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LIMITAÇÕES AO PODER DE TRIBUTAR - PRINCÍPIOS 1

Até agora nós falamos sobre as espécies tributárias, competência tributária e sobre quem
pode exercê-la. Contudo, obviamente, não pode o Poder Público cobrar os tributos a seu bel
prazer, não é mesmo? Ele tem limitações ao Poder de Tributar.
As limitações ao Poder de Tributar são freios ao exercício da competência tributária, e es-
tão presentes no arts. 150, 151, 152 e em dispositivos esparsos na CF/88.
Como já vimos, essas limitações são representadas por meio de Imunidades e de
Princípios, de modo que na aula passada tratamos das Imunidades, e nesta aula trataremos
dos Princípios.
Antes de seguirmos para o estudo de cada princípio, lembre-se de que o inc. II do art.
146 da CF/88 prevê que Lei Complementar regulará as limitações ao Poder de Tributar:

Art. 146. Cabe à lei complementar:


II – regular as limitações constitucionais ao poder de tributar.

1. Princípios constitucionais tributários


Os princípios constitucionais tributários visam proteger garantias e direitos
individuais, com o intuito de (i) evitar arbitrariedades por parte do Poder Público, (ii) conferir
segurança jurídica aos contribuintes e (iii) garantir que eles não terão que pagar tributos sem
programação e com valores exorbitantes, por exemplo.
Em um estudo doutrinário, costuma-se dizer que entre as normas temos a presença
das regras e dos princípios.
As regras são mais concretas, são normas que definem um procedimento ou uma conduta.
Regras, ou são totalmente cumpridas, ou não são cumpridas, elas não admitem o cumprimen-
to parcial. Vale a ideia do tudo ou nada!
Note a seguinte regra do Código Penal:

Art. 121. Matar alguém:


Pena – reclusão, de seis a vinte anos.

É muito simples nesse caso definir a conduta proibida e a consequência de seu des-
cumprimento.
Temos uma situação fática específica delimitada: matar alguém. E temos, ainda, uma con-
sequência relacionada a esse ato: a imposição de uma pena de reclusão de seis a vinte anos.
Por outro lado, os princípios são mais abstratos e não são definidores de condutas
específicas.
Quando a Constituição impõe ao Poder Público a observância do Princípio da Igualdade
– ou da Isonomia no Direito Tributário, não conseguimos, de plano, discernir uma única
situação normatizada, nem visualizar a consequência imediata para o seu descumprimento.
É por isso que os princípios são os chamados “mandados de otimização”, ou seja, 2
eles devem ser utilizados para se alcançar o grau ótimo de concretização da norma.
Também devido a essa abstração dos princípios, eles admitem um cumprimento parcial.
Diz-se que quando duas regras entram em conflito, o aplicador deve cumprir uma ou outra,
nunca as duas, pois uma regra exclui a outra.
Já quando dois princípios entram em conflito, dizemos que houve uma “colisão” de prin-
cípios (nunca uma contradição) e, dessa forma, ambos poderão ser cumpridos, embora em
graus diferentes de cumprimento.
Estuda-se então o caso concreto, e descobre-se qual o princípio que irá prevalecer sobre
o outro, sem que um deles seja totalmente excluído do sistema.
Os princípios tributários podem estar expressos na Constituição (Princípio da
Igualdade, Princípio da Uniformidade Geográfica, Princípio da Anterioridade Tributária...) ou
podem estar implícitos no texto constitucional.
Os princípios implícitos decorrem de normas expressas do texto e dos regimes expressa-
mente adotados pela Constituição, ou então devido a direcionamentos do Direito Constitucio-
nal. Por exemplo, Princípio da Razoabilidade, Princípio da Proporcionalidade.
Essas noções são bastante complexas e a nossa intenção aqui foi apenas resumir para
você de forma que, na prova, resolver as questões desse tema seja mais tranquilo.
Mas não se preocupe muito com essa parte doutrinária do Direito Tributário. Aqui, o que
mais se cobra são as características dos Princípios Tributários que passaremos a expor
a seguir.

1.1. Princípio da legalidade/da reserva legal/de estrita legalidade/


De tipicidade Fechada

O Princípio da Legalidade está previsto no inc. I, art. 150, CF/88, e estabelece que os
tributos somente podem ser instituídos ou aumentados por meio de lei:

Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos
Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I – exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça.

Isso quer dizer que os entes da federação só podem criar ou aumentar os seus
tributos por meio de lei.
Na definição de tributo constante no art. 3º do CTN, e já estudado em nosso curso, foi visto
que ele (o tributo) somente pode ser instituído por meio de lei, em harmonia com o
previsto no texto constitucional.
O art. 97 do CTN prevê que além da instituição e do aumento, outras peculiaridades do tri- 3
buto devem ser objeto de lei:

Art. 97. Somente a lei pode estabelecer:


I – a instituição de tributos, ou a sua extinção;
II – a majoração de tributos, ou sua redução, ressalvado o disposto nos artigos 21, 26, 39, 57 e
65; III – a definição do fato gerador da obrigação tributária principal, ressalvado o disposto no
inciso I do § 3º do artigo 52, e do seu sujeito passivo;
IV – a fixação de alíquota do tributo e da sua base de cálculo, ressalvado o disposto nos artigos
21,
26, 39, 57 e 65;
V – a cominação de penalidades para as ações ou omissões contrárias a seus dispositivos, ou para
outras infrações nela definidas;
VI – as hipóteses de exclusão, suspensão e extinção de créditos tributários, ou de dispensa
ou redução de penalidades.
§ 1º Equipara-se à majoração do tributo a modificação da sua base de cálculo, que importe em tor-
ná-lo mais oneroso.
§ 2º Não constitui majoração de tributo, para os fins do disposto no inciso II deste artigo, a atualiza-
ção do valor monetário da respectiva base de cálculo.
Quanto à majoração do tributo, pontue-se, desde então, que o legislador destacou no 4
CTN, artigo 97, parágrafo §2º, que não é considerada como majoração do tributo a
atualização do valor monetário da respectiva base de cálculo.
Caso ocorra uma atualização do tributo, dentro de índices oficiais de inflação, por exemplo,
essa atualização poderá ser feita por norma infralegal, como um decreto.
O que não pode ocorrer é uma “atualização disfarçada”, na qual os percentuais de
“reajuste” venham a superar os índices oficiais, criando um efetivo aumento do valor devido.
No que se refere ao IPTU, há súmula do STJ destacando que o município não pode
atualizar esse imposto por meio de decreto, se o índice de atualização for superior ao índice
oficial de correção monetária.

Súmula n. 160, STJ


É defeso, ao Município, atualizar o IPTU, mediante decreto, em percentual superior ao
índice oficial de correção monetária.

Nesse sentido, caso os entes políticos pretendam atualizar o tributo em percentual


superior ao índice oficial de correção monetária, eles devem editar uma lei, em atenção
ao Princípio da Legalidade, pois aí se configurará majoração do tributo.
Quanto ao prazo para pagamento do tributo, não há previsão no CTN, tendo os Ministros
do STF, em sua maioria, concluído que ele pode ser previsto por meio de ato do Poder
Executivo (RE 140.669/PE, STF).
Embora esse tema não seja fruto de posicionamento pacífico entre os Ministros da Supre-
ma Corte, as bancas examinadoras consideram que o prazo para pagamento do tributo
não é matéria reservada à estrita legalidade.
O CTN no seu 97, inc. III prevê que somente a lei pode estabelecer a obrigação
tributária principal, não fazendo essa exigência para a obrigação tributária acessória.
No art. 113, § 2º, o legislador conceituou a obrigação acessória, afirmando que essa “tem
por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação
ou da fiscalização dos tributos”, e ainda afirmou que ela decorre da legislação tributária.
Nesse sentido, a obrigação tributária acessória pode ser prevista por atos infralegais
(EDcl nos EDcl no AgRg no REsp 507.467/PR, STJ).
Outro dispositivo exigido em provas é o §6º do art. 150 da CF/88. Segundo ele, alguns te-
mas devem ser objeto de lei específica:

§ 6º Qualquer subsídio ou isenção, redução de base de cálculo, concessão de crédito presumi-


do, anistia ou remissão, relativos a impostos, taxas ou contribuições, só poderá ser concedido
mediante lei específica, federal, estadual ou municipal, que regule exclusivamente as matérias
acima enumeradas ou o correspondente tributo ou contribuição, sem prejuízo do disposto no art.
155, § 2º, XII, g.
Nesse sentido, quando o legislador constituinte afirma que determinado assunto deve ser 5
previsto em lei específica, ele exige a edição de lei que trate só do tema em destaque, ou
exige que o assunto seja previsto em lei relativa ao tributo a que ele se refere:

1.2. Lei complementar

Nos termos dos dispositivos já estudados nesta aula, a instituição, a majoração, e algumas
características dos tributos devem ser previstas em lei.
Ocorre que o legislador constituinte exige a edição de lei complementar para tratar
de determinados temas de Direito Tributário.
Lembre-se de que se o legislador constituinte não exigir a edição de lei complementar para
instituição/majoração tributo de sua competência, é possível instituí-lo e majorá-lo por inter-
médio de lei ordinária, ou até mesmo de medida provisória.
No entanto, se ele exigir a edição de lei complementar para tratar de determinada
matéria, deve-se seguir o rito especial dessa espécie, pois o seu quórum de aprovação é
mais exigente. A CF/88, art. 62, § 1º, inc. III destaca ainda que nos casos em que se exige
lei complementar, é vedada a edição de medida provisória.

Art. 62. Em caso de relevância e urgência, o Presidente da República poderá adotar medidas provi-
sórias, com força de lei, devendo submetê-las de imediato ao Congresso Nacional.
§ 1º É vedada a edição de medidas provisórias sobre matéria: 6
III – reservada a lei complementar.

Preste atenção: em razão dessa afirmação, o examinador pode fazer pegadinhas e


afirmar que determinado tema que deve ser previsto em lei complementar pode ser objeto de
medida provisória, o que está errado.
O art. 146 da CF/88 prevê casos que devem ser previstos por meio de lei complementar:

Art. 146. Cabe à lei complementar:


I – dispor sobre conflitos de competência, em matéria tributária, entre a União, os Estados, o Distrito
Federal e os Municípios;
II – regular as limitações constitucionais ao poder de tributar;
III – estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária, especialmente sobre:
a) definição de tributos e de suas espécies, bem como, em relação aos impostos discriminados
nesta Constituição, a dos respectivos fatos geradores, bases de cálculo e contribuintes;
b) obrigação, lançamento, crédito, prescrição e decadência tributários;
c) adequado tratamento tributário ao ato cooperativo praticado pelas sociedades cooperativas.
d) definição de tratamento diferenciado e favorecido para as microempresas e para as empresas de
pequeno porte, inclusive regimes especiais ou simplificados no caso do imposto previsto no art. 155,
II, das contribuições previstas no art. 195, I e §§ 12 e 13, e da contribuição a que se refere o art.
239.

Conforme o inc. I desse artigo, caso haja conflito quanto à competência para tratar de de-
terminado tributo, esse deve ser disposto por meio de lei complementar.
Quanto ao inc. II, destaca o legislador constituinte que as limitações ao Poder de Tributar
devem ser reguladas por meio de lei complementar, ou seja, é a lei complementar que deve
dispor sobre imunidades e princípios.

Já a alínea “a”, inc. III desse artigo, afirma que lei complementar deve estabelecer
normas gerais em matéria tributária e destaca que os seguintes assuntos devem ser objeto
dessa espécie normativa:
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Lembre-se de que o art. 97 do CTN exige edição de lei para previsão desses temas, mas
não faz ressalvas quanto à edição de LC.
Como prevalece a previsão constitucional, tenha em mente que, no que se refere aos
impostos, os fatos geradores, a base de cálculo e os contribuintes devem ser previstos
por meio de lei complementar.
Quanto às demais espécies tributárias, o legislador constituinte não fez essa imposição, e,
por isso, basta lei ordinária ou medida provisória.
Ainda tratando do inc. III do art. 146 da CF, devem ser objeto de lei complementar:

Além disso, como já visto, as seguintes espécies tributárias devem ser instituídas e
majoradas por meio de lei complementar:
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Quanto ao ICMS, a CF, art. 155, § 2º, inc. II afirma que cabe à lei complementar:
Quanto ao ITCMD, a CF/88, art. 155, §1º, III destaca que lei complementar deverá regular 9
exigência de ITCMD nos seguintes casos:
• se o doador tiver domicílio ou residência no exterior;
• se o de cujus possuía bens, era residente ou domiciliado ou teve o seu inventário
processado no exterior.

Quanto ao ISSQN, o §3º do art. 156 da CF/88 prevê que cabe à lei complementar:
• fixar as suas alíquotas máximas e mínimas;
• excluir da sua incidência exportações de serviços para o exterior; e
• regular a forma e as condições como isenções, incentivos e benefícios fiscais serão
concedidos e revogados.

1.3. Exceções ao princípio da legalidade

Preste atenção a este tópico, querido (a) aluno (a)!


A CF/88 prevê exceções ao Princípio da Legalidade, que são conhecidas também como
mitigações ou ressalvas ao Princípio da Legalidade.
Por meio do § 1º, art. 153, a CF/88 autoriza o aumento de alíquotas de alguns impostos por
meio de ato normativo do Poder Executivo:

Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre:


I – importação de produtos estrangeiros;
II – exportação, para o exterior, de produtos nacionais ou nacionalizados – IE;
IV – produtos industrializados;
V – operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários;
§ 1º É facultado ao Poder Executivo, atendidas as condições e os limites estabelecidos em lei,
alterar as alíquotas dos impostos enumerados nos incisos I, II, IV e V.

Nesse sentido, a majoração do II, IE, IPI e IOF pode se dar por Decreto do Poder
Executivo. Para uma melhor compreensão, recorde-se das classificações já estudadas
quanto aos tributos extrafiscais, que são utilizados pelo Poder Público para regular situações
econômicas. Tendo em vista que o II, IE, IPI e IOF são classificados como tributos
extrafiscais, o legislador constituinte concedeu ao Poder Executivo a possibilidade de
aumentar/diminuir as suas alíquotas quando for importante incentivar ou desestimular
determinadas operações, que repercutam na situação econômica/social do país, sem
interferência do Poder Legislativo.
O § 4º do art. 177 da CF/88 também prevê exceção ao Princípio da Legalidade,
autorizando que a redução e o restabelecimento da alíquota da CIDE-Combustível
sejam determinados pelo Poder Executivo:

§ 4º A lei que instituir contribuição de intervenção no domínio econômico relativa às atividades de im-
portação ou comercialização de petróleo e seus derivados, gás natural e seus derivados e álcool com-
bustível deverá atender aos seguintes requisitos: (Incluído pela Emenda Constitucional n. 33, de
2001)
I – a alíquota da contribuição poderá ser: (Incluído pela Emenda Constitucional n. 33, de 2001) 10
b) reduzida e restabelecida por ato do Poder Executivo, não se lhe aplicando o disposto no art.
150, III, b; (Incluído pela Emenda Constitucional n. 33, de 2001)

Outra hipótese de exceção a esse princípio é relativa ao ICMS, conforme análise dos se-
guintes dispositivos: alínea “h” inc. XII, § 2º, art. 155 e inc. IV, § 4º, art. 155 da CF/88.

§ 2º O imposto previsto no inciso II atenderá ao seguinte:


XII – cabe à lei complementar:
g) regular a forma como, mediante deliberação dos Estados e do Distrito Federal, isenções, incenti-
vos e benefícios fiscais serão concedidos e revogados.
h) definir os combustíveis e lubrificantes sobre os quais o imposto incidirá uma única vez,
qualquer que seja a sua finalidade, hipótese em que não se aplicará o disposto no inciso X,
b;
§ 4º Na hipótese do inciso XII, h, observar-se-á o seguinte:
IV – as alíquotas do imposto serão definidas mediante deliberação dos Estados e Distrito
Federal, nos termos do § 2º, XII, g, observando-se o seguinte:...

Esses dispositivos tratam do ICMS-Combustível (ICMS-Monofásico), incidente uma


única vez em operações com combustíveis e lubrificantes definidos em lei complementar, e
destaca que a alíquota incidente nessas operações será fixada por meio de convênios
celebrados pelos estados e pelo DF no âmbito do CONFAZ (Cons. de Política Fazendária).

Por fim, preste atenção que o Princípio da Legalidade somente pode ser afastado no que
se refere à alteração das alíquotas dos tributos mencionados.
Em resumo, quanto aos tributos que representam exceções ao Princípio da Legalidade, a
sua instituição e a sua extinção devem ser determinadas por meio de lei, enquanto a sua
majoração e a sua redução podem ser implementadas por meio de Decreto do Poder
Executivo.
2. Princípio da isonomia 11

O Princípio da Isonomia Tributária ou da Igualdade Tributária nos remete ao art. 5º da


CF/88, o qual afirma que todos são iguais perante a lei, prevendo direitos e garantias funda-
mentais para assegurar esse tratamento igualitário.
Do ponto de vista do Direito Tributário, o legislador constituinte, por meio do inc. II, art.
150, CF/88, veda o tratamento desigual a contribuintes que se encontrem em situação
similar:

Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos
Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
II – instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente,
proibida qualquer distinção em razão de ocupação profissional ou função por eles exercida, inde-
pendentemente da denominação jurídica dos rendimentos, títulos ou direitos.

Como se vê, esse dispositivo garante que:


• aqueles que se sujeitem a situações equivalentes sejam tratados de forma igual (isono-
mia horizontal); e
• aqueles que sujeitem a situações distintas, sejam tratados de forma desigual (isonomia
vertical).

A igualdade deve ser na lei (por intermédio da lei) e perante a lei. No primeiro caso, afir-
ma-se que é o legislador que deve respeitar o Princípio da Igualdade no momento da edição
de comandos normativos, e no segundo caso, afirma-se que são os aplicadores da lei, Poder
Executivo e Poder Judiciário, que devem observá-lo.

2.1. Princípio da isonomia tributária e o princípio do Pecunia non olet

O Princípio do Pecunia Non Olet é considerado um subprincípio do Princípio da


Isonomia, pois ele tem como fundamento tratar de forma igual as pessoas que
praticam atividades tributáveis, sejam elas ilícitas ou lícitas.
Nos termos do art. 3º do CTN, o tributo não constitui sanção de ato ilícito, o que não se
confunde com o nascimento da obrigação tributária em razão de atividade ilícita.
Há cobrança de tributo quando a pessoa (física ou jurídica) pratica um fato previsto em lei
como hipótese de incidência tributária, independentemente se as circunstâncias em que o fato
ocorreu são ilícitas ou não. Repare que o que não pode se confundir com a hipótese de
incidência é exatamente o fato ilícito. Se o fato decorre da situação ilícita e com ela não se
confunde, a tributação estará justificada.
Como já exposto na aula inaugural do nosso curso, pecunia non olet significa dinheiro
não cheira, e representa um princípio que assegura a exigência de tributos em decorrência
de aspectos que margeiam situações ilícitas.
No nosso ordenamento jurídico, constatamos a aplicabilidade desse princípio por meio da
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redação do inc. I do art. 118 do CTN:

Art. 118. A definição legal do fato gerador é interpretada abstraindo-se:


I – da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou ter-
ceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos

Por exemplo, a incidência de IR sobre a renda auferida por traficante de drogas com a
venda de entorpecentes decorre desse princípio.
Afinal, seria injusto tributar o trabalhador honesto e o meliante não ter essa obrigação.

2.2. Princípio da isonomia tributária e o princípio da capacidade


tributária contributiva

O Princípio da Capacidade Tributária Contributiva representa um subprincípio do Princípio


da Isonomia, e está previsto na CF/88, art. 145, §1º:

§ 1º Sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a
capacidade econômica do contribuinte, facultado à administração tributária, especialmente para
conferir efetividade a esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos termos
da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte.

Esse dispositivo gerou discussões doutrinárias e jurisprudenciais, entretanto, para fins de


concurso você precisa saber apenas algumas delas.
Em primeiro lugar, queremos que você entenda a ideia desse princípio: ele é dirigido ao
legislador, que ao graduar a tributação deve considerar a capacidade econômica do
contribuinte, cobrando mais de quem pode pagar mais, e cobrando menos de quem
não possui tantos meios.
Quem pode pagar mais, paga mais. Quem pode menos, paga
menos. Até aí tudo bem.
Uma discussão acerca do §1º do artigo 145 da CF/88 diz respeito ao fato de que ele limita
essa percepção a uma espécie tributária apenas.
Pela sua redação, a capacidade contributiva seria observada apenas para a
instituição de impostos.
No entanto, o STF já decidiu que a capacidade contributiva é aplicável a todas as
espécies tributárias:

Ementa: AGRAVO REGIMENTAL. TRIBUTÁRIO. IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE


DE VEÍCULOS AUTOMOTORES. IPVA. PROGRESSIVIDADE. 1. Todos os tributos
submetem-se ao princípio da capacidade contributiva (precedentes), ao menos em
relação a um de seus três aspectos (objetivo, subjetivo e proporcional), independentemente
de classificação extraída de critérios puramente econômicos. 2. Porém, as razões não deixam
entrever a má utilização de critérios como essencialidade, frivolidade, utilidade, adequação
ambiental etc. Considerado este processo, de alcance subjetivo, a alegação de
incompatibilidade constitucional não pode ser genérica. 3. Em relação à fixação da base de
cálculo, aplicam-se os mesmos fundamentos, dado que o agravante não demonstrou a
tempo e modo próprio a inadequação dos critérios legais adotados. Agravo regimental ao
qual se nega provimento. (RE 406955 AgR, Relator(a): Min. JOAQUIM BARBOSA,
Segunda Turma, julgado em 04/10/2011, DJe- 203 DIVULG 20-10-2011 PUBLIC 21-10-
2011 EMENT VOL-02612-01 PP-00043 RDDT n. 196, 2012, p. 208-210 RTFP v. 19, n. 101,
2011, p. 413-417 REVJMG v. 62, n. 199, 2011, 331-332).
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Para compreender melhor a redação do § 1º do art. 145 da CF/88, tendo em vista a ne-
cessidade de observar a realidade fática e jurídica do contribuinte para tributá-lo, imaginemos
como se dá o cálculo do Imposto sobre a Renda – IR.
O IR é um imposto pessoal que se sujeita a deduções legais, a depender das
características pessoais do contribuinte, e pode ser calculado mediante aplicação de
alíquotas diferentes ou não, conforme a sua base tributável.
Por exemplo, duas pessoas que aufiram renda de R$ 6.000,00 podem pagar valores
diferentes de IR, conforme suas realidades.
Se o contribuinte “A” tiver mais gastos com saúde, esses valores serão deduzidos da sua
renda, ocasionando uma base de cálculo de IR menor, e, consequentemente, ele pagará
menos IR do que o contribuinte “B” que não tiver gastos com a saúde.
Embora recebam rendas equivalentes, essas deduções podem acarretar a aplicação de
uma alíquota menor para o contribuinte “A”, caso ele se encaixe numa faixa de tributação
menor do que R$ 4.664,68, em 2020, conforme esta tabela:

Base de cálculo (R$) Alíquota Parcela a deduzir do IRPF


(%) (R$)
Até 1.903,98 - -
De 1.903,99 até 7,5 142,8
2.826,65
De 2.826,66 até 15 354,8
3.751,05
De 3.751,06 até 22,5 636,13
4.664,68
Acima de 4.664,68 27,5 869,36

Uma das formas de concretização do Princípio da Capacidade Contributiva se dá por


meio de aplicação de alíquotas progressivas.
Por isso, vamos analisar os casos em que se constata a progressividade em nosso orde-
namento jurídico.

I Progressividade

As alíquotas progressivas dos tributos podem ter finalidade fiscal ou extrafiscal.


A progressividade fiscal representa a aplicação de alíquotas maiores conforme a
manifestação de riqueza do sujeito passivo, em atenção à capacidade econômica do
contribuinte, enquanto a progressividade extrafiscal representa a aplicação de alíquotas
distintas, com base em fatores alheios às condições pessoais do contribuinte.
Voltando a analisar o §1º do art. 145 da CF/88, podemos constatar que o texto constitucio-
nal afirma que “sempre que possível” os impostos terão caráter pessoal.
Interpretando-o de forma literal, podemos concluir que nem sempre é possível medir a
capacidade econômica do contribuinte, em razão da prática de fato gerador de tributo.
Vamos ler o dispositivo novamente:

§ 1º Sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a
capacidade econômica do contribuinte, facultado à administração tributária, especialmente para
conferir efetividade a esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos termos
da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte.
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Por meio desse dispositivo, identifica-se a capacidade econômica dos contribuintes por
meio do exame do seu patrimônio, dos seus rendimentos e das suas atividades econômicas,
que serão considerados para se determinar a apuração do tributo devido.
Nesse sentido, diante de uma análise literal, concluímos que o Princípio da Capacidade
Contributiva seria aplicado somente aos impostos pessoais, não sendo possível utilizá-lo
como base para graduar os impostos reais – IPTU e IPVA, por exemplo.
No entanto, como já mencionado, o STF concluiu que esse princípio é aplicável a todos
os tributos (RE 406.955/2010), o que inclui, obviamente, os impostos reais.
Por essa razão, é admitida a aplicação de alíquotas progressivas aos impostos reais,
com o intuito de concretizar o Princípio da Isonomia.
Ocorre que, segundo jurisprudência pátria, a progressividade inerente aos impostos
reais, que desconsideram as características pessoais do contribuinte e levam em
consideração somente o bem, deve decorrer de expressa previsão no texto constitucional.
Apesar disso, atente-se ao fato de que o STF afastou essa exigência no que se refere ao
ITCD, como você verá ainda nesse tópico.

II IR e a Progressividade

A tabela do IRPF já reproduzida no tópico, fruto de disposição pelo legislador ordinário,


expressa a progressividade do IR.
Não bastasse o fato de que determinadas peculiaridades do contribuinte podem
subme- tê-lo a uma tributação de IR mais favorável, o legislador constituinte ainda
afirmou que esse imposto é progressivo.
A progressividade do IR está prevista no § 2º do art. 153 da CF/88:

Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre:


III – renda e proventos de qualquer natureza;
§ 2º O imposto previsto no inciso III:
I – será informado pelos critérios da generalidade, da universalidade e da progressividade, na
forma da lei;

Nesse caso, identifica-se o critério da progressividade fiscal – aplicado a um imposto


pessoal, a fim de concretizar o Princípio da Capacidade Contributiva, ao tributar de forma
mais gravosa aquele que manifestar mais riqueza, com o intuito de satisfazer a sua
finalidade arrecadatória.
Se dois indivíduos recebem R$ 2.000,00 por mês, eles serão tributados com uma alíquota
de 7,5%. Se um deles passar a receber mais de R$ 4.664,68, a alíquota aplicável sobre os
seus rendimentos superiores a esse valor será a de 27,5%.
Em observância ao Princípio da Isonomia, observa-se que quem tem mais recursos para
pagar o IR deve recolher uma quantia maior, em atenção a uma ideia de tributação justa e
proporcional.
Assim, além da possibilidade de deduzir gastos com saúde conforme exemplo exposto na
aula, o legislador constituinte determina a progressividade do imposto, em observância à
capacidade contributiva do contribuinte.
Além da progressividade, o caso do IR nos possibilita compreender a proporcionalidade
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inerente a determinados tributos.
Enquanto a progressividade refere-se a maiores alíquotas para maiores bases de cálculo,
a proporcionalidade refere-se à aplicação de uma alíquota fixa, independentemente da base
de cálculo.
Como no IR há distintas faixas de tributação, aqueles que se encaixarem na mesma faixa
estarão sujeitos à aplicação de uma mesma alíquota. Nesse caso, podemos afirmar que o tri-
buto é proporcional.
No entanto, atente-se para o fato de que, quanto maior a renda, maior a alíquota
incidente sobre a base tributável, conforme a renda auferida e a faixa de tributação a que ela
se sujeita. Essa característica expressa a progressividade do IR.

III Progressividade e os Impostos Reais

Quando se fala de imposto real, geralmente o critério que ajuda a realizar o Princípio da
Isonomia é o critério da seletividade. Bens supérfluos, como pedras preciosas, sofreriam uma
incidência mais gravosa do que gêneros alimentícios de primeira necessidade.
Diante da oneração de bem mais supérfluo, observa-se a intenção do legislador
constituinte de aplicar o Princípio da Capacidade Contributiva aos impostos reais.
Entretanto, com a redação do texto da Constituição, não se pode afirmar que os
impostos reais estão sujeitos ao Princípio da Capacidade Contributiva, e muito menos
ao critério da progressividade.
Tanto é que esse assunto já levantou discussões que foram parar no STF, como já men-
cionado, vigendo hoje em nosso sistema jurídico o entendimento de que é possível que um
imposto real seja progressivo, desde que a Constituição faça tal previsão de forma
expressa.
Vamos ver os impostos reais que são progressivos.

ITR e Progressividade

Um imposto real que se sujeita, de forma inequívoca, à aplicação de alíquotas


progressivas é o ITR, conforme inc. I, § 4º do art. 153 da CF/88:

Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre:


VI – propriedade territorial rural;
§ 4º O imposto previsto no inciso VI do caput:
I – será progressivo e terá suas alíquotas fixadas de forma a desestimular a manutenção de proprie-
dades improdutivas.

A progressividade inerente a esse imposto é a extrafiscal, pois o legislador constituinte


decidiu imputar alíquotas progressivas para o cálculo do ITR, caso não seja conferida uma
finalidade produtiva à respectiva terra.

IPTU e Progressividade

O IPTU é um imposto real com previsão no texto constitucional, e se sujeita à progressivida-


de fiscal e extrafiscal, nos termos dos incs. I do art. 156 e do inc. II do § 4º do art. 182 da CF/88:
Art. 156. Compete aos Municípios instituir impostos sobre: 16
I – propriedade predial e territorial urbana;
§ 1º Sem prejuízo da progressividade no tempo a que se refere o art. 182, § 4º, inciso II, o imposto
previsto no inciso I poderá:
I – ser progressivo em razão do valor do imóvel; e
Art. 182. A política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público municipal, conforme
diretrizes gerais fixadas em lei, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções so-
ciais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes.
§ 4º É facultado ao Poder Público municipal, mediante lei específica para área incluída no plano
diretor, exigir, nos termos da lei federal, do proprietário do solo urbano não edificado, subutilizado ou
não utilizado, que promova seu adequado aproveitamento, sob pena, sucessivamente, de:
II – imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana progressivo no tempo;

Segundo esses dispositivos, o IPTU pode ser progressivo por duas razões:
• O IPTU poderá ser progressivo em razão do valor venal do imóvel (progressividade
fiscal);
• Caso não seja promovido o adequado tratamento de solo urbano não edificado, subuti-
lizado ou não utilizado, o IPTU será progressivo no tempo (progressividade extrafiscal).

A primeira hipótese foi inserida no texto constitucional em 2000, por meio da Emenda
Constitucional n. 29, enquanto a segunda hipótese já existe no nosso ordenamento jurídico-tri-
butário desde a publicação original da CF/88.
Com efeito, o IPTU progressivo em razão do valor venal do imóvel só pôde ser
exigido após o ano de 2000.
Em contrapartida, o IPTU incidente sobre propriedade improdutiva, a fim de
estimular o cumprimento da função social da propriedade, pode se sujeitar à alíquota
progressiva antes mesmo da edição dessa emenda, pois desde sua edição original a
Constituição já previu essa hipótese de IPTU progressivo.
Nesse sentido, veja a redação da Súmula 668 do STF:

Súmula n. 668
É inconstitucional a lei municipal que tenha estabelecido, antes da EC 29/2000, alíquo-
tas progressivas para o IPTU, salvo se destinada a assegurar o cumprimento da função
social da propriedade urbana.

Após analisar a aplicação de alíquotas progressivas para cálculo do IPTU, interessa-nos


ter conhecimento de um caso em que se discute a cobrança de IPTU progressivo antes da
EC n. 29/2000, que foi analisado nos autos do AI 583.636-AgR/MS:
O efeito extrafiscal ou a calibração do valor do tributo de acordo com a capacidade con-
tributiva não são obtidos apenas pela modulação da alíquota. O escalonamento da base
de cálculo pode ter o mesmo efeito. (STF)

No caso citado, o Poder Público fixou diversos critérios para apuração da base de cálculo,
em função do tipo de construção (simples, luxuosa), por exemplo.
Segundo o STF, esse escalonamento da base de cálculo, em atenção aos critérios
legais, é um meio hábil para concretizar o Princípio da Capacidade Contributiva, como
ocorre com a aplicação de alíquotas progressivas.
17
ITBI e Progressividade

O STF avaliou também a possibilidade de aplicação de alíquotas progressivas ao ITBI,


e concluiu que elas são inconstitucionais, pois não há previsão expressa na Constituição
Federal.
Veja esse entendimento consolidado por meio da Súmula n. 656 do STF:

Súmula n. 656
É inconstitucional a lei que estabelece alíquotas progressivas para o imposto de trans-
missão inter vivos de bens imóveis – ITBI com base no valor venal do imóvel.

ITCD e Progressividade

Inobstante isso, em 2016 o STF avaliou a progressividade do ITCD (Imposto sobre a


Transmissão Causa Mortis e Doação, de quaisquer bens ou direitos), tributo com
características reais, de competência dos estados e do Distrito Federal.
Não há na Constituição Federal autorização para a instituição de um ITCD
progressivo. Independentemente disso, a Lei Maior defere ao Senado Federal a
competência para a fixação de suas alíquotas máximas.
Ao realizar seu mister, o Senado delimitou que o tributo teria alíquotas progressivas, inde-
pendentemente de expressa previsão na Constituição (Resolução SF n. 9/92).
Com base na Resolução, o Estado do Rio Grande do Sul instituiu o ITCD com alíquotas
progressivas, fato que gerou a sua impugnação judicial, com base na posição do Supremo, a qual
avalizava a instituição de imposto real progressivo apenas perante expressa previsão na
Constituição Federal.
Pois bem. Ao avaliar a situação, o STF entendeu que a progressividade do ITCD não
estava a ferir a Constituição e apontou para uma mudança geral de seu posicionamento
relacionado à progressividade e os impostos reais.

EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. LEI


ESTADUAL: PROGRESSIVIDADE DE ALÍQUOTA DE IMPOSTO SOBRE
TRANSMISSÃO CAUSA MORTIS E DOAÇÃO DE BENS E DIREITOS.
CONSTITUCIONALIDADE. ART. 145, § 1º, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA.
PRINCÍPIO DA IGUALDADE MATERIAL TRIBUTÁRIA. OBSERVÂNCIA DA
CAPACIDADE CONTRIBUTIVA. RECURSO EXTRAORDINÁRIO PROVIDO.
(RE 562045, Relator(a): Min. RICARDO LEWANDOWSKI, Relator(a) p/ Acórdão: Min.
CÁRMEN LÚCIA, Tribunal Pleno, julgado em 06/02/2013, REPERCUSSÃO GERAL –
MÉRITO DJe-233 DIVULG 26-11-2013 PUBLIC 27-11-2013 EMENT VOL-02712-01 PP-
00001)

Preste atenção: em que pese isso, atualmente as súmulas trazidas na aula ainda estão
em plena validade e não foram canceladas.
Para fins de prova, a posição a ser adotada é a da literalidade das súmulas, e a que
considera necessária a autorização constitucional expressa para a adoção da
progressividade em impostos reais, salvo para o ITCD.
18

2.3. Diversas hipóteses de aplicação do princípio da isonomia

No ordenamento jurídico brasileiro é possível constatar, do ponto de vista do Direito Tribu-


tário, diversos comandos que visam garantir a isonomia, e que ainda não foram mencionados
nesta aula.
Veja-os de forma resumida.
Nas alíneas “c” e “d” do inc. III do art. 146 da CF/88, o legislador constituinte autoriza trata-
mento benéfico para as cooperativas e para microempresas e para as empresas de pequeno
porte, o que deve ser objeto de lei complementar:

Art. 146. Cabe à lei complementar:


III – estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária, especialmente sobre:
c) adequado tratamento tributário ao ato cooperativo praticado pelas sociedades cooperativas.
d) definição de tratamento diferenciado e favorecido para as microempresas e para as empresas
de pequeno porte, inclusive regimes especiais ou simplificados no caso do imposto previsto no art.
155, II, das contribuições previstas no art. 195, I e §§ 12 e 13, e da contribuição a que se refere o
art. 239.

O art. 146-A da CF/88 autoriza a determinação de critérios especiais de tributação


que visem prevenir desequilíbrios da concorrência:

Art. 146-A. Lei complementar poderá estabelecer critérios especiais de tributação, com o objetivo
de prevenir desequilíbrios da concorrência, sem prejuízo da competência de a União, por lei,
estabelecer normas de igual objetivo.

O § 9º do art. 195 da CF/88 destaca que a cobrança de contribuição previdenciária


se sujeitará a aplicação de diferentes alíquotas, em razão da atividade econômica, da
utilização intensiva de mão de obra, do porte da empresa ou da condição estrutural do
mercado de trabalho.

Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos
termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais:
§ 9º As contribuições sociais previstas no inciso I do caput deste artigo poderão ter alíquotas di-
ferenciadas em razão da atividade econômica, da utilização intensiva de mão de obra, do porte da
empresa ou da condição estrutural do mercado de trabalho, sendo também autorizada a adoção de
bases de cálculo diferenciadas apenas no caso das alíneas “b” e “c” do inciso I do caput. (Redação
dada pela Emenda Constitucional n. 103, de 2019)
Com base nesse dispositivo, o STF reconheceu que a sobrecarga tributária
19
imposta aos bancos e às entidades financeiras é constitucional e não fere o Princípio da Isonomia
(AC 1.109 MC/SP).
Outro tema relevante diz respeito à proibição de importação de carros usados no
Brasil. Segundo o STF, essa proibição é constitucional e não fere o Princípio da Isonomia
(RE 215.228/CE).
Sobre o IPVA, o legislador constituinte autoriza a imputação de alíquotas distintas,
conforme o tipo e utilização do automóvel, representando esse mais um mecanismo para
implementação de uma tributação isonômica no país:

Art. 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos sobre:
III – propriedade de veículos automotores.
§ 6º O imposto previsto no inciso III:
II – poderá ter alíquotas diferenciadas em função do tipo e utilização.

Na aula de impostos estaduais, aprofundaremos no tema e trataremos com detalhes a


diferenciação da alíquota do IPVA, conforme o tipo ou a utilização do veículo.
Mais um tema que foi avaliado pelo STF que envolveu o Princípio da Isonomia diz
respeito à lei estadual que isentou membros do Ministério Público do pagamento de
taxas judiciárias e emolumentos extrajudiciais.
Por meio da ADI n. 3.260/RN, concluiu-se que “lei complementar estadual que isenta
os membros do Ministério Público do pagamento de custas judiciais, notariais, cartorárias
e quaisquer taxas ou emolumentos fere o disposto no artigo 150, inciso II, da Constituição
do Brasil”.
O compartilhamento de informações e documentos dos bancos com a Fazenda
Pública é constitucional, com base no art. 6º da LC n. 105/2001.

Art. 6º As autoridades e os agentes fiscais tributários da União, dos Estados, do Distrito Federal e
dos Municípios somente poderão examinar documentos, livros e registros de instituições financei-
ras, inclusive os referentes a contas de depósitos e aplicações financeiras, quando houver proces-
so administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso e tais exames sejam considerados
indispensáveis pela autoridade administrativa competente.
Parágrafo único. O resultado dos exames, as informações e os documentos a que se refere este
artigo serão conservados em sigilo, observada a legislação tributária.

Segundo o STF (RE 601.314/SP), esse dispositivo “não ofende o direito ao sigilo
bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio da
capacidade contributiva, bem como estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de
sigilo da esfera bancária para a fiscal.”
Nesse sentido, basta a existência de processo administrativo ou procedimento fiscal em
curso, para que o fisco tenha acesso às informações do contribuinte perante o banco, não
sendo preciso pleitear autorização judicial para tanto.

3. Princípios da não surpresa

Os Princípios da Não Surpresa, previstos nas alíneas “a”, “b”, “c”, inc. III, art. 150 da
CF/88, representam a garantia ao contribuinte de que ele não será surpreendido com a
20
cobrança de um tributo, em atenção ao Princípio Constitucional da Segurança Jurídica.
Segundo o texto constitucional, o Princípio da Não Surpresa desdobra-se nos seguintes
princípios:

3.1. Princípio da irretroatividade

O Princípio da Irretroatividade está previsto na alínea “a”, inc. III, art. 150, CF/88:

Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos
Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
III – cobrar tributos:
a) em relação a fatos geradores ocorridos antes do início da vigência da lei que os houver instituído
ou aumentado.

Por meio dessa previsão, o legislador constituinte garante que o contribuinte só seja
obrigado a pagar tributos relativos a fatos geradores que forem praticados após a
vigência da lei que os instituir ou os aumentar.
Esse dispositivo está em conformidade com o inc. XXXVI, art. 5º, CF/88, que dispõe que “a
lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada”.
Portanto, assegura-se que a previsão legal de instituição ou majoração de tributos não
alcance fatos passados.
Essa garantia está presente também na redação do CTN. Veja:

Art. 105. A legislação tributária aplica-se imediatamente aos fatos geradores futuros e aos pen-
dentes, assim entendidos aqueles cuja ocorrência tenha tido início, mas não esteja completa nos
termos do artigo 116.

No entanto, embora a CF/88 não preveja casos em que se admite a retroatividade da


norma tributária, o CTN faz tal previsão, autorizando a aplicação de uma nova lei a fatos
passados:

Art. 106. A lei aplica-se a ato ou fato pretérito:


I – em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de
penalidade à infração dos dispositivos interpretados;
II – tratando-se de ato não definitivamente julgado:
a) quando deixe de defini-lo como infração;
b) quando deixe de tratá-lo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não
tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo;
c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua
21
prática.

Segundo o inc. I, é possível a retroatividade de norma que seja meramente interpretativa de


conteúdo de norma já vigente.
Conforme o inc. II, é possível a admissão de retroatividade destas leis, relativas a casos
que ainda não tenham sido definitivamente julgados:
• leis que deixem de tratar determinado ato como infração;
• leis que deixem de exigir determinada ação ou omissão;
• leis que prevejam penalidades menos severas a fatos passados, em comparação à lei
vigente na época do fato gerador.

Outro dispositivo do CTN que permite a aplicação retroativa da norma tributária é o art.
144, que trata do lançamento.
O lançamento ainda será objeto de estudo do nosso curso, mas saiba que ele representa
o ato administrativo que constitui o crédito tributário.
Na ocasião do lançamento, para exame da situação fática e para quantificação do tributo,
utiliza-se a lei vigente na data do fato gerador.
No entanto, o §1º autoriza que, após esse evento, seja aplicável a ele nova norma
que tenha instituído novos critérios de apuração ou processos de fiscalização, ampliado
os poderes de investigação das autoridades administrativas, ou outorgado ao crédito
maiores garantias ou privilégios.

Art. 144. O lançamento reporta-se à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e rege-se pela
lei então vigente, ainda que posteriormente modificada ou revogada.
§ 1º Aplica-se ao lançamento a legislação que, posteriormente à ocorrência do fato gerador da
obrigação, tenha instituído novos critérios de apuração ou processos de fiscalização, ampliado os
poderes de investigação das autoridades administrativas, ou outorgado ao crédito maiores garan-
tias ou privilégios, exceto, neste último caso, para o efeito de atribuir responsabilidade tributária
a terceiros.

3.2. Princípio da anterioridade

I Princípio da Anterioridade Anual

Lei que institui ou majora o tributo deve ter efeito prospectivo (para o futuro), em atenção
ao Princípio da Irretroatividade, e deve respeitar os princípios da Anterioridade Anual e da
Anterioridade Nonagesimal.
O Princípio da Anterioridade Anual está previsto na alínea “b” do inc. III do art. 150 da
CF/88, e diz respeito à determinação de que o ente político somente pode cobrar o tributo
22
no exercício financeiro seguinte àquele em que for publicada a lei que o criar ou o
aumentar.

Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos
Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
III – cobrar tributos:
b) no mesmo exercício financeiro em que haja sido publicada a lei que os instituiu ou
aumentou.

Isso quer dizer, por exemplo, que se um município instituir o ISS por meio de lei publicada
em 1º de julho de 2020, somente poderá cobrá-lo em 2021.
Há questões que afirmam que deve ser observado o Princípio da Anualidade para institui-
ção e majoração de tributos, o que está errado.
O Princípio da Anualidade não se confunde com o Princípio da Anterioridade Anual, e não
é mais aplicável ao Direito Tributário. Esse princípio previa que o tributo só poderia ser
cobrado se tivesse sido previsto na lei orçamentária aprovada no ano anterior à sua

exigência.

II Princípio da Anterioridade Nonagesimal (Também Chamado de


Anterioridade Especial, de Anterioridade Mitigada ou de Noventena)

Segundo o Princípio da Anterioridade Nonagesimal, previsto na alínea “c” do inc. III do


art. 150 da CF/88, o tributo apenas pode ser cobrado 90 (noventa) dias após a data da
publicação da lei que o instituiu ou o aumentou.

Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos
Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
III – cobrar tributos:
c) antes de decorridos noventa dias da data em que haja sido publicada a lei que os instituiu ou
aumentou, observado o disposto na alínea b.

Nesse sentido, deve haver um intervalo de pelo menos 90 (noventa) dias entre a data da
publicação da lei e da sua respectiva cobrança.
Visualize a instituição ou o aumento do ISS. Caso lei municipal que institua ou aumente
esse imposto tivesse sido publicada em 1º de julho de 2019, a sua cobrança somente poderia
ter sido feita a partir de 29 de setembro de 2019, 90 (noventa) dias após a referida
publicação. Ocorre que considerar que o citado imposto poderia ser cobrado em 30.09.2019
contrariaria o Princípio da Anterioridade Anual.
Tanto é assim que a parte final da alínea “c” informa que é necessária a observância do
Princípio da Anterioridade Anual (alínea “b”) no momento da aplicação do Princípio da
Noventena. Assim, a data que o Município poderia cobrar efetivamente o imposto seria
01.01.2020, pois essa é a data mais benéfica ao contribuinte e observa as duas vertentes do
23
princípio em apreço.

III Exceções aos Princípios da Anterioridade Anual e da


Anterioridade Nonagesimal

Agora, querido(a) aluno(a), tendo compreendido o que é o Princípio da Anterioridade e as


suas duas faces, saiba que elas são aplicáveis a todas as espécies tributárias, em regra.
Contudo, o texto constitucional prevê algumas exceções a esses princípios, as
quais são muito cobradas em provas de concurso, então, preste atenção.
As exceções ao Princípio da Anterioridade Anual são taxativas e estão previstas: (i)
na primeira parte do §1º do art. 150; (ii) na alínea “b”, inc. I, §4º do art. 177, (iii) no inc. IV, §4º
do art. 155; e (iv) no §6º do art. 195 da CF/88:

Art. 150, §1º. A vedação do inciso III, b, não se aplica aos tributos previstos nos arts. 148, I, 153, I,
II, IV e V; e 154, II.

Os tributos mencionados nesse dispositivo são:


• 148, I: Empréstimos compulsórios para atender a despesas extraordinárias, decorrentes
de calamidade pública, de guerra externa ou sua iminência.
• 153, I, II, IV e V: II, IE, IPI e IOF
• 154, II: IEG.

Já o dispositivo seguinte trata da “CIDE-Combustíveis”:

Art. 177, §4º. A lei que instituir contribuição de intervenção no domínio econômico relativa às ativi-
dades de importação ou comercialização de petróleo e seus derivados, gás natural e seus derivados
e álcool combustível deverá atender aos seguintes requisitos:
I – a alíquota da contribuição poderá ser:
b) reduzida e restabelecida por ato do Poder Executivo, não se lhe aplicando o disposto no art.
150, III, b.

Este artigo trata do “ICMS-Combustíveis”:

Art. 155, § 4º. Na hipótese do inciso XII, h, observar-se-á o seguinte:


IV – as alíquotas do imposto serão definidas mediante deliberação dos Estados e Distrito Federal,
nos termos do § 2º, XII, g, observando-se o seguinte:
c) poderão ser reduzidas e restabelecidas, não se lhes aplicando o disposto no art. 150, III, b.

E, por fim, o dispositivo seguinte trata das contribuições da seguridade social:


Art. 195, § 6º. As contribuições sociais de que trata este artigo só poderão ser exigidas após decor-
24
ridos noventa dias da data da publicação da lei que as houver instituído ou modificado, não se lhes
aplicando o disposto no art. 150, III, “b”.

Quanto aos empréstimos compulsórios, atente-se ao fato de que o Princípio da Anteriori-


dade do Exercício e o da Noventena não atingem, de forma ampla, todas as hipóteses de
empréstimos compulsórios previstos na Constituição.
Tais princípios devem ser respeitados para instituição de empréstimos compulsórios de
investimento público de caráter urgente e de relevante interesse nacional.
No entanto, os empréstimos compulsórios instituídos para atender a despesas extraordi-
nárias, decorrentes de calamidade pública, de guerra externa ou sua iminência representam
exceções a esses princípios, e, por isso, podem ser cobrados imediatamente após a
publicação da lei que os cria.
Feitas as devidas explanações, conforme disposição expressa dos textos constitucionais
transcritos, os seguintes tributos podem ser cobrados no mesmo exercício que
instituídos/ majorados:

Quanto às exceções ao Princípio da Anterioridade Nonagesimal, elas estão previstas na


CF/88, art. 150, §1º, segunda parte:

Art. 150, § 1º E a vedação do inciso III, c, não se aplica aos tributos previstos nos arts. 148, I, 153,
I, II, III e V; e 154, II, nem à fixação da base de cálculo dos impostos previstos nos arts. 155, III, e
156, I.

Conforme esse dispositivo, se a lei que aumenta ou institui um dos tributos mencionados
for publicada em dezembro de 2020, por exemplo, o ente já poderá cobrá-lo em 1º de janeiro
de 2021, tendo em vista que não é necessária a observância do prazo de 90 dias.
Repare que se a questão afirmar que o prazo relativo ao Princípio da Noventena é de
3 meses, a questão estará errada. E se a questão trouxer datas e pedir para contar o prazo
e você contá-lo como 3 meses, você errará a determinação da data correta para efetiva e
constitucional cobrança do tributo. Lembre-se de que o prazo é de 90 (noventa) dias.
25
Segue tabela com as exceções ao Princípio da Anterioridade Nonagesimal:

No que se refere ao quadro com as exceções, repare que a cobrança de determinados


tributos não precisa respeitar o Princípio da Anterioridade Anual e nem da
Anterioridade Nonagesimal, o que significa dizer que eles podem ser cobrados
imediatamente após a publicação da lei que os instituir ou os aumentar.

Esses tributos são extrafiscais, e, como já visto em nosso curso, eles são utilizados pelo
governo com o intuito de regular a economia, incentivando ou desestimulando determinadas
ações dos contribuintes, o que faz sentido ter o legislador constituinte autorizado que sua co-
brança se dê de forma imediata.

EXCEÇÕES AOS PRINCÍPIOS DA ANTERIORIDADE...


ANUAL NONAGESIMAL
II
IE
IOF
IEG
Empréstimo compulsório para calamidade pública ou guerra externa
IPI

CIDE-Combustível e ICMS-Combustível para


redução e restabelecimento de alíquotas
Contribuições para a Seguridade Social
IR

Alteração da base de cálculo do IPTU


e do IPVA
Interessa ainda você ter conhecimento de que lei que prevê a extinção ou a redução de
26
um tributo, ou desconto em seu pagamento, não precisa respeitar os Princípios da
Anterioridade Anual e Nonagesimal, pois são comandos que beneficiam o contribuinte.
Além delas, norma que altera do prazo de recolhimento do tributo, segundo
entendimento do STF, não deve respeito ao Princípio da Anterioridade. Veja:

Súmula Vinculante n. 50
Norma legal que altera o prazo de recolhimento de obrigação tributária não se sujeita ao
princípio da anterioridade.

No que se refere à lei que revogar ou reduzir benefício fiscal, há uma certa controvérsia no
âmbito do STF.
Nos casos de concessão de benefício fiscal, parte-se do pressuposto de que o tributo já es-
taria instituído, e, consequentemente, não haveria razão para o contribuinte se adaptar à
nova situação em caso de revogação ou redução desse benefício.
Por isso, o Tribunal Maior entendia que no caso de revogação de isenção não onerosa,
não haveria necessidade de respeito ao Princípio da Anterioridade, podendo a respectiva lei
revogadora do benefício ser aplicável de imediato após a sua publicação.

– ICM. Isenção não onerosa. Revogação. Imediata eficácia e exigibilidade do tributo.


Inaplicação do princípio constitucional da anualidade. Recurso extraordinário conhecido
pelo permissivo constitucional da alínea ‘d’, mas desprovido.
(RE 97482, Relator(a): Min. SOARES MUNOZ, Primeira Turma, julgado em 26/10/1982,
DJ 17-12-1982 PP-13211 EMENT VOL-01280-07 PP-01792).

Inobstante essa posição, em 2014, o STF, em julgado que tratava da revogação de uma
norma concessiva de outra espécie de benefício fiscal (redução de base de cálculo), entendeu
de forma diferente.
Ao julgar o Recurso Extraordinário 564.225, a Corte Maior decidiu que tal alteração no
aspecto quantitativo do tributo gerava ônus para o contribuinte, sendo necessário,
nesse ponto, observar os Princípios da Anterioridade Anual e da Anterioridade
Nonagesimal.

IMPOSTO SOBRE CIRCULAÇÃO DE MERCADORIAS E SERVIÇOS – DECRETOS N.


39.596 E N. 39.697, DE 1999, DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – REVOGAÇÃO DE
BENEFÍCIO FISCAL – PRINCÍPIO DA ANTERIORIDADE – DEVER DE OBSERVÂNCIA –
PRECEDENTES. Promovido aumento indireto do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias
e Serviços – ICMS por meio da revogação de benefício fiscal, surge o dever de observância
ao princípio da anterioridade, geral e nonagesimal, constante das alíneas “b” e “c” do inciso III
do artigo 150, da Carta. Precedente – Medida Cautelar na Ação Direta de
Inconstitucionalidade n. 2.325/DF, de minha relatoria, julgada em 23 de setembro de 2004.
MULTA – AGRAVO – ARTIGO 557, § 2º, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. Surgindo do
exame do agravo o caráter manifestamente infundado, impõe-se a aplicação da multa
prevista no § 2º do artigo 557 do Código de Processo Civil. (RE 564.225 AgR, Relator(a):
Min. MARCO AURÉLIO, Primeira Turma, julgado em 02/09/2014, ACÓRDÃO
ELETRÔNICO DJe-226 DIVULG 17-11-2014 PUBLIC 18-11-2014).
Em resumo, alterações favoráveis ao contribuinte não precisam respeitar os Princípios da
27
Anterioridade, e podem ser imediatamente efetivadas, enquanto as alterações que o preju-
diquem devem respeitar esses princípios e somente serem efetivadas no ano seguinte e/ou
após 90 (noventa) dias depois da publicação da norma que as veiculam.

IV Princípio da Anterioridade e a Medida Provisória-MP

Desde a primeira aula já tratamos sobre as medidas provisórias – MP, oportunidade em


que afirmamos que elas representam uma espécie normativa que tem força de lei, conforme
art. 62 da CF/88.
As MPs podem ser editadas em caso de relevância e urgência pelo Presidente da
República, e não podem ter como objeto matéria que deve, obrigatoriamente, estar
prevista em Lei Complementar.
Quando falamos do Princípio da Legalidade, destacamos os tributos que devem ser insti-
tuídos por meio de Lei Complementar. Então, lembre-se de que eles não podem ser
instituídos nem majorados por meio de MP.
Interessa neste tópico tratar do § 2º, do art. 62 da CF/88:

§ 2º Medida provisória que implique instituição ou majoração de impostos, exceto os previstos


nos arts. 153, I, II, IV, V, e 154, II, só produzirá efeitos no exercício financeiro seguinte se
houver sido convertida em lei até o último dia daquele em que foi editada.

Por meio desse dispositivo, o legislador constituinte dispõe que:


• deve ser aplicado o Princípio da Anterioridade Anual aos impostos que forem instituídos
ou majorados por meio de medida provisória;
• esses impostos não poderão ser cobrados no exercício seguinte ao que foi editada a
medida provisória que os instituir ou os aumentar, se ela não for convertida em lei até
o final do ano da sua edição. Perceba então que na CF há duas exigências para que
um imposto que seja instituído ou majorado por MP:
• é preciso que seja respeitado o Princípio da Anterioridade; e
• é preciso que a MP seja convertida em lei até o final do ano da sua edição.

Repare que o legislador constituinte fez destaque quanto à aplicabilidade do Princípio da


Anterioridade Anual nos casos de criação e majoração do imposto via MP em que há necessi-
dade da sua conversão em lei, mas não fez exigência no que se refere ao Princípio da
Anterioridade Nonagesimal.
Com efeito, o ente tributante pode exigir o imposto 90 (noventa) dias após a publicação
da MP que o instituir ou o aumentar. O prazo para a contagem da noventena se dá da data
da publicação da medida provisória, não havendo exigência da sua conversão em lei.
Ao estudar processo legislativo, em Direito Constitucional, aprende-se que a MP
elaborada pelo Presidente da República é encaminhada para o Congresso Nacional para sua
conversão em lei, ou não, e que ela tem vigência temporária (de sessenta dias prorrogáveis
por mais sessenta).
No momento da conversão da MP em lei, pode haver alteração do seu conteúdo, o que
impactará na contagem do prazo relativo ao Princípio da Anterioridade Nonagesimal.
Vamos visualizar.
Se um imposto que está sujeito à anterioridade de exercício e à anterioridade nonagesimal
28
tiver sua alíquota majorada por MP em setembro, e a MP for convertida em lei em dezem-
bro, sem alterações, a majoração já poderá ser exigida no primeiro dia de janeiro do exercí-
cio seguinte.
Situação distinta ocorre se a conversão da MP em lei alterar de forma substancial o
imposto. Nesse caso, o prazo da noventena passará a contar da publicação da lei e não da
MP.
Nesse mesmo exemplo, se a conversão da lei em dezembro aumentar ainda mais a
alíquota anteriormente prevista na MP, passa-se a contar o prazo para a observância da
anterioridade nonagesimal a partir de dezembro (momento da conversão em lei) e o imposto
não poderá mais ser exigido no primeiro dia de janeiro.
Além disso, o comando ora estudado não se aplica ao II, IE, IPI, IOF e IEG, em razão
de expressa disposição do legislador constituinte.
A MP que instituir ou aumentar esses impostos não precisa ser convertida em lei
para cobrá-los.
Assim, tendo em vista que o II, IE, IOF e IEG são exceções aos Princípios da
Anterioridade Anual e da Anterioridade Nonagesimal, a União pode cobrá-los
imediatamente após a publicação da referida MP.
Já no que se refere ao IPI, como ele deve respeitar o Princípio da Noventena, a União
pode cobrá-lo após 90 dias da publicação da MP que o instituir ou o aumentar.

V Imposto sobre a Renda – IR e os Princípios da Não Surpresa

O auferimento de rendas ou de proventos representa hipótese de incidência de IR.


O fato gerador desse imposto é periódico, sendo considerados, para a sua apuração, as
rendas ou proventos auferidos de 1º de janeiro a 31 de dezembro de cada ano.
O ano em que se auferem os rendimentos chama-se ano-base, enquanto o ano seguinte
chama-se exercício e corresponde ao ano de entrega da declaração do imposto.
Por exemplo, se o ano-base do Imposto de Renda é 2020, seu período de apuração
corresponde a 01.01.2020 a 31.12.2020, e o exercício relativo à apresentação da declaração
é 2021. Já houve intenso debate doutrinário e jurisprudencial sobre a lei que deveria ser
aplicável para apuração do IR, se seria a vigente no ano-base ou a vigente no exercício de
apresentação da declaração.
Por muitos anos vigeu em nosso ordenamento jurídico a Súmula n. 584 do STF, que foi
editada antes da CF/88:
Súmula n. 584, STF
29
Ao imposto de renda calculado sobre os rendimentos do ano-base, aplica-se a lei vigente
no exercício financeiro em que deve ser apresentada a declaração.

Segundo esse entendimento, aplicar-se-ia a lei vigente no exercício de apresentação da


declaração, relativa ao ano seguinte àquele em que se praticaram os fatos geradores de IR.
Ocorre que essa previsão contraria o Princípio da Irretroatividade e o Princípio da
Anterioridade Anual.
O Princípio da Irretroatividade considera lei vigente à época do fato gerador para
apuração do imposto, enquanto o Princípio da Anterioridade Anual considera que a lei que
institui ou majora o tributo deve ser publicada no ano anterior àquele em que ocorre o fato
gerador.
O STF, em junho de 2020, ao julgar o RE 159.180, concluiu que deve ser considerada a
lei vigente no primeiro dia do ano-base (ano em que se auferem os rendimentos para
apuração do imposto devido).
Esse posicionamento está em consonância com a doutrina dominante.
Como estudamos, o IR deve respeitar o Princípio da Anterioridade Anual, mas é exceção
ao Princípio da Anterioridade Nonagesimal, o que quer dizer que lei que o institua ou o
majore produzirá efeitos no exercício seguinte ao da sua publicação, independentemente do
mês em que for publicada.
Por exemplo, para calcular o imposto relativo à renda auferida em 2020 (ano-base 2020),
deve-se considerar a lei vigente nesse ano, que deve ter sido publicada até dezembro de
2019, em respeito à anterioridade.
Relativamente ao período de apuração compreendido entre 01.01.2020 e 31.12.2020,
não se considera a lei publicada em 2020 (ano-base), muito menos a publicada em 2021
(exercício). Assim, não pode a lei publicada no exercício de apresentação da declaração
retroagir e ser aplicada para apuração do IR relativo ao ano-base anterior. Por isso, foi
reconhecida a inconstitucionalidade da Súmula 584 e determinado o seu cancelamento.
Na sua prova, você precisará ser cauteloso (a) para responder sobre esse tema. Caso a
questão copie a literalidade da Súmula, o examinador pode considerá-la correta, entretanto,
a tendência é que, cada vez mais, seja adotada a posição do RE 159.180.

4. Princípio da vedação ao efeito de confisco

O legislador constituinte prevê o Princípio da Vedação ao Efeito de Confisco, no inc. IV


do art. 150 da CF/88, visando garantir que o ente tributante não utilize o seu Poder de
Império para cobrar do contribuinte carga tributária mais gravosa do que ele pode
suportar.

Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos
Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I – utilizar tributo com efeito de confisco.

O tributo tem efeito confiscatório diante de cobrança irrazoável, desproporcional e abusiva


pelo Estado, que inviabilize uma digna sobrevivência ao contribuinte e viole o seu direito indi-
vidual à propriedade.
Mediante análise do dispositivo previsto na CF/88, não é possível identificar um conceito
determinado do que vem a ser confisco, razão pela qual o STF, quando se depara com as
30
situações, avalia o caso concreto para concluir se o tributo é confiscatório ou não.
Para concluir se um tributo é confiscatório ou não, além de avaliá-lo, individualmente, admi-
te-se a consideração da carga tributária total de cada um dos entes isoladamente (ADC 8-
MC).
Nesse sentido, a cobrança de Imposto de Renda Pessoa Jurídica e de Contribuição Social
sobre o Lucro Líquido de determinado contribuinte, pela União, pode caracterizar confisco.
Entretanto, não é possível alegar que a cobrança de IR (imposto de competência da
União) somada à cobrança de ICMS (imposto de competência do Estado) seja considerada
confiscatória, pois são tributos cobrados por entes distintos.
Além disso, não é todo tributo que apresenta uma alíquota alta que será reconhecido
como confiscatório. Tributos extrafiscais, que têm a finalidade de estimular ou não
determinados comportamentos e setores, podem ter alíquotas altas.
Por exemplo, uma alíquota de 100% para a apuração do IR devido é nitidamente
confiscatória e atentatória ao direito de propriedade do contribuinte, enquanto a aplicação de
alíquota de 100% ou até maior para apuração do IPI é admitida.
Assim, analisando o caso concreto é que o juiz verifica e conclui se houve uma tributação
ou imposição de multa com efeito de confisco.
Embora o dispositivo constitucional tenha feito previsão da aplicabilidade desse princípio
somente aos tributos, o STF reconhece que as multas (penalidades pecuniárias) também po-
dem ser confiscatórias e prejudiciais ao direito de propriedade do contribuinte.
O STF reconhece que multas tributárias são confiscatórias quando ultrapassem o percen-
tual de 100% do valor do tributo. Veja:
Ementa: DIREITO TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO EM RECURSO
EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. ISS. ENQUADRAMENTO DA ATIVIDADE.
DESCUMPRIMENTO DO ÔNUS PROBATÓRIO. CARÁTER INFRACONSTITUCIONAL
DA CONTROVÉRSIA. CRÉDITO TRIBUTÁRIO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO.
DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. OFENSA REFLEXA. REEXAME DE MATÉRIA
FÁTICA. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 279/STF. MULTA PUNITIVA. PATAMAR DE
100% DO TRIBUTO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO CONFISCO. PRECEDENTES. 1.
A resolução da controvérsia demandaria o reexame dos fatos e do material probatório
constantes nos autos, o que é vedado em recurso extraordinário. Incidência da Súmula
279/STF. Precedentes. 2. O Tribunal de origem solucionou a controvérsia com
fundamento na legislação infraconstitucional e no conjunto fático e probatório, o que é
inviável em sede de recurso extraordinário. Precedentes. 3. Quanto ao valor máximo
das multas punitivas, esta Corte tem entendido que são confiscatórias aquelas
que ultrapassam o percentual de 100% (cem por cento) do valor do tributo devido.
4. Nos termos do art. 85, § 11, do CPC/2015, fica majorado em 25% o valor da verba
honorária fixada anteriormente, observados os limites legais do art. 85, §§ 2º e 3º, do
CPC/2015. 5. Agravo interno a que se nega provimento, com aplicação da multa
prevista no art. 1.021, § 4º, do CPC/2015.
(ARE 1058987 AgR, Relator(a): Min. ROBERTO BARROSO, Primeira Turma, julgado
em 01/12/2017, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-289 DIVULG 14-12-2017 PUBLIC 15-
12-2017).
31
A jurisprudência destaca qual o percentual máximo admitido na aplicação das multas, sob
pena de reconhecimento de seu efeito confiscatório, mas não fez esse destaque no que se
refere aos tributos.
Na ementa do ARE 938.538 AGR/ES, você verá que o STF entende que as multas
punitivas correspondentes a mais de 100% do tributo são confiscatórias, enquanto as multas
moratórias, aplicáveis em razão do pagamento em atraso, são confiscatórias se forem maiores
do que 20% do valor do tributo:
EMENTA: DIREITO TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO EM RECURSO
EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. MULTA PUNITIVA DE 120% REDUZIDA AO
PATAMAR DE 100% DO VALOR DO TRIBUTO. ADEQUAÇÃO AOS PARÂMETROS DA
CORTE.
1. A multa punitiva é aplicada em situações nas quais se verifica o descumprimento
voluntário da obrigação tributária prevista na legislação pertinente. É a sanção prevista
para coibir a burla à atuação da Administração tributária. Nessas circunstâncias, confe-
rindo especial destaque ao caráter pedagógico da sanção, deve ser reconhecida a
possibilidade de aplicação da multa em percentuais mais rigorosos, respeitados os
princípios constitucionais relativos à matéria.
2. A Corte tem firmado entendimento no sentido de que o valor da obrigação principal
deve funcionar como limitador da norma sancionatória, de modo que a abusividade se
revela nas multas arbitradas acima do montante de 100%. Entendimento que não se
aplica às multas moratórias, que devem ficar circunscritas ao valor de 20%. Precedentes.

Em que pese tenhamos visto que o STF destaca como limite multas de 100% e 20%,
respectivamente, no que se refere à multa por punição e à multa por atraso, a Lei n.
9.430/1996 prevê que, nos casos de fraude, sonegação e conluio, a multa pode chegar até a
150% sobre a totalidade ou diferença do tributo não recolhido, não declarado ou declarado
de forma incorreta.

Art. 44, Lei 9.430/96. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas:

I – de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou con-
tribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de
declaração inexata.
§ 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos
casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964,
independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis.

Art. 71, Lei 4.502/64. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar,
total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária:
I – da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias
materiais;
II – das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou
o crédito tributário correspondente.
32
Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a
ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas caracterís-
ticas essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento.
Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qual-
quer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72.

Essa é uma multa de ofício cobrada pela Fazenda Pública em razão do descumprimento
de obrigação acessória. Tal multa, prevista no §1º do art. 44 da Lei n. 9.430/1996, é conhecida
como multa qualificada.
O seu percentual, com base na norma vigente, pode chegar a 150%, ultrapassando,
nesse sentido, a porcentagem de 100% relativa à multa punitiva, em contrariedade à
jurisprudência majoritária da Suprema Corte.
Sobre esse tema, o STF está prestes a se manifestar quanto à constitucionalidade ou in-
constitucionalidade dessa multa, por meio do julgamento do RE 640.452, na sistemática de
repercussão geral.
No âmbito administrativo, o nosso tribunal federal, o CARF, diverge sobre o tema, mas,
em razão do comportamento delitivo do contribuinte e da previsão legal, tem aplicado a multa
de 150% nos casos em que há comprovada fraude, por exemplo.
Para a sua prova é interessante que você tenha em mente que há Fazendas Públicas
que aplicam multas aparentemente confiscatórias com percentuais acima de 100%, em
atenção às normas vigentes. No entanto, esse tema ainda será decidido pelo STF.
Ademais, vamos ver agora um tema, que embora não costume ser cobrado em provas de
concurso, já foi exigido pela Esaf.
Os tributos incidem sobre o patrimônio e sobre a sua transmissão. Numa perspectiva
estática, constata-se a tributação do patrimônio, enquanto numa perspectiva dinâmica,
tributa-se a sua movimentação (transmissão patrimonial).
Considerando o primeiro caso, se o tributo que incidir sobre a propriedade tiver uma alíquo-
ta exorbitante, ele será considerado confiscatório sob uma perspectiva estática.
Já o segundo caso, no que se refere aos tributos incidentes sobre movimentação e transmis-
são patrimonial, eles podem ter seus efeitos reconhecidamente confiscatórios sob uma pers-
pectiva dinâmica, podendo prejudicar a operação que se sujeite a essa tributação excessiva.

5. Princípio da Liberdade de tráfego

O Princípio da Liberdade de Tráfego trata do direito de ir e vir dos cidadãos no


território brasileiro, do direito de transportar bens e de prestar serviços, e garante que
não sejam feitas exigências tributárias interestaduais e intermunicipais que violem
essa liberdade, conforme inc. V do art. 150, CF/88:
Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos
Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
33
IV – estabelecer limitações ao tráfego de pessoas ou bens, por meio de tributos
interestaduais ou intermunicipais, ressalvada a cobrança de pedágio pela utilização de vias
conservadas pelo Poder Público.

Apesar dessa proibição, a Carta Magna afirma admitir cobrança de pedágio pela utilização
das vias conservadas pelo Poder Público.
O STF, após longos e intensos debates, reconheceu que o pedágio tem natureza jurídica
de tarifa/preço público. Não sendo ele um tributo, não há por que se falar, portanto, que o
pedágio é uma exceção a esse princípio.
No entanto, em sua prova, caso cobrada a literalidade desse dispositivo, deve ser
considerada como correta.
A título de conhecimento, o pedágio cobrado, hoje, por concessionária ou permissionária, com o
intuito de manter conservado determinado trecho da estrada, foi reconhecido como tarifa pelo STF.
Esse pedágio difere-se do antigo “selo-pedágio” (RE 181.475/RS), que teve a sua natureza
jurídica de taxa reconhecida pelo STF. Ele era cobrado por todos que utilizassem rodovias fe-
derais, independentemente da frequência, enquanto o atual pedágio somente é exigido
quando há efetivo uso de via mantida pelo Poder Público.
Como não era possível a identificação da divisibilidade e da especificidade inerente à taxa
cobrada como “selo-pedágio”, majoritariamente, a doutrina e a jurisprudência concluíram pela
sua inconstitucionalidade.
De qualquer forma, se o examinador fizer questionamentos sobre o pedágio, mas não
fizer menção expressa ao “selo-pedágio”, você deve considerá-lo como preço público/tarifa.
Além disso, é possível a cobrança de ICMS em decorrência de circulação de bens e
de prestação de determinados serviços de um estado para outro estado ou até de um
município para outro. Tal hipótese é admitida, pois tem previsão no texto constitucional.

6. Princípio da uniformidade geográfica da tributação

O Princípio da Uniformidade Geográfica da Tributação garante que a cobrança de


tributos pela União seja realizada de forma equânime a todos os contribuintes,
independentemente do estado/município em que eles se situam, em respeito ao pacto
federativo.
Em paralelo, por intermédio deste princípio, o legislador constituinte assegura que a União
não institua tributo que:
• diferencie um ente federativo do outro; ou
• dê preferência a determinado (s) estado (s) a determinado (s) município (s) e ao DF,
em prejuízo dos demais.

Esse princípio está previsto no inc. I, art. 151, CF/88 e atende ao objetivo fundamental da
república descrito no inc. III, art. 3º, CF/88:

Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:


III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
Art. 151. É vedado à União:
I – instituir tributo que não seja uniforme em todo o território nacional ou que implique distinção ou
preferência em relação a Estado, ao Distrito Federal ou a Município, em detrimento de outro,
admitida a concessão de incentivos fiscais destinados a promover o equilíbrio do desenvolvimento
34
socioeconômico entre as diferentes regiões do País.

Por meio da redação da segunda parte do inc. I do art. 151, o legislador constituinte reconhece
as diferenças sociais e econômicas entre as diversas regiões do país, e autoriza que sejam con-
cedidos incentivos fiscais às regiões menos favorecidas, a fim de tentar equiparar a situação dos
contribuintes da região menos favorecida àqueles que se situam nas regiões mais desenvolvidas.
O referido princípio está em sintonia com o Princípio da Isonomia, no intuito de buscar uma
cobrança tributária justa para todos.
Entretanto, há quem questione determinados incentivos e alegue afronta ao referido princí-
pio, pleiteando judicialmente a concessão de determinado benefício a pessoas que não foram
diretamente beneficiadas pela lei que concede o incentivo.
No entanto, os beneficiários devem ser somente os que constam na lei, não podendo o
Poder Judiciário, por exemplo, “estender isenção a contribuintes não contemplados pela lei, a
título de isonomia”, nos termos do julgamento do RE 344.331 pelo STF.

7. Princípio da isonômica tributação da renda dos títulos da dívida pública e


dos vencimentos dos servidores públicos

Este é mais um princípio decorrente da aplicação do Princípio da Isonomia e que visa ga-
rantir que a União não se beneficie em detrimento dos outros entes federativos (estados/mu-
nicípios/DF), e está previsto no inc. II do art. 151 da CF/88:
Art. 151. É vedado à União:
II – tributar a renda das obrigações da dívida pública dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios, bem como a remuneração e os proventos dos respectivos agentes públicos, em níveis
superiores aos que fixar para suas obrigações e para seus agentes.

Segundo esse dispositivo, a União não pode tributar de forma mais gravosa:
• as rendas das obrigações dos títulos da dívida pública dos estados, do DF e dos municípios; e
• a remuneração e os proventos recebidos pelos agentes públicos estaduais/distritais/
municipais.

No que se refere à primeira hipótese, saiba que os títulos da dívida pública são títulos emiti-
dos pelo governo como forma de captar recursos, e compreende-se que quem os adquire está
emprestando a quantia ao governo, que o devolverá com juros.
As pessoas compram esses títulos como investimento, sendo objeto do princípio em estu-
do os juros decorrentes dele, que são pagos aos adquirentes no momento da quitação.
Com efeito, a União não pode aplicar sobre o rendimento dos títulos dos estados, dos
35
municípios e do DF uma alíquota de Imposto de Renda superior àquela aplicável aos
rendimentos dos seus títulos.
Se as rendas advindas dos títulos da União se submetessem a uma tributação mais
vantajosa, as pessoas optariam por adquiri-los em detrimento dos títulos dos outros entes.
Quanto à segunda hipótese, essa proíbe que a União cobre um Imposto de Renda mais
gravoso sobre a renda e sobre os proventos dos servidores públicos estaduais, distritais e mu-
nicipais do que o que cobra de seus servidores.

8. Princípio da vedação às isenções heterônomas (heterotópicas)

A isenção é hipótese de exclusão do crédito tributário, que será estudada mais adiante em
nosso curso.
Nesta aula, basta termos a compreensão de que a isenção é um benefício concedido
pelo ente tributante, por meio de lei, que dispensa o devedor tributário do pagamento
de tributo de sua competência.
Por exemplo, o ITCD é tributo de competência estadual, e, por isso, somente o estado
que o instituir poderá editar lei prevendo as suas hipóteses de isenção. Esse é um exemplo de
isenção autônoma, pois o ente que tributa, isenta.
Por meio do inc. III do art. 151 da CF/88, o legislador constituinte previu o Princípio
da Vedação às Isenções Heterônomas, o qual proíbe a União de conceder isenção de
tributo distrital, estadual ou municipal:

Art. 151. É vedado à União:


III– instituir isenções de tributos da competência dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios.

Embora esse dispositivo vede somente à União instituir tributos que não sejam de sua com-
petência, compreende-se que os estados também estão proibidos de editar lei isentando tributos
de competência municipal, em respeito ao pacto federativo e à autonomia de cada ente político.
Contudo, esse princípio comporta exceções, autorizadas pelo legislador constituinte.
Por meio da alínea “e”, inc. XII, § 2º, art. 155, a seguir reproduzida, poder-se-ia admitir que a
União, mediante lei complementar, excluísse ICMS nas exportações.
Como a referida lei complementar só pode ser editada pela União, e o ICMS é imposto es-
tadual, estaríamos diante de um caso de isenção heterônoma.

Art. 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos sobre:
II – operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte
interestadual e intermunicipal e de comunicação, ainda que as operações e as prestações se iniciem
no exterior;
XII – cabe à lei complementar:
a) excluir da incidência do imposto, nas exportações para o exterior, serviços e outros produtos além
dos mencionados no inciso X, “a”

Diante da análise desse dispositivo, poderíamos concluir que a União pode isentar os
estados de ICMS por intermédio de lei complementar, no caso das exportações.
No entanto, em 2003, por meio da Emenda Constitucional n. 42, foi inserido na Constituição
dispositivo que afirma que não incide ICMS:
Sobre operações que destinem mercadorias para o exterior, nem sobre serviços prestados a desti-
36
natários no exterior, assegurada a manutenção e o aproveitamento do montante do imposto cobra-
do nas operações e prestações anteriores. (CF/88, art. 155, § 2º, X, “a”)

Cotejando esses dois dispositivos, constatamos que a mencionada isenção heterônoma


antes admitida deixou de ter aplicabilidade, pois a Constituição passou a afirmar de forma di-
reta que não incide ICMS nas exportações, sendo esse, portanto, um caso de imunidade.
Como na imunidade a não incidência do tributo decorre diretamente do texto constitucio-
nal, não é mais necessária a edição de lei prevendo a exclusão do tributo.
Entretanto, como não houve revogação expressa da alínea “e”, inc. XII, § 2º, art. 155 da
CF/88, nas provas de concurso público, essa hipótese pode ser considerada como exceção ao
Princípio da Isenção Heterônoma.
Passemos agora para o segundo caso de exceção ao princípio em análise.
Conforme o inc. II, § 3º do art. 156 da CF/88, a União, por meio de lei complementar,
tem competência para excluir ISS nas exportações de serviços, vejamos:

Art. 156. Compete aos Municípios instituir impostos sobre


III – serviços de qualquer natureza, não compreendidos no art. 155, II, definidos em lei complementar.
§ 3º Em relação ao imposto previsto no inciso III do caput deste artigo, cabe à lei complementar:
II – excluir da sua incidência exportações de serviços para o exterior.

Mais uma hipótese de exceção ao Princípio da Vedação a Isenção Heterônoma, não pre-
vista expressamente na Constituição, diz respeito a tratados internacionais que concedem
isenção de tributos estaduais e municipais.
Considerando que a União, ao celebrar o tratado internacional desonerando tributos esta-
duais e municipais não atua como pessoa jurídica de direito público interno, mas como pessoa
jurídica de direito internacional público, o STF entende que não se trata de isenção
heterônoma, muito menos de exceção a esse princípio.
Nesse sentido, nos autos da ADI 1.600/UF, a Suprema Corte concluiu que o art. 151 da
CF/88 se aplica aos entes federativos, o que “não tem por objeto a União quando esta se
apresenta na ordem externa”.
No caso em que o Presidente da República assina o tratado internacional que desonera
tributos estaduais e municipais, ele age como Chefe de Estado, em atenção à soberania
inerente à República Federativa do Brasil, e não como Chefe de Governo.
Se ele agisse como Chefe de Governo, aí sim, estaria atuando em atenção à autonomia
que é inerente à União, como ente político, e invadindo a competência do outro ente:

EMENTA: DIREITO TRIBUTÁRIO. RECEPÇÃO PELA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA


DE 1988 DO ACORDO GERAL DE TARIFAS E COMÉRCIO. ISENÇÃO DE TRIBUTO
ESTADUAL PREVISTA EM TRATADO INTERNACIONAL FIRMADO PELA
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. ARTIGO 151, INCISO III, DA CONSTITUIÇÃO
DA REPÚBLICA. ARTIGO 98 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. NÃO
CARACTERIZAÇÃO DE ISENÇÃO HETERÔNOMA. RECURSO EXTRAORDINÁRIO
CONHECIDO E PROVIDO.
1. A isenção de tributos estaduais prevista no Acordo Geral de Tarifas e Comércio
para as mercadorias importadas dos países signatários quando o similar nacional
tiver o mesmo benefício foi recepcionada pela Constituição da República de 1988.
...
37
3. No direito internacional apenas a República Federativa do Brasil tem
competência para firmar tratados (art. 52, § 2º, da Constituição da República),
dela não dispondo a União, os Estados-membros ou os Municípios. O
Presidente da República não subscreve tratados como Chefe de Governo, mas
como Chefe de Estado, o que descaracteriza a existência de uma isenção
heterônoma, vedada pelo art. 151, inc. III, da Constituição.
4. Recurso extraordinário conhecido e provido. (RE 229096, Relator(a): ILMAR
GALVÃO, Relator(a) p/ Acórdão: CÁRMEN LÚCIA, Tribunal Pleno, julgado em
16/08/2007, DJe- 065 DIVULG 10-04-2008 PUBLIC 11-04-2008).

Esse julgamento, além de expor o já afirmado, nos remete a um caso clássico em que
o Estado Federal, por meio do Chefe de Estado, isentou tributos estaduais.
A título de conhecimento, o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (General Agreement on
Tariffs and Trade – GATT), mencionado no julgamento, é um tratado internacional multila-
teral de comércio, do qual o Brasil é signatário.
As operações realizadas entre os países signatários se sujeitam a determinados prin-
cípios. Dentre eles, o Princípio do Tratamento Nacional, o qual garante tratar o produto
importado de forma similar ao produto nacional, para não prejudicar a competição entre
esses produtos.
Com base nesse princípio, o STF proferiu a decisão transcrita, reconhecendo a consti-
tucionalidade de concessão de isenção de ICMS pelo Estado Federal a mercadorias impor-
tadas de países signatários.

Oportunamente, pontuamos, ainda, que essa vedação foi inaugurada no ordenamento


jurídico brasileiro pela Constituição atual.
Na Constituição anterior, de 1967, a concessão de isenção heterônoma era permitida para
atender a relevante interesse social ou econômico-social:

Art. 20, § 2º A União, mediante lei complementar, atendendo, a relevante interesse social ou econô-
mico nacional, poderá conceder isenções de impostos federais, estaduais e municipais.

Como já explicado, nossa Constituição atual não admite mais essa possibilidade.
9. Princípio da não discriminação baseada em Procedência e destino 38

O pacto federativo assegura autonomia aos entes políticos, e que seja conferido tratamen-
to isonômico entre eles. Assim, veda-se o favorecimento de um ente federativo em detrimen-
to de outro.
As atividades econômicas não podem ser prejudicadas ou favorecidas em razão de con-
tratações e aquisições oriundas de determinadas unidades federadas, bem como em razão da
destinação de determinados bens e serviços a determinados bens.
Em outras palavras, é vedado que os estados, o DF e os municípios tributem de
forma distinta bens, produtos ou serviços, em razão da sua procedência ou do seu
destino.
Por exemplo, o estado do Rio de Janeiro não pode aplicar às operações oriundas do
estado de Minas Gerais uma alíquota de ICMS superior do que aquela aplicável nas
operações advindas do estado de Mato Grosso.
Essa situação não se confunde com as hipóteses em que são aplicadas alíquotas
interestaduais de ICMS menores nas operações que destinem produtos para as regiões
Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
A garantia de que a tributação não se diferenciará em razão da procedência e do destino
de um bem/serviço se dá com base no Princípio da Não Discriminação em razão da sua Pro-
cedência e Destino, previsto no art. 152 da CF/88:

Art. 152. É vedado aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios estabelecer diferença tributária
entre bens e serviços, de qualquer natureza, em razão de sua procedência ou destino.

Nesse sentido, independentemente se a pessoa adquirir veículo nacionalmente ou por


importação, as alíquotas de IPVA não poderão ser diferenciadas, em atenção a esse
princípio:

EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. TRIBUTÁRIO.


IPVA.
VEÍCULO IMPORTADO. ALÍQUOTA DIFERENCIADA. 1. Não se admite a alíquota
diferenciada de IPVA para veículos importados e os de procedência nacional. 2. O
tratamento desigual significaria uma nova tributação pelo fato gerador da importação.
Precedentes. Agravo regimental a que se nega provimento. (RE 367.785 AgR,
Relator(a): Min. EROS GRAU, Segunda Turma, julgado em 09/05/2006, DJ 02-06-
2006).
JURISPRUDÊNCIA 39

Súmula 589, STF


É inconstitucional a fixação de adicional progressivo do imposto predial e territorial urbano
em função do número de imóveis do contribuinte.
Princípio da Legalidade. Exceção ao Princípio da Legalidade: Prazo para recolhimento
do Imposto.

EMENTA: TRIBUTÁRIO. IPI. ART. 66 DA LEI N. 7.450/85, QUE AUTORIZOU O


MINISTRO DA FAZENDA A FIXAR PRAZO DE RECOLHIMENTO DO IPI, E PORTARIA
N. 266/88/MF, PELA QUAL DITO PRAZO FOI FIXADO PELA MENCIONADA
AUTORIDADE. ACÓRDÃO QUE TEVE OS REFERIDOS ATOS POR
INCONSTITUCIONAIS. Elemento do tributo em apreço que, conquanto não submetido
pela Constituição ao princípio da reserva legal, fora legalizado pela Lei n. 4.502/64 e
assim permaneceu até a edição da Lei n. 7.450/85, que, no art. 66, o deslegalizou,
permitindo que sua fixação ou alteração se processasse por meio da legislação
tributária (CTN, art. 160), expressão que compreende não apenas as leis, mas também
os decretos e as normas complementares (CTN, art. 96). Orientação contrariada pelo
acórdão recorrido. Recurso conhecido e provido.
(RE 140669, Relator(a): Min. ILMAR GALVÃO, Tribunal Pleno, julgado em 02/12/1998,
DJ 14-05-2001 PP-00189 EMENT VOL-02030-03 PP-00567 REPUBLICAÇÃO: DJ 18-
05-2001 PP-00086 RTJ VOL-00178-01 PP-00361).

Exceção ao Princípio da Legalidade: Obrigação Tributária Acessória. EMBARGOS DE

DECLARAÇÃO. MULTA. ATRASO NA ENTREGA DA DCTF.


1. É lícito ao relator do recurso, na forma do art. 557 do CPC, negar seguimento ao
recurso especial, ainda que no bojo do agravo instruído.
2. A entrega intempestiva da DCTF implica em multa legalmente prevista, por isso que o
Decreto-lei n. 2.065/83 assim assentou: “Art. 11. A pessoa física ou jurídica é obrigada a
informar à Secretaria da Receita Federal os rendimentos que, por si ou como represen-
tante de terceiros, pagar ou creditar no ano anterior, bem como o Imposto de Renda que
tenha retido.
§ 1º A informação deve ser prestada nos prazos fixados e em formulário padronizado
aprovado pela Secretaria da Receita Federal.
§ 2º Será aplicada multa de valor equivalente ao de uma ORTN para cada grupo de
cinco informações inexatas, incompletas ou omitidas, apuradas nos formulários
entregues em cada período determinado.
§ 3º Se o formulário padronizado (§ 1º) for apresentado após o período determinado, 40
será aplicada multa de 10 ORTN, ao mês-calendário ou fração, independentemente da
sanção prevista no parágrafo anterior.” (grifo nosso)
3. A instrução normativa 73/96 estabelece apenas os regramentos administrativos
para a apresentação das DCTFs, revelando-se perfeitamente legítima a
exigibilidade da obrigação acessória, não havendo que se falar em violação ao
princípio da legalidade.
4. Embargos de declaração acolhidos para sanar erro material.
(EDcl nos EDcl no AgRg no REsp 507.467/PR, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA
TURMA, julgado em 05/05/2005, DJ 20/06/2005, p. 126)

Princípio da Isonomia. Princípio da Isonomia: inconstitucional isenção de ICMS a oficiais


de justiça, pois nessa hipótese há distinção de tratamento entre contribuintes em razão de sua
ocupação profissional.

Ementa: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. TRIBUTÁRIO. ISENÇÃO


FISCAL. ICMS. LEI COMPLEMENTAR ESTADUAL. EXIGÊNCIA CONSTITUCIONAL DE
CONVÊNIO INTERESTADUAL (CF, ART. 155, § 2º, XII, ‘g’). DESCUMPRIMENTO. RISCO
DE DESEQUILÍBRIO DO PACTO FEDERATIVO. GUERRA FISCAL.
INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL. CONCESSÃO DE ISENÇÃO À OPERAÇÃO DE
AQUISIÇÃO DE AUTOMÓVEIS POR OFICIAIS DE JUSTIÇA ESTADUAIS. VIOLAÇÃO AO
PRINCÍPIO DA ISONOMIA TRIBUTÁRIA (CF, ART. 150, II). DISTINÇÃO DE
TRATAMENTO EM RAZÃO DE FUNÇÃO SEM QUALQUER BASE RAZOÁVEL A JUS-
TIFICAR O DISCRIMEN. INCONSTITUCIONALIDADE MATERIAL. PROCEDÊNCIA DO
PEDIDO.
1. O pacto federativo reclama, para a preservação do equilíbrio horizontal na tributação,
a prévia deliberação dos Estados-membros para a concessão de benefícios fiscais relati-
vamente ao ICMS, na forma prevista no art. 155, § 2º, XII, ‘g’, da Constituição e como
disciplinado pela Lei Complementar n. 24/75, recepcionada pela atual ordem
constitucional.
2. In casu, padece de inconstitucionalidade formal a Lei Complementar n. 358/09
do Estado do Mato Grosso, porquanto concessiva de isenção fiscal, no que
concerne ao ICMS, para as operações de aquisição de automóveis por oficiais de
justiça estaduais sem o necessário amparo em convênio interestadual,
caracterizando hipótese típica de guerra fiscal em desarmonia com a Constituição
Federal de 1988.
3. A isonomia tributária (CF, art. 150, II) torna inválidas as distinções entre
contribuintes “em razão de ocupação profissional ou função por eles exercida”,
máxime nas hipóteses nas quais, sem qualquer base axiológica no postulado da
razoabilidade, engendra-se tratamento discriminatório em benefício da categoria
dos oficiais de justiça estaduais.
4. Ação direta de inconstitucionalidade julgada procedente.
(ADI 4276, Relator(a): Min. LUIZ FUX, Tribunal Pleno, julgado em 20/08/2014,
ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-181 DIVULG 17-09-2014 PUBLIC 18-09-2014)
Princípio da Capacidade Contributiva: concretizado por meio do escalonamento da base de
cálculo do imposto, em função de critérios definidos em lei.

EMENTA: PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL. CONSTITUCIONAL.


TRIBUTÁRIO. IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE IMÓVEL TERRITORIAL E
URBANA. IPTU. PROGRESSIVIDADE. ALÍQUOTA ÚNICA. VARIAÇÃO DA BASE DE
CÁLCULO CONFORME A ESSENCIALIDADE OU A FRIVOLIDADE DO BEM (TIPOS
DE IMÓVEL PRECÁRIO, POPULAR, MÉDIO, FINO E LUXO). ÍNDICE PRÓPRIO PARA
MENSURAR A CAPACIDADE CONTRIBUTIVA E DAR DIMENSÃO EXTRAFISCAL À
EXAÇÃO. UTILIZAÇÃO ANTES DA EC 29/2000. IMPOSSIBILIDADE.
1. Esta Corte interpretou os arts. 145, § 1º, 156, § 1º e 182, §§ 2º e 4º da Constituição,
na redação anterior à Emenda Constitucional 29/2000, para fixar que a utilização da
técnica de tributação progressiva para o Imposto sobre a Propriedade Territorial e
Urbana – IPTU somente era cabível para assegurar a eficácia da função social da
propriedade, atendidos os requisitos estabelecidos em Plano Diretor compatível com lei
federal (cf. o RE 394.010-AgR, rel. min. Carlos Velloso, Segunda Turma, DJ de
28.10.2004 e o RE 153.771, red. p/ acórdão min. Moreira Alves, Pleno, DJ de
05.09.1997). Súmula 668/STF.
2. O efeito extrafiscal ou a calibração do valor do tributo de acordo com a
capacidade contributiva não são obtidos apenas pela modulação da alíquota. O
escalonamento da base de cálculo pode ter o mesmo efeito.
3. Ao associar o tipo de construção (precário, popular, médio, fino e luxo) ao escalona-
mento crescente da avaliação do valor venal do imóvel, a Lei 3.326/1996 do Município
de Campo Grande passou a graduar o valor do tributo de acordo com índice hábil à
mensuração da frivolidade ou da essencialidade do bem, além de lhe conferir mais
matizes para definição da capacidade contributiva. Impossibilidade, nos termos do texto
constitucional anterior à inovação trazida pela EC 29/2000. Agravo regimental ao qual
se nega provimento.
(AI 583636 AgR, Relator(a): Min. JOAQUIM BARBOSA, Segunda Turma, julgado em
06/04/2010, DJe-076 DIVULG 29-04-2010 PUBLIC 30-04-2010 EMENT VOL-02399-09
PP-01870 LEXSTF v. 32, n. 377, 2010, p. 55-60).

Violação ao Princípio da Isonomia: concessão de isenção de taxas judiciárias a mem-


bros do MP.

EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ARTIGO 271 DA LEI


ORGÂNICA E ESTATUTO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO GRANDE
DO NORTE – LEI COMPLEMENTAR N. 141/96. ISENÇÃO CONCEDIDA AOS
MEMBROS DO MINISTÉRIO PÚBLICO, INCLUSIVE OS INATIVOS, DO PAGAMENTO
DE CUSTAS JUDICIAIS, NOTARIAIS, CARTORÁRIAS E QUAISQUER TAXAS OU
EMOLUMENTOS. QUEBRA DA IGUALDADE DE TRATAMENTO AOS
CONTRIBUINTES. AFRONTA AO DISPOSTO NO ARTIGO 150, INCISO II, DA
CONSTITUIÇÃO DO BRASIL.
1. A lei complementar estadual que isenta os membros do Ministério Público do
pagamento de custas judiciais, notariais, cartorárias e quaisquer taxas ou
emolumentos fere o disposto no artigo 150, inciso II, da Constituição do Brasil.
2. O texto constitucional consagra o princípio da igualdade de tratamento aos
contribuintes. Precedentes.
3. Ação direta julgada procedente para declarar a inconstitucionalidade do artigo 271 da
Lei Orgânica e Estatuto do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Norte – Lei
Complementar n. 141/96.
(ADI 3260, Relator(a): Min. EROS GRAU, Tribunal Pleno, julgado em 29/03/2007, DJe-
047 DIVULG 28-06-2007 PUBLIC 29-06-2007 DJ 29-06-2007 PP-00021 EMENT VOL-
02282-03 PP-00518 RDDT n. 144, 2007, p. 202-203 RDDT n. 145, 2007, p. 222
LEXSTF v. 29, n. 344,
2007, p. 12-18).

Não afronta o Princípio da Isonomia a proibição de importação de veículos usados: essa


proibição decorre de determinação do Ministério da Fazenda, que tem autonomia para contro-
lar o comércio exterior.

IMPORTAÇÃO DE AUTOMÓVEIS USADOS. PROIBIÇÃO DITADA PELA PORTARIA N.


08, DE 13.05.91 DO MINISTÉRIO DA FAZENDA. ALEGADA AFRONTA AO PRINCÍPIO
CONSTITUCIONAL DA ISONOMIA, EM PRETENSO PREJUÍZO DAS PESSOAS DE
MENOR CAPACIDADE ECONÔMICA. ENTENDIMENTO INACEITÁVEL, PORQUE
NÃO DEMONSTRADO QUE A ABERTURA DO COMERCIO DE IMPORTAÇÃO AOS
AUTOMÓVEIS TENHA O FITO DE PROPICIAR O ACESSO DA POPULAÇÃO, COMO
UM TODO, AO PRODUTO DE ORIGEM ESTRANGEIRA, ÚNICA HIPÓTESE EM QUE
A VEDAÇÃO DA IMPORTAÇÃO AOS AUTOMÓVEIS USADOS PODERIA SOAR
COMO DISCRIMINATÓRIA, NÃO FOSSE CERTO QUE, AINDA ASSIM,
CONSIDERÁVEL PARCELA DOS INDIVÍDUOS CONTINUARIA SEM ACESSO AOS
REFERIDOS BENS. DISCRIMINAÇÃO QUE, AO REVÉS, GUARDA PERFEITA
CORRELAÇÃO LOGICA COM A DISPARIDADE DE TRATAMENTO JURÍDICO
ESTABELECIDA PELA NORMA IMPUGNADA, A QUAL, ADEMAIS, SE REVELA
CONSENTÂNEA COM OS INTERESSES FAZENDÁRIOS NACIONAIS QUE O ART.
237 DA CF TEVE EM MIRA PROTEGER, AO INVESTIR AS AUTORIDADES DO
MINISTÉRIO DA FAZENDA NO PODER DE FISCALIZAR E CONTROLAR O
COMERCIO EXTERIOR. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.
(RE 203954, Relator(a): Min. ILMAR GALVÃO, Tribunal Pleno, julgado em 20/11/1996,
DJ 07-02-1997 PP-01365 EMENT VOL-01856-11 PP-02250)
As instituições financeiras podem prestar informações à Receita Federal: essa hipótese
não caracteriza quebra de sigilo bancário. O acesso a essas informações permite verificar a
capacidade econômica do contribuinte.

RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL. DIREITO TRIBUTÁRIO.


DIREITO AO SIGILO BANCÁRIO. DEVER DE PAGAR IMPOSTOS. REQUISIÇÃO DE
INFORMAÇÃO DA RECEITA FEDERAL ÀS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. ART. 6º
DA LEI COMPLEMENTAR 105/01. MECANISMOS FISCALIZATÓRIOS. APURAÇÃO
DE CRÉDITOS RELATIVOS A TRIBUTOS DISTINTOS DA CPMF. PRINCÍPIO DA
IRRETROATIVIDADE DA NORMA TRIBUTÁRIA. LEI 10.174/01.
1. O litígio constitucional posto se traduz em um confronto entre o direito ao sigilo bancá-
rio e o dever de pagar tributos, ambos referidos a um mesmo cidadão e de caráter cons-
tituinte no que se refere à comunidade política, à luz da finalidade precípua da tributação
de realizar a igualdade em seu duplo compromisso, a autonomia individual e o autogo-
verno coletivo.
2. Do ponto de vista da autonomia individual, o sigilo bancário é uma das expressões do
direito de personalidade que se traduz em ter suas atividades e informações bancárias
livres de ingerências ou ofensas, qualificadas como arbitrárias ou ilegais, de quem quer
que seja, inclusive do Estado ou da própria instituição financeira.
3. Entende-se que a igualdade é satisfeita no plano do autogoverno coletivo por
meio do pagamento de tributos, na medida da capacidade contributiva do
contribuinte, por sua vez vinculado a um Estado soberano comprometido com a
satisfação das necessidades coletivas de seu Povo.
4. Verifica-se que o Poder Legislativo não desbordou dos parâmetros constitucionais, ao
exercer sua relativa liberdade de conformação da ordem jurídica, na medida em que
estabeleceu requisitos objetivos para a requisição de informação pela Administração
Tributária às instituições financeiras, assim como manteve o sigilo dos dados a respeito
das transações financeiras do contribuinte, observando-se um translado do dever de
sigilo da esfera bancária para a fiscal.
...
6. Fixação de tese em relação ao item “a” do Tema 225 da sistemática da repercussão
geral: “O art. 6º da Lei Complementar 105/01 não ofende o direito ao sigilo
bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio
da capacidade contributiva, bem como estabelece requisitos objetivos e o
translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal”.
...
(RE 601314, Relator(a): Min. EDSON FACHIN, Tribunal Pleno, julgado em 24/02/2016,
ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL – MÉRITO DJe-198 DIVULG 15-
09-2016 PUBLIC 16-09-2016).

Princípio da vedação ao efeito de confisco. Deve ser avaliada a totalidade da carga


tributária devida a um político para constatação do efeito do confisco.

... A TRIBUTAÇÃO CONFISCATÓRIA É VEDADA PELA CONSTITUIÇÃO DA


REPÚBLICA....
A identificação do efeito confiscatório deve ser feita em função da totalidade da carga
tributária, mediante verificação da capacidade de que dispõe o contribuinte – conside-
rado o montante de sua riqueza (renda e capital) – para suportar e sofrer a incidência de
todos os tributos que ele deverá pagar, dentro de determinado período, à mesma
pessoa política que os houver instituído (a União Federal, no caso), condicionando-se,
ainda, a aferição do grau de insuportabilidade econômico-financeira, à observância,
pelo legislador, de padrões de razoabilidade destinados a neutralizar excessos de ordem
fiscal eventualmente praticados pelo Poder Público. Resulta configurado o caráter
confiscatório de determinado tributo, sempre que o efeito cumulativo – resultante das
múltiplas incidências tributárias estabelecidas pela mesma entidade estatal – afetar,
substancialmente, de maneira irrazoável, o patrimônio e/ou os rendimentos do
contribuinte. – O Poder Público, especialmente em sede de tributação (as contribuições
de seguridade social revestem-se de caráter tributário), não pode agir imoderadamente,
pois a atividade estatal acha-se essencialmente condicionada pelo princípio da
razoabilidade.
(ADC 8 MC, Relator(a): CELSO DE MELLO, Tribunal Pleno, julgado em 13/10/1999, DJ
04-04-2003 PP-00038 EMENT VOL-02105-01 PP-00001)

Princípio da Uniformidade Geográfica da Tributação. Somente contribuinte contemplado


pela lei pode ser beneficiado por incentivo fiscal destinado a promover o equilíbrio do desen-
volvimento socioeconômico.

RECURSO EXTRAORDINÁRIO. IPI. CONCESSÃO DE BENEFÍCIOS. ALÍQUOTAS


REGIONALIZADAS. LEI 8.393/91. DECRETO 2.501/98. ADMISSIBILIDADE.
1. Incentivos fiscais concedidos de forma genérica, impessoal e com fundamento em lei
específica. Atendimento dos requisitos formais para sua implementação.
2. A Constituição na parte final do art. 151, I, admite a “concessão de incentivos fiscais
destinados a promover o equilíbrio do desenvolvimento socioeconômico entre as diferen-
tes regiões do país”.
3. A concessão de isenção é ato discricionário, por meio do qual o Poder Executivo, fun-
dado em juízo de conveniência e oportunidade, implementa suas políticas fiscais e eco-
nômicas e, portanto, a análise de seu mérito escapa ao controle do Poder Judiciário.
Precedentes: RE 149.659 e AI 138.344-AgR.
4. Não é possível ao Poder Judiciário estender isenção a contribuintes não
contemplados pela lei, a título de isonomia (RE 159.026). 5. Recurso extraordinário
não conhecido. (RE 344331, Relator(a): Min. ELLEN GRACIE, Primeira Turma, julgado
em 11/02/2003, DJ 14-03-2003 PP-00031 EMENT VOL-02102-04 PP-00831).

Princípio da Vedação às Isenções Heterônomas. É constitucional a concessão de isen-


ção de tributos estaduais e municipais por meio de tratado internacional.

E M E N T A: RECURSO EXTRAORDINÁRIO – GASODUTO BRASIL–BOLÍVIA –


ISENÇÃO DE TRIBUTO MUNICIPAL (ISS) CONCEDIDA PELA REPÚBLICA
FEDERATIVA DO BRASIL MEDIANTE ACORDO BILATERAL CELEBRADO COM A
REPÚBLICA DA BOLÍVIA – A QUESTÃO DA ISENÇÃO DE TRIBUTOS ESTADUAIS
E/OU MUNICIPAIS OUTORGADA PELO ESTADO FEDERAL BRASILEIRO EM SEDE
DE CONVENÇÃO OU TRATADO INTERNACIONAL – POSSIBILIDADE
CONSTITUCIONAL – DISTINÇÃO NECESSÁRIA QUE SE IMPÕE, PARA ESSE
EFEITO, ENTRE O ESTADO FEDERAL BRASILEIRO (EXPRESSÃO
INSTITUCIONAL DA COMUNIDADE JURÍDICA TOTAL), QUE DETÉM “O
MONOPÓLIO DA PERSONALIDADE INTERNACIONAL”, E A UNIÃO, PESSOA
JURÍDICA DE DIREITO PÚBLICO INTERNO (QUE SE QUALIFICA, NESSA
CONDIÇÃO, COMO SIMPLES COMUNIDADE PARCIAL DE CARÁTER CENTRAL) –
NÃO INCIDÊNCIA, EM TAL HIPÓTESE, DA VEDAÇÃO ESTABELECIDA NO ART.
151, III, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL, CUJA APLICABILIDADE RESTRINGE-SE,
TÃO SOMENTE, À UNIÃO, NA CONDIÇÃO DE PESSOA JURÍDICA DE DIREITO
PÚBLICO INTERNO – RECURSO DE AGRAVO IMPROVIDO. – A cláusula de
vedação inscrita no art. 151, inciso III, da Constituição – que proíbe a concessão
de isenções tributárias heterônomas – é inoponível ao Estado Federal brasileiro
(vale dizer, à República Federativa do Brasil), incidindo, unicamente, no plano
das relações institucionais domésticas que se estabelecem entre as pessoas
políticas de direito público interno. Doutrina. Precedentes. – Nada impede,
portanto, que o Estado Federal brasileiro celebre tratados internacionais que
veiculem cláusulas de exoneração tributária em matéria de tributos locais (como
o ISS, p. ex.), pois a República Federativa do Brasil, ao exercer o seu treaty-
making power, estará praticando ato legítimo que se inclui na esfera de suas
prerrogativas como pessoa jurídica de direito internacional público, que detém
– em face das unidades meramente federadas – o monopólio da soberania e da
personalidade internacional. – Considerações em torno da natureza político-
jurídica do Estado Federal. Complexidade estrutural do modelo federativo.
Coexistência, nele, de comunidades jurídicas parciais rigorosamente parificadas e
coordenadas entre si, porém subordinadas, consti- tucionalmente, a uma ordem
jurídica total. Doutrina.
(RE 543943 AgR, Relator(a): CELSO DE MELLO, Segunda Turma, julgado em
30/11/2010, DJe-030 DIVULG 14-02-2011 PUBLIC 15-02-2011 EMENT VOL-02464-
02 PP-00469 RT v. 100, n. 908, 2011, p. 470-479)

Princípio da Não Discriminação baseada em Procedência e Destino. É inconstitucional a


aplicação de diferentes alíquotas em função da localização do estabelecimento do contribuinte.

Ementa: 1. O pacto federativo reclama, para a preservação do equilíbrio horizontal na


tributação, a prévia deliberação dos Estados-membros para a concessão de benefícios
fiscais relativamente ao ICMS, na forma prevista no artigo 155, § 2º, XII, g, da Constitui-
ção e como disciplinado pela Lei Complementar 24/75, recepcionada pela atual ordem
constitucional.
2. In casu, padece de inconstitucionalidade a Lei 13.790/06 do Estado de Santa
Catarina, porquanto concessiva de benefícios fiscais de ICMS ao serviço de transporte
rodoviário interestadual ou intermunicipal de cargas, caracterizando hipótese típica de
guerra fiscal em desarmonia com a Constituição Federal de 1988.
3. A isonomia tributária e a vedação constitucional à discriminação segundo a
procedência ou o destino de bens e serviços (artigos 150, II, e 152 da CRFB/88)
tornam inválidas as distinções em razão do local em que se situa o
estabelecimento do contribuinte ou em que produzida a mercadoria, máxime nas
hipóteses nas quais, sem qualquer base axiológica no postulado da razoabilidade,
se engendra tratamento diferenciado.
4. Pedido de declaração de inconstitucionalidade julgado procedente, conferindo à deci-
são efeitos ex nunc, a partir da publicação da ata deste julgamento (artigo 27 da Lei
9.868/99). (ADI 3984, Relator(a): Min. LUIZ FUX, Tribunal Pleno, julgado em
30/08/2019, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-205 DIVULG 20-09-2019 PUBLIC 23-09-
2019).
Princípio da Anterioridade. Postergação de redução de tributo não se equipara à majora-
ção, e, por isso, não precisa respeitar o Princípio da Anterioridade.

EMENTA RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM REPERCUSSÃO GERAL.


TRIBUTÁRIO. ICMS. LEI COMPLEMENTAR 122/2006. POSTERGAÇÃO DO TERMO
INICIAL DA APLICABILIDADE DE NOVAS HIPÓTESES DE CREDITAMENTO.
SITUAÇÃO QUE NÃO SE EQUIPARA À MAJORAÇÃO DO IMPOSTO.
INAPLICABILIDADE DA ANTERIORIDADE NONAGESIMAL PREVISTA NO ART. 150,
III, “C”, DA CONSTITUIÇÃO. PRECEDENTES DO STF.
1. A Lei Complementar 122, publicada em 13.12.2006 postergou de 1º.1.2007 para
1º.1.2011 o início do direito do contribuinte do ICMS de se creditar do imposto incidente
sobre aquisição de mercadorias destinadas ao uso e consumo do estabelecimento e, de
forma mais ampla, energia elétrica e serviços de comunicação.
2. A postergação de hipótese de redução de imposto não se equipara a aumento
do tributo, pelo que não atrai a incidência da anterioridade nonagesimal prevista
no art. 150, III, “c”, da Carta Política. Precedentes do STF: RE 584.100 Repercussão
Geral, Rel. Ministra Ellen Gracie, Tribunal Pleno, julgado em 25.11.2009; ADI 2.673, Rel.
Ministra Ellen Gracie, Tribunal Pleno, julgado em 03.10.2002; AI 783.509 AgR, Rel.
Ministro Ricardo Lewandowski, Primeira Turma, julgado em 19.10.2010; AI 780.210
AgR, Rel. Ministra Cármen Lúcia, Primeira Turma, julgado em 14.6.2011, DJe de
29.7.2011.
3. Recurso extraordinário não provido.
4. Tese de repercussão geral fixada: “A postergação do direito do contribuinte do ICMS
de usufruir de novas hipóteses de creditamento, por não representar aumento do tributo,
não se sujeita à anterioridade nonagesimal prevista no art. 150, III, ‘c’, da Constituição”.
(RE 603917, Relator(a): Min. ROSA WEBER, Tribunal Pleno, julgado em 25/10/2019,
PROCESSO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL – MÉRITO DJe-250 DIVULG 12-
11-2019 PUBLIC 18-11-2019).

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