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PSICOMOTRICIDADE E APRENDIZAGEM

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NOSSA HISTÓRIA

A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de


empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação
e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade
oferecendo serviços educacionais em nível superior.

A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de


conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação
no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua.
Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos
que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino,
de publicação ou outras normas de comunicação.

A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma


confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base
profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições
modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica,
excelência no atendimento e valor do serviço oferecido.

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Sumário

NOSSA HISTÓRIA ..................................................... Erro! Indicador não definido.

Introdução .......................................................................................................... 5

Psicomotricidade: conceitos, estruturas e elementos psicomotores ................ 7

Conceitos e definições ............................................................................................................ 8

As estruturas e os elementos psicomotores........................................................................... 9

Imagem e Esquema corporal .............................................................................................. 9

Lateralidade....................................................................................................................... 11

Estruturação espacial / Orientação espacial ..................................................................... 13

Orientação temporal ......................................................................................................... 14

Pré-escrita ......................................................................................................................... 15

Percepções musical, gustativa e olfativa .......................................................................... 15

As três dimensões da psicomotricidade ............................................................................... 16

Dimensão motora.............................................................................................................. 17

Dimensão cognitiva ........................................................................................................... 18

Dimensão emocional ......................................................................................................... 19

A Psicomotricidade no processo ensino-aprendizagem .................................. 20

Escola, Educação Física e Psicomotricidade.......................................................................... 21

A Psicomotricidade na Educação Infantil.............................................................................. 24

A Psicomotricidade e a ação pedagógica, entre avanços e dificuldades ......... 25

Fatores necessários à construção do ambiente educativo................................................... 28

Concepção ......................................................................................................................... 29
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Comportamento ................................................................................................................ 29
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Compromisso .................................................................................................................... 29

Materiais ........................................................................................................................... 30

Espaços .............................................................................................................................. 30

Referências ...................................................................................................... 33

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Introdução

Psicomotricidade é uma palavra que simultaneamente remete nossos


pensamentos para o campo da educação, para o processo ensino-aprendizagem,
mais especificamente para aspectos motores do desenvolvimento humano. Essa
relação é bem lógica e ao longo dos estudos, nas páginas seguintes, veremos a
importância e aplicabilidade prática dos fundamentos e princípios da
Psicomotricidade para o pleno desenvolvimento de uma criança.

Como já dizia Le Boulch1 (2004): é através da experiência que são realizados


os ajustes psicomotores. Estes se referem à evolução e adequação dos esquemas
que favorecem a percepção do próprio corpo e o controle mais eficiente dos
movimentos.

Nesse sentido, a psicomotricidade age de forma terapêutica, abordando,


através do corpo, questões emocionais, afetivas, psicológicas e psíquicas que se
descortinam no trabalho psicomotor, reelaborando conceitos e vivências que se
tornam barreiras no desenvolvimento do indivíduo ou grupo.

Dentre os vários benefícios da aplicação da Psicomotricidade na educação


infantil, citamos:

 A criança passa a ter mais controle sobre a coordenação motora e consegue


desenvolver movimentos mais complexos, como aprender a andar de
bicicleta;

 A criança começa a trabalhar os músculos da mão, algo importante para


aprender a escrever ou recortar, por exemplo;

1 Jean le Boulch (1924-2001), francês formado em Educação Física, Psicologia e Medicina,


especializou-se em reabilitação funcional. Trouxe os conhecimentos da Psicomotricidade para a
Educação Física. Le Boulch abordou a compreensão da motricidade humana e a sua complexidade,
defendeu o desenvolvimento e a aprendizagem da pessoa através do movimento do corpo e de sua
expressão motriz; bem como considerou a história da Educação Física e do Esporte na França. Ele
também se interessou pelo conhecimento elaborado em áreas como a Pedagogia e a Psicologia para
apoiar seus estudos sobre a experiência do movimento do corpo como vetor do desenvolvimento do
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ser humano de modo geral e das crianças em particular.


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 A criança passa a ter noção de ritmo, conseguindo aprender passos de dança
ou entender notas musicais;

 A criança passa a diferenciar os movimentos realizados pelo lado esquerdo e


direito do corpo;

 A criança passa a entender o que é o presente e como as ações de agora


afetam o meio externo, entre outras coisas.

Figura 1 Benefícios da psicomotricidade

Pois bem, sabendo que o ser humano necessita do contato com outras
pessoas, pois é através da interação social que se desenvolve a linguagem,
reconhecem-se as habilidades e ampliam-se os conhecimentos, inferimos que para
a criança, o contato físico, social e a comunicação são fundamentais no seu
desenvolvimento e uma das maneiras mais eficazes dela estabelecer estes contatos
é pelo brincar (FANTIN, 2000).

Assim, veremos ao longo da apostila que a Psicomotricidade no processo


ensino-aprendizagem visa contribuir de forma pedagógica para o desenvolvimento
integral da criança, tendo em vista o aspecto mental, psicológico, social, cultural e
físico, no qual acredita-se que as atividades de psicomotricidade possam ser
trabalhadas no contexto escolar de forma a auxiliar no processo de aprendizagem
do aluno.
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Psicomotricidade: conceitos, estruturas e elementos
psicomotores

Nos seus primórdios, a psicomotricidade compreendia o corpo nos seus


aspectos neurofisiológicos, anatômicos e locomotores, coordenando-se e
sincronizando-se no espaço e no tempo, para emitir e receber significados. Hoje, a
psicomotricidade é o relacionar-se através da ação, como um meio de tomada de
consciência que une o ser corpo, o ser mente, o ser espírito, o ser natureza e o ser
sociedade.

A Psicomotricidade está associada à afetividade e à personalidade, porque o


indivíduo utiliza seu corpo para demonstrar o que sente, e uma pessoa com
problemas motores passa a apresentar problemas de expressão. Dentro dessa
concepção, a psicomotricidade conquistou, assim, uma expressão significativa, já
que se traduz em solidariedade profunda e original entre o pensamento e a atividade
motora.

Segundo Fonseca (1996) a psicomotricidade é atualmente concebida como a


integração superior da motricidade, produto de uma relação inteligível entre a
criança e o meio. É um instrumento privilegiado através do qual a consciência se
forma e se materializa. 7

Figura 2 - Corpo consciente


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Conceitos e definições

Para Ajuriaguerra (1970 apud Molinari e Sens, 2003), psicomotricidade é a


ciência do pensamento através do corpo preciso, econômico e harmonioso.

Segundo Coste (1981) é a ciência encruzilhada, onde se cruzam e se


encontram múltiplos pontos de vista biológicos, psicológicos, psicanalíticos,
sociológicos e linguísticos.

A educação psicomotora é uma ação pedagógica e psicológica que utiliza os


meios da educação física com o fim de normalizar ou melhorar o comportamento da
criança (VAYER, 1981 apud MOLINARI; SENS, 2003).

É a integração do indivíduo, utilizando, para isso, o movimento e levando em


consideração os aspectos relacionais ou afetivos, cognitivos e motrizes. É a
educação pelo movimento consciente, visando melhorar a eficiência e diminuir o
gasto energético (BARRETO, 2000).

Fonseca (1995) multiplica e expande o conceito ao afirmar que a


psicomotricidade visa privilegiar a qualidade da relação afetiva, a mediatização, a
disponibilidade tônica, a segurança gravitacional e o controle postural, a noção do
corpo, sua lateralização e direcionalidade e a planificação práxica, enquanto
componentes essenciais e globais da aprendizagem e do seu ato mental
concomitante nela o corpo e a motricidade.

Enfim, o corpo reflete o orgânico, o emocional, o neurológico, pois sem esta


totalidade, ele não existe, e para estar então disponível à aprendizagem, o corpo
precisa estar preparado para se adaptar a novas situações e possuir capacidade de
organização.
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As estruturas e os elementos psicomotores

Pois bem, já sabemos que o objeto da psicomotricidade é o estudo do homem


através do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo,
bem como as suas possibilidades de perceber, atuar, agir com o outro, com os
objetos e consigo mesmo. Ela se relaciona também com o processo de maturação,
onde o corpo é a origem das aquisições cognitivas, afetivas e orgânicas.

Assim, os alicerces da Psicomotricidade são a Psicanálise, as bases Neuro-


anátomo-fisiológicas, a Antropologia e a Filosofia que organizam o estudo dos
fundamentos da Psicomotricidade na perspectiva de conhecimento do início e do
percurso da existência e significados do ser humano, não apenas o seu
desenvolvimento, mas especialmente a estruturação desse humano (ALVES, 2007).

As estruturas básicas de sustentação, também são chamadas de elementos


básicos da psicomotricidade. Observadas e estudadas pelos psicomotricistas podem
ser divididas em fatores, sendo que cada fator psicomotor possui uma função
específica e se desenvolve em um determinado período da vida da criança
(FONSECA, 1995).

Vejamos cada um desses elementos que estruturam a práxis psicomotriz.

Imagem e Esquema corporal


Segundo Maturana (2004), a Imagem corporal é a figuração do próprio corpo
formada e estruturada na mente do mesmo indivíduo, ou seja, a maneira pela qual o
corpo se apresenta para si próprio. É o conjunto de sensações sinestésicas
construídas pelos sentidos (audição, visão, tato, paladar), oriundos de experiências
vivenciadas pelo indivíduo, onde o referido cria um referencial do seu corpo, para o
seu corpo e para o outro, sobre o objeto elaborado.

O termo Imagem Corporal vem sendo usado frequentemente de maneira


permutável com a terminologia Esquema do Corpo, em estudos neurológicos e
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psicológicos, onde ocorrem também resistências a determinadas definições e muitas
confusões metodológicas e conceituais (PAILLARD, 2001).

O esquema corporal é tido como a experiência imediata de uma unidade do


corpo, (...) percebida, porém é mais do que uma percepção, (...) chamamos de
esquema de nosso corpo, ou mesmo como modelo postural do corpo (SCHILDER,
1999). O aludido é a imagem tridimensional que todo sujeito tem do seu próprio
corpo, não abordando sob a ótica de uma mera sensação ou imaginação, mas da
apercepção corporal, mesmo que a informação tenha chegado através dos sentidos.

A imagem que pode ser visual, motora, auditiva, tátil, entre outras, não pode
ter os itens analisados separadamente ou adotar para cada estrutura um padrão
único para a avaliação de alteração em todas as estruturas (MATURAMA, 2004).

O esquema corporal é um elemento básico indispensável para a formação da


personalidade da criança. É a representação relativamente global, científica e
diferenciada que a criança tem de seu próprio corpo.

A criança se sentirá bem na medida em que seu corpo lhe oferece algo, em
que o conhece bem, em que pode utilizá-lo não somente para movimentar-se, mas
também para agir.

O esquema corporal é a tomada de consciência, pela criança, de


possibilidades motoras e de suas possibilidades de agir e de expressar-se. São
exemplos:

Domínio Corporal: Uma criança corre durante o recreio e choca-se


constantemente contra seus companheiros. Em pouco tempo não se sentirá à
vontade; não ousará mais correr por não dominar bem seu corpo.

Conhecimento Corporal: Uma criança quer passar por baixo de um banco,


mas esquecendo-se de dobrar as pernas, acaba batendo as nádegas contra o
banco.

Passagem para a Ação: A criança não transfere líquidos de uma vasilha para
outra para brincar, mas entorna um copo de limonada para beber.
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Enfim, uma criança que se sinta bem-disposta em seu corpo é capaz de situar
seus membros uns em relação aos outros e fará uma transposição de suas
descobertas: progressivamente localizará os objetos, as pessoas, os
acontecimentos em relação a si, depois entre eles.

Recapitulando:

Imagem Corporal (IC) está relacionada com a consciência que o indivíduo


tem do seu próprio corpo em termos de julgamento. Como esse indivíduo vê, pensa,
sente e age em relação a ele em consideração às normas sociais, valores e atitudes.
Possui base afetiva, e é construída e alterada gradativa e permanentemente ao
longo da vida.

Esquema Corporal (EC), em contraste, refere-se à representação abstrata


em tempo real na linha do próprio corpo no espaço que é derivado do input
sensorial. Um sistema neuronal que recebe constantemente informações
multissensoriais que incluem a exteriocepção (sensibilidade superficial: tátil,
dolorosa e térmica), os sistemas proprioceptivos, vestibulares, somatossensoriais e
visuais acerca da cinestesia e da posição do corpo no espaço, de maneira a interagir
com o sistema motor (FERREIRA, 2011).

A alteração em uma parte do corpo, seja por uma doença ou


comprometimento físico, resultará em modificações na imagem e no esquema
corporal não apenas referente a essa parte doente, mas sim ao corpo todo, além de
estabelecer novas relações consigo mesmo e com os outros (PERES, 2002).

Lateralidade
A Lateralidade é a condição de trabalho ou a capacidade de a criança poder
olhar e agir para todas as direções, com equilíbrio, com coordenação mínima
corporal e com noções de espaço. Contudo, é preciso respeitar o tempo das
crianças. Um bom exemplo é a condição de ser destra ou sinistra da criança. Ela
necessariamente não tem que ser um ou outro, pode ser os dois, dependendo da
situação, lembrando que ao mudar de posição a criança está testando suas próprias
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condições internas.
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O tema lateralidade tem sido estudado desde a abordagem sobre a
dominância cerebral feita por Paul Broca em 1965. A partir da referida abordagem
foram obtidas importantes informações que contribuíram para o desenvolvimento
dos estudos neurológicos.

A lateralidade constitui um processo essencial às relações entre a motricidade


e a organização psíquica intersensorial. Representa a conscientização integrada e
simbolicamente interiorizada dos dois lados do corpo, lado esquerdo e lado direito, o
que pressupõe a noção da linha média do corpo. Desse radar vão decorrer, então,
as relações de orientação face aos objetos, às imagens e aos símbolos, razão pela
qual a lateralização vai interferir nas aprendizagens escolares de uma maneira
decisiva (FONSECA, 2004).

Durante o crescimento, naturalmente se define uma dominância lateral na


criança: será mais forte, mais ágil do lado direito ou do lado esquerdo. A lateralidade
corresponde a dados neurológicos, mas também é influenciada por certos hábitos
sociais.

Não devemos confundir lateralidade (dominância de um lado em relação ao


outro, a nível de força e da precisão) e conhecimento “esquerda-direita” (domínio
dos termos “esquerda” e “direita”).

O conhecimento “esquerda-direita” decorre da noção de dominância lateral. É


a generalização, da percepção do eixo corporal, a tudo que cerca a criança; esse
conhecimento será mais facilmente apreendido quanto mais acentuada e
homogênea for à lateralidade da criança. Com efeito, se a criança percebe que
trabalha naturalmente “com aquela mão”, guardará sem dificuldade que “aquela
mão” é à esquerda ou à direita.

Em relação à lateralidade, podemos classificar os sujeitos da seguinte forma:

 Destros - são aqueles nos quais existe um predomínio claro estabelecido do


lado direito na utilização dos membros e órgãos.

 Sinistros ou canhotos - são aqueles nos quais existe um predomínio claro


estabelecido do lado direito na utilização dos membros e órgãos e,
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 Ambidestros - são aqueles nos quais não existe predomínio claro
estabelecido, ocorrendo o uso indiscriminado dos dois lados.

Coste (1992, p. 63) define quatro tipos de lateralidade:

 Destralidade verdadeira - a dominância cerebral está à direita.

 Sinistralidade verdadeira - a dominância cerebral está à direita.

 Falsa sinistralidade - caso em que o indivíduo adota a sinistralidade em


consequência de uma paralisia ou de uma amputação, que impossibilitou a
utilização do braço direito e;

 Falsa destralidade - caso em que a organização é inversa da observada na


falsa sinistralidade.

Existem grandes variações dentro da lateralidade. Estão inclusos nessa


categoria os sinistros contrariados, ou seja, aqueles que têm sua dominância
discordante entre um membro e outro (lateralidade cruzada).

Estruturação espacial / Orientação espacial


É a maneira como a criança se localiza no espaço (está atrás da cadeira) e
como situa os outros e as coisas, umas em relação às outras (a bola está debaixo
da mesa). Uma das etapas da estruturação espacial é a orientação espacial, é saber
orientar-se, ir para frente, para traz, direita e esquerda, para baixo, para cima, e por
isso a dominância lateral é de grande importância.

O desenvolvimento da percepção espacial acontece tanto na infância quanto


na vida adulta, o espaço é um grande desafio, requerendo pleno domínio do sujeito
para a perfeita integração do ser ao ambiente. Assim, reconhecer, interferir e agir
sobre os espaços (ruas, casas, prédios, entradas e saídas) é um grande desafio do
trabalho psicomotor na escola, ao levar a criança a desenvolver-se com autonomia
de movimento.

Em palavras mais simples, e a orientação, a estruturação do mundo exterior


referindo-se primeiro ao eu referencial, depois a outros objetos ou pessoas em
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posição estática ou em movimento, ou seja:


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 A tomada de consciência da situação de seu próprio corpo em um meio
ambiente, isto é, do lugar e da orientação que pode ter em relação às
pessoas e coisas;

 A tomada de consciência da situação das coisas entre si;

 A possibilidade, para o sujeito, de organizar-se perante o mundo que o cerca,


de organizar as coisas entre si, de colocá-las em um lugar, de movimentá-las.

A orientação espacial permite que o indivíduo tenha consciência, permanente,


da localização do seu corpo, em relação aos objetos, no espaço e da maneira
adequada de posicioná-lo nesse espaço, de acordo com sua localização.

Quando a criança domina os diversos termos espaciais, ensina-lhe a orientar-


se, ou seja, poder virar-se, ir para frente, para trás, para a direita, para a esquerda,
para o alto etc.; poder ficar em fila.

Para Fonseca (1988), o caráter espacial é um dado essencial da consciência


do eu e um polo de identidade do indivíduo em relação ao mundo.

O aspecto espacial encontra-se ligado às funções da memória.

Entre os sintomas de uma má estruturação espacial, pode-se citar quando


uma criança ignora os termos espaciais (é para colocar a merendeira ao lado do
armário e ela coloca na frente).

Outro sintoma é quando a criança não consegue reconstruir um boneco


articulado e isso ocorre justamente por não possuir uma consciência de seu corpo.

Orientação temporal
A estruturação temporal é a capacidade de situar-se em função da sucessão
dos acontecimentos: antes, após, durante e da duração dos intervalos.

As noções temporais são muito abstratas, muitas vezes bem difíceis de serem
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adquiridas por nossas crianças, como:


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 Noções de tempo longo, de tempo curto (uma hora, um minuto);

 Noções de ritmo regular, de ritmo irregular (aceleração, freada);

 Noções de cadência rápida, de cadência lenta (diferença entre a corrida e o


andar);

 Da renovação cíclica de certos períodos: os dias da semana, os meses, as


estações;

 Do caráter irreversível do tempo: “já passou... não se pode mais revivê-lo”,


“você tem cinco anos... vai indo para os seus seis anos... quatro anos, já
passaram! ”, noção de envelhecimento (plantas, pessoas).

Pré-escrita
Domínio do gesto, estruturação espacial e orientação temporal são os três
fundamentos da escrita. Com efeito, a escrita supõe uma direção gráfica:
escrevemos horizontalmente da esquerda para a direita; as noções de em cima e
embaixo (n e u), de esquerda e direita, de oblíquas e curvas (g) e a noção de antes
e depois, sem o que a criança não inicia seu gesto no lugar correto.

Portanto os exercícios de pré-escrita e de grafismo são necessários para a


aprendizagem das letras e dos números: sua finalidade é fazer com que a criança
atinja o domínio do gesto e do instrumento, a percepção e a compreensão da
imagem a reproduzir. Esses exercícios dividem-se em exercícios puramente motores
e em exercícios de “grafismo”: exercícios preparatórios para a escrita na lousa e no
papel (BRESCIANI, 2007).

Percepções musical, gustativa e olfativa


A percepção é a capacidade de reconhecer e compreender estímulos. É o
meio de que dispõe o indivíduo para organizar a estimulação que o ambiente lhe
dirige. A percepção depende de estímulos sensoriais captados pelos sentidos:
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audição, olfato, tato, paladar, visão e de sensações cinestésica, sendo a percepção
uma ponte entre o indivíduo e o seu meio exterior (MENDES, 2001).

 A percepção musical é desenvolvida a fim de que a criança apure a audição


para o reconhecimento e a prática da fala, mas também para criar uma
audição seletiva para a musicalização que envolve cada ambiente, seja ele
educacional ou não.

 Na percepção gustativa o trabalho é realizado em tempo real, ou seja,


enquanto a criança segue descobrindo sabores, vai também o incluindo no
seu cardápio diário, constituindo assim uma nova ou uma boa referência em
alimentação. O cuidado de evitar alimentos processados, batidos no
liquidificador, triturados, cozidos é primordial para que ela tenha contato real e
direto com o alimento natural.

 A percepção olfativa é a que auxiliará a criança no reconhecimento do mundo


dos perfumes e dos sabores. Não se pode cobrar de uma criança que ela
goste ou não deste ou daquele sabor e aroma sem antes iniciá-la no mundo
que exala perfumes e que é impregnado deles.

As três dimensões da psicomotricidade

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Figura 3 – As três dimensões da psicomotricidade

Dimensão motora

A dimensão motora envolve as funções da evolução da tonicidade muscular,


o desenvolvimento do controle da eficiência motora (velocidade e precisão), o
desenvolvimento das possibilidades de equilíbrio e o desenvolvimento e afirmação
da lateralidade.

Ao obter estas habilidades motoras, o indivíduo pode executar ações como


correr, escalar, pular, etc.

As coordenações dinâmicas manuais, indispensáveis para a leitura e escrita


como a coordenação óculo-manual ou Visio-digital, também são adquiridas a partir
da aquisição destas habilidades.

O desenvolvimento da tonicidade muscular está ligado à evolução do sistema


nervoso, basicamente, ao desenvolvimento das funções piramidais e a mielinização
das fibras nervosas. Existe no bebê, recém-nascido, uma hipotonia no eixo corporal
e uma hipertonia nas suas extremidades. Contudo, à medida em que o bebê vai se
desenvolvendo, vai havendo um equilíbrio, graças à progressiva tonicidade do
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tronco.
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A dissociação dos movimentos é a destreza que nos permite realizar,
movimentos independentes, entre os distintos segmentos corporais.

A eficiência motora se refere ao desenvolvimento da velocidade e precisão da


motricidade fina, ou seja, o desenvolvimento dos grandes conjuntos musculares
finos precisos. A diferenciação céfalo-caudal significa que, a motricidade da cabeça
e do tronco se diferencia antes das extremidades inferiores. A diferenciação
próximo-distal significa que os conjuntos musculares, mais próximos do tronco,
diferenciam-se antes que aqueles que estão localizados nas extremidades.

Por exemplo: a diferenciação dos movimentos globais do braço ocorre antes


da diferenciação dos movimentos do cotovelo e está, antes da do pulso, que por sua
vez, ocorre antes da dos dedos. A precisão, velocidade e coordenação dos
movimentos dos dedos e mãos são indispensáveis para a aprendizagem da escrita.

A coordenação é a concordância, que ocorre entre as ações musculares em


descanso e em movimento, nas respostas aos estímulos. A coordenação se refere a
um conjunto de ações musculares, seja em repouso ou em movimento, que estão
sujeitas a determinados estímulos. Envolve o desenvolvimento da flexibilidade, no
que se refere ao controle motor. A coordenação requer a tomada de consciência do
seu corpo e do mesmo, no espaço.

O equilíbrio é uma parte necessária da coordenação dinâmica. Significa a


capacidade, que temos, de controlar nosso corpo no espaço e, em sendo, podermos
recuperar nossa postura, normal e correta, depois de ter realizado um movimento.
Para manter um equilíbrio dinâmico é necessário manter uma atitude postural,
apropriada, durante os movimentos. O equilíbrio estático exige uma coordenação
neuromotora adequada para manter uma determinada postura.

Dimensão cognitiva
A dimensão cognitiva trata do desenvolvimento das funções cognitivas, as
quais permitem, ao indivíduo, realizar movimentos corporais, ou seja, dominar as
relações espaciais, temporais e simbólicas.
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Nessa dimensão teremos conceito de espacialidade, temporalidade.


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Dimensão emocional
A dimensão cognitiva envolve os estímulos emocionais, os quais interferem
no movimento do corpo, podendo estimulá-los ou inibi-los. Ao pensarmos a
motricidade, como parte integrante do psiquismo, concluímos que as habilidades
motoras expressivas ou criativas do indivíduo, estão relacionadas com sua
afetividade. Isto nos permite concluir que as diversas formas de intervenção
psicomotoras contribuem para que o indivíduo conheça, de maneira concreta, seu
EU e o meio em que vive, podendo assim, agir de forma adaptada.

Nas palavras de Piaget (s.d. apud Fonseca, 2008, p. 98):

É a inteligência que se encarrega de coordenar a motricidade, de forma a


acomodá-la ao real, para conhecê-lo e transformá-lo. É este mesmo
princípio que deve ser transferido para as aprendizagens escolares ou
extra-escolares. Para aprender a ler, a escrever, a cantar e a pensar, a
criança deve experimentar e realizar ações e interações múltiplas com os
sistemas proprioceptivos, vestibulares, táctil-cinestésicos, visuais e
auditivos.

Anote aí:

Essas três dimensões da psicomotricidade (aspectos físicos, cognitivos e


emocionais) devem ser exercidas de forma integrada, uma vez que dará segurança,
equilíbrio e permitirá à criança, organizar corretamente suas relações com os
diferentes meios nos quais tem de evoluir. Em apartada síntese, é a preparação
para a vida adulta (LAGRANGE, 1977).
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A Psicomotricidade no processo ensino-aprendizagem

De imediato vamos a uma afirmativa que justifica por si só a importância da


utilização das técnicas da Psicomotricidade no ambiente escolar. Essa afirmativa
vem de Le Boulch (1983), ao dizer que a educação psicomotora deve ser
considerada como uma educação de base na escola primária. Ela condiciona todos
os aprendizados escolares; leva a criança a tomar a consciência de seu corpo, da
lateralidade, a situar-se no espaço, a dominar seu tempo, a adquirir a coordenação
de seus movimentos.

Vygotsky (2003) também afirma que o brincar funciona como ferramenta


principal para a aquisição das capacidades intelectuais do indivíduo. Igualmente
Fonseca (1996) destaca a aplicação das práticas corporais como fundamentais, a
fim de se evitar problemas escolares.
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Para corroborar com as afirmativas acima, fato é que a Escola, sem dúvida, é
a instituição social mais importante no que se refere à implementação de mudanças
de comportamento dos indivíduos. Se essa Educação Escolar se dá de maneira
diferenciada, ou seja, buscando revelar as contradições do sistema social sobre o
qual o sistema escolar está implantado, provavelmente, surgirão daí sujeitos dotados
de consciência crítica, além de emancipados cultural e intelectualmente. Porém para
que ocorra esse tipo de Educação, é necessário primeiramente, que os educadores
tenham como objetivo um ensino crítico superador ou transformador e de qualidade
(Resende, 1994 apud Galvão, 2004), ou seja, esses objetivos devem girar em torno
do desenvolvimento de um homem comprometido com a história, crítico do contexto
que o cerca, que reflete e age sobre essa realidade a partir dos elementos que ela
mesma fornece (Ferreira, 1984 apud Galvão, 1995).

Quando falamos em educação podemos nos reportar a uma infinidade de


situações e objetivos. Ela pode ser vista pela ótica da transformação do ser humano
como um ser em unidade, numa atividade de interação consciente com o ambiente,
portanto, a partir da referência social de personalidade, podemos inferir que a
Educação Física (a mais apta a trabalhar com a Psicomotricidade) lida com a
formação da personalidade do indivíduo.

Podemos entender também que ela proporciona através do movimento,


conhecimento em várias outras áreas como matemática, educação artística,
conhecimentos do meio natural, social e cultural.

Escola, Educação Física e Psicomotricidade

A função clássica da escola é garantir o processo de transmissão,


sistematização e assimilação de conhecimentos e habilidades produzidos
historicamente pela humanidade, de modo a permitir que os seres humanos venham
a interagir e intervir na sociedade (RESENDE; SOARES, 1997).
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Esses conhecimentos e habilidades quer sejam técnicos, científicos,


estéticos, artísticos ou culturais, são entendidos como patrimônio sociocultural da
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humanidade, ou seja, de dimensões universais, quando tem uma representação que
independe de lugar geográfico, político e social e, tem dimensões particulares
quando representam determinadas sociedades ou comunidades. Isto quer dizer que
precisam ser socializados.

Pois bem, à escola cabe a função político-social de possibilitar a conservação


e a renovação dos conhecimentos produzidos e acumulados, para que as novas
gerações assumam a responsabilidade de continuarem a construção de uma
sociedade, que no nosso caso, se identifica com valores humanistas e democráticos.

Essa condição da escola leva a inferir que a mesma deve selecionar os


conteúdos necessários à formação do cidadão autônomo, crítico e criativo, para que
este possa participar, intervir e comprometer-se com os rumos da sociedade
possível, portanto, é função da escola desenvolver a personalidade e as
potencialidades dos indivíduos, pautar-se em valores nobres de justiça, de tolerância
às diferenças, de pluralidade, de liberdade, de igualdade de condições e
oportunidades (RESENDE; SOARES, 1997).

Enfim, a escola deve instrumentalizar seus alunos para participar plenamente


na vida pública, como cidadãos e nesse contexto, a educação física deve ser
considerada uma prática sociocultural importante para o processo de construção da
cidadania dos indivíduos.

Ela reúne um rico patrimônio cultural tanto de dimensões universais (esportes


e ginásticas institucionalizadas, etc.), quanto particulares (jogos e brincadeiras
populares, esportes locais, etc.).

Acrescenta-se o fato de que o ensino sistematizado da educação física, além


de possibilitar o aumento do repertório de conhecimentos e habilidades, bem como a
compreensão e a reflexão sobre a cultura corporal, é entendida como uma das
formas de linguagem e expressão comunicativa que, como qualquer prática social, é
eivada de significados, sentidos, códigos e valores, que influenciam a formação do
ser humano.

A prática psicomotora auxilia o indivíduo em vários aspectos como:


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afetividade, conhecimento, motricidade e a própria reflexão (SANTOS et al, 2007).


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A psicomotricidade trabalha respeitando o potencial de cada ser dando a ele o
direito de ter um lugar na sociedade, lembrando sempre que o corpo e a mente têm
limites que devem ser respeitados e trabalhados de acordo com as potencialidades
de cada indivíduo.

A criança quando tem a oportunidade de desenvolver suas habilidades


psicomotoras tem uma personalidade própria e é capaz de se organizar física e
mentalmente com mais facilidade, sabe diferenciar diversos conceitos como: o
correto do errado; o quente do frio e outros tantos.

Para Santos et al (2007) existem várias maneiras de trabalhar com o


psicomotor da criança, um exemplo bem prático e fácil de ser entendido é usar um
espelho onde coloca-se a criança de frente para ele e lhe mostra quando levanta um
braço, mexe a cabeça, dança, rola no chão, mímicas faciais, com isso a criança vai
entender que seu corpo tem habilidades exatas e outras que podem ser
aprimoradas.

Para Le Boulch (1983, p.70), progressivamente, a criança poderá comparar


seu corpo sinestésico com as reações posturais e gestuais que ela vê no espelho e
que ainda lhe são estranhas. Pouco a pouco, a criança chegará à convicção de que
o corpo que ela sente é o mesmo daquele que observa no espelho.

A criança com o passar do tempo e conforme for sendo trabalhada, começa a


ter a noção de espaço, passando a perceber que é um ser com capacidades e
habilidades que tem seu próprio lugar no mundo. A partir desse momento ela
consegue entender com mais facilidade as direções como: esquerda, direita, frente,
atrás, em cima, em baixo.

Nesse sentido, a escola enquanto mediadora do conhecimento deve trabalhar


com a psicomotricidade de forma que passe a criança tranquilidade, otimismo e
segurança, pois assim a criança irá se sentir à vontade para trabalhar com o corpo e
a mente de forma prazerosa e significativa.
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Esse trabalho não só pode como deve ser feito de forma interdisciplinar na
escola e, evidentemente na sala de aula, sem fragmentar conteúdos, identificando o
estudado e o vivido, sendo este último a partir das variadas experiências dos alunos.

A Psicomotricidade na Educação Infantil

Na Educação Infantil, a criança busca experiências em seu próprio corpo,


formando conceitos e organizando o esquema corporal. A abordagem da
Psicomotricidade irá permitir a compreensão da forma como a criança toma
consciência do seu corpo e das possibilidades de se expressar por meio desse
corpo, localizando-se no tempo e no espaço. O movimento humano é construído em
função de um objetivo. A partir de uma intenção como expressividade íntima, o
movimento transforma-se em comportamento significante. É necessário que toda
criança passe por todas as etapas em seu desenvolvimento (LIMA; BARBOSA,
2007).

O trabalho da educação psicomotora com as crianças deve prever a formação


de base indispensável em seu desenvolvimento motor, afetivo e psicológico, dando
oportunidade para que por meio de jogos, de atividades lúdicas, se conscientize
sobre seu corpo. Através da recreação a criança desenvolve suas aptidões
perceptivas como meio de ajustamento do comportamento psicomotor. Para que a
criança desenvolva o controle mental de sua expressão motora, a recreação deve
realizar atividades considerando seus níveis de maturação biológica. A recreação
dirigida proporciona a aprendizagem das crianças em várias atividades esportivas
que ajudam na conservação da saúde física, mental e no equilíbrio sócio afetivo.

Segundo Barreto (2000), o desenvolvimento psicomotor é de suma


importância na prevenção de problemas da aprendizagem e na reeducação do
tônus, da postura, da direcionalidade, da lateralidade e do ritmo.

Reforça-se que a educação da criança deve evidenciar a relação através do


movimento de seu próprio corpo, levando em consideração sua idade, a cultura
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corporal e os seus interesses. A educação psicomotora para ser trabalhada


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necessita que sejam utilizadas as funções motoras, perceptivas, afetivas e sócio
motoras, pois assim a criança explora o ambiente, passa por experiências concretas,
indispensáveis ao seu desenvolvimento intelectual, e é capaz de tomar consciência
de si mesma e do mundo que a cerca.

Recapitulando:

A educação pelo movimento deveria ter um espaço reservado, principalmente


na escola primária. O programa de desenvolvimento motor é preciso ter atividades
recreativas compensatórias. No currículo da escola primária é necessário também
como básica a educação pelo movimento.

A psicomotricidade é um meio de intercâmbio e contato com o exterior. O que


importa não é a materialidade de um gesto, mas sim o sistema integrado a que ele
pertence e representa no instante em que se manifesta, sendo um determinante
social e funcional ao atuar no ambiente (CARVALHO, 2000).

O corpo tem que ser visto como um todo sendo um importante instrumento
para o desenvolvimento do homem. Este quando nasce traz sua herança biológica,
mas, através de um corpo que sente, expressa, experimenta e interage com o meio,
pode-se desenvolver o seu potencial e estruturar a formação do seu EU.

A Psicomotricidade e a ação pedagógica, entre avanços e


dificuldades

Segundo Assmann (1996, p. 47):

Há uma ponte fundamental entre motricidade e educação no papel


fundamental da participação corporal nos processos de aprendizagem.
Todo conhecimento se instaura como um aprender mediado por
movimentos internos e externos da corporeidade viva. Toda aprendizagem
tem uma inscrição corporal. Não existe mentalização sem corporalização.
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Por isso, o corpo aprende a referência fundante de toda aprendizagem. A


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morfogênese do conhecimento acontece no interior da motricidade corporal
do ser humano. E a unidade dos processos cognitivos com os processos
vitais obedece normalmente a uma dinâmica de prazerosidade.

Para que a ação pedagógica e o trabalho psicomotor, aqui entendidos como o


trabalho conjunto dos professores, dos alunos e da supervisão pedagógica levem a
uma atuação transformadora, ou seja, para que aconteça uma educação efetiva,
prevenção ou reeducação, Faria Jr (1981 apud Mello, 2006, p. 46) indica:

Uma sequência de passos pedagógicos, baseados na concepção de “modelo


de ensino”, que considera necessários ao adequado encaminhamento dos trabalhos:

 Especificidade de objetivos;

 Comprovação prévia;

 Seleção de conteúdo;

 Seleção de procedimentos didáticos;

 Desenvolvimento das atividades; e,

 Verificação dos resultados.

Entretanto, para que haja essa atuação transformadora, existe um conjunto


de orientações que podem contribuir para o melhor desenvolvimento das atividades
pedagógicas, que incluem permitir a participação dos educandos, trabalhar
constantemente as funções psicomotoras, respeitar a individualidade das crianças,
desestimular competição e incentivar cooperações entre eles, deixar a criança
explorar ambientes.

O primeiro passo para um trabalho efetivo e transformador é conhecer


eventuais problemas psicomotores que apareçam no ambiente escolar.

De acordo com Assmann (1996, p. 88):

Os distúrbios psicomotores são aqueles que se relacionam com dificuldades


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na execução de movimentos e deficiências perceptuais. Assim, crianças


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que apresentam distúrbios no seu esquema corporal mostram dificuldades
na percepção de partes do seu corpo, na proporção entre elas e no
conhecimento de lateralidade.

A não satisfação dessas necessidades manterá a criança em posição de


desigualdade diante do seu grupo ou de crianças da mesma idade. Isto causa
ansiedade, tensão, insegurança e, consequentemente, problemas emocionais que
interferirão nas suas atividades intelectuais e na sua adaptação sócio afetiva.

Vejam bem:

Elas não têm um bom equilíbrio, não conseguem pular corda, não andam de
bicicleta, não conseguem se vestir sozinhas e nem amarrar o tênis, tropeçam e
caem com facilidade e não conseguem se orientar no espaço. Não escrevem na
linha, a letra é irregular, ora pequena, ora grande, o traçado é muito forte e não
recortam direito, as pinturas são fortes e sem limites, não colocam os números
dentro dos quadradinhos, tem dificuldades em montar um jogo de encaixe, dentre
outros...

Numa medida preventiva ou mesmo corretiva e após conhecer os problemas


que afetam seus alunos, o professor deve levá-los a:

 Desenvolver as qualidades físicas básicas - força, velocidade e resistência;

 Desenvolver as capacidades psicomotoras, com vista a organizar e melhorar

o comportamento da criança;

 Aperfeiçoar a coordenação dinâmica geral;

 Desenvolver a coordenação óculo-manual;

 Desenvolver a capacidade de respostas adequadas aos diferentes estímulos,

para a realização de movimentos;

 Desenvolver a estrutura espacial (localização, direção, orientação, noção de

distâncias e apreciação de trajetórias);


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 Desenvolver as relações espaço-temporais e o sentido de ritmo;


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 Melhorar o conhecimento do próprio corpo em relação com o ajustamento

postural e o domínio dos movimentos voluntários;

 Proporcionar a livre expressão corporal;

 Eliminar o egocentrismo natural;

 Fomentar o respeito mútuo;

 Desenvolver o sentido de responsabilidade;

 Desenvolver o espírito de cooperação.

Enfim, para o sucesso da ação pedagógica, além da percepção do


profissional, do seu comprometimento em torno do trabalho psicomotor, a
construção do ambiente escolar é outro fator considerável, os quais serão
analisados abaixo.

Fatores necessários à construção do ambiente educativo

São vários os fatores que podem contribuir com o sucesso da escola no seu
processo de ensino-aprendizagem, ou seja, para que atinja todas as parcelas de
alunos que lá se encontram, cada um com suas peculiaridades.

Dentre os fatores tem-se uma gama de recursos e materiais pedagógicos em


quantidade suficiente, contudo, recursos físicos sozinhos não educam, é preciso, por
trás destes materiais, profissionais aptos a usá-los, explorá-los e com capacidade de
intervenção nas práticas diárias, buscando o desenvolvimento global das crianças.

Em relação à psicomotricidade, segundo Almeida (2006), é necessário um


mínimo de objetos para que as intervenções possam ser desencadeadas.

Então para um bom trabalho de psicomotricidade na escola, Almeida (2006)


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sugere uma junção de fatores:


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Concepção
Todo e qualquer trabalho precisa primeiramente ser planejado. Ter objetivos
claros para ter uma linha de pensamento a seguir.

Outro problema considerável diz respeito às técnicas, pois elas sozinhas


também não transformam, sendo necessário na realidade, que o professor tenha
uma concepção em sua cabeça, assim, de uma dinâmica perfeita é que surgirá a
verdadeira construção do professor observador.

Comportamento
Novamente vem à tona a necessidade do professor em ser um observador
nato, pois:

[...] o comportamento de um professor que quer trabalhar com


psicomotricidade é sempre de um observador, afinal, é nas atividades
diárias que esse profissional vai introduzindo práticas com objetivos
psicomotores. Não se pode dissociar as execuções. Motricidade deve estar
ao lado de afetividade. São estes dois aspectos que se juntam para formar
uma concepção maior que chamamos de trabalho psicomotor (ALMEIDA,
2006, p. 20).

Neste aspecto, o comportamento vem a ser uma atitude de o professor não


desqualificar as relações vividas pelos alunos nos ambientes educativos.

Ele é, na realidade, o combustível que move as relações diárias de um


professor que quer construir coletividade na multiplicidade dos seres com as
diferenças de cada um.

Compromisso
Quando o professor aproveita seu tempo de maneira racional, objetiva e útil,
não tendo (des) serviço, acontece o compromisso, ou seja, acontece quando se
racionaliza, planeja e operacionaliza as ações, levando estas a se tornarem mais
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claras.
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Materiais
A importância do manuseio dos materiais pedagógicos concretos é óbvia, pois
a partir deles, o processo educativo é mais próximo e mais pertinente. No entanto,
de pouco adianta tê-los em quantidade e diversidade suficiente se não existe uma
dinâmica, uma concepção de como utilizá-los, com objetivos determinados.

Deste modo, é preciso coexistirem, material e concepção e ainda serem


usados com discernimento. “Material sozinho não funciona. Ele precisa ser
humanizado. Ele precisa vir para dentro da vida do conhecimento que se busca”
(ALMEIDA, 2006, p. 23).

Espaços
Os espaços são compostos de estrutura física: salas, cadeiras, mesas,
armários, livros, quadros e todos os outros recursos físicos que podem existir em um
espaço, seja ele de educação formal (escola) ou de educação não formal (igreja,
partido político, clube, comunidade, etc.) (ALMEIDA, 2006, p. 23).

Dentro dessa concepção, o ambiente educativo pode ser construído em


qualquer espaço físico, não necessariamente a escola, sabendo extrair dele, a
riqueza ali existente.

Contudo, para a psicomotricidade é preciso um espaço que privilegie as


relações, onde as atividades motoras podem cumprir um papel de estimulação.

Neste caso, e de acordo com Almeida (2006, p.24):

Os ambientes psicomotores educativos são aqueles em que se busca


explorar cada ação acontecida ali. Toda e qualquer relação humana tem de ser
considerada porque a criança está em pleno momento de construção de referências
para ela e para o mundo. É neste momento em que a criança está elaborando e
apurando sua forma de olhar para o mundo e sua forma de o conceber. Também é
neste momento em que a criança está buscando qual é o lugar dela no meio dos
adultos e como os adultos vão abrindo espaços para que ela possa ocupar.

Enfim, o ambiente psicomotor adequado é um espaço humanizado, composto


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por recursos, ações, pessoas, relações sociais e exploração coletiva.


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Recapitulando:

A psicomotricidade, como estimulação aos movimentos da criança, tem como


meta:

- Motivar a capacidade sensitiva através das sensações e relações entre o


corpo e o exterior (o outro e as coisas).

- Cultivar a capacidade perceptiva através do conhecimento dos movimentos


e da resposta corporal.

- Organizar a capacidade dos movimentos representados ou expressos


através de sinais, símbolos, e da utilização de objetos reais e imaginários.

- Fazer com que as crianças possam descobrir e expressar suas


capacidades, através da ação criativa e da expressão da emoção.

- Ampliar e valorizar a identidade própria e a autoestima dentro da pluralidade


grupal.

- Criar segurança e expressar-se através de diversas formas como um ser


valioso, único e exclusivo.

- Criar uma consciência e um respeito à presença e ao espaço dos demais.

Enfim, as relações corpo e mente, são de extrema importância para o


desenvolvimento corporal, mental e emocional do ser humano e em especial para o
desenvolvimento da criança e a psicomotricidade contribui sobremaneira para a
formação e estruturação do esquema corporal, o que facilitará sua orientação
espacial.

O exercício físico estimula a respiração, a circulação, o aparelho excretor,


além de fortalecer os ossos, músculos e aumentar a capacidade física geral, dando
ao corpo um pleno desenvolvimento.

Quanto à parte mental, se a criança possuir um bom controle motor, poderá


explorar o mundo exterior, fazer experiências concretas, adquirir várias noções
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básicas para o próprio desenvolvimento da mente, o que permitirá também tomar
conhecimento de si mesmo e do mundo que a rodeia.

Emocionalmente, a criança conseguirá todas as possibilidades para


movimentar-se e “descobrir” o mundo, tornar-se feliz, adaptada, livre, socialmente
independente.

Neste contexto, o desenvolvimento do educando pressupõe o


desenvolvimento das diversas facetas do ser humano: a cognição, a afetividade, a
psicomotricidade e o modo de viver. Educação tem que ser não o que pensar, mas
sim como pensar. Para que isso ocorra, é preciso propiciar na escola, um ambiente
alegre, feliz e que possui um espaço para dialogar, discutir, questionar e
compartilhar saberes. Onde há espaço para a construção do conhecimento
significativo.

Teoria, técnica e formação pessoal formam uma trilogia que o professor deve
trazer para sua práxis pedagógica. Elas se entrelaçam dando o suporte necessário
ao seu desempenho profissional.

Neste sentido, o educador tem que valorizar o saber, valorizar o indivíduo


para desenvolver uma formação solidária, sendo necessário para tanto, aprender a
conhecer, a fazer e a ser.

O educador deve criar a capacidade que gere espírito crítico para a interação,
para melhorar os estímulos, incentivos, motivar para melhorar a autoestima.

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