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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO CEARÁ


Comarca de Fortaleza
13ª Vara da Fazenda Pública (SEJUD 1º Grau)
Rua Desembargador Floriano Benevides Magalhaes, Edson Queiroz - CEP 60811-690, Fone: (85) 3492 8000,
Fortaleza-CE - E-mail: for13fp@tjce.jus.br

DECISÃO

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjce.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 0206833-10.2020.8.06.0001 e código 5FE92D8.
Processo nº: 0206833-10.2020.8.06.0001
Classe: Procedimento Comum
Assunto: Garantias Constitucionais
Requerente: Austin Empreendimentos Artisticos e Gastronomico Ltda e
outro

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por JOAQUIM VIEIRA CAVALCANTE NETO, liberado nos autos em 18/02/2020 às 15:01 .
Requerido: Estado do Ceará - Procuradoria Geral do Estado do Ceará -
PGE

Recebidos hoje.
Vistos,

Cuidam os autos de Ação Ordinária com Pedido de Antecipação de


Tutela ajuizada por AUSTIN EMPREENDIMENTOS ARTÍSTICOS E
GASTRONÔMICOS LTDA – ME e LVING EMPREENDIMENTOS ARTÍSTICOS E
GASTRONÔMICOS LTDA., em desfavor do ESTADO DO CEARÁ, no sentido de que
seja determinado que os policiais militares e os policiais civis, armados e fora de
serviços, abstenham-se de ingressar nos estabelecimentos dos requerentes.
Em breve escorço, dizem as autoras que desde novembro de 2019 vem
adotando política de não permitir a entrada de pessoas armadas dentro de seus
estabelecimentos, em razão de vários incidentes que colocaram em risco à vida de
seus clientes e de seus colaboradores.
Antes da implementação de tal medida interna, os estabelecimentos,
pediam aos agentes de segurança pública, que detinham porte de arma de fogo para
assinarem uma declaração, no sentido de que se comprometiam a não ingerir bebidas
alcoólicas. Entretanto, noticia que analisando a consumação de determinados
policiais, que assinavam a referida declaração, constaram as autoras o consumo de
bebida alcoólica, por vezes até mesmo em excesso.
Aduzem que na documentação apresentada nos autos, constam vários
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vídeos em que agentes policiais sacam suas armas e ameaçam colaboradores e

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clientes nos referidos estabelecimentos, tendo inclusive, em uma dessas ocasiões, o
policial Ítalo Castro Rodrigues, alvejado com arma de fogo, um dos seguranças do
estabelecimento.
Colaciona que o policial Gustavo Braga Rocha, já teria deixado uma

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arma de fogo no interior do banheiro do estabelecimento, causando outro acidente,
visto que um dos visitantes, ao encontrar a arma teria atirado, pensando tratar-se de
arma de brinquedo, tendo sido, ao final, a arma devolvida ao distrito policial.
Informa que o Delegado de Polícia, João Carlos Araújo Machado sacou
sua arma e ameaçou um cliente no interior do estabelecimento, mesmo não tendo o
referido policial ingerido bebida alcoólica, o que reforça o argumento das autoras de
que o porte de arma em seu interior acarreta enorme risco de homicídio.
Traz à colação diversas notícias dando conta de acidentes e tragédias
envolvendo policiais armados em estabelecimentos de diversão em Fortaleza e por
todo o Brasil.
Assevera que em 26 de janeiro de 2020, um Delegado de Polícia, deu voz
de prisão a um dos sócios da empresa Austin Pub, alegando que a proibição de sua
entrada dentro do estabelecimento configurava violação de sua prerrogativa
funcional, tendo tal fato sido amplamente divulgado na mídia e redes sociais.
Afirma que o referido Delegado de Polícia teria efetuado a prisão do
sócio da Austin Pub, de forma ilegal, segurando o mesmo violentamente pelo braço e
o arrastando desnecessariamente à força até a calçada, em frente ao estabelecimento e
na frente de clientes e funcionários.
Consta na peça inicial, que o Delegado Huggo Leonardo, autor da prisão
do sócio da Austin estaria conclamando os policiais a comparecer no dia 31 de janeiro
de 2020, à presença de policiais defronte ao Austin Pub e a Living, com o objetivo de
provocar animosidades entre os agentes de segurança pública e os funcionários e
sócios das casas.
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Em decisão de fls. 116/119, reservou-se este magistrado para analisar a

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medida antecipatória para momento posterior à manifestação estatal, bem como foi
oficiado o Secretário de Segurança Pública para que tomasse providências a respeito
do "Movimento Vamos para o Austing/Leaving".
Em petição de fls. 120/121, as autoras acostam documentos dando conta

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de que no dia 29 de setembro de 2019, o policial Ewerton Roberto Rodrigues Alves
sacou de sua arma após discussão com outros clientes.
Em petição de fls. 138/139, as autoras pugnam pela concessão de
segredo de justiça no presente feito.
Em decisão de fls. 140/142, foi indeferido o pedido de segredo de justiça.
Em petição de fls. 143/148, as autoras pugnam pela análise da tutela
provisória, informando a ocorrência de novos incidentes decorrentes do uso de armas
no estabelecimento.
Em petição de fls. 164/174, a Associação dos Delegados de Polícia Civil
do Estado do Ceará – ADEPOL/CE, solicitando o ingresso no feito na qualidade de
assistente do réu.
O Estado do Ceará apresentou manifestação sobre o pedido de tutela de
urgência em fls. 215/232, pugnando pelo indeferimento da medida, em razão da
ausência dos requisitos legais.
Em petição de fls. 233/238, a parte autora traz à baila que os policiais
Carlos Sodson Santos Araújo e Caio Rodrigo Fernandes Lima, ingressaram no
estabelecimento armados e ingeriram bebida alcoólica, o que reforçaria a necessidade
de deferimento da medida de urgência reclamada.

Eis, em síntese, o relato dos autos. Transpasso à decisão do pedido


liminar.

Destarte, impende verificar a existência dos pressupostos autorizadores


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da tutela provisória no caso em testilha. Tais requisitos, quais sejam, a probabilidade

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do direito, representado pela relevância do fundamento do pedido, e o periculum in
mora , que atine à iminência de dano irreparável ou de difícil reparação.
No que tange ao pedido de tutela provisória, consistente na ordem de
que o Estado do Ceará proíba o ingresso dos policiais civis e militares, armados e fora

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do serviços, no interior dos estabelecimentos das autoras, visto que tais ingressos
acarretariam danos reais e presumidos aos colaboradores e clientes das requerentes,
uma vez que pessoas armadas ingerindo bebidas alcoólicas teria a potencialidade de
causar graves danos pessoais e patrimoniais, entendo que nesse momento visando
prolatar decisão mais justa e consentânea com o ordenamento jurídico, cabe a
digressão a respeito do porte de arma de policiais civis e militares, o seu alcance e
extensão.
Inicialmente cumpre fixar que de acordo com as diretrizes do Estatuto
do Desarmamento, o porte de arma de fogo é, em regra, proibido em todo o território
nacional, entretanto, algumas categorias funcionais, possuem o direito do porte de
armas, dentre elas a polícia civil e militar:

Art. 6º. É proibido o porte de arma de fogo em todo o


território nacional, salvo para os casos previstos em
legislação própria e para:
II – os integrantes de órgãos referidos nos incisos I, II, III,
IV e V do caput do art. 144 da Constituição Federal e os da
Força Nacional de Segurança Pública (FNSP); (Estatuto do
Desarmamento)

§1º. As pessoas previstas nos incisos I, II, III, V e VI do


caput deste artigo terão direito de portar arma de fogo de
propriedade particular ou fornecida pela respectiva
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corporação ou instituição, mesmo fora de serviço, nos

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termos do regulamento desta Lei, com validade em âmbito
nacional para aquelas constantes dos incisos I, II, V e VI.

Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e

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responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da
ordem pública e da incolumidade das pessoas e do
patrimônio, através dos seguintes órgãos:
I – polícia federal;
II – polícia rodoviária federal;
III – polícia ferroviária federal;
IV – polícias civis ;
V – polícias militares e corpos de bombeiros militares.
(Constituição Federal)

As legislações estaduais, notadamente o Estatuto dos Militares Estaduais


do Ceará e o Estatuto da Polícia Civil do Ceará asseveram expressamente o direito
desses agentes de portarem armas de fogo, senão vejamos:

Art.52. São direitos dos militares estaduais:


XI – porte de arma, quando oficial em serviço ativo ou em
inatividade, salvo por medida administrativa acautelatória
de interesse social, aplicada pelo Controlador Geral de
Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema
Penitenciário, inativação proveniente de alienação mental,
condenação que desaconselhe o porte ou por processo
regular, observada a legislação aplicável.
XII - porte de arma, quando praça, em serviço ativo ou em
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inatividade, observadas as restrições impostas no inciso

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anterior, a regulamentação a ser baixada pelo Comandante-
Geral e a legislação aplicável;
(Estatuto dos Militares Estaduais do Ceará)

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Art. 157 – Ao policial civil é facultado o livre ingresso em
todas as casas de diversões e lugares sujeitos à fiscalização
da polícia, bem como portar arma para sua defesa pessoal
e da comunidade.
(Estatuto da Polícia Civil do Ceará)

Das normas supra-citadas, extrai-se, para o caso concreto, a seguinte


conclusão inicial: os policiais civis e os policiais militares tem direito subjetivo ao
porte de arma de fogo garantido em lei federal, mesmo fora de serviço.
Diante de tal constatação verifica-se que, em uma análise meramente
perfunctória, própria do pedido de antecipação de tutela provisória, que há uma
aparente antinomia entre os dispositivos legais supra citados e o regimento interno
das casas de diversão Austin e Living.
Não desconhece este Juízo, que no âmbito da autonomia privada e livre
iniciativa, garantidos constitucionalmente, pode o proprietário do estabelecimento
ditar normas que dentro do âmbito do seu estabelecimento terão força cogente e
vincularão os cidadãos que comparecem ao recinto.
Entretanto, e aqui reside, a celeuma jurídica posta em tablado, qual
decisão deverá ser tomada quando houver o choque entre as normas legais e as
normas privadas? A questão não se mostra tão fácil como parece, visto que entre as
normas públicas e as privadas existem âmbitos de validade e eficácia diversos.
Não obstante tal constatação, em um entendimento primevo, e passível
de modificação com o desenrolar da instrução processual, vislumbra-se que a
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normatização privada não pode invadir o âmbito de normatização legal e restringir

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direitos subjetivos expressamente garantidos em lei.
Assim, em um primeiro momento, assinalo que o pleito antecipatório
requestado não preencheu o requisito da probabilidade do direito, visto que vertido
contra expressa previsão legal, em outras palavras, entendo que as normas internas

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das casas de diversões, como no caso sob análise, não podem restringir o âmbito de
incidência da lei.
Tem-se do exposto que não pode o particular impedir que o policial, seja
ele civil ou militar, deixe de portar sua arma dentro do estabelecimento comercial,
visto que, no final das contas, tal prerrogativa, tem como objetivo, a proteção pessoal e
da comunidade, interesses de índoles coletiva e difusa.
Cumpre salientar que, a prerrogativa funcional dos policiais civis e
militares não diz respeito às pessoas físicas em si mesmo consideradas, mas à própria
função exercida, não podendo haver sequer a possibilidade de renúncia ao direito de
portar arma, visto que tal direito eregra são inerentes ao cargo.
De igual forma, se entremostram alarmantes os fatos trazidos à baila
pelas demandantes, de diversos incidentes no interior das casas de diversão, que dão
conta, de que alguns policiais, civis e militares, ingressam armados no
estabelecimento e ingerem bebidas alcoólicas, muitas vezes, em demasia, causando
distúrbios, tais como, discussões com arma em punho, tiros acidentais, com danos
materiais e pessoais.
Tais casos, por mais lamentáveis que sejam, não podem ensejar a
retirada da prerrogativa funcional de tais servidores, visto que, como já afirmado, a
prerrogativa não atende os interesses pessoais de tais servidores públicos, mas de
garantia de suas seguranças pessoais e da comunidade, além do que, considerando
que tais incidentes são pontuais e não generalizados, estar-se-ia, punindo toda uma
categoria de profissionais, em razão dos desvios éticos e funcionais de alguns.
Ademais, se essa linha de raciocínio de que a entrada de policiais
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armados no estabelecimento da autora fosse ato de per si, capaz de causar vulneração

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da ordem pública, o próprio porte de arma deveria ser proibido em qualquer local,
fechado ou ao ar livre, visto que o indivíduo armado tem o potencial de causar
incidentes diversos, seja dentro do estabelecimento da autora ou numa via pública,
por exemplo.

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Nesse diapasão, neste momento processual, a solução mais adequada me
afigura ser, não a restrição do porte de armas dos policiais civis e militares nas casas
de diversão, mas sim, o acionamento das instâncias investigativas e punitivas internas
das Polícias Civis e Militares, de modo a se garantir que sejam punidos severamente
os policiais que não cumprem fielmente seus deveres e não exercem suas
prerrogativas funcionais de forma plenamente responsável.
Analisando as diversas petições apresentadas pela parte autora, é
inquestionável que as requerentes possuem plena capacidade de identificar os
policiais que causam transtornos dentro do estabelecimento, o que comprova sua
capacidade para acionar as instâncias disciplinares, tais como a Controladoria Geral
de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário – CGD e
Cordenadoria do Grupo Tático de Atividade Correicional – GTAC, medida a ser
tomada pelas autoras em casos de eventuais necessidades.
Assim, não se mostra razoável e nem proporcional que a categoria
policial seja simplesmente responsabilizada pela atuação irresponsável e ilegal de
alguns de seus componentes, os quais deverão ser devidamente identificados e
punidos na seara administrativa, civil e penal, visto que causam males não apenas ao
estabelecimento, mas à própria corporação a que pertencem e à sociedade que
buscam proteger.
Sendo certo que quando identificável situação em que é transbordado
os limites do razoável e do proporcional deverá o Poder Judiciário intervir para
restabelecer a ordem jurídica administrativa. Entendimento esposado por Leonardo
José Carneiro da Cunha, senão vejamos:
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"[...] a atividade administrativa deverá ser guiada pelos
princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, haja
vista serem inadmissíveis condutas bizarras, tomadas em
desconsideração às circunstâncias factuais e às vicissitudes
concretas que a hipótese encerra. [...].
[...]
Em suma, é manifesto e inegável que o controle judicial da

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atividade administrativa vem sendo ampliado, sem que
implique invasão na discricionariedade administrativa ou
usurpação dela pelos órgãos jurisdicionais. Ao se traçar os
limites da atividade discricionária, distinguindo-a da mera
atividade interpretativa, pretende-se evitar os abusos que a
Administração Pública comete, corrigindo os atos que,
conquanto revistam aparência de legalidade por praticados
sob o pálio da discrição, traduzem verdadeiro arbítrio." (in
A Fazenda Pública em Juízo, 5.ª ed. rev. e ampl. e. atual.
São Paulo: Dialética, 2007, pp. 483-484)

Diante do exposto, em face dos fundamentos fáticos e jurídicos acima


expendidos, mormente à luz de que tal restrição privada constitui, em um primeiro
momento, óbice ao exercício da prerrogativa funcional, hei por bem INDEFERIR o
pedido de tutela provisória requerido na prefacial.
Intimem-se as partes em litígio desta decisão.
Ademais, intimem-se ambas as partes para, querendo, manifestarem-se
sobre o pedido de ingresso da ADEPOL como assistente (fls. 164/174), nos termos do
art. 120, do CPC.
Expedientes necessários.

Fortaleza/CE, 17 de fevereiro de 2020.

Joaquim Vieira Cavalcante Neto


Juiz de Direito