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Lugus – O Senhor Dos Muitos Talentos

By Alexei Kondratiev - Tradução de Leandro Luiz

De todas as divindades que sabemos terem sido adoradas no mundo Celta, o deus que os
celtas continentais chamavam de lugus e que os irlandeses chamavam de Lugh é aquele melhor
documentado e melhor compreendido. O volume completo e a variedade difundida de evidências
relacionadas a ele comprova a importância desse deus na tradição celta. As evidências incluem:
iconografia do período romano, toponímia, iconografia e epigrafia do período de ocupação
romana; depoimentos de escritores gregos e romanos; tradição literária dos celtas insulares da
idade Média; narrativas populares modernas em línguas Celtas; e práticas ritualísticas de
comunidades rurais conservadoras. Cada um desses conjuntos de evidência nos fornece apenas
informações fragmentadas, mas quando agrupadas e interpretadas à luz, uma pode esclarecer a
outra fazendo surgir uma imagem detalhada e consistente, o que pode nos direcionar, com um
alto grau de certeza, até a compreensão do que o culto a Lugh envolve.
Começando por volta de 500 AC, e seguindo à súbita expansão tanto da riqueza como do território
que ele tinha vivido na Idade do Ferro, o mundo celta entrou num período de conforto e
autoconfiança no qual tomou grande interesse pelas expressões culturais e artísticas de seus
vizinhos e pegou emprestado livremente deles, contudo sempre adaptou tais empréstimos aos
valores e gostos celtas nativos. Essa mistura de inovação e tradição deu origem ao extraordinário
estilo La Tène da arte celta, e sem dúvida teve repercussão em todos os níveis da cultura celta,
particularmente no campo da religião. Todo um vocabulário de símbolos religiosos de origem
oriental começou a ser retratado em objetos de arte durante este período, sugerindo um interesse
renovado em idéias religiosas como um resultado da exposição a tradições estrangeiras, apesar de
não parecer ter havido nenhum rompimento com a herança Indo-européia fundamental. Muitos
desses símbolos importados, assim como outros novos de origem nativa, são encontrados em
associação com um deus em particular cujo desenvolvimento súbito e difundido de sua
importância deve ter sido um dos eventos mais importantes na religião La Tène. Esse deus é
retratado com pássaros; cavalos; o motivo da árvore da vida oriental; cachorros ou lobos; e
serpentes gêmeas. Mas a imagem mais intimamente relacionada a ele é a folha ou a baga do
visco. Geralmente, as folhas do visco são mostradas dos dois lados de sua cabeça, como chifres ou
orelhas, mas algumas vezes o simbolismo é posto ao contrário, e a cabeça do deus aparece como
a baga de uma planta de visco. Durante os anos 300, a folha do visco se mistura com as
serpentes gêmeas em um novo motivo que os arqueólogos chamam de “palmette”. Essa forma,
coroando a cabeça do deus ou ligada à figura de algum animal, é comum (especialmente em
moedas) até ca. 200 BCE. Dali em diante, as serpentes gêmeas aparecem sozinhas no que ainda é
claramente um glifo representando essa divindade em particular. O fato de representações do
deus e de seus símbolos aparecerem mais freqüentemente em objetos relacionados a banquetes
aristocráticos formais (como os famosos jarros de vinho do funeral de Basse-Yutz em Rhineland)
sugere fortemente que ele era de alguma forma associado com a realeza sacra.
Pelo fato dos celtas da idade do ferro não usarem a escrita em contextos religiosos, nós não
temos nenhuma evidência do nome desse deus. A Toponímia, contudo, nos oferece uma pista
muito forte. O nome Lugudunon era dado a um número bem grande de lugares (Lyons, Laon,
Liegnitz, provavelmente Leiden, etc) da última idade do ferro. No celta arcaico, dunon significa
“forte” (a palavra tem cognatos modernos no irlandês dún “forte” e no galês din (as) “cidade”),
mas o elemento Lugu - só pode ser explicado por um nome próprio. Nós não temos nenhuma
dedicação a um deus com esse nome nesses lugares, contudo a existência de figuras mitológicas
com o nome de Lugh and Lleu na tradição literária posterior dos celtas insulares deixa claro que
uma figura similar carregando o nome Lugus deve ter existido na idade do ferro. De fato, uma
dedicação famosa da sociedade dos sapateiros de Uxama (Osma); uma outra inscrição de
Avenches na Suíça mencionando o Lugoues; e dedicações a Lugubus Arquienobus, de Orense
e Lugo na Galícia indicam que o nome Lugus era realmente conhecido. Um fato interessante é
que todos esses nomes são dados no plural, como se referissem a um grupo de divindades ao
invés de a um único deus. Nós teremos algumas sugestões mais tarde sobre o porque que esse
pode ter sido o caso.
Por que, se Lugus exercia um papel tão importante na religião celta da idade do ferro, seu nome
foi tão pouco usado no período de ocupação romana que se seguiu? A maioria dos pesquisadores
concorda que isso foi o resultado de uma interpretação romana bem sucedida, uma identificação
do deus celta com uma figura do culto romano oficial. No De Bello Gallico, VI, 17, Julius Caesar,
comentando sobre a cultura e a sociedade celta, mesmo enquanto ele espremia a vida das
mesmas, afirmou que “Mercúrio” era o deus celta mais popular, o criador de todas as artes e
habilidades, o protetor dos viajantes, e o grande patrono do comércio e da riqueza. Ele estava
seguindo a comum prática romana de forçar religiões estrangeiras a incorporar as categorias e
terminologias da religião do estado romano (na mesma passagem ele usa o nome “Minerva” para
se referir a uma deusa obviamente relacionada a Brighid irlandesa, e conhecida
independentemente por nomes celtas nativos), e nesse caso a identificação certamente se tornou
uma referência para a população celta dominada, pois dedicações e representações de
“Mercúrio” começaram a proliferar no mundo celta romanizado e conservaram suas preeminência
até o período de cristianização. Mais de 400 dedicações a Mercúrio ou um de seus títulos nativos
comuns foram encontradas: sua importância na Gália e na Grã-Bretanha excedeu qualquer coisa
que o papel de mercúrio na religião romana poderia ter assegurado. Obviamente Mercúrio era
o disfarce moderno de Lugus, e pelo fato de os dois nomes serem vistos precisamente
equivalentes o nome nativo nunca era usado nas inscrições oficiais em Latim.
Enquanto as imagens romano-celtas de Mercúrio, em geral, retratavam-no com seus bem
conhecidos atributos clássicos – o chapéu alado (remanescente da anterior coroa de visco), o
caduceu (imitando as serpentes gêmeas onipresentes da idade do ferro), a sacola de dinheiro, o
galo novo, o carneiro, a casca de tartaruga, etc. – muitas de suas representações divergiram
consideravelmente do padrão greco-romano. Algumas estátuas (e.g. a de Lezoux) o mostram não
como o costumeiro Ephebos barbeado, mas como um homem velho barbado envolto num xale
celta. Nós vamos, contudo, chamar a atenção para três dessas características puramente nativas
como particularmente importantes: sua associação com alturas; sua tendência a ter múltiplas
formas (geralmente triplas); e seu papel de protetor soberano com atributos de guerreiro.
O Mercúrio celta era claramente relacionado aos lugares altos de cada território tribal onde era
adorado. Montmartre in Paris, o Puy-de-Dôme no Auvergne, o Mont de Sène na terra do Aedui –
só para nomear alguns da lista de possíveis exemplos – eram todos originalmente montes de
Mercúrio. Santuários coroavam esses cumes, e uma ilustração convencional de Mercúrio era
retratá-lo sentado numa montanha. Os Aruerni encomendaram (a um preço fabuloso) do escultor
grego Xenodorus uma estátua gigante de mercúrio sentado no topo de sua montanha sagrada, o
Puy-de-Dôme; o que foi uma das atrações turísticas mais famosas da Gália romana. Claramente a
localização de um templo para Mercúrio num local alto foi de importância teológica.
Muitas representações do Mercúrio celta parecem ter tido a intenção de sugerir que ele era
vários em um; geralmente isso toma a forma de tricefalia, embora nem todas as figuras tricéfalas
na iconografia celta sejam necessariamente esse deus. Uma estátua de Tongres, na Bélgica, tem
três falos ao invés de três cabeças: um na coroa da cabeça e um no nariz, além do falo normal.
Esse motivo difundido de triplicidade pode, no caso de Mercúrio, indicar o poder do deus
presente em três contextos diferentes – bem provavelmente as três funções Dumezilianas 1[1],
1
[1] O nome ‘Dumezilianas’ foi adaptado por mim a esse contexto específico e se referem a Georges Dumézil
(1898-1980), filólogo e historiador das religiões, que, na tentativa de trazer à luz o fundo cultural comum aos
povos indo-europeus, propôs que tais povos representavam as funções que permitem a vida em sociedade em
como as evidências da literatura posterior e as fontes de rituais vão sugerir (isso também pode
explicar as dedicações ao plural Lugoues). Uma estátua de bronze de Mercúrio encontrada em
Bordeaux tem quatro faces ao invés de três, duas sem barba e duas barbadas. Isso poderia
simbolizar sua natureza onisciente – senhor de todas as direções – mas isso não explicaria as
diferentes aparências de suas faces. A intuição de Caitlín Matthews de que algumas divindades
celtas tinham manifestações separadas em diferentes etapas da vida – por exemplo, como criança,
jovem herói, governante maduro e como idoso renunciado – pode ser de alguma relevância aqui.
De relevância similar pode ser a relação bem estreita entre Mercúrio e o deus chifrudo hoje em
dia geralmente chamado de Cernunnos. Eles têm uma longa lista de características em comum:
a tendência a tricefalia, a associação com dinheiro, com as serpentes gêmeas, etc. Ambos são
figuras limiares, facilitando a passagem de um estado ao outro, e assim a troca de dinheiro no
comércio, assim como a transição da vida para a morte e novamente de volta. Contudo, como eles
são em geral retratados juntos na mesma cena, eles claramente não têm o propósito de serem um
idêntico ao outro. Um estudo profundo da relação entre Mercúrio e Cernunnos iria ultrapassar
muito o âmbito deste estudo, mas suspeita-se de que a resposta está num elemento já
desaparecido da mitologia gaulesa. Se comparássemos como, na literatura insular tardia, Lugh é
dado a Manannan para criação e Lleu a Gwydion – ambos versões antigas do jovem herói em
seus talentos e atributos, e que com certeza fazem um estilo Mercúrio – nós podemos chegar
bem perto de compreender a natureza da relação. Além disso, Cernunnos parece estar
exclusivamente ligado à terceira função, enquanto Mercúrio é trans-funcional e, a partir de sua
primeira aparição na iconografia pré-romana em diante, tem uma forte ligação com a primeira
função.
O último aspecto do mercúrio celta – o menos clássico de suas manifestações – é
particularmente bem demonstrado em Rhineland, e mais geralmente nas terras da expansão belga
– o último grande movimento de população na Celta pré-romana, e uma fonte de bastante
inovação religiosa. Nesse aspecto, Mercúrio está armado com uma espada, e geralmente
acompanhado por sua consorte, Rosmerta, uma deusa puramente nativa cujo nome significa “A
grande provedora” (um dos títulos locais de Mercúrio, Adsmerios “o que provê”, tem obviamente
a intenção de ser um eco dela mesma). Enquanto Rosmerta aparece com Mercúrio em várias
facetas pela Gália e Grã-Bretanha, nessas específicas representações ambos estão particularmente
ligados ao conceito de soberania. Na sociedade da idade do Ferro, a coesão de um grupo com um
chefe tribal era garantida e a ela dada um reconhecimento sagrado por meio de uma
festa/banquete comunitária (o), na qual uma bebida ritualística servida pela deusa da terra (um
papel exercido pela sacerdotisa ou pela esposa do chefe) era dividida, unindo todos os
participantes à sua terra, seu governante, e uns aos outros. Rosmerta era a divina mantenedora
da bebida da soberania, enquanto o Mercúrio de espada em punho era o arquétipo de todos os
governantes, o protetor com características do Outro mundo do rei terreno.
Este pouco de teologia teve um impacto muito importante nos vizinhos germânicos dos celtas.
Por volta de 100 BC, os alemães do oeste, impressionados pelo esplendor cultural dos Celtas La
Tène, se converteram totalmente à religião celta e adotaram muitos aspectos da cultura e da
organização social celta, a ponto de darem a seus filhos nomes celtas. Um dos empréstimos
institucionais mais importantes deste período foi a “legitimação” de um chefe-guerreiro através de
um ritual de soberania, e foi necessário também o empréstimo de deidades celtas para
presidirem tal cerimônia. Muitos pesquisadores preferiram enxergar as muitas semelhanças entre
Lugus / Mercúrio e o germânico Wodan como sobreviventes à parte de um protótipo Indo-
europeu; mas alguns hoje em dia não vêem razão para acreditar que Wodan não se originou no

três categorias: as funções soberanas (o espiritual), as funções guerreiras (a força física) e econômicas (a
fecundidade). Ao longo deste artigo, Alexei Kondratiev se refere a estas funções como primeira, segunda e
terceira, respectivamente.
primeiro século da era comum nas terras próximas ao Mar do Norte como uma imitação deliberada
do Mercúrio celta em uma de suas mais importantes faces.
Enquanto a imposição do governo romano sobre a maioria das terras celtas fez a relevância do
papel de primeira função de Mercúrio menos óbvia, ele foi, não obstante, praticado de uma
forma particularmente ostensiva, e a importância deste fato é geralmente ignorada. Após os
druidas da Gália do sul, em 18 BCE, decidirem reconhecer a legitimidade do governo romano
sobre seus territórios (em troca de uma tolerância religiosa de vida curta) o imperador Augusto
decidiu sacralizar aquele governo de uma maneira especificamente celta. Em 10 BCE, tendo feito o
Lugudunon (latinizado como Lugdunum) dos Segusavi [2] a capital da Gália dominada, ele dedicou
o templo dos três gauleses ao culto ao estado romano, com seu principal festival em primeiro de
agosto, a data de Lughnasadh, a festa presidida por Lugh na tradição irlandesa posterior. Assim,
sob o patrocínio de Lugus, o fiador sagrado da soberania, o governo romano foi enquadrado na
estrutura da religião celta.
Em relação a Lugdunum (que se tornou a capital administrativa da maior parte da Gália romana),
nós somos apresentados a imagens que podem ter uma relevância especial para a tradição de
Lugus. No texto De Fluviis, atribuído a Plutarch [3] apocrifamente é dito que na época em que a
cidade foi encontrada, certos corvos vinham do céu, e foram interpretados como um bom augúrio.
Eles não eram corvos comuns, pois tinham algumas penas brancas em suas plumagens; e se
tornaram o foco de um santuário profético onde, depois que um consulente fizesse uma oferenda
de comida numa plataforma elevada, um sacerdote adivinharia a resposta para sua pergunta
através do comportamento dos corvos enquanto eles iam atrás da comida. O papel principal
destes corvos era, portanto, de contato com o Outro mundo, o que se tornava possível através da
aparência incomum: embora fossem exemplos tradicionais da escuridão, eles tinham o oposto (a
claridade) neles mesmos, e podiam, assim, oferecer a passagem entre reinos aparentemente em
oposição, até mesmo como Lugus / Mercúrio facilita tais passagens. Representações do genius
loci [4] sem nome de Lugdunum (Bem provavelmente o próprio Lugus, visto que ele apresenta
atributos típicos de Mercúrio) o mostram acompanhado de corvos. Apesar das fontes literárias
posteriores não serem claras sobre a associação de Lugh com corvos (o único exemplo não
ambíguo ocorre no poema irlandês da Idade Média, o “hawk of Achill”), a importância dos corvos
companheiros de Odin na literatura Escandinava (onde eles são explicitamente pássaros
mensageiros, e faculdades mentais) é certamente significante aqui, especialmente se lembrarmos
a ligação estreita entre Wodan / Odin e Lugus / Mercúrio. Outros exemplos dessas imagens
em fontes posteriores (Como Owen e seu exército de corvos na literatura gaulesa) podem ser um
eco difuso de uma temática que teve grande importância em épocas anteriores, mas perdeu muito
de seu significado ao longo dos séculos enquanto a mitologia literária se desviava cada vez mais
de suas origens religiosas.
O Pseudo-Plutarch sugeriu, de fato, que a cidade de Lugdunum foi nomeada em homenagem aos
corvos, afirmando que ‘lougon ton koraka kalousi’ (“Eles [os gauleses] chamam os corvos de
‘lougos’”). Não existe nenhuma palavra celta com este significado (Em celta arcaico, Lugus é o
nome do lince), logo, a afirmação é problemática. Meyer-Lübke sugeriu que tal palavra veio do
modelo Indo-europeu *plugo - (com a comum perda celta do p), como parte de um grupo de
palavras difundido da raiz *pleu - que se refere a fluxo, vôo, penas e pássaros. Sem evidências
adicionais o problema permanece não resolvido, embora seja inquestionável que esta não é a
origem do nome de Lugus. Contudo, a paixão celta por trocadilhos certamente teria feito uma
relação entre tal palavra (se ela existiu) e o nome do deus.
Um trocadilho mais evidente e significante existe entre o nome ‘lugus’ e o radical celta arcaico
lugi - que significa “jurar” (aparecendo no irlandês como luighe, em galês como llew e em bretão
como l e). O famoso texto gaulês encontrado em Chamalières em 1971, que é o roteiro de um
ritual mágico e religioso para se obter a ajuda do Maponos [5] arverniano em uma revolta militar,
conclui com uma fórmula repetida três vezes “Luge dessumilis [=dexumiis]” (“Através de um
juramento, eu os faço preparados”), onde o eco do nome do deus na expressão luge, dificilmente
falharia em causar impressão no ouvido de um falante celta, e reforçaria sua relação, em requinte
máximo, com o princípio, de primeira função, de fazer juramento.
Enquanto o nome de Lugus (embora não sua importância como deus) era geralmente eclipsado
durante a ocupação romana, esse não era o caso na Irlanda, onde o governo romano nunca tinha
se implantado e onde nunca houve necessidade de uma interpretação romana de deidades
nativas. E quando textos vernáculos irlandeses começam a aparecer em abundância por volta dos
séculos 08 e 09, nós encontramos referência em tais textos a uma figura chamada Lugh cujas
características estão em perfeita harmonia com as evidências anteriores a respeito de Lugus /
Mercúrio.
Antes de voltarmos nossa atenção para a literatura medieval dos celtas insulares para informações
mais detalhadas sobre o deus, devemos ter em mente que esta não foi escrita com um propósito
religioso e assim não representa a mitologia sagrada de um sistema religioso vivo, mesmo que
possa preservar muitas tradições do período pré-cristão. Estas tradições foram gravadas pelos
celtas cristianizados por uma variedade de motivos: porque eles marcaram precedentes que foram
uma fonte importante de autoridade para instituições legais; porque eles acentuaram o prestígio
de uma determinada localidade, de uma determinada linhagem; porque eles eram associados com
a tradição da classe culta; e por seus valores de divertimento absoluto. Contudo, em todos estes
casos eles foram despidos destes elementos que tinham um significado religioso pré-cristão óbvio
e obrigados a se conformarem com a visão cristã de mundo. Assim, não podem ser tomados, à
primeira vista, como documentos da crença celta pré-cristã, mas devem ser investigados à luz de
outras fontes. Felizmente, padrões de rituais pré-cristãos permaneceram fortemente entranhados
em comunidades celtas rurais (lado a lado com a cristandade oficial) e forneceram evidências que
são geralmente mais arcaicas e aproximadas de tradições mitológicas pré-cristãs do que a
literatura medieval. Dessa forma, a mitologia popular e as práticas associadas com o festival
Lughnasadh em agosto (Lúnasa em irlandês moderno), o início da colheita e explicitamente sob a
proteção de Lugh, são essenciais para a compreensão dos elementos pré-cristãos que
permanecem nas fontes literárias.
As histórias literárias sobre Lugh estão situadas na estrutura da narrativa pelo Lebor Gabála Érenn
(“Livro das Conquistas da Irlanda”), uma compilação reunida entre os séculos nove e doze como
uma tentativa de harmonizar mitos nativos de origens (necessários à cultura como precedentes
legais e sociais) com a versão bíblica da história que os cristãos viam como autoridade suprema.
Uma grande parte dessa narrativa é dedicada à batalha entre os Tuatha Dé Danann e os Fomóirí
(moderno Fomhóraigh) sobre o controle da Irlanda. A base pré-cristã para este conflito é clara, e
é repetida em muitas outras mitologias Indo-européias: os Tuatha Dé Danann representam os
deuses da tribo, os deuses que servem de modelos para a sociedade humana, cada um sendo o
arquétipo ideal de uma função social, e a soma de todos uma fonte de apoio e proteção para a
comunidade humana; enquanto os Fomóirí (que não estão enumerados entre os “conquistadores”
da Irlanda, porque sempre estiveram lá) são os poderes da própria terra, fornecedores tanto da
fertilidade como da praga – mas sem fazer distinções, sem qualquer preocupação com o bem-
estar dos humanos. Apesar dessas duas facções parecerem estar em oposição, elas estão ligadas
inseparavelmente por laços de sangue, e uma não pode destruir a outra. Nós podemos encontrar
o mesmo modelo na relação entre os deuses e os titãs na mitologia grega inicial, entre o Aesir e o
Vanir (e o Jötnar) na tradição Nórdica, e especialmente entre os Devas e os Asuras na Índia. No
ponto da história que nos interessa, Nuada, o detentor da soberania (i.e. o controle legítimo
sobre a terra) entre a Tuatha Dé Danann, tinha perdido seu braço numa batalha com os Fir Bolg
(a onda anterior de conquistadores) e assim passa a não ter a totalidade necessária para ser um
soberano. No seu lugar, é colocado Bress mac Eladan, cujo pai é um Fomorian e cuja mãe é uma
Danann, e assim aceitável em ambos os lados devido a sua linhagem dual. Cian, filho de Dian
Cécht (o médico dos Tuatha Dé Danann), engravida Ethliu / Ethniu de Lugh, a filha de Balar, o
herói Fomorian, e a criança é dada a Tailltiu para criação, uma rainha Fir Bolg, que tem um papel
importantíssimo na limpeza da planície central da Irlanda para a agricultura. As hostilidades
estouram novamente entre os dois grupos e levam a uma confrontação final em Mag Tuired, onde
Lúg salva o dia ao matar seu avô Balar com uma pedra de um sling. Ele então governa a Irlanda
por quarenta anos, e morre em circunstâncias não muito claras nas mãos de um homem cujo pai
Lúg tinha assassinado.
Felizmente, nós temos outras fontes que complementam este material, embora nem todos sejam
igualmente relevantes para reconstruirmos as crenças pré-cristãs. Entre todos, o mais valioso é o
Cath Maige Tuired, um texto primeiramente conhecido a partir de um manuscrito do século 16
escrito por membros da família de escribas Uí Cléirigh do Donegal, mas que reproduz um original
do séc. 11 que deve ter sido baseado em material que se reporta ao século 09. Versões anteriores
dele devem ter servido como fonte para o Lebor Gabála. Uma das notáveis características deste
texto é o estilo de sua narrativa, com modelos de diálogos repetitivos que foram evidentemente
retirados da tradição nativa oral de contação de histórias: o que provavelmente reflete uma
tradição bem enraizada que teve algum tipo de associação ritualística – provavelmente com
Lughnasadh, sobre o qual teremos mais a dizer. Nessa versão da história, que trata
especificamente da batalha calorosa entre os Tuatha Dé Danann e os Fomóirí, nós aprendemos
mais sobre Bres mac Elathan e sobre o modo como ele é comparado a Lugh. Embora ambos
sejam parte Danann, parte Fomorian, Bres tem um pai Fomorian e uma mãe Danann, e numa
tradição patrilinear isto assegura sua lealdade ao povo do seu pai, de forma que ele começa a
mostrar traços fomorian: sua avareza e cobiça retém dos Tuatha Dé os recursos da terra, o que os
leva à revolta – o que se torna possível quando o braço de Nuadu é curado, devolvendo a ele sua
capacidade para exercer a soberania. Quando Lugh (que tem um pai Danann e uma mãe
fomorian) retorna e tenta passar pelos portões de Tara (a sede da soberania), poderíamos dizer
que ele é politicamente desnecessário aos planos dos Tuatha Dé Danann; e é dito a ele que
quem não tem um ofício distintivo não pode entrar em Tara (já que os Tuatha Dé Danann são
uma idealização da sociedade, cada um deles sendo o patrono de uma ocupação específica). A
diferença de Lugh, no entanto, é que ele é o mestre de todos os ofícios: ele é o Samildánach, o
“o de muitos talentos”. Ele (como o “Mercúrio” celta) pode passar por todas as atividades da
sociedade, e ser o patrono de cada uma delas, unificando as três funções. Como tal, ele substitui
todas as deidades funcionais (incluindo Nuadu, que é simplesmente “rei”) e se torna o defensor
ideal da Tribo contra os poderes caóticos da terra. Depois de avaliar com o que cada deidade pode
contribuir para a batalha que se aproxima, ele mesmo providencia um pouco de mágica de batalha
(uma abordagem especificamente de primeira função para uma atividade de segunda função). Seu
avô Balor tinha dado uma grande vantagem aos Fomorian com seu olho que consome tudo o que
vê, mas Lugh destrói o olho com uma pedra de atiradeira, levando os Fomóirí a uma debandada.
Então ele se prepara para destruir seu “gêmeo sombrio”, o usurpador Bres. Contudo ele poupa
sua vida quando ele revela o segredo do ciclo da agricultura – a praga Fomoriana transformada
em fertilidade pela vitória de Lugh (outras representações desse tema na literatura celta inclui a
rivalidade entre o alto rei Eochaid Airem (“O lavrador”) e Mider, o governante de Brí Léith, que
termina com a derrota deste oferecendo serviços relativos à agricultura; e a luta de Arthur com o
amante de Gwenhwyfar, Melwas).
Existe uma versão bem diferente da mesma estória conhecida a partir de um manuscrito do
século 17 e assinada por David Duigenan. Nesta, Breas é morto por Lugh, e Balor, ao invés de
morrer logo a seguir, tenta persuadir seu neto a decapitá-lo e colocar sua cabeça no topo da sua,
de forma que Lugh absorva todos os dons mágicos de seu avô. Sabiamente, Lugh coloca a
cabeça de seu avô sobre uma pedra, e o veneno que escorre dela é suficiente para quebrar a
pedra em quatro. Este episódio ainda é bastante conhecido na tradição popular que ainda existe.
A cena da entrada triunfante de Lugh em Tara e sua tomada de posse da soberania era
geralmente usada para evocar governadores irlandeses verdadeiros. O famoso poema do séc. 14
de Gofraidh Fionn Ó Dálaigh sobre essa temática (no qual Lugh se identifica como “feile a
hEamhain Abhlaigh ealaigh iobhraigh” – “um poeta da terra das maçãs, rica em cisnes e teixos”)
foi um louvor a um governante Anglo-normândico, Maurice FitzMaurice, segundo conde de
Desmond. Na estória Baile in Scáil, do século 11 (“O transe do fantasma”), Conn das cem
batalhas, um dos reis exemplários da Irlanda pré-cristã, tem uma visão na qual Lugh, entronizado
sobre um tablado, direciona uma linda mulher – Flaith Érenn (“A soberania da Irlanda”) – a Conn
para dar-lhe a bebida da soberania, casando-o assim com a terra e fazendo dele rei num sentido
sagrado. Esta é uma fiel expressão de alguns dos antigos simbolismos celtas que discutimos
anteriormente, em Lugh como “Mercurius Rex” e a mulher como Rosmerta, e demonstra que
a concepção de Lugh como o arquétipo de poder por trás do governo sobreviveu por muito
tempo depois do cristianismo.
Evidentemente a estória de Lugh era popular nos círculos literários medievais, e nós temos
muitas alusões a esta tanto em poesia como em prosa. Dessas alusões nós aprendemos que Lugh
era um de uma tríade, da qual os dois outros membros morreram ao nascer – nos lembrando da
triplicidade do Mercúrio celta, e do plural Lugoues. Nós aprendemos que ele foi criado não só por
Tailtiu, mas também por Manannan mac Lir, o governador do banquete/festa do Outro mundo na
terra das maçãs, e que ele herdou o uso da espada de Manannan Freagartach (“Aquela que
responde”). Sua arma pessoal mais comum, contudo, era a lança de Goirias, nos lembrando a
espada do Mercúrio celta. Ele também herdou o corrbolg de Manannan, ou “crane bag”
(bolsa/saco de grou/ garça-azul) cheia de tesouros mágicos, novamente lembrando a bolsa da
riqueza de Mercúrio. Num texto do séc. 11 chamado Imthecht Clainne Tuirill nós ouvimos pela
primeira vez a respeito de uma tradição interessante sobre o pai natural de Lugh, Cian (aqui
chamado ‘Ethlen’ pela confusão com a mãe de Lugh, tendo o autor partido do pressuposto de
que ‘Lúg mac Ethlenn’ era um patronímico ao invés de um matronímico): ele era um ‘shape-
shifter’, capaz de se transformar em um ‘oirce’ ou cãozinho de estimação, de um tipo muito
associado a santuários de cura pelo antigo mundo celta, especialmente em relação ao Marte celta
– um atributo apropriado ao filho do deus médico, e um reflexo das figuras caninas que às vezes
acompanham o Lugus da idade do ferro. Durante as idades médias tardias essa estória foi mais
tarde adornada (é mais conhecida na sua versão do séc. 14, Oidheadh Cloinne Tuireann), mas
durante o processo ela absorveu muitos elementos relevantes e acabou se tornando um reflexo
preciso dos primeiros modelos mitológicos. Semelhantemente, tradições sobre as duas esposas de
Lugh, Buí e Nás (uma delas enterrada em Knowth, a outra em Naas em Co. Kildare), e outra
sobre sua morte, são claramente invenções tardias para explicar alusões literárias que não podiam
mais ser compreendidas.
No entanto, quando nos voltamos para as tradições populares modernas sobre Lugh, nós
encontramos um rico e consistente material (alguns ainda são passados adiante hoje em dia) que
de muitas formas parece mais próximo dos modelos da mitologia Indo-européia do que das fontes
literárias. Lugh aparece aqui como uma personalidade atraente e vívida, tanto heróica como
trapaceira. Onde o Lebor Gabala apresenta a união de seus pais como um casamento político não
problemático, as fontes orais oferecem um relato do seu nascimento bastante dramático e
complexo. Balor, cuja fortaleza mágica está em Tory Island (muitas dessas histórias foram
passadas adiante em Donegal), está ciente de uma profecia de que ele será morto por seu neto;
dessa maneira, ele mantém sua filha Eithne presa numa torre, fora do alcance dos homens. Os
tuatha Dé Danann, contudo, também estão cientes da profecia e ansiosos para se livrarem dos
olhos invencíveis de Balor, e um deles, Cian (chamado de Fionn em algumas versões), trama, com
a ajuda de uma druidesa Bioróg, para vencer as defesas mágicas de Balor e entrar na sua
fortaleza. Antes de ele ser levado até Eithne, as criadas dela (que, em algumas versões, variam
em torno de novecentas) insistem para que ele durma com todas elas. Todas ficam grávidas e dão
a luz à raça das focas, que são meio-irmãs de Lugh. Quando a criança de Eithne nasce,
acontecem muitas tentativas de matarem o garoto, mas ele, a essa altura já astuto, consegue se
safar. Cian tenta proteger a criança através de mágica, e como resultado é descoberto por Balor e
se mata, o que leva o jovem Lugh a jurar vingança pela morte de seu pai. É seu próprio avô que
o nomeia, chamando-o de “pequeno de mãos grandes” quando, ao se enganar achando que ele
era o assistente de jardineiro, comenta sua habilidade de alcançar tantas maçãs ao mesmo tempo
(introduzindo o trocadilho que liga o nome ‘Lugh’ a lú “pequeno, franzino, de pouco valor”, o que
é importante para entendermos o caráter do deus).
Nas fontes orais, a batalha entre os dois grupos de deuses não é o resultado de um conflito
dinástico, mas uma discussão acerca da detenção de uma vaca maravilhosa, muito similar ao
Kâmadhenu ou “vaca dos desejos” que sai do mar de leite e é cobiçada tanto por Devas como
por Asuras na mitologia indiana. Logo, esta é uma reflexão não ambígua do motivo Indo-europeu
das forças de cultivo e anticultivo (deserto) lutando pela disposição da fertilidade da terra. Lugh é
o campeão que, por causa de seus links com ambos os lados, mas com sua lealdade às forças da
cultura, ganha aquela fertilidade para sua tribo (em algumas versões populares ele mata Balor não
com uma pedra de atiradeira, mas com sua lança emblemática – o significado da qual
discutiremos brevemente). Em termos práticos, o prêmio da batalha é, claro, a colheita, o fruto do
ciclo agricultural; e o significado completo do mito só pode ser compreendido no contexto
ritualístico do festival da colheita Lughnasadh, a própria festa de Lugh.
Contudo, antes de nos voltarmos completamente para os aspectos ritualísticos do mito, devemos
mencionar as escassas, mas significantes alusões a esse material na literatura gaulesa medieval. A
mais explícita ocorre no ciclo de quatro contos conhecido como Mabinogi, que foi composto não
antes do século 12 e mostra a forte influência da cultura feudal internacional de seus dias, no
entanto ainda retém algumas características arcaicas. Na quarta parte, o Plant Dôn (“Os filhos de
Dôn”, cognatas gauleses dos Tuatha De Danann), que governam Gwynedd (Norte de Gales),
tinham guerrilhado com Dyfed (Sul de Gales) pela detenção da posse de alguns porcos do outro
mundo. No final desta, Math, o governante de Plant Dôn, perde a virgem em cujo colo seus pés
devem ser mantidos, de acordo com um tabu real. O filho de sua irmã, Gwydion, um poderoso
mágico e trapaceiro, oferece sua irmã Arianrhod como uma substituta. No entanto, quando sua
virgindade é testada pela varinha mágica de Math, ela dá a luz a um menino já completamente
formado, Dylan, que imediatamente mergulha no mar e some, e a “uma coisinha” ainda disforme
(pethan) que é segurada por Gwydion e colocada num baú. Depois de alguns meses, o baú é
aberto e dele emerge um saudável bebê. Assim, como Lugh, ele nasce de uma mulher que “não
deveria ter concebido uma criança”; e Dylan corresponde claramente aos meio-irmãos de Lugh
que caíram na água e se tornaram focas. Quando confrontada com seu filho, Arianrhod, joga
uma praga tripla nele: de que ele não terá um nome, a não ser que venha dela; de que ele não
terá armas, a não ser que ela o arme; e de que ele não terá esposa de raça alguma existente na
terra. Gwydion desfaz a primeira praga disfarçando a criança e a ele próprio de sapateiros e,
enquanto Arianrhod está provando os sapatos, a criança acerta a perna de uma cambaxirra com
uma pedra de atiradeira, de forma que Arianrhod exclama “o pequeno (ou o raio luminoso) fez
isso com uma mão certeira”, dando a ele seu nome, Lleu Llaw Gyffes (correspondendo
exatamente a ‘Lugh Lámhfhada’ “o pequeno/ (raio-lampejo?) de mão comprida”, um nome que
foi, como no caso de Lleu, dado a ele inadvertidamente por um parente mal intencionado). Para
desfazer a segunda praga, Gwydion faz aparecer um exército imaginário envolta de Arianrhod,
fazendo com que ela arme ele próprio e Lleu (novamente disfarçado) para defendê-la. Para obter
a “mulher de nenhuma raça terrena”, Gwydion e Math cria uma mulher para Lleu a partir de
flores (a virgem da flor dos rituais celtas de maio). Essas três tentativas correspondem às três
funções Dumezilianas: nome = identidade social e ritual (primeira função); armas = status de
guerreiro (segunda função); esposa = fertilidade, reprodução (terceira função). Assim, Lleu é
mostrado dominando as três e funções e conseqüentemente se tornando um representante de
todas as facetas da sociedade humana, como o Mercúrio celta.
Na terceira parte do Mabinogi, o personagem principal é Manawyddan fab Llyr, que é geralmente
reconhecido como sendo um empréstimo do irlandês Manannan mac Lir, o pai adotivo de Lugh.
Embora ele não tenha nenhuma relação direta com Lugh, ele mostra uma série de características
inerentes a Mercúrio. Manawyddan é o consorte de Rhiannon, que lembra a deusa eqüina da
Terra-soberania e que é aqui a mãe (por um consorte anterior) do legítimo governante de Dyfed,
Pryderi. Quando Rhiannon e Pryderi são separados pelas trapaças de seres do outro mundo e
um encantamento de esvaziamento é jogado sobre Dyfed, Manawyddan se torna o protetor da
esposa de Pryderi, Cigfa, e dá suporte a ambos através do exercício de seu artesanato, mostrando
surpreendente habilidade como sapateiro. Como Lugh, ele serve como um governante
temporário, não entre a linha de sucessão dinástica, mas tomando responsabilidades em
obrigações de primeira função na ausência do governante legítimo. Eventualmente, os poderes do
outro mundo se manifestam na forma de um exército de ratos que, no estilo Fomorian, devastam
sua safra, fazendo com que ele use suas próprias reservas de trapaças para derrotá-los e restaurar
a ordem social que eles haviam destruído. Novamente, esse é um mito de cultura versus natureza,
onde a comunidade humana e os poderes da terra competem pelo controle da colheita –
resumindo, um mito de Lughnasadh.
(A ênfase na sapataria na terceira e na quarta partes, e a dedicação ao Lugoues feita pela
associação espanhola de sapateiros, sugerem que este era um antigo e importante atributo do
Mercúrio celta. Este fato pode ter sido, é claro, nada mais que um símbolo de artesanato em
geral, mas alguns achados arqueológicos mais recentes em cemitérios romano-celtas deixam
implícita uma associação mais específica dessa imagem com o deus. Em tumbas britânicas do
terceiro e quarto século, junto a outras parafernálias relacionadas ao culto de Lugus, pode-se
tipicamente encontrar um par de botas, obviamente para o uso dos mortos no outro mundo.
“Mercúrio”, como o arquétipo daquele que transita entre os estados é o patrono de todas as
estradas e viagens, mas particularmente da última viagem entre os reinos da vida e da morte.
Sapatos são uma necessidade básica para o viajante, nesse mundo e no próximo, então, Lugus,
conhecedor de todas as artes, é o fornecedor específico para essa necessidade).
Um conto gaulês independente provavelmente composto pela primeira vez no século 11, Cyfranc
Llud a Lleuelys, aborda o mesmo assunto de uma forma diferente. Llud (cujo nome originalmente
era Nudd) é o cognato do irlandês Nuadu, e é representado aqui governando a Bretanha do seu
trono em Londres. O nome de seu irmão, que governa a França, é geralmente traduzido como
“Llefelys” hoje em dia, mas este é provavelmente um erro, pois sendo o primeiro elemento desse
nome, de outra forma inexplicável, quase certamente Lleu-, sugere que ele é de fato uma outra
forma de Lugus. O fato de Lludd ter reinado na Bretanha e Lleuelys na França poderia
possivelmente refletir uma lembrança da importância dos “Nodens” (Antigo celta Noudons, daí
Nuadu e Nudd) no antigo culto britânico e de Lugus / ”Mercúrio” na Gália. Lludd está
preocupado com três “opressões” (gormesoedd) que estão afligindo a ilha britânica, e vai pedir
conselho ao seu irmão sobre como lidar com elas. A primeira delas trata-se de uma raça
sobrenatural que pode ouvir tudo o que está sendo falado, de forma que a privacidade e os
segredos pararam de existir (uma violação dos reinos mentais e sociais, relacionados à primeira
função). A segunda, um grito horripilante que ecoa toda véspera de maio roubando dos homens
suas coragens (uma violação da bravura defensiva, logo, de segunda função). A terceira “gormes”
é o desaparecimento inexplicável das provisões reais (uma violação dos alimentos, que é a terceira
função). Lleuelys é capaz de resolver os três problemas: os intrusos sobrenaturais são destruídos
ao serem borrifados sobre eles alguns insetos espremidos na água; o grito é causado por dragões
de batalha que são enganados e trancados num baú e enterrados sob Eryri (Snowdonia); e as
provisões estão sendo roubadas por um gigante do tipo fomorian que, uma vez derrotado, oferece
seus serviços ao governante. Lludd é, assim, reafirmado em seu governo, mas Lleuelys mostrou,
de um modo bem sutil, seu controle sobre as três funções e sua habilidade para confirmar a posse
da soberania de um governante. Este, mais uma vez, reapresenta alguns dos temas básicos de
Lughnasadh.
Nós chegamos agora finalmente às práticas ritualísticas que envolvem o próprio Lughnasadh,
muitas delas ainda bastante vivas, formando um consistente corpo de material simbólico com,
obviamente, raízes antigas (já que, como vimos, a data já tinha significância em tempos
romanos). Através da Irlanda, mas também em outras partes dos mundos celta e ex-celta, a
comemoração do Lughnasadh (ou do que mais o festival de colheita possa ser chamado) está
centralizada em lugares altos de territórios individuais: os “Mercúrio montes” dos tempos antigos.
As mais animadoras, como os sítios de Lughnasadh, são as colinas altas que, mesmo assim, têm
uma fonte de água perto do topo – por serem capazes de unir o que está embaixo e o que está
em cima, o reino do céu dos deuses da cultura e o submundo aquoso (o reino dos fomorian). Os
primeiros frutos das safras cultivadas, assim como exemplos de produto agrícola silvestre
(geralmente “biberries”), eram trazidos para o sítio para serem abençoados e partilhados pela
comunidade. Em tempos modernos, essa essência agrícola do festival é tudo o que sobreviveu,
mas antigamente, quando as terras celtas estavam sob o domínio de nativos, Lughnasadh era a
ocasião de grandes assembléias onde problemas legais eram ajustados, problemas políticos eram
discutidos, artesãos e artistas em geral tinham uma chance de mostrar seus talentos, e eventos
esportivos juntavam comunidades distantes. Tudo isso acontecia sob a proteção de Lugh (o
Sanas Cormaic do século nove explica ‘Lughnasadh’ como a assembléia de Lugh), que, dizem, ter
instituído os jogos em memória tanto de suas esposas como de sua mãe adotiva Tailtiu, cujo
nome (do celta antigo Talantiu, “A grande da terra”) e história de vida dão a ela uma grande
afinidade com a colheita. Mas é o próprio Lugh que permite que a colheita comece, ao
estabelecer as condições certas para ela e ao combater os elementos hostis na terra que tentam
destruir a safra.
Muitos pesquisadores interpretaram o nome Lugh como uma derivação da raiz indo-européia
*leuk - “luz”, que também vem do latin lux. Isto é parcialmente confirmado pelo significado de lleu
em Galês (esp. Como parte de (go) leu “luz”). Como um resultado, e com a ajuda da obsessão de
muitos pesquisadores vitorianos por “mitos solares”, foi tomado como pressuposto que Lugh era
um deus solar. Além disso, uma comparação entre o título de Lugh Lámhfhada (“de braço
comprido”) e o título Prithupâni (“mão larga”) dada ao deus védico Savitr (o deus da primeira
luz do dia) parece confirmar tal noção – e agora está firmemente entranhada na literatura popular
da “mitologia” irlandesa. No entanto, idéias tradicionais sobre Lugh associadas a rituais não
mostram nenhum vestígio disso. Lughnasadh é um dia em que tempestades com muita chuva são
esperadas e bem-vindas. Elas proporcionam uma trégua do verão cruel que põe em perigo as
safras e favorece as pragas de insetos. O sol impiedoso é o olho flamejante de Balor, e a lança de
Lugh é necessária para amansar seu poder. Lugh é chamado Lonnbeimnech (“o atirador cruel”)
assim como Lámhfhada. O “Mercúrio” celta é às vezes mostrado não só com sua lança, mas
também com o facilmente reconhecível martelo-trovão indo-europeu. Em maio, as tempestades de
Lughnasadh eram vistas como a batalha entre Lugh e Balor: “Tá gaoth Logha Lámhfahada ag
eiteall anocht san aer. ‘Seadh, agus drithleogaí a athar. Balor Béimeann an t-athair” (“o vento de
Lugh do longo braço está soprando pelo ar esta noite. Sim, e as centelhas de seu pai [sic]. Balor
Béimeann é seu pai”). Deste e outros exemplos fica claro que Lugh tem mais domínio sobre a
tempestade do que sobre a luz do sol, e se sua seu nome tem alguma relação com “luz”, o
significado mais apropriado seria “relâmpago”. Essa é a principal função da sua invencível lança.
Embora provavelmente haja alguma relação temática entre os títulos Lugh e Savitr, eles
claramente não são equivalentes.
Principal ao ritual de Lughnasadh na sua forma mais antiga era a representação do mito da
estação. Certamente alguma versão ou outra do Cath Maige Tuired teria sido o material mais
popular para isso na antiga Irlanda (apesar das fontes literárias colocarem a batalha – como
virtualmente todos os eventos sobrenaturais – no Samhain!), mas um grande número de variantes
era possível. Uma pessoa fazendo o papel de Lugh – ou de um santo do local ou herói com
características de Lugh – teria lutado contra vários monstros enviados a ele pelo Fomorian deus
da terra, e eventualmente triunfaria sobre o próprio deus da terra. Na Irlanda moderna, o deus
da terra é quase sempre Crom Dubh (“O homem negro e curvado” – o feriado é geralmente
chamado Domhnach Croim Dhuibh – “O domingo de Crom Dubh” – em homenagem a ele), e um
dos principais adversários que ele manda contra ele é um grande touro (diferente dos cavalos que
simbolizam o poder da tribo, o gado representa o poder da terra: vacas são o aspecto nutridor,
mas os touros representam o aspecto destrutivo). A vitória de Lugh, em alguns casos, pode ter
sido dramatizada como um salto sobre uma cabeça de pedra. “A figura gaulesa de um cavaleiro
montado empinado sobre uma cabeça emergindo do chão, ou sobre um gigante emergindo do
chão, parece ilustrar esse mito e pode até ser uma representação de um rito”.
Como já mencionamos, esse mito poderia ter sido apresentado de várias formas. Uma das mais
impressionantes envolve os contos córnicos de “Jack, o Tinkard” que foram representados na
ocasião de Morvah Fair, uma das grandes celebrações de Lughnasadh fora da Irlanda. Este é uma
longa e complexa narrativa que lida com “gigantes”, que no folclore córnico é um modo bastante
convencional para se referir aos deuses fomorianos. O começo da história nos conta como um
herói chamado “Tom” derrotou um gigante do local lutando com ele com uma roda de carroça
(lembrando a roda do trovão da arte celta primitiva). “Tom” se torna próspero, mas é
eventualmente desafiado por outro herói, Jack, que carrega um martelo e veste um couro preto
de um touro que as armas não podem furar. “Jack” concorda em cooperar com “Tom”, e continua
para demonstrar que ele é o mestre de todas as artes, ofuscando o ignorante e de raciocínio lento
Tom durante o processo (fornecendo um eco da entrada triunfante de Lugh em Tara). Para
conseguir a mão da irmã de Tom, Jack luta (mais através de trapaças) com outro gigante da área.
Muitas das versões do mito de Lughnasadh dão ênfase na conquista da mão de uma mulher, ou
(em termos de ritual) na persuasão para que ela sirva como a rainha da colheita. Geralmente, a
implicação é que ela seja uma mulher fomoriana, um poder de fertilidade da terra que passa para
o lado da Tribo – e talvez isso inclua a mãe de Lugh, Eithne, cujo nome poderia ser entendido
como “kernel”.
Uma outra versão desse mito, que ilustra o quão simples e humilde as imagens podem se tornar
sem modificar nada que é importante a elas, é a famosa história escocesa Cath nan Eun (“A
batalha dos pássaros”), coletada em várias versões por John Francis Campbell no começo do
século 19. Uma cambaxirra se oferece para proteger a safra de um fazendeiro, mas ele é
imediatamente desafiado por um rato, que é claro quer a colheita para si próprio e para os seus. A
cambaxirra reúne um exército com todos os pássaros do céu, mas o rato reúne um exército
equivalente de roedores e coisas horripilantes. Uma grande batalha é travada, e o herói do conto,
Mac Rìgh Cathair Shìomain (um “filho de um rei” e conseqüentemente um detentor predestinado à
soberania), decide ajudar, mas chega quando a batalha está quase terminada, e os únicos
combatentes que restaram eram uma serpente e um corvo. Ele escolhe se juntar ao corvo, e em
troca recebe auxílio mágico na derrota de um gigante para conseguir a mão de sua filha. Logo que
a aventura começa, o corvo se transforma em um lindo jovem e dá ao filho do rei uma bolsa cheia
de tesouros mágicos, reminiscência do corrbolg, ou “sacola de Mercúrio”. A essência do mito é
preservada completamente aqui: a batalha entre os pássaros e as figuras horripilantes é a batalha
entre as forças de cima e as debaixo, os Tuatha Dé Danann e os Fomhóraigh, a tribo e a terra,
pela posse da colheita. Tanto a cambaxirra como o corvo tem laços com Lugh, o líder do lado dos
Danann: e aqui ele preenche seu papel comum ao restaurar o governante legítimo e dando a ele
a mulher que é a fertilidade da terra.
A cambaxirra serve para nos lembrar de um aspecto de Lugh que geralmente é eclipsado pela
sua aparência heróica em tantas histórias literárias irlandesas: de que ele é lú, “pequeno”,
facilmente desprezado antes que seus poderes se revelem. A cambaxirra também apesar de seu
pequeno tamanho é um rei, o rei de todos os pássaros: num conto popular muito conhecido
através da Eurásia (incluindo as terras celtas) ele ganha esse título através de trapaças,
embarcando como clandestino nas costas de uma águia durante uma competição para decidir que
pássaro pode voar mais alto, voando então mais alto quando a águia já estava exausta e não
podia voar mais alto. O simbolismo da cambaxirra nos ajuda a compreender um dos símbolos
associados a Lugh em suas manifestações mais antigas: o visco, que é a menor de todas as
árvores, ainda assim cresce até o topo da árvore mais alta, o carvalho, sendo assim, dentre todas
as árvores, a mais próxima do céu. Ela também é verde no inverno, quando o próprio carvalho
está descoberto, de forma que ela manifesta vida mesmo no meio da morte. Há uma
impressionante similaridade entre Lugus e Vishnu, que aparece pela primeira vez no Vedas como
muito mais um deus “pequeno”, mas capaz de salvar o dia durante a grande batalha contra o
monstro Vrtra, retentor da fertilidade, por causa de seu talento singular de criar novos espaços no
universo com seus passos – um talento que, depois de séculos de reflexão sobre suas implicações
teológicas, o transformaria em um dos maiores deuses do Hinduísmo, e até mesmo no próprio
equivalente a Deus. Da mesma forma, o papel de Lugus ao salvar a colheita com seu talento de
unir os opostos e transitar pelos reinos, depois do mesmo tipo de reflexão teológica, faz dele o
“principal deus” dos celtas (como nos diz Caesar).
Desta forma, não há dúvida de que Lugus estava relacionado à grande maioria dos povos celtas
no mais íntimo e satisfatório modo. Contudo, muito dele deve ter sido associado com o domínio de
primeira função de reinado, seu envolvimento com todas as funções da sociedade celta fez dele
um protetor cooperador de qualquer indivíduo, do mais alto nobre ao mais humilde artesão. Os
membros mais fracos da comunidade teriam sentido uma afinidade especial por um deus “que é
bem sucedido pela habilidade da mais sutil mágica do que pela força bruta de seu físico”. Seja
onde for que as portas tivessem que ser abertas, trocas tivessem que ser feitas, fronteiras
tivessem que ser ultrapassadas, seus dons especiais poderiam ser invocados com proveito (o
Lebor Gabála, de forma interessante, faz de Lugh o inventor do xadrez (fidchill) e dos jogos de
bola (liathroit) – ambos são jogos que envolvem a interpenetração de reinos opostos). Assim, para
o poeta ou intelectual, o relâmpago de sua lança era o insight (imbas) que perfura a escuridão do
caos, de forma que ele fosse verdadeiramente o “dé delbas do chind codnu” (“o deus que põe a
cabeça no fogo”) de Amairgen. Ele também poderia ser o patrono de heróis no plano terreno –
como Cú Chulainn que, como seu pai, teve um nascimento triplo, e cuja arma especial, o gae
Bolga, era, em um nível, meramente uma arma mundana exótica (a “lança Bélgica”), mas em
outro era a “lança relâmpago” que seu pai empunhava nos céus. Mesmo a chegada do
cristianismo não poderia erradicar o lugar que Lugus tinha no coração das pessoas comuns das
terras celtas. Sulpicius Severus, na sua biografia de St. Martin de Tours, nota que, de todos os
deuses da Gália, o santo achou Mercúrio “infestior” - “o mais incômodo, mais difícil de se
livrar”. Fora da Irlanda as imagens associadas com St. Michael, o arcanjo – o jovem guerreou
triunfando sobre o satânico dragão – era naturalmente assimilado a Lugus, de forma que muitos
Mercurii montes se tornaram “St. Michael’s Mounts”, e a St. Michael foi dado um papel especial em
relação à estação da colheita.
Mesmo hoje em dia, o espírito de Lugus impregna o mundo celta, perdendo somente para Brigit
em significância e acessibilidade. Trapaceiro, “psychopomp [6], experimentador, aquele que
transita entre os mundos, assegurador do sucesso e da riqueza através da manipulação
inteligente, assegurador da continuidade através da mudança, seus muitos dons permanecem a
disposição daqueles que se esforçam em encontrá-lo”.