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UNIVERSIDADE REGIONAL INTEGRADA DO ALTO URUGUAI E DAS

MISSÕES - CAMPUS DE SÃO LUIZ GONZAGA


CURSO DE DIREITO

DRAZIELI OLIVEIRA SODRÉ


FABIO ALEXANDRE DA ROSA SALBEGO
MILENA SOARES MALLMANN
VINICIUS CORREA ECKERLEBEN

PRINCÍPIOS DA DISPONIBILIDADE E DA INDISPONIBILIDADE

São Luz Gonzaga - RS


2018
1. CONCEITO DOS PRINCÍPIOS DA DISPONIBILIDADE E DA
INDISPONIBILIDADE NA OPINIÃO DOS DOUTRINADORES

Para melhor descrever o conceito inicial do princípio da Disponibilidade


e da indisponibilidade, nada mais que justo do que citar o que diz no livro Teoria
Geral do Processo:
Chama-se poder dispositivo a liberdade que as pessoas têm de
exercer ou não seus direitos. Em direito processual tal poder é
configurado pela possibilidade de apresentar ou não sua pretenção
em juízo, bem como de apresenta-la da maneira que melhor lhes
aprouver e renunciar a ela (desistir da ação) ou a certas situações
p r o c e s s u a i s . Tr a t a - s e d o p r i n c í p i o d a d i s p o n i b i l i d a d e
processual. (CINTRA; GRINOVER; DINAMARCO, 2010, p. 66)
Apesar de ser um princípio quase que absoluto no processo civil ainda
assim ele está suscetível a ter limitações que ocorrem quando o interesse público
torna-se maior do que o interesse privado, sendo não só um dever mas uma
obrigação entrar com uma ação. Portanto, a exceção do princípio da Disponibilidade
é justamente o seu oposto: O princípio da Indisponibilidade, ou também conhecido
por princípio da Obrigatoriedade. Em relação a isso Cintra (2010, p. 66) diz que “O
crime é uma lesão irreparável ao interesse coletivo e a pena é realmente reclamada,
para a restauração da ordem jurídica violada”.
O princípio da Indisponibilidade se mostra na prática através de ações
em que o Ministério Público atua como parte sendo que uma vez instaurado o
inquérito policial não é possível seu arquivamento, bem como algumas outras
limitações também citadas por Cintra em seu livro:
[…] a) Nos casos de ação penal privada o jus accusationis fica
confiado ao ofendido ou a quem legalmente o represente,
instaurando-se o processo somente se estes o desejarem; b) nos
crimes de ação pública condicionada à representação, os órgão
públicos ficam condicionados à manifestação da vontade da vítima ou
de seu representante legal; c) assim também ocorre nos crimes cuja
a ação fica subordinada a requisição do ministério da justiça; d) nas
infrações penais de menor potencial ofensivo, de ação condicionada
a representação, a transação civil acarreta a extinção da punibilidade
penal; e) o Ministério Público, ao invés de oferecer denuncia, pode
propor a imediata aplicação da pena alternativa (restritiva de direitos
ou multa) quando não houver transação civil ou a ação for pública
incondicionada; f) nos crimes de média gravidade o Ministério Público
pode propor a suspensão condicional do processo. (CINTRA;
GRINOVER; DINAMARCO, 2010, p. 67)
Apesar de haver essas exceções citadas, ainda assim, elas não
derrogam a regra geral de indisponibilidade do processo criminal. E tendo em vista o
Art. 42 do Código de Processo Penal Brasileiro onde diz que o Ministério Público
não poderá desistir da ação penal e o Art. 576 também do Código de Processo
Penal dizer que o Ministério Público não poderá desistir de recurso já interposto o
Ministério Público, contudo, pode solicitar a absolvição do réu. Entretanto, não se
caracteriza como desistência da acusação e serve apenas como sugestão já que o
juiz ainda assim pode condenar o réu a sanção equivalente ao crime.
2. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA DISPONIBILIDADE ATRAVÉS DE
JURISPRUDÊNCIA DO TJRS

Para exemplificar o princípio da Disponibilidade usado será um


Acórdão (anexo ao final deste trabalho) retirado do site do TJRS.
O Acórdão em questão trata-se de um pedido de Mandato de
Segurança impetrado por um grupo de seis pessoas, onde as quais foram
inicialmente acusadas de lavagem de dinheiro e que por consequência disto vieram
a ter seus recursos bloqueados, apontando como autoridade coatora o MM. Juiz de
Direito da 2ª Vara Criminal e Infância e Juventude da Comarca de Alvorada/RS. Os 6
impetrantes solicitavam a revogação das medidas cautelares impostas, o bloqueio
dos recursos, alegando que todos os recursos bloqueados são de origem lícita e
totalmente compatível com as suas devidas rendas bem como os valores em
dinheiro sendo destinados ao pagamento dos salários e obrigações trabalhistas dos
empregados e dos fornecedores de determinada empresa. Com o andamento da
ação os pedidos de liminar e de reconsideração foram indeferidos. Após isso os
impetrantes solicitaram o pedido de desistência da ação. O Ministério Público ficou
de acordo com o pedido de desistência e com isso a ação foi de fato extinta, sem
julgamento do mérito, devido ao desinteresse das partes em continuar com o
processamento da ação.
Portanto, o acordo em questão se faz um belíssimo exemplo ao
princípio da Disponibilidade já que em seu texto oficial deixa claro a vontade dos
impetrantes ao, inicialmente, escolher entrar com o pedido do Mandato de
Segurança e ao final a escolha de desistir da ação.
Em síntese o princípio da Disponibilidade se mostra bastante
importante ao representar a liberdade individual das pessoas em decidir se é melhor
iniciar uma ação ou ignorar e seguir em frente. Diferentemente de casos mais
graves, onde há o interesse coletivo e de amplitude bem maior, a exemplos de
Homicídio doloso; Lesão corporal no âmbito da Lei Maria da Penha; Estelionato;
Furto; Roubo; Receptação… Onde, nestes casos, se aplicam o princípio da
Indisponibilidade. São nestas Ações Penais Públicas Incondicionadas que Ministério
Público tem o dever de se encarregar de iniciar o processo, realizando a denúncia e
acompanhando o andamento daquele.
REFERÊNCIAS

CINTRA, Antonio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrine; DINAMARCO,


Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 26. ed. São Paulo: Malheiros Editores,
2010.
ANEXO A - Acórdão do TJRS
PODER
JUDICIÁRIO
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA ---------- RS
----------

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
DLDT
Nº 70076623289 (Nº CNJ: 0027540-86.2018.8.21.7000)
2018/CRIME

MANDADO DE SEGURANÇA. DESISTÊNCIA DA


AÇÃO. PEDIDO HOMOLOGADO. EXTINÇÃO E
ARQUIVAMENTO DO FEITO, SEM JULGAMENTO
DO MÉRITO.

MANDADO DE SEGURANÇA OITAVA CÂMARA CRIMINAL

Nº 70076623289 (Nº CNJ: COMARCA DE ALVORADA


0027540-86.2018.8.21.7000)

J.C.F.R. IMPETRANTE
..
P.L.A.S. IMPETRANTE
..
R.M. IMPETRANTE
..
R.A.T. IMPETRANTE
..
C.C. D.L. IMPETRANTE
..
M.V.A. IMPETRANTE
..
J.2.V.C.I.J.C.A. COATOR
..

DECISÃO MONOCRÁTICA

Vistos.

Trata-se de mandado de segurança, com pedido liminar, impetrado


por J.C.F.R., P.L.A. DE S., R.M., R.A.T., C.C., I., E. E D. LTDA e M.V. DE A.,
apontando como autoridade coatora o MM. Juiz de Direito da 2ª Vara Criminal e
Infância e Juventude da Comarca de Alvorada/RS, em face da decisão proferida
nos autos da ação penal nº 003/2.18.0000003-1.

1
PODER
JUDICIÁRIO
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA ---------- RS
----------

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
DLDT
Nº 70076623289 (Nº CNJ: 0027540-86.2018.8.21.7000)
2018/CRIME

Na inicial da ação constitucional, alegam, em síntese, os impetrantes


a ausência de justa causa para a manutenção das medidas cautelares impostas,
enfatizando que não restou configurado crime antecedente à suposta lavagem de
dinheiro. Referem que os recursos bloqueados são de origem lícita, compatíveis
com a renda dos investigados e de natureza alimentar, além de valores destinados
ao pagamento dos salários e obrigações trabalhistas dos empregados e dos
fornecedores da empresa C.C., I., E. E D. LTDA. Requerem, assim, a revogação
das medidas acautelatórias e, subsidiariamente, seja determinada à autoridade
coatora que profira decisão imediata acerca dos pedidos sobrestados (pp. 04/13).

Os pedidos liminar e de reconsideração foram indeferidos (pp.


1743/1745).

Os impetrantes, por petição digitalizada juntada aos autos à p. 1762,


requereram o deferimento do pedido de desistência da ação constitucional.

O Ministério Público apresentou parecer opinando pela homologação


da desistência (pp. 1770/1772).

É o sucinto relatório.

Decido monocraticamente.

O presente mandado de segurança deve ser extinto, sem julgamento


do mérito.

Isso porque, após a sua impetração, as partes desistiram da ação,


assim aduzindo não mais subsistir interesse no seu processamento (p. 1762).

E em sendo assim, homologo o pedido de desistência da ação e


determino a extinção e arquivamento do feito, sem julgamento do mérito, com
fundamento no artigo 169, inciso XXXI, do Regimento Interno desta Corte.

Porto Alegre, 22 de março de 2018.

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PODER
JUDICIÁRIO
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA ---------- RS
----------

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
DLDT
Nº 70076623289 (Nº CNJ: 0027540-86.2018.8.21.7000)
2018/CRIME

DESEMBARGADOR DÁLVIO LEITE DIAS TEIXEIRA,


Relator.