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RETROATIVIDADE DAS NORMAS JURÍDICAS

CONSIDERAÇÕES INICIAIS:

1 – A norma jurídica vige do presente para o futuro, mas a eficácia e a incidência concreta PODEM ir
para o passado.
2 – Eficácia ou incidência para o passado possibilidade de a norma jurídica
= atingir situação pretérita, ter efeitos
retroatividade sobre o passado.

3 – Não há como as normas jurídicas retroagirem de forma ilimitada – podem retroagir, mas não
atingem certas garantias.

Art. 5o, inc. XXXVI da CF - A lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa
julgada.

Art. 6º da LICC - A lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, direito
adquirido e a coisa julgada.

4 – Em alguns casos de Direito Penal e Direito Tributário a norma jurídica retroage SEMPRE.

O DIREITO ADQUIRIDO

Conceitos:
É o que já se incorporou definitivamente ao patrimônio e à personalidade de seu titular, de modo
que nem a lei nem um fato posterior pode alterar tal situação jurídica. Maria Helena Diniz.

Diz respeito a certa ocorrência real e concreta, diante de norma jurídica vigente em certo
momento histórico. Uma vez incorporado ao patrimônio e/ou à personalidade, não pode ser
atingido pela norma jurídica nova. Rizzatto Nunes.

1993 2006

Lei 1 – aposentadoria = Lei 2 – aposentadoria


com 35 anos de serviço. com 40 anos de serviço.
2005

João fez 36 anos de ?


serviço, porém, ainda não
havia se aposentado.

João pode aposentar-se em 2006 quando terá 38 anos de serviço?


Sim, quando ele fez 35 anos e a lei 1 estava em vigor e era eficaz, ele adquiriu o direito de
aposentadoria, logo, ele não será atingido pela nova lei.

Direito adquirido é diferente de expectativa de direito.

Mera possibilidade ou esperança de


adquirir um direito

1993

2005

Lei 1 – aposentadoria – com Lei 2 – aposentadoria


35 anos de trabalho. com 40 anos de serviço.

2005

João fez 34 anos


de serviço
O que acontece com João? Coitado, terá que esperar mais 6 anos para aposentar?

João não pode aposentar-se, ele ainda não tinha direito adquirido quando surgiu a nova lei, mas tão
somente expectativa de direito.

“o evento pode ser doloroso, mas não tem proteção contra a lei nova”
Rizzatto.

O ATO JURÍDICO PERFEITO

ATO JURÍDICO - Aquele que resulta da manifestação da vontade, produzindo efeitos jurídicos ou
ainda, aquele decorrente de uma vontade moldada perfeitamente pelos parâmetros legais, ou seja, uma
manifestação volitiva submissa à lei.

ATO JURÍDICO PERFEITO – É o ato já consumado pelo exercício do direito estabelecido segundo a
norma vigente ao tempo em que ele foi exercido. Note-se, é o ato já consumado e não o ato que ainda
está em curso.
Rizzatto Nunes.

É o consumado segundo a norma vigente ao tempo em que se efetuou, produzindo seus efeitos
jurídicos, uma vez que o direito gerado foi exercido.
Maria Helena Diniz.
- Em janeiro de 2006 Hugo e Mário escreveram seu contrato de compra e venda de imóveis com todas
as condições necessárias e legais para tal contrato.
- Em fevereiro de 2006 surge uma nova lei de contratos alterando e proibindo certas condições.
- Em março de 2006 Hugo e Mário querem assinar o contrato escrito em janeiro e fechar negócio.
Pergunta-se:
1 – o ato jurídico será perfeito?
2 – o ato jurídico pode vir a ser perfeito?
Não, o ato ainda não havia se consumado quando da data da nova lei.
Sim, basta que Hugo e Mário alterem algumas condições para adequar seu contrato ao novo
regramento.

A COISA JULGADA

Coisa julgada – é a qualidade atribuída aos efeitos da decisão judicial definitiva, considerada esta a
decisão de que não cabe recurso.

- já se percorreram todas as instancias recursais possíveis dos tribunais superiores.


- já transcorreu o prazo para o ingresso do recurso e nenhum recurso foi
interposto.

Ana e Beto batem o carro

Ana entende que não foi a culpada e entra com um ação judicial
contra Beto pleiteando indenização por danos causados em seu
veículo.
Durante o processo Ana prova que Beto não consegue comprovar que Ana não
estava realmente certa – havia uma tem razão. O argumento de que Ana é
testemunha. mulher não é suficiente.

O juiz julga a ação procedente, isto é, dá ganho de causa a Ana e manda Beto
pagar o valor correspondente aos danos ocasionados no automóvel de Ana.

Pergunta-se:
A partir deste momento, quais as duas possibilidades de coisa julgada?
Beto não entra com o recurso cabível (apelação) no prazo. Beto apela para o Tribunal de Justiça e
perde. Beto apela para o STJ e/ou STF e perde.

Se, após a ocorrência da coisa julgada, surge uma nova lei dizendo que o argumento “mulher no
volante perigo constante” é um argumento válido, mesmo assim, para aquele caso transitado em
julgado, o argumento não teve eficácia. Beto continua perdedor da ação.
Existem casos específicos em que a coisa julgada pode ser questionada e isso se dá através de uma
Ação Rescisória.

ESPÉCIES EM QUE A DECISÃO PODE SER RESCINDIDA:


- Ao se verificar que a decisão foi dada por prevaricação, concussão ou corrupção do juiz.;
• Prevaricação - o juiz deixaria de cumprir com a sua função para a satisfação de seu próprio
interesse.
• Concussão - o juiz exigiria, para si ou para outrem, vantagens não devidas na hora de efetuar
a sentença.
• Corrupção - o juiz pediria suborno para efetuar a sentença.
- Quando proferida por juiz impedido ou absolutamente incompetente;
• Juiz impedido - o juiz é parte no processo; quando a parte for cônjuge, irmão...
• Incompetência absolta - o juiz auditor militar julgando crime cometido por civil.
- Se resultar de dolo da parte vencedora em detrimento da parte vencida, ou de colusão entre as partes,
a fim de fraudar a lei;
• Dolo - Beto tem coragem de dizer que não apelou da decisão do juiz porque Ana ameaçou de
morte a sua família.
• Colusão - As partes entram em acordo para fraudar a lei.
- Se violar literal disposição de lei;
• juiz decide que o filho não é de Mário, simplesmente porque Mara confessou adultério, indo de
encontro ao art. 1.600 do CC que reza que não basta o adultério da mulher, ainda que
confessado, para ilidir a presunção legal da paternidade.
- Quando se fundar em prova, cuja falsidade tenha sido apurada em processo criminal ou seja provada
na própria ação rescisória;
• Beto consegue comprovar que Ana pagou para que uma pessoa testemunhasse a seu favor.
- Se, depois da sentença, o autor obtiver documento novo, cuja existência ignorava, ou de que não pôde
fazer uso, capaz, por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável;
• Cel. Xavier morre e sua família entra em conflito por causa de seus bens. Após ação e sentença
juiz decide a partilha e a ação transita em julgado fazendo coisa julgada. Após 1 ano,
encontra-se um documento, feito de próprio punho, quando Xavier encontrava-se de serviço
fora do país, modificando várias questões, logo, o beneficiado poderá fazer uso desse novo
documento. Art. 1.894 CC.
- Havendo fundamento para invalidar confissão, desistência ou transação, em que se baseou a sentença;
• Réu é condenado porque confessou ter matado alguém, porém, consegue provar que sua
confissão ocorreu porque o policial o torturou.
- se fundada em erro de fato, resultante de atos ou de documentos da causa.
• o juiz erra na hora de julgar, interpretando, por exemplo, um documento que era válido como
inválido.

- Todas as hipóteses estão elencadas no art. 485 CPC.


- O prazo para a ação rescisória é de dois anos após a sentença.
- A lei nova não tem eficácia para alcançar a coisa julgada, ou seja, não retroage.
- Se no período de dois anos surgir motivo para ação rescisória e concomitantemente surgir uma lei
nova, esta não se aplica para o caso em questão.

CASOS DE IRRETROATIVIDADE E DE RETROATIVIDADE BENÉFICA.


• NO DIREITO PENAL A IRRETROATIVIDADE É PLENA
Art. 5o, XXXIX CF/88 – não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia
cominação legal.
Art. 1o CP – Não há crime sem pena anterior que o defina. Não há pena sem prévia
cominação legal.
Princípio da reserva legal.

Em janeiro de 2006 Sueli foi flagrada sentada no banco da praça fumando.


Em fevereiro de 2006 surge nova lei que estabelece ser proibido fumar em praças
Sueli poderá ser processada?

Ninguém poderá ser condenado ou punido criminalmente por qualquer fato que tenho praticado, se este
fato não tiver sido “antes” tipificado como crime em lei.

• A CONTRARIO SENSU, NO DIREITO PENAL A LEI SEMPRE RETROAGE PARA


BENEFICIAR O RÉU.
Art. 5o, XL CF/88 – A lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu.
Art. 2o CP – Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime,
cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória. Parágrafo
Único – A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos
anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado.

Em dezembro de 2005 Clóvis foi preso em flagrante carregando 3 cigarros de maconha.


Em janeiro de 2006 surge lei que revoga o art. 12 da lei 6.368/76.
NOVO ART. Art. 12 – quem transportar menos de 100g de maconha não receberá as penas
do crime de tráfico.
O que acontece com Clóvis?
Clóvis é posto em liberdade, pois nova lei destipificou o fato que era considerado crime e o
réu ou condenado usufruirá do benefício imediatamente.

No Direito Tributário existem princípios similares aos do Direito Penal:

Quando a lei entrar em vigor no dia 1o de janeiro do exercício seguinte, não há que se falar em
retroatividade da mesma.
A lei, no entanto, retroage quando houver um ato ainda não julgado e a lei deixe de definir tal
ato como infração; quando a lei cominar penalidade menos severa do que a prevista na lei vigente.

Com relação às regras processuais:

As leis entram em vigor e atingem o processo que está em andamento.


Ex.: Sou advogada em tenho 5 dias para interpor recurso de agravo; estou no terceiro dia do
meu prazo; surge nova lei que dispõe que o prazo é agora é de 10 dias. Mesmo que a contagem do
processo já tenha sido iniciada, sou beneficiada pela nova lei e terei mais 7 dias para interpor meu
recurso.
A EFICÁCIA DAS NORMAS JURÍDICAS INVÁLIDAS

Uma norma jurídica, ainda que inválida, pode ser eficaz e incidir na realidade concretamente até que
o Poder Judiciário possa impedir ou eliminar seus efeitos.
Ex.: Plano Collor
As normas jurídicas do Plano Collor foram aprovadas, promulgadas e eram vigentes, porém,
inconstitucionais, pois feriam vários aspectos da Constituição Federal, mesmo assim, as pessoas
tiveram seu dinheiro bloqueado e sofreram outras diversas conseqüências desse plano até que o poder
judiciário impediu a sua eficácia e o poder legislativo as revogou.