Você está na página 1de 13

Barbosa

relato de LMS et al.


experiência

Estudo sobre o sistema simbólico


com foco no desenho – a construção
de um olhar avaliativo
Laura Monte Serrat Barbosa; Carolina Koschnitzke Horst; Cristiane Corina Antunes;
Dyane da Silva; Eugênia Chaves de Souza Pelogia; Ivonilce de Fatima Rigolin Gallo;
Larissa Maria Volcov Alves; Roberta Aparecida Uceda; Tauani Vieira

RESUMO – Nesta pesquisa, buscou-se compreender a concepção de


desenho que as crianças possuem, o momento conceitual em que se
encontram, as relações que fazem com outros sistemas: afetivo, motor e
operativo, assim como sua forma de desenhar. O Grupo de Estudos criou um
instrumento avaliativo apoiado na pesquisa de Rosa Iavelberg e escolheu
como elementos de análise dos desenhos: o desenvolvimento cognitivo,
o código utilizado para desenhar, a construção da imagem, a vinculação
afetiva com as situações de aprendizagem. Nesta pesquisa, procurou-se
responder à seguinte pergunta: Os elementos de análise observados na
produção desenhada pela criança dialogam com o conceito que ela tem
sobre o desenho ação, o desenho imaginação, o desenho apropriação, o
desenho proposição?

UNITERMOS: Desenho. Instrumento Avaliativo. Sistema Simbólico.

Laura Monte Serrat Barbosa – Pedagoga, especialista Ivonilce de Fatima Rigolin Gallo – Pedagoga, es­pe­cia­­­
em Psicologia Escolar e da Aprendizagem, mestre em lista em Psicopedagogia e em Letras, Curitiba, PR,
Educação, formada em Clínica Psicopedagógica e em Brasil.
Teoria e Técnica de Grupos Operativos, Curitiba, PR, Larissa Maria Volcov Alves - Pedagoga, especialista em
Brasil. Psicopedagogia, Curitiba, PR, Brasil.
Carolina Koschnitzke Horst – Pedagoga, especialista Roberta Aparecida Uceda – Graduada em Ciências
em Psicopedagogia e em Psicomotricidade, Curitiba, Biológicas, especialista em Psicopedagogia e em Edu­
PR, Brasil. cação, mestre em Gestão Educacional, Curitiba, PR,
Cristiane Corina Antunes – Pedagoga, especialista Brasil.
em Metodologia de Ensino Fundamental e Superior, Tauani Vieira – Estudante de Psicologia, Curitiba, PR,
em Organização do Trabalho Pedagógico, em Neuro­ Brasil.
psicologia, em Psicopedagogia, em Educação Especial
Correspondência
e em Altas Habilidades/Superdotação, Curitiba, PR,
Laura Monte Serrat Barbosa
Brasil.
Rua Mauá 838/1002 – Curitiba, PR, Brasil
Dyane da Silva – Graduada em Letras, especialista
CEP 80030-200 – E-mail: lauramserrat@hotmail.com
em Educação Especial, em Psicopedagogia, pós-gra­
duanda em Neuropsicopedagogia, Curitiba, PR, Brasil.
Eugênia Chaves de Souza Pelogia – Pedagoga, es­
pe­­cialista em Psicopedagogia e em Tecnologias da
Edu­cação, pós-graduanda em Psicanálise, Curitiba,
PR, Brasil.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(109): 96-108

96
Sistema simbólico focando o desenho

INTRODUÇÃO Para isso, foram estudados: o desenvolvi-


A partir do estudo O Desenho na Perspectiva mento cognitivo (Dolle)4, o desenho (Piaget &
da Psicopedagogia1, o grupo de estudos tinha o Inhelder)5, a avaliação (Oliveira & Bossa)6, as
objetivo de aprofundar o tema, uma vez que o pautas gráficas e as técnicas projetivas (Visca)7,8,
sistema simbólico é um dos menos estudados e a interpretação do desenho infantil (Di Leo)9.
na Psicopedagogia, com vistas à intervenção, e As leituras e as discussões foram realizadas
o que mais se confunde com a avaliação peda- tendo como objeto de estudo a pesquisa que
gógica e fonoaudiológica. cada integrante do grupo de estudo ia fazendo
Sendo assim, reuniram-se oito* profissionais ao longo do semestre.
da Psicopedagogia e uma estudante de Psicolo­ Assim, chegou-se à proposta de investigação
gia para ampliar a pesquisa sobre o desenho a respeito do sistema simbólico, descrita na
cultivado, sobre a imagem, sobre a evolução do sequência.
desenho na criança e sobre possibilidades de
interpretação do desenho em um processo ava- I ENTREVISTA DE AVALIAÇÃO PSICOPE­
liativo psicopedagógico. DAGÓGICA POR MEIO DO DESENHO
Apoiado na pesquisa de Iavelberg2, o grupo
PROTOCOLO
organizou um protocolo de entrevista, o qual foi
Nome:
aplicado com crianças de diferentes idades; sua
Idade:
análise, durante os encontros, observou aspectos
Data de nascimento:
que diziam respeito à aprendizagem e que pode-
Ano escolar:
riam ser observados por um psicopedagogo num
Data da aplicação:
processo avaliativo. Além disso, organizaram-se
pranchas inspiradas nas pranchas sugeridas na Solicitar à criança que realize um desenho.
pesquisa já citada e, depois de muitas aplicações, Após o desenho, aplicar as questões a seguir.
escolheram-se materiais para proceder a avali- 1) O que é desenho?
ção do sistema simbólico, por meio do desenho. 2) O que pode aparecer nos desenhos? Por
Esse estudo possibilitou ao grupo compreen- quê?
der a concepção de desenho de uma pessoa e 3) Que coisas que existem e podem aparecer
o momento conceitual em que se encontra, ou nos desenhos? Por quê?
seja, quando olha para as pranchas e responde às 4) Que coisas que não existem e podem
perguntas feitas, a criança apresenta um conceito aparecer nos desenhos? Por quê?
de desenho ação, de desenho imaginação, de 5) Rabisco é desenho?
desenho apropriação ou de desenho proposição. 6) Você observa o desenho de outras pessoas
Porém, conhecer apenas o conceito que a e escolhe elementos para enriquecer o seu
criança possui sobre o que é desenho não é sufi- desenho? Dê um exemplo.
ciente para uma avaliação do sistema simbólico 7) Mostrando as pranchas (P) e outros ele-
num olhar psicopedagógico. Foi necessário apro- mentos, perguntar: Isso é desenho? Por
fundar o conhecimento sobre o desenvolvimento quê?
da imagem e dos códigos existentes quando ela P1 – Prancha que contém algumas formas
é produzida, conforme Pain & Jarreau3. Além com linhas curvas e retas coloridas, cober-
disso, buscou-se estabelecer as relações com tas por rabiscos verdes que cobrem quase
os outros sistemas que compõem o desenvolvi- todas elas.
mento humano. P2 – Prancha que contém rabiscos com
formas circulares, que se fecham ou não,
* O Grupo de Estudos Refletir, coordenado por Laura Monte
Serrat Barbosa, foi criado em 1995 e, na elaboração desse
e com algumas que entrelaçam as linhas
estudo, foi composto pelas autoras. formando uma espécie de “e” cursivo.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(109): 96-108

97
Barbosa LMS et al.

P3 – Prancha que contém letras e pseudole­ relativa às nove pranchas e aos três objetos
tras agrupadas, como se formassem quatro (prato, pedras sem forma e pedras com formas):
palavras e uma frase.
P4 – Prancha que contém letras que a) Desenho Ação
formam seis palavras, umas abaixo das A criança desse nível de conceituação não
outras, com embasamento silábico-alfabé- per­cebe que o desenho pode variar ao longo
tico, sendo possível reconhecê-las, embora do crescimento das pessoas, que os desenhos
faltem alguns grafemas. de crianças mais velhas e de adultos são mais
P5 – Prancha que contém o desenho de elaborados.
um sol. A pessoa desse nível considera desenho a ação
P6 – Prancha que contém o desenho de que é realizada sobre uma superfície bidimen-
uma fi­gura humana, com linhas tipo “pa- sional que apresente imagens pré-simbólicas
lito”. ou simbólicas. Normalmente, dá significados
P6a – Prancha que contém o desenho de às imagens pré-simbólicas que aparecem nessa
uma figura humana, no qual os traços superfície. No entanto, com o material tridimen-
representam o volume do corpo, colorido sional, só considera como desenho aquele que
como uma estampa. apresenta imagem simbólica. As pedras sem for-
P7 – Prancha que contém uma reprodução ma, por exemplo, não são consideradas desenho,
da obra Dom Quixote, de Pablo Picasso, mas as pedras que formam uma figura humana,
em preto e branco; esta mesma é utilizada
um sol, ou qualquer outra imagem, são consi-
no prato (descrito na sequência).
deradas desenho.
P8 – Prancha que contém um desenho
abstrato informal, com linhas pretas, pre- Para Iavelberg², o sujeito possui um conceito
enchido com várias cores em seus espaços. de desenho – ao qual denominou Desenho Ação
P9 – Prancha que contém desenho resul- – e responde “sim” à pergunta “Isso é desenho?”
tante de uma xilogravura, em sépia. em relação a quase todas as pranchas apresenta-
P10 – Prancha que contém o desenho de das, com exceção daquela que apresenta sinais
uma figura humana realizada por uma parecidos com letras e números e do cartão com
criança de 10 anos. as pedras soltas, sem formas.
P11 – Prancha que contém um desenho de Ela tende a imitar por meio de ação o que ob-
natureza morta, feito com lápis grafite, em serva nas pessoas que desenha.
tons de cinza. A criança não espera que a imagem tenha
Prato – Estampa de uma reprodução da que se parecer ao objeto para ser um desenho.
obra Dom Quixote, de Pablo Picasso (P7), Refere-se ao que existe e ao que não existe,
sobre um prato tamanho sobremesa. pautada por uma mistura entre fantasia e reali-
Pedrinhas com forma – Pedras soltas sobre dade. Diz, por exemplo, que Papai Noel existe e
um cartão com a intenção de representar pode ser desenhado, enquanto que dinossauros
uma figura humana. não existem e não podem ser desenhados. Isso
Pedrinhas sem forma – Pedras soltas sobre tem a ver com a sua experiência e a vivência.
um cartão sem a intenção de representação.
Em cada item, anotar sempre as respostas e b) Desenho Imaginação
observações do aprendiz. A pessoa que conceitua o desenho, nesse nível,
acredita que se desenha o que se deseja dese-
ANÁLISE DAS RESPOSTAS DO ENTRE­ nhar, apesar de poder ainda se prender à ação
VISTADO em suas respostas.
Momentos conceituais são constatados na Mostra a ideia de representação e de uma re­
en­trevista, nas questões iniciais, na questão lação do desenho com a arte.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(109): 96-108

98
Sistema simbólico focando o desenho

Acha que tanto as coisas que existem como as no mundo interno, sem guardar semelhanças aos
que não existem podem ser desenhadas. objetos naturais.
Não mistura o universo imaginário com o dos Apresenta a ideia do desenho como projeto.
objetos naturais. Faz interagir com mais flexibilidade o seu
Não reconhece o rabisco como desenho, mas repertório com a produção já existente.
entende que essa é a forma de desenhar de Apropria-se das convenções e dos modelos
crianças bem pequenas. existentes, utiliza-os de forma mais sistemática,
Fica em dúvida diante de pseudoletras, para mas os transforma ao deixar interagir com o seu
afirmar ou não que são desenhos, mas considera repertório.
a escrita como diferente do desenho. Toma consciência da presença de um estilo
O desenho abstrato também lhe causa dúvida pessoal.
de que é ou não desenho. Projeta sentidos imaginados sobre as formas.
Distingue os desenhos, rabiscos, produzidos Acha que coisas que não existem podem ser
por uma criança bem pequena de desenhos desenhadas e dizem respeito a personagens
abstratos produzidos por adultos. imaginários.
Percebe a evolução do desenho de acordo Não compreende a abstração como algo que
com a idade. pode ser intenção de quem desenha.
Já pode comparar o seu desenho com o do Busca ajuda para fazer perspectiva e usar luz
outro e aprender com o outro. e sombra nos desenhos, no ambiente cultural a
Não considera as pedras soltas que formam que pertence.
imagem ou as que não formam imagem como de- Apresenta um empobrecimento no plano ex-
senhos; identifica-as como sendo uma montagem. pressivo e criativo, devido à preocupação com a
apropriação das convenções existentes.
Iavelberg² identifica esse nível de conceitua-
ção do desenho como Desenho Imaginação pelo Aí se encontra a justificativa pela qual Iavel-
fato de a criança já diferenciar rabisco de abs- berg² denomina este nível de conceituação do
trato, acreditando que o desenho sai da cabeça e desenho como Desenho Apropriação.
que tudo é possível de ser desenhado. No entanto,
não considera desenho a ação de desenhar com d) Desenho Proposição
material tridimensional. A criança que se encontra nesse nível de con-
ceituação já possui a consciência de que o dese-
c) Desenho Apropriação nho é uma forma de expressão individualizada
O sujeito que se encontra nesse nível situa e que traz a marca e o estilo de quem desenha.
o desenho como arte, percebe as convenções e Ao responder à entrevista, justifica falando de
classifica os tipos de desenhos de acordo com os desejo, sentimento e estado de espírito de quem
diferentes ambientes nos quais se apresentam. faz o desenho.
Reconhece como desenho o que é produzido, Não atribui significado às formas abstratas.
independentemente se por pessoas que conhece Apresenta a possibilidade da leitura de sen-
ou não. tido apenas formal; fala do pensamento artístico
Reconhece a abstração como desenho, mas relacionado àquela abstração como a proposição
projeta sentido às formas; ainda não reconhece de um modelo, sem colocar pareceres e senti-
a abstração como um desenho que fala por si mentos pessoais.
mesmo. Classifica as coisas que existem como sendo
Acredita que pode ser desenhado o que está na as coisas concretas, e as que não existem como
imaginação de quem desenha; conecta o dese- aquelas que são criadas pela imaginação, in-
nho com o desejo de desenhar o que está inscrito cluindo a abstração.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(109): 96-108

99
Barbosa LMS et al.

Reconhece o rabisco como forma de desenho Piaget & Inhelder5 dizem que o desenho é uma
e diferencia da abstração do desenho adulto, das formas da função semiótica (simbólica) que
por existir a intenção de produzir algo abstrato. aparece entre o jogo simbólico (do faz de conta)
É capaz de interrelacionar e separar desenho e a imagem mental. Em seus estudos, Piaget &
de escrita, considerando a possibilidade de es- Inhelder5 comentam que Luquet, já em 1913,
crita também como uma forma de desenho. explicitou estágios de desenvolvimento e inter-
Aparece o modelo externo estando a serviço pretações do desenho, ainda dando direção aos
do aperfeiçoamento de seu trabalho individual. estudos da evolução cognitiva.
Já tem plena consciência de seu estilo. Tais estágios continuam sendo fundamentos
Pode classificar os cartões com pedras soltas, dos estudos atuais sobre o desenho e a evolução
com forma e sem forma, como escultura ou mon­ do sujeito que aprende e podem ser assim esque­
tagem; no entanto, as pedras dispersas são consi- matizados:
deradas como uma imagem abstrata, mostrando – Realismo fortuito: trata-se do desenho por
a assimilação do conceito de abstração. meio de garatuja, que vai ganhando sig-
Este nível de conceituação foi chamado de nificado durante o desenrolar do desenho
Desenho de Proposição pelo fato do entrevistado (até 3 anos mais ou menos);
considerar os modelos externos como possibili- – Realismo gorado, ou fase de incapacidade
dades de enriquecimento da própria produção, sintética: é quando aparecem todos os ele-
oportunizando a proposição de novas criações. mentos a serem representados, mas sem
estarem articulados ou formando um todo;
II CONSIGNAS PARA A REALIZAÇÃO DE por exemplo, o ca­belo fora da cabeça, os
DESENHOS braços descolados do tronco etc. (de 3/4 a
Após a aplicação do protocolo apresentado, 5/6 anos);
rea­liza-se um segundo momento da proposta – Realismo intelectual: o desenho aparece
de investigação com a aplicação das seguintes com os elementos que o desenhista sabe
consignas. que o objeto possui, mesmo que ele não os
1) Desenhe uma pessoa em um barco. Conte- veja em determinada perspectiva. Assim,
-me sobre o seu desenho. aparecem as transparências, ou seja, o
2) Desenhe uma casa. Conte-me sobre o seu coração é desenhado por cima da roupa,
desenho. assim como o umbigo, ou ainda os móveis
que estão dentro da casa são desenhados
ANÁLISE DA PRODUÇÃO DESENHADA sobre a parede, e as raízes de uma planta
DO APRENDIZ são traçadas embaixo da terra (6/7 anos);
a) Desenvolvimento cognitivo – Realismo visual: o desenho mostra apenas
O desenho, segundo Piaget & Inhelder 5, o que é possível ser visto e também assume
também pode ser objeto indicativo do desen- uma proporção métrica; o desenho é orga-
volvimento cognitivo. Para eles, a inteligência nizado de forma a coordenar um plano de
passa a ser de sensório-motora a representativa, conjunto em relação à perspectiva (8/9 anos).
e cada objeto pode ser evocado em imagem e re- A criança inicia a ação de desenhar guiada
presentado por uma função simbólica, observada pela imitação diferida, ou seja, imita o ato de dese-
na forma que a criança assume para evocá-los: a nhar na ausência de modelo; faz as suas garatujas
linguagem, a imitação diferida, a imagem mental, por volta de 2 anos.
o desenho e o jogo simbólico. Por volta dos 4/5 anos, ela usa o desenho como
O foco desse estudo é o desenho e, por isso, forma de representação de algo que não está pre-
discute-se como ele pode ser tido como um meio sente; desenha o que lembra, chamada a imagem
de expressão do desenvolvimento cognitivo em cópia; seu desenho parte da sua vivência, da sua
que a criança se encontra. realidade particular.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(109): 96-108

100
Sistema simbólico focando o desenho

Já aos 5/7 anos, aparecem no desenho mais utilizada pela publicidade, pelas pessoas
generalizações e configurações representati- e pelos distintos grupos sociais. O mangá
vas, que denotam um pensamento imagístico. é um exemplo de desenho utilizado neste
A imagem substitui o objeto; o desenho passa a momento histórico, no qual o tipo de cabe-
ser uma representação estática do objeto. lo, de olhos, de nariz e boca são traçados
Aos 7/8 anos, a criança antecipa no desenho seguindo um forte padrão da cultura con-
como seria visto o objeto por um observador. temporânea japonesa. Pode-se encontrar
Para Piaget & Inhelder5 (p. 64), “a partir dos no desenho das crianças alguns tipos de
9/10 anos, o sujeito escolhe, com acerto, entre casas e embarcações ligadas à tradição
vários, o desenho correto que representa três ou aos novos conceitos de representação
mon­tanhas ou três edifícios de tal ou tal ponto de desenhada desses elementos.
vista”, podendo fazer previsões relativas à linha
– Código subjetivo: é reconhecido a partir
horizontal e vertical, levando em conta referên-
das experiências que o desenhista passou
cias externas a ela.
na vida e caracteriza-se por um estilo
Já a partir dos 11 anos até a idade adulta, ela
pessoal, por meio do qual o sujeito dá
de­senha articulando semelhanças, diferenças,
sentido às formas, às cores e ao material
proporções, medidas, dimensões, inclinações,
com o qual trabalha. É possível conhecer
iluminação e outros elementos que indicam a
complexidade cognitiva daquele que desenha. as projeções inconscientes presentes no
desenho, principalmente se for possível
ter, além do desenho, também o relato
b) Código utilizado
daquele que o criou.
Em um desenho, podem coexistir vários tipos
de códigos que ajudam a dar sentido, ou seja,
levam da significação objetiva às subjetivas. Para c) Construção da imagem
Pain & Jarreau³, os códigos são aspectos semió- A imagem é construída a partir da percepção
ticos da representação plástica. Elas descrevem de quem a desenha, da ação do sujeito sobre o
três tipos de códigos: morfológico, simbólico e objeto a ser desenhado, da forma como ele re-
subjetivo, todos possíveis de serem encontrados solve representá-lo, das relações com um arranjo
na produção desenhada das crianças. imaginário e da relação estreita de dependência
– Código morfológico: está relacionado às entre as imagens e as palavras.
questões topológicas do desenho, ou seja, Nos desenhos das crianças, a partir da ima-
a como a representação de um objeto ou
gem desenhada, é possível inferir a sua relação
cena distribui traços e elementos para que
com aquele que a desenhou, no que diz respeito
aquela representação passe a ter sentido
à percepção, ação, representação, imaginação e
ao espectador sobre o que foi desenhado.
linguagem.
Diante de um desenho em forma de ra-
bisco, por exemplo, têm-se poucos dados
a respeito desse código, enquanto que um Imagem e percepção
desenho na fase do realismo gorado, por A imagem indica a posição real a partir da
exemplo, pode mostrar indícios do código qual o sujeito percebe o objeto desenhado?
morfológico quando o desenhista desenha A imagem indica uma escolha subjetiva em
o chapéu acima da cabeça, mas sem tocá- relação ao objeto desenhado?
-la. Isso mostra que tem ideia da topologia, A imagem indica uma sensação contempo-
mas ainda não consegue representá-la. rânea ou passada?
– Código simbólico: está relacionado ao mo- Que referências indicam o que nessa imagem
mento histórico, à forma de representação é fundamental para o sujeito que a desenhou?

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(109): 96-108

101
Barbosa LMS et al.

Imagem e ação Visca8 sistematizou o uso de técnicas projeti-


A imagem indica as experiências sensoriais vas, visando compreender aspectos epistemofí-
e motoras do sujeito que a desenhou sobre o licos da relação do aprendiz com as situações de
objeto desenhado? aprendizagem. Organizou as técnicas projetivas,
A imagem reproduz movimentos, imitando o visando investigar a rede de vínculos que o su-
perfil do sujeito que a desenhou? jeito que aprende estabelece com as situações
de aprendizagem em três distintos âmbitos: no
Imagem e representação âmbito escolar, no âmbito familiar e no âmbito
A imagem apresenta uma diferenciação de de sua aprendizagem consigo mesmo. As vincu-
seus elementos, apontando para uma preparação lações afetivas podem ser entendidas como mais
representativa? dependentes, dissociadas ou integradas e estão
A representação da imagem aponta para vinculadas às ansiedades que as situações de
uma análise de lugar, de tempo, de pensamento aprendizagem promovem naquele que aprende.
imaginário? Além disso, Visca7 contribuiu com uma aná­
lise de pautas gráficas que dizem respeito à
Imagem e imaginação posição do desenho no papel e à posição dos
A imagem é resultado de um arranjo imagi- personagens entre si, assim como as possíveis
nário? interpretações a partir das mesmas. As combi-
A imagem denota a resolução de problemas nações das diferentes posições podem apontar
referentes ao que desenha e como desenha? para distintos vínculos, denotando vínculos mais
Quais recursos foram utilizados para mate- exigentes, mais impulsivos, mais progressivos,
mais regressivos ou várias combinações possí-
rializar o projeto a ser desenhado?
veis entre eles.
A imagem desenhada revela invenção ou
imitação?
III ANÁLISE FINAL
Imagem e linguagem A análise final deve resumir os tópicos obser-
vados e responder à pergunta: Os elementos de
O desenho apresenta uma relação entre a
análise observados na produção desenhada pela
imagem e a linguagem?
criança dialogam com o conceito que a criança
O relato do desenho é uma descrição ou for-
possui sobre o desenho?
ma uma imagem com palavras?
Para ilustrar a forma de avaliar e compreen-
O desenho apresenta a condição de ser trans-
der o sistema simbólico de uma criança, usando o
formado em um discurso com palavras?
desenho como objeto de avaliação, apresentam-
-se dois casos.
d) Vinculações afetivas com as situações de
aprendizagem No Protocolo, OSC, menino de 6 anos que está
Di Leo9, ao escrever sobre a interpretação do no 3º ano de escolaridade, respondeu às questões
desenho, aborda a preferência em fazer interpre- da seguinte forma, após ter atendido à solicitação
tações sem generalizar, considerando a história de que fizesse um desenho e ter desenhado um
da pessoa que fez o desenho, o momento em que barco e uma casa palafita.
está vivendo, o que fala sobre o seu desenho e, 1) O que é desenho?
até mesmo, como o analisa. – É uma coisa que alguém faz do jeito dela.
Não são apenas aspectos estáticos que darão 2) O que pode aparecer nos desenhos? Por
pistas sobre o que está latente nas relações daque- quê?
le aprendiz com as situações de aprendizagem, – Um barco, casa, pessoas. Porque você
no caso de uma avaliação psicopedagógica. pediu.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(109): 96-108

102
Sistema simbólico focando o desenho

3) Que coisas existem e podem aparecer nos P10 – É. Parece uma pessoa com roupa co-
desenhos? Por quê? lorida.
– Casas, barcos e as casinhas felizes; vela do P11 – É um quadro porque têm pintores
barco. Porque você deixou. que pintam assim.
4) Que coisas não existem e podem aparecer Prato – É desenho. Você já me mostrou,
nos desenhos? Por quê? mas cortou ao redor.
– Zumbi, planta do jogo. Porque eu posso Pedras com forma – É desenho. Desenho
inventar e desenhar. de pedras que parece pessoa.
5) Rabisco é desenho? Pedras sem forma – Não. São pedras. Ah!
– É. Porque tem umas crianças que fazem É um desenho de um sol com pedras.
um rabisco desenhando uma coisa. Tipo
meus colegas que desenham um jogo; Análise da entrevista
quer dizer, não é um jogo, é um desenho Em relação ao conceito que possui do dese-
que elas assistem, que primeiro eles fazem nho, as respostas de OSC evidenciam uma tran-
a pessoa no desenho e depois uma bolota sição entre o conceito de desenho imaginação e
gigante e depois um rabisco. o conceito de desenho apropriação. Identifica o
6) Você observa o desenho de outras pessoas rabisco como desenho; compreende o desenho
e escolhe elementos para enriquecer o como a representação de algo que foi imagina-
seu? Dê um exemplo. do. Apresenta também algumas características
– Sim. Não me lembro. do nível seguinte: faz relações do desenho com
E de onde tirou as imagens que desenhou? a arte e acredita que pode ser desenhado o que
– Já vi em livros. está na imaginação de quem desenha.
Usou no seu desenho?
– Sim.
7) Olhando as pranchas e outros elementos**,
me diga: Isso é desenho? Por quê?
P1 – É uma arte, porque tem alguns pin-
tores que pintam deste jeito.
P2 – É uma arte mais bonita.
P3 – Não. É uma criança que escreveu.
P4 – Não, você escreveu isso de novo.
P5 – É o desenho de um sol.
P6 – É o desenho de uma pessoa.
P6a – Não. Isso é um quadro. Têm pintores
que pintam coisas que parecem realidade.
P7 – É porque tem uma pessoa arrancando
uma cenoura e montando um cavalo, ou Relato do desenho
em outra coisa, e tem o sol. – É o papai em um barco, que a gente vai para
P8 – É uma arte porque têm pintores que uma sorveteria que papai vai levar a gente em
pintam assim. um barco. E tem uma palafita.
P9 – É um quadro que parece a realidade, O que é?
com cores diferentes: marrom, preto e – É um tipo de casa que fica nos rios e no mar.
cinza.
Análise do desenho
** As pranchas e outros elementos, construídos pelo Grupo de
Estudos (P) e entregues a OSC e HSM (outro caso), seguiram
Considerando o desenvolvimento cognitivo, o
a sugestão da pesquisa original de Iavelberg². desenho de OSC representa o que imaginou por

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(109): 96-108

103
Barbosa LMS et al.

meio do realismo intelectual, ou seja, ainda se Outro entrevistado foi HSM, com 8 anos e
utiliza da transparência em sua representação, 6 meses. Analisa-se apenas a entrevista, sem
mas denota estar caminhando para o realismo o desenho solicitado no início. Na sequência,
visual, pois o homem representado está em pé analisam-se os desenhos decorrentes das duas
no barco e a parte do corpo que está dentro dele consignas que lhe foram apresentadas depois.
não foi representada. No Protocolo, HSM respondeu às questões
Quanto ao código utilizado por OSC, fica da seguinte forma:
bem clara a morfologia da cena, simbolizando as 1) O que é desenho?
pessoas, com a localização das partes do corpo – Quando você faz uma coisa mentalmente,
representadas de acordo com a realidade; os não copia, ou às vezes olha e faz com a mão
traços para desenhar o barco e a casa e outros livre, não copia.
elementos do desenho ficam em tal posição 2) O que pode aparecer nos desenhos? Por
que o espectador os identifica sem dificuldade; quê?
representa um espaço no mar ou rio, no qual se – Brincadeiras, filmes, desenhos, séries, coi-
navega e também se constroem casas palafitas, sas que não existem, abstrato. Assim não
denotando a presença de um código simbólico é nada, tipo só linhas. Às vezes, você faz
que está relacionado aos saberes que resultam com formas porque quer mostrar alguma
da convivência com esse tipo de paisagem; outro coisa.
código utilizado por OSC foi o subjetivo, pois 3) Que coisas existem e podem aparecer nos
denota no desenho seu estilo pessoal e, pelo
desenhos? Por quê?
relato, é possível identificar algumas projeções
– Carrinhos, motos, casas, flores, jardim,
inconscientes em relação à figura do pai.
ruas, garagem que às vezes eu fazia quando
Quanto ao estudo da imagem, o desenho de
era pequeno. Você desenha, pode imaginar
OSC evidencia o uso da imagem imaginação,
e recriar do seu jeito.
pois é resultado de um arranjo imaginário, a
4) Que coisas não existem e podem aparecer
partir das vivências no cotidiano. No que tange
nos desenhos? Por quê?
às pautas gráficas para análise dos vínculos afe-
– Séries, qualquer série que tenha. Exem-
tivos com as situações de aprendizagem, pode-se
plo: de zumbi, dragão, trolls. Porque você
considerar que OSC ainda necessita de limites
externos. Apresenta um vínculo dissociado com desenhou, gosta e tenta recriar o máximo
as situações de aprendizagem, se for conside- de vezes. Às vezes, coloco dois jogos jun-
rado que ele, a mãe e a irmã encontram-se em tos ou jogo e série.
uma casa palafita e o pai encontra-se no barco. 5) Rabisco é desenho?
Porém, seu relato fala da possibilidade de arti- – Também é!
cular os dois elementos, quando diz que o pai vai 6) Você observa o desenho de outras pessoas
levá-los a uma sorveteria. Coloca-se, assim como e escolhe elementos para enriquecer o
sua mãe e irmã, na porção espacial da folha que seu? Dê um exemplo.
pode indicar progresso em suas aprendizagens e – Às vezes, bem poucas vezes. Não! É tão
coloca a figura do pai, que representa o conhe- poucas vezes que não lembro. Às vezes,
cimento e a lei, na porção espacial da folha que olho meu amigo do lado esquerdo, só pra
pode indicar equilíbrio. Assim, é possível dizer ver como está o desenho.
que, embora ele esteja em uma casa, no mar, sem 7) Olhando as pranchas, me diga: Isso é
condições de ir à terra firme, pode contar com desenho? Por quê?
o pai, que representa a figura capaz de veicular P1 – Sim. (move a cabeça). Dá pra ver al-
os saberes, movimentando-se nos espaços e guns personagens aqui: um cavalo que está
possibilitando a sua aprendizagem. andando com bengala e mala de viajar.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(109): 96-108

104
Sistema simbólico focando o desenho

P2 – Sim. Dá pra ver um passarinho, por- desenho. Suas respostas evidenciam o conceito
que quando você desenha um passarinho de desenho ação, pois dá significado às imagens
não dá pra desenhar bem, daí você faz pré-simbólicas e simbólicas. O conceito de de-
como consegue. Coração... menino. senho imaginação aparece quando reconhece
P3 – Sim. Vi duas pessoas bem magrinhas, o abstrato como diferente de rabisco, e somente
uma risada, um retrovisor, um cara assim! para essa prancha não dá um significado. Pode-se
(imita a expressão). dizer que seu conceito se encontra em transição
P4 – Sim. Já vi um cajado, mais uma pes- entre desenho ação e desenho imaginação.
soa bem magra, só a parte de baixo dos
pés... três pés, prancha para surfe, porta.
Consignas apresentadas a HSM
Você não acha que parecem letras?
a) Desenhe uma pessoa em um barco. Fale
– Também. (lê como pode)
sobre este desenho.
P5 – Sim. O sol às vezes a gente faz como
desenho.
P6 – É um homem palito, que a gente tanto
faz.
P6a – É uma pessoa. Parece uma pessoa
fazendo assim. Quando acerta uma coisa
difícil – Superman.
P7 – Sim. Parece alguém que está com ca-
valo, escudo, lança, galinha, casa, cabeça
de boi, sol. Só isso.
P8 – É abstrato. Porque não tem nenhuma
forma certa, um desenho certo. Não tem
padrão, é um monte de linha que forma
um desenho. Relato do desenho
P9 – Sim. Porque tem forma padrão, tem casa, – O barco está no mar.
uma mulher, capacete de cavaleiro, lugar – Tem um pirata muito bravo, reclamando
onde vende coisas, mercado. Essa mulher com tudo, se tropeça já fica bravo, odeia ficar
está como se fosse um palco e uma escada. feliz, gosta de ficar bravo, usa tampão no olho,
P10 – Sim. Porque é como se fosse um ho- tem um gancho, como pirata.
mem segurando fone ou celular, qualquer
– Tem... não lembro o nome. (mostra com as
coisa.
mãos como um volante)
P11 – Sim. Em preto e branco, mas dá pra
– Tem convés (inicia uma parte do desenho
ver garrafa, chaleira.
que não havia, com transparência), porta aqui
Prato – Sim. Esse eu já vi. É igual aquele
(mostra), pra quando entrar enchente eles ficam
outro.
Pedras com forma – Sim, porque parece seguros, e comida e tudo mais.
uma pessoa.
Pedras sem forma – Sim. Parece um nariz Análise do desenho
e uma boca se você vira de lado, também Seu desenho apresenta o perfil do objeto,
um minipedaço de pizza. algo esperado para garotos da sua idade. Porém,
ainda aparecem elementos do realismo intelec-
Observação tual, pois desenha utilizando transparência; por
Pelas respostas de HSM, embora não se tenha exemplo, desenhou o que há dentro do barco
nem o desenho, nem o relato, arrisca-se a concluir (camas, lâmpada, porta, fechadura). Transita
em que nível se encontra o seu conceito sobre o entre o realismo intelectual e o realismo visual.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(109): 96-108

105
Barbosa LMS et al.

Quanto ao código morfológico, não utiliza Relato do desenho


indicadores para marcar a localização do dese- – Numa floresta. Pode ser a historia dos Três
nho. Não utilizou as linhas de apoio, nem para Porquinhos ou Cachinhos Dourados... Três Por-
o pirata e nem para o barco. Porém, utiliza o quinhos!
código simbólico, desenha uma embarcação A janela está aberta ou fechada?
que pode ser relacionada ao relato que traz: a – Fechada.
história de um pirata. O código subjetivo é per- E a porta?
cebido apenas no relato e indica experiências – Trancada.
atrapalhadas com as situações de aprendizagem Qual casa é esta: a primeira, segunda ou
e, provavelmente, marcadas por um grau eleva- terceira da história dos Três Porquinhos?
do de autoritarismo. – A terceira casa. (faz os tijolos)
Sua imagem de barco denota uma percep-
ção desse objeto no passado e em histórias que Análise do desenho
habitam seu repertório de histórias infantis. Dá O desenho da casa indica um realismo visual,
poucas dicas a respeito de sua capacidade de no sentido de que HSM desenha uma casa como
representar o que imagina. se vê. Não trouxe os elementos internos da casa;
Numa análise da vinculação afetiva com as portanto, mostra um avanço em relação ao dese-
nho do barco. Utiliza um código morfológico em
situações de aprendizagem7,8, considerando a
relação à posição de portas, janelas e telhado.
posição do desenho no papel, que toma o espaço
Porém, não coloca indicadores topológicos que
exigente regressivo e a maior parte no espaço do
mostrem onde está a casa, apoiada em quê? O có-
equilíbrio, e também o relato, parece existir uma
digo simbólico denota uma casa universal, e não
vinculação mais dependente, na qual os limites uma casa específica. O código subjetivo mistura-se
estão fora do desenho. Isso denota certa falta de com a história dos Três Porquinhos, o que não é
autonomia e medo ao ataque do desconhecido: reconhecido pelo desenho, e sim pelo relato.
protege-se da “enchente”. Quanto à forma como Utilizando a possibilidade de análise proposta
representou a pessoa no barco, sugere certo por Visca7,8, o desenho de HSM pode revelar
isolamento diante de tudo o que ainda tem para uma vinculação afetiva com as situações de
aprender. aprendizagem que ocupa o espaço do equilíbrio,
b) Desenhe uma casa. Fale sobre este desenho. mas traz janelas e portas trancadas para os novos
conhecimentos. Isso pode indicar pouca dispo-
nibilidade para deixar o conhecimento entrar.

CONCLUSÃO
Assim foi apresentado o estudo realizado pelo
Grupo de Estudos Refletir, promovido pela Sínte­
se – Centro de Estudos, Aperfeiçoamento e De­
senvolvimento da Aprendizagem, em Curitiba.
Além de seus conhecimentos anteriores, o gru-
po descobriu que o desenho oferece ao psicope-
dagogo muitas possibilidades para compreender
o funcionamento de um sujeito para aprender.
É um elemento importante para o conheci-
mento do sistema simbólico, um dos sistemas
que se desenvolve ao longo da vida humana, o
qual dialoga com outros três sistemas envolvidos

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(109): 96-108

106
Sistema simbólico focando o desenho

no seu processo de aprender: sistema afetivo, aprendiz a respeito das proporções, da posição
sistema motor e sistema operativo. No diálogo dos objetos representados, da perspectiva, dentre
do sistema simbólico com o sistema afetivo, é outras possibilidades.
possível entender questões vinculares no pro- A partir desse estudo, o Grupo de Estudos
cesso de aprendizagem; com o sistema motor, Refletir construiu um conjunto resumido de pran-
vê-se nascer a brincadeira, o jogo do faz de con- chas desenhadas, com o objetivo de conhecer o
ta, uma evolução na representação desenhada; conceito de desenho que as crianças possuem.
com o sistema operativo, produzem-se várias Este conjunto foi criado com imagens que podem
formas de linguagem. Uma delas é o desenho ser reproduzidas e que darão origem a novas
que conta histórias em sequências lógicas, que pesquisas e ao aperfeiçoamento dessa forma de
anuncia capacidades de previsão, observação e avaliar a aprendizagem por meio do desenho, no
imaginação no espaço, que mostra o domínio do espaço da clínica.

SUMMARY
Study on the symbolic system with a focus on drawing –
the construction of an evaluative look

In this study, we sought to understand the concept of drawing that


children possess, the conceptual moment, relations that make other
systems: emotional, motor and operation, as well as your way of drawing.
The Study Group created an evaluative instrument supported on Rosa
Iavelberg research’s and chosen as elements of drawing analysis: cognitive
development, the code used to draw, the construction of the image, the
affective binding situations of learning. In this research, sought to answer
the following question: The analysis elements observed in the production
drawing by child dialogue with the concept that she has on the drawing
action, the drawing imagination, the drawing appropriation, the drawing
proposition?

KEYWORDS: Design. Evaluative Instrument. Symbolic System.

REFERÊNCIAS bolo. In: Pain S, Jarreau G, eds. Teoria e téc­


1. Barbosa LMS. O desenho na perspectiva da nica da arte-terapia. A compreensão do sujeito.
Psicopedagogia. In: ABPp Seção Paraná, org., Porto Alegre: Artes Médicas; 1996. p. 42-58.
Carlberg S, ed. Trilogias I e II. Contribui­ 4. Dolle JM. A gênese das operações concretas
ções para a Psicopedagogia. Maringá: Nova (da inteligência simbólica ou pré-operatória
Sthampa; 2017. p. 15-34. à inteligência operatória concreta). In: Dolle
2. Iavelberg R. O desenho cultivado da criança. JM. Para compreender Piaget. Rio de Ja­
In: Szpigel M, Iavelberg R, Carmona Y, ed. neiro: Guanabara; 1974. p. 115-23.
Arte na sala de aula. Porto Alegre: Artmed; 5. Piaget J, Inhelder B. O desenho. In: Piaget
1995. p. 3-32. J, Inhelder B. Psicologia da criança. Rio de
3. Pain S, Jarreau G. Corpo, inteligência e sím­ Janeiro: Difel; 2012. p. 61-77.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(109): 96-108

107
Barbosa LMS et al.

6. Oliveira VB, Bossa NA, orgs. Avaliação psi­ 8. Visca J. Técnicas proyectivas psico­ pe­
da­
cope­da­gógica da criança de zero a seis anos. gó­gicas y las pautas gráficas para su in­
Pe­trópolis: Vozes; 1996. p. 41-56. ter­
pretacíon. Buenos Aires: AG Servicios
7. Visca J. Pautas graficas para la interpre­ta­ Gráficos; 1995. p. 11-20.
ción de las técnicas proyectivas psicope­ 9. Di Leo JH. A interpretação do desenho in­
dagógicas. Buenos Aires: ET Servicios Grá­ fantil. Porto Alegre: Artes Médicas; 1991. p.
ficos; 1998. p. 15-8. 11-59.

Trabalho realizado na Síntese – Centro de Estudos, Artigo recebido: 28/1/2019


Aper­feiçoamento e Desenvolvimento da Aprendi­za­ Aprovado: 28/2/2019
gem, Curitiba, PR, Brasil.
Conflito de interesses: Os autores declaram não haver.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(109): 96-108

108