Parte Geral. 34 ed. São Paulo:Saraiva, 2013, p.291.
34
MASSON, Cleber. Direito Penal Esquematizado: Parte Geral – vol. 1 - 3 ed. Rio de Janeiro:
Forense; São Paulo: Método, 2015, p. 309.
35
DELMANTO, Celso. Código Penal Comentado. 8ª ed. São Paulo : Saraiva, 2010, p. 131.
20

A RELAÇÃO DE CAUSALIDADE E A APLICABILIDADE DA


TEORIA “CONDITIO SINE QUA NON”

2.1. Das relações de causalidade: causa versus concausa.

A relação de causalidade nada mais é do que um vínculo que une as causas e


guarda ligação de consequência da conduta humana na produção de um resultado36. Por
isso, a análise dessas causas é de extrema importância para evitar possíveis injustiças na
imputação de um fato criminoso ao agente.
O conceito de causa, na teoria da equivalência dos antecedentes causais, tem
natureza ontológica, ou seja, seu significado foi buscado na física e, portanto, é despido
de juízo de valor. Seu estudo tem como referência a conduta, pois a partir da conduta
analisa se determinado comportamento humano deu ou não, causa ao resultado.
A concausas, segundo Mirabete, “é outra causa, que, ligada à primeira,
concorre para o resultado37”. É a condição que atua de forma absoluta ou relativamente
independente e causa o resultado, ou seja, além da conduta do agente (causa), houve a
interferência de qualquer outra circunstância alheia (concausa) na cadeia causal que
contribuiu para a produção do resultado.
Assim, embora a conduta do agente tenha sido o elemento principal, não foi
único responsável na produção do resultado, motivo pelo qual, este agente deverá ser

36
ESTEFAM, André; GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Direito Penal Esquematizado – Parte
Geral. São Paulo: Saraiva, 2012, p.243.
37
MIRABETE, Julio Fabrini; FABRINI, Renato N. Manual de Direito Penal – Parte Geral, 26ª ed, São
Paulo: Atlas S.A, 2010, p. 97.
21

responsabilizado apenas pelos atos praticados e não pelo resultado mais gravoso38. Para
isso, deve-se perguntar se o resultado ocorreria como ocorreu se não fosse a ocorrência
desta segunda causa.
Ilustrando o exposto, Greco aponta o seguinte exemplo:

Suponhamos que determinado agente venha caminhando pela estrada e


comece a ouvir gritos de socorro. Aproxima-se do local de onde vem os
gritos e, para sua surpresa, encontra, num precipício, abraçado a um finíssimo
galho de árvore prestes a romper, o seu maior inimigo. Como não havia mais
ninguém por perto, o agente, aproveitando aquela oportunidade, sacode
levemente a árvore fazendo com que a vítima caia no despenhadeiro, vindo a
falecer. Mesmo que o agente não tivesse sacudido a árvores, a vítima, da
maneira como foi colocado o problema, não teria salvação. O galho já estava
se rompendo quando o processo foi agilizado pelo agente. Daí perguntamos:
Mesmo que o agente não tivesse balançado a árvore, o resultado teria
ocorrido? Sim, porque o galho se romperia de qualquer forma. Mas o
resultado teria ocorrido como ocorreu? Não, porque o agente interferiu no
acontecimento dos fatos e, mesmo que o resultado, de qualquer forma, não
pudesse ser modificado, parte dele foi alterada. Aqui, o agente antecipou a
morte da vítima sacudindo o galho onde esta se encontrava agarrada. Deve,
portanto, responder pelo resultado a que lhe deu causa, ou seja, pelo delito de
homicídio.

De acordo com Sanches Cunha, “mesmo nas concausas o estudo é feito, em


regra, à luz da teoria da equivalência dos antecedentes causais, conjugada com o método
da eliminação hipotética39”, a única exceção é na presença de causa superveniente
relativamente independente, conforme preconiza o § 1º do art. 13 do CP, uma vez que
nesse caso, será aplicada a teoria da causalidade adequada.
As causas, ou melhor, concausas que interferem na produção do resultado são
divididas em absoluta ou relativamente independentes, por um critério de preexistência,
concomitância ou superveniências à conduta do agente.

2.2. Das espécies de causa.

As causas são classificadas em:

38
GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal – Parte Geral – 17 ed, Rio de Janeiro: Impetus, 2015, p.
205
39
CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal – Parte Geral, 4ª ed. Salvador: Juspodvm,
2016, p. 235.
22

I. Dependentes: são as que advêm da conduta do agente e provoca diretamente o


resultado naturalístico, seja ele omissivo ou comissivo, pois “se encontram na linha de
desdobramento previsível e esperado da conduta. É o que acostuma acontecer40”.
II. Independentes: é a causa “que foge da linha normal de desdobramento da
conduta. Seu aparecimento é inesperado e imprevisível. É independente porque tem a
capacidade de produzir, por si só, o resultado que por si só, tem a capacidade de
produzir o resultado. Pode ser de natureza absoluta ou relativa, dependendo de sua
origem41”.
As causas absolutamente independentes: são aquelas que não precisam da
conduta humana para gerar o resultado, rompe-se, nesse caso, o nexo causal pela própria
aplicação do método da eliminação hipotética, que afasta a conduta do agente e por
consequência, qualquer responsabilização penal no resultado. No entanto, o agente
responde pelos atos praticados de acordo com o seu dolo ou sua culpa. As causas
absolutamente independentes são divididas em:
a) Preexistente: É a causa que existe antes da conduta, de modo que o resultado
naturalístico teria ocorrido da mesma forma, com ou sem a prática da conduta.
Exemplo: “A” ministra dose mortal de veneno na sopa de “B”, que ingere. Todavia,
passados alguns minutos, antes do veneno fazer efeito, “C” chega ao local e desfere um
tiro com “B”, que é encaminhado ao hospital, mas acaba morrendo em decorrência da
intoxicação pelo veneno.
Nesta hipótese, “A” deve responder por homicídio doloso consumado pelo
envenenamento, enquanto “C”, por tentativa de homicídio, pois apesar de também ter
agido com o intuito de matar “B”, o resultado morte da vítima não teve nenhuma
ligação de causa e efeito com a sua conduta, ou seja, houve uma causa (envenenamento)
preexistente (anterior à conduta de “C”) absolutamente independente (por si só produziu
a morte de “B”) 42.
Se ao efetuar os disparos por arma de fogo, “C” matasse “B” na hora, o fato se
enquadraria na causa superveniente absolutamente independente, de modo que “C”
deveria responder por homicídio consumado e “A” por tentativa de homicídio.

40
JUNQUEIRA, Gustavo Octaviano Diniz. Direito Penal. 12º ed. São Paulo: revista dos Tribunais, 2012,
p. 66.
41
MASSON, Cleber. Direito Penal Esquematizado: Parte Geral – vol. 1 - 3 ed. Rio de Janeiro:
Forense; São Paulo: Método, 2015, p. 304.
42
GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal – Parte Geral – 17 ed, Rio de Janeiro : Impetus, 2015, p.
235.
23

Caso “B” já estivesse morto no momento do disparo pelo efeito do veneno,


entendemos que a conduta de “C” se enquadra em crime impossível, motivo pelo qual,
não teria cometido crime algum.
b) Concomitante: Se define como a causa que passa a existir no mesmo
momento da conduta, em uma relação de simultaneidade, mas que não guardam
nenhuma ligação entre si. Exemplo: No exato momento em que “B” está tomando a
sopa envenenada por “A”, “C” chega ao local e lhe efetua um disparo, levando “B” a
óbito na hora.
É de suma importância, portanto, saber a causa da morte da vítima. Se der em
virtude da lesão pelo disparo de arma de fogo, conforme o exemplo, logicamente a
responsabilização penal pelo homicídio consumado deverá ser imputada à “C”, haja
vista que, mesmo eliminando-se a conduta de “A”, a morte de “B” teria ocorrido
exatamente como ocorreu. “A”, portanto, deve responder apenas por tentativa de
homicídio43.
c) Superveniente: É a causa que passa a existir depois da conduta. Usando-se
do mesmo exemplo: “A” ministra dose mortal de veneno na sopa de “B”, que ingere.
Todavia, passados alguns minutos, antes do veneno fazer efeito, “C” chega ao local e
desfere um tiro com “B”, que morre na hora.
Nesta oportunidade, “B” foi morto em razão do disparo, assim, quem
responderá pelo homicídio consumado será “C”, enquanto que “A”, por tentativa de
homicídio, tendo em vista que houve uma causa superveniente, que de forma
absolutamente independente à sua conduta, deu causa ao resultado naturalístico.
Verifica-se, portanto, que em todas essas hipóteses, sendo constatada que a
conduta do agente não foi responsável pela produção do resultado, este não poderá ser
responsabilizado pelo resultado, mas apenas pela conduta praticada, na medida do seu
dolo ou culpa.
Além disso, pode-se constatar também, que um mesmo fato pode dar margem a
várias interpretações, a depender da análise do contexto temporal do momento do crime
e da precisão para se estabelecer a causa do resultado.
As causas relativamente independentes: são outras causas que se originam, de
forma relativa, da conduta do agente. No entanto, por serem independentes, podem ter a
capacidade de produzir, por si só, o resultado.

43
CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal – Parte Geral, 4ª ed. Salvador: Juspodvm,
2016, p. 235.
24

Também são divididas em:


a) Preexistentes: quando a causa efetiva já existia antes da conduta do agente.
Nesse caso, figuram-se famosos exemplos na doutrina, como da pessoa portadora de
hemofilia: “A” desfere uma facada em “B”. O ferimento em si não tinha o poder de
provocar uma morte, no entanto, como B era hemofílico, veio a falecer por hemorragia
em decorrência da facada.
Aplicando-se a teoria da equivalência dos antecedentes, verifica-se que “A”
deu causa à morte de “B”, no entanto, de forma relativa, pois o ferimento da vítima
somente provocou sua morte em razão da hemofilia. As duas causas (facada e
hemofilia), portanto, contribuíram de forma relativa para a morte da vítima, vez que se
excluindo alguma delas, o resultado não ocorreria44.
Após constatar-se que a conduta do agente foi, de fato, responsável pelo
resultado, surge o momento de fazer o juízo de valor de sua conduta.
Se o agente sabia da condição da vítima e desferiu a facada, deverá
evidentemente responder por homicídio doloso consumado (pois se não agiu com dolo
direto ao menos assumiu o risco).
Por outro lado, se o agente desconhecia a condição da vítima, não poderá ser
responsabilizado pelo resultado morte, pois no caso em questão, a lesão seria incapaz de
provocar a morte em uma pessoa não hemofílica. Deveria, portanto, responder por
tentativa de homicídio (caso tivesse agido com o dolo de matar) ou lesão corporal
seguida de morte (se quisesse apenas lesionar a vítima).
b) Concomitante: A segunda causa ocorre no mesmo momento da conduta. Em
sua obra, Masson expõe o seguinte exemplo: “‘A’ aponta uma arma de fogo contra ‘B’,
o qual, assustado, corre em direção à movimentada via pública. No momento em que é
alvejado pelos disparos, é atropelado por um caminhão, morrendo45”.
Novamente, aplicando-se a teoria da equivalência dos antecedentes, embora a
morte de “B” tenha sido em decorrência do atropelamento, a conduta de “A” foi
determinante, haja vista que se “A” não tivesse apontado a arma, “B” não teria corrido
em direção à via pública movimentada.

44
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Geral 1, 17 ed. São Paulo: Saraiva,
2012, p. 685.
45
MASSON, Cleber. Direito Penal Esquematizado: Parte Geral – vol. 1 - 3 ed. Rio de Janeiro:
Forense; São Paulo: Método, 2015, p. 306.
25

Dessa forma, “A” responderá pelo resultado naturalístico, ou seja, por


homicídio doloso consumado46.
c) Superveniente: É a causa que passa a existir depois da conduta, o § 1º do art.
13 do CP dispõe que “a superveniência de causa relativamente independente exclui a
imputação quando, por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto,
imputam-se a quem os praticou”.
Nas palavras de Mirabete e Fabrini:

Causa superveniente relativamente independente é a que sobrevêm à ação ou


omissão, mas que, por sua intervenção, faz com que esse determinado evento
ocorra em circunstância de tempo, ou de lugar, ou, ainda, de outras
modalidades diversas das que teriam ocorrido se a séria causal antecedente
prosseguisse em sua atuação normal47.

Ainda segundo o autor, “a expressão ‘por si só’ não quer dizer que a segunda
causa seja independente da primeira (no mundo fático é decorrente daquela), mas que o
evento ocorreu de maneira independente do fato do primeiro agente48”.
Se a teoria da conditio sine qua non fosse aplicada, mesmo que de forma
relativa, o nexo causal se mostraria presente e, portanto, o agente seria responsável por
dar causa ao resultado. Todavia, o legislador optou por romper este nexo de causalidade,
aplicando-se a teoria da causalidade adequada, a fim de não permitir que o agente
responda nestas circunstâncias, pelo resultado, mas tão somente pelos atos praticados.
Desse modo, o agente somente poderá ser imputado pelos resultados que forem
considerados desdobramento natural de sua ação, ou seja, estiverem na chamada linha
de desdobramento físico.

Quando alguém coloca em andamento determinado processo causal pode


ocorrer que sobrevenha, no decurso deste, uma nova condição – produzida
por uma atividade humana ou por um acontecer natural – que, em vez de se
inserir no fulcro aberto pela conduta anterior, provoca um novo nexo de
causalidade. Embora se possa estabelecer uma conexão entre a conduta
primitiva e o resultado final, a segunda causa, a causa superveniente, é de tal
ordem que determina a ocorrência do resultado, como se tivesse agido
sozinha, pela anormalidade, pelo inusitado, pela imprevisibilidade da sua
ocorrência49.

46
Ibid, p. 306.
47
MIRABETE, Julio Fabrini; FABRINI, Renato N. Manual de Direito Penal – Parte Geral, 26ª ed, São
Paulo: Atlas S.A, 2010, p. 99.
48
Ibid, p. 99.
49
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Geral 1, 17 ed. São Paulo: Saraiva,
2012, p. 689,690.
26

Reproduzindo conhecido exemplo: “A” provoca uma lesão corporal em “B”, e


este, por sua vez, é socorrido pela ambulância, no entanto, a caminho para o hospital,
“B” morre em virtude de uma colisão em acidente de trânsito.
Nesse caso, sem a lesão corporal, a morte não teria ocorrido, mas se retirar o
acidente, a morte não teria ocorrido como ocorreu. Percebe-se, portanto, que a causa
superveniente (acidente de trânsito) deu causa, por si só, ao resultado morte de “B”50.
A resolução se dará pela expressão “por si só”. Neste caso, como o acidente
não é desdobramento natural da conduta, A somente responderá pelos atos anteriores,
não sendo a ele imputado o resultado morte.
Assim, “A” não pode ser considerado o autor do homicídio, pois a morte de
“B” não foi desdobramento físico natural da conduta praticada por “A”, deve responder,
desse modo, pela tentativa de homicídio (caso tenha agido com dolo de matar) ou por
lesão corporal (se queria apenas ferir a vítima)51.

2.3. A teoria da “conditio sine qua non”: aplicabilidade penal.

A aplicabilidade penal da teoria da conditio sine qua non “tem mais relevância
para excluir quem não praticou conduta típica do que para incluir quem a cometeu52”.
Relembrando que, de acordo com o artigo 13 do Código Penal, no qual dispõe
que o resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe
deu causa, esta teoria só terá aplicação em crimes materiais, ou seja, de resultado
naturalístico.
Consiste basicamente na análise de duas etapas:
A primeira se pauta em delimitar o nexo causal, ou seja, estabelecer, pelo
critério de eliminação hipotética, a cadeia de causas/condições sem as quais o resultado
não teria ocorrido como ocorreu. Se com a exclusão de determinada conduta, o
resultado naturalístico desaparecer, pode-se afirmar que aquela conduta é causa. Por
outro lado, se com a exclusão da conduta, o resultado naturalístico permanecer

50
MASSON, Cleber. Direito Penal Esquematizado: Parte Geral – vol. 1 - 3 ed. Rio de Janeiro:
Forense; São Paulo: Método, 2015, p. 315.
51
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Geral 1, 17 ed. São Paulo: Saraiva,
2012, p. 693, 694.
52
MIRABETE, Julio Fabrini; FABRINI, Renato N. Manual de Direito Penal – Parte Geral, 26ª ed, São
Paulo: Atlas S.A, 2010, p. 98.
27

inalterado, é porque a conduta não contribuiu para a produção do resultado e, portanto,


não é considerada causa.
Salienta Greco, que o exercício mental de eliminação hipotética deve ser feito
da seguinte maneira:

1º - temos que pensar no fato que entendemos como influenciador do


resultado;
2º - devemos suprimir mentalmente esse fato da cadeia causal;
3º - se, como consequência dessa supressão mental, o resultado vier a se
modificar, é sinal de que o fato suprimido mentalmente deve ser considerado
como causa deste resultado53.

A exceção está apenas na causa superveniente relativamente independente, que


adota, conforme § 1º do artigo 13 do Código Penal, a teoria da causalidade adequada
quando a concausa, por si só, produzir o resultado, circunstância esta em que o agente
será responsabilizado penalmente apenas pelos seus atos praticados, não pelo
resultado54.
A segunda etapa consiste em verificar o nexo normativo, que é a incidência do
elemento subjetivo sobre cada uma dessas condutas, de modo que a imputação penal
será apenas aquela baseada no dolo ou na culpa da vontade do agente.
No que se refere aos crimes omissivos, considerando que não existe, nesses
casos, o nexo causal físico, sob o fundamento de que do nada, nada surge, a lei
possibilita a aplicação da conditio sine qua non, mediante a ficção jurídica do nexo
normativo, na qual a “lei considera existir um elo entre o omitente e o resultado
naturalístico sempre que estiver presente o dever jurídico de agir, de modo que, havendo
dolo ou culpa, responderá pelo evento55”.
Assim, mesmo que o agente não tenha dado causa ao resultado, será
penalmente responsabilizado se, na posição de garante de acordo com requisitos
previstos no artigo 13, §2º do CP, quando podendo e devendo, deixar de agir para
impedir o resultado.
Embora a aplicabilidade penal desta teoria seja na, maioria dos casos, simples e
objetiva, que é exatamente essa a sua razão de ser. Há, no entanto, determinadas
hipóteses causais, envolvendo principalmente a causa superveniente relativamente

53
GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal – Parte Geral – 17 ed, Rio de Janeiro: Impetus, 2015, p.
280.
54
CAPEZ. Fernando. Curso de Direito Penal – Parte Geral. 19 ed. São Paulo : Saraiva, 2015, p.186.
55
CAPEZ. Fernando. Curso de Direito Penal – Parte Geral. 19 ed. São Paulo : Saraiva, 2015, p.177.
28

independente, que provocam grandes divergências doutrinárias acerca de sua resolução


baseada na conditio sine qua non.
Demonstraremos a principal e mais recorrente hipótese, que é quando da
ocorrência da causa superveniente relativamente independente à conduta, consistente na
infecção hospitalar, complicações cirúrgicas, negligências ou erro médico. Exemplo:
“A” atira em “B” com dolo de matar, mas por má pontaria, atinge local do corpo da
vítima que não oferece risco de vida, como nas pernas ou nos braços. Ocorre que “B”,
ao ser levado para o hospital, adquire uma infecção hospitalar e morre56.
O entendimento majoritário tanto na doutrina, como na jurisprudência pátria é
de que a infecção hospitalar não rompe o nexo de causalidade da conduta do agente,
sendo considerada uma causa dependente e, portanto, de desdobramento previsível e
esperado.
A respeito deste entendimento, Mirabete preleciona:

É inegável o nexo causal na morte: por hemorragia de uma lesão leve por ser
a vítima hemofílica; por complicações surgidas no tratamento da vítima de
atropelamento em virtude de apresentar condição diabética; por insuficiência
cardíaca decorrente de violenta emoção seguida de lesões corporais; por ser
hipertensa e estar a vítima em adiantado estado de gravidez por ocasião da
agressão etc. A questão ligada ao conhecimento ou não do agente a respeito
das condições particulares da vítima é resolvida quando da apreciação do
elemento subjetivo do crime57.

Deve-se ter o cuidado, porém, quando tais ocorrências não forem previsíveis,
de acordo com as peculiaridades do caso concreto, entre as lesões e a morte, pois levará
ao rompimento do nexo causal. Nesta mesma linha de raciocínio, o autor Rogério
Greco, citando Alberto Silva Franco expõe o seguinte:

Ao critério do desdobramento da ação física deve ser adicionado outro


ingrediente, qual seja, o conceito de significância, para evitar que, na vida
real, surjam situações embaraçosas ou excessivamente rigorosas que
poderiam atentar contra o sentimento de justiça de um homem de bem58.

56
MASSON, Cleber. Direito Penal Esquematizado - Parte Geral – vol. 1 - 3 ed. Rio de Janeiro:
Forense; São Paulo: Método, 2015, p. 306.
57
MIRABETE, Julio Fabrini; FABRINI, Renato N. Manual de Direito Penal – Parte Geral, 26ª ed, São
Paulo: Atlas S.A, 2010, p. 98.
58
GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal – Parte Geral – 17 ed, Rio de Janeiro: Impetus, 2015, p.
317
29

Assim, Cezar Roberto Bitencourt faz a ressalva de que na dúvida se a causa


superveniente relativamente independente “por si só” ou “não por si só” causou o
resultado, deve-se fazer o seguinte questionamento:

Essa causa superveniente se insere no fulcro aberto pela conduta anterior,


somando-se a ela para a produção do resultado, ou não? Se a resposta for
afirmativa, não excluirá o nexo de causalidade da conduta anterior, porque a
causa posterior simplesmente somou-se à conduta anterior na produção do
resultado. Ao contrário, se respondermos que não, isto é, que a causa
superveniente causou isoladamente o evento, estaríamos resolvendo a
situação com base no § 1º, afastando a relação de causalidade da conduta
anterior. Nesse caso, o autor da conduta anterior responderá pelos atos
praticados que, em si mesmos, constituírem crimes, segundo seu elemento
subjetivo59.

Assim, para ilustrar o exposto, o autor exemplifica que, se uma pessoa, que
sofre lesão corporal por ter sido esfaqueada por “A”, for socorrida, medicada e
orientada quantos aos cuidados a tomar, mas não obedece à prescrição médica e em
virtude dessa falta de cuidado, o ferimento infecciona, gangrena e a leva a óbito. Apesar
de haver uma relação de causalidade entre a conduta de desferir a facada e o evento
morte por conta do ferimento, “A” deverá responder apenas por lesão corporal leve, sob
o fundamento de que a displicência da vítima criou um novo fluxo causal, inusitado,
inesperado, causando, por si só, o resultado morte60.
Dessa forma, segundo o entendimento do autor, deve haver o rompimento do
nexo causal e com isso, a aplicação do § 1º do art. 13 do CP.
Até porque, conforme enfatiza Queiroz, na análise das causas supervenientes
relativamente independentes “é irrelevante saber o momento da causa. Se é relativa ou
absolutamente independente, mas se produziu, por si só, o resultado.61” uma vez que a
depender do caso concreto, o resultado produzido poderá ser bastante incompatível com
a conduta praticada.

59
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Geral 1, 17 ed. São Paulo: Saraiva,
2012, p. 690, 691.
60
Ibid, p. 691,692.
61
QUEIROZ, Paulo. Direito Penal – parte geral, 4ª ed; Rio de Janeiro-RJ, Editora Lumen Juris, 2008, p.
174,
30

OS REFLEXOS TEÓRICOS E PRÁTICOS DA “CONDITIO SINE QUA


NON”

3.1. A teoria da causalidade adequada e da imputação objetiva.

A teoria da causalidade adequada, também chamada da adequação ou da


62
condição qualificada é adotada como exceção no art. 13, § 1º, do CP . Foi criada por
Johanes Von Kries com o objetivo de limitar os excessos da teoria da equivalência dos
antecedentes causais, pois considera que “um determinado evento somente será produto
da ação humana quando esta tiver sido apta e idônea a gerar o resultado63”.
A principal diferença entre a teoria da conditio sine qua non e a teoria da
causalidade adequada é o fato de que enquanto na primeira as causas são equivalentes,
nesta segunda, há uma distinção. Para a causalidade adequada, nem toda causa é apta a
produzir o resultado, apenas aquelas em que for “previsível ex ante, de acordo com os
conhecimentos experimentais existentes e as circunstâncias do caso concreto,
conhecidas ou cognoscíveis pelo sujeito cuja conduta se valora (aspecto objetivo)64.
Dessa forma, para o agente ser penalmente responsabilizado segundo esta
teoria, não basta que sua conduta tenha contribuído, de qualquer modo, para a produção

62
Art. 13, § 1º, do CP: A superveniência de causa relativamente independente exclui a imputação quando,
por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou.
63
NUCCI, Guilherme de Sousa. Código Penal Comentado – 15ed – Rio de Janeiro: Forense, 2015, p.
147.
64
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Geral 1, 17 ed. São Paulo: Saraiva,
2012, p. 694, 695.
31

do resultado, conforme preceitua a conditio sine qua non, é necessário também, que sua
conduta tenha sido de fato, eficiente e idônea à causação do evento delituoso.
Conforme lições de Bitencourt, “essa teoria permitiria excluir do âmbito da
responsabilidade penal os cursos causais irregulares e aqueles resultados valorativos
insatisfatórios”.

Assim, não aparecerá adequado para produzir a morte de B que A lhe desfira
alguns golpes leves ou que o lesione com ânimo de mata-lo se, no entanto, B
acaba morrendo por uma via tão distinta como a de um acidente com a
ambulância que o transportava para o hospital65.

Para se determinar a idoneidade de uma conduta considerada adequada a gerar


o resultado, Costa Júnior, grande defensor desta teoria, sustenta que o magistrado:

Deverá colocar-se na posição do agente no momento da conduta levada a


efeito, aquilatando daquilo que se deveria esperar seguindo os ditames da
experiência, bem como de tudo que poderia conhecer o homem médio, o
homem prudente ou o homem agente por razões particulares. Em resumo: o
julgador, retrocedendo no tempo até o momento da conduta, colocando-se no
lugar no agente, analisa os fatos, já verificados, como se ainda se devessem
verificar. Emite, então, um juízo, que é corolário de um silogismo, cuja
premissa maior é constituída pelo conhecimento das leis da natureza, e cuja
premissa menor é integrada pelas condições particulares em que se
encontrava o agente66.

Esta forma de imputação, no entanto, recebe várias críticas, como a apontada


por Nucci, para quem esta teoria “vincula, em demasia, causalidade e culpabilidade,
colocando o juiz numa posição especial de análise do nexo causal (o que foi e o que não
foi idôneo)67” e também, no que se refere ao fato de que o juízo de valor da conduta
para delimitar a adequação causal se pauta nos conhecimentos e experiências que se
espera de um homem médio. Tornar-se-ia complicado realizar este juízo de valor
quando o agente possuir conhecimentos especiais.
De qualquer modo, é uma teoria valida por ser uma forma de limitação do
alcance da equivalência dos antecedentes, mas peca por confundir questões acerca da
causalidade com o juízo valorativo de imputação de um resultado típico68.

65
MIR PUIG. Santiago. Direito Penal – Fundamentos e Teoria do Delito – 7ª ed. São Paulo : Revista
dos Tribunais, 2007, p.200.
66
COSTA JÚNIOR, Paulo José da. Nexo causal. 3ª ed. São Paulo: Siciliano Jurídico, 2004, p. 115.
67
NUCCI, Guilherme de Sousa. Código Penal Comentado – 15ed – Rio de Janeiro: Forense, 2015, p.
147.
68
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Geral 1, 17 ed. São Paulo: Saraiva,
2012, p. 696.
32

A teoria da imputação objetiva foi desenvolvida por Karl Larenz (1927),


Rochard Hong (1930) e atualmente representada por Claus Roxin e Gunther Jakobs69. É
uma proposta doutrinária, que embora não prevista no Código Penal, não tem sua
aplicação vedada pelo ordenamento jurídico.
É a mais favorável ao réu, pois trabalha com a ideia de risco, que são as ações
que geram a possibilidade de lesão ao bem jurídico penalmente protegido. Considera
que vivemos atualmente em uma sociedade de riscos conhecidos e reais muito
diferentes de anos atrás e que por isso, é impossível uma proteção absoluta dos bens
jurídicos.
Com relação a definição de sociedade de risco, Junqueira faz o seguinte
apontamento:

Partindo da premissa de que quanto mais sofisticada sociedade, maiores as


chances de lesão aos interesses dos cidadãos, vivemos em uma sociedade de
crescente risco. O tráfego automotivo e aéreo, a utilização de agrotóxicos em
lavouras, o tratamento de água, o convívio com aparelhos elétricos...são
exemplos de riscos que nos cercam. No entanto, ninguém deixa de dirigir,
beber água, comer frutas...apesar dos riscos conhecidos. É que os riscos
citados são aceitos e inocuizados a partir da expectativa de que casa um irá
cumprir seu papel social (os motoristas obedecerão as regras de trânsito, os
restaurantes irão lavar as frutas, a qualidade da água será fiscalizada pelos
órgãos competentes...), evitando lesões inesperadas, ou ainda podem ser
aceitos, para preservar outros interesses70.

Sua aplicação no ordenamento jurídico penal figura como um terceiro filtro


para delimitar o nexo de causalidade entre a conduta do agente e o resultado. Não há,
portanto, no âmbito desta teoria, um objetivo de substituição da teoria da conditio sine
qua non, como defende alguns autores, mas apenas de “acrescentar-lhe conceitos
normativos limitadores de sua abrangência71”.
Assim, enquanto que na teoria da equivalência dos antecedentes causais busca-
se apenas a demonstração do nexo de causalidade entre a conduta do agente e a
produção do resultado, na teoria da imputação objetiva, a responsabilização criminal do
agente somente seria possível após a análise de três etapas.
A primeira seria com a verificação da causalidade material, ou seja, com a
aplicação da teoria da equivalência dos antecedentes para delimitar o nexo causal da
69
CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal – Parte Geral, 4ª ed. Salvador-BA: Juspodvm,
2016, p. 238.
70
JUNQUEIRA, Gustavo Octaviano Diniz. Direito Penal. 12º ed. São Paulo: revista dos Tribunais, 2012,
p.95,96.
71
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Geral 1, 17 ed. São Paulo: Saraiva,
2012, p. 700,701.
33

conduta e o resultado; a segunda consistiria aplicação da imputação objetiva, com a


verificação da existência ou não, de um risco criado pelo agente, que seja considerado
proibido; a terceira etapa se pautaria no reconhecimento dolo ou culpa na conduta do
agente72.
Dessa forma, segundo esta teoria, apenas os riscos considerados proibidos têm
relevância penal, não deve haver punição para a produção do risco permitido nem do
acaso. Não basta a mera contribuição para o resultado, ainda que, agindo com dolo ou
culpa, é necessária também, a comprovação de que a conduta do agente foi
“socialmente inadequada, não padronizada, proibida e com isso, geradora de um risco
proibido para a ocorrência do resultado73”.

Uma ação será perigosa ou criadora de risco se o juiz, levando em conta os


fatos conhecidos por um homem prudente no momento da prática da ação,
diria que esta gera uma possibilidade real de lesão a determinado bem
jurídico74.

A teoria da imputação objetiva exclui a imputação penal do agente nas


seguintes hipóteses:
a. Se o risco é juridicamente permitido ou irrelevante: é o caso de agrotóxicos
em alimentos, a realização de cirurgias consideradas arriscadas, são considerados riscos
permitidos;
b. Se a conduta, objetivamente (de acordo com a experiência comum), busca
diminuir o risco: como no caso de “A” jogar um tijolo na cabeça de “B”, mas “C” bate
no tijolo e acerta apenas a virilha de “B”. Ao fazer isso, “B” tentou diminuir o risco, e
por isso, não há imputação objetiva, mesmo se “A” vier a óbito em decorrência da lesão
na virilha, pois não importa se o resultado foi mais gravoso.
O juiz deve se colocar como um observador da conduta no momento em que
ela é praticada e valorar de acordo com a experiência comum, se esta conduta,
objetivamente, aumenta ou diminui o risco ao bem. Se “C” estava tentando diminuir o
risco, o que aconteceu foi um acaso, não obra do seu risco e ele não pode responder pelo
acaso, porque sua conduta foi de diminuição de risco.

72
MASSON, Cleber. Direito Penal Esquematizado - Parte Geral – vol. 1 - 3 ed. Rio de Janeiro:
Forense; São Paulo: Método, 2015, p.315,316.
73
CAPEZ. Fernando. Curso de Direito Penal – Parte Geral. 19 ed. São Paulo : Saraiva, 2015, p.196.
74
CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal – Parte Geral, 4ª ed. Salvador: Juspodvm,
2016, p.241.
34

Outro exemplo apresentado nesta hipótese é o caso de “A”, que está tendo um
infarto e “B” faz a massagem cardíaca como deve ser feita, mas quebra uma costela e
“A” morre, sendo que teria sobrevivido sem a massagem. Nesse caso, “B” não responde
pela morte de “A”, porque sua conduta diminuía e não aumentava o risco ao bem
jurídico.
Esta hipótese de diminuição do risco é recorrente principalmente na questão da
intervenção médica e do erro médico.
c. Se o resultado não deriva do risco criado, o que se comprova com o
instrumento do “comportamento alternativo”, conforme o direito. Ex. O ciclista ébrio
estava na pista e o caminhão foi ultrapassar, mas o caminhão não guardou a distância
mínima exigida e matou o ciclista atropelado, que por estar bêbado, perdeu o controle
da bicicleta.
No entanto, se comprovar que mesmo que o caminhão tivesse guardado a
distância exigida, o ciclista estaria no meio da pista e teria sido atropelado do mesmo
jeito. Assim, pode-se verificar que a morte do ciclista não foi resultado do risco criado
pela desobediência da distância regulamentar, a morte foi responsabilidade do próprio
ciclista.
Roxin ressalta que só deve ser eliminada a imputação objetiva se tem certeza
que o comportamento alternativo conforme o direito, não muda o resultado. Se tiver
dúvidas, o desfecho não pode ser absolutório, deve haver a imputação, pois apenas a
certeza do comportamento alternativo conforme o direito não mudaria o resultado
poderia afastar a imputação e no exemplo acima, há dúvidas. No entanto, a doutrina
majoritária sustenta o princípio do in dubio pro reo, que na presença de uma dúvida
razoável de sua responsabilidade no fato delituoso, o réu deve ser absolvido75.
Se o resultado está fora do âmbito de proteção da norma, ou seja, não é o que a
norma de cuidado ou de proibição quer evitar. Conforme preleciona Greco, “somente
haverá responsabilidade quando a conduta afrontar a finalidade protetiva da norma76”.
Dessa forma, no caso de um crime de injúria, por exemplo, a norma quer proteger a
honra, não a vida, portanto, o autor do crime não poderá responder pela morte da vítima
que morreu em decorrência de uma depressão em virtude da injúria sofrida.

75
JUNQUEIRA, Gustavo Octaviano Diniz. Direito Penal. 12º ed. São Paulo: revista dos Tribunais, 2012,
p.98.
76
GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal – Parte Geral – 17 ed, Rio de Janeiro: Impetus, 2015, p.
300.
35

d. Se há auto colocação (vítima se coloca) ou heterocolocação (vítima se deixa


colocar) consciente da vítima em risco. É uma hipótese que provoca algumas
dificuldades em adaptar sua aplicação no Brasil, pois é baseada justamente na
autonomia da vítima. Ex. Racha, fornecimento de drogas, prática de esportes perigosos.
Nas relações de trabalho logicamente se presume a ausência de liberdade de
consentimento77.
As críticas quanto à teoria da imputação objetiva aos adeptos do finalismo, se
baseiam em entendê-la como supérflua para crimes dolosos, pois não pairam grandes
dúvidas nesses casos, e inadequada para os crimes culposos, pois abre margens para
interpretações muito divergentes, tanto que os próprios doutrinadores não chegam a um
consenso sobre a forma mais adequada de aplica-la, incorrendo, assim, em uma visível
insegurança jurídica.
De fato, apesar de suas imperfeições, é uma proposta mais garantista, de
acordo com a Constituição e os preceitos do direito penal mínimo, bastante necessário
atualmente, todavia, definitivamente não figura como uma alternativa à aplicação da
conditio sine qua non, mas tão somente mais uma maneira de restringir seu alcance78.

3.2. Os reflexos da aplicabilidade na perspectiva jurisprudencial.

Com relação à aplicabilidade da teoria da equivalência dos antecedentes


causais no âmbito jurisprudencial, optamos por demonstrá-la sob a ótica das decisões do
Tribunal do nosso Estado de Mato Grosso.
Os casos decididos pelos julgadores sob a visão da equivalência dos
antecedentes foram basicamente homicídio culposo no trânsito, lesão corporal seguida
de morte e latrocínio.
Da leitura dos julgados, pode-se perceber que o entendimento majoritário desta
Corte, nesses casos, é que a morte decorrente de negligência médica não rompe o nexo
de causalidade com relação a conduta do agente, devendo este, responder pelo
resultado.

77
JUNQUEIRA, Gustavo Octaviano Diniz. Direito Penal. 12º ed. São Paulo: revista dos Tribunais, 2012,
p.98.
78
QUEIROZ, Paulo. Direito Penal – parte geral, 4ª ed; Rio de Janeiro-RJ, Editora Lumen Juris, 2008, p.
186.
36

HOMICÍDIO CULPOSO NO TRÂNSITO

RECURSO DE APELAÇÃO – CONDENAÇÃO PELO CRIME DE


HOMICÍDIO CULPOSO NA DIREÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR –
1. DESCLASSIFICAÇÃO PARA LESÃO CORPORAL CULPOSA OU
HOMICÍDIO CULPOSO, AMBOS PREVISTOS NA LEI GERAL
[CÓDIGO PENAL] – IMPOSSIBILIDADE – CAUSA SUPERVENIENTE
RELATIVAMENTE INDEPENDENTE QUE NÃO PRODUZIU POR SI SÓ
O RESULTADO – FRATURA DE FÊMUR CAUSADA PELA COLISÃO
DE TRÂNSITO – POSTERIOR COMPLICAÇÃO DO QUADRO CLÍNICO
QUE EVOLUIU PARA O ÓBITO – CAUSA DETERMINANTE
PROVOCADA POR ATO DO APELANTE - CONTRIBUIÇÃO PARA A
OCORRÊNCIA DO RESULTADO - TEORIA DA CONDITIO SINE QUA
NON - EXCLUSÃO DA IMPUTAÇÃO IMPOSSÍVEL -
DESCLASSIFICAÇÃO AFASTADA.
No que tange à relação de causalidade, verifico que embora os profissionais
de saúde não tenham constatado de pronto a fratura do fêmur da vítima, esta
foi encaminhada para o Hospital Regional de Rondonópolis/MT, o mais
breve possível, exatamente porque os profissionais de saúde constataram a
gravidade do estado de saúde do ofendido. Nesse norte, não resta dúvida que
a fratura de fêmur derivada do acidente automobilístico foi o que causou a
morte da vítima, por tromboembolismo. O que justifica a exclusão da
imputabilidade é o fato superveniente que por si só produziu o resultado, nos
termos do § 1º do art. 13 do Código Penal. Apesar de o tromboembolismo
causado pela fratura do fêmur da vítima ser uma causa superveniente
relativamente independente, porque a causa efetiva do resultado acontece
após a causa concorrente, a conduta imputada ao apelante não encontra
fundamento no § 1º do art. 13 do CP, e sim no caput, tendo em vista que não
produziu por si só o resultado. É que acerca da relação de causalidade nosso
código penal adotou como regra a teoria da equivalência dos antecedentes
causais [conditio sine qua non], ou seja, considera como causa toda ação ou
omissão sem a qual o resultado não ocorreria. Assim, tudo o que contribui
para o resultado é causa. No caso concreto, as complicações ocorridas após o
cometimento da lesão não excluem a imputação ao apelante, pois tal fato só
aconteceu em decorrência do acidente de veículos que causou a fratura na
vítima. Apesar de o ofendido não ter vindo a óbito no momento da colisão, é
induvidoso que ele só foi transferido para o hospital por que sofreu essa lesão
por ato do apelante. Logo, se ela não tivesse sofrido nenhum ferimento, não
teria fraturado o fêmur, tampouco seria necessária sua transferência de
hospital, e, por consequência, não teria morrido. Não há, pois, que se falar em
desclassificação do crime de homicídio culposo na direção de veículo
automotor para outro delito previsto no Código Penal, porquanto escorreita a
condenação imposta ao apelante, em razão de ter contribuído para o resultado
final.
(TJ-MT Ap 72394/2015, DES. GILBERTO GIRALDELLI, TERCEIRA
CÂMARA CRIMINAL, Julgado em 30/09/2015, Publicado no DJE
13/10/2015)

Esta decisão trata de um caso envolvendo um homicídio culposo na direção de


veículo automotor em que a vítima veio a óbito no hospital em decorrência de um
tromboembolismo devido a uma fratura no fêmur em que os médicos não haviam
constatado. A defesa requereu a desclassificação para a lesão corporal culposa, todavia,
37

o tribunal rejeitou o pedido alegando que a causa superveniente relativamente


independente não por si só produziu o resultado.

LESÃO CORPORAL SEGUIDA DE MORTE

RECURSO DE APELAÇÃO – CONDENAÇÃO PELO CRIME DE LESÃO


CORPORAL SEGUIDA DE MORTE – DESCLASSIFICAÇÃO PARA
LESÃO CORPORAL LEVE – IMPOSSIBILIDADE – CAUSA
SUPERVENIENTE RELATIVAMENTE INDEPENDENTE QUE NÃO
POR SI SÓ PRODUZIU O RESULTADO – FERIMENTO CAUSADO POR
ARMA BRANCA – POSTERIOR APLICAÇÃO DE SORO GLICOSADO
EM VÍTIMA DIABÉTICA – TEORIA DA CONDITIO SINE QUA NON -
EXCLUSÃO DA IMPUTAÇÃO IMPOSSÍVEL - CONTRIBUIÇÃO PARA
A OCORRÊNCIA DO RESULTADO – DESLASSIFICAÇÃO
AFASTADA.
É escorreita a sentença que imputa a prática do crime de lesão corporal
seguida de morte quando o agente contribuiu para a ocorrência do resultado,
mesmo que a causa morte tenha sido ocasionada pela utilização de soro
glicosado em réu diabético. Aplica-se a teoria conditio sine qua non, sendo a
hipótese de causa relativamente independente superveniente que não por si só
produziu o resultado.
(TJ-MT Ap 93861/2013, DES. GILBERTO GIRALDELLI, TERCEIRA
CÂMARA CRIMINAL, Julgado em 28/05/2014, Publicado no DJE
03/06/2014)

RECURSO DE APELAÇÃO – SENTENÇA CONDENATÓRIA – LESÃO


CORPORAL SEGUIDA DE MORTE – PRETENSÃO DEFENSIVA –
DESCLASSIFICAÇÃO PARA LESÃO CORPORAL GRAVE –
IMPOSSIBILIDADE – CAUSA SUPERVENIENTE QUE NÃO POR SI SÓ
PRODUZIU O RESULTADO – FERIMENTO CAUSADO POR
AGRESSÕES PRATICADA PELAS APELANTES – TEORIA DA
CONDITIO SINE QUA NON – CONTRIBUIÇÃO PARA A
OCORRÊNCIA DO RESULTADO – DESLASSIFICAÇÃO AFASTADA .
É escorreita a sentença que imputa a prática do crime de lesão corporal
seguida de morte quando as agentes contribuíram para a ocorrência do
resultado, independentemente se a causa morte tenha sido ocasionada pela
negligência do atendimento de primeiros socorros e atendimento médico
hospitalar. Aplica-se a teoria conditio sine qua non, sendo a hipótese de causa
relativamente independente superveniente que não por si só produziu o
resultado.
(TJ-MT Ap 157804/2014, DES. RUI RAMOS RIBEIRO, PRIMEIRA
CÂMARA CRIMINAL, Julgado em 18/08/2015, Publicado no DJE
24/08/2015)

Como se pode observar, o entendimento é basicamente o mesmo para as duas


decisões acima apresentada. A negligência médica que dá causa à morte da vítima,
portanto, não tem o condão de romper o nexo causal da conduta do agente e afastar sua
responsabilização penal por esta morte, em virtude de sua conduta criminosa ao praticar
a lesão corporal contra o ofendido.
38

ROUBO COM RESULTADO MORTE

APELAÇÃO CRIMINAL - LATROCÍNIO EM CONCURSO FORMAL


COM ROUBO MAJORADO PELO EMPREGO DE ARMA E CONCURSO
DE AGENTES, EM CONCURSO MATERIAL COM ROUBO
MAJORADO PELO EMPREGO DE ARMA E CONCURSO DE AGENTES
– SENTENÇA CONDENATÓRIA – PRETENSÃO RECURSAL DE
ABSOLVIÇÃO POR INSUFICIÊNCIA DE PROVAS,
DESCLASSIFICAÇÃO DO LATROCÍNIO PARA ROUBO MAJORADO
POR AUSÊNCIA DE NEXO CAUSAL DA CONDUTA DO APELANTE
COM A MORTE DA VÍTIMA E DESCLASSIFICAÇÃO DO
LATROCÍNIO PARA A FORMA TENTADA POR NÃO TER OCORRIDO
SUBTRAÇÃO DE BENS – TEORIA DA EQUIVALÊNCIA DOS
ANTECEDENTES - CONCAUSA SUPERVENIENTE QUE NÃO POSSUI
AUTONOMIA PARA PRODUZIR O RESULTADO, MAS DEPENDE DA
CONDUTA DO AGENTE – IMPUTAÇÃO POR LATROCÍNIO
MANTIDA – CONSUMAÇÃO DO LATROCÍNIO QUE INDEPENDE DA
SUBTRAÇÃO DE BENS QUANDO VERIFICADO O EVENTO MORTE
DA VÍTIMA.
“O fato de a vítima ter falecido no hospital em decorrência das lesões
sofridas, ainda que se alegue eventual omissão no atendimento médico,
encontra-se inserido no desdobramento físico do ato de atentar contra a vida
da vítima, não caracterizando constrangimento ilegal a responsabilização
criminal por homicídio consumado, em respeito à teoria da equivalência dos
antecedentes causais adotada no Código Penal e diante da comprovação do
animus necandi do agente.” (STJ, HC nº 42.559/PE)
(TJ-MT Ap 39537/2015, DES. MARCOS MACHADO, PRIMEIRA
CÂMARA CRIMINAL, Julgado em 28/06/2016, Publicado no DJE
04/07/2016)

Este julgado trata do fato delituoso em que durante um roubo em sua


residência, a vítima levou um tiro no ombro e dois nas costelas, e em decorrência desses
ferimentos, ficou em coma por três meses até vir a óbito por septicemia (infecção
generalizada). Ainda que o evento morte tenha decorrido meses depois, os autores do
crime foram penalmente responsabilizados por este resultado.

3.3. Vantagens e desvantagens da aplicabilidade.

As vantagens são que a conditio sine qua non é formada por critério mais
simples, claro e objetivo de se imputar um fato ao agente, pois se fundamenta na
garantia de que a sua aplicação se dará por um critério pautado na busca das causas sem
realizar qualquer juízo de valor. Nesse sentido, Junqueira ressaltar que “outras teorias
39

teriam problemas ainda maiores e não resolveriam tão grande número de casos de
maneira satisfatória79”.
Do mesmo modo, Zafaroni e Pierangeli defendem que:

Para nós, - que respeitamos a estrutura ôntica da conduta e dos fenômenos


que a acompanham, partindo de um ponto de vista realista –, esta é a única
concepção da causalidade que nos cabe admitir na teoria do tipo. A sua
admissão não acarreta qualquer problema, porque a relevância penal da
causalidade encontra-se limitada, dentro da própria categoria do tipo, pelo
tipo subjetivo, isto é, pelo querer do resultado.80

Evita, portanto, decisões com interpretações muito discrepantes por parte dos
julgadores e se mostra justa, uma vez após analisar se a conduta do agente realmente
deu causa ao resultado é verificado se este agiu de forma dolosa ou culposa. Se não agiu
com nenhum dos dois, o fato será atípico.
Já a desvantagem mais evidente é que a teoria da conditio sine qua non não é
suficiente para resolver todos os problemas da relação de causalidade. Em determinadas
situações, como por exemplo, na ocorrência causa superveniente relativamente
independente que, por si só, produz o resultado, é necessário a aplicação da teoria da
causalidade adequada, pois a conditio sine qua non, por ser extremamente objetiva e
mecanicista, excederia a responsabilização criminal do agente de forma desproporcional
à sua conduta.
Não entendemos como desvantagem na aplicabilidade desta teoria, todavia, o
método de eliminação hipotética, uma vez que seu regresso excessivo pode ser
facilmente limitado pela análise da conduta do agente causador, se agiu com dolo ou
com culpa.

79
JUNQUEIRA, Gustavo Octaviano Diniz. Direito Penal. 12º ed. São Paulo: revista dos Tribunais, 2012,
p. 66.
80
ZAFFARONI, Eugênio Raúl; PIERANGELI, José Henrique. Manual de Direito Penal Brasileiro: vol
1 – Parte Geral, 9 ed. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011. p. 472.
40

CONCLUSÃO

Conforme restou demonstrado neste trabalho, o nosso ordenamento jurídico


penal adotou a teoria da equivalência dos antecedentes causais ou conditio sine qua non
por ser uma teoria naturalista objetiva, ou seja, não é uma criação humana, mas um fato
real, trazido das leis da física, para delimitar com precisão o nexo de causalidade entre a
conduta e o resultado.
Durante o estudo, foram analisadas as várias hipóteses de causas e concausas
que concorrem para a produção do resultado, bem como suas peculiaridades de
aplicação prática. É evidente que atualmente, em razão da ocorrência de inúmeros fatos
delituosos com as mais diferentes situações, este critério de delimitação do nexo causal
tão objetivo se mostra insuficiente para realizar uma imputação criminal proporcional a
cada caso concreto.
Todavia, consideramos que tal fato não tem o condão de tornar esta teoria
ineficaz ou defasada por completo, como sustentam as críticas, até porque, as possíveis
hipóteses problemáticas com relação à aplicação da teoria da conditio sine qua non são
facilmente resolvidas no caso concreto tanto pela análise da causalidade normativa, se o
agente concorreu para o delito de forma dolosa ou culposa, como também, pela
aplicação da exceção prevista na própria lei penal, que é a teoria da causalidade
adequada.
Além disso, conforme demonstrado neste estudo, o ordenamento pátrio
também permite a utilização da teoria da imputação objetiva, na qual funciona como um
terceiro filtro de análise do nexo causal nos casos em que a aplicação da conditio sine
qua non com a análise da vontade subjetiva (dolo ou culpa), mesmo assim, se mostra
insuficiente para delimitar de forma justa a responsabilização do agente pelo ato
41

praticado, garantindo-se, com isso, maior proporcionalidade e razoabilidade na


imputação.
Durante o presente trabalho verificamos que a causalidade adequada resolve a
problemática envolvendo as hipóteses de causa superveniente relativamente
independente quando, por si só, produzir o resultado, pois não permitirá que o agente
responda penalmente por este resultado se sua conduta não contribuiu de forma efetiva e
adequada para a sua produção.
Vimos que, no entanto, quando a causa superveniente relativamente, não por si
só, provoca o resultado, ou seja, quando a conduta do agente, mesmo que de forma
relativa, foi indispensável para a produção deste resultado, aplica-se a teoria da
equivalência dos antecedentes.
Com base na análise da aplicabilidade penal segundo os entendimentos
doutrinários e da jurisprudência do Estado de Mato Grosso, a ocorrência, no caso
concreto, de causa superveniente relativamente independente é a que mais provoca
interpretações contraditórias, se ela por si só, ou não por si só produziu o resultado.
A teoria da imputação objetiva, conforme demonstrado neste trabalho, é
defendida por muitos doutrinadores como uma alternativa e forma de substituição à
equivalência dos antecedentes, por ser baseada em critérios normativos que levam em
conta os riscos permitidos e os riscos proibidos e impede que o agente seja
responsabilizado criminalmente por fatos analisados de forma meramente causal.
Contudo, analisando sua forma de aplicação ao longo do estudo, não nos
parece ser, na verdade, um caso de alternativa e substituição à conditio sine qua non,
mas tão somente mais um método para restringir seu alcance, tanto que ainda necessita
de sua demonstração de causalidade material para determinar quais dessas causas do
resultado estão acobertadas pelo risco permitido ou pelo risco proibido.
Apesar de sua aplicação ser permitida em nosso ordenamento jurídico penal, é
considerada uma teoria em construção, tanto que ainda traz muitas interpretações
divergentes entre seus próprios defensores acerca do que pode ou não, no caso concreto,
ser considerado um risco permitido ou um risco proibido.
42

REFERÊNCIAS

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investigação, argumentação e redação. Rio de Janeiro : Elsevier. 2011, p. 69.

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Esquematizado – Parte Geral. São Paulo: Saraiva, 2012.

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Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2015.

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ed. São Paulo: Saraiva, 2012.

9. ZAFFARONI, Eugênio Raúl; PIERANGELI, José Henrique. Manual de


Direito Penal Brasileiro: vol 1 – Parte Geral, 9 ed. – São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2011.

10. CAPEZ. Fernando. Curso de Direito Penal – Parte Geral. 19 ed. São Paulo :
Saraiva, 2015.

11. QUEIROZ, Paulo. Direito Penal – parte geral, 4ª ed; Rio de Janeiro-RJ,
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12. PIERANGELI, José Henrique. Nexo de causalidade e imputação objectiva.


Instituto de Derecho Penal Europeo e Internacional, Praia – Cabo Verde, 2002.

13. LIMA, André Estefan Araújo Lima. Nexo de causalidade: O art. 13 do CP e a


teoria da imputação objetiva – Mestrado em Direito, Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo – PUC-SP, São Paulo 2008.
43

14. FRAGOSO, Heleno Cláudio. Lições de Direito Penal – parte geral, 16 ed.
Atualizada por Fernando Fragoso. Rio de Janeiro: Forense, 2003.

15. GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal – Parte Geral – 17 ed, Rio de
Janeiro: Impetus, 2015.

16. DELMANTO, Celso. Código Penal Comentado. 8ª ed. São Paulo : Saraiva,
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18. MIR PUIG. Santiago. Direito Penal – Fundamentos e Teoria do Delito – 7ª


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19. COSTA JÚNIOR, Paulo José da. Nexo causal. 3ª ed. São Paulo: Siciliano
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20. BRASIL. Tribunal do Estado de Mato Grosso – MT. Pesquisa Jurisprudência.


Disponível em : <http://www.tjmt.jus.br/jurisprudencia/> . Acesso em: 20 jan.
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