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NÍVEIS DE LINGUAGEM

UNIDADE
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Prof. Joana Vieira Frente: 01 Aula: 02 M T
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M T N M T N

A linguagem popular é aquela utilizada por pessoas


linguagem como todo organismo vivo, transforma-se e

A envelhece. Assim com no decorrer dos séculos, nossa língua –


apesar de altamente estabilizada e controlada pela gramática –
não está ao abrigo de transformações que são ditadas, sobre tudo,
de baixa ou nenhuma escolaridade. Este nível, dá-se
raramente na forma escrita e caracteriza-se como um
subpadrão lingüístico. Nesse nível, o vocabulário é bem
mais restrito, com muitas gírias, onomatopéias e formas
pela língua falada. incorretas gramaticalmente (Oropa, pobrema, nós vai, nóis
Variação e norma. fumo, tauba, estauta, lâmpia, vi ela etc.). Não há, aqui,
reocupação com as regras gramaticais.
Como falante do português, percebemos que há situações Atualmente, em função da influência dos meios de
em que a língua se apresenta sob uma forma bastante diferente comunicação, assiste-se a um nivelamento da linguagem
daquela que nos habituamos a ouvir em casa ou através dos meios no registro coloquial. As variantes lingüísticas podem
de comunicação. Essa diferença pode manifestar-se tanto pelo decorrer das circunstâncias que cercam o ato da fala.
vocabulário utilizado, como pela pronúncia, morfologia e sintaxe.
Essa diferenciação no interior de uma mesma língua é
perfeitamente natural, já que todas as variedades constituem
sistemas lingüísticos perfeitamente adequados para a expressão O gerente de vendas recebeu o seguinte fax de um
das necessidades comunicativas e cognitivas dos falantes, dadas as dos seus novos vendedores:
práticas sociais e os hábitos culturais de suas comunidades. “Seo Gomis, o oriente de belzonte pidiu mais
cuatrucenta pessa. Faz favor toma as providenssa.
Para que a comunicação efetivamente exista, entre outros
Abrasso, Nirso”
requisitos, é necessária a escolha adequada do nível de linguagem
a ser utilizado. A língua permite uma multiplicidade de usos Aproximadamente uma hora depois recebeu outro.
dependendo das situações comunicacionais. Para que a “Seo Gomis,
comunicação ocorra de forma coerente, é preciso que o emissor e o os relatório di venda vai xega atrazado proque to
receptor estejam em harmonia com o mesmo universo lingüístico. fé xando umas venda. Temo que manda treiz mil
Desse modo, o conhecimento das variantes lingüísticas determina a pessa. Amanha to xegando.
eficácia dessa comunicação. Abrasso, Nirso”
Essas variantes se devem a diversas influências: No dia seguinte;
- geográficas: onde verificam-se as variantes regionais; “ Seo Gomis, num xeguei pucausa de que vendi
- sociológicas: onde verificam-se as diversas classes sociais maiz deis miu em Beraba. To indo pra Brazilha.”
impondo traços lingüísticos diferentes; No outro:
- contextuais: aquela, onde o momento da fala pode determinar o “Seo Gomis, Brazilha fexo 20 miu. Vo pra
nível de linguagem a ser utilizado. Frolinoplis e de lá pra Sum Paulo no vinháo das cete

As Mariposa hora.”
E assim foi o mês inteiro.
O gerente, muito preocupado com a imagem da
As mariposa quando chega o frio empresa, levou ao presidente as mensagens que
Fica dando vorta em vorta da lampida pra si isquentá recebeu do vendedor. O presidente, um homem muito
Elas roda, roda, roda, roda, dispois se senta em cima do prato da preocupado com o desenvolvimento da empresa e com a
lampida pra discansá. Eu sou a lãmpida e as muié é as mariposa cultura dos funcionários, escutou atentamente o gerente
Que fica dando vorta em vorta de mim todas as noites, só pra mi e disse:
beija — Deixa comigo que eu tomarei as providências
- Boa noite, lâmpida! necessárias.
- Boa noite, mariposa! E tomou. Redigiu de próprio punho um aviso que
- Permita-me oscular-lhe as alfacias? afixou no mural da empresa, juntamente com os faxes do
- pois não, mas rápido porque daqui a pouco eles mi apaga. vendedor:
(Adonirah barbosa)
“A parti de oje nois tudo vamo fazê feito o
As variedades estilísticas: Registros Nirso. Si priocupá menos em iscrevê serto mod a
vende maiz.
Por registros lingüísticos ou variações de estilos, entendem- Acinado,O Prezidenti"
se variações no enunciado lingüísticos que estão relacionados aos Autoria desconhecida, set. 2001.
diferentes graus de formalidade do contexto do uso da língua. O O preconceito lingüístico é uma forma de
maior ou menor conhecimento e proximidade entre os falantes discriminação enfaticamente combatida, pois, do ponto
determina o uso de registros mais ou menos formal. de vista estritamente lingüístico, não há nas variedades
Grosso modo, podemos delinear três principais níveis ou lingüísticas nada que permita considerá-las boas ou
registros de linguagem: a linguagem culta (ou variante-padrão), a ruins, melhores ou piores, feias ou bonitas, permitivas ou
linguagem familiar (ou coloquial) e a linguagem popular. elaboradas, e assim por diante. Mesmo porque, para que
A linguagem culta é utilizada pelas classes intelectuais da a comunicação efetivamente exista entre outros
sociedade. É a variante de maior prestígio e aquela ensinada nas requisitos, é necessária a escolha adequada do nível de
escolas. Sua sintaxe é mais complexa, seu vocabulário mais amplo e linguagem a ser utilizado.
há, nela, uma absoluta obediência à gramática e à língua dos
escritores clássicos. É a linguagem utilizada pelos meios de Leia:
comunicação de massa em geral, nas suas formas oral e escrita.
Desenvolvendo-se livre e indisciplinadamente, não raro isola-se em — Que flor bonita! Me dá ela?
falares típicos regionais e em gírias. O Modernismo efetivou a — Se me disseres: Dá-ma?, eu dou-ta.
apologia da linguagem cotidiana como o melhor veículo de — Não poderei satisfazê-la:
expressão literária, por sua velocidade, espontaneidade, dinamismo, Sentir-me-ia uma horrenda douta.
condenando a linguagem culta, classificando-a como "filha do (Manuel Bandeira)
decrépito dogmatismo". WWW.PORTALIMPACTO.COM.BR
As variedades regionais e sociais. — E ela?
— Não gostou, e rompemos. Nossa ligação teve fim celíaco. E
Um dos aspectos mais conhecidos da variação você com a Isadora?
lingüística é a diferenciação que caracteriza os chamados — Mal, meu caro. Sabia que ela é hipnóbata? E o piro de tudo:
dialetos ou variedades regionais. As variedades faladas nos com loxodromismo. De noite é aquela confusão, ela volta com acrodinia,
estados do Nordeste são diferentes daquelas faladas nos com meralgia ou com podalgia.
estados do Sul, e, no interior dessas regiões geográficas, podem — Que lástima.
também ser observadas diferenças entre os estados e mesmo — Depois, a Isadora se distingue por uma total aprosexia. Não
entre regiões e cidades dos estados. adianta falar com ela que tome cuidado, que se proteja. Sua
Poderíamos definir o regionalismo como o meio desatenção é mesmo esplâncnica.
peculiar de expressão de uma região, refletindo os costumes do — Caso sério.
povo que a habita. — Pois é, Mas vamos mudar de assunto.
Refletem-se muito frequentemente, na literatura do (...)
Brasil, nas obras dos escritores regionalistas (Jorge Amado, O outro tipo de língua grupal é a gíria. Assim como o jargão,
Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Afonso existem tantas gírias quanto forem os grupos que as utilizam: gíria de
Arinos de Melo Franco e outros). jovens, dos policiais dos jornalistas etc. a gíria grosseira, recebe o nome
De tão obscuro para o leitor comum, o vocabulário de calão.
regionalista, empregado por certos escritores, necessita até de Gíria.
notas explicativas para se lhes apreender o sentido.
Além dessas distinções básicas, é necessário falar-se Vejamos exemplos desta linguagem pitoresca, com a
nas línguas regional e grupal (o jargão e a gíria). respectiva tradução.
1. Ele tem uma urucubaca danada com justa.
(Ele tem muito azar coma a justiça/ ou polícia)
2. Quando ia aliviar um otário um tira pegou ele no flagra.
(Quando ia furtar um tolo (incauto), um policial surpreendeu-o
“ Sabe qual é o meu sonho, cara? Quer saber mesmo em flagrante.)
qual é o meu grande sonho? 3. Trabalhava com penosa e foi em cana
Eu queria ter um celular, cara. Um celular: esses telefones (Roubava galinhas e foi preso)
que o cara leva na mão, e dá para a gente falar de qualquer lugar, O conhecimento da gíria é necessário quer a quem escreve,
da rua, do bar, do banheiro, de onde você quiser. É uma maravilha, quer a quem lê. “Que escreve não pode representar um carroceiro ou
cara. Não existe nada igual. É o meu sonho. um simples homem do povo falando como um marquês”. Os homens
Você vai dizer: ah, mas é um sonho miúdo, insignificante. têm a linguagem do seu meio, da sua profissão. Diz-me como falas, dir-
Você vai dizer que sou modesto, que vôo baixo. Outros querem te-ei o lugar que ocupas na sociedade.
carrões importados, roupas caras, apartamento de cobertura – e eu
O texto a seguir foi escrito e interpretado pelo ator dramaturgo
quero só um telefone?!
Plínio Marcos. Trata-se de uma transcrição de um vídeo exibido na
Pois é só que eu quero: um telefone celular. Aquilo é o
Casa de Detenção, em São Paulo.
máximo, cara. Aquilo te dá um status fora de série. Não sou só eu
que acha isso, não: eu tinha um amigo que roubou um celular da “Aqui é bandido: Plínio Marcos! Atenção, malandrage! Eu num
loja só para andar com ele debaixo do braço. A coisa não falava, vô te pedir nada, vô te dá um alô! Te liga aí: Aids é uma praga que rói
não tocava – mas dava a ele uma sensação do peru. Celular, cara, até os mais fortes e rói devagarinho. Deixa o corpo sem defesa contra a
é outro papo. Não é orelhão, não é telefone comum. É celular. doença. Quem pegá essa praga está ralado de verde e amarelo, do
Coisa de gente fina. primeiro ao quinto, e sem vaselina. Num tem dotô que dê jeito, nem
Só que custa um dinheirão, e de onde eu ia descolar reza brava, nem choro, nem vela, nem ai, Jesus. Pegou Aids, foi pro
aquela grana? Porque eu queria fazer a coisa legal, registrar o brejo! Agora sente o aroma da perpétua; Aids passa pelo esperma e
aparelho, tudo certinho. Essas coisas custam caro. Não havia outro pelo sangue, entendeu?Pelo esperma e pelo sangue! (pausa)
jeito: eu tinha que seqüestrar um cara. Eu num tô dando esse alô pra te assombrá, então se toca!
E aí a gente fez o seqüestro, tudo direitinho, tudo bem Não é porque tu tá na tranca que virou anjo. Muito pelo contrário, cana
planejado. E para o sujeito não incomodar, nós o colocamos no dura deixa o cara ruim! Mas é preciso que cada um se cuide, ninguém
porta-malas. pode valê pra ninguém nesse negócio de Aids! Então já viu: transa só
Fomos presos, cara. E advinha por quê? Porque o cara de acordo com o parceiro, e de camisinha! (pausa)
tinha um celular. De dentro do porta-malas ele pediu socorro. E nos Agora, tu aí que é metido a esculachá os outros, metido a
pagaram direitinho. ganha o companheiro na força bruta, na congestal! Pára com isso, tu vái
Se estou zangado? Não estou zangado, não. É verdade acabá empesteado! Aids num toma conhecimento de macheza, pega
que fiquei numa ruim, mas o que aconteceu provou que eu tinha pra lá e pega pra cá, pega em home, pega em bicha, pega em mulhé,
razão: celular é outro papo. É a comunicação do futuro, cara. Um pega em roçadeira! Pra essa peste num tem bom! Quem bobeia fica
dia ainda vou ter um, andar com ele debaixo do braço e falar com premiado. E fica um tempão sem sabê. Daí, o mais malandro, no dia da
meus amigos de casa, da rua, do banheiro, sou até capaz de me visita, recebe mamão com açúcar da família e manda pra casa o [sic]
meter num porta-malas e ligar para alguém, para ver como a coisa Aids! E num é isto que tu quê, né, vago mestre? Então te cuida! Sexo,
funciona. só com camisinha, (pausa)
Celular é meu sonho, cara” Quem descobre que pegô a doença se sente no prejuízo e
(Moacyr Sciliar) quê ir à forra, passando prós outros, (pausa) Sexo, só com camisinha!
A língua grupal é hermética, porque pertence a grupos Num tem escolha, transa, só com camisinha.
fechados: existem tantas quantos forem os grupos. A gíria ou Quanto a tu, mais chegado ao pico, eu tô sabendo que
jargão é uma forma de linguagem baseada em um vocabulário ninguém corta o vício só por ordem da chefia. Mas escuta bem, vago
especialmente criado por um determinado grupo ou categoria social mestre, a seringa é o canal pro [sic] Aids. No desespero, tu não se
com o objetivo de servir de emblema para os demais membros do toca, num vê, num qué nem sabê que, às vezes, a seringa vem até
grupo, distinguindo-os dos demais falantes da língua. com um pingo de sangue, e tu mete ela direta em ti. As vezes, ela
O jargão é um dos tipos de língua grupal. É uma espécie parece que vem limpona, e vem com a praga! E tu, na afobação, mete
de gíria profissional, daí falar-se em “economês”. “sociloguês” etc, ela direto na veia. Aí tu dança. Tu, que se diz mais tu, mas que diz
Carlos Drummond de Andrade faz uma saborosa sátira ao jargão que num pode aguentá a tranca sem pico, se cuida. Quem gosta de tu
na seguinte crônica. é tu mesmo, (pausa) E a farinha que tu cheira, e a erva que tu barrufa
enfraquece o corpo e deixa tu chué da cabeça e dos peitos. E aí tu fica
I – Conversas na fila: moleza pro [sic] Aids! Mas o pico é o canal direto pra essa praga que
Conversavam na fila do cinema: está aí. Então, malandro, se cobre! Quem gosta de tu é tu mesmo. A
— e o seu caso com a Belmira? saúde é como a liberdade. A gente só dá valor pra ela quando ela já
— Encerrado, depois de um incidente onfático. Observei- era!"
lhe que não ficava bem ir á praia de tanga, quando ainda emergia (Vídeo exibido na Casa de Detenção, São Paulo) Créditos: Agência:
daquele problema de cirsônfalo. Adag (1988). Realização: TV Cultura / São Paulo. Duração: 2 minutos e
WWW.PORTALIMPACTO.COM.BR 48 segundos.

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