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OS FUNDAMENTOS E A HISTÓRIA DO DIREITO INTERNACIONAL

PRIVADO

Manoel Ilson C. Rocha1

SUMÁRIO: Resumo; 1. Noção de Direito Internacional privado; 2. A história


do Direito Internacional Privado; 3. O objeto do Direito Internacional Privado; 4. O
conflito de jurisdição e o conflito de leis; 5. O elemento de conexão; 6. Os elementos
de conexão do DIP brasileiro; 7. O problema da qualificação; 8. A teoria do reenvio;
9. As exceções à aplicação do Direito Internacional Privado; 10. A normatização do
Direito Internacional Privado brasileiro; Bibliografia.

RESUMO: O propósito desta apostila é tratar das noções básicas do Direito


Internacional Privado (DIP), para uma primeira leitura no respectivo curso. O DIP é
um ramo do Direito Público que cuida das normas destinadas à solução de conflito
de leis no espaço. Estas normas oferecem critérios de solução (os elementos de
conexão ou regras de conexão) para os conflitos e são conflitos que se estabelecem
em razão da dúvida sobre qual a lei será aplicada, portanto, é a aplicação do Direito
antes de se discutir qual é o direito materialmente devido a uma relação jurídica, é
um direito formal. As ordens jurídicas estatais admitem estes conflitos (com a
possibilidade de aplicação de uma norma estrangeira em sua jurisdição)
essencialmente conflitos no campo do direito privado, onde há a preocupação com
respeito aos costumes e valores das pessoas nos seus deslocamentos para além
das fronteiras dos Estados (apesar de serem conflitos no campo do direito privado,
as normas de DIP são de Direito Público). No Brasil este campo do Direito está
regulado principalmente na Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro.

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Doutor em Direito pela Universidade de Lisboa, mestre pela Unesp, professor de Direito
Internacional da FDF/Franca, de Ciência Política/Teoria Geral do Estado e Direito Internacional da
FEI/Ituverava e de Teoria Geral do Estado da Uniara/Araraquara.
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1. NOÇÃO DE DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO – O Direito
Internacional Privado (DIP) é um ramo do Direito Público que tem por objeto o
conflito de leis no espaço. Quando ocorrem conflitos de leis no espaço? Quando
uma determinada jurisdição admite a possibilidade de aplicar outra lei que não a sua
às relações jurídicas em conflito sob sua competência. Significa que, além da sua
própria lei o juiz terá a possibilidade de usar outra, diante de um conflito positivo de
normas. Por exemplo, um juiz da comarca X no Brasil, diante de uma disputa judicial
contratual, há a alegação por uma das partes da possibilidade de aplicar a lei civil de
direito dos contratos da legislação argentina, enquanto que a outra parte entende
que deverá aplicar o Código Civil Brasileiro. Esta dúvida é possível, em razão do
Direito Internacional Privado, a gerar um conflito positivo de leis.
Há que se ter cuidado para não confundir “conflito de leis no espaço” com
“conflito de jurisdição”. O DIP não se ocupa de conflitos de jurisdição, um juiz que
soluciona um caso de DIP é um juiz competente para aquela questão, ele apenas
tem a dúvida sobre qual lei aplicará, diante da necessidade de interpretar a norma
de DIP, específica para a indicação da lei material aplicável. Em abordagem bem
simples e direta, um processo que envolve um problema de DIP corre em primeira
instância como um processo como outro qualquer, no que diz respeito ao
processamento. Não há jurisdição especial ou corte internacional, é uma decisão
“preliminar” do juiz para identificar a norma material própria para aquela situação.
Há no Direito, especialmente o moderno, uma preocupação com o dinamismo
das sociedades e com os deslocamentos de pessoas, riquezas e tradições. Para
atender, ainda que excepcionalmente, as diferenças culturais geradas pelos
deslocamentos entre os povos, o Direito, como ciência e como síntese da regulação
social, destina um campo de normatização que contempla o respeito a essas
diferenças. A intenção é existir uma regulação que promova, facilite e respeite estes
deslocamentos.
Ainda que as sociedades se encontrem cheias de preconceitos contra o
estrangeiro, a humanidade se construiu, indiscutivelmente, pela diferença entre as
pessoas, se misturando e superando os desafios. Isso ocorreu especialmente pelos
fluxos imigratórios, constantes por toda a história e por inúmeras motivações.
O cosmopolitismo do homem não é uma exclusividade das sociedades
modernas, os registros históricos mostram uma série variada de movimentos,

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públicos ou privados, entre os povos, motivados por divergências ou convergências
religiosas, econômicas, políticas, culturais etc., ao longo de toda civilização. O
Direito Público, com a Ciência Política, o Direito Constitucional, o Direito
Internacional Público etc., se ocupa também desse movimento nas suas faces
políticas pela organização do Estado e pelo estabelecimento de padrões de
convivência social e de domínio através do poder público estabelecido.
Entretanto, as relações civis, decorrentes do comércio, do turismo, da
migração etc. (sempre presentes nos registros mais remotos, mas cada vez mais
frequentes em função dos avanços técnicos da comunicação e do transporte), são
também geradoras de fatos jurídicos diversos, de natureza jurídica privada, e não se
enquadra no objeto desses ramos do Direito Público, o que motivou a origem do
Direito Internacional Privado.
Essas relações jurídicas privadas geram conflitos, por exemplo, na definição
do conteúdo de contratos, na tutela de filhos, na propriedade de bens móveis e
imóveis, na sucessão “causa mortis” etc. Ao serem submetidas à justiça pública para
a aplicação do Direito, poderiam simplesmente ser solucionadas de acordo com o
ordenamento jurídico ao qual faz parte aquele judiciário, mas não são. Não são
porque envolvem indivíduos pertencentes a outras sociedades, indivíduos que
adquiriram direitos ou a expectativa de direitos em ordenamentos jurídicos diversos
e provavelmente com formas diversas de tratamento daquelas relações jurídicas.
Muitos Estados, como o Brasil, quando se deparam com a aplicação do
Direito a pessoas pertencentes ou sujeitas a ordenamento jurídico diverso do seu,
adotam o seguinte critério: se a relação jurídica envolver uma questão de ordem
pública, como a prática de um ilícito penal, como as relações da Administração
Pública, como o exercício do poder de polícia, como as normas de Direito do
Trabalho etc., aplica-se o seu direito (ius fori - as normas elaboradas e distribuídas
no seu ordenamento jurídico). Mas se a relação jurídica em questão não envolve a
ordem pública e é típica do direito privado, o ordenamento pode respeitar os
interesses diversos e formados sobre a égide de ordenamentos diferentes e
estabelecer critérios para a aplicação de uma lei mais adequada àquela relação – o
que pode ser ou não a sua - sem que essa aplicação represente uma agressão à
sua soberania, pois é uma aplicação consentida e excepcional.

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Esta possibilidade de aplicação de uma lei estranha ao ordenamento se
justifica como um ato de justiça, mas também como um ato de cortesia perante
outros Estados e até mesmo um tratamento de respeito aos interesses dos
estrangeiros, também na expectativa de um tratamento recíproco aos seus súditos
quando se encontrarem em território estrangeiro.
Poderia simplesmente aplicar o ius fori (o seu direito, que é o direito do foro
onde as partes resolveram promover a demanda), como fazem muitos Estados de
pouca maturidade jurídica, mas este seria um fator de inibição das relações sociais
para além das fronteiras dos Estados.
O Estado de Direito se propõe a definir e proteger todos os fatos jurídicos nos
limites de sua competência, que é principalmente definida territorialmente, portanto
também fatos que envolvem estrangeiros. Mas o tratamento diferenciado oferecido a
estes é de origem remota e o DIP se ocupa longa e devidamente.
Então devemos entender o DIP como a possibilidade de aplicação, pelo
judiciário de determinada sociedade, de uma lei externa ao seu ordenamento em
função de interesses formados sob a égide de ordenamentos distintos. Há, portanto,
um conflito de leis, não de jurisdição. A apreciação do fato jurídico para a aplicação
do direito é precedida pela apreciação de um procedimento que irá definir qual lei
deve ser aplicada, pois ocorre ali um conflito de leis. Esta situação vai possibilitar a
aplicação de uma lei externa internamente ou de uma lei interna externamente,
dependendo de qual judiciário está apreciando o fato.
Não há a constituição de uma corte internacional, a submissão a alguma já
preexistente e nem há a disputa entre dois judiciários sobre qual é competente para
apreciar o fato. O que há é a possibilidade de extraterritorialidade da lei para ser
aplicada a um fato anormal – pode ser que o juiz conclua que a lei aplicável seja a
lei local, mas são os critérios do DIP que vão informar qual a lei devida e mais justa,
a interna ou a externa.
Ireneu Strenger explica o fenômeno do DIP da seguinte forma: os fatos
jurídicos se subdividem em três categorias a) fatos normais, aqueles que ocorrem
dentro do ordenamento jurídico, sob a competência dos órgãos daquele Estado para
apreciação de aplicação de suas próprias normas; b) fatos estranhos, aqueles que
em nada interessa ao ordenamento jurídico, como relações que se firmaram em
âmbito estranho aos limites de competência do Estado e que não se estenderam a

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esses limites; e c) fatos anormais, que não são estranhos à competência do
judiciário, mas envolvem sujeitos que se vinculam e reivindicam a aplicação de
ordenamentos distintos, onde o legislador criou normas especiais para definir qual
direito deve ser aplicado (STRENGER, 2005).
Para ilustrar o estudo do DIP, vejamos algumas situações-casos, que
implicam na aplicação das suas normas: Num divórcio entre um brasileiro e uma
francesa no Brasil, mas com domicílio na França. Supondo que a justiça brasileira
seja competente, qual a lei que o juiz brasileiro aplicará? A brasileira ou a francesa?
O artigo 7º Lei de Introdução nos dá a resposta, estabelece o critério do domicílio da
parte para indicar a lei aplicável. Num segundo caso, um argentino morre na
Argentina, onde tinha domicílio. Mas ele possui patrimônio no Brasil, onde se abre
uma sucessão. Seus herdeiros são todos argentinos. Qual lei aplicar? O juiz
brasileiro encontrará a resposta no artigo 10 da Lei de Introdução, que estabelece o
domicílio do defunto como critério.
Cada ordenamento jurídico tem a sua legislação de DIP que apresenta
critérios específicos para situações específicas onde ocorram conflitos de leis no
espaço. Assim, por exemplo, um determinado caso de divórcio no Brasil resultaria
na aplicação da lei argentina. Este mesmo caso, se submetido à jurisdição
argentina, não será solucionado necessariamente conforme a lei argentina ou a lei
brasileira, pois será necessário verificar o critério de DIP adotado no ordenamento
daquele país.
Não há que se confundir o Direito Internacional Privado com o Direito
Internacional Público, este é o “direito das gentes”, que regula a relação entre os
Estados na comunidade internacional, por meio de normas internacionais, como os
tratados. O Direito Internacional Privado é interno aos Estados, com solução de
conflitos dentro da ordem jurídica de cada Estado, com um objeto bem distinto do
ramo anterior: o conflito de leis no espaço.

2. A HISTÓRIA DO DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO – O DIP


- como disciplina jurídica e como ciência do Direito - é originário do século XIX, mas
a regulação do direito com o objeto típico do DIP são antigos, com registros desde o

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Império Romano. Segundo Irineu Strenger, é possível dividir a sua evolução em dois
períodos:

A evolução do direito internacional privado pode ser dividida em dois grandes


períodos: a) o jurisprudencial ou científico, compreendendo o estudo dessa
disciplina desde sua origem até o fim do século XVIII, abrangendo, assim,
todo o período chamado estatutário; b) o legal, que se inicia com as
codificações do direito interno e vem até os dias de hoje, marcando a sua
origem o Código Civil de Frederico II da Prússia, publicado em 1794, onde
surgiram as primeiras regras positivas de solução dos conflitos de leis no
espaço (STRENGER, 1996, p.215).

Mais do que o normal às disciplinas do Direito, o estudo da história do DIP é


extremamente importante, pois ele não foi construído por um exame de adequação
pelo legislador, mas pela experiência e reiteração nas sociedades, entre aqueles
que necessitaram dele, como os comerciantes, os imigrantes, os navegadores etc.
Foi um direito evoluído por séculos, costumeiramente, até que o Estado o absorveu
em suas codificações, passando, então, para um período mais técnico e mais
maduro.
Além das duas fases apontadas (doutrinária e legal), Maristela Basso inclui
também uma fase pré-doutrinária, que é subdividida em: a) fase clássica, que
compreende os impérios antigos que, de alguma forma, continham normas
(costumeiras) para a solução de conflitos de leis no espaço. É o que ocorre
especialmente no Império Romano, com o desenvolvimento do ius gentium (o direito
dos não-romanos) (BASSO, 2009, p. 102). O Direito Romano propriamente dito
ignorava o direito estrangeiro, deslumbrados com a superioridade de seu próprio
direito, portanto não havia conflito de leis, mas o ius gentium, produto da
diferenciação entre romanos e não-romanos (estrangeiros que vinham de lugares
mais distantes e diferentes entre si), colecionava influências diversas que
dependiam de soluções de compatibilização; b) fase do domínio da lei pessoal de
origem (BASSO, 2009, p. 104), posterior ao Império Romano, num período de
diluição das fronteiras territoriais e físicas. Valia a identidade das pessoas com a sua
comunidade (tribal ou étnica), também o direito que valia era o direito pessoal, o qual
se estabelecia uma disputa entre os direitos pessoais; c) fase da territorialidade das
leis, coincidente com o período inicial do Estado Moderno, fundado na definição
clara e soberana de suas fronteiras.

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A fase doutrinária, também denominada estatutária, ocorre desde XIII até o
século XIX, com conflitos que surgiram diante da aplicação do direito territorial
versus o direito estrangeiro, outras vezes diante de conflitos entre a aplicação do
direito territorial versus o direito pessoal. A dúvida era saber qual o direito a aplicar:
o direito local da autoridade jurisdicional ou o direito que o estrangeiro trazia de sua
terra de origem. Nesse longo período foram desenvolvidas várias teorias a respeito
desse conflito para a sua solução. Essas teorias se consolidaram modernamente em
critérios de solução: os elementos de conexão.

O movimento estatutário apontava o conflito entre sistemas jurídicos, entre


direito territorial e estrangeiro, pela tentativa de desenvolver um direito
analítico, de princípios, “natural”, de determinar qual lei tinha efeito
extraterritorial (e em que circunstâncias), e quais leis eram territoriais na sua
aplicação. Começa a ser esboçada uma concepção de direito internacional
privado como parte de um sistema jurídico internacional e universal (BASSO,
2009, p. 107).

O período atual é o período de codificação, com a conversão das normas


costumeiras de DIP em normas legais. Os ordenamentos jurídicos adotaram
sistemas de DIP com critérios variados conforme a relação jurídica tutelada. O DIP é
aplicado atualmente com vários critérios, formando um sistema. Cada relação
jurídica justifica um critério, conforme os valores adotados pelo legislador. Por
exemplo, em Direito Contratual é comum adotar a lex voluntatis (lei escolhida pelas
partes no contrato, em liberdade e autonomia da vontade) ou a locus regit actum (lei
do local de celebração do vínculo contratual), adotado no Brasil.

3. O OBJETO DO DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO – Há


várias teorias sobre qual é o objeto do DIP. Entre elas, a criação de um direito
uniforme entre os ordenamentos jurídicos, a regulação da nacionalidade, a condição
jurídica do estrangeiro, a proteção dos direitos adquiridos nas relações
internacionais e o conflito de leis no espaço.
Todas estas questões permeiam os estudos do DIP, mas majoritariamente a
doutrina se filia à tese da solução do conflito de leis no espaço como o objeto da
disciplina.

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Diante da hipótese de mais de uma norma aplicável a uma mesma situação
jurídica, em decorrência da existência de abertura legal num determinado
ordenamento para a possibilidade genérica de se aplicar, excepcionalmente, normas
estrangeiras em sua jurisdição, encontra-se aí o DIP.
É importante anotar que, para a ocorrência da aplicação da norma de DIP,
não é necessário a presença, em qualquer caso, de uma parte estrangeira, mas sim
uma situação que se enquadre na hipótese legal da norma de DIP, sendo a norma
de DIP uma norma que, em tese, pode levar à aplicação de uma norma estrangeira
material. Portanto, o DIP não se destina a regular a questão da nacionalidade ou a
condição jurídica do estrangeiro, mas as relações jurídicas que envolvem conflitos
entre a aplicação de leis distintas, estrangeiras e nacionais.

4. O CONFLITO DE JURISDIÇÃO E O CONFLITO DE LEIS –


Como já observamos anteriormente, o estudioso do DIP não pode desavisadamente,
confundir o conflito de leis com o conflito de jurisdição. A aplicação do DIP não
ocorre em situações onde há dúvida sobre a competência do órgão jurisdicional. Se
o juiz possui a dúvida sobre a sua competência na aplicação do Direito deve resolvê-
la preliminarmente, e tal problema não envolve o DIP.
A Lei de Introdução, no artigo 12, estabelece critérios para a solução de
conflitos quanto à competência jurisdicional brasileira, mas isto não inclui o tema no
objeto do DIP, já que a referida lei contempla várias questões importantes do
ordenamento jurídico, não somente as normas de DIP.
Entretanto, o juiz competente pode ter dúvida sobre qual é a norma a aplicar
ao caso e essa dúvida pode ocorrer entre normas de ordens jurídicas distintas, em
razão da existência do DIP. A norma de DIP é exatamente uma norma que faculta a
aplicação excepcional de uma norma material estrangeira dentro de um determinado
ordenamento. Esta faculdade, diante da variedade de ordens jurídicas, é que produz
o conflito de leis.

5. O ELEMENTO DE CONEXÃO – Para a solução do conflito de leis a


norma de DIP adota um critério indicativo da norma aplicável: o elemento de

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conexão. Podemos defini-lo como expressão legal indicativa da norma material
aplicável a uma relação jurídica.
O elemento de conexão é uma expressão legal, está embutido na norma de
DIP, está subentendido no texto da lei. O intérprete deve identifica-lo para,
posteriormente, solucionar o conflito. Entretanto, nem sempre essa identificação é
fácil, em razão da maestria do legislador em construir um texto legal abrangente ao
seu propósito.
Irineu Strenger nos oferece uma solução prática para identificar o elemento de
conexão: basta que se identifique a “disposição legal” presente na norma, pois nela
estará o elemento de conexão. Em outras palavras, toda norma jurídica completa é
composta de duas partes: a hipótese (a relação jurídica tutelada ou o fato jurídico
objeto de uma atenção normativa) e a disposição (a consequência da ocorrência da
hipótese) (STRENGER, 1996, p. 351). Por exemplo, numa norma penal (matar
alguém), o tipo é a hipótese e a pena (seis a vinte anos de detenção) é a disposição
(o que foi disposto ou determinado pelo legislador como consequência da ocorrência
daquela hipótese). Também é assim na norma de DIP, com as hipóteses
correspondentes aos ramos do Direito que o legislador resolveu contemplar com a
possibilidade de aplicação de uma norma estrangeira, e a consequente disposição
na forma de uma expressão indicativa (elemento de conexão) da respectiva lei
aplicável.
Os elementos de conexão são tratados na doutrina com correspondentes
expressões em latim, o que facilita a sua memorização e o seu estudo
particularizado. Os principais exemplos de elementos de conexão são os seguintes:
 Lex patriae – lei da nacionalidade;
• Lex fori – lei local;
• Lex domicilli – lei do domicílio;
• Locus regit actum – lei local rege o ato (variação da lex fori);
• Lex voluntatis – lei escolhida pelas partes (autonomia da vontade)
• Lex loci contractus – lei local onde firma o contrato;
• Lex loci solutionis – lei do local de execução das obrigações;
• Mobilia sequuntur personam – bens móveis seguem a pessoa;
• Lex rei sitae – lei do lugar de situação da coisa;
• Lex loci actus – lei do local de realização do ato;

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Convém uma atenção especial para a identificação e compreensão dessas
expressões, em especial as seguintes: a) A lex fori. A lex fori é exatamente a lei de
onde ocorre o processamento, onde há o inicio jurisdicional do conflito (é a lei do
juiz). Nem sempre a norma de DIP trará uma indicação expressa com a literalidade
lex fori, essa constatação será produto de interpretação; b) A lex domicilli. Para esse
critério é preciso saber também de quem é o domicílio, se do defunto ou do herdeiro,
se do proponente ou do aceitante, se do proprietário ou do possuidor etc.; c) A lex
voluntatis. É a autonomia das partes em DIP, pela possibilidade das partes
escolherem a lei aplicável. A autonomia das partes em DIP se restringe a esta
possibilidade, não significa uma composição onde as partes escrevem as normas,
como em justiça privada, mas um restrito campo onde a livre escolha está apenas
na nomeação (em geral contratual) de qual lei será usada (a lei do país A ou a lei do
país B).
Também é possível fazer uma síntese das relações jurídicas típicas de
proteção pelo DIP e os respectivos elementos de conexão encontrados nos
ordenamentos jurídicos (não é uma lista taxativa, mas predominante):
• Estatuto pessoal e direito de família: lex patriae; lex domicilli; lex fori.
• Direitos reais: lex rei sitae; mobilia sequuntur personae.
• Direitos obrigacionais: lex voluntatis; lex loci contractus; lex loci solutionis.
• Direitos sucessórios: lex domicilli.
• Personalidade jurídica: Lex loci actus; lex patriae.

6. OS ELEMENTOS DE CONEXÃO DO DIP BRASILEIRO – A


LINDB oferece um rol de critérios (elementos de conexão) para conflitos de leis no
espaço em campos do direito privado conforme uma tradição do DIP e uma
avaliação político-normativa brasileira, distinguindo, num ou noutro dispositivo, das
demais ordens jurídicas. Em lista breve, temos o seguinte conjunto de dispositivos:
a) Para conflitos de leis em matéria de direito de família, nome, capacidade e
personalidade, o elemento de conexão é o ius domicilli, conforme o caput do art. 7º;
b) Quanto aos impedimentos legais e as formalidades da celebração do
casamento, quando o casamento é celebrado no Brasil, o elemento de conexão é o
ius fori, conforme o art. 7º, par. 1º;

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c) Para casamentos onde os noivos (nubentes) possuem domicílio diverso,
nos casos de invalidação posterior do matrimônio, o elemento de conexão é o ius
domicilli do primeiro domicílio conjugal (art. 7º, par. 3º);
d) Para solucionar conflitos que envolvem regime matrimonial de bens, o
elemento de conexão é o ius domicilli, e tendo os noivos domicílio diverso, será o ius
domicilli do primeiro domicílio conjugal (art. 7º, par. 4º);
e) Para a definição do domicílio nas hipóteses do caput do art. 7º, quando
este suscita dúvida para os familiares, estende-se o domicílio do chefe de família,
para o cônjuge e os filhos não emancipados (salvo em caso de abandono), assim
como se estende o domicílio do tutor ou do curador para os incapazes sob a sua
guarda (art. 7º, par. 7º). Entende-se como chefe de família aquele que é arrimo de
família ou aquele que cuida e decide sobre os interesses da família;
f) Também é critério de definição do domicílio, para efeitos sobre o art. 7º,
quando a pessoa não ter domicílio, o lugar da sua residência ou o lugar onde se
encontre (art. 7º, par. 8º);
g) Para conflitos de leis em matéria de bens o elemento de conexão é o lex
rei sitae (o seu local de situação), como regra geral (art. 8º, caput);
h) Entretanto, para bens móveis destinados a transporte (como joias ou
veículos) ou bens móveis que estejam em transporte (como um quadro, ou mesmo
uma mobília que esteja em transporte – o possuidor, em tese, estava a deslocar o
bem quando foi objeto de disputa judicial), o elemento de conexão é mobilia
sequuntur personae (que será, no caso, o domicílio do proprietário, pois, em
tradução literal, os móveis seguem a pessoa) (art. 8º, par. 1º). Há que se atentar, por
puro zelo, que este dispositivo não se aplica a todos os bens móveis, mas somente
para aqueles da hipótese apresentada;
i) Para conflitos de leis em matéria de penhor o elemento de conexão é o ius
domicilli do possuidor da coisa apenhada (pode ser tanto o proprietário ou a
instituição financeira, o que definirá o domicílio é a posse), conforme o par. 2º do art.
8º;
j) Para conflitos de leis em matéria de obrigações o elemento de conexão é o
lex loci contractus (lei do local de celebração do contrato ou a lei do país em que se
constituírem as obrigações), conforme o caput do art. 9º. Há, na doutrina,
entendimentos de que há, nesta;

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k) Para conflitos de leis em matéria de obrigações destinadas a serem
executadas no Brasil que dependam de forma essencial segundo a lei brasileira,
essa forma será observada, conforme o par. 1º do art. 9º. Ou seja, é a aplicação do
elemento de conexão ius fori para formalidades essenciais nestas hipóteses de
contratação. Por exemplo, é o caso da compra e venda de bens imóveis, onde o
direito brasileiro exige o registro em cartório da escritura de compra e venda. Mesmo
que a celebração do contrato de compra e venda tenha ocorrido em outro país onde
não se exige tal registro, ele será necessário para bens imóveis situados no Brasil;
l) Para a definição da lex loci contractus, conforme o caput do art. 9º, caput,
na hipótese de contratos entre ausentes, o par. 2º do art. 9º estabelece o seguinte:
“reputa-se constituída no lugar em que residir o proponente”. Simultaneamente, o
art. 435 do CC estabelece que “reputar-se-á celebrado o contrato no lugar em que
foi proposto”, também este dispositivo é destinado a contratos entre ausentes. A
interpretação da conjugação destes dois dispositivos de mesmo objeto e com
redação diferente é a de que a palavra “residir” presente na LINDB quer dizer “lugar
do proponente”, conforme é mais claro no art. 435 do CC;
m) Para conflitos de leis em matéria de sucessões, como regra geral, o
elemento de conexão é o ius domicilli do defunto ou do desaparecido, conforme o
art. 10;
n) Entretanto, quando a sucessão de bens de estrangeiros situados no Brasil,
com herdeiros filhos ou cônjuge brasileiros, remeter a lei estrangeira nos termos do
domicílio do defunto ou do desaparecido, mas com resultado que não seja mais
benéfico para esses herdeiros, a lei aplicável será o ius fori. Ou seja, aplicará a lei
sucessória brasileira, nos termos do par. 1º, art. 10;
o) Para conflitos de leis em matéria de capacidade para suceder o elemento
de conexão é o ius domicilli do herdeiro ou legatário, nos termos do par. 2º, art. 10;
p) Para conflitos de leis em matéria de organização societária (definição da
pessoa jurídica) o elemento de conexão é o lex loci actus, ou seja, a lei do local
onde se constituiu a pessoa jurídica, conforme o art. 11.
q) Para conflitos de leis em matéria processual quanto à prova dos fatos
ocorridos no estrangeiro o elemento de conexão, segundo o art. 13, é a lex loci
actus (lei do local do ato, no caso, a lei estrangeira) para o ônus da prova e para os
meios de se produzir a prova. Entretanto, tais provas devem ser compatíveis com o

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sistema de provas brasileiro, pois o dispositivo também estabelece: “não admitindo
os tribunais brasileiros provas que a lei brasileira desconheça”. É, portanto, um
sistema misto de produção de provas para esta hipótese.
Na leitura que devemos fazer da norma de DIP é importante ficar atento para
cada palavra posta pelo legislador. O texto poderá conter situações de exceção
quase imperceptíveis. Considerando a distinção da norma em hipótese e disposição,
a demarcação da hipótese é um exercício que requer atenção, quando o legislador
elege situações específicas para estabelecer um elemento de conexão próprio,
reduzindo as possibilidades para os casos submetidos ao juiz.

7. O PROBLEMA DA QUALIFICAÇÃO – Para a aplicação da norma de


DIP é preciso, previamente, qualificar o fato em conflito de acordo com uma
definição jurídica correspondente, antes mesmo de encontrar uma solução jurídica
para o mesmo: é o problema da qualificação.
Toda aplicação do direito implica em exercício de qualificação, pois o
intérprete do direito dispõe de um número reduzido normas, se comparado com o
infindável número de situações fáticas que podem ocorrer. A norma é sempre uma
generalização, se destina a situações fáticas equivalentes, dentro de um campo
normativo. O mesmo ocorre com o DIP, com a peculiaridade das normas de DIP
serem em número ainda mais resumido e num exercício peculiar de qualificação,
uma vez que a sua prática pode ser divergente numa comparação entre ordens
jurídicas distintas.
Irineu Strenger conceitua qualificação em DIP como o ato de definir as
diferenças das instituições e conceitos para impedir que, em determinada ordem,
sejam tomados uns pelos outros (STRENGER, 1996, p.407).
Quando o juiz decide se um fato é um problema de um ramo ou de outro ramo
do Direito, para então chegar à norma aplicável, ele realiza uma qualificação. Por
exemplo, a princípio a herança vacante pode, doutrinariamente, ser qualificada como
direito sucessório do Estado ou como, em sentido contrário, direito real do Estado. A
interpretação da lei civil indicará a resposta, mas antes há uma dúvida de
qualificação. O mesmo pode-se dizer quanto à prescrição, se é direito formal ou

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direito material; outro exemplo é a doação causa mortis, se é sucessão ou direito
contratual. Estas dúvidas também ocorrem para o aplicador do DIP.
A principal diferença na qualificação para o DIP é que o juiz precisa saber,
além da própria interpretação qualificadora, qual é a ordem jurídica que fornecerá os
elementos conceituais para o exercício da qualificação. Ele precisa saber qual
ordenamento jurídico utilizará para qualificar determinada relação jurídica sub judice.
Numa síntese, então, podemos dizer: a ordem jurídica, como uma totalidade
sistematizada de normas e institutos jurídicos (conceitos de um fato juridicamente
apreciado), diante da diversidade jurídico-social entre os sistemas jurídicos,
decorrente das diferenças naturais em razão da evolução de cada comunidade,
necessita de um critério que indique qual ordem jurídica será adotada para
classificar e definir as diferenças das instituições e conceitos e, assim, impedir que,
em determinada ordem, sejam tomados uns pelos outros.
No Brasil a solução para a qualificação se encontra, de regra, no artigo 6º do
Código de Bustamante, que manda aplicar as noções de direito do próprio
ordenamento onde ocorre a competência jurisdicional (ius fori), no caso, então, as
noções do direito brasileiro:

Código de Bustamante - Art. 6º: Em todos os casos não previstos por este
código, cada um dos Estados contratantes aplicará sua própria definição às
instituições ou relações jurídicas.

Entretanto, há duas exceções ao artigo 6º, presentes na Lei de Introdução: o


artigo 8º, no que toca a direitos reais (manda qualificar segundo o direito do local de
situação dos bens) e o artigo 9º, no que toca a direito obrigacional (manda qualificar
segundo o direito do local de celebração do contrato).
A doutrina do DIP sempre recorre a jurisprudências clássicas para abordar
seus temas. No caso da qualificação é comum a abordagem sobre o caso da viúva
maltesa: um casal de malteses mudou-se para a Argélia quando a Argélia ainda era
colônia francesa. De forma que as leis aplicáveis ali eram as leis francesas. Porém,
o casal não era formalmente casado, e a França não reconhecia a união estável na
sucessão, diferentemente das leis de Malta, que reconhecia ao cônjuge em união
estável uma parte da herança. Com a morte do marido na Argélia, onde também se
encontrava o seu patrimônio, abriu-se a sucessão sob a jurisdição francesa e o
Estado francês reivindicou todo o patrimônio sob a alegação de que não havia
14
herdeiros. A viúva alegou que possuía direito a parte da herança de acordo com as
leis de Malta. Segundo a lei de DIP francesa, o elemento de conexão para
sucessões é lex rei sitae (lei do local de situação dos bens). Porém, o elemento de
conexão francês para determinar o regime matrimonial de um casal é a lei do local
do primeiro domicílio conjugal. Há aí um conflito de qualificação: trata-se de regime
matrimonial ou direito sucessório? O juiz francês entendeu que o caso se tratava de
um problema de direito matrimonial, e não um problema de sucessão.
Consequentemente, aplicou-se a lei do primeiro domicílio conjugal (lei de Malta), que
entendia que a viúva tinha vários direitos sobre parte do patrimônio, restando os
demais bens para o Estado francês.
Podemos listar alguns exemplos que podem gerar dúvida quanto à
qualificação num ordenamento jurídico, à luz do DIP:

 Doação causa mortis: é direito obrigacional ou sucessões?


 Herança vacante: é direito sucessório ou direito real?
 Direito patrimonial do cônjuge: é sucessão ou direito de família?
 Casamento: é contrato ou direito de família?
 Outorga uxória em fiança: é capacidade das partes ou efeitos das
obrigações?
 Prescrição: é direito formal ou direito material?
É claro que o direito brasileiro tem respostas para estas questões, com essas
respostas um juiz no Brasil qualifica uma questão dessa natureza. Entretanto, estas
respostas não são equivalentes entre os ordenamentos, o que gera o debate no
campo teórico do DIP. Por isso a necessidade de ter um critério legal de
qualificação. Adotando a regra geral do art. 6º do Código de Bustamante ( ius fori), o
intérprete do DIP brasileiro, para um conflito de DIP no Brasil, usará a noção de
direito que este ordenamento oferece. Sabemos bem que direito não se restringe à
norma, o direito é a leitura que o intérprete faz da norma, sob os limites de um
sistema, para a sua aplicação a um caso concreto. O exercício de qualificação é a
demonstração mais clara desse status do direito.

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8. A TEORIA DO REENVIO – A solução de conflito de leis no espaço
com a aplicação de normas que admitem a aplicação de um direito material
estrangeiro gera um problema intrínseco, que é a dúvida se a norma estrangeira a
ser aplicada se restringe ao direito material estrangeiro ou inclui também as normas
estrangeiras de solução de conflitos no espaço.
Em outras palavras, o aplicador do direito, ao concluir que a lei
aplicável é uma lei estrangeira, o elemento de conexão não diz que parte da lei
estrangeira ele se refere. Se o aplicador se valer somente do direito material
estrangeiro o caso será solucionado, mas se o aplicador entender que também o
DIP estrangeiro deve ser observado, há o fenômeno do “reenvio”, “retorno” ou
“devolução”. Com a consulta à norma de DIP estrangeira o aplicador poderá
encontrar um elemento de conexão diferente, que, associado ao caso concreto, leve
à aplicação de um terceiro direito ou ao retorno ao direito de origem. É nessa
hipótese que há reenvio.
O direito brasileiro, se precavendo da hipótese de reenvio, o proíbe
expressamente no artigo 16 da Lei de Introdução:

Quando, nos termos dos artigos precedentes, se houver de aplicar a lei


estrangeira, ter-se-á em vista a disposição desta, sem considerar-se qualquer
remissão por ela feita a outra lei.

Podemos conceituar a teoria do reenvio como o modo de interpretar a norma


de DIP considerando a norma de DIP presente na lei estrangeira indicada.
Na doutrina há divergência quanto à adesão à teoria, quem é favorável
costuma alegar que a norma de DIP faz parte da lei estrangeira indicada e não pode
ser ignorada. Quem é contrário aponta a contradição que a teoria gera: a resolução
do problema jurídico mais de uma vez, além da possibilidade de se instalar um
círculo vicioso, numa remessa sem fim, da lei a ser aplicada.
Também em matéria de reenvio há jurisprudências clássicas, presentes nas
obras dos principais doutrinadores, como o caso Forgo: Forgo foi um cidadão
nascido na Baviera, Alemanha, e viveu ilegal na França, onde morreu. Forgo não
tinha descendentes e os parentes mais próximos eram colaterais de 2º grau. Pelo
direito francês, colaterais de 2º grau não são herdeiros, mas pelo direito alemão
estes colaterais são herdeiros do Forgo. Como ele possuía patrimônio na França, lá
se deu a abertura de sua sucessão, sob sua jurisdição. Porém, os colaterais
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reivindicaram o patrimônio contra o Estado francês. Em matéria de sucessões, o DIP
francês utilizava o elemento de conexão ius domicilli, mas o judiciário francês adotou
a teoria do reenvio. Segundo do DIP alemão, em matéria de sucessões o elemento
de conexão é também o ius domicilli. Porém, a França não reconhece o domicílio de
fato e o Forgo estava ilegal em seu território. De outro lado, o direito alemão não
diferenciava o domicílio de fato do domicílio de direito. O juiz francês decidiu,
primeiramente, que a lei aplicável seria a lei alemã, pois o domicílio de Forgo na
França era ilegal, valendo então o seu antigo domicílio alemão (seu domicílio de
direito). Porém, ao consultar a lei alemã, o juiz francês se deparou com o problema
do reenvio: consultar somente o direito material alemão ou consultar todo o direito
alemão, inclusive o seu DIP? Ele decidiu por aplicar também o DIP alemão. O DIP
alemão também indicava o domicílio do defunto, mas o domicílio neste caso era a
França, segundo a interpretação do direito alemão, uma vez que ele não
diferenciava domicílio de fato de domicílio de direito (sendo o domicílio de direito
aquele que fosse de fato). Então a lei aplicada foi a lei francesa, com a destinação
do patrimônio ao Estado francês.
O reenvio também pode ocorrer em graus: quando o elemento de conexão
indica a aplicação de outro ordenamento e, na consulta a este ordenamento, seu
DIP apresenta um elemento de conexão que remete a um terceiro ordenamento.
Assim teremos um reenvio de 2º grau. Num exemplo simples, se a lei de DIP
brasileira manda aplicar a lei do domicílio (tendo a parte domicílio na Argentina),
mas a lei de DIP argentina tem um elemento de conexão que manda aplicar a lei da
nacionalidade da parte (tendo a parte nacionalidade uruguaia), o juiz (admitindo-se
reenvio) irá consultar a lei uruguaia. É facilmente observável que a admissão do
reenvio pode gerar vários níveis de reenvio (2º, 3º, 4º grau, etc.), também é
facilmente observável que o reenvio pode gerar um círculo vicioso (no exemplo
acima, basta supor que a parte tenha nacionalidade brasileira). Na hipótese de um
círculo vicioso, para sistemas que admitem reenvio, a solução lógica é interromper o
círculo na primeira repetição de consulta à norma indicada (esse é o entendimento
doutrinário dominante).

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9. AS EXCEÇÕES À APLICAÇÃO DO DIREITO INTERNACIONAL
PRIVADO – A possibilidade de aplicar uma norma estrangeira num sistema
jurídico de um Estado soberano, diante das implicações sistêmicas e da própria
ideologia da soberania, é uma ruptura conceitual significativa. O estudo do DIP nos
últimos anos do curso de Direito é uma prova disto, demanda uma maturidade
intelectual jurídica maior. A existência de uma norma de DIP, com o objeto exposto
acima, possui suas próprias restrições, embutidas no texto da lei, para garantir a
harmonia com o sistema e superar as resistências da sociedade constatadas pelo
legislador.
O DIP é produto de uma evolução costumeiramente secular, mas a sua atual
fase, de incorporação às ordens jurídicas nacionais na forma de legal, codificada,
sofreu limitações de interesse especialmente político. As normas atuais de DIP
trazem dispositivos que excepcionam a sua aplicação. Quando a sua aplicação não
é possível então o intérprete aplica o seu próprio direito (ius fori).
As exceções mais frequentes são as seguintes: a) exceção de ordem pública;
b) exceção do interesse nacional lesado; c) exceção da fraude à lei; d) exceção do
princípio da reciprocidade (não contemplada no direito brasileiro); e) exceção das
instituições desconhecidas. Abordemos cada uma delas:
a) Exceção de ordem pública – esta é a exceção mais relevante, presente de
forma expressa na Lei de Introdução no artigo 17. Significa que toda aplicação de lei
estrangeira no Brasil em decorrência de uma norma de DIP não será válida se
contrariar a ordem pública brasileira.
Ordem pública, segundo Amílcar de Castro, são as manifestações sociais
relevantes, jurídicas ou não, da vida de uma nação (CASTRO, 1980). Quanto às
“normas de ordem pública”, no mesmo sentido, são as normas relevantes que são
indisponíveis e que, portanto, não podem ser substituídas por outras, num hipotético
e falso conflito de leis.
Ordem pública trata-se de um conceito jurídico indeterminado, por isso de
difícil aplicação. Como definir o campo dos fatos que agridem a ordem pública?
Somente caso a caso, numa interpretação jurisprudencial das manifestações sociais
relevantes.
Uma tentativa de delimitar a ordem pública de uma sociedade é defini-la como
o campo da moral média, ou seja, o conjunto dos valores relevantes e

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predominantes da sociedade. Avaliar o que faz parte da ordem pública é promover
um exercício de ponderação dos princípios gerais do direito e dos bons costumes.
Nesse sentido afirma Maristela Basso:

É noção de foro íntimo do intérprete que em seu convencimento e decisão, no


caso dos magistrados e árbitros, deve buscar a moral básica de uma nação.
A noção de uma ordem pública deve atender sempre às necessidades
econômicas de cada Estado, compreendendo os planos político, jurídico,
econômico e moral de todo Estado constituído (BASSO, 2009, p. 262).

Mas essa solução não elimina a subjetividade do problema. O juiz não pode,
também, sob o discurso da proteção da ordem pública, abandonar arbitrariamente
do DIP. O cálculo da aplicação dessa exceção deve verdadeiramente indicar a
relevância da excepcionalidade.
O artigo 17 trata da exceção de ordem pública ao lado de exceções por
agressão à soberania nacional e agressão aos bons costumes. Irineu Strenger
entende que soberania nacional e bons costumes são questões contempladas na
noção de ordem pública e, portanto, o legislador foi prolixo e redundante
(STRENGER, 1996, p. 452).
Vejamos um caso onde não é possível a aplicação do DIP em razão de ferir a
ordem pública brasileira: Stuart e Mary se casaram no Estado da Virgínia, EUA, na
década de cinquenta, quando lá era proibido o casamento racial. Ocorre que a Mary
é negra e o Stuart é branco, por isso este casamento foi anulado judicialmente pela
justiça da Virgínia. Ocorre que o Stuart mudou-se para o Brasil e veio a falecer,
deixando vasto patrimônio no Brasil. Deixou como herdeira apenas uma irmã. Porém
a Mary reivindicou a sua parte na herança na condição de cônjuge. Ainda que o
elemento de conexão para direito matrimonial seja o primeiro domicílio conjugal,
conforme o artigo 7º, parágrafo da Lei de Introdução, o que resultaria na aplicação
da lei americana, que anulou o casamento, em função do artigo 17 da mesma Lei de
Introdução, a decisão americana não pode ser aplicada no Brasil por ferir a nossa
ordem pública ao contrariar o princípio constitucional da proibição de discriminação
racial. Assim, o referido casamento continuou válido aqui, com o consequente direito
matrimonial de Mary.
Entretanto, há uma situação recorrente de aparente agressão à ordem pública
brasileira e com vasta decisão jurisprudencial uniforme em sentido contrário, é o
caso da cobrança de dívida de jogo contraída no estrangeiro (Maristela Basso nos
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traz a coletânea de outras jurisprudências). Vejamos uma jurisprudência
exemplificativa:

DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO. DÍVIDA DE JOGO CONTRAÍDA NO


EXTERIOR. PAGAMENTO COM CHEQUE DE CONTA ENCERRADA. ART.
9º DA LEI DE INTRODUÇÃO AO CÓDIGO CIVIL. ORDEM PÚBLICA.
ENRIQUECIMENTO ILÍCITO.
1. O ordenamento jurídico brasileiro não considera o jogo e a aposta como
negócios jurídicos exigíveis. Entretanto, no país em que ocorreram, não se
consubstanciaram tais atividades em qualquer ilícito, representando, ao
contrário, diversão pública propalada e legalmente permitida, donde se deduz
que a obrigação foi contraída pelo acionado de forma lícita.
2. Dada a colisão de ordenamentos jurídicos no tocante à exigibilidade da
dívida de jogo, aplicam-se as regras de Direito Internacional Privado para
definir qual das ordens prevalecer: O art. 9º da LINDB valorizou o locus
celebrationis como elemento de conexão, pois define que, ‘para qualificar e
reger as obrigações, aplicar-se-á a lei do país em que se constituírem’.
3. A própria Lei de Introdução ao Código Civil limita a interferência do Direito
alienígena, quando houver afronta à soberania nacional, à ordem pública e
aos bons costumes. A ordem pública, para o direito internacional privado, é a
base social, política e jurídica de um Estado, considerada imprescindível para
a sua sobrevivência, que pode excluir a aplicação do direito estrangeiro.
Considerando a antinomia na interpenetração dos dois sistemas jurídicos, ao
passo que se caracterizou uma pretensão de cobrança de dívida inexigível
em nosso ordenamento, tem-se que houve enriquecimento sem causa por
parte do embargante, que abusou da boa fé da embargada, situação essa
repudiada pelo nosso ordenamento, vez que atentatória à ordem pública, no
sentido que lhe dá o Direito Internacional Privado.
4. Destarte, referendar o enriquecimento ilícito perpetrado pelo embargante
representaria afronta muito mais significativa à ordem pública do
ordenamento pátrio do que admitir a cobrança da dívida de jogo.
5. Recurso improvido (BASSO, 2009, p. 293).

b) Exceção do interesse nacional lesado – O legislador pode optar por não


aplicar uma norma de DIP em determinadas relações jurídicas que considera de
interesse nacional, dentro do próprio campo tradicional do DIP. É uma decisão
política que contraria a doutrina do DIP, pois este evoluiu exatamente para
contemplar a diversidade das relações sociais no campo privado entre pessoas e
riquezas de lugares distintos e em movimento, apelar para o sentimento nacional é,
sem sombra de dúvidas, um retrocesso.
No direito brasileiro esta exceção foi contemplada no direito sucessório para
proteger o interesse de filhos e cônjuge nacionais. Está contemplada no parágrafo 1º
do artigo 10 da Lei de Introdução, também protegida como direito fundamental no
artigo 5º XXXI da Constituição Federal. A regra só se aplica se a lei estrangeira
indicada pelo elemento de conexão do caput for prejudicial aos filhos e cônjuge

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nacionais do defunto. Se não for prejudicial, a lei estrangeira indicada é válida, ou
seja, dois pesos, duas medidas.
Uma questão interessante referente a este dispositivo legal é a hipótese do
prejuízo a um filho ou cônjuge brasileiro decorrente de norma estrangeira indicada
no caput vir em benefício de outro herdeiro (filho ou cônjuge) que seja também
brasileiro. O lógico que, neste caso não haverá o afastamento da norma estrangeira
em razão da exceção, pois outro brasileiro ficará no prejuízo. Se o propósito da
norma é proteger interesse brasileiro, esse interesse só pode ocorrer frente a um
interesse estrangeiro. Dois interesses em conflito, ambos brasileiros, não estão
contemplados no dispositivo. Entendemos que neste caso aplica-se a lei estrangeira
indicada no caput.
c) Exceção de fraude à lei – ocorre quando a lei de DIP coíbe a prática de
manipulação ilícita dos fatos para a obtenção da aplicação de uma norma mais
favorável decorrente de um conflito de leis no espaço.
A fraude à lei é uma conduta condenada nos ordenamentos jurídicos, mas no
DIP ela possui um interesse especial e uma especificidade. Como o DIP se
caracteriza pela hipótese de mais de um direito aplicável, resta a aparente e falsa
ideia de opção da lei. Na verdade não há opção, o direito já está dado, o que há é a
dúvida sobre qual é o direito devido. As partes, com suas pretensões opostas,
apenas esperam que estejam de acordo com o direito, e o juiz é apenas um
intérprete (ressalvada toda a subjetividade que isso implica). Qualquer modificação
posterior nas condições reais e nos fatos, pelas partes, seja pela informação falsa
dos fatos, seja pela falsificação das coisas e das realidades jurídicas, com fins a
uma interpretação diferente das normas de DIP, é uma fraude à lei em DIP.
No DIP brasileiro a exceção de fraude à lei pode ser identificada no artigo 7º,
parágrafo 6º da Lei de Introdução, quando o legislador coíbe o divórcio em outros
ordenamentos para o proveito de prazos mais curtos, e também no artigo 17 da Lei
de Introdução, pela interpretação de que a fraude à lei também é uma conduta que
agride a ordem pública brasileira.
d) Exceção do princípio da reciprocidade. O princípio da reciprocidade, no
DIP, quer dizer que o ordenamento jurídico, para a aplicação de uma norma
estrangeira em seu âmbito, exige que o sistema jurídico da respectiva norma
estrangeira contemple normas de DIP. Em outras palavras, se o ordenamento

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jurídico estrangeiro soluciona os seus conflitos jurídicos fundados apenas no ius fori,
outro Estado que adota a exceção de reciprocidade não aplicará em sua ordem uma
norma daquele ordenamento, ainda que o seu DIP remeta à aplicação.
e) Exceção das instituições desconhecidas: é a exceção à aplicação do DIP
em razão da presença, no direito estrangeiro indicado, de um instituto jurídico
desconhecido e estranho no ordenamento a aplicar. Não é a existência de um
tratamento diferente num mesmo instituto, mas de uma figura jurídica que não
possui referência no direito local. Por exemplo, no direito brasileiro não há os
institutos jurídicos da poligamia ou dos esponsais.
No DIP brasileiro não há referência expressa à exceção de instituição
desconhecida, mas a doutrina é concorde que ela também está contemplada no
artigo 17 da Lei de Introdução em razão de uma agressão à ordem pública.
Entretanto, a mesma doutrina é divergente quanto à extensão da interpretação
nesse sentido: parte da doutrina entende que qualquer instituição desconhecida fere
a ordem pública brasileira e outra parte entende que é preciso verificar caso a caso,
pois há instituições desconhecidas que ferem e outras que não ferem. Nos casos
acima, por exemplo, a poligamia fere a ordem pública brasileira, mas o
reconhecimento dos esponsais (que é a existência de um vínculo jurídico de direito
de família entre noivos) não fere a nossa ordem pública. Este último entendimento
nos parece mais razoável.

10. A NORMATIZAÇÃO DO DIREITO INTERNACIONAL


PRIVADO NO DIREITO BRASILEIRO – O DIP brasileiro é concentrado na Lei
de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (antiga Lei de Introdução ao Código
Civil) e o país também é signatário do Código de Bustamante, um tratado firmado
em Havana no início do século XX entre países latino-americanos, de ampla
regulamentação, mas de conteúdo correspondente à LINDB.
Nos demais países, o DIP também se encontra em leis específicas ou sua
legislação se encontra dispersa no ordenamento.
Em matéria de DIP, na maioria dos seus institutos, a doutrina é muito
disforme, como também é muito divergente a normatização entre os países. Há
muitos estudos e esforços para uniformização do direito, mas própria denominação

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(Direito Internacional Privado) é alvo de críticas, primeiro porque a sua condição
supletiva, como a norma que indica a norma aplicável, induz a afirmar que suas
normas não são normas de direito, mas técnica de aplicação do direito, segundo
porque não são normas internacionais, elas são internas e são critérios de solução
de conflito de leis definidos dentro do ordenamento e, terceiro, porque a norma de
Direito Internacional Privado em si não é Direito Privado, define a aplicação de
normas de Direito Privado, mas as normas em si são públicas, indisponíveis pelos
interessados.
A formação de blocos econômicos não diminui a importância do DIP. Este
está devidamente contemplado no modelo de organização jurídica do Estado de
Direito e os blocos econômicos dinamizam as relações internacionais ampliando as
possibilidades de conflitos de leis.
A tradição de uma aversão do acadêmico de Direito a este ramo é
injustificável. Não só a motivação política pela integração entre as sociedades como
também o claro vínculo com a promoção das liberdades individuais são mais do que
suficientes para estimular o seu estudo.

BIBLIOGRAFIA:

BASSO, Maristela. Curso de Direito Internacional Privado. São Paulo: Atlas,


2009.
CASTRO, Amílcar de. Direito Internacional Privado, 1º vol., Rio de Janeiro:
Forense, 1996.
DINIZ, Maria Helena. Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro interpretada.
São Paulo: Saraiva, 2007.
DOLINGER, Jacob. Direito Internacional Privado: parte geral. 5ª ed. Rio de
Janeiro: Renovar, 1997.
STRENGER, Irineu. Direito Internacional Privado. São Paulo: LTr, 2005.
_______. Direito Internacional Privado. São Paulo: LTr, 1996.

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