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A dúvida metódica

3.1 Começar de novo desde os primeiros fundamentos

Como vai Descartes proceder para encontrar as verdades indubitáveis de que necessita para
justificar as suas teorias científicas?

Temos muitas crenças, umas triviais, outras importantes, umas verdadeiras, outras falsas e
estamos habituados a rever e a abandonar as nossas crenças à medida que descobrimos que
são por alguma razão insatisfatórias. Talvez já tenhamos acreditado que o Sol se move no céu
de este para oeste todos os dias, mas quando nos mostraram que isso não corresponde à
realidade abandonámos essa crença. Fizemos o mesmo com muitas outras crenças. E estamos
dispostos a voltar a fazê-lo se, e quando, soubermos que uma crença é falsa. Esta forma de
proceder é apropriada aos nossos objetivos. Estamos, em geral, satisfeitos com as nossas
opiniões, porque elas permitem-nos responder adequadamente à maior parte das solicitações
do dia a dia e, por isso, só as revemos em caso de estrita necessidade.

Esta estratégia, no entanto, não serve o propósito de Descartes de fundar as ciências em bases
completamente sólidas e seguras. Para realizar este objetivo, ele precisa de encontrar
verdades absolutamente indubitáveis a partir das quais possa, ordenadamente, deduzir outras
verdades, que, por isso, ficamos a saber serem também indubitáveis. Ora, para encontrar estas
verdades, pensa Descartes, é necessário investigar metodicamente todas as crenças,
começando pelas mais básicas ou fundamentais, usando como princípio só aceitar como
verdadeiras as opiniões de que não haja a mínima razão para duvidar. Só deste modo, é
possível eliminar as opiniões que se revelem incapazes de resistir à dúvida, quer porque sejam
falsas quer porque a sua verdade não é indubitável.

Descartes não pensa, portanto, que todas as nossas opiniões sejam falsas. Ele admite que
muitas das nossas crenças de que é possível duvidar sejam verdadeiras. Mas como o seu
objetivo é encontrar verdades indubitáveis, qualquer opinião da qual haja razões para duvidar,
por insignificantes que sejam, pode ser abandonada como se fosse falsa. Também não pensa
que seja necessário percorrer todas as opiniões uma a uma e mostrar que são duvidosas ou
falsas, o que seria, evidentemente, impossível de fazer. Ele pensa que basta atacar os
fundamentos ou princípios dos quais as nossas opiniões derivam para pôr em questão todas
essas opiniões. Se esses princípios se revelarem duvidosos ou falsos, então é óbvio que todas
as opiniões que deles dependem são também duvidosas ou falsas. As crenças que se revelem
capazes de superar este teste indubitabilidade — isto é, das quais seja absolutamente
impossível duvidar — constituem as bases sólidas nas quais todo o conhecimento vai ser
fundado. É nisto que consiste o método cartesiano da dúvida.
3.2 Primeiro nível da dúvida: o argumento das ilusões dos sentidos

A maioria das pessoas pensa que o conhecimento tem origem nos sentidos e que os sentidos
são absolutamente fiáveis. Os filósofos costumam chamar a este ponto de vista muito popular
realismo de senso comum. O realismo de senso comum é constituído por duas teses
fundamentais:

a) a realidade existe de forma contínua e independente de nós;

b) conhecemos a realidade tal como ela é diretamente pelos sentidos.

O realismo de senso comum corresponde ao nosso ponto de vista de todos os dias. De uma
maneira geral, raciocinamos e agimos assumindo que existe um mundo composto por objetos
físicos, que os nossos sentidos nos mostram exatamente como são. Se vemos um amigo nosso
vestido com umas calças de ganga e uma camisola vermelha não duvidamos de que o nosso
amigo tenha, de facto, umas calças de ganga e uma camisola vermelha vestidas. A teoria do
conhecimento medieval, como já vimos, está de acordo com esta crença de senso comum,
segundo a qual os sentidos são fiáveis e, portanto, uma fonte adequada de conhecimento.
Dado isto, é natural que Descartes comece a investigação sistemática das nossas crenças pelas
que têm origem nos sentidos e que o primeiro argumento a que recorre, o argumento das
ilusões dos sentidos, tanto vá pôr em questão o realismo de senso comum como a tradição
filosófica vigente. Nas Meditações sobre a Filosofia Primeira, Descartes apresenta este
argumento do modo seguinte:

Porém, descobri que eles [os sentidos] por vezes nos enganam, e é de prudência nunca confiar
totalmente naqueles que, mesmo uma só vez, nos enganaram. (Meditações sobre a Filosofia
Primeira, p. 107.)

O argumento das ilusões dos sentidos tem por objetivo duvidar da fiabilidade dos sentidos,
isto é, pôr em causa que os sentidos são fiáveis e que nos mostrem os objetos físicos como
eles efetivamente são, e, como nos mostra o texto de Descartes, consiste em afirmar que os
sentidos enganam-nos, para daí concluir que os sentidos não são fiáveis. Descartes dá
exemplos deste tipo de enganos:

Com efeito, algumas vezes, mostravam-se de perto como quadradas torres que de longe me
parecem redondas, e enormes estátuas que se elevam nos seus terraços não me pareciam
grandes, vistas do rés-do-chão. (Meditações sobre a Filosofia Primeira, p. 205.)
Nestes e em outros casos semelhantes, os sentidos dão-nos informações contraditórias. A
conclusão a tirar destes casos, pensa Descartes, é que nenhuma crença com origem nos
sentidos é indubitável, uma vez que, mesmo quando os sentidos não nos enganam, o facto de
às vezes nos enganarem impede-nos de ter a certeza da sua verdade. Por outras palavras, os
sentidos não são uma fonte de conhecimento acerca da natureza dos objectos físicos, porque
nenhuma crença com origem nos sentidos, mesmo quando verdadeira, está infalivelmente
justificada.

3.3 Segundo nível da dúvida: o argumento dos sonhos

O argumento das ilusões dos sentidos levanta dúvidas quanto à fiabilidade das nossas
perceções em algumas ocasiões especiais. Mas, na maior parte das situações, podemos nós
objetar, temos absoluta certeza da verdade das informações que os sentidos nos fornecem.
Posso eu duvidar de que estou agora no meu escritório, sentado à secretária, a escrever no
computador? Percebe-se que duvidemos das sensações que nos mostram as torres como
redondas ou as estátuas como pequenas, pois temos muitas outras sensações que estão em
conflito com elas. Mas isso não acontece, nem parece poder acontecer, agora que
inequivocamente percepciono as estantes e os livros, a secretária e o computador, e todos os
objetos que constituem o meu escritório. Como poderia duvidar de que estou no meu
escritório, sentado à secretária, a escrever no computador quando os meus diferentes
sentidos inequivocamente o confirmam? A resposta a esta objeção, que põe em causa a
eficácia do argumento das ilusões dos sentidos, é o argumento dos sonhos.

Com efeito, quantas vezes me acontece que, durante o repouso noturno, me deixo persuadir
de coisas tão habituais como que estou aqui, com o roupão vestido, sentado à lareira, quando,
todavia, estou estendido na cama e despido! Mas agora, observo este papel seguramente com
os olhos abertos, esta cabeça que movo não está a dormir, voluntária e conscientemente
estendo esta mão e sinto-a; o que acontece quando se dorme não parece tão distinto. Como
se não me recordasse de já ter sido enganado em sonhos por pensamentos semelhantes! Por
isso, se reflito mais atentamente, vejo com clareza que vigília e sono nunca se podem
distinguir por sinais seguros […]. (Meditações sobre a Filosofia Primeira, p. 108.)

Já todos sonhámos que algo está a acontecer, para depois descobrirmos tratar-se apenas de
um sonho. As imagens mentais que temos em certos sonhos são tão idênticas às com origem
nos objetos que somos levados a pensar que aquilo que estamos a sonhar é real. Só quando
acordamos é que, retrospetivamente, percebemos ter-se tratado apenas de um sonho.
Descartes pensa que esta semelhança entre as perceções sonhadas e as reais mostra que, com
base nos sentidos, não é possível distinguir de forma absolutamente segura o sono da vigília e,
consequentemente, estarmos certos de que as perceções que estamos agora a ter
representam adequadamente à realidade.
Este argumento de Descartes tem sido tão mal entendido que é conveniente tentar explicá-lo
bem. A principal dificuldade talvez seja que tendemos a pensar imediatamente que temos a
certeza de estar agora acordados e que nunca nos ocorreu, quando acordados, que
pudéssemos estar a dormir e a sonhar. Mas será que temos mesmo a certeza? Podemos estar
convencidos de que agora estamos acordados, mas estarmos convencidos de que algo é
verdadeiro e termos a certeza de que é verdadeiro são duas coisas diferentes. Aquilo que o
argumento de Descartes pretende mostrar é que os nossos pensamentos em alguns sonhos
são tão semelhantes aos pensamentos que temos quando acordados, que, se compararmos
apenas esses pensamentos uns com os outros, não podemos ter a certeza absoluta de que uns
são sonhos e os outros são reais. E se não podemos ter a certeza absoluta de que os nossos
pensamentos atuais são reais, então não podemos dizer que sabemos ou conhecemos,
porque, como já vimos, para Descartes, só aquilo de que estamos absolutamente certos é
saber ou conhecimento.

Imaginemos que alguém nos apresenta duas imagens exatamente iguais da Ponte 25 de Abril,
em Lisboa, e nos diz que uma foi tirada com uma câmera fotográfica e a outra produzida com
um software extremamente poderoso, capaz de originar imagens em tudo semelhantes às
melhores fotografias das melhores câmeras. Ao olharmos atentamente para as duas imagens
vemos que nada as distingue, que são em tudo iguais. Podemos estar absolutamente seguros
de qual é a fotografia? Não, mesmo que alguém nos tenha fortemente convencido de que uma
delas é a fotografia. O mesmo se passa, pensa Descartes, com as nossas perceções que
representam a realidade e com o conteúdo de alguns dos nossos sonhos. São tão idênticos que
mesmo quando estamos firmemente convencidos de que umas representam a realidade e as
outras não, não podemos estar absolutamente seguros disso.

Por consequência, mesmo quando acredito firmemente estar sentado à secretária e a escrever
no computador, não posso estar absolutamente seguro de que é isso de facto o que está a
acontecer. É, portanto, logicamente possível que esteja a dormir e a sonhar, e que nada
daquilo em que acredito naquele momento esteja realmente a acontecer. Claro que é muito
improvável e não acreditamos por um momento que seja verdade. Isso, no entanto, não afeta
o argumento de Descartes, que depende apenas da possibilidade de algo ser verdade, não de
que o seja efetivamente. Se é logicamente possível que eu esteja a dormir e a sonhar, então
não é uma verdade indubitável que esteja sentado à secretária e a escrever no computador.

O argumento das ilusões dos sentidos põe em causa a nossa confiança nos sentidos, porque
estes às vezes enganam-nos. No entanto, o próprio Descartes reconhece que isso acontece
apenas em alguns casos muito especiais e que, portanto, o argumento das ilusões dos sentidos
não é suficiente para mostrar que os sentidos não são a origem de verdades indubitáveis. O
argumento dos sonhos responde a esta dificuldade, levando a dúvida mais longe ao chamar a
atenção para que não existe nenhum critério que permita distinguir com absoluta certeza
quando estamos acordados de quando estamos a sonhar, o mesmo é dizer, as nossas
perceções reais das nossas perceções ilusórias dos sonhos. É óbvio que para efeitos práticos do
dia a dia a distinção que fazemos entre sonho e vigília é adequada. Mas agora pretendemos
saber se pela experiência podemos chegar a verdades indubitáveis e, para isso, nenhuma
dúvida pode subsistir. Ora, se não posso estar completamente certo de que não estou a dormir
e a sonhar, também não posso estar seguro da verdade de nenhuma crença com origem na
experiência e, portanto, a experiência não é nunca uma fonte de verdades indubitáveis.

3.4 Terceiro nível da dúvida: o argumento do Deus enganador ou do génio maligno

O argumento das ilusões dos sentidos e o argumento dos sonhos levam o mais longe possível
as dúvidas acerca das nossas opiniões com origem nos sentidos. Se Descartes tivesse apenas
por objetivo mostrar que nenhuma crença com origem nos sentidos é uma verdade
indubitável, não precisaria de recorrer a nenhum outro argumento. Uma vez admitida a
possibilidade de estarmos a sonhar, todas as nossas crenças com origem nos sentidos podem
ser ilusórias. Mas Descartes não quer apenas mostrar que os sentidos não são uma fonte de
verdades indubitáveis; ele quer também estender a dúvida às crenças com origem na razão,
que são, para muitas pessoas, a fonte de verdades indubitáveis. O exemplo mais óbvio de
crenças com origem na razão é o das Matemáticas. A verdade de proposições, como, por
exemplo, 2 + 2 = 4, não é determinada através da experiência e, portanto, estas proposições
não são postas em questão pelo argumento dos sonhos. Como o próprio Descartes diz, quer
estejamos acordados quer estejamos a dormir, dois mais três são sempre cinco e um quadrado
tem sempre apenas quatro lados. Assim, para duvidar das proposições da Matemática, e em
particular, da Aritmética e da Geometria, Descartes vai recorrer a um outro argumento: o
argumento do Deus enganador ou do génio maligno.

Todavia, está gravada no meu espírito uma velha crença, segundo a qual existe um Deus que
pode tudo e pelo qual fui criado tal como existo. Mas quem me garante que ele não procedeu
de modo que não houvesse nem terra, nem céu, nem corpos extensos, nem figura, nem
grandeza, nem lugar, e que, no entanto, tudo isto me parecesse existir tal como agora? E mais
ainda, assim como concluo que os outros se enganam algumas vezes naquilo que pensam
saber com absoluta perfeição, também eu me podia enganar todas as vezes que somasse dois
e três ou contasse os lados de um quadrado. (Meditações sobre a Filosofia Primeira, pp. 110–
111.)

Descartes coloca agora a possibilidade de um Deus que é ao mesmo tempo criador,


sumamente poderoso e enganador. Um Deus assim pode ter-nos criado de forma a que nos
enganemos sempre que raciocinemos mesmo em relação àquilo que nos parece
completamente evidente.
Descartes usa este argumento com dois objetivos distintos. Em primeiro lugar, estender a
dúvida à existência das realidades físicas exteriores, uma vez que um Deus sumamente
poderoso e enganador tem a capacidade de fazer com que toda a existência seja uma espécie
de sonho ou criação nossa; e, em segundo lugar e principalmente, mostrar que as proposições
com origem na razão, como as da Matemática, não são verdades indubitáveis, uma vez que
Deus pode ter-nos criado de modo a que nos enganemos sempre que façamos uma operação
matemática simples.

Este é um argumento muito forte, uma vez que consiste em colocar a hipótese da existência
de um deus, ou génio maligno, capaz de fazer o que quer que seja. É evidente que Descartes
nunca acreditou que um deus com estas caraterísticas pudesse existir, mas, uma vez mais, a
mera possibilidade é tudo aquilo de que necessita. Se não podemos mostrar que a hipótese do
Deus enganador é falsa, então não podemos estar absolutamente certos da verdade de
nenhuma das nossas opiniões, seja das que têm origem na experiência, como a existência do
mundo, seja das que têm origem na razão, como as verdades da Aritmética e da Geometria.

Álvaro Nunes