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Momento da transmissão da herança.

Instauração do inventário. Ordem da


vocação hereditária. Aceitação e renúncia da
herança. Cessão de direitos hereditários.

Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka


Professora Titular de Direito Civil da FADUSP.
Momento da transmissão da herança.
• A herança de alguém transmite-se no mesmo momento de sua morte.
• Trata-se de uma ficção jurídica (droit de saisine) que convém ao
Direito, eis que não há possibilidade, juridicamente falando, de um
bem ficar sem titular, nem que seja por um único minuto.
• Não é possível que ocorra um “vazio” na titularidade de qualquer
bem que componha agora – por força da morte – o acervo hereditário
a ser distribuído.
• Assim, a transmissão se dá por força de lei, ainda que o (s) herdeiro
(s) não tenha conhecimento desta sua situação.
Momento da transmissão da herança.
• Esta transmissão, contudo, jamais se dará antes do falecimento do
autor da herança, uma vez que a disposição de herança de pessoa
viva é vedada em nosso sistema (art. 426 CC), até porque, enquanto
não se operar o evento morte, os potenciais herdeiros possuem mera
expectativa de direito. Proibição existente desde o CC/16 – art. 1.089.

• O tempo da morte do autor da herança se denomina abertura da


sucessão e não se confunde com o momento posterior em que
ocorrerá a abertura do inventário (procedimento).
Momento da transmissão da herança.

• Não se confundem os momentos, todavia, embora sejam momentos


coincidentes:
• a morte é o antecedente lógico, é o pressuposto e a causa;
• a transmissão é a consequência, é o efeito da morte.
• Por força de ficção legal, então, em que se fazem coincidentes os fatos
– causa e efeito – em termos cronológicos, essa é a fórmula do que se
convenciona denominar droit de saisine.
Indivisibilidade da herança

• A herança, por expressa disposição legal (CC, art. 80, II), é tida como
imóvel, independente dos bens que a compõe, e ainda como uma
universalidade iuris.
• O conjunto de bens e direitos arrecadados também é tido como
indivisível, se existirem dois ou mais herdeiros, até a partilha, por
expressa disposição contida no art. 1.791 do Código Civil.
• A indivisibilidade da herança refere-se não só ao domínio, como à
própria posse dos bens.
Sucessão legítima e ordem da vocação hereditária

Art. 1.829. A sucessão legítima defere-se na ordem seguinte:


I - aos descendentes, em concorrência com o cônjuge (ou companheiro)
sobrevivente, salvo se casado este com o falecido no regime da comunhão
universal, ou no da separação obrigatória de bens (art. 1.641); ou se, no
regime da comunhão parcial, o autor da herança não houver deixado bens
particulares;
II - aos ascendentes, em concorrência com o cônjuge (ou companheiro);
III - ao cônjuge (ou companheiro) sobrevivente;
IV - aos colaterais.
Parentalidade consanguínea
• Parentes em linha reta:
• Descendente: filhos, netos, bisnetos, etc...infinitamente.
• Ascendente: pais, avós, bisavós, etc... infinitamente.

• Parentes em linha colateral:


• 2º grau: irmãos
• 3º grau: tios e sobrinhos
• 4º grau: primos, sobrinhos-netos e tios-avós
Aceitação da herança
• O herdeiro sucessível pode aceitar ou renunciar à herança.
• Princípio constitucional da liberdade ou de autodeterminação.
• A aceitação (e também a renúncia) só pode ser juridicamente
considerada feita após a morte do autor da herança.
• Vedação total a qualquer ato que tenha por objeto herança de pessoa viva
(pacto sucessório).
• A aceitação tem por efeito a confirmação da transmissão legal (droit
de saisine) – art. 1.804 CC.
• Efeito meramente declaratório de confirmação da transmissão das
titularidades, que já havia se operado desde a abertura da sucessão.
Aceitação da herança
• O Código Civil não exige manifestação expressa da aceitação.
• Reputa-se existente a aceitação se o herdeiro não manifestar expressamente
a renúncia.
• Termos utilizados como sinônimos, na linguagem jurídica:
• Adir (aceitar)
• Adição (aceitação)
• A lei não determina prazo para que ocorra a aceitação. Mas o juiz
estabelecerá prazo razoável, se e quando necessário.
• Vencido o prazo, tem-se como aceita a herança, de modo irrevogável.
Aceitação da herança
• Sucessíveis não plenamente capazes para aceitar:
• Absolutamente incapaz (representante legal)
• Relativamente incapaz (assistente legal)
• Nascituro – o início do prazo para aceitar só se iniciará com o seu nascimento com
vida, e desde que conte com representante legal.

• Aceitação inexistente: se feita antes da abertura da sucessão (óbito do autor


da herança).
• Aceitação nula: viola lei expressa (aceitação feita por curador ou tutor,
quando não expressamente autorizados pelo juiz).
• Aceitação anulável: feita diretamente por relativamente incapaz, sem
assistência.
Aceitação da herança
• Modalidades de aceitação:
• Expressa: utilização rara; se for expressa, deve ser por documento escrito.
• Tácita: decorre de atitudes ou comportamentos (quando não renuncia;
quando realiza atos próprios de herdeiro; quando assume a posse imediata
de bens e os administra; quando paga dívidas do espólio; quando cobra
créditos do falecido; quando toma providências para a abertura do inventário,
etc.
• Situações vedadas na aceitação da herança:
• Aceitação sob condição, ou a termo; aceitação parcial da herança (exceção =
herança + legado).
Renúncia à herança
• Declaração unilateral do beneficiado, subjetiva e não sindicável por
quem quer que seja, incluindo o próprio Poder Judiciário.
• Só se renuncia a direito já nascido (droit de saisine) e incorporado ao
patrimônio do renunciante.
• Tem efeito retroativo e deve ser interpretada restritivamente.
• A forma é indispensável (expressa por escrito), para que se torne
conhecida e indiscutível.
• Por escritura pública, lavrada por tabelião, ou
• Por termo nos autos.
Renúncia à herança
• A herança ou legado renunciados não se disponibilizam para os
sucessores do renunciante – art. 1.811 CC: “ninguém pode suceder
representando herdeiro renunciante”.
• Em casos outros (morte do herdeiro, herdeiro excluído ou deserdado), os
sucessores destes podem substitui-lo.
• A renúncia é irrevogável. Pode haver especiais exceções:
• Herdeiro que renunciou por serem excessivos os gravames impostos pelo
testador. Mas, depois, decisão judicial considerará nulos tais gravames. O
herdeiro que havia renunciado pode propor ação de anulação da renúncia.
• A renúncia pode ser feita por procurador, mas com poderes
específicos e bem definidos, para tanto.
Renúncia à herança
• Espécies de renúncia: abdicativa e translativa.
• Abdicativa: rejeição pura e simples da herança. Quinhão renunciado volta ao
espólio e será distribuído entre os demais herdeiros.
• Translativa: renúncia em favor de determinada pessoa – não existe.
• Mas, o CC inovou (art. 1.805, §único), atendendo a práticas comuns e
costumes repetidos:
• “Não importa igualmente aceitação a cessão gratuita, pura e simples da
herança, aos demais coerdeiros”.
• A rigor, não é cessão, nem renúncia – apenas se cede o que está incorporado
ao patrimônio jurídico do cedente.
Renúncia à herança
• Art. 1.813. Quando o herdeiro prejudicar os seus credores, renunciando à
herança, poderão eles, com autorização do juiz, aceitá-la em nome do
renunciante. ... § 2º Pagas as dívidas do renunciante, prevalece
a renúncia quanto ao remanescente, que será devolvido aos
demais herdeiros.
• “Não se trata de invalidação da renúncia à herança, mas sim da sua
ineficácia perante o credor, atingindo apenas as consequências jurídicas
exsurgidas do ato. Por isso, não há cogitar das alegadas supressão de
competência do juízo do inventário, anulação da sentença daquele juízo
ou violação à coisa julgada”, afirmou o ministro Luiz Felipe Salomão (STJ).
RECURSO ESPECIAL Nº 1.252.353 - SP (2011/0062484-9)
Cessão da herança
• O herdeiro pode transferir a outrem sua parte na herança.
• A herança é um todo indivisível (regras do condomínio).
• A cessão dará ensejo à transferência de apenas parte ideal.
• A cessão (gratuita ou onerosa) se dará por instrumento público: cedente (o
herdeiro) e cessionário (o adquirente da parte ideal da herança).
• Não há necessidade de registro público deste instrumento.
• Cede-se a posição (não a qualidade) de herdeiro, inclusive para fins de
aceitação e petição de herança.
• O cessionário é alcançado pela transmissão do domínio e da posse do
herdeiro cedente, desde a abertura da sucessão.
Cessão da herança
• Cessão gratuita =
• equivale à doação.
• Cessão onerosa =
• equivale à compra e venda, ou
• equivale à permuta, ou
• equivale à dação em pagamento.

• Direito de preferência assegurado aos coerdeiros.


• Aplicável apenas nos casos de cessão onerosa (não há preferência, na cessão
gratuita – art. 1.794 CC.

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