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René Descartes, Meditação I - Duvidando para recomeçar

Resumo: "Na primeira Meditação, adianto as razões pelas quais podemosduvidar de todas as
coisas, e particularmente das coisas materiais". Segundo Descartes, a dúvida "nos liberta de
toda sorte de prejuízos" (DESCARTES, 1983, 79) e acostuma nosso espírito a desligar-se dos
sentidos (carregado de falsas impressões) para que, enfim, encontre-se naquilo que é
impossível de duvidar, ou seja, aquilo que é mais verdadeiro.

Neste capítulo, Descartes apresenta o objetivo do projeto inicial: estabelecera dúvida como
critério para a renovação de conceitos; a partir do exame crítico do conhecimento, expõe seu
método de investigação científica procurando encontrar algo firme e forte na ciência - "claro e
distinto" - o caminho para a verdade.

OBS Do livro: Do parágrafo 1 ao 3 – O princípio da dúvida hiperbólica.

Do parágrafo 3 ao 13 – Argumentos que estendem e radicalizam a dúvida

Treze parágrafos encerram o primeiro livro das Meditações

1) Duvidando para recomeçar: em favor da dúvida, Descartes alega estarmos há muito mal
fundamentados em nossas razões, pois quase tudo aquilo que aprendemos "desde meus
primeiros anos" não passam de falsas opiniões tidas como verdadeiras. "Aquilo que depois eu
fundei em princípios tão mal assegurados não podia ser senão mui duvidoso e incerto". E
propõe começar novamente, desde os fundamentos, de forma a "estabelecer algo de firme e
de constante nas ciências".

Meu resumo (1): Descartes acredita que as informações que recebera desde seus primeiros
anos são muito duvidosas e incertas. Sendo assim, ele precisa abandonar suas opiniões antigas
para conseguir algo constante e firme na ciência.

2) A dúvida em ação: o menor motivo de dúvida bastará para que a coisa fundamentada em
antigas opiniões já não lhe pareça inteiramente certa. E, refletindo, a partir dos princípios, a
base das "coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis", põe a dúvida em ação.
Coloca a Dúvida Cartesiana em ação, essa dúvida é:

A dúvida cartesiana é metódica e provisória pois é um meio para atingir a certeza não
constituindo um fim em si mesma.

É hiperbólica porque considera como falsas todas as coisas em que se note a mínima suspeita
de incerteza.

Também é universal e radical uma vez que incide não só no conhecimento em geral, como
também sobre os seus fundamentos, as suas raízes.

Em outras palavras, a dúvida cartesiana é:

II. Ela é diferente da Dúvida vulgar e provisória que é engendrada pela experiência;

III. Dúvida metódica: por decisão racional, busca um princípio certo e seguro para o
fundamento da certeza; antigas opiniões são substituídas por evidências; dirigi-se à causa, a
fonte das opiniões;
IV. Radical: será hiperbólica, isto é, sistemática e generalizada; tratar como falso o que é
apenas duvidoso; enganador, o que alguma vez já enganou (regra de prudência);

V. Universal: pretende colocar em questão todos os princípios dos quais se originaram antigas
opiniões (nos sentidos, na imaginação e nos equívocos da razão); dúvida a partir da causa.

Meu resumo (2): Descartes está preparado e disposto para destruir suas antigas opiniões. O
fato que leva a ele duvidar de uma opinião, já faz que ele rejeite todas, pois a ruína dos
alicerces carrega necessariamente todo o resto do edifício sobre os quais todas as minhas
antigas opiniões estavam apoiadas.

3) Argumento do erro dos Sentidos (primeiro grau da dúvida: os sentidos em questão): regra
da prudência (Em que há sensatez; que demonstra ou age com paciência; ponderação ou
calma) que visa atingir os sentidos: "Tudo que recebi, (...) aprendi-o dos sentidos ou pelos
sentidos" (...) "experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos". Logo, os
sentidos são enganosos. Juízos (com valor de verdade) são formados a partir das experiencias
sensíveis, contudo parece haver uma falta de consenso sobre a qualidade dos corpos
experimentados e, para Descartes, isso basta para nos fazer duvidar sistematicamente de
nossas percepções sensíveis.

OBS do livro: Parágrafo 3 – Argumento dos erros dos sentidos.

A dúvida do parágrafo 3 distingue-se da dúvida vulgar pelo fato de ser engendrada por uma
decisão e não por experiência, ela também é hiperbólica, isto é sistemática e generalizada e
consistirá, em tratar como falso o que é duvidoso.

Argumento do erro do sentido, primeiro grau da dúvida. É insuficiente para nos fazer duvidar
sistematicamente de nossas percepções sensíveis.

Meu resumo (3): Descartes afirma que tudo que aprendeu e recebeu foi através dos sentidos,
porém notou que esses sentidos eram enganosos, sendo assim, não poderia confiar
inteiramente neles e as verdades que ele proporciona, pois não se pode confiar totalmente
naquele que já nos enganou uma vez.

Radicalizando a dúvida

4) Argumento da Loucura (argumento singular): segundo grau da dúvida, visa atingir a


imaginação, as ideias fictícias que têm origens nos sentidos do indivíduo que pode ser um
insensato ou louco. A loucura como particularidade de alguns. O argumento visa colocar em
questão o juízo acerca da existência dos corpos, da realidade objetiva, da ideia a partir de um
ponto de vista particular, relativizante, do sujeito pensante que percebe (entende) e age
(escolhe) de acordo com a vontade.

OBS com minhas próprias palavras: O argumento da loucura visa atingir a imaginação, ou seja,
Descartes coloca a própria imaginação em questionamento em dúvida. Aí ele concorda que
não está louco, ou seja, o que ele está fazendo justo agora é real, porém ele colocará a sua
realidade do que está fazendo agora (Que eu esteja aqui, sentado junto ao fogo) usando o
argumento dos sonhos, afinal talvez ele não esteja realmente ali e sim sonhando.

5) Argumento dos Sonhos (argumento universal) e verossímil: ''sou homem", sujeito comum
(a faculdade da imaginação ampliada para todos os homens). Descartes considera que o
homem dorme e que representa em seus sonhos. Ainda que o que ocorra no sono não pareça
ser tão claro e distinto, muitas vezes se viu enganado. Não há "marcas" ou "indícios
concludentes" que separem a vigília do sono.

OBS do livro: Parágrafo 5 – Aqui começa o argumento do sonho, segundo grau da dúvida, que
irá estendê-la a todo conhecimento sensível.

OBS com minhas próprias palavras: Agora entendi tudo! Descartes está buscando a verdade,
porém ao ele encontrar nessa verdade qualquer razão de duvidar, ele descarta essa verdade e
busca outra verdade, ou seja, a verdade que sustentará todas as outras, o inicio de tudo,
Descartes usa argumentos como dos sentidos, loucura, sonhos para questionar essas verdades
como a verdade: “que eu esteja aqui, sentado junto ao fogo, vestido com um chambre...” ele
usa argumentos, no parágrafo 5 ele usa o argumento do sonho, assim mostrando que talvez o
fato dele acreditar que está ali junto ao fogo não seja algo real e sim somente um sonho, como
Descartes tem razão de duvidar sobre o que ele está fazendo, afinal o que ele está fazendo
pode ser um sonho então automaticamente Descartes descarta essa verdade, pois como
Descartes diz: Qualquer coisa que tenha um mínimo de razão de duvidar não pode se
considerar como a primeira verdade (a primeira filosofia) e por isso cabe a Descartes continuar
procurando uma verdade e assim questionar essa verdade e quando ele chegar em uma
verdade que seja indubitável é porque ele finalmente alcançou a primeira verdade, a filosofia
primeira.

Meu resumo (5): Descartes mostra que o homem pode ser enganado pelos sonhos, ao ponto
de não saber se está acordado ou dormindo, pois não há quaisquer indícios concludentes onde
se possa distinguir nitidamente a vigília do sono e isso altera a minha percepção do que possa
ser real.

6) Argumento dos Quadros e Pinturas (o sonho como representações): "as coisas que nos são
representadas durante o sono são como quadros e pinturas" formadas à semelhança de algo
real e verdadeiro. Descartes presume que exista algo de verdadeiro (quantidade, figura,
extensão e cores) e que a imaginação é capaz de criar arbitrariamente (ato particular da
razão), a partir de mistura e composição ideias e fictícias (sereia, centauros, montanha de
ouro). Na representação do 'sonho' encontramos o elemento simples, das ideias gerais, assim
como nas 'cores' da pintura que devem ser verdadeiras.

7) Argumento das Coisas Simples (as 'cores' e a 'matemática'): há coisas simples e universais
que são verdadeiras, as cores (em todas as imagens), indecomponíveis (figura, quantidade,
espaço, tempo), que são os objetos da matemática, estas escapam aos objetos sensíveis, "a
todas as razões naturais de duvidar". Sendo assim, Descartes encontra o limite do argumento
dos sonhos, já que esse argumento não permite pôr em dúvida a realidade das cores e dos
objetos da matemática.

OBS: Daí a necessidade de recorrer ao terceiro argumento que abalará esta certeza natural.

8) As ciências da natureza "dependentes da consideração das coisas compostas são


muito duvidosas e incertas"; mas a aritmética e a geometria, "muito simples e muito gerais",
contêm alguma coisa de certo e indubitável. Segundo Descartes, acordado ou dormindo, "dois
mais três formarão sempre o número cinco e o quadrado nunca terá mais de quatro lados".

Meu resumo (8): As ciências dependem de coisas compostas (Física, Astronomia e Medicina)
são muito duvidosas e incertas, já ciências que lidam com coisas muito simples e muito gerais
(Aritmética, Geometria) contém alguma coisa de certo e indubitável. Estando eu acordado ou
dormindo 3+2 sempre formará o número 5 e o quadrado sempre terá quatro lados. Dessa
forma, mesmo que tenhamos sérias dúvidas com relação a astrofísica ou a medicina, há
conhecimentos na geometria e na aritmética que são indubitáveis.

9) Argumento do Deus enganador (terceiro grau da dúvida, visa atingir a razão): a partir do
argumento matemático, que comprova a natureza distinta do meu espírito, a dúvida se
estende às intenções do próprio Deus. "Pode ocorrer que Deus tenha desejado que eu me
engane todas as vezes em que faço a adição de dois mais três". "Deus, dada a sua onipotência,
pode nos enganar"; como? Naquilo que acreditamos saber: as coisas simples e universais.

Meu resumo (9): Descartes propõe que Deus possa querer enganá-lo toda vez, porém pode ser
que Deus não queira que eu seja decepcionado dessa maneira, pois trata-se de um Deus
bondoso.

10) Argumento Ontológico (dirigido aos ateus): se em Deus encontro alguma


imperfeição (falha ou engano), quanto menos for poderoso, ele, a quem atribuo minha
origem, "mais será provável que eu seja de tal modo imperfeito que me engane sempre" -
destaque para o engano sistemático da razão, um defeito intrínseco ao homem - mas esse não
é o parecer do filósofo, o argumento é puramente metodológico. Os enganos na
apreensão (sentidos), e na produção, (imaginação), resultam nos equívocos da razão.

Logo, a dúvida é universalizada e os juízos são suspensos. Descartes parece duvidar de todas as
opiniões outrora recebidas como verdadeiras, e assim decide suspender os juízos adquiridos
sobre tais pensamentos, porquanto deseja "encontrar algo de constante e de seguro nas
ciências".

OBS do livro: Parágrafo 10 – A dúvida é agora universalizada.

Meu resumo (10): Se Deus não for tão poderoso então menos perfeito será sua criação, logo,
mais imperfeito eu serei e assim me enganarei sempre. Todavia, caso eu queira conseguir algo
constante e de seguro nas ciências precisarei duvidar de tudo, inclusive de todas minhas
crenças e pensamentos.

11) Divino Bom Senso: ciente das próprias crenças e dos hábitos nelas embutidos, como que
intuído por um divino bom senso moderador que a razão é capaz de conduzir, Descartes
mostra-se empenhado à dúvida constante, para não mais se deixar enganar: "e meu juízo não
mais seja doravante dominado por maus usos e desviado do reto caminho que pode conduzi-lo
ao conhecimento da verdade". E assim, considerar o bom senso, na prática, o provável; na
teoria, considerar o improvável.

Meu resumo (11): Por sempre está presente a matemática se tornou quase a senhora de
minha crença, porém irei meditar e conhecer, assim restabelecerei a soberania do meu
espírito sobre a matemática, ou seja, duvidar da matemática para assim não mais se enganar.
12) Argumento do Gênio Maligno: (le malin genie, alguma entidade particular, relativa ao
sujeito, "um artifício psicológico", talvez, uma teimosia cega, extrema, um excesso ou falta do
sujeito da ação, em síntese: o engano sistemático da razão): "Há não um verdadeiro Deus, que
é a soberana fonte de verdade, mas certo gênio maligno" [poderoso, ardiloso e enganador] (...)
"todas as coisas exteriores que vemos são apenas ilusões e enganos". Com esta conclusão
peremptória, Descartes intenciona suspender os juízos de crenças outrora acalentadas, não se
dispondo mais a receber nenhuma falsidade. Sua proposta de radicalizar a dúvida, na verdade,
é um estímulo para que o pensamento busque alcançar a clareza das certezas inabaláveis.

A relação entre os argumentos: o argumento do gênio maligno está para o argumento do deus
enganador, assim como o argumento da loucura está para o argumento dos sonhos: em
síntese, o gênio maligno e a loucura se referem àspartes e, o deus enganador e os sonhos,
ao todo. (não entendi)

Meu resumo (12): Descartes propõe que talvez não haja um Deus poderoso e sim um gênio
maligno, cuja função é enganar o indivíduo, assim ao radicalizar a sua dúvida e abandonar suas
crenças, estará livre também das crenças que o gênio maligno impõe a Descartes.

13) Declaração do autor que reafirma sua tarefa árdua na busca por algo firme nas ciências, e
alcançar o puro intelecto é a operação da razão perfeita: em Deus a causa perfeita; no engano,
a causa imperfeita. Descartes encerrando a primeira meditação: as mesmas dúvidas e
questionamentos hesitantes que se opuseram àqueles escravos diante da possibilidade
iminente de serem libertos: o medo do "despertar dessa sonolência"... "não fossem suficientes
para esclarecer as trevas das dificuldades que acabam de ser agitadas".

UM BELO RESUMO DA 1º MEDITAÇÃO


http://www.namu.com.br/artigos/o-metodo-da-duvida-de-descartes

O método da dúvida de Descartes

Entenda como o pensador francês criou um sistema lógico para questionar a experiência do
real e chegar à verdade.

Seleção e validação

Descartes estava em busca de um fundamento seguro e inabalável do conhecimento, uma


primeira certeza que pudesse servir de alicerce para toda filosofia e ciência. Para realizar esse
empreendimento, ele elaborou um método baseado na dúvida, também conhecido como
dúvida metódica. Ao enfrentar e superar níveis de dúvida cada vez mais radicais, Descartes
eliminava todo conhecimento que não era seguro e que facilmente se abalava para realizar
uma varredura no terreno do saber.

A dúvida metódica de Descartes não se confundia com a de um homem comum, que não sabe
se ouviu essa ou aquela palavra em uma roda de conversa ou se uma experiência de
sua infância ocorreu dessa ou daquela maneira. A dúvida cartesiana é um método, um
caminho que conduz ao conhecimento certo e indubitável. Por esse motivo, as dúvidas de
Descartes foram elaboradas em um contexto de experimento mental, cujas consequências
tornaram possível a elaboração do pensamento filosófico cartesiano.

Tipos de dúvidas
A dúvida metódica cartesiana se realizou em três etapas: a dúvida sensível, a dúvida do sonho
e a dúvida metafísica. A sensível é aquela que nos leva a desconfiar dos sentidos e de tudo
aquilo que aprendemos através dos sentidos. Nossos olhos nos mostram que o Sol é pequeno,
mas sabemos que suas dimensões são muito superiores às da Terra. A concentração de ácido
lático na musculatura nos faz perder a sensibilidade da perna, apesar de nossas mãos poderem
tocá-la e percebermos que ela continua unida ao nosso tronco. Como os sentidos podem nos
enganar uma única vez, então seu conteúdo não é um alicerce seguro para o conhecimento.

A dúvida do sonho é aquela que nos mostra que não podemos ter certeza de estarmos
acordados ou sonhando nesse momento. Muitas vezes sonhamos realizar diversas atividades
mesmo em estado de repouso. O computador que agora utilizo e a escrivaninha em que me
vejo sentado no instante que escrevo podem ser frutos de um sonho. Por isso, tenho de
desconfiar mesmo daquelas certezas mais banais e ordinárias.

Questionamento e realidade

O experimento mental da dúvida do sonho me faz questionar se estou sentado em frente ao


meu computador vestido em uma camisa branca ou se estou de pijama deitado em minha
cama. Entretanto, essa dúvida ainda não é radical, pois de uma certeza eu não posso duvidar: a
camisa branca, o computador, a cama, o pijama, os corpos e os objetos de um modo geral e
tudo aquilo que percebo possuem extensão e são quantificáveis, ou seja, as operações
matemáticas continuam válidas, seja no sonho, seja na vigília. O computador e a cama
possuem dimensões espaciais e, caso queira, posso contar quantas roupas eu tenho.

Já a dúvida metafísica pode nos levar a duvidar da própria matemática. Por meio de um
experimento mental, imaginemos a figura de um Deus enganador, que nos faz acreditar que
todas as operações matemáticas, apesar de serem sempre constantes, regulares e invariáveis,
não são verdadeiras, ou seja, imaginemos que esse Deus nos leva a acreditar que todas as
demonstrações matemáticas são verdadeiras, apesar de serem falsas. O experimento mental
da figura do Deus enganador nos mostra que até a matemática, único resíduo de certeza que
mantínhamos em nossa mente, não é um conhecimento seguro.

Apesar de o experimento mental da dúvida metafísica, que incluía a figura do Deus enganador
e do gênio maligno, levá-lo a duvidar da própria matemática, Descartes, depois de muito
esforço, conseguiu, finalmente, superar seu estado de dúvida e alcançar sua primeira certeza.
A passagem do estado de dúvida para o estado de certeza e o conteúdo dessa primeira certeza
não serão desenvolvidos aqui. Para nós, foi suficiente mostrar o modo como Descartes se
utilizou de experimentos mentais para elaborar e operar uma dúvida que se diferenciava do
estado de dúvida que muitas vezes nos encontramos durante o dia a dia.

Consideramos que a dúvida metódica é uma experiência absurda quando vivenciada em nossa
rotina, mas ela se torna um notável empreendimento filosófico quando operada em um
experimento mental com uma finalidade filosófica. Descartes não era um neurótico que sofria
de um pensamento obsessivo pela dúvida, e sim um filósofo que utilizou a dúvida como
instrumento em sua jornada em busca pelo fundamento do conhecimento, pela primeira
certeza do saber.

RESUMO DO RESUMO
Descartes busca um ponto de partida sobre o qual possa fundar sua filosofia, busca uma
verdade que não possa ser questionada como tal, um princípio que possa lhe dar uma certeza
inquestionável. Assim pensando ele cria a dúvida metódica, a partir do qual ele duvida de
tudo, inclusive da própria existência e de todas as percepções dos seus sentidos. Todas as
minhas sensações podem estar me enganando, como me engano quando sonho e acredito que
o sonho é realidade.

Até as verdades matemáticas podem nos enganar, pois podem ser ilusões criadas por um
demônio, com o objetivo de me levar ao erro no agir, falar ou pensar.

E é justamente no grau máximo da dúvida que Descartes encontra a sua primeira verdade
inquestionável, enquanto duvido de tudo não posso duvidar que esteja duvidando, eu sou algo
que duvida, sou algo que pensa na dúvida, sou algo que existe por pensar, se penso, logo
existo.

Um pouco sobre o Gênio Maligno


https://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/rene-descartes-2-descartes-e-o-genio-
maligno.htm

Quando o filósofo francês René Descartes escreveu as suas "Meditações", em 1641, deparou-
se com um problema técnico. Tinha que mostrar ao leitor, ou melhor, provar, a dificuldade que
nós temos em confiar nas percepções dos sentidos para conhecer as coisas.

A percepção (o conhecimento que nos vem dos órgãos dos sentidos) é falha. Quando penso
que alguma coisa é real, eu posso estar apenas sonhando, tendo uma visão, posso estar com
febre ou mesmo estar mergulhado na loucura.

Mas mesmo assim, pensou Descartes, mesmo tendo alucinações ou sonhando, pode ser que
eu considere que alguma coisa que percebo pela visão ou pelo tato ou pela audição ainda
assim derive de algo real.

Foi aí que Descartes introduziu na sua obra uma ideia tentadora e interessante. E se existisse
um gênio maligno, uma entidade do mal, disposta a me enganar todo o tempo?

A conclusão do filósofo foi imediata. Mesmo que esse gênio usasse toda sua indústria para nos
passar a perna e nos fazer pensar que o que existe não existe e vice-versa, mesmo assim
alguma coisa de real nos restaria E essa coisa - a descoberta fundamental de Descartes - é o
cogito: nossa capacidade de pensar.

Ainda que eu estivesse redondamente enganado, ainda assim eu seria essa coisa que pensa,
essa coisa muito real que imagina, que sonha, que vê e que se engana redondamente. Mesmo
que tudo seja falso, a existência de algo que pensa, que duvida, que se engana, é verdadeira.

MAIS SOBRE OS ARGUMENTOS SONHOS E GÊNIO MALIGNO E


OUTRAS PARADAS
https://universoracionalista.org/descartes/

O método proposto por Descartes pode ser resumido da seguinte maneira: devemos pôr em
dúvida tudo aquilo que pode nos parecer falso. Deveríamos encarar com ceticismo tudo o que
nos apresentam, e com essa mesma postura deveríamos encarar tudo o que defendemos. De
acordo com esse método, deveríamos sempre fornecer fundamentações sólidas para nossas
teses, fundamentações essa que sejam irrefutáveis a luz do ceticismo. A partir dessa
fundamentação deveríamos reconstruir todo o nosso edifício de conhecimento. Teríamos
assim uma base, um fundamento inquestionável que a partir dele poderíamos, por
argumentos dedutivos e por um método claro e criterioso, remontar passo-a-passo esse
edifício. Assim, enfim, teríamos um conhecimento fundamentado, aceito indubitavelmente (ou
seja, sem dúvida ou questionamento contra), de modo que poderíamos afirmar com certeza o
que conhecemos, sem recairmos nos argumentos céticos e nas ilusões do raciocínio obscuro e
infundado. Deste modo, esse método se enquadra como uma tentativa de fugir dos
argumentos céticos.

Duas ideias chaves no pensamento de Descartes, que são apresentadas já no Discurso do


Método, é que os seres humanos são caracterizados por sua mente, são substâncias
pensantes. Isso se distingue do seu corpo, que é um objeto físico e material. A matéria seria a
extensão em movimento. Essa distinção entre mente e corpo é chamada de “dualismo”. Se
hoje algumas pessoas têm a tendência natural de pensar que mente e matéria são duas coisas
distintas (algumas pessoas até mesmo identificamos a alma como sendo a mente), é devido ao
dualismo proposto por Descartes.

A aplicação sistemática do método proposto por Descartes, como vimos, visa apresentar uma
fundamentação indubitável para todo o conhecimento. Deste modo, quando perguntarmos
quais a justificativas temos para uma certa crença, essa justificação remontaria a uma cadeia
de justificações que teria em sua base essa fundamentação indubitável, resultante do método
de Descartes. Seria a justificação de todas as justificações, digamos assim.

Para evitar sermos conduzidos ao erro, diz o método, devemos recusar tudo que possa ser
posto em dúvida. Eis que ele assume o ceticismo para argumentar a favor de sua tese. Vamos
ver como:

Argumento do Sonho:

Todos nós já tivemos sonhos vívidos o suficiente que, enquanto estávamos dormindo, não
podíamos identificar se estávamos sonhando ou estávamos acordado. Só descobrimos que
aquilo era um sonho quando enfim acordamos. Se você já sonhou que estava caindo de um
prédio e acordou assustado na cama, você sabe muito bem como é isso! O Descartes então
pergunta: Como podemos saber se não estamos sonhando? Quando um sonho é muito vívido,
nós só descobrimos que estamos sonhando quando acordamos. Mas e se estivéssemos
sonhando agora. Todas as sensações que temos nos pareceriam vívidas de tal modo que não
poderíamos saber se estamos ou não sonhando, e teríamos de esperar acordar. Vejamos as
palavras do Descartes:

“Em verdade, com que frequência o sono noturno não me persuadiu dessas coisas usais, isto é,
que estava aqui, vestindo essa roupa, sentado junto ao fogo, quando estava, porém, nu,
deitado entre as cobertas! Agora, no entanto, estou certamente de olhos despertos e vejo este
papel, e esta cabeça que movimento não está dormindo, e é de propósito, ciente disso, que
estendo e sinto esta mão, coisas que não ocorreriam de modo tão distinto a quem dormisse.
Mas, pensando nisso cuidadosamente, como não recordar que fui iludido nos sonos por
pensamentos semelhantes, em outras ocasiões! E, quando penso mais atentamente, vejo do
modo mais manifesto que a vigília nunca pode ser distinguida do sono por indícios certos, fico
estupefato e esse mesmo estupor quase me confirma na opinião de que estou dormindo.”
(Meditações Sobre a Filosofia Primeira – Primeira Meditação – René Descartes)
Se aceitarmos isso como razoável, colocamos em dúvida todas os nossos sentidos de uma só
vez. Poderíamos, muito bem, estar em um sonho tão vívido que seríamos incapaz de distinguir
o que é sonho e o que é realidade. Só disso ser possível abrimos brecha para argumentos
céticos. Então, de acordo com o método do Descartes, não podemos confiar em nossos
sentidos. O que vemos, o que ouvimos, o que sentimos ao tocar ou provar alguma coisa, o que
podemos dizer sobre o mundo externo à nossa mente. Tudo isso é posto em dúvida. Sendo
assim, grande parte do nosso conhecimento está em maus lençóis, pois os argumentos céticos
colocaram todas as justificações que temos para esses conhecimento em cheque. Mas tudo, é
isso que Descartes quer. Ele quer eliminar tudo o que podemos pôr em dúvida e encontrar
uma fonte segura.

Argumento do Gênio Maligno:

Digamos que houvesse um gênio – daquele da lâmpada, sabe? Do Alladin – que fosse
completamente poderoso, que soubesse de tudo, mas que fosse um grande filho da mãe. Ele
só quer nos enganar em tudo que puder. A possibilidade da existência de um gênio desse já
seria suficiente para nos colocar em dúvida sobre nosso sentidos – ele poderia estar nos
enganando. Mas já apresentamos o argumento do sonho, que parece razoável. Vamos ver o
que mais esse gênio maligno pode nos sacanear. Ainda que estivéssemos sonhando, parece
razoável aceitar que certas coisas não podemos nos enganar. Por exemplo, eu sei que dois
mais dois é igual a quatro. Eu não preciso justificar esse meu conhecimento me baseando nas
experiências que tenho no mundo externo, ou seja, esse conhecimento não é empírico. Eu sei
isso apenas pensando sobre o que é dois e o que é a operação de somar, de modo que eu
justifico que dois mais dois é quatro apenas pensando sobre isso, eu justifico a priori. Mas
imagina agora que esse gênio maligo é tão do mal que até isso ele nos faz errar. Toda vez que
pensamos sobre dois mais dois ele, por pura maldade, resolve nos fazer enganar e dizer que é
quatro. E ele é tão bom em cobrir seus passos que jamais saberíamos que estamos sendo
enganados. E aí? Como poderíamos ter certeza sobre os próprios cálculos da matemática, que
seria um refúgio para nossas certezas mesmo se estivéssemos sonhando?

Bom, nos encontramos no mesmo problema de pôr em dúvida nossos sentidos e justificações
para o conhecimento empírico, mas agora ele se estende para certos conhecimentos a priori,
ou seja, para justificações que fazemos apenas pelo pensamento. Descartes aceita esse
argumento cético novamente. Se podemos meramente conceber a existência de um gênio
maligno capaz de nos confundir quando fazemos cálculos matemáticos e certas inferências
que são justificadas apenas pelo pensamento, então devemos considerar esses tipos de
raciocínios passíveis de engano.

Se podemos nos enganar, de acordo com o método proposto por Descartes, devemos recusar.
Estamos na tarefa de procurar algo que seja conhecido por nós de modo claro e distinto, que
nenhum cético poderia atacar. Eis que o Descartes propõe o seu famoso Cogito. Vejamos as
palavras dele: “Resolvi fazer de conta que todas as coisas que até então haviam entrado no
meu espírito não eram mais verdadeira que ilusões d e meus sonhos. Mas logo em seguida
adverti que, enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente
que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade, eu penso, logo existo,
era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam
capazes de a abalar, julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da
filosofia que procurava.”
(Discurso do Método – René Descartes)