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RELAÇÃO DA PSICOLOGIA COM OUTRAS CIÊNCIAS

Costuma-se denominar a Psicologia de ciência “biossocial” porque ela se relaciona


principalmente com a Biologia e com as Ciências Sociais.
Para ilustrar estas relações, basta lembrar as inúmeras pesquisas psicológicas orientadas para os
aspectos biológicos do homem e do animal, como mais realizadas pela Psicologia Fisiológica, Animal e
Comparada; e, também, aquelas que investigam as atividades sociais dos indivíduos como as da
Psicologia Social, Educacional, do Trabalho.
Mas as relações da Psicologia com outras ciências não se limitam à Biologia e às Ciências Sociais.
A Psicologia conota-se hoje pela sua natureza interdisciplinar. Assim como a maior parte dos
outros campos de estudo, a Psicologia não se preocupa com a extensão em que uma investigação
permanece dentro dos limites formalmente definidos da disciplina. “Quase todos os campos da
Psicologia se sobrepõem a outros campos de estudo, servem-se deles e, por seu turno, contribuem
para eles” (Telford e Sawrey, 1973, p. 25).
Podem-se ilustrar estas afirmativas mostrando que a Psicologia Fisiológica contribui para o
desenvolvimento da fisiologia, bioquímica, biofísica, da biologia geral, etc., mas também se serve das
mesmas para seu desenvolvimento.
A Psicologia Social, em suas regiões limítrofes, se confunde com a sociologia, a antropologia, a
ciência política e a economia.
As pesquisas de opiniões e atitudes, as previsões de comportamento e a dinâmica de grupo
exigem recursos ou conhecimentos de Psicologia, assim como de outras ciências sociais.
Novas áreas de interesse mútuo para diversas disciplinas surgem constantemente. Um desses
campos, de grande interesse atual, é a psicolinguística que estuda as relações acaso existentes entre a
estruturação linguística e a atividade cognitiva e que consegue congregar psicólogos, linguistas,
sociólogos, antropólogos, filósofos num trabalho conjunto para o desenvolvimento da mesma.
Das ligações da neurologia com a psicologia apareceu um novo ramo da Psicologia que se
apresenta como uma nova interciência: a neuropsicologia, que é o estudo sobre as relações do
comportamento com os dados da fisiologia nervosa e da neuropatologia.
Muitos outros exemplos poderiam ser dados, mas o que importa é ressaltar que não há, hoje, a
preocupação de manter as ciências dentro de um âmbito de investigação restrito pela definição de seu
objeto de estudo.
Para concluir este capítulo, que procurou mostrar em linhas gerais o que é a Psicologia
contemporânea, repete-se, com Marx e Hillix (1974, p. 70) que “a Psicologia de hoje nega-se a ser
limitada a um estreito objeto de estudo por definições formais ou prescrições sistemáticas”.
Diferenciando Educação de Escolarização

A Psicologia da Educação pode ser definida como uma Disciplina-ponte entre a Psicologia e a
Educação, que se ocupa do estudo científico dos processos de ensino e de aprendizagem, seja em
ambientes formais (Escola), seja em ambientes informais (na família, na comunidade etc.). Isso
significa que a Psicologia da Educação não se ocupa só da aprendizagem que ocorre nas escolas. Assim,
para iniciar, nós precisamos fazer uma diferenciação muito importante entre dois conceitos que
parecem ser iguais, mas que na verdade são bastante diferentes: Educação e Escolarização. A
Psicologia da Educação já foi vista como a “rainha das Ciências da Educação”, entendida como uma
“grande salvadora” da Educação, pois, ao utilizar um método científico, poderia beneficiar
significativamente os processos educativos. Contudo, com o passar dos anos, foi-se percebendo que os
fenômenos educativos são muito mais complexos e demandam abordagens multidisciplinares, não
podendo ser esgotados apenas por uma Disciplina científica. Da mesma forma, a Educação também
tem sido vista, atualmente, como um “espaço de salvação”, como se tudo pudesse ser resolvido ou
melhorado apenas pela Educação. Como discute Cortella (2014), isso faz com que as instituições
escolares tenham que cada vez mais dar conta de uma infinidade de Disciplinas e temas considerados
importantes por pais, educadores, cientistas, políticos, e tudo em apenas poucas horas de aulas
diárias.
Para Cortella (2014), isso é fruto de uma confusão entre os termos Educação e Escolarização. A
Escolarização é apenas uma parte da Educação; refere-se ao Ensino Escolar que ocorre em ambientes
culturalmente escolhidos e determinados chamados de Escolas, Ginásios, Liceus, Faculdades,
Universidades. A Escolarização depende de métodos e teorias e é pautada por um currículo planejado,
que inclui Disciplinas que são escolhidas por serem importantes para a formação escolar. O que é
importante de ser ensinado pode variar historicamente, já que o que é relevante em um determinado
momento histórico pode não ser em outro. Pense por exemplo, na utilidade de se aprender
Datilografia nos dias atuais. Será que seria uma habilidade realmente importante?Os conteúdos
também podem variar regional ou localmente, por exemplo, de acordo com as decisões, influência e
preferências da equipe escolar, dos municípios, de estados e do país. Existe uma velha história de que
certa vez um grupo de brilhantes jovens indígenas foi convidado a estudar em uma cidade grande.
Quando retornaram, todos estavam letrados e com formações em Ensino Superior, tais como,
Engenheiros e Advogados. O pajé, então, perguntou a eles se sabiam pescar, caçar e plantar, mas
nenhum deles tinha aprendido essas habilidades. O pajé, então, disse que podiam ir embora, pois eles
não tinham mais utilidade na tribo.

Moral da história: o que é culturalmente valorizado e necessário em um determinado


local – para um grupo de pessoas – pode não ser para outro. Por essa razão, os currículos e os
conteúdos usados na Escolarização sofrem essa influência histórica e social.

Educar é um processo mais amplo, que inclui a aquisição de valores, hábitos, costumes e
atitudes de uma comunidade e que vão passando de uma geração para a outra por meio de situações
presenciadas e experienciadas pelos indivíduos ao longo de sua vida. Por isso a Educação ocorre na
Escola também, mas não majoritariamente, pois acaba sendo papel das famílias. Nem sempre é
necessário o uso de métodos de ensino para Educar; a experiência com as situações concretas guia a
aprendizagem. Para Cortella (2014), um grande problema atual na Educação é justamente distinguir o
que deve ser ensinado nas escolas e o que não deve ser ensinado, ou seja, o que é dever das famílias.
Nos últimos 30 anos, a Escola se ocupou cada vez mais de uma série de ocupações das quais ela não dá
conta e nunca dará. Todos os conteúdos parecem importantes e necessários e por essa razão não é
possível dar conta de todos eles. Fenômeno parecido com o que aconteceu com a Psicologia da
Educação na década de 1950, quando, ao tentar abarcar todos os temas da Educação, acabou
perdendo sua identidade e tendo de se reformular.
Cortella aponta que os adultos, nas últimas décadas, passaram a se ausentar da convivência
com as crianças e de sua educação, seja pelo excesso de trabalho, seja pela distância física, seja pela
falta de paciência, delegando cada vez mais à Escola a responsabilidade pela Educação global das
crianças. A Escola ficou com todas as tarefas de Educação, não sobrando muito espaço para o que de
fato seria a Escolarização. Para Cortella, uma das possíveis soluções é a família resgatar o seu papel na
Educação.
A Psicologia da Educação contribui nessa discussão, vez que compreende a Educação e a
Escolarização como coisas distintas, mas complementares. Afinal, em nossas sociedades modernas,
todas as crianças passam ora ou outra por um processo de Escolarização. Assim, a Psicologia da
Educação contribui para a Escolarização com o desenvolvimento de métodos e práticas de ensino,
planejamento de currículos e formação de professores. Por outro lado, contribui também para a
Educação de modo mais amplo, ao discutir sobre como as pessoas aprendem em ambientes fora da
Escola, sobre a aprendizagem implícita - ou seja, sem a necessidade de ensino, sobre como valores,
atitudes e costumes se modificam histórica e culturalmente e influenciam a formação completa dos
seres humanos, incluindo aspectos físicos, cognitivos, afetivos e morais, e sobre estilos educativos
parentais.

O objeto de estudo da Psicologia da Educação é a aprendizagem e o ensino, mas


não apenas a aprendizagem que acontece no processo de Escolarização, ou seja, de
ensino formal nos ambientes escolares, mas sim de toda e qualquer aprendizagem que
inclui a Escola, mas não se limita a ela, como, por exemplo, a Educação familiar.