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A Competência Territorial.

(Arts. 46 a 53 do CPC)

1. Considerações iniciais.

A competência é a medida da jurisdição. Todo juiz é investido de poderes


de jurisdição, mas não pode julgar qualquer causa a ele submetida. O nosso Poder
Judiciário é organizado visando à promoção de um processo justo, efetivo e resolvido
em prazo razoável.

Se um litígio que envolva um imóvel situado em São Paulo, por exemplo,


for submetido a um juiz da comarca do Recife, haveria grande dificuldade para a
produção de provas ou quaisquer diligências in loco, como uma perícia no imóvel. Da
mesma forma, um litígio que verse sobre a anulação de um contrato realizado na
comarca do Recife, onde ambos os contratantes mantêm domicílio, não pode, porque
assim o quis o autor, ser ajuizado na comarca de Ipojuca.

Assim, a Constituição Federal, o Código de Processo Civil e as leis de


organização judiciária dos Tribunais trazem várias regras que definem a competência
que deve ser observada em cada caso.

Como vimos na aula passada, há cinco modalidades de competência. A


competência material distingue as causas pela sua matéria. Por causa dela, existem, por
exemplo, juízos criminais, trabalhistas e civis distintos. Em algumas comarcas, os juízos
civis se subdividem entre varas cíveis, de família, de executivos fiscais, etc.

Além dela, a competência em razão da pessoa que desloca a competência


para juízos especializados para julgar causas que envolvam determinada pessoa, como
as varas da fazenda pública (se elas existirem na comarca, todas as causas civis que
envolvem o estado, o município e os entes públicos vinculados a eles são julgadas lá) e
as varas federais (conforme art. 109, I, da CF/88 1), ou ainda para um tribunal, como é o
caso das pessoas que tem foro privilegiado (deputados, senadores, Presidente da
República, entre outros).

Ainda temos a competência hierárquica ou funcional, cujo critério se dá


pela posição do órgão na estrutura do Poder Judiciário. Por ela, os recursos não são
julgados pelo juiz que mesmo juiz que proferiu a sentença (com exceção dos embargos
de declaração), mas pelo órgão colegiado competente. Também incumbe aos Tribunais
a competência originária para algumas causas, como o mandado de segurança e o
habeas corpus contra ato de juiz (pois se entende ser razoável que ações como essas
sejam processadas em juízo hierarquicamente superior).

A competência em razão do valor da causa tem respaldo na Lei 9.099/95,


a lei dos Juizados Especiais. Logo, caso queira, o jurisdicionado que tiver uma causa de

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Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar:
I - as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na
condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de falência, as de acidentes de trabalho e as
sujeitas à Justiça Eleitoral e à Justiça do Trabalho;
valor baixo, nos parâmetros da referida lei, pode ajuizar ação em Juizado Especial
competente, que segue um rito diferente das varas, que preza por mais celeridade.

Por fim, a competência territorial ou competência de foro, que define o


lugar onde deverá ser ajuizada a ação. Suas principais regras, que se encontram no CPC,
serão objeto da análise que será feita a partir dos próximos itens.

2. A competência territorial.

As normas que definem a competência territorial destacam-se das demais


modalidades, o que justifica um estudo mais aprofundado. São regras que se prestam a
definir o foro onde a ação deve ser ajuizada, a depender da natureza do litígio (ação que
versa sobre herança), do objeto litigioso (bem móvel ou imóvel) ou ainda de
característica de uma pessoa que componha o litígio (a incapacidade).

O foro é a circunscrição territorial onde a causa deve ser proposta. Isso


porque todo órgão jurisdicional exerce sua função dentro de um determinado espaço
territorial.

Note-se que as competências material, pessoal, hierárquica e em razão do


valor da causa definem o juízo competente, mas não definem o lugar. Caberá à
competência territorial, então, delimitar o foro competente.

Muitas vezes, foro e comarca se confundem. Porém, pode haver um foro


competente para mais de uma comarca, como na Justiça Federal de Pernambuco, que
não tem subseção em Olinda, razão pela qual a ação deve ser ajuizada em vara federal
situada no Recife.2

Em regra, a competência territorial é relativa, admitindo a prorrogação de


competência e a eleição de foro. Quando houver concorrência entre dois foros, sendo
um de competência absoluta e outro de competência relativa, aquele prevalece sobre
este, para que se proteja o interesse público. Quando tratarmos dos casos de
competência territorial absoluta, apresentaremos um exemplo em que essa modalidade
prevalecerá sobre a relativa.

2
A JFPE disponibiliza, em seu sítio eletrônico, o mapa de divisão dos foros competentes para cada
comarca em: http://www.jfpe.jus.br/index.php/institucional/lista.html.
3. As regras de competência territorial do CPC.
3.1. O critério geral: art. 46.

O critério geral para a fixação da competência territorial é o foro de


domicílio do réu.3 De acordo com o art. 46 do CPC, se a ação versar sobre direito
pessoal ou direito real sobre bens móveis, o foro competente será o do domicílio do réu.
O art. 46 também traz algumas hipóteses especiais que podem modificar o foro
competente.

Ademais, nos itens seguintes, veremos algumas exceções ao critério


geral, classificadas como critérios especiais. Assim, sempre que uma ação não estiver
enquadrada em uma das hipóteses expressas de foro especial, o foro competente será o
geral – o do domicílio do réu.

O § 1º estabelece caso de competência concorrente: quando o réu possuir


mais de um domicílio, ficará a critério do autor selecionar um deles onde ajuizará a
ação.

Já o § 2º dispõe sobre caso em que o domicilio do réu seja incerto ou


desconhecido, quando o autor deverá ajuizar ação no foro onde for encontrado o réu, ou
em última análise, no foro de seu domicílio, hipótese conhecida como competência
subsidiária (e não concorrente). 4

O § 3º também é caso em que o demandante poderá acionar no foro de


seu domicílio. Para isso, deve o réu ser domiciliado fora do Brasil. Sendo ambos
domiciliados no exterior, qualquer foro situado em território nacional será competente.
Esse parágrafo busca definir o foro competente nas hipóteses previstas nos arts. 21 a 23
do CPC (competência internacional da autoridade judiciária brasileira).

O § 4º dispõe sobre o litisconsórcio passivo em que os réus sejam


domiciliados em foros diferentes. Mais uma vez, é hipótese de competência
concorrente: o autor pode escolher qualquer um desses foros. Essa regra, todavia, tem
uma exceção: se um dos réus tiver prerrogativa de foro, justiça ou juízo. Nesse caso,
conforme já explanado, a competência absoluta sobrepõe-se à relativa. Por exemplo, o
foro competente para a ação movida contra um particular que reside em Vitória de
Santo Antão e a União Federal, em litisconsórcio passivo, é aquele onde se situa a Vara
Federal, portanto, Recife (tendo em vista a competência absoluta da JF delimitada no
art. 109, I, CF). Não pode, nesse caso, o autor escolher entre Vitória e Recife, aplicando
o art. 46, § 4º, CPC.

Por fim, o § 5º assegura o foro de domicílio ou residência do réu para a


Execução Fiscal, que é uma ação promovida pela Fazenda Pública (nacional, estadual
ou municipal) para executar um tributo que foi cobrado e não foi pago pelo
3
Tecnicamente, domicílio não é sinônimo de residência. Domicilio é a sede jurídica da pessoa. É o lugar
em que, para efeitos jurídicos, a pessoa presumivelmente se encontra. A residência é uma mera situação
de fato. Para se configurar o domicílio, a residência deve ter ânimo definitivo. Logo, o domicílio requer
um elemento objetivo (a residência) conjugado a um elemento subjetivo (ânimo definitivo), conforme se
extrai do art. 70 do Código Civil.
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A diferença entre foro concorrente e foro subsidiário é que, naquele, o autor pode escolher entre os
foros competentes e, neste, um dos foros tem preferência sobre outro, que só será competente ante a
impossibilidade de ajuizar ação no preferencial.
contribuinte.5 Não havendo domicílio ou residência, será promovida no lugar onde for
encontrado o réu. Esse parágrafo facilita o exercício do contraditório pelo contribuinte,
mas, ao definir como competente o seu foro de domicílio, pode beneficiar a Fazenda
Pública na busca por bens para medidas assecuratórias da execução, como penhoras e
arrestos.

Além das exceções presentes em alguns dos parágrafos do artigo 46,


outros artigos trazem critérios especiais de fixação competência para os casos nos quais
não se aplica o critério geral (foro de domicílio do réu). Analisaremos esses dispositivos
a seguir.

3.2. Os critérios especiais.


3.2.1. Ações imobiliárias (art. 47).

Quando a ação fundar-se em direito real sobre bens imóveis, o foro


competente não será mais o do domicílio do réu, mas aquele onde se encontra a coisa
(art. 47, CPC). Esse critério especial se funda na maior capacidade do juiz do foro onde
está situado o bem imóvel em julgar os litígios dos quais este bem é objeto, aliada à
facilitação da colheita de provas.

Como vimos, a competência territorial é relativa, porém, os parágrafos do


art. 47 do CPC trazem hipóteses em que ela passará a ser absoluta. Trata-se das ações
em que se discutam direitos de propriedade, vizinhança, servidão, divisão e demarcação
de terras e nunciação de obra nova (§ 1º), além da posse (§ 2º). Afora essas hipóteses, o
foro de domicílio do réu ou o foro de eleição também são competentes.

Portanto, o foro competente para uma ação de rescisão contratual


cumulada com reintegração de posse será o da situação da coisa, pois a ação que versa
sobre rescisão contratual se dá nos termos do art. 46 (foro do domicílio do réu), sendo
de competência relativa, enquanto a ação que versa sobre a posse de bem imóvel funda-
se no art. 47, § 2º, e, tendo competência absoluta, prevalece.

Estando o imóvel situado em mais de uma comarca, a ação pode ser


ajuizada em qualquer uma delas. O critério para saber qual juiz deve julgar é o da
prevenção (art. 60, CPC).

3.2.2. Ação de herança e réu ausente (arts. 48 e 49).

O art. 48 define que o foro competente para ações que versam sobre a
herança – também chamado de foro de sucessão - é o do domicílio do falecido (autor da
herança). O parágrafo único dispõe sobre o foro competente quando o autor não possuía

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O Fisco (sujeito responsável pela verificação do pagamento dos tributos pelo contribuinte) abre um
processo administrativo de cobrança, assegurado o contraditório e a ampla defesa. Ao fim desse processo,
o tributo pode ser pago ou pode ficar provado que a sua cobrança é indevida. Porém, também é possível
que se decida pela legalidade da cobrança, quando o Fisco terá um título chamado Certidão de Dívida
Ativa (CDA), que, caso não seja pago ao final do processo administrativo, será executado judicialmente
através da Ação de Execução Fiscal.
domicílio certo, beneficiando a localidade de seus bens (com preferência aos imóveis
sobre os móveis). Logo, o foro competente será:

a) o de situação dos bens imóveis;


b) havendo bens imóveis em foros diferentes, qualquer destes;
c) não havendo bens imóveis, o do local de qualquer dos bens do
espólio.

O art. 49, que cuida da ação em que o réu for pessoa ausente (como na
ação de declaração de ausência – art. 22 e ss do CC e 744 e ss do CPC), segue a mesma
linha: o foro competente será o do seu último domicílio.

Porém, se o ausente for autor, caso em que será representado por curador
especial nomeado pelo juiz, aplica-se a regra do art. 46 do CPC.

3.2.3. Ação em que o réu é incapaz (art. 50).

No caso da ação movida em face de pessoa absoluta ou relativamente


incapaz, o foro competente é o do domicílio do seu representante ou assistente,
conforme o art. 50 do CPC.

Vale ressaltar que o domicílio do incapaz sempre será o mesmo do seu


representante ou assistente, de acordo com o art. 76, parágrafo único, do Código Civil. 6

Consequentemente, esse dispositivo, na prática, não é uma exceção ao


critério geral que estabelece que o foro competente é o de domicílio do réu, pois o
domicílio do réu incapaz é sempre o mesmo do seu representante ou assistente.

3.2.4. Ações que envolvem entes federativos (arts. 51 e 52).

Também não comportará exceção ao critério geral de competência


territorial (foro de domicílio do réu) quando o autor da ação for a União Federal (art.
51) 7 ou os Estados e Distrito Federal (art. 52).

A regra muda, contudo, se esses entes forem réus (parágrafos únicos dos
arts. 51 e 52 do CPC e art. 109, § 1º, CF), quando o autor poderá aciona-los (foros
concorrentes):

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Art. 76. Têm domicílio necessário o incapaz, o servidor público, o militar, o marítimo e o preso.

Parágrafo único. O domicílio do incapaz é o do seu representante ou assistente; o do servidor público,


o lugar em que exercer permanentemente suas funções; o do militar, onde servir, e, sendo da Marinha ou
da Aeronáutica, a sede do comando a que se encontrar imediatamente subordinado; o do marítimo, onde o
navio estiver matriculado; e o do preso, o lugar em que cumprir a sentença.

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Além da União Federal, incluem-se as nesta norma as autarquias e fundações públicas a ela vinculadas,
bem como as empresas públicas federais (Art. 109, I, CF).
a) no foro de seu domicílio;
b) no de ocorrência do fato que originou a demanda;
c) no de situação da coisa, ou
d) na capital do ente (se for contra a União, no Distrito Federal).

3.2.5. Demais critérios especiais (art. 53).

Uma série de critérios especiais está disposta no art. 53 do CPC.

Seu primeiro inciso dispõe sobre as ações de divórcio, separação,


anulação de casamento e reconhecimento ou dissolução de união estável. Há
possibilidade de três foros competentes, de forma subsidiária, na seguinte ordem:

a) Havendo filho incapaz, no foro daquele que possui a sua guarda,


como forma de proteger o menor ou o maior incapaz, que possui
menor mobilidade e disponibilidade;
b) No foro do último domicílio do casal, não havendo filho incapaz;
c) No domicílio do réu, caso as partes não residam mais no último
domicílio do casal.

O inciso II define que a competência para a ação em que se pedem


alimentos é do foro de domicílio ou residência do alimentando (parte que requer os
alimentos), admitindo que este ostenta condição de hipossuficiência em relação ao
alimentante (quem deve pagar os alimentos).

O inciso III trata do foro competente quando a pessoa jurídica for parte.
Em regra, é a sua sede, local apontado nos atos constitutivos ou estatutos, mas pode
também ser o da agência ou sucursal, caso existam, nas ações que versem sobre
obrigações contraídas pela empresa – letras a) e b). Não possuindo personalidade
jurídica, o foro é onde se exerce as atividades – letra c).

O inciso III, em sua letra d), ainda dispõe sobre o foro competente para
ações que busquem o cumprimento de obrigações não satisfeitas, que deve ser disposto
no contrato. Não se trata de qualquer ação contratual (anulação, rescisão, etc.), mas a de
execução do contrato no lugar previamente firmado.

Ademais, o inciso III trata das ações movidas pelo idoso com base no
Estatuto do Idoso. Na letra e), aponta que o foro competente é o da residência do idoso,
admitindo, semelhantemente ao que ocorre nos casos do alimentando e do filho incapaz,
a hipossuficiência decorrente de menor disponibilidade e mobilidade.

O inciso III, f), e o inciso IV, a), dizem respeito à competência do foro
para a ação de reparação de danos, que é a do local do ato ou fato onde se gerou tal
dano. Pelo inciso IV, b), também é competente o local do ato ou fato quando causado
por administrador ou gestor de negócios alheios.

Por fim, o inciso V traz hipóteses que mudam as regras do inciso IV: a
reparação de danos sofridos em razão de delito ou acidente de veículos, inclusive
aeronaves (enquadram-se, na regra, veículos de qualquer natureza)8. Nesses casos,
8
Vale ressaltar que essa reparação é a de natureza civil. A de natureza penal fica a critério do CPP.
haverá dois foros concorrentes (ou seja, fica a critério do autor escolher qualquer um
deles): o domicílio do autor – que pode ser melhor pela proximidade - ou do local do
fato – que pode ser melhor para a instrução probatória.

4. Referências bibliográficas.

DIDIER JR., Fredie. Curso de Direito Processual Civil: introdução ao direito


processual civil, parte geral e processo de conhecimento. 17. ed. Salvador: Jus Podivm,
2015.

DIDIER JR., Fredie, PEIXOTO, Ravi. Novo código de processo civil: comparativo com
o código de 1973. Salvador: JusPodivm, 2015.

NERY JUNIOR, Nelson, NERY, Rosa Maria de Andrade. Comentários ao Código de


Processo Civil. São Paulo, Revista dos Tribunais, 2015.