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30/09/2019 · Processo Judicial Eletrônico - 1º Grau

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PIAUÍ


 2ª VARA CÍVEL DA COMARCA DE PARNAÍBA 
Avenida Dezenove de Outubro, 3495, Conselheiro Alberto Silva, PARNAÍBA - PI - CEP:
64209-060

PROCESSO Nº: 0803408-31.2019.8.18.0031


CLASSE: PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL (7)
ASSUNTO(S): [Defeito, nulidade ou anulação]
AUTOR: MARIA NILZA SILVA DA ROCHA
RÉU: CICERO SANTOS GUEDES

DECISÃO

Vistos,

Trata-se de AÇÃO ANULATÓRIA DE ATO JURÍDICO proposta por


MARIA NILZA DA SILVA ROCHA em face de CÍCERO DOS SANTOS GUEDES,
ambos já devidamente qualificados no processo retro, em que se requer a
concessão do pedido liminar e para alega o seguinte:
Em julho de 2005, o requerido informando ser empresário e investidor
iniciou as tratativas no sentido montar um negócio no terreno em comento e no ano
de 2014, celebrou contrato de parceria para a construção de um loteamento em
parte da propriedade da autora onde o requerido se comprometia a fazer toda
documentação necessária para implantação do empreendimento tais como planta
de localização, desmembramento e parcelamento do solo, bem como realizar as
obras de infraestrutura, tais como arruamento, pavimentação, instalação de água e
luz, na condição de receber 50% dos lotes após a conclusão do loteamento que foi
denominado “Conselheiro Alberto Silva”.
A autora celebrou contrato de parceria com o requerido que pediu
em sua garantia uma procuração que lhe permitisse vender os lotes que lhe
coubessem na partilha tão logo este estivesse o loteamento pronto. Ocorre que o
requerido não cumpriu o acordo, fez apenas parte do contratado e agora está
vendendo os lotes, transferindo parte do terreno para si e para outrem sem
qualquer pudor, fazendo vendas fictícias com a empresa UNIVERSO da qual é
proprietário como ficou amplamente comprovado na Justiça do Trabalho cuja
sentença encontra-se em anexo, além de outras transferências ilegais, fazendo os
lotes de moeda de troca por todo tipo de mercadoria e bens, assim como ofereceu
todo o loteamento a venda para uma empresa sem ter estes poderes na
procuração.
Como garantia de seu direito o requerido compeliu a autora a assinar
uma procuração determinando quais e quantos seriam os seus lotes na
participação, sendo tal documento lavrado no Cartório de notas de nossa cidade e
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requereu o prazo de 5 anos para a implantação de todo o loteamento, afirmando
ainda que caso ocorresse qualquer coisa a ele a empresa de seu filho - UNIVERSO
assumiria a obra e que seria respeitado o contrato mesmo com prejuízo.
Assim o loteamento aprovado pela prefeitura contava com 120
quadras, contando cada quadra com 20 lotes. Foi iniciado com o desmatamento,
sendo desmembrado da matrícula primitiva e originado a matrícula 25.218. Ficou
pactuado que o requerido só teria direito aos lotes quando da conclusão do
loteamento, sendo esta uma cláusula si ne qua non.
Iniciadas as obras de infraestrutura o requerido conseguiu junto à
Prefeitura Municipal de Parnaíba Alvará para a venda dos lotes tendo em vista que
sua capacidade econômica para a implantação da benfeitoria estava prejudicada e
iniciou a venda dos lotes no sentido de concluir o empreendimento, onde foi
entregue pelo requerido a tabela de preços dos lotes e informando que a suposta
empresa de seu filho – UNIVERSO CONSTRUÇÕES E EMPREENDIMENTOS
LTDA – passaria a gerir sua carteira de vendas; sob a alegação de que o resultado
das vendas seriam revertidas para o loteamento a autora concordou.
Ocorre que já no ano de 2017 foi observado a venda de vários lotes
por parte do requerido que não estavam descritos na procuração (9 lotes), sendo
que o Lote 17 da Quadra 41 foi transferido pelo cartório de registro de imóveis
desta comarca sem a autorização da autora e sem estar descrito na procuração o
que gerou mal-estar entre a autora e o requerido, sendo contornado por este
último com uma cessão de outros lotes na quadra 38; nesta situação o requerido
apresenta à autora a nova tabela de preços dos lotes informando que se ela
quisesse poderia vender sua parte já que a dele teria a finalidade definida, ou seja,
concluir a infraestrutura do loteamento.
Após este episódio, o requerido não mais investiu na conclusão do
loteamento, passando somente a vender os lotes de qualquer forma, inclusive
fazendo troca de lotes por serviços de desmatamento, terraplanagem, meio-fio,
postes e areia amarela.
Então chega ao conhecimento da autora que o requerido estava
fazendo outros negócios com os lotes, utilizando os mesmos como moeda de troca,
troca de lotes do loteamento por outra área na cidade de Cocal, Buriti dos Lopes e
Cajueiro da Praia, venda dos lotes por metade do valor da tabela apresentada por
ele, aquisição de um hospital em Parnaíba com os lotes em garantia do pagamento
e passa a não mais receber a autora para prestar esclarecimento sobre as obras ou
das vendas, se escusa a receber o representante da autora e ainda promove a
divulgação na região que o loteamento Conselheiro Alberto Silva lhe pertencia
completamente.
Observa-se que vários lotes já foram transferidos e nas averbações do
terreno que se encontra anexa em especial a Averbação AV11/25.218, na qual
consta uma averbação de uma área dentro do loteamento de 43 hectares, sem que
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conste nesta averbação a forma de aquisição e tão pouco se houve transmissão,
quando a área disponível dos lotes é de pouco mais de 50 hectares, está clara os
negócios ilícitos cometidos pelo requerido, sendo imperativo que tais negócios
realizados ilicitamente sob o manto de uma procuração outorgada como garantia de
um negócio sejam anulados.
Também descobre a autora que o requerido, à revelia da Lei,
demonstrando todo o dolo que lhe é peculiar, para não dizer que o requerido utiliza
de meio torpe e irregular, como se comprova no movimento AV11/25.218, faz uma
averbação de 43 hectares dentro do loteamento, matriculando tal imóvel sob o nº
33.693 em nome da autora e logo em seguida transfere esta área para a empresa
UNIVERSO, ou seja, para si já que é o dono da empresa UNIVERSO e ainda
afirma falsamente em documento público que a aquisição da área se deu por
compra da autora pelo valor de R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais), valor este
que a autora jamais recebeu.
Ocorre que no dia 28 de Agosto de 2019, a autora foi procurada, pelo
Sr. Tiago Maciel, representante de um grupo de investidores representados pela
empresa MÃE RAINHA, que atualmente está construindo um loteamento nesta
cidade, para colher informações sobre a negociação da venda de TODO O
LOTEAMENTO CONSELHEIRO ALBERTO SILVA, por parte do requerido, onde foi
informado que além de ser o proprietário do loteamento conselheiro Alberto Silva
ainda possuía uma área de 43 hectares que também faria parte do negócio e que a
autora é uma mera vendedora da área ainda não transferida ao requerido, ficando
claro o dolo do requerido e do abuso da boa-fé até então depositada nele.

Assim, a autora, que ainda não sabe a extensão dos danos causados
ao seu patrimônio, tendo em vista que o negócio celebrado entre autora e
requerido somente estaria completo quando TODO O LOTEAMENTO ESTIVESSE
CONCLUÍDO, o que não ocorre no presente caso, e tão pouco autorizou o mesmo
a fazer transferência ou venda da área remanescente, vem requerer liminarmente o
cancelamento das procurações outorgadas ao requerido e em caráter de urgência,
visando a preservação do patrimônio e o direito de terceiros que seja oficiado ao
Cartório de Registro de imóveis desta cidade que obste qualquer transferência
dominial dos terrenos do loteamento conselheiro Alberto Silva ou qualquer outra
área em nome da autora por parte do requerido.

Urgente se faz a concessão de liminar para que seja determinado ao


Cartório de notas desta comarca (Cartório Bezerra) para que cancele as
procurações outorgadas pela autora em favor do requerido, visando obstar a
venda e transferência do patrimônio da autora por parte do requerido, vez que a
atitude de causar prejuízo à autora e terceiros está mais que comprovada. No
primeiro momento, pelo fato de vender lotes pela metade do preço da tabela
apresentada por ele; no segundo, vender lotes que não estão em sua procuração e
logo em seguida oferecer toda a área da autora a venda como sua; além do fato de
não ter concluído o loteamento ainda pode prejudicar terceiros de boa-fé.
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O perigo da demora encontra-se evidenciado pelo fato do requerido
estar dilapidando o patrimônio da autora com seguidas vendas dos lotes a preços
pífios, que não estão em sua procuração, transferências ilícitas de lotes para
patrimônio de sua empresa e a tentativa de venda de toda a área a terceiros; a
fumaça do bom direito encontra-se claramente demonstrada pelo fato da conclusão
do loteamento não ter ocorrido.

Juntou documentos (ID n.º 6399243, 6399245, 6399246, 6399247,


6399249, 6399251, 6399255, 6399256, 6399257 e 6399258).

É o relatório.
DECIDO.

Concedo os benefícios da gratuidade da Justiça à parte autora.

O pedido deve ser concedido em parte.


Inicialmente, não deve haver tutela de urgência, em caráter cautelar,
para atender ao mérito da demanda. Ou melhor, com caráter satisfativo e que haja
perigo de irreversibilidade dos efeitos da decisão (art. 300, § 3º, do CPC).
No caso presente, tentando evitar danos a terceiros de boa-fé que
vierem a adquirir os imóveis objeto da lide, salutar a suspensão dos efeitos da
procuração outorgada pela requerente em face do requerido e o bloqueio judicial
das matrículas dos imóveis envolvidos.

E assim o faço me arvorando nos fundamentos abaixo.

A plausibilidade do direito da parte autora pode ser vista no contrato


de permuta de área por participação em loteamento (ID n.º 6399247, fls. 01/03), em
que foi destinada uma área de 101ha (cento e um hectares) para o loteamento
denominado Conselheiro Alberto Silva, a procuração (ID n.º 6399247, fls. 04/05) e o
alvará de licença para parcelamento do solo (ID n.º 6399247, fls. 06).
Neles pode-se perceber que o loteamento constante da cláusula 1ª do
contrato de permuta não se perfectibilizou, existe apenas o alvará de licença para
parcelamento do solo. Ou seja, estamos diante de um loteamento irregular.

Como passo inicial para a implantação de um loteamento, o


loteador deverá obter perante a Prefeitura a certidão de diretrizes para uso,
ocupação e parcelamento do solo. Em geral, a certidão de diretrizes deverá
indicar “o uso do solo, traçado dos lotes, do sistema viário, dos espaços livres e
das áreas reservadas para equipamento urbano e comunitário”, conforme
artigo 6º, da Lei n.º 6.766/79. 
A partir das diretrizes expedidas pela Municipalidade, o loteador
deverá apresentar o projeto de implantação do loteamento contendo os desenhos,
o memorial descritivo e o cronograma de execução de obras com duração máxima
de 4 anos, sob pena de caducidade, conforme artigo 9º e parágrafo primeiro, do
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artigo 12, ambos da Lei n.º 6.766/79. O projeto deverá ser instruído com a cópia
atualizada da matrícula do imóvel, da certidão negativa de tributos municipais e do
instrumento de garantia à Municipalidade, e de eventuais outros documentos
solicitados caso a caso pela Prefeitura.

A propósito do tema, o parcelamento do solo urbano é importante


mecanismo de política urbana para promoção do adequado uso social do solo, o
qual, nos termos da Lei n.º 6.766/1979, poder ser realizado através do loteamento
consistente na subdivisão da gleba em lotes mediante a abertura de novas vias,
de logradouros públicos ou prolongamento, modificação ou ampliação das vias
existentes (art. 2º, § 1º), ou por meio de desmembramento aproveita-se do
sistema viário já existente (art. 2º, § 2º).

A norma em discussão traz uma série de procedimentos a serem


seguidos pelo loteador para aprovação do loteamento perante à Prefeitura
Municipal, e posterior registro imobiliário junto ao Registro de Imóveis competente,
a fim de lhe conferir legalidade e possibilitar a venda dos lotes à terceiros. Não
tendo o loteador nem mesmo requisitado a aprovação do loteamento perante a
Prefeitura Municipal e iniciado mesmo assim a urbanização deste estar-se-á
diante do chamado loteamento clandestino.

Caso tenha dado conhecimento a Prefeitura Municipal do interesse


em realizar o loteamento solicitando sua aprovação, mas não tenha atendidos os
requisitos para sua aprovação ou até mesmo não realizada o registro do
loteamento perante o Registro de Imóveis e executado as obras conforme
aprovação municipal, o mesmo pode ser definido com loteamento irregular.

A diferenciação quanto a situação legal do loteamento é assim


conceituada por NOGUEIRA:

“O parcelamento é clandestino quando o Poder Público


competente não tem conhecimento de sua existência, ou
quando, levado a seu conhecimento não adquire a aprovação,
sendo consequência de indeferimento do pedido ou da própria
ausência dessa solicitação. Ressaltamos que no primeiro caso
houve o pedido, mas o empreendedor não preencheu os
requisitos legais, ensejando a não aprovação do loteamento;
no segundo caso não ocorreu o pedido, mas em ambos
ocorreram a urbanização. [...]o parcelamento torna-se irregular
na medida em que o Poder Público competente o aprova,
podendo ser registrado ou não, mas o parcelador deixa de
executá-lo ou o executa em desconformidade com o ato de
aprovação ou com a legislação vigente, ou ainda, após a
aprovação e execução regular, não o registra.” (NOGUEIRA,
Wagner Rodolfo Faria. Parcelamento do solo. In: Âmbito
Jurídico, Rio Grande, VI, n. 14, ago 2003. Disponível em:
<http://www.ambito-jurídico.com.br/site/index.php?
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n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=3866&g...
(http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?
n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=3866%3E). Acesso em
jan 2019.)

Seja qual for o caso, se clandestino ou irregular, as vendas dos lotes


são vedadas legalmente. A lei de parcelamento do solo urbano já alerta em seu art.
37, que “É vedado vender ou prometer vender parcela de loteamento ou
desmembramento não registrado”.
No mesmo diploma legal, há previsão que aludida prática também
constitui crime contra a Administração Pública, punido com penas que variam de 1
a 4 anos, em sua forma simples, e se praticado na forma qualificada podendo variar
de 1 a 5 anos, in verbis:

“Art. 50. Constitui crime contra a Administração Pública.

[...]

III - fazer ou veicular em proposta, contrato, prospecto ou


comunicação ao público ou a interessados, afirmação falsa
sobre a legalidade de loteamento ou desmembramento do solo
para fins urbanos, ou ocultar fraudulentamente fato a ele
relativo.

Pena: Reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa de 5


(cinco) a 50 (cinqüenta) vezes o maior salário mínimo vigente
no País.

Parágrafo único - O crime definido neste artigo é qualificado,


se cometido.

I - por meio de venda, promessa de venda, reserva de lote ou


quaisquer outros instrumentos que manifestem a intenção de
vender lote em loteamento ou desmembramento não
registrado no Registro de Imóveis competente.

[...]

Pena: Reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, e multa de 10 (dez)


a 100 (cem) vezes o maior salário mínimo vigente no País.”

Fica claro, adiante, que aquele que de qualquer modo concorrer para
a prática dos crimes acima definidos estão, de igual modo, sujeito as penalidades
previstas, conforme prevê o art. 51:

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“Art. 51. Quem, de qualquer modo, concorra para a prática dos
crimes previstos no artigo anterior desta Lei incide nas penas a estes
cominadas, considerados em especial os atos praticados na qualidade de
mandatário de loteador, diretor ou gerente de sociedade.”

Dispõe a norma que aprovado o projeto de loteamento ou de


desmembramento, o loteador deverá submetê-lo ao registro imobiliário dentro de
180 (cento e oitenta) dias, sob pena de caducidade da aprovação. Assim, somente
após o registro do loteamento é permitida a comercialização dos lotes à terceiros.
Verificando a certidão de inteiro teor do imóvel (ID n.º 6399249),
verifica-se que os requisitos apontados pela lei acima citada não foram
observados pelo registrador do Cartório de Registro de Imóveis de Parnaíba/PI.
Observa-se que apenas consta o alvará de parcelamento do solo
urbano n.º 7.334/2015, mas não consta a aprovação do loteamento. Ou seja, a
infraestrutura mínima, com ruas pavimentadas com galerias de águas pluviais,
meio-fio e calçadas, além das redes de energia elétrica, água e esgoto à disposição
dos futuros moradores. Somente com a aprovação deste projeto é que o
loteamento começa a ganhar forma e as vendas podem ser efetuadas.
Antes disso, qualquer venda efetuada é ilegal e os participantes de
tais atos podem ser responsabilizados administrativa, civil e penalmente.

O que se verifica da certidão de inteiro teor da matrícula n.º 25.218 do


CRI de Parnaíba/PI é uma sucessão de erros em que demandaram a venda ilegal
de lotes, prejudicando a parte autora e terceiros.

Tanto isso é verdade que, uma área do loteamento correspondente a


43ha86a (quarenta e três hectares e oitenta e seis ares) foi desmembrada e
originou uma nova matrícula n.º 33.693.
Ora, pelo próprio alvará de parcelamento do solo (ID n.º 6399245), o
loteamento possui 101ha76a (cento e um hectares e setenta e seis ares), destes,
14ha95a05ca (quatorze hectares, noventa e cinco ares, cinco centiares) destinados
a área verde e institucional; 27ha88a47ca (vinte e sete hectares, oitenta e oito ares,
quarenta e sete centiares) destinados a áreas de ruas e avenidas; e 58ha92a47ca
(cinquenta e oito hectares, noventa e dois ares, quarenta e sete centiares)
destinados a área dos lotes.
Nesse diapasão, assim como as demais áreas desmembradas, a
presente área foi vendida sem que a procuração (ID n.º 6399247, fls. 04/05)
autorizasse, bem como o contrato de permuta (ID n.º 6399247, fls. 01/03). Pois, ao
mandatário somente tocaria 50% (cinquenta por cento) do total dos lotes.

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O perigo do dano é patente na demanda, tanto à parte autora como a
terceiros de boa-fé, a primeira em ver seu patrimônio dilapidado, os segundos, por
verem anulados seus contratos de compra e venda, ante a ilegalidade do
loteamento.

Dito isso, para a concessão da tutela provisória de urgência, de


acordo com o artigo 300 do Novo Código de Processo Civil, faz-se necessária a
congruência de dois requisitos: a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o
risco ao resultado útil do processo.
A propósito,

“A concessão da ‘tutela de urgência’ pressupõe: (a)


probabilidade do direito e (b) perigo de dano ou o risco ao
resultado útil do processo (art. 300, caput). São expressões
redacionais do que é amplamente consagrado nas expressões
latinas fumus boni iuris e periculum in mora, respectivamente.
(…) A ‘tutela de urgência’ pode ser concedida liminarmente, isto
é, no início do processo e sem a oitiva prévia da parte contrária,
ou após justificação prévia (art. 300, § 2º). A justificação prévia,
cabe anotar, é alternativa àqueles casos em que os
pressupostos para a concessão da tutela de urgência não são
passíveis de demonstração com a própria petição inicial (prova
documental, ata notarial ou estudo técnico), sendo o caso, por
exemplo, de ouvir testemunhas ou o próprio requerente da
medida, o que merece ser justificado na própria petição em que
é formulado o pedido. Nesta hipótese, o mais correto não é
indeferir o pedido de tutela de urgência, mas designar a referida
audiência para colheita da prova. De acordo com o § 3º, do art.
300, ‘a tutela de urgência, de natureza antecipada, não será
concedida quando houver perigo de irreversibilidade dos
efeitos da decisão’. Trata-se de previsão que se assemelha ao §
2º, do art. 273, do CPC, de 1973 e do ‘pressuposto negativo’
para a antecipação da tutela a que se refere aquele artigo e que
estava prevista no art. 302 do Projeto da Câmara e, felizmente,
sem par no Projeto do Senado. Deve prevalecer para o § 3º, do
art. 300, do novo CPC a vencedora interpretação que se firmou
a respeito do § 2º, do art. 273, do CPC, de 1973, única forma de
contornar o reconhecimento de sua inconstitucionalidade
substancial: a vedação da concessão da tutela de urgência nos
casos de irreversibilidade não deve prevalecer nos casos em
que o dano ou o risco que se quer evitar ou minimizar é
qualitativamente mais importante para o requerente do que para
o requerido. Subsiste, pois, implícito ao sistema – porque isso
decorre do ‘modelo constitucional’ – o chamado ‘princípio da
proporcionalidade’, a afastar o rigor literal desejado pela nova
regra.”. (Bueno, Cassio Scarpinella – Novo Código de Processo
Civil anotado/Cassio Scarpinella Bueno. São Paulo: Saraiva,
2015. p. 219).
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De acordo com o art. 214, § 3º, da Lei de Registros Público, se o Juiz


entender que a superveniência de novos registros poderá causar danos de difícil
reparação poderá determinar de ofício, a qualquer momento, ainda que sem oitiva
das partes, o bloqueio da matrícula do imóvel.
E mais, o § 4º, do mesmo dispositivo, preceitua o seguinte:
“Bloqueada a matrícula, o oficial não poderá mais nela praticar qualquer ato,
salvo com autorização judicial, permitindo-se, todavia, aos interessados a
prenotação de seus títulos, que ficarão com o prazo prorrogado até a solução
do bloqueio”.
Concessa maxima data venia, o imóvel vem sendo vendido a
terceiros, até prova em contrário, de boa-fé. O que já, de pronto, determina o
bloqueio da matrícula, senão vejamos:

“AGRAVO DE INSTRUMENTO - PRELIMINAR DE DESRESPEITO


AO ART. 526 DO CPC - AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO -
NECESSIDADE FACE A DISPOSIÇÃO INSERTA NO § 1º DO ART.
526 DO CPC - REJEIÇÃO - BLOQUEIO DE MATRÍCULA DE
IMÓVEL - JUSTO RECEIO - PODER DE CAUTELA - PERIGO
INVERSO – RECURSO CONHECIDO E IMPROVIDO - DECISÃO
MANTIDA. 1. Determina o art. 526 do CPC que o Agravante
requererá juntada, aos autos do processo de cópia da petição
do agravo de instrumento e do comprovante de sua
interposição, assim como a relação dos documentos que
instruíram o recurso e que tal desrespeito, segundo o § 1º do
referido dispositivo, quando arguido e provado pelo Agravante
determinará o não conhecimento do recurso; 2. Ocorre que
embora arguido em preliminar o desrespeito ao art. 526 do CPC,
caso não provado, inafastável será a rejeição desta; 3.
Preliminar rejeitada; 4. Havendo justo receio quanto a venda do
imóvel latente é necessidade de bloqueio da matrícula do
referido bem; 5. O poder geral de cautela autoriza o Magistrado
a bloquear bens com o fito de evitar prejuízos as partes e a
terceiros de boa-fé; 6. Presente o perigo inverso e sendo
razoável a decisão recorrida, desautorizada está a reforma; 7.
Recurso conhecido e improvido; 8. Decisão mantida na
integralidade” (Agravo de Instrumento n.º 2011.006448-6, 2ª
Câmara Cível do TJAM, Rel. Yedo Simões de Oliveira. unânime,
DJe 19.04.2012).

Impõe-se, portanto, o bloqueio da matrícula n.º 25.218, Livro n.º 2-JD,


fls. 01, do CRI de Parnaíba/PI, bem como todas as matrículas e registros oriundos
da mesma, pois tal medida visa resguardar possíveis prejuízos decorrentes de

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novos registros, sem que, contudo, impeça aos interessados a prenotação de seus
títulos para ressalvar possíveis direitos, isso nos termos do art. 214, §§ 3º e 4º da
Lei n.º 6.015/1973.
A respeito, colaciono os seguintes julgados:

“AGRAVO DE INSTRUMENTO. BLOQUEIO MATRÍCULA IMÓVEL. AÇÃO


DE NULIDADE DE REGISTRO. MEDIDA ACAUTELATÓRIA. 1. O bloqueio
realizado na matrícula do imóvel objeto de ação de nulidade de
registro visa resguardar possíveis prejuízos a terceiros de boa-fé,
impendido a realização de quaisquer acordos/negócios com o
imóvel. 2. Até que se resolva as questões atinentes a eventuais
irregularidades de registro, o gravame deve ser mantido (Agravo de
Instrumento Cível nº 0404097-58.2011.8.13.0000, 7ª Câmara Cível do
TJMG, Rel. Oliveira Firmo. j. 07.02.2012, unânime, Publ. 09.03.2012). 

“AGRAVO DE INSTRUMENTO - TUTELA ANTECIPADA –


REQUISITOS PRESENTES - FRAUDE À EXECUÇÃO - BLOQUEIO
DE MATRÍCULA DO IMÓVEL. Diante da existência de prova
inequívoca capaz de convencer sobre a verossimilhança da
alegação, bem como da possibilidade de dano irreparável ou de
difícil reparação, deve ser mantida a tutela antecipada concedida.
Evidenciada a relevância do pedido com base em fundados
indícios de atos fraudatórios aos direitos da universalidade dos
credores, aliado à imperiosa necessidade de assegurar o
cumprimento da obrigação que ao final vier a ser proferida
responsabilizando o devedor, admite-se a indisponibilidade de
bens do réu (Agravo de Instrumento n.º 0057587-60.2011.8.13.0000,
10ª Câmara Cível do TJMG, Rel. Pereira da Silva. j. 24.01.2012,
unânime, Publ. 03.02.2012).

Ante o exposto, DEFIRO, PARCIALMENTE, A TUTELA DE


URGÊNCIA CAUTELAR, e DETERMINO o BLOQUEIO da matrícula n.º 25.218,
Livro n.º 2-JD, fls. 01, do CRI de Parnaíba/PI, bem como todas as matrículas e
registros oriundos da mesma, suspendendo provisoriamente novos registros e
averbações, até o julgamento do mérito da presente ação, permitindo-se, todavia,
aos interessados a prenotação de seus títulos, que ficarão com o prazo prorrogado
até a solução do bloqueio.
Expeça-se mandado de bloqueio, para cumprimento imediato,
devendo o Oficial do Registro prestar informações acerca dos fatos narrados na
inicial e encaminhar, no prazo de 10 (dez) dias, cópias dos documentos que
embasaram a abertura das respectivas matrículas, bem como todas as matrículas e
registros oriundos da matrículas de n.º 25.218, Livro n.º 2-JD, fls. 01, bem como
todas as matrículas e registros oriundos da mesma, sob pena de multa pessoal no
valor de R$ 500,00 (quinhentos reais) por dia, contados da ciência da presente
decisão.

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30/09/2019 · Processo Judicial Eletrônico - 1º Grau

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PIAUÍ


 2ª VARA CÍVEL DA COMARCA DE PARNAÍBA 
Avenida Dezenove de Outubro, 3495, Conselheiro Alberto Silva, PARNAÍBA - PI - CEP:
64209-060
Expeça-se mandado requisitando ao Cartório de Registro de Imóveis
de Parnaíba/PI as matrículas/registros decorrentes da matrícula n.º 25.218, Livro n.º
2-JD, fls. 01, do CRI de Parnaíba/PI, no prazo de 10 (dez) dias, sob pena de crime
de desobediência.

Oficie-se o Banco Central do Brasil, enviando-se cópia da presente


decisão, através de seu representante legal, para que faça a devida comunicação
às instituições financeiras que operacionalizaram e viabilizaram valores com base
nos referidos registros públicos oriundos da matrícula n.º 25.218, Livro n.º 2-JD, fls.
01, do CRI de Parnaíba/PI, bem como todas as matrículas e registros oriundos da
mesma (cópias da decisão e do processo).
Oficie-se o Ministério Público, dando ciência da presente decisão e
fornecendo as cópias requeridas ulteriormente, para que se apure eventual crime
como apontado no corpo da presente decisão.
Oficie-se à Corregedoria-Geral da Justiça do Estado do Piauí,
enviando-se cópia da presente decisão e do processo, solicitando abertura de
procedimento administrativo contra o Oficial do Registro Público da cidade de
Parnaíba/PI, bem como determinar o seu afastamento e a nomeação de
interventor.
Oficie-se a Juíza titular da 4ª Vara Cível da Comarca de Parnaíba/PI,
nos termos do artigo 37 da Lei n.º 8.935/94, para que determine abertura de
processo administrativo, assegurado amplo direito de defesa, suspendendo o
notário ou oficial de registro, até a decisão final, e designando interventor, pelo
prazo de noventa dias, prorrogável por mais trinta (arts. 35, II e § 1º e 36 e seu § 1º,
ambos da Lei n.º 8.935/94). Envie-se cópias do presente processo.

Oficie-se o Conselho Nacional de Justiça da presente decisão para


que sejam tomadas as medidas cabíveis.

Oficie-se a Associação de Notários e Registradores do Brasil


ANOREG/BR da presente decisão para que sejam tomadas as medidas cabíveis
com relação ao caso.
Cite-se o réu para, querendo, contestar a presente ação no prazo de
15 (quinze) dias, sob pena de revelia.
 

PARNAÍBA-PI, 30 de setembro de 2019.

HELIOMAR RIOS FERREIRA


Juiz(a) de Direito da 2ª Vara Cível da Comarca de Parnaíba 

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30/09/2019 · Processo Judicial Eletrônico - 1º Grau

Assinado eletronicamente por: HELIOMAR RIOS FERREIRA


30/09/2019 19:36:28
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